segunda-feira, 19 de março de 2012

JIVM - PAVÃO MYSTERIOZO

Ilustração: Gustavo Athayde


PAVÃO MYSTERIOZO


A juventude abriga a zoada,
bebe o vinho da aridez
e sente o gozo do oásis.

Em seu canto cabe
o voo imenso do Condor
para dentro de alguma paisagem.

Minha angústia pretende esse voo:
Ícaro partindo para o Sol:
maior de todas as transcendências.

E de repente voar diante dos homens,
Pavão Mysteriozo, pássaro formoso,
mesmo sob essa longa indiferença.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


“Pavão Mysteriozo” é um dos cinco poemas inéditos de JIVM que foram publicados na revista eletrônica Musa Rara. Os poemas fazem parte do livro PEDRA SÓ, a ser lançado em setembro deste ano, pela Escrituras Editora.
Para conferir os cinco poemas e as ilustrações de Gustavo Athayde – Gustha! – basta clicar no link abaixo – e deixem seus comentários no site da Musa Rara:

quarta-feira, 14 de março de 2012

JIVM - ENCRUZILHADA


ENCRUZILHADA


Algo me aflige e não sei o que é.
Sinto relampejos de minhas existências
e não sei o que fazer nem para onde ir.

Vivo a buscar o signo que me presentifique,
que, uma vez enunciado, seja por si.
Estou exausto de ser uma representação.

Tem um bicho dentro de mim que quer
pular para fora de tudo e ser a aurora.

Ah se eu fosse o sol não arderia tanto!


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

EN LA OTRA ORILLA DEL SILENCIO

En la otra orilla del silencio é o título da antologia que será lançada na próxima segunda-feira, dia 27, na Cidade do México. 22 poetas brasileiros contemporâneos foram selecionados pelo poeta paulista José Geraldo Neres e traduzidos para o espanhol pelo poeta mexicano Fernando Reyes. Veja abaixo a relação dos poetas e, ao final da postagem, um de meus poemas que constam na antologia.



EN LA OTRA ORILLA DEL SILENCIO, UNAM, 2012
POESÍA CONTEMPORÁNEA BRASILEÑA

Compilación: José Geraldo Neres
Traducción y Edición: Fernando Reyes

AUTORES: JORGE PIEIRO | R. LEONTINO FILHO | EDSON BUENO DE CAMARGO | NEY FERRAZ PAIVA | PAULO KAUIM | WILMAR SILVA | FLÁVIA PEREZ | JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO | ARTHUR CECIM | DENISON MENDES | MARCO VASQUES | KARINA JUCÁ | KATYUSCIA CARVALHO | DOMINGOS GUIMARAENS | MÁRCIO SIMÕES | AURORA LEONARDOS | BEATRIZ BAJO | RÁDI OLIVEIRA | MARIANO MAROVATTO | DHEYNE DE SOUZA | AUGUSTO DE GUIMARAENS CAVALCANTI | AFONSO HENRIQUE RODRIGUES ALVES |

La Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) a través del Colegio de Ciencias y Humanidades, con el apoyo de Ediciones Libera. Se presentará en la Feria Internacional del Libro del Palacio de Minería (Calle Tacuba # 5, Centro Histórico, de la Ciudad de México) el día 27 de febrero de 2012. 

Remedios Varo - A sétima irmã


SIETE HERMANAS
Para Remedios Varo


Esas siete musas mal asombradas
de cabelleras rubias, mugrientas,
son santas de relicario encarnadas,
traen entre las manos mis siete vidas.

Las cabelleras rubias de esas musas
son enredaderas místicas en rito,
un anhelo claro como un oráculo
escalando las formas breves del mito.

Son siete noches vividas por Borges,
son siete hadas de la isla de Lesbos,
son siete acordes de Joaquín Rodrigo,
son siete facones de Aderaldo, el Ciego.

¡Ah, mis siete hermanas, hijas de Safo,
lamer vuestros culos es mi paraíso!
La plenitud de vuestras entrañas
es un amparo de estos mis delirios.

Siete musas embarazadas, musas graves,
la gravidez no pesa en el abrigo.
Mi voz es un camino ciego
como Borges, Aderaldo y Rodrigo.

