terça-feira, 30 de dezembro de 2008

JIVM - A MORTE PROMETE JARDINS


A MORTE PROMETE JARDINS
Para Luís Antonio Cajazeira Ramos


Este teu brilho de agora
são cacos – rastros errantes
que persistem na busca inútil
da tua primeira semente.

Este teu brilho de agora
é a sombra do que foste,
e se ainda és girassol celeste
é que a morte promete jardins.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


LA MUERTE PROMETE JARDINES


Este tu brillo de ahora
son trozos – rastros errantes
que persisten en la busca inútil
de tu primera semilla.

Este tu brillo de ahora
es la sombra de lo que fuiste
y si todavía eres girasol celeste
es que la muerte promete jardines.


TRADUÇÃO PARA O ESPANHOL:
CLAUDINA RAMIREZ


LA MORT PROMET DES JARDINS



Cet éclat présent qui est le tien
ce sont des brisures - des traces errantes
qui persistent dans la quête inutile
de ta semence première.

Cet éclat présent qui est le tien
c'est l'ombre de ce que tu fus,
et si tu es encore un tournesol céleste
c'est parce que la mort promet des jardins.


TRADUÇÃO PARA O FRANCÊS:
PEDRO VIANNA

domingo, 21 de dezembro de 2008

ENTREVISTA - FRANCISCO CARVALHO: POESIA É SALTO NO ESCURO

Por José Inácio Vieira de Melo


A entrevista abaixo foi feita em fevereiro de 2005, quando passei uma semana em Fortaleza, na época do carnaval. Fui até a casa do poeta Francisco Carvalho, onde fui muito bem recebido pelo poeta e por sua esposa, dona Dora, uma bela cearense de olhos verdes e palavras firmes. Conversamos bastante e o poeta deu-me de presente vários livros seus. Aproveitei a ocasião e fiz a entrevista que está reproduzida logo abaixo, e que foi publicada no suplemento de cultura do jornal A Tarde, o A Tarde Cultural, em Salvador, exatamente no dia do meu aniversário de 37 anos, 16 de abril de 2005. Então, vamos à entrevista:


Francisco Carvalho:
“Poesia é salto no escuro”


Aos 77 anos, cinqüenta dedicados ao fazer poético, o poeta cearense Francisco Carvalho lança a antologia Memórias do Espantalho, reunião de poemas escolhidos de 19 livros dos 29 publicados. Apesar de ter vencido a 1ª Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, com o livro Quadrante Solar (1982) e de obter o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, com Girassóis de Barro (1997), o poeta da cidade de Russas é praticamente um desconhecido no País. Nesta entrevista, Francisco Carvalho fala de como aconteceu sua recente parceria com o cantor Raimundo Fagner e do descaso geral para com a arte poética: “É preciso reconhecer que a poesia é hoje um teatro sem platéia. Uma ribalta às moscas.”.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Francisco Carvalho, há 50 anos deu-se a sua estréia na poesia. De 1955 para cá são 29 livros publicados. Fale um pouco de sua caminhada poética.

FRANCISCO CARVALHO – Visto que não sou uma pessoa com QI excepcional, minha estréia na poesia foi bastante ruim. Os quatro primeiros livros (Cristal da Memória, Canção Atrás da Esfinge, Do Girassol e da Nuvem, O Tempo e os Amantes), escritos numa fase de aprendizagem, são mais do que péssimos. Há muito tempo os considero excluídos da minha bibliografia. Não se pode privar o autor do direito de renegar a má literatura que produziu numa época de imaturidade, quando lhe faltavam as condições intelectuais indispensáveis ao pleno exercício da escrita literária. Só os gênios escrevem grandes livros no início da carreira. Mas os gênios não se encontram nas esquinas...

JIVM – Em 1982 você conquistou o prêmio de poesia da 1ª Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, com o livro Quadrante Solar. Em 1997, obteve o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, com Girassóis de Barro. Premiações dessa natureza consolidam a trajetória de um poeta?

FC – Prêmios literários não passam de estímulos eventuais. Seguramente não contribuem para consolidar “a trajetória de um poeta”. Até porque, como se sabe, os critérios dessas premiações não estão isentos de interferências alheias à natureza da obra literária. As comissões julgadoras, por sua vez, são bastante sensíveis a questões ligadas à hierarquia social dos concorrentes, como também à imagem por eles projetada nos espaços midiáticos. Os fatores de ordem geográfica têm igualmente peso importante na decisão final dos membros das comissões. Em artigo publicado na revista VEJA, certo poeta fez comentários desairosos à minha premiação pela Bienal Nestlé de Literatura. Criticou o desempenho da comissão julgadora e limitou-se a citar dois versos de um poema que não lhe soara bem aos ouvidos de esteta refinado. Por trás disso, todavia, estava o seu desconforto pelo fato de a comissão haver premiado um poeta nordestino completamente desconhecido, num universo de mais de sete mil candidatos.

JIVM – A literatura, sobretudo a poesia produzida nos estados do Nordeste, não sai de suas províncias. Em recente entrevista ao Jornal A Tarde, o escritor Ivan Junqueira, Presidente da Academia Brasileira de Letras, afirmou que a melhor poesia feita no Brasil está no Nordeste. Qual, então, o motivo do confinamento?

FC – O grande poeta Ivan Junqueira, também ensaísta e tradutor de renome, é uma pessoa com autoridade suficiente para dizer que no Nordeste se faz a melhor poesia do Brasil. Mas os poetas nordestinos não devem generalizar o ponto de vista desse respeitado intelectual brasileiro. Acredito que ele quis se referir a um grupo de poetas do Nordeste que, no seu entender, podem ser colocados no mesmo nível dos poetas de expressão nacional. No que se refere ao motivo do confinamento, a explicação é muito simples: os intelectuais do Centro-Sul partem da premissa de que uma região sem desenvolvimento econômico e social não tem condições de produzir literatura de boa qualidade. Repito agora o que já disse anteriormente: as elites do Sul do país, para o bem ou para o mal, continuam a ditar a moda das roupas e dos poemas.

JIVM – A antologia Memórias do Espantalho, sua mais recente produção, reúne poemas escolhidos de 19 livros. Numa obra tão volumosa e prestigiada, qual o critério para a seleção?

FC – Não existem critérios metodológicos para uma seleção dessa natureza, uma vez que no fundo de todas as avaliações prevalece a subjetividade. Tenho nítida consciência de que não escolhi necessariamente os melhores poemas dentre os que se encontram no livro Memórias do Espantalho. Isso é compreensível quando se trata de uma tarefa desse porte, realizada ao longo de seis meses de trabalho exaustivo, a podar excessos e reescrever poemas. Com todos os equívocos que possa ter cometido, penso que consegui passar a imagem exata do que tenho sido ao longo da vida: um poeta da medianidade.

JIVM – Raimundo Fagner incluiu cinco poemas seus, por ele musicados, em seu novo CD, Os Donos do Brasil (2004). Como aconteceu essa parceria e em que medida contribuiu para a divulgação de sua obra?

FC – A pedido de amigo meu, jornalista Vicente Alencar, e por intermédio deste, enviei um exemplar de Memórias do Espantalho para o cantor e compositor Raimundo Fagner, que manifestara interesse em conhecer minha poesia. Passado algum tempo, recebi copia de uma gravação do poema O Bicho Homem, do livro Raízes da Voz. Algum tempo depois, me foi entregue copia de CD do Fagner, com cinco faixas dedicadas a poemas de minha autoria. O próprio Fagner fez a escolha dos poemas, sem qualquer interferência de minha parte. A partir do lançamento do CD no mercado, o Fagner fez excelente trabalho de divulgação da minha poesia nos centros urbanos mais importantes do país. Obviamente, não espero que essa iniciativa, positiva sob todos os aspectos, me torne num poeta conhecido nacionalmente. Mas teve, inegavelmente, o mérito de expor o meu nome e meu trabalho fora dos muros da tribo.

JIVM – Muitos são os motivos da sua lírica. Do rural ao religioso, do metafísico ao surrealista, assim como você transita do verso medido ao verso livre. Como se movimentar por varias temáticas e diferentes formas e manter o estilo?

FC – A poesia lírica tende geralmente para a diversidade temática. Cada autor tem uma forma peculiar de encarar o fenômeno poético. Alguns preferem captar o poema em meio ao ritmo avassalador das sonoridades do cotidiano. Outros, pelo contrário, preferem mergulhar nos labirintos da subjetividade. Sempre escrevi poemas de modo a contemplar uma faixa temática a mais abrangente possível. O rural, o social, o religioso, o metafísico, o erótico, e até mesmo o surrealismo. Todas essas dimensões, que de alguma forma se entrelaçam ou se bifurcam na memória cósmica do ser humano, no que ele tem de mais profundo e abissal. Também sempre usei de muita liberdade nessa questão de escolha pelo verso medido ou o verso livre. Uma questão que me parece exclusivamente de ordem pessoal. Não existe verso livre quando se pretende fazer um bom trabalho. É o que nos ensina T.S. Eliot, um dos ícones da poesia norte-americana de todos os tempos. O verso branco, o verso rimado, o verso toante, o verso medido, o verso assimétrico – todas essas alternativas são válidas e eficazes se o poeta tem talento e erudição bastante, se aprendeu as lições dos grandes mestres do passado, antes de fazer sua opção pelo chamado discurso da modernidade. Também nessa matéria, “Tudo vale a pena se a alma não é pequena” (FP). Quando se tem a “alma pequena” (e como é grande o número de “almas pequenas”!), o melhor que se tem a fazer é trocar a caneta esferográfica por um desses brinquedos eletrônicos de fabricar moedas...

JIVM – Gilberto Mendonça Teles destacou sua obra poética juntamente com Jorge de Lima, Murilo Mendes e Augusto Frederico Schmidt. Esses autores são referencias em sua obra? E quais as outras?

FC – Isso realmente aconteceu. Gilberto Mendonça Teles acha que a minha poesia, sob o prisma religioso, tem pontos de referência com a poesia de Jorge de Lima, Murilo Mendes e Augusto Frederico Schmidt. Em certa época de minha vida, os dois primeiros poetas exerceram influência marcante sobre minha escritura poética. Notadamente o primeiro. Cheguei a escrever um livro de poemas (frustrado, diga-se passagem), fortemente impregnado pela estética visionária de Invenção de Orfeu, livro fundamental da literatura brasileira. Outras influências, igualmente poderosas, ofuscaram o meu horizonte de poeta embrionário. Sem formação cultural capaz de impor minha individualidade literária, fui condoreiro com Castro Alves, romântico com Alvares de Azevedo, simbolista com Cruz e Souza, parnasiano com Olavo Bilac, etc., etc. Depois foi a vez de Augusto dos Anjos, Manuel Bandeira, Camões, Fernando Pessoa, Antônio Nobre, Cesário Verde, Jorge de Lima, Drummond de Andrade, Saint-John Perse, Neruda, Garcia Lorca e vários outros... Essa questão de influência literária é uma patologia que atinge a maioria dos poetas iniciantes. Com o passar do tempo, vai-se diluindo aos poucos até que os poetas alçam vôo sem precisar das asas dos outros. De modo geral, as influências são benéficas, desde que não ultrapassem certos limites.

JIVM – Tem-se produzido muita poesia no Brasil, e poucos são os leitores. O que você acha da nova poesia? O que tem a dizer aos novos poetas?

FC – Nunca se produziu tanta poesia no Brasil como ocorreu a partir da revolução modernista de 22. Mas é bom que se diga que essa produção, deflagrada sob a égide do versilibrismo, foi em grande parte prejudicada pelos excessos e turbulências da primeira hora. Poetas acostumados à vassalagem do verso medido davam a impressão de haver descoberto o mapa da mina. O que importava, realmente, era a implosão do Monte Parnaso, esse lugar mágico onde se concentrariam, segundo os mais radicais, todos os males e deformações da poesia brasileira que se desenvolveu desde o final do Séc. XVIII até o primeiro quartel do Séc. XIX. Mas nem tudo era convincente na retórica dos modernistas. O tempo se encarregou de corrigir os excessos. É preciso reconhecer que a poesia é hoje um teatro sem platéia. Uma ribalta às moscas. Os poetas que se leiam a si mesmos. A pobreza, a fragilidade social, o desemprego, a violência urbana, a política de confiscos salariais, as desigualdades regionais – tudo nos afasta da poesia e da literatura de um modo geral. Pode-se viver sem poesia, mas não se pode viver sem proteínas. E o custo da proteína está pelos olhos da cara. Nada a dizer aos novos poetas, senão que a opção pela poesia é um salto no escuro. Em matéria de poesia, ninguém ensina nada a ninguém. A poesia é um caminho solitário que pode não chegar a lugar nenhum. A este assunto também se ajusta a sentença bíblica segundo a qual “muitos serão os chamados e poucos os escolhidos”. Os famosos conselhos de Rilke a um jovem poeta do seu tempo estão completamente fora de moda.

JIVM – Qual a sua definição de poesia? O poeta exerce algum papel na sociedade?

FC – Penso que a melhor definição de poesia é o próprio poema. De qualquer forma, respondo à pergunta da seguinte maneira: 1) poesia é a sistematização de códigos verbais por meio da qual a linguagem escrita (no caso o poema) é transformada em objeto estético para usufruto do leitor hedônico; 2) fazer poesia é ver as coisas como as coisas não são; 3) fazer um poema é estar em conflito com os dedos da mão. A estas acrescento uma definição de Lawrence Durrel, autor do Quarteto de Alexandria: “A poesia acontece quando uma ansiedade encontra uma técnica”. Esta me parece uma das melhores e mais perfeitas definições de poesia que tenho lido. Que me perdoem a franqueza nada diplomática, mas o poeta exerce o papel de besta na sociedade, que lhe nega o devido apreço nem retribui condignamente o seu trabalho. Mas os poetas continuam resistindo a todas as tentativas de expulsá-los da República, como pretendia certo filósofo da antigüidade.

JIVM – Fale um pouco mais sobre os novos poetas. Quais os seus novos projetos? Algum livro em vista?

FC – É fora de dúvida que existe atualmente uma nova geração de poetas com bastante visibilidade no terreno escorregadio da literatura nacional. Poetas de uma faixa etária que vai dos 30 aos 45 anos de idade vêm expressando, com grande determinação, um discurso lírico compatível com os padrões estilísticos da modernidade literária. Prova disso é a recente antologia organizada pelo poeta José Inácio Vieira de Melo (Concerto Lírico a Quinze Vozes), na qual figuram l5 poetas de várias tendências ideológicas, a respeito dos quais gostaria de transcrever estas palavras do prefaciador do livro, Aleilton Fonseca: “A grande maioria já demonstra o talento, a consciência e a dedicação necessários à construção de um estilo, de uma poética, de uma lírica”. Só o tempo, segundo ele, indicará os poetas “que terão a força e o espírito suficientemente fortes para se impor aos recortes da crítica e da história” (p.3l). Gostaria ainda de fazer um destaque especial sobre Vanessa Buffone, carioca radicada na Bahia. Ela participa de outra antologia (Os Outros Poemas de que Falei), juntamente com outros seis autores. Sua expressão literária manifesta-se num discurso de fortes acentos pessoais e de apreciável densidade lírica. Desconfio que na minha idade seria paradoxal falar de “novos projetos”. Todavia, como os redatores da Carta não decidiram ainda que é proibido sonhar, gostaria de publicar, antes dos oitenta, uma última coletânea de poemas. O ideal é que isso pudesse ser feito sob a chancela da Academia Brasileira de Letras, ainda que eu tivesse de arcar com os custos da edição. Mas tudo isso não passa de uma utopia de poeta marginal.


H E R Ó I


Herói não é o que vai irrigar as lavouras
da morte nos campos de batalha.
Não é o que volta das trincheiras minadas
de explosivos com medalhas no peito
mutilações no corpo e na alma.

Herói não semeia tulipas de sangue
ramalhetes de napalm e rosas de átomo.
– Não é o aventureiro que fez xixi na lua.

– Herói é o que vai todas as tardes à padaria
mais próxima buscar o pão ainda morno
para testemunhar o mistério da vida.


FRANCISCO CARVALHO

FRANCISCO CARVALHO - MITO DE SÍSIFO



MITO DE SÍSIFO


Não me queixo de Deus.
Sou o que fiz de mim.
As nuvens são negras ou azuis
porque minha ilusão as quis assim.

Não me queixo de Deus.
Seco-me aos ventos do desamparo.
Semeei caminhos e encruzilhadas.
O futuro é uma senda do homem.

Sísifo conduz uma pedra pelos declives do abismo
sem que o céu se importe com isso.
Também nós carregamos uma pedra,
acorrentados à liberdade.


FRANCISCO CARVALHO

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

JIVM - A SAGRAÇÃO DO MITO



A SAGRAÇÃO DO MITO
Para Foed Castro Chamma


Eu preciso de um espelho:
olhar no fundo dos olhos
e ver bem dentro de mim:
quero beijar minha sombra,

ir no cerne dos desejos
e perceber cada célula
com o frenesi que sinto
na agulha do peitoral.

Sou a criação de Deus:
barro que sonha odisséias.
Em minha íris o Cosmo:
os mitos vestem meu nome.

Sou a pedra, o barro, a lama.
Estrelas, soprem em mim
e assim estenderei meus
nomes nos passos do vento,

e em todo lugar o sonho
do Ser estará presente.
Sou o símbolo de tudo,
um sonho sem fim, o mito.

Estou em frente ao espelho,
e em minha íris o Cosmo:
todos os meus estilhaços,
todos os eus consagrados.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

PROJETO COM A PALAVRA O ESCRITOR

Depois de amanhã, quarta-feira, dia 26 de novembro, às 17 horas, participarei do projeto Com a Palavra o Escritor, na Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho, em Salvador, a convite da poeta Myriam Fraga, diretora executiva da instituição. Serei apresentado pela escritora Eliana Mara Chiossi, professora doutora do Instituto de Letras, da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Para a ocasião, Eliana Mara está acabando de fazer o ensaio Um cavaleiro andante pelo céu da poesia. Não posso deixar de dizer que estou muito satisfeito por poder contar com apresentação de tão talentosa professora e escritora, e confesso que estou um pouco ansioso. Para abrilhantar ainda mais o evento, a cantora Carla Visi, o ator Jackson Costa e os escritores Carlos Barbosa e Edmar Vieira farão um recital com poemas meus. O fotógrafo Ricardo Prado também estará por lá, registrando o evento e levando sua presença amiga. Além de tudo isso, falarei da minha vivência de poeta, dos meus livros e do papel que desempenho como ativista da poesia. Espero você por lá.
JIVM

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

VERÔNICA DE VATE - ELIANA MARA CHIOSSI

ELIANA MARA CHIOSSI possui graduação em Letras: Licenciatura em Português e Inglês pela Universidade Federal de Sergipe (1993), mestrado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1996) e doutorado em Letras pela Universidade Federal da Bahia (2002). Atualmente é professora adjunto da Universidade Federal da Bahia e atua como professora colaborada no Programa de Pós Graduação em Letras e Diversidade Cultural da UEFS. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Estudos Culturais, atuando principalmente nos seguintes temas: critica literaria brasileira, estudos culturais, subalternidade, identidade cultural e literatura e lingüística. É responsável pelo projeto de implantação das Oficinas de Leitura e Produção de Textos no ILUFBA, atuando como professora e tem projetos na área de Escrita Criativa. No mestrado, estudou a revisitação do regionalismo na obra do escritor sergipano, Francisco Dantas. E no doutorado, analisou as narrativas contemporâneas, com ênfase nas questões de identidade e alteridade, tendo especialmente analisado toda a produção artística e cultural do MST. Participa ativamente das jornadas literárias do SESC e de outras instituições. Em 2006, seu livro de contos, ainda não publicado, Mil folhas e uma, ficou entre os selecionados no concurso nacional Editora Record /SESC. Mantém três blogs de escrita. Em conjunto com o escritor português Nuno Miranda Ribeiro e com a participação da ilustradora Carol Kzan, O Carteiro de Atlantis e o Laboratório do Carteiro de Atlantis. Individualmente, mantém, desde 2007, o blog de escrita O Mundo tem inscrições sempre abertas.


NON SENSE (MINÚSCULOS)


Flores: quando a natureza dá gritos de êxtase

Expressão: a dor nos amarelos de Van Gogh

Músicos quando querem banho: desafinam nas serenatas

Diz o poeta: me tira da antologia e me coloca na sua vida

Separação: não sei onde você está, nas noites que dormimos juntos

Difamação: quando você falsifica minha identidade

Lua: pede carona em todas as estradas

Azul: quando o olho do homem sentiu sede

Amarelo é um curto circuito das cores

Vermelho: mancha sonora em voz alta


ELIANA MARA CHIOSSI

ELIANA MARA CHIOSSI - MILAGRES


M I L A G R E S

Quando a faca atravessou o peito havia estrelas deslumbrantes neste céu. Enquanto jorrava o sangue -trabalho da faca-, flores alegravam jardins e festas. O corpo contorcendo uma dor sem nome. O corpo todo em forma de grito. A faca brilhando no meio das carnes desorganizadas. E para fora do quadro-crime, talvez uma multidão de crentes entoando seus louvores, crianças nascendo inaugurando pais e mães, antes apenas seres atordoados de egoísmo. A faca quieta, repousando. O corpo gesticula querendo viver. E lá fora, sol. Na beira do rio, pessoas felizes assustam peixes preguiçosos. Criação de Deus o milagre. Existe uma faca e a vida não estanca.

ELIANA MARA CHIOSSI

AS LOUVAÇÕES VIAJOSAS DOS MANDACARUS ATÔNITOS DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Silas Correa Leite

Fotógrafo: Ricardo Prado

José Inácio Vieira de Melo tem currículo, tem estrada, tem estilo, tem talento potencializado pelo olhar açodado por uma extrema sensibilidade viajosa, e assim vai destrinchando o vinho-verbo (vinho-versos) das vinhas existenciais viçadas em peregrinações, mandacarus atônitos, com suas louvações muito além das hortas de covers que abundam pelaí. Códigos de romarias, retraduzidos no letral, documentos-identidades de peregrinações como cadernos de viagens...
Ele mesmo um cavaleiro com suas purgações, seus fermentos e seu olhar a sondar cactos de vícios, tipificando remorsos, como se um retratista de seu tempo e das amarguras do seu tempo. Já pensou? Poesia pura. Aliás, José Inácio Vieira de Melo tira seda das pedras, sua poesia energiza, nas criações feito um mandorová-camaleão tira tintas das andanças. O marmóreo das criações, muito além da lanterna furta-cor de seu olhar sarado. Rastros de cisternas? Poemas-toadas, aboios plangentes, poemetos, "Peregrino de si mesmo/ no meio da travessia"(pgs 118/119/120, Romaria), as léguas tiranas. Labuta uma roça de palavras. Carrega sua lavoura com páginas de andanças, aqui e ali um produto desses tempos insanos. Poemas e pés. E lácrimas. Reversos e memórias?
Já pintei José Inácio Vieira de Melo como um dos melhores poetas contemporâneos que li, até porque, o nome se faz na construção do hoje para o eventual e justo enlivramento histórico do devir. Da terra de Jorge de Lima que considero o melhor poeta do Brasil em 508 anos, a senda do José Inácio Vieira de Melo tem um tear de altíssimo nível, talento e olho crítico, signico. Galopar nas palavras é a sua metafísica?
Suas amarras íntimas e criacionais são dependuras no versejar, um pós-cordel itinerante, peneirando juízos, intenções, quireras de conflitos, trazendo as entranhas dos pensares para a poesia nossa de cada dia. Lamentos, ofícios, moendas e engenhos. Releituras. Raízes que andam. Agonias da terra. Significâncias e condições humanas. Escrevendo ele faz chover canivetes, entrecortando imagens e palavras.
Amoras de ausências? A belezura dos registros. O poeta José Inácio Vieira de Melo que foi ver o que é que a Bahia tem, nasceu em Olho d'Água do Pai Mané, povoado de Dois Riachos, Alagoas, e por onde andarilha lavra suas águas límpidas em poemas de quilate. "Ouço vozes - muitas vozes/ dentro de mim mesmo/ todas dizem que é preciso prosseguir..." (Pg 105/106, Memória). Pois é: escrever é preciso, viver não é preciso...
Lendo a poética de altíssimo nível de José Inácio Vieira de Melo, lembrei-me da música de Bjork (cantora islandesa)" Perdi minha origem/ E não quero encontrá-la/ Eu me sinto em casa/ Cada vez que o desconhecido me rodeia" (Wanderlust). Paradoxalmente, no entanto, José Inácio Vieira de Melo resgata e louva sua origem no que cria, enlivra-se dela no "fazer poético" propriamente dito, mas só se sente em casa mesmo escrevendo seu tempo, seu lugar, seu espírito aguçado, e toca o desconhecido com suas perguntações, pontuando as léguas tiranas, afinal, longe de casa, não é longe de si, mas um reconstruir o longe para lavra criaciocional vivenciada no ser de si, quase self.
A Poesia de José Inácio Vieira de Melo entoa, faz bem, aplaina momentos que resgata, como se decifrasse a sede da seda, na sua náutica louvação/peregrinação/criação (anagramas amalgamados), tudo a ver, tudo a ser, tudo a ler. "O chocalho, no pescoço/ da vaca, anuncia:/ - Eu estou aqui!// O relógio, na parede/ da cozinha, adverte:/ - Não escaparás! (pg 41, Diálogo). Bravo!
Nesses tempos pós-modernos de cincerros com grifes (i pod, celulares, mp 3,4,5), range a rede de criação - escrever é para quem se distancia da manada - e brilha quem tem asas na alma. Os mandacarus atônitos ainda que cactos vítreos dão frutos de palavreiros. O cálice transborda como seda pura em papel de arroz com imagens poéticas vibrantes.
A infância é tudo aquilo que trazemos conosco, naquilo que somos, naquilo que não cabemos em nós, naquilo que perdemos, naquilo que fermentamos entre tantas purgações existenciais? Ainda bem quando grandes poetas refazem suas íntimas trilhas fazendo versos e movendo moinhos letrais. O tecido irreversível da alma toca o fio-terra do verbo viver a self aberto: eis o livro, eis a obra, eis o poeta: A Infância do Centauro - José Inácio Vieira de Melo semeando sarças ardentes.


Silas Correa Leite é Teórico da Educação, Jornalista Comunitário, Poeta e Ficcionista. Publicou os livros Porta-Lapsos (poemas) e Campo de Trigo com Corvos (Contos).

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

RONALDO CORREIA DE BRITO LANÇA ROMANCE "GALILÉIA"

Alfaguara apresenta o primeiro romance do renomado contista, dramaturgo e roteirista de cinema
Ronaldo Correia de Brito, uma das vozes mais originais da literatura brasileira atual

“Seu modo de construção é cinematográfico. Econômico, conciso, cortante, ele reúne os fragmentos da tradição oral e ergue uma catedral literária com os cacos da ruína sertaneja e da tragédia clássica.” — O Estado de S.Paulo


Três primos atravessam o sertão cearense para visitar o avô Raimundo Caetano, patriarca de uma família numerosa e decadente que definha na sede da fazenda Galiléia. Ismael, Davi e Adonias passaram parte da infância ali, mas fizeram o possível para cortar seus laços com a terra de origem. Fazem parte de uma geração que largou o campo para nunca mais voltar. Foram viver no exterior, procuraram reconstruir a vida em Recife, em São Paulo, na Noruega.
O que espera os três primos ao final da viagem é uma volta radical a esta origem, a esta fazenda que um dia foi próspera, que oculta segredos e traições e “onde as pessoas se movem como nas tragédias”. Por mais que os protagonistas tenham se distanciado da violência que ronda a família, voltarão a senti-la de perto, descobrindo que nunca escaparam — ou escaparão — ao destino que os cerca. Terão de se reencontrar com a família e seus fantasmas, e reviver histórias de adultério, vingança e morte.
Nascido no mesmo sertão do Ceará onde está fincada a fazenda Galiléia, o contista, dramaturgo e roteirista Ronaldo Correia de Brito conhece profundamente o cenário escolhido para ambientar seu primeiro romance. “Tivemos um ciclo épico e de tragédias nesse vasto sertão cearense. Nada disso foi representado até o esgotamento, como o ciclo do faroeste americano, a conquista do Oeste. Cadê os nossos John Huston, John Ford, Roberto Leone? Glauber e os diretores do ciclo do cangaço fizeram uma leitura sobretudo do social. Os acontecimentos foram bem mais transcendentes. A nova geração de escritores prefere escrever sobre os dramas urbanos”, observa o autor em entrevista sobre sua obra.
Ronaldo Correia de Brito não teme o rótulo de regionalista e se adianta às críticas: “O meu sertão é a paisagem através da qual eu interpreto o mundo, o de hoje, o globalizado, o que rompeu com as tradições. Interessa-me a decadência, a dissolução. Meus personagens migram, sofrem o embate com as outras culturas. Sei que tenho sido vítima de preconceitos pela escolha dessa paisagem”, diz o escritor.
Para sua Galiléia, observa Ronaldo, convergem pessoas de todo o mundo. “Trato das questões do nosso tempo, os conflitos de cultura, as migrações, a dissolução da família tradicional. Jogo na mesa os conflitos insolúveis entre cidade e campo”, explica ele. “Se você elabora uma personagem complexamente neurótica, feminista, com todos os anseios urbanos, e se você senta esta mulher numa cadeira de couro, olhando uma paisagem desolada do sertão, há quem enxergue apenas o cenário e três ou quatro substantivos locais. Embora essa mulher fale da mesma dor e da mesma solidão de uma negra americana do Harlem”, compara o autor, herdeiro orgulhoso da tradição oral de sua terra.
“Acredito na supremacia da narrativa. As narrativas só perderão a função quando os homens perderem a fala, a audição e o dom de mentir. Costumo lembrar o quanto eram importantes os velhos narradores que tinham por única função na vida andar pelas casas interioranas, repassando conhecimentos que eles adquiriram e guardaram na memória. Acho que nenhum deles se perguntou algum dia sobre o valor do seu trabalho. Como também acredito que os aedos (artistas gregos que cantavam as epopéias) não se fizeram esta pergunta, enquanto fixavam o idioma, a mitologia e a épica grega”, lembra Ronaldo, que explica também sua recorrente inspiração em passagens e personagens bíblicos: “Aprendi a ler numa História Sagrada, que é uma seleta da Bíblia. Quando tinha sete anos, meu pai pediu que lesse em voz alta, para toda a família, um trecho da história de José do Egito. Foi a minha diplomação”, conta ele, “Eu sou um cara religioso, embora não freqüente nenhuma igreja. Costumo rezar, como os antigos hebreus, como Jó, aos impropérios, brigando com Deus. O mundo sertanejo lembra o da Bíblia, sendo que Deus foi desterrado dele.”

SOBRE O AUTOR: Ronaldo Correia de Brito nasceu no Ceará e mora em Recife. É médico formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Desenvolveu pesquisas e escreveu diversos textos sobre literatura oral e brinquedos de tradição popular, além de ter sido escritor residente da Universidade da Califórnia, em Berkeley, no ano de 2007.
Escreveu os livros de contos As Noites e os Dias (1997), editado pela Bagaço, Faca (2003), Livro dos Homens (2005), e a novela infanto-juvenil O Pavão Misterioso (2004), todos publicados pela Cosac Naify.
Dramaturgo, é autor das peças Baile do Menino Deus, Bandeira de São João e Arlequim. Escreveu durante sete anos para a coluna Entremez, da revista Continente Multicultural, e atualmente assina uma coluna semanal na revista Terra Magazine, do Portal Terra.

Fotógrafo: Hans von Manteuffel
DEPOIMENTO: Ronaldo Correia de Brito fala sobre escrita, memória, psicanálise e as paisagens onde suas histórias se ambientam:

Quando lancei As noites e os dias, em 1997, pela editora Bagaço, o poeta Alberto Cunha Melo escreveu que meus personagens são complexamente urbanos e habitam um sertão sem endereço certo, que pode estar em qualquer latitude. Em Galiléia, os primos Davi, Ismael e Adonias procuram reconstruir suas vidas na Noruega, no Recife e em São Paulo, longe do sertão em que nasceram. Por mais que eles tenham se distanciado da violência que ronda a família, voltarão a senti-la de perto, descobrindo que nunca escaparam ao destino que os cerca.

UMA RELEITURA DO SERTÃO – O sertão tanto pode significar um espaço mítico como um acidente geográfico. Santo Agostinho perguntava sobre o tempo: o que é o tempo? Se não me perguntam eu sei, se me perguntam, desconheço. O que é o sertão? Se não me perguntam eu sei, se me perguntam desconheço. O sertão é abstrato ou real como o tempo. E continuará sendo tema para a literatura. O sertão é um espaço de memória confundido com o urbano. É o melhor lugar do mundo para acessar a Internet, porque as Lan House cobram apenas cinqüenta centavos por hora. Galiléia trata dessas idas e vindas, mergulhos e retornos nesse mundo suburbano chamado sertão.
Sou inteiramente aberto às influências. Não estou nem aí para qualquer tipo de fidelidade. Sou marcado pela escrita de Rulfo, Borges e de vários escritores russos. O livro que marcou mais profundamente minha escrita foi a História Sagrada, que sempre li como um compêndio de narrativas e nunca como um escrito religioso. Concordo com o ponto de vista de Robert Alter de que a Bíblia é prosa de ficção.
Eu precisava escrever um romance para ter mais espaço para discussões que não cabem no conto. Mas, sou um romancista conciso. Nunca conseguiria escrever centenas de páginas como os russos e os escritores de língua inglesa. Levei a mesma tensão dos meus contos para o romance. E isso se alcança em poucas páginas.
Trabalho duas propostas de Ítalo Calvino na minha literatura: a exatidão e a rapidez. Sou obsessivo em tentar dizer o essencial com poucas palavras. A cada dia me preocupo menos com o efeito das frases. Já não tento alcançar a beleza; prefiro alcançar a verdade. Quase não crio metáforas e censuro os adjetivos. Acho que sou esquemático, o que não deixa de ser um perigo para a literatura. Mas não suporto gorduras, sempre busco chegar ao osso.
Sou um escritor psicanalisado e minha escrita reflete isso. Nunca quis exercer o papel de psicanalista, embora tenha feito formação. Não conheço boa literatura escrita por psicanalistas. O hábito profissional da escuta e da escrita psicanalítica contamina a criação literária e o resultado é sempre ruim. Freud escreveu boa literatura. Não digo o mesmo de Jacques Lacan.
Quando terminei de escrever Galiléia, tive a impressão de que havia escrito o roteiro de um filme. Escrevo sempre a partir de impressões visuais, arranjos de cena. Nunca escrevi por sugestão deste ou daquele texto literário. As imagens do cinema me sugerem muito mais profundamente do que um conto ou novela. Escrevo teatro com facilidade. Sou um homem de teatro, conheço a carpintaria teatral. Escrever para cinema e teatro é bom porque podemos acompanhar a encenação ou a filmagem, vemos a transformação do texto numa outra linguagem.
Escrever é um ofício custoso. É necessário ler muito, agüentar o tranco da solidão, ser capaz de uma viagem interior e estar sempre aberto às novas experiências da escrita. É um ofício amargo, duro, uma verdadeira ascese. Não vejo nenhum glamour em ser escritor. Só reconheço nessa profissão muito trabalho, uma busca permanente da literatura e horas contínuas de estudo.
Continuo trabalhando como médico e não pretendo me afastar da medicina, nunca. Escrever e atuar como médico são atividades sem conflito. Acho que não seria escritor sem o longo e exaustivo exercício da medicina. Todos os dias eu convivo com o sofrimento, com a doença, com a morte e a alegria da cura. Ouço histórias que anoto e que podem aparecer em algum conto ou novela. Em Livro dos Homens existem dois contos desenvolvidos a partir de minha vivência no hospital.
Só consigo viver fazendo muitas coisas. Todas elas estão harmonizadas e é como se eu me movimentasse dentro de um mesmo universo. Gostaria de escrever um livro que me deixasse satisfeito. Isso nunca acontecerá. Estou sempre esperando por esse livro. Ah, se fosse Galiléia! Mas tenho consciência da minha permanente insatisfação e já estou trabalhando em novos livros. Queria viver mais serenamente, sem a angústia da espera. Não desejar e não esperar. Isso é quase a santidade.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

VERÔNICA DE VATE: LUÍS ANTONIO CAJAZEIRA RAMOS

LUÍS ANTONIO CAJAZEIRA RAMOS nasceu em 12 de agosto de 1956 em Salvador, onde ainda reside. Cursou Engenharia Elétrica e Agronomia na Universidade Federal da Bahia, mas abandonou ambos os cursos no penúltimo semestre. Ainda na UFBA, fez dois semestres de Medicina. Formou-se em Educação Física e em Direito pela Universidade Católica do Salvador. Mantém vínculo com a UCSAL como professor. É funcionário do Banco Central do Brasil, membro da Ordem dos Advogados do Brasil, sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e componente do conselho editorial de Iararana, revista de arte, crítica e literatura.

PRODUÇÃO LITERÁRIA: Não fez versos na infância nem na adolescência, despertando para a poesia na idade adulta. Estreou com o livro Tudo muito pouco (Cruz das Almas, 1983), mas rasgou e queimou quase toda a edição, abandonando a poesia por uma década. Voltou a escrever intensamente em 1995. Re-estreou com Fiat breu (Salvador: Edições Papel em Branco, 1996). Em seguida, lançou Como se (Salvador: Letras da Bahia, 1999), menção honrosa no Prêmio Nacional Cruz e Sousa, da Fundação Catarinense de Cultura, em 1998; Temporal temporal (Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002), ganhador do Prêmio Nacional Gregório de Matos, da Academia de Letras da Bahia, em 2000; e Mais que sempre (Rio de Janeiro: 7Letras, 2007).

OUTRAS PARTICIPAÇÕES: Sua poesia está incluída em várias antologias, destacando-se as seguintes: 1) no Brasil, A poesia baiana no século XX (Org. Assis Brasil. Salvador: Funceb; Rio de Janeiro: Imago, 1999); 2) em Portugal, Vozes poéticas da lusofonia (Org. Luís Carlos Patraquim. Sintra: Instituto Camões, 1999); 3) na França, Voix croisées: Brésil-France (Dir. Gerard Blua. Paris: Éditions Autres Temps, 2006). Sua poesia também pode ser encontrada em sítios eletrônicos, como o Jornal de Poesia (www.secrel.com.br/jpoesia). Eventualmente, publica poemas, resenhas e outros artigos em revistas literárias e jornais.

PROJETO LITERATURA COMENTADA: Luís Antonio Cajazeira Ramos vai participar do projeto Litetatura Comentada, em Jequié - BA, no próximo sábado, dia 1º de novembro de 2008. O evento vai acontecer na Biblioteca Central Newton Pinto de Araújo, às 19h 30min. A abertura vai ser com os poetas recitadores Marcelo Nascimento e Vitor Nascimento Sá, membros do Grupo Concriz da cidade de Maracás. Luís Antonio vai falar de sua trajetória e lançar o livro Mais que sempre, sua última publicação. O evento é coordenado por André Bomfim e Lucas Ribeiro.


VÉSPERA DO DIA DOS MORTOS


Eu não amei meu pai como devia.
Houve o dia de amá-lo e não o amei.
Ele morreu, e não nasci ainda.
Amanhã levantei sem seu amor.

Nenhum conselho amigo soa seu.
Uma vida padrasta me acompanha.
Meu caminho não quis olhar pra trás.
Tão longe de meu pai me abandonei.

Nem meu, nem de ninguém, nunca fui seu.
Não me quis dar a quem eu estranhava.
Só teu colo, mamãe, era aconchego.

Do pai, resta-me um calo de silêncios.
Ai, arranco do peito o corpo estranho.
Coração, cava o chão, busca meu pai.


LUÍS ANTONIO CAJAZEIRA RAMOS

LUÍS ANTONIO CAJAZEIRA RAMOS - PANTOMIMA



PANTOMIMA


Os melhores cordeiros da fazenda
seguirão para o abate na cidade.
Os carneiros mais fracos do rebanho
serão sumariamente degolados.

O bode velho vai pro sacrifício,
por mais que seu olhar peça clemência.
Nem mesmo as cabritinhas inocentes
terão misericórdia ou esperança.

As carnes assarão ao sol: fogueira.
As peles secarão ao sol: curtume.
As vísceras suarão ao sol: carniça.
Os ossos sumirão ao sol: poeira.

Somente a ovelha negra fica impune,
enquanto o bom pastor toca sua flauta.


LUÍS ANTONIO CAJAZEIRA RAMOS

TERRÍVEL E DOCE LIRA

José Inácio Vieira de Melo

Completar um cinqüentenário é sempre motivo de comemoração. E é nesse clima que o poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos tem vivenciado seus 50 anos. Uma prova disso é a publicação do seu novo livro, Mais que sempre (Rio de Janeiro: 7Letras, 2007), uma edição bem cuidada que faz jus ao conteúdo que envolve.
Além de trazer 24 sonetos inéditos no capítulo de abertura, Mais que sempre faz uma viagem pela obra de Luís Antonio, reapresentando poemas de seus três livros anteriores, distribuídos em cinco capítulos, arrumação esta que exigiu do poeta o cumprimento da árdua tarefa de escolher.
Assim, os poemas do livro Temporal temporal (2002), vencedor do Prêmio Nacional Gregório de Matos, da Academia de Letras da Bahia, encontram-se nos capítulos “Temporal temporal” e “Lucidez insana”. Os elegidos de Como se (1999), nas seções “Estos do estio” e “Veia Vernal”. Na seção final, “Fiat breu”, estão os poemas do livro homônimo, de 1996.
Destacar este ou aquele poema dessa antologia coesa é querer padecer do sofrimento que o autor experimentou ao fazer a sua seleção.
É certo que sonetos como “Pantomima”, “Véspera do dia dos mortos”, “O amor de minha vida” e “Religião poética” têm-se tornado emblemáticos dentro da trajetória de Luís Antonio. Mas o seu tom é tão marcante, que, ao se ler o livro, fica a impressão de que estamos diante de um único poema.
Isso acontece porque o poeta vai cerzindo seus poemas um no outro, chegando a usar o verso final de um poema logo no início do seguinte, como numa coroa de sonetos.
Outras vezes, o título de um soneto aparece bordado no âmago de outro, como é o caso de “Na solidão do campo de narcisos”.

DIVINDADE – Luís Antonio Cajazeira Ramos é um poeta terrível, como terríveis são os anjos de Rilke. O sarcasmo que perpassa seu conjunto de sonetos é de deixar qualquer leitor espantado. Não que sua lira cause aversão, mas é que ele canta tão bem e tão profundamente a miséria humana, que nos coloca na pele do poema e, por conseguinte, da miserável condição que nos é implícita.
Ler a poesia de Cajazeira Ramos é ser o Cajazeira Ramos. Deslizar pela lama de sua métrica perfeita e sentir o cheiro da origem, uma vez que somos o barro que sonha odisséias, mas que não sai do pântano.
Luís Antonio, um demiurgo gozador, ri de tudo.
Ao contrário do que possa parecer, a sua atitude poética não é de indiferença, mas de compreensão do humano. Diante do caos que o rodeia, só pode entender o grito da criação como um “fiat breu”. E o seu clamor se estende para uma divindade – não aquela de onipotente ausência, mas a que arrasta as suas asas negras sobre nós, à maneira de um Baudelaire, quando este invoca: “Oh Satã, tu que és o rei dos anjos, tenha piedade de nossa longa miséria!” Mas estas afirmações não fazem do poeta dos temporais um cantador de aberrações e das trevas.
Pelo contrário. Luís Antonio fala, o tempo todo, do amor, da solidão, do eu e da dor. Seus poemas nada têm de lúgubres, sombrios, pesados.
A grande faceta desse poeta é dizer essas coisas claramente, atribuindo a cada verso leveza e espanto, quase tudo dentro de uma forma que elegeu (ou que o elegeu): o soneto.
Que conforto é para o apreciador de poesia se deparar com um poeta da estatura de Luís Antonio Cajazeira Ramos, que dialoga com a tradição, mas que, sobretudo, com voz própria e firme, atualiza e renova o discurso poético e inova no soneto, dando uma contribuição singular para essa forma dentro da poesia brasileira contemporânea.
Resta, então, ao leitor, experimentar a intensidade dessa poesia, caminhar “na solidão do campo de narcisos” e perceber que o seu tempo, leitor, já passou e que você nem se deu conta. Diante desse lirismo tão irônico, no entanto, não é preciso atormentar-se. A voz do poeta, que penetrou na sua ferida, agora vem e “enquanto a nuvem se exauria aflita”, “enquanto o bom pastor toca sua flauta”, “enquanto eu busco, imperfeito, a poesia”, “um novo amor convido para a dança”.


Resenha publicada no jornal A Tarde Cultural em 5 de maio de 2007, em Salvador.

PROJETO TRAVESSIA POÉTICA - A CASA DOS MEUS QUARENTA ANOS EM FEIRA DE SANTANA

Amanhã, 31 de outubro de 2008, estarei na cidade de Feira de Santana para participar do projeto Travessia Poética, evento organizado pelos meus amigos poetas Adriano Eysen e Cleberton Santos. Tenho a satisfação de ser o primeiro poeta convidado pela dupla, o que vai me proporcionar conhecer Asa Filho e o seu tão comentado espaço Cidade da Cultura. No evento lançarei meu cd A casa dos meus quarenta anos e recitarei poemas, vários poemas, meus e dos meus irmãos – os poetas de todo mundo. Levarei também meu livro A infãncia do Centauro e três pôsteres com poemas meus ilustrados pelo grande artista plástico feirense Juraci Dórea. É isso.

JIVM

domingo, 26 de outubro de 2008

JIVM - PRESENÇA

Fotógrafo: Ricardo Prado
P R E S E N Ç A
Para Carlos Moisés Soglia de Melo


Estar contigo, Moisés, e atravessar o túnel,
atravessar o espelho e me estilhaçar,
e beber o leite das estrelas.

Antes de cruzar o mar do esquecimento
soprar meus nomes para ti,
imprimir meus passos no teu ser.

Estar contigo, Moisés, e ser um só,
e reconhecer meu pai na memória de tua íris.
Estarás comigo ao chegar a hora derradeira.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

JIVM - BARCO

Fotógrafo: Ricardo Prado

B A R C O
Para Carlos Moisés Soglia de Melo


Meu filho, cada lágrima que brota
deste semblante aflito, vem do mar
que trago dentro de mim, que devora
e afoga e que também é calmaria;
e, lá no meio desse mar, um barco.

Meu filho, toma aqui a tua herança:
aquele barco no meio do mar.
Abre as velas, “navegar é preciso”,
que os ventos te conduzam venturoso!

Abre as velas de teu peito!
segue a Estrela do Oriente!


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

VERÔNICA DE VATE: CARLOS MOISÉS SOGLIA DE MELO

CARLOS MOISÉS SOGLIA DE MELO nasceu em Jequié-BA, em 26 de outubro de 2000. Viveu os primeiros três anos em Salvador, onde estudou na Escolinha Curumin. Morou dois anos em Palmeira dos Índios, Alagoas; por lá estudou no Colégio Cristo Redentor. Em dezembro de 2005 foi morar em Jequié. Estudou no Educandário Santa Therezinha. Atualmente cursa a 2ª série, no Colégio Dom Pedro II. Que currículo tem esse meu filho!!!
E Que foto mais linda é essa! Vanessa Vitória e meu filho Carlos Moisés. Eles estão na nascente do rio Jiquiriçá, um lugar sagrado, como sagrado é o coração de uma criança. Vivi é filha do meu grande amigo Edmar Vieira, professor, poeta e diretor de cultura do município de Maracás. No próximo dia 26 de outubro meu filho Moisés vai completar 8 anos de idade. Que satisfação, ser pai de um garoto tão especial, tão amigo, tão belo e poeta. Que Deus ilumine seu caminho.

JIVM



O PÃO VOADOR

O pão voa ao nosso redor.
O pão voa tão alto que vai pra lua.

CARLOS MOISÉS SOGLIA DE MELO

CARLOS MOISÉS SOGLIA DE MELO - O CAFÉ ESTRANHO


O CAFÉ ESTRANHO

O café é como vidro, quando cai quebra.
O café é gelo, quando vê o Sol, derrete.
Mas quando vê a Lua, brilha.

CARLOS MOISÉS SOGLIA DE MELO

O CRESCIMENTO DO CENTAURO - UM PANORAMA DA POESIA DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Vitor Nascimento Sá




Do silêncio, de lá é que surge a palavra de José Inácio Vieira de Melo. Como o vazio que toma conta dos viajantes, o silêncio invadiu a alma do poeta quando em fecundação, ainda na construção do seu primeiro livro. O que torna a poesia de José Inácio tão forte e incisiva é o fato de que ele compreende, desde cedo, o que compõe a gênese de qualquer escritor: o seu próprio silêncio, componente que revela a inquietude dos que refletem sobre si e sobre o mundo. Porém, mais que calar-se, o que o forma é a capacidade de transformar o silêncio em símbolo. Por isso é que ele se inaugura (Códigos do Silêncio, 2000) com uma poesia que revela toda a sua capacidade de codificar os próprios segredos.

O que mais tem falado em mim é o silêncio,
mas um silêncio plural – de fogo –
que com sua língua escarlate abrasa as palavras
e as queima antes de serem.
(...)
O silêncio, este que fala e de que tanto falo,
é um hieroglífico poema,
e estes versos: tradução e codificação.

Depois da descoberta dos signos de seu sigilo, continuou a escrever. E se misturou às vozes de outros seres, deixou que usassem sua garganta para o ecoar de outros versos: versos patativos, cabralinos, bíblicos. Foi assim que gerou e pariu Decifração de Abismos (2002) e A terceira Romaria (2005).
Agora, o poeta já está no seu quarto livro: A Infância do Centauro (São Paulo: Escrituras Editora, 2007). Nos dois últimos capítulos dessa publicação, incluiu cinco poemas do seu primeiro livro, quinze do segundo e vinte do terceiro. Aliás, ele já havia feito algo semelhante em A terceira Romaria. Parece que faz questão de mostrar como tem sido sua trajetória.
Vieira de Melo nunca foi um formalista, nunca se prendeu a esta ou aquela corrente literária, nem tem dado, até o momento, mostras de que pretende fazer isso. Embora não esconda sua predileção pelos versos livres, também não se deixou levar pelos pseudo-vanguardistas que macaqueiam caricaturalmente as rupturas propostas na década de 20, evidentemente ultrapassadas. Assim não tem medo de arriscar-se, com “Romaria”, em redondilhas típicas da tradição poética do sertanejo: “O caminho que percorro / não é o da Rosa dos Ventos, / pois ele surge do nada, / de acordo com o momento”.
Aí é que se percebe a maturidade e o equilíbrio de um escritor que reconhece a poesia atual como a reunião de toda a história literária, um poeta que não se guia por extremismos. O seu constante caminhar tem sido guiado, como ele mesmo afirma nos versos acima, pelas curvas e espantos que encontra em sua vereda de aprendizagem. Mantém, entretanto, uma invejável coerência em seus quatro livros, superando-se em cada um deles.
Leitor assíduo, visita os jardins da poesia, dos mandacarus e das algarobeiras, colhendo aqui e ali o pólen da inspiração. Porém não deixa de se alimentar fortemente daquilo que foi a sua infância, a sua gente, sua história e formação. José Inácio é, esteja onde estiver, o catingueiro, o vaqueiro, o aboiador dos desertos e dos labirintos sertanejos. O tempo inteiro está no seu nascimento em Olho d’Água do Pai Mané, na infância em Palmeira dos Índios, na adolescência da Bahia, em Maracás. O vaqueiro, que leva em si, o persegue e o constrói. Em “Marcação”, tange na memória todo o gado de sua história; marca a si mesmo com o ferro eterno da poesia.

Um matuto sem eira nem beira,
labutando com palavras,
vaquejando boiadas de signos
por caatingas labirínticas
numa peleja sem-fim.
Invoca o gado invisível
numa toada aflita,
e grafa com pena e tinta
aquilo que a poesia marca,
a ferro e fogo, em sua alma.

O sertão e o sertanejo são uma constante em sua obra. O centauro de que tanto fala nada mais é do que o vaqueiro e o seu cavalo fundidos num único e harmonioso ser. No prefácio de Decifração de Abismos, já era elogiado por essa ligação tão forte que tem com suas origens. “Se alguém quiser ser universal”, escreveu Ruy Espinheira Filho, parafraseando Tolstoi, “que escreva sobre sua aldeia”. Ruy ainda acrescenta naquela introdução que, mais que sobre sua aldeia, JIVM escreve com as emoções oriundas de lá.
Mas há algo mais a ser dito sobre essa última publicação. Percebemos, pelo menos, duas características que devem ser consideradas em A infância do Centauro, por se tratar de traços distintivos em relação aos outros três livros. A primeira é a entrada, com maior freqüência, de poemas curtos, poemas de dois ou três versos como “Pureza” e “A Interrogação de Moisés” e, até mesmo, com um único verso, como é o caso de “Quarto da bagunça”: “Eu não sei nem por onde começar...”
A outra peculiaridade que merece alusão é o aprofundamento em questões metafísicas e espirituais. Esse não foi um acontecimento súbito, pois se trata de uma característica já observada desde Códigos do Silêncio. Contudo, os questionamentos filosóficos ganham força a cada publicação e, como já era de se esperar, mais do que nunca o poeta busca a si dentro do sertão de si mesmo e do universo: “Eu preciso de um espelho: / olhar no fundo dos olhos / e ver bem dentro de mim: / quero beijar minha sombra // (...) Sou a criação de Deus: / barro que sonha odisséias. / Em minha íris o Cosmo”.
E o que esperar de um poeta em constante edificação? Que rumo levará a escritura desse centauro das plagas sertanejas? Embora as coisas vindouras tenham a dúvida por essência, a coerência de José Inácio Vieira de Melo nos permite arriscar que os sertões continuarão a rondar os seus textos, que o mergulho filosófico ficará cada vez mais intenso e que este concriz continuará fazendo aquilo que talvez seja o papel do poeta contemporâneo: “Quebrar todo e qualquer cabresto, / romper a barreira da forma, / caminhar para além da palavra”.


Vitor Nascimento Sá é poeta e professor de Literatura. É um dos criadores e dirigentes do Grupo Concriz (http://grupoconcriz.blogspot.com), equipe de poetas e recitadores da cidade de Maracás, na Bahia.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

VERSOS E IMAGENS DO CAVALEIRO DE FOGO

Marcos Uzel

Fotografia: Ricardo Prado José Inácio Vieira de Melo amplia universo temático em nova obra:
"Ainda permaneço na casa do sertão, mas o pé ficou mais fincado no surrealismo".


Um vaqueiro do sertão invade a paisagem e faz uma leitura do mundo a partir do caminhar do cavalo. Através dele, o poeta José Inácio Vieira de Melo, um alagoano radicado na Bahia há quase 20 anos, valoriza a identidade do homem nordestino com sua montaria ao galopar pelo universo místico e mítico do seu novo livro, A infância do Centauro. O sertanejo das páginas é também um cavaleiro medieval e essa representação poética tornou o autor mais próximo do surrealismo, atraído pela sua pluralidade de sentidos e significados.
“Este é um livro de transição. Ainda permaneço na casa do sertão, mas o olhar está sendo outro. O pé ficou mais fincado no surrealismo, que é um prato cheio de possibilidades”, destaca o poeta nascido em Olho d’Água do Pai Mané, povoado do município de Dois Riachos, em Alagoas. Aos 39 anos, José Inácio é um dos representantes mais prestigiados da nova geração da literatura baiana. As orelhas de A infância do Centauro trazem comentários elogiosos de nomes de peso como Hélio Pólvora, Ruy Espinheira Filho, Ildásio Tavares, Lêdo Ivo, Moacyr Scliar, Hildeberto Barbosa Filho, Olga Savary e Marco Lucchesi.
A convite do Ministério da Cultura da Colômbia, ele viaja em dezembro para o XI Festival de Poesia em Cartagena de Índias, na Colômbia, alavancando sua primeira participação em um evento internacional. Ao atravessar o sertão das palavras, José Inácio tem evoluído a cada galopada e se interessado por outras tendências, mas preserva a mesma necessidade de mostrar o que lhe causa estranhamento e encantamento em suas observações sobre a existência humana. “Há uma caminhada (com a bifurcação aparecendo) e o caminhante (que traçou uma meta e está em busca de alcançar uma graça). Não consigo viver sem poesia”, dimensiona.
Ao escrever o prefácio de A infância do Centauro, o escritor cearense Ronaldo Correia de Brito destacou essa coerência: “José Inácio nunca sabe se mora numa fazenda de criação de gado ou se está perdido em periferias. Em qualquer latitude que se mova é o mesmo poeta com sua bagagem de pastoral e modernidade”. As buscas, naturalmente, trouxeram peculiaridades para o novo livro, composto de 81 poemas distribuídos por sete seções, nas quais o poeta interessado no surrealismo também glorifica a companhia de seu filho (notadamente em Herança) e contempla os encantos de suas musas (em Harém).

CHAVE - Um bom exemplo das particularidades do livro é a seqüência poética de Chave, o quarto bloco, formado por textos curtíssimos – uma característica pouco comum na obra do autor. “Somente os olhos dizem o que as palavras sonham”, sintetiza em Pureza. A concisão chega a um único verso em Quarto da bagunça (“Eu não sei nem por onde começar...”), encerrando o quarto capítulo. As cinco primeiras seções reúnem 41 poemas inéditos. As duas últimas contêm uma seleção extraída de Códigos do silêncio (2000), Decifração de abismos (2002) e A terceira romaria (2005), trabalhos anteriores de José Inácio.
As veias mais expostas, porém, são as que formam o conteúdo místico e mítico da publicação. “Essa dimensão é muito forte, é grande. A minha intenção é que seja o todo. Busquei criar uma identidade poética a partir desses elementos”, enfatiza o autor, que assume a persona do Cavaleiro de Fogo (fogo, aliás, é o significado do nome Inácio) para unir o homem do campo (o vaqueiro) ao universo mitológico (na figura do centauro). A intenção de criar uma poética já é anunciada na própria capa do livro (com ilustrações do artista plástico Juraci Dórea), na qual o galopante do sertão aparece também como um cavaleiro medieval.
“Tudo isso é muito espontâneo em mim”, afirma o criador do belo poema Centauro escarlate, cavalgando existencialmente em trechos como estes: “O teu centauro te espera/ e o mundo é tudo o que a gente percebe:/ é só sair descobrindo/ o que nunca vai ser teu (...) Há de existir um lugar onde os teus mistérios possam descansar”. Como resumiu bem o falecido poeta Gerardo Mello Mourão na contracapa da obra, “José Inácio Vieira de Melo sabe que o poeta é o fundador dos seres. Só ele pode trazer dos abismos a decifração de todas as formas do ser, para expressá-las na linguagem pura da metáfora”. Jornalista, co-editor da revista de arte, crítica e literatura Iararana e colunista da revista Cronópios, José Inácio tem dado sua contribuição à produção cultural baiana. Em 2005, coordenou, ao lado dos escritores Aleilton Fonseca e Carlos Ribeiro, o Porto da Poesia, na VII Bienal do Livro da Bahia. Em Salvador, está à frente do projeto Poesia na Boca da Noite, que conta com a adesão de poetas de todo o país. Além de ter suas criações publicadas em jornais, revistas e sites do Brasil e do exterior, ele foi selecionado recentemente para integrar a coleção Roteiro da Poesia Brasileira, da editora Global.


Marcos Uzel é jornalista.

Texto publicado no jornal Correio da Bahia, em Salvador, em 28 de julho de 2007.

JIVM - CENTAURO ESCARLATE

Ilustração: Juraci Dórea
CENTAURO ESCARLATE


O teu centauro te espera,
monta em seu dorso
e vê o mundo pelos olhos da esfinge:
és o enigma, não o decifrador.

A gente se enche de calo,
a gente pensa que sabe,
a gente se desespera até,
mas não abre mão de estar aqui.

O teu centauro te espera
e o mundo é tudo o que a gente percebe:
é só sair por aí descobrindo
o que nunca vai ser teu.

E quando for noite alta
e os acordes de uma aquarela
luzirem dentro de teu espírito,
deixa o centauro que habita em ti
galopar, galopar, galopar
e transcender a ti e as tuas explicações.

Há de existir um lugar
onde os teus mistérios possam descansar.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

terça-feira, 30 de setembro de 2008

O LIRISMO DE UMA POESIA SEM TEMPO

Marcos Uzel

Fotógrafo: Ricardo Prado
Livro de José Inácio Vieira de Melo une memória e contemporaneidade:
"Parto da memória para abordar os elementos do universo".


A poesia de José Inácio Vieira de Melo, 37 anos, agrega o passado e o presente em um mesmo lugar, como se não existisse o tempo. Um olho é pura memória. O outro mira os primeiros anos deste início de século, impregnados de fragmentações e crises de identidade. É como se a contemporaneidade o encontrasse "em cima do telhado da infância". Assim é A terceira romaria, terceiro livro do poeta alagoano, publicado pelo selo independente Aboio Livre Edições, com lançamento amanhã, às 18h, na Academia de Letras da Bahia (Nazaré).
Elogiado por nomes expressivos da literatura brasileira, como Lêdo Ivo, Moacyr Scliar, Olga Savary, Ruy Espinheira Filho e Gerardo Mello Mourão, o também jornalista José Inácio chega à terceira obra ampliando poeticamente a sua visão das coisas da vida e revisitando versos que publicou em trabalhos anteriores. Estão em A terceira romaria dez poemas do livro inaugural Códigos do silêncio (de 2000, reunidos, agora, numa seção intitulada Jardim dos mandacarus) e 30 da obra Decifração de abismos (de 2002, compondo o Jardim das algarobeiras).
"Sou um poeta que contempla a memória, mas não se prende a isso. Minha arte é a palavra. Através dela, tento mostrar o que me causa estranhamento e encantamento em minha caminhada", define José Inácio, que enveredou pela literatura trilhando uma estrada lírica e carregada de humanidade. Nela, também deixou-se mover pela delícia de reinventar o que já foi dito: "Não há mais poesia em dizer a uma mulher que ela é uma rosa. Mas a poesia logo ressurge se dissermos que ela é uma tempestade", ilustra.
Logo no poema de abertura, Louvação, ele anuncia: "Eu, poeta dos Sertões, passarinho do Vento Nordeste,/ venho perante tu, que habitas nos jardins,/ louvar a graça maior da poesia". E vai sublinhando página adentro a sua genuína preocupação com o homem, como destaca bem o escritor Mayrant Gallo na orelha de A terceira romaria. Nos versos de Cântico, por exemplo, José Inácio capricha: "Eu, que venho de secas, que escrevi versos de dor,/ ao ver meu irmão sedento agarrar-se em esperança,/ manter-se sustentado pelo mínimo orvalho, /agora me deleito com o sorriso abundante que a chuva trouxe".
Especulações sobre a existência, infância, descobertas, erotismo, louvação ao amor e à amizade são abordagens que o acompanham nesse percurso fortemente grafado pelo lirismo da vida campestre. Por vezes marcadamente delicado, como em Cerca de Pedra (Aqui, na Cerca de Pedra,/ nesta noite caatingueira,/ estou em silêncio, ouvindo/ o silêncio das estrelas). Em outros momentos, doloroso, como nos versos de Seca (Olhos esbugalhados - fome/ beiços ressequidos - sede/ e a vida some... Tudo vermelho de todo Sol).
"Dou uma grande atenção à pesquisa de linguagem, mas não esqueço minha origem. Digo isso, não no sentido geográfico. Parto dela para abordar os elementos do universo", enfatiza o alagoano nascido em Olho d''Água do Pai Mané, povoado do município de Dois Riachos, e radicado na Bahia desde 1988. "Muito apreciei o seu lirismo cortante como o fio de uma navalha, uma poesia que, embora seca, esconde e guarda uma chuva secreta", saúda, na contracapa da publicação, o também alagoano Lêdo Ivo, uma das expressões de maior destaque na moderna literatura brasileira, sobretudo pela contribuição poética.
José Inácio tem se inserido ativamente na produção cultural da capital baiana, através de iniciativas como a revista de arte, crítica e literatura Iararana, da qual é co-editor, e o projeto Poesia na Boca da Noite, sob sua coordenação. Em 2003, ele lançou o livrete Luzeiro, composto de três poemas e definido pelo autor como um tributo ao cordel, uma de suas referências literárias, além de ter sido uma prévia do então inédito A terceira romaria.
Foi também de José Inácio a organização do livro Concerto lírico a quinze vozes - Uma coletânea de novos poetas da Bahia, lançado no ano passado. Sua obra mais recente traz ilustrações do artista plástico Ramiro Bernabó e prefácio do poeta e ensaísta paraibano Hildeberto Barbosa Filho. E muitos outros trechos sensíveis, de belo conteúdo metafórico, como esses versos de Dois momentos: "Entro no poema como quem come cuscuz/ e sai dia afora para encarar a existência./ A poesia lava os pés e as lágrimas".


Marcos Uzel é jornalista.

Texto publicado no jornal Correio da Bahia, em Salvador, em 5 de junho de 2005.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

JIVM - MEMÓRIA

Ilustração: Juraci Dórea


M E M Ó R I A


Gosto de subir no telhado da casa
e olhar para dentro do quintal,
é lá que estão o menino e a arte.

A incompreensão vestiu o menino.
Ele se exibiu para o azul do dia
e para os olhos daquelas línguas.

O infante, dentro da sua solidão,
encontrou a estrada e caminhou
e enveredou por tantos descaminhos.

Quantas vezes dormiu ao relento?
Quantas vezes tombou e caiu?
Quantas vezes seguiu por miragens?

Ah essas cicatrizes, esses calos
pelo corpo e pela alma do menino,
ah, esse deserto de ilusão.

Mas assim como existe a sede,
existe a imensidão do mar,
e as coisas vão à balança.

E o que é viver cada dia
senão beber da água
e entender os merecimentos?

Ouço vozes – muitas vozes –
dentro de mim mesmo,
todas dizem que é preciso prosseguir.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

terça-feira, 23 de setembro de 2008

PROJETO LITERATURA COMENTADA - A CASA DOS MEUS QUARENTA ANOS EM JEQUIÉ

Sábado, dia 27, participarei do projeto Literatura Comentada, em Jequié. O evento é coordenado por André Bomfim e Lucas Caetano Ribeiro. Na ocasião, lançarei o CD de poemas A casa dos meus quarenta anos e falarei do meu percurso poético. Mais uma vez vou ter a satisfação de contar com a participação especialíssima do Grupo Concriz, da cidade de Maracás, que vai apresentar um recital com 35 poemas meus, inéditos. O Grupo Concriz é composto por 11 jovens (Caroline Brito, Danilo Spínola, Esther Maria, Gina Alves, Hermann Henrique, Ivana Karoline, Marcelo Nascimento, Matheus Machado, Pablo Sá, Robson Nascimento e Vanessa Vitória), e conta com a direção magistral do poeta e professor Vitor Nascimento Sá.
JIVM

JIVM - ZOADA

Ilustração: Ramiro Bernabó


Z O A D A


Os livros foram lidos e tudo já foi dito:
resta o silêncio – este corvo doido,
resta a folha de papel em branco
urubuzando minhas dores,
buscando os meus anagramas.

Podem rir sem pesar,
o poeta está bêbado e não sai da linha torta.
Não aguardem a última risada,
pois nem o ruído da morte
arrepiará as pétalas deste silêncio,
nem os estrondos de todas as bombas
farão frente à zoada que me aflige.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

sábado, 20 de setembro de 2008

VERÔNICA DE VATE: CLEBERTON SANTOS

CLEBERTON dos SANTOS
1979 – Nasce em Propriá – Sergipe, em 14 de maio, na Rua do América, filho de Helena dos Santos Feitosa e José Francisco dos Santos (Maria Zuleide Nunes dos Santos e Juraci Barbosa Nascimento).
1987 - Ingressa na 1ª série da Escola de 1º Grau Graccho Cardoso, em Propriá.
1991 – Transfere-se na 5ª série para a Escola de 1º e 2º Graus Joana de Freitas Barbosa (Polivalente), em Propriá.
1993 – Transfere-se na 7ª série para a Escola de 1º e 2º Graus Fundação Bradesco, em Propriá.
1995 – Transfere-se para o Colégio Diocesano de Propriá, onde cursa o Magistério.
1997 – Forma-se em Magistério de 1º Grau da 1ª a 4ª série. Participa, pela primeira vez, do Concurso de Poesia Falada de Propriá. Publica três poemas na Antologia Literária “Analecto”, lançada em Aracaju-SE.
1998 – Em 1º de junho, falece sua mãe Helena dos Santos Feitosa. Muda-se para Candeias – Bahia. Participa do Concurso de Poesia Falada de Propriá (a poesia “O Poeta” recebe o prêmio de segundo lugar, no valor de 150,00).
1999 – Ingressa na Universidade Estadual de Feira de Santana – Bahia, onde cursa Licenciatura em Letras Vernáculas. Participa do Concurso de Poesia Falada de Propriá.
2000 – Participa do Concurso de Poesia Falada de Propriá. Publica o livro de poemas “Ópera Urbana”, pelas edições MAC – Feira de Santana / BA. Participa da “Antologia de Contos do Prêmio Literário TAP – Redescobrindo o Brasil aos 500 anos”, publicada no Rio de Janeiro pela Record. Participa do espetáculo teatral “A vida de Aluisio Resende”, em Feira de Santana (representando o poeta Aluisio Resende).
2002 – Casa-se com Lílian Almeida de Oliveira Lima e passa a morar em Feira de Santana. Vencedor do Prêmio Escritor Universitário Alceu Amoroso Lima – Academia Brasileira de Letras / Rio de Janeiro. Passa a colaborar com cadernos culturais e revistas literárias.
2003 – Forma-se no curso de Letras Vernáculas - UEFS.
2004 – Ingressa no Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural – UEFS.
Participa do recital Caruru dos 7 poetas, Salvador, coordenado pelo poeta João de Moraes Filho e Luisa Mahin.
Publica na revista iararana 9, de Salvador.
Convidado do Projeto Malungos, realizado em Salvador e coordenado pela poeta Vanessa Buffone.
2005 – Convidado do Projeto Poesia na Boca da Noite, realizado em Salvador e coordenado pelo poeta José Inácio Vieira de Melo.
Convidado do Porto da Poesia, na VII Bienal do Livro da Bahia, setembro, Salvador, coordenado pelos editores da revista iararana.
Vencedor do Projeto de Arte e Cultura Banco Capital, ano IV, na categoria Literatura (poesia).
Convidado do Café Literário do III Congresso de Educação de Vitória da Conquista, outubro, coordenado pelo poeta Adriano Eysen.
Convidado do Caruru dos 7 Poetas, Cachoeira, outubro, coordenado pelo poeta João de Moraes Filho.
Convidado para palestrar na Escola Fundação Bradesco, em Propriá – SE, 27 e 28 de outubro.
Convidado do Projeto Imagem do Verso, 23 de outubro, Salvador, coordenado pelo poeta Elizeu Moreira Paranaguá.
Lança o livro Lucidez Silenciosa (poesia), em Salvador, 30/10/2005.
Lança o livro Lucidez Silenciosa (poesia), em Feira de Santana, 10/12/2005.
O poema “Infância” recebe MENÇÃO HONROSA no Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná.
2006 – Defesa da Dissertação de Mestrado intitulada “Nas entranhas da cidade (estudo da lírica urbana de Reynaldo Valinho Alvarez)” no Programa de Literatura e Diversidade Cultural da Universidade Estadual de Feira de Santana.
19/04/2006 – Lançamento do livro Lucidez Silenciosa, em Aracaju, na Assembléia Legislativa de Sergipe. Evento organizado pela poeta e jornalista Ilma Fontes.
02/05/2006 – Toma posse no cargo de Professor Substituto de Língua Portuguesa de 1º e 2º Graus no CEFET – Valença, Bahia.
23/09/2006 – Participa do Caruru dos 7 Poetas (3 edição), em Cachoeira - BA.
29/09/2006 – Lançamento do livro Lucidez Silenciosa, em Valença, durante a II Semana do Turismo Valença. O evento foi realizado pelo CEFET – Valença.
25/10/2006 – Lançamento do livro Lucidez Silenciosa, na UESC – Ihéus/BA, durante o VII Seminário Internacional de Literaturas Luso-Afro-Brasileiras, a convite da Prof. Daniela Galdino. 09/11/2006 - Lançamento do livro Lucidez Silenciosa, no Café Literário, durante o IV Congresso de Educação de Vitória da Conquista / BA. Coordenação do poeta Adriano Eysen.
10/11/2006 - Lançamento do livro Lucidez Silenciosa, no projeto Papo Lírico, durante a Semana de Letras da UESB, Campus de Jequié / BA. Coordenação da Profª Valéria Mota.
10/04/2007 – Toma posse no cargo de Professor de Língua Portuguesa de 1º e 2º Graus no Colégio Estadual Governador Luis Viana Filho, lotado na Secretaria de Educação do Estado da Bahia.
14/05/2007 – Recebe o Prêmio WALY SALOMÃO da Academia de Letras de Jequié.
2008 – Publica três poemas na Revista Poesia Sempre (Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional).


AMANHÃ
Para José Inácio Vieira de Melo


Contemplar o amanhã sem vê-lo
apascentar memórias de um mundo antigo
enquanto ossos e sombras insones
repousam submersas em solo marítimo.

Contemplar o amanhã sem detê-lo
em sua voracidade de amanhecer.


CLEBERTON SANTOS

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

CLEBERTON SANTOS - CALÇADA RIBEIRINHA



CALÇADA RIBEIRINHA


Queria sentar nesta calçada antiga
repousar meus gritos e teoremas
jogar castanhas no buraco d’água.

Queria sentar nesta calçada antiga
sem a pressa dos vendavais urbanos
contar estrelas em esteiras amarelas.

Queria sentar nesta calçada antiga
sem a poesia que me atormenta
sentir a lua fria sobre as pernas.

Queria sentar nesta calçada antiga
e ver surgir do batente liso
a velha sombra da manhã vivida.


CLEBERTON SANTOS

BELEZA NECESSÁRIA

José Inácio Vieira de Melo

Nos 40 poemas que compõem Lucidez Silenciosa, Cleberton Santos apresenta uma lira cheia de vigor. Não é uma poesia de fáceis arroubos, mas contida, disciplinada, que preza pela linguagem e que mostra que seu autor sabe os rumos que deseja trilhar – passos semelhantes aos de um Baudelaire: “ir ao fundo do desconhecido para encontrar o novo”.
Nesse seu livro de estréia, Cleberton não está preocupado em seguir vertentes literárias, não desperdiça tempo com este ou aquele grupo de vanguarda, desse ou daquele lugar. O seu compromisso é com a arte poética, é com a estética da palavra.
O livro está dividido em quatro partes. Em todas elas, é perceptível a busca da síntese no dizer, do condensar as palavras, no que resulta uma poesia substantiva e substancial.
Em Bestiário Inútil, primeira parte, há uma paisagem e um calango que espreita o mundo. Cleberton Santos é um poeta ofuscado pelos delírios, um cego – um Homero, um Patativa, um Borges – que enxerga o mundo pelos olhos desse calango e confere existência à paisagem. Sente cravado no peito o silêncio. Não um silêncio qualquer, mas aquele que executa, a todo instante, um “Concerto para ninar calangos” e despertar matizes:

Silêncio tecido de dor e violinos
crava em meu peito
concerto estapafúrdio
para ninar calangos opalinos.

Além dos calangos, são invocados escorpiões, pardais, galos e ossos de um antigo Minotauro. O poeta retorna ao tempo dos pardais e o chão é céu, onde nuvens de carambolas e de goiabas maduras despertam os primeiros desejos e o fazem ruborizar (“Sonhos e pardais”).
Em Mitos e Formas, segundo capítulo deste opúsculo do poeta sergipano da Bahia, tudo é metamorfose. O “Minotauro” ressuscita do Bestiário Inútil. Teseu, personificação do poeta, embora agonizante, sabe que o alimento dos galos que cria, em sua morada, são os mitos e as formas – grãos imprescindíveis para os cantores da aurora. Teseu, esfaqueado e lúcido, renasce na aurora, seu sangue é o arrebol, é o novo. A manhã traz no âmago o germe da tarde e a tarde é conseqüência do dia, a tarde é noite que se aproxima a anunciar o “Amanhã”:

Contemplar o amanhã sem detê-lo
em sua voracidade de amanhecer.

Lucidez Silenciosa é a matriz do livro de Cleberton. Nesta terceira seção, o poeta homenageia Florbela Espanca e Pablo Neruda, dialoga com outras referências, como em “Poema ocasional”, em que estão justapostas as vozes aveludadas de Alphonsus Guimaraens e de Cruz e Souza, baluartes do Simbolismo no Brasil.
Mas o momento culminante deste capítulo é o poema “Amor”. Dos recônditos lugares do silêncio, das alturas da lucidez, Cleberton Santos erige – em arquitetura exata – o templo do amor. Em sua partitura, não há arrodeios nem floreios. É o que é, seja qual for a circunstância:

O vestido preto
está dançando na esquina.
O amor é uma festa
mesmo em dia de luto.

O Canto Quase Memória, derradeira parte de Lucidez Silenciosa, começa com um poema que despeja nas retinas do leitor o Sísifo que todo ser humano é. E assim, condenado pelo destino, o poeta segue a empurrar, montanha acima, “a pedra infinitamente pedra”. Mas, aprendiz do velho Vicente, amola suas facas na pedra, que é seu fardo e sina, para, em seguida, esgrimir seus versos e compor a sua lira.
Cleberton demonstra ser um poeta que dedilha a chuva dos versos na flauta dos dias. Ciente do caminho que tem a percorrer, olha para frente e – com olhos de calango na “Paisagem em movimento” – enxerga nos longes, lá em 2050, e sabe o que o espera. E tranqüilamente toca a sua “Composição para flauta”:

Faço versos com retalhos de vida
fios de cabelos que apascento nos dedos.

Lucidez Silenciosa anuncia os vastos horizontes que aguardam pelo seu criador. Em outra época, outro jovem poeta, Castro Alves, sintetizou em um verso a sua ânsia em alçar vôo: “Eu sou pequeno, mas só fito os Andes”. Como o poeta condoreiro, Cleberton Santos sabe da sua condição efêmera, mas mira o infinito e brada para o Cosmo a sua necessidade de Beleza.


Prefácio do livro Lucidez Silenciosa, de Cleberton Santos, publicado, também, no jornal A Tarde Cultural, em 26 de novembro de 2005, em Salvador.

domingo, 7 de setembro de 2008

LANÇAMENTO - A CASA DOS MEUS QUARENTA ANOS EM SALVADOR


MONTANDO NO BICHO MÍTICO PELAS TRILHAS DA IMAGINAÇÃO: UMA BREVE CAVALGADA EM A INFÂNCIA DO CENTAURO, DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Luciano Rodrigues Lima

PROÊMIO

Era uma tarde-noite quente. Eu e Lúcia perambulávamos pelas ruas cansadas e sofridas de Cachoeira, quando alguém me chama. Viro-me e vejo: Café Literário! Penso: duas boas coisas juntas. Muito mais. Entro e encontro pessoas recitando poesias na boquinha da noite. O poeta José Inácio Vieira de Melo, o fotógrafo e poeta Damário Dacruz e diversos jovens poetas lançando sementes no ar. Quando saímos de lá, meio inebriados, as ruas tortuosas de Cachoeira, antes apenas um cenário indecifrável, passaram a fazer sentido para nós.

POESIA PARA MONTAR E VIAJAR

Montar no centauro e sair por aí, ou ser o próprio centauro? Se o bicho mítico já é estranho e misterioso, imagine quando pequenininho, quem não gostaria de ver ou imaginar um? Tudo isso é possível dentro desse título, que, de si, já é um poema inteiro, pois poemas são gatilhos da imaginação; “A infância do centauro”, é um verso, é rítmico. Vamos montar no bicho e sair por aí.
José Inácio pratica poesia de diversos tipos - em primeira pessoa (“A sagração do mito”), falando de si mesmo e do próprio poeta que o habita, a partir de um mirante bem alto dentro dele mesmo, em segunda pessoa (“Epitáfio para um vaqueiro”, “Adorno”), quando o tu parece um faca cortando, aparando retilínea as palavras, em terceira pessoa (“Nascimento do poema”), como quem fala de fora de si mesmo, no infinitivo (“Metamorfose”), convidando o leitor à ação.
A poesia de José Inácio Vieira de Melo, a cada instante, perde a inocência das palavras e a recupera adiante. Explico. Um poeta pode tentar falar do mundo diretamente. Olhar ou sentir o mundo em torno e devolvê-lo em palavras diretas. Seria um diálogo poeta-mundo, sem mediação. Às vezes, porém, isto não é mais possível, devido à “floresta de símbolos” sobre a qual nos adverte Charles Baudelaire, no seu poema “Correspondences”.
Exemplifico. Em “Adeus”, José Inácio (o poeta dentro dele, é claro) parece falar diretamente com o seu passarim, lidando com a inocência das palavras, sem acordar as feras dentro delas, como se pudesse esquecer da carga semântica histórica que cada simples palavrinha traz. Ele reinaugura as palavras. Mas em “Quintanar” e “Epitáfio para um vaqueiro” e “Pedras amoladas, facas atiradas”, José Inácio é o poeta metalingüístico, algo modernista, praticando um intertexto com Mário Quintana, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto.

O LIVRO

Ao crítico não cabe elogiar ou detratar. Cabe-lhe apenas imiscuir-se no espaço entre a obra e o leitor, mediando-os tão pedagogicamente quanto possível. Descrevo, então, a obra. O livro se compõe de partes, com nomes sugestivos: Centauro, Testamento, Chave, Herança, Harém, Jardim, Romaria, mas não há restrição temática em cada uma das partes. Então, as páginas com os nomes podem soar como poemas de uma só palavra, ou palavras-poemas. A edição, pela Escrituras Editora, ilustrada pelo artista Juraci Dórea, é muito bem cuidada, possui prefácio de Ronaldo Correia de Brito, o qual demonstra conhecer segredos de poesia, e contra-capa de Gerardo Mello Mourão.
Ao ler o livro inteiro, tive sensações diversas: senti cheiro do mato do sertão (do sertão com gado, que é um tipo específico de sertão), pressenti o tom cavalheiresco medieval ainda presente na nossa cultura, reportei-me aos mitos bíblicos (“Jardim das algarobeiras”) e senti a atmosfera do cristianismo rústico em meio às pedras e espinhos do sertão nordestino, lembrando mesmo a própria Palestina (os sertanejos não são exilados em sua própria terra, como os palestinos?), entrevi o amor com o erotismo mitigado simbolicamente nas “touceiras de capim e éguas luzidias”, em “Gênese”, ou “no ritmo de vossas ancas”, em “Harém”, vi um poeta citadino intoxicado de palavras em “Zoada”. Encontrei o regional e o universal, o pessoal e o coletivo, imanência e transcendência, a linguagem e a metalinguagem, e diversos ritmos e métricas, ou melhor, formatações, termo mais apropriado para a poesia escrita em computador. O poeta contemporâneo é como o cantor que canta reggae, samba, bossa, baião e até rock. Mas não aconselho ninguém a ler A infância do centauro de uma só sentada. Penso que é melhor aproveitar um ou alguns poemas de cada vez, ou ler separadamente cada uma das partes a que me referi.
A infância do centauro é, na sua inteireza, uma busca: pelo “quem sou eu”, por “onde estou”, por “o que são as coisas” e pelo “o que significam as palavras”, enfim, pela impossível resposta para “o que é a poesia?”. È um passo em uma caminhada, um meio de caminho, um entre-lugar. Não chega ao destino, mas não volta atrás. Mas, nesse percurso, o leitor pode pegar carona no centauro, ou mesmo ser o próprio centauro, metáfora da poesia em movimento.

“CERCA DE PEDRA”: UM POEMA DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Quando leio criticamente um livro de poesia, gosto de comentar um poema, isoladamente. Acho que, lembrando mais detidamente de um poema, passo a incorporar melhor a poética daquele autor, e, assim, poder melhor exemplificá-la. Como escolher um poema? Ao acaso, pois o gosto pessoal pode ser arriscado. Não existem poemas melhores ou piores, em A infância do centauro. Existem diferentes poemas. Abri o livro sem olhar e, no cara ou coroa, entre os dois poemas do livro aberto deu “Cerca de pedra”.
Reproduzo-o:

CERCA DE PEDRA

Aqui, na Cerca de Pedra,
nesta noite caatingueira,
estou em silêncio, ouvindo
o silêncio das estrelas.

Li o poema auditiva e visualmente. Aos ouvidos soa como um hai-kai duplo. Visualmente é uma cena de noite escura (ou não) no sertão. No sertão, não! Na caatinga. Esta sim, embora menos pomposa, é bem nordestina. Aliás, vejo um vulto solitário sentado em uma cerca de pedra e a noite é de luar. Agora já não vejo mais a cena. Sou eu que estou lá, encostado na cerca de pedra, pois essas cerquinhas de pedra da caatinga não são lá tão boas para sentar. Pode doer nos fundilhos e prejudicar a meditação. Olho para cima e penso em Bilac, inevitavelmente, pois minha mente está povoada de outros poemas. Por instantes a noite silenciosa me envolve. A sensação é muito intensa e fugaz. Não se deve prolongar muito a estesia de um poema, para não desgastá-la. Às vezes a emoção é muito forte e é até perigoso mantê-la por muito tempo.
“Cerca de Pedra” é coisa de minutos, ou segundos. Você vai lá naquela noite silenciosa e volta logo. Senão, você pode se perder na caatinga, para sempre. Ou, mais provável, na caatinga escura e perigosa que já existe dentro de você.

REFERÊNCIAS

Melo, José Inácio Vieira de. A infância do centauro. São Paulo: Escrituras, 2007. 135 p.


Luciano Rodrigues Lima é natural de Salvador, Bahia. É doutor em Letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), professor (UNEB e UNIFACS) e ensaísta. Ilustração: Gilvan Samico