terça-feira, 7 de outubro de 2008

VERSOS E IMAGENS DO CAVALEIRO DE FOGO

Marcos Uzel

Fotografia: Ricardo Prado José Inácio Vieira de Melo amplia universo temático em nova obra:
"Ainda permaneço na casa do sertão, mas o pé ficou mais fincado no surrealismo".


Um vaqueiro do sertão invade a paisagem e faz uma leitura do mundo a partir do caminhar do cavalo. Através dele, o poeta José Inácio Vieira de Melo, um alagoano radicado na Bahia há quase 20 anos, valoriza a identidade do homem nordestino com sua montaria ao galopar pelo universo místico e mítico do seu novo livro, A infância do Centauro. O sertanejo das páginas é também um cavaleiro medieval e essa representação poética tornou o autor mais próximo do surrealismo, atraído pela sua pluralidade de sentidos e significados.
“Este é um livro de transição. Ainda permaneço na casa do sertão, mas o olhar está sendo outro. O pé ficou mais fincado no surrealismo, que é um prato cheio de possibilidades”, destaca o poeta nascido em Olho d’Água do Pai Mané, povoado do município de Dois Riachos, em Alagoas. Aos 39 anos, José Inácio é um dos representantes mais prestigiados da nova geração da literatura baiana. As orelhas de A infância do Centauro trazem comentários elogiosos de nomes de peso como Hélio Pólvora, Ruy Espinheira Filho, Ildásio Tavares, Lêdo Ivo, Moacyr Scliar, Hildeberto Barbosa Filho, Olga Savary e Marco Lucchesi.
A convite do Ministério da Cultura da Colômbia, ele viaja em dezembro para o XI Festival de Poesia em Cartagena de Índias, na Colômbia, alavancando sua primeira participação em um evento internacional. Ao atravessar o sertão das palavras, José Inácio tem evoluído a cada galopada e se interessado por outras tendências, mas preserva a mesma necessidade de mostrar o que lhe causa estranhamento e encantamento em suas observações sobre a existência humana. “Há uma caminhada (com a bifurcação aparecendo) e o caminhante (que traçou uma meta e está em busca de alcançar uma graça). Não consigo viver sem poesia”, dimensiona.
Ao escrever o prefácio de A infância do Centauro, o escritor cearense Ronaldo Correia de Brito destacou essa coerência: “José Inácio nunca sabe se mora numa fazenda de criação de gado ou se está perdido em periferias. Em qualquer latitude que se mova é o mesmo poeta com sua bagagem de pastoral e modernidade”. As buscas, naturalmente, trouxeram peculiaridades para o novo livro, composto de 81 poemas distribuídos por sete seções, nas quais o poeta interessado no surrealismo também glorifica a companhia de seu filho (notadamente em Herança) e contempla os encantos de suas musas (em Harém).

CHAVE - Um bom exemplo das particularidades do livro é a seqüência poética de Chave, o quarto bloco, formado por textos curtíssimos – uma característica pouco comum na obra do autor. “Somente os olhos dizem o que as palavras sonham”, sintetiza em Pureza. A concisão chega a um único verso em Quarto da bagunça (“Eu não sei nem por onde começar...”), encerrando o quarto capítulo. As cinco primeiras seções reúnem 41 poemas inéditos. As duas últimas contêm uma seleção extraída de Códigos do silêncio (2000), Decifração de abismos (2002) e A terceira romaria (2005), trabalhos anteriores de José Inácio.
As veias mais expostas, porém, são as que formam o conteúdo místico e mítico da publicação. “Essa dimensão é muito forte, é grande. A minha intenção é que seja o todo. Busquei criar uma identidade poética a partir desses elementos”, enfatiza o autor, que assume a persona do Cavaleiro de Fogo (fogo, aliás, é o significado do nome Inácio) para unir o homem do campo (o vaqueiro) ao universo mitológico (na figura do centauro). A intenção de criar uma poética já é anunciada na própria capa do livro (com ilustrações do artista plástico Juraci Dórea), na qual o galopante do sertão aparece também como um cavaleiro medieval.
“Tudo isso é muito espontâneo em mim”, afirma o criador do belo poema Centauro escarlate, cavalgando existencialmente em trechos como estes: “O teu centauro te espera/ e o mundo é tudo o que a gente percebe:/ é só sair descobrindo/ o que nunca vai ser teu (...) Há de existir um lugar onde os teus mistérios possam descansar”. Como resumiu bem o falecido poeta Gerardo Mello Mourão na contracapa da obra, “José Inácio Vieira de Melo sabe que o poeta é o fundador dos seres. Só ele pode trazer dos abismos a decifração de todas as formas do ser, para expressá-las na linguagem pura da metáfora”. Jornalista, co-editor da revista de arte, crítica e literatura Iararana e colunista da revista Cronópios, José Inácio tem dado sua contribuição à produção cultural baiana. Em 2005, coordenou, ao lado dos escritores Aleilton Fonseca e Carlos Ribeiro, o Porto da Poesia, na VII Bienal do Livro da Bahia. Em Salvador, está à frente do projeto Poesia na Boca da Noite, que conta com a adesão de poetas de todo o país. Além de ter suas criações publicadas em jornais, revistas e sites do Brasil e do exterior, ele foi selecionado recentemente para integrar a coleção Roteiro da Poesia Brasileira, da editora Global.


Marcos Uzel é jornalista.

Texto publicado no jornal Correio da Bahia, em Salvador, em 28 de julho de 2007.

2 comentários:

Camila disse...

Olá poeta, que alegria ao receber sua mensagem e mais ainda ao conhecer sua poesia. Consegues ser sutil e intenso ao mesmo tempo, com versos e palavras que tocam fundo e mexem com a gente.

O vídeo é realmente maravilhoso. Fico feliz em ter alegrado a sua madrugada insone, ainda que indiretamente.

Tomei a liberdade de juntá-lo à minha seleta lista de blogs adoráveis. Voltarei, com mais calma e vagar, para continuar a ler seus escritos.

Um abraço,
Camila

Bruno Henrique de Castro disse...

Olá. Sou Bruno Castro, jornalista de SP. Você tem algum contato do Marcos Uzel?
Pode me passar?

Obrigado!