Ah, mis siete hermanitas serenas,
vamos a jugar mientras hay tablero,
siete damas-reinas, siete Helenas,
soy vuestro ciervo, vuestro caballero.

Musas oblongas, vientres salientes,
en vuestras carnes calientes yo reparo,
de cabo a rabo, con placer y encanto,
las siete faces de Remedios Varo.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
Traducción: Fernando Reyes

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

JIVM - PEDRAS AMOLADAS, FACAS ATIRADAS



PEDRAS AMOLADAS, FACAS ATIRADAS
Para João Cabral de Melo Neto


Vai, poeta
pega a xara
e amola as tuas facas
e de uma só cutelada
desata a sangria

O olhar já é pétreo:
Vai, tira o couro da poesia
– não temas a carne trêmula –
e inerva os teus versos

Vai, poeta
com tuas facas
destrincha a carne
e nela passa o sal
e estende-a ao sol
                       
Então não é dessa
carne seca que é feito
o teu ritmo?

Vai, magarefe
                       das palavras

Ah poeta
apesar de tuas lâminas
serem as mais afiadas
é a pedra do rim
                          que é
pois com tuas pedradas
descubro e descubro

Vai, poeta doido
                           de pedra.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

TERRA NA VEIA: A POESIA DE JIVM

Por Romério Rômulo

Capa da primeira edição: Ramiro Bernabó - Capa da segunda edição: Fernando Aguiar

1. princípio

cada vez mais antecipo que poesia é auto-revelação. dos sonetos do shakespeare à divina comédia do dante.
do eu do augusto ao cão sem plumas do joão cabral. da rosa do povo do drummond aos sonetos do camões.
dos cantos do neruda aos operários do vinicius. do roseiral do josé inácio ao roçzeiral do gullar.


2. decisão

sertanejo decide nascer. JIVM brotou em alagoas e foi andar nas plagas da bahia. nada impune, que não se faz um sertanejo impunemente. ainda mais poeta.


3. romarias

quantas romarias faz um poeta? por decisão, em motivos que só ele domina, JIVM relata a Terceira:

 “ouvir os deuses do campo
pelos bicos dos passarinhos”

josé já se converteu nos códigos do silêncio e na decifração de abismos. outras palavras caminharam.
josé, firme, que sertanejo anda a cavalo.


4. os passos

a terceira romaria me traz umas cidades invisíveis do italo calvino. mas, cabe melhor sondá-la como fazenda de porteiras rompidas.
caminhei pelo livro e descontrolei uns versos. montei e desmontei poemas, que JIVM merece.

abre:

 “eu, poeta dos sertões,
passarinho do vento nordeste...”

“por teres me escolhido para fundar
os jardins das algarobeiras
e dos mandacarus.”

em “olho d' água”, porteira 1:

“ah, essas cicatrizes, esses calos
pelo corpo e pela alma do menino.
ah, esse deserto de ilusão.”

tudo memória, que essa terra exige memória.

“a poesia era um buraco maior que o buraco.
...............................................................
a poesia lava os pés e as lágrimas.”

JIVM descobre a serventia do verso, descobre a sua devassidão. e relata a ausência de tudo, o vazio descomunal.
sua paz é pródiga:

“a violência
que existia em mim
rasguei na bala.”

ou saga:

 “anjos bêbados anunciando o apocalipse às estrelas:
era um joão batista, era um zé limeira, era eu.”

as dúvidas, perdidas e achadas:

“qual lâmina d'água decepará a dúvida?”

os sertões presentes:

“não me ofereça o paraíso, quero o seixo da estrada.”

na “ribeira de traipu”, porteira segunda:

“de repente dava um redemoinho
na minha cabeça de vento
e já era outra história.”

“lá o documento é a palavra”. dela também se faz o estalo da vida, quando o poeta é convidado a apascentar rochas, nos peitos da vacaria.
na romaria mesmo, “lá me vou com minha cruz/ peregrino de mim mesmo/ no meio da travessia.”
JIVM fala das suas terras, suas valas, seus cercados. um pé de milho pode ser poesia. qualquer oco de mundo vai ser verso. o menino perdido no beiço das estradas, acocorado nas enchentes, se mostra uma revelação do espanto.

“maturi”, penúltima porteira:

“na primeira vez,
senti, pela primeira vez,
o mistério das estrelas.”

e na cantiga de amor:

“és tanto e tudo e como dói a tua ausência.”

as bodas de sangue, em versos de garcia lorca, aparecem. contra os punhais, uma peixeira de 12 polegadas. ferro contra ferro. para antonio gades, morador de havana, nascido nas brenhas e bailador gitano do mundo, há uma oferenda.

na última porteira, “cerca de pedra”, o poeta fecha o verbo:

“o poeta traz os segredos da poeira.
em sua mão pulsa o nó do espanto:
um sorriso bêbado de eternidade:
um poema.”

fechado com cerca de pedra, “ouvindo/ o silêncio das estrelas!”


5. declaro:

por meu fiel amigo manuelzão, guia e personagem do guimarães rosa, que JIVM bebeu em definitivo das águas da poesia. a terra soa nele como praga e bênção.


romério rômulo campos valadares é professor de Economia Política da Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP. Poeta e editor, publicou vários livros de poesia, entre eles Bené para flauta e Murilo (1990), Matéria Bruta (2006) e Per Augusto & Machina (2009).


Prefácio da segunda edição de A terceira romaria, publicada  em 2011.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O PEREGRINO COMBATENTE E SUA OFERENDA DE VERSOS

Por Maria da Graça Gomes de Pina

Foto: Vinícius Xavier
"José Inácio Vieira de Melo apresenta-se em cena literária como um David munido de fisga,
pronto a acertar nas cabeças ‘bicéfalas’ daqueles que oscilam entre verdade e aparência"

Os 50 poemas escolhidos de e por José Inácio Vieira de Melo são uma iniciação, isto é, uma primeira lição vital de primeiros socorros, em que o autor nos ensina como fazer respiração boca-a-boca à poesia e nos mostra como salvá-la da pior morte que pode acontecer a uma arte: o abandono.
Confesso que não sou uma grande conhecedora de poesia. Confesso também que não sei lê-la. Mas confesso principalmente que procurei nunca abandoná-la à aridez e secura do quotidiano, aquele tipo de erosão que nos obriga a procurar uma sombra sob a primeira ponta de verde que venha alegrar ou trazer um pouco de alívio à existência humana.
Foi assim que, com grande surpresa, me deparei com uma recolha de poesias ‘di-versificadas’, composições em que a diversidade de temas, em que o diverso, era simultaneamente uma oferenda de versos. A quantidade extraordinária de temáticas que pululam das suas páginas despistam-nos e ao mesmo tempo norteiam-nos na exploração e desconstrução da obra. Quase nos ocorre aplicar à letra aquele conselho profético do autor, isto é, lançar uma pedra «na cabeça dos ignaros/ para despertar a aurora das ideias» (pág. 57), como se dessa forma estivéssemos eliminando a iminente presença ameaçadora de Golias.
Vieira de Melo apresenta-se em cena literária como um David munido de fisga, pronto a acertar nas cabeças ‘bicéfalas’ (para usar uma expressão do filósofo Parménides) daqueles que oscilam entre verdade e aparência, operando uma transmutação no quotidiano: «Eu tenho uma vontade enorme de que um dia toda a humanidade/ jogue pedras e que Deus receba a pedrada certeira, exata» (pág. 54). A cabeça, um dos elementos que contém e guarda as componentes estruturantes da nossa identidade, é também metonímia do cosmo, em suma, do mundo que habitamos. O autor deixa-nos uma série de indícios para que percorramos a senda do texto, procurando identificar e distinguir nele as manchas da onça da vegetação metafórica que a mimetiza, e assim podermos capturar a fera.
Nesta caça à fera, o leitor é obrigado a questionar-se sobre a sua humanidade e a sua presença no mundo. Os termos princípio (pág. 9), origem (pág. 9), caos primordial (pág. 10), Éden (pág. 13), criação (pág. 14), sémen (pág. 15), cosmo (pág. 21), raízes (pág. 28) são alguns dos muitos vestígios deste animal que nos aprestamos a domar, sem contudo desvirtuá-lo da sua beleza selvagem. A beleza selvagem da poesia, a que atribuí a imagem da onça, lança-nos na busca da essência humana, sendo necessário começar do princípio, isto é, «cantar o ciclo da origem» (pág. 9). E tudo na poesia começa com o avesso do que se considera ser ordem, ou seja, com um questionamento profundo das origens, um imperativo rumar para a metafísica das palavras que nos colocam perante o início de tudo: «Eu venho do caos primordial/ Percorri as searas da escuridão/ (caminhos que não sei)» (pág. 10).


Eis porque em 50 poemas escolhidos encontramos tantas referências ao próprio ato da criação, menções a um caminho que deve ser percorrido ao contrário, quer dizer, avançando na direção do início, para o amanhecer da poesia, e levando calçadas «As minhas sandálias [...] feitas de aurora» (pág. 21).
Trata-se de um começo que se revela por um fiat lux não já divino, mas plenamente humano, pois «– Para quem está no breu/ qualquer lampejo é alumbramento» (pág. 11). A humanidade de e na poesia de Vieira de Melo desvela-se, dizíamos, nesse processo criativo que simboliza a fecundação das palavras pelas palavras. Por essa razão, são imensas as alusões ao ato carnal. O corpo do texto é despido pela sensualidade e volúpia da palavra que, por sua vez, se socorre das imagens corpóreas. Trata-se de um jogo perene entre o sēma e o sōma (usando um trocadilho platónico), entre o significado e o corpo que o assimila. Por meio deste vaivém de signos se fecunda o texto, ou seja, pela poiesis a que nos referíamos antes: «Vinde, minhas éguas, vosso faraó vos espera!/ Puxem meu carro de fogo pelos céus dos êxtases,/ harmonizem vossas forças e me conduzam,/ em galope soberano, pelos reinos dos encantos» (pág. 35).
Seria errado, ou melhor, seria trivial, ler nos versos em aparência mais ‘corpóreos’ unicamente a mensagem de erotismo. A meu ver, a dosagem de significantes que reenviam para o corpo e para as suas sensações representam o encontro do poeta com a poesia, em que se convida o leitor a tomar parte desta reunião, a substituir-se ao poeta, e se realmente se deve falar de ‘ato carnal’, este é apenas o do sacerdote-poeta com a palavra, fazendo dela carne, transformando um sēma em sōma. Podemos encontrar ocorrências em abundância, por exemplo, no uso dos termos gemidos (pág.s 36 e 38), êxtase (pág. 38), saborosos (pág. 39), e isto só para citar alguns. É caso, pois, para seguir de novo o conselho do autor, para prestar atenção à sua ordem: «[...] tira o couro da poesia/ – não temas a carne trêmula –/ e inerva os teus versos» (pág. 53).
Poderíamos arriscar dizer que as cinco partes em que se acha dividida a obra 50 poemas escolhidos aparecem então ligadas por um pentagrama que simbolizaria uma espécie de estrela de David. Com isto não pretendo atribuir uma afinidade religiosa específica ao poeta, mas apenas recuperar a metáfora inicial do peregrino combatente – «Peregrino de mim mesmo/ no meio da travessia» (pág. 25) –, aquele munido unicamente de uma fisga mas que todavia se dispõe a salvar a ‘mente’ do leitor, mirando certeiro à cabeça do gigante Golias. É por este ‘sacudir’ de cabeça, quase em forma de ameaça – «E aí o peixe que existe em tua cabeça/ vai sair pelo ermo do mar procurando, procurando,/ pois os peixes também estão perdidos» (pág. 55) –, que Vieira de Melo enfrenta a poesia, se apodera do seu significado e fá-la sua, insemina-a e acompanha-a depois na sua gestação («E o mistério da vida desenvolve», pág. 71).
O leitor seria então uma espécie de parteira improvisada, no sentido que se veria forçado, pelas circunstâncias relacionadas com o facto de ser o destinatário fruitivo da obra, a ter de trazer à luz o rebento da poesia de Vieira de Melo.
É pelo instante, «[...] novas vidas em instantes» (pág. 71), que devemos medir a leitura dos 50 poemas escolhidos de Vieira de Melo, isto é, pelo aqui e pelo agora – «anuncia a vida e me convida para o agora» (pág. 32) –, sem deixar que estes passem por nós e nos ignorem. Aqui e agora, a saber, o presente, mas um presente que se revela no eterno retorno, num eterno começo de tudo. Esta é, pois, a chave de leitura, diria, da inteira obra, procurando aprender a tocar a «sinfonia de questionamentos» (pág. 60) sem desafinar com os meros «somatórios do eu» (pág. 60).
Nesta rota traçada pela «chama da poesia» (pág. 57), Vieira de Melo, com exímia mestria, mostra ao leitor como recusar-se a ser um quase («Não sei ser quase./ Viver sempre – intensamente –/ todas as fases.// Todas as frases/ dizê-las por inteiro,/ do primeiro ao derradeiro som.// Não sei ser quase», pág. 66), como não abandonar a poesia, em suma, como aprender a cortejá-la e a amá-la como a uma mulher que se deseja com todos os poros do próprio ser. 

José Inácio VIEIRA DE MELO (2011). 50 poemas escolhidos pelo autor. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 99 pág.s.

Maria da Graça Gomes de Pina licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Lisboa. Atualmente é colaboradora linguística na Universidade de Nápoles l’“Orientale”, onde leciona a língua portuguesa. Recentemente discutiu a tese de Doutoramento sobre o “Crioulo de Cabo Verde” na Universidade de Nápoles l’“Orientale”. Ocupa-se de língua e literatura portuguesa, de literatura africana de expressão portuguesa, de língua caboverdiana, e de filosofia antiga. Tem a seu cargo algumas traduções de livros e ensaios filosóficos, ensaios de filosofia antiga, artigos sobre literatura portuguesa, artigos sobre literatura e língua caboverdianas publicados em Portugal, Itália, Brasil, Cabo Verde.


Este artigo foi publicado em dezembro de 2011 na revista virtual Verbo21 (http://www.verbo21.com.br)

sábado, 21 de janeiro de 2012

TRÊS POEMAS INÉDITOS DE ROBERVAL PEREYR


O poeta Roberval Pereyr com os jovens integrantes do Grupo Concriz,
após recital de sua poesia, na cidade de Maracás, no projeto Uma Prosa Sobre Versos


LÍRICO


Na selva de meus dilemas
tratei com feras: palavras.

São belas, são éguas bravas
na alma, que é mãe de éguas.

E perscrutei sob trevas
a nova era e seus mapas:

abri veredas e rotas
às feras que eu libertava.

Ó selvas de meus dilemas
ó éguas da alma, bravas.



RELATÓRIO


Fiz diligências no Ego:
voltei doente; além disso
fui ameaçado de morte.

E a viagem de volta
foi um grande suplício:
entregue à própria sorte

como cego entre lobos
(ou bobo entre espertos)
contornei precipícios

fiz carícias nos vícios,
abracei os perversos.
Foi minha prova de fogo:

foi, na verdade, o jogo
mais difícil e incerto.
Pois se mato ou morro

grande risco corro
de engordar o Ego
– este rei do engodo.



UMA POÉTICA


Verdade e mentira: esculpo-as
no movediço da língua.

Com impreciso cinzel
entalho sombras, seduzo
as faces dúbias da vida.

Mas logo as sombras se esvaem.
E cravo farpas na língua.


Poemas do livro inédito Mirante, vencedor do prêmio da ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA de 2011. ROBERVAL PEREYR natural de Antônio Cardoso-Bahia (1953), em 1964, radicou-se em Feira de Santana. Doutor em Letras (Unicamp), é poeta, ensaísta e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana e um dos fundadores da revista de poesia Hera (Feira de Santana, 1973). Fundou também, ao lado do poeta Pablo Simpson, a revista de poesia Duas Águas. Vencedor de vários concursos literários. Entre os livros publicados, encontram-se As roupas do nu(1981); Ocidentais (1987); O súbito cenário (1996); Concerto de ilhas (1998); Saguão de mitos (1998) e Amálgama – Nas praias do avesso e poesia anterior (2004). Participou em várias antologias, entre as quais A poesia baiana no século XX, organizada por Assis Brasil, e Roteiro da Poesia Brasileira – Anos 80, organizada por Ricardo Vieira Lima. Tem inéditos em romance e novela. Pereyr atua também como compositor e arranjador musical. Possui vários poemas musicados pelo cantor Márcio Pazin, como “Galope”, que conta com bela interpretação da dupla Márcio Pazin e Carol Pereyr, cantora e filha do poeta.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

JIVM - POSSE



POSSE

Poema do livro Roseiral (2010)
de José Inácio Vieira de Melo

Recitado por
José Inácio Vieira de Melo

Direção, imagens e edição
Silvia Schmidt

Olinda – PE, 14 de novembro de 2011

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

JIVM - A ROSA DE VIRGÍLIO



A ROSA DE VIRGÍLIO


Um dia deram-me de presente uma rosa.
Dos ventos suas pétalas eram filhas.
Da puta que tem a rosa mais quente lembrei-me:
aquela que diz que uma rosa é uma rosa
         é uma rosa.

E quando disparei a rosa em meu juízo,
senti um sossego encarnado:
a beleza vermelha do sangue na flor.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

PAISAGEM CENTENÁRIA

José Inácio Vieira de Melo

São vários quadros que se somam para compor esta paisagem centenária. Luiz Augusto Feitoza Ferraz soube, como ninguém, redimensionar o olhar para trazer a lume os encantos do seu torrão, desde a sua mais remota infância – quando tudo ainda é novo e mágico – até as perquirições do homem da metrópole em que se tornou.
Assim, Luiz Augusto apresenta sensações de saudades de um tempo que já não mais existe, mas que é acionado nos recônditos da memória, para vir compor o presente e delinear o futuro, como se pode sentir nos eneassílabos do poema “Acalanto”: “no galope do vento manter/ os mistérios de um doce ninar,/ a ouvir um chocalho de paz/ sob nuvens de emas e ovelhas,/ envolto em paredes rendadas,/ incrustadas de risos e estradas”.
Das flores de fogo dos ferros dos patriarcas de Floresta do Navio é que nasce a caligrafia da sua escritura poética. Sem contar que todo esse imaginário está emoldurado pelas lentes sensíveis e argutas do fotógrafo Diogo Carvalho Leal, que mostra detalhes da arquitetura de Floresta do Navio (“hipnose de um instante/ tão pequeno a eternizar-se”), numa verdadeira colcha de retalhos da paisagem geral, como se estivesse desnudando a alma de seus habitantes, o que proporciona a revelação de sua sutileza e bom gosto.
Enfim, Bonito pra chover é, também, bonito de se ver. Faz gosto dedicar a atenção para esta suíte poética, onde duas artes – Poesia e Fotografia – se combinam, numa espécie de amálgama, e através de suas linguagens específicas celebram a história de um povo e a beleza do seu lugar.
Parabéns aos florestanos e à Floresta do Navio. Sua saga secular está devidamente registrada através dos versos de Luiz Augusto Feitoza Ferraz e das fotografias de Diogo Carvalho Leal: uma verdadeira chuva de beleza na paisagem! Agora, é saborear a sombra e o sabor agridoce dos frutos dos tamarindos florestanos, e esperar “até vir novo dezembro/ e outra história contar/ no sussurro dos três pífanos/ espalhados por zabumbas”.

Apresentação do livro de poemas e fotografias Bonito pra chover (Gráfica Santa Helena, 2007)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

JOÃO CABRAL DE MELO NETO - MORTE E VIDA SEVERINA


Morte e Vida Severina em Desenho Animado é uma versão audiovisual da obra prima de João Cabral de Melo Neto, adaptada para os quadrinhos pelo cartunista Miguel Falcão. Preservando o texto original, a animação 3D dá vida e movimento aos personagens deste auto de natal pernambucano, publicado originalmente em 1956.

Em preto e branco, fiel à aspereza do texto e aos traços dos quadrinhos, a animação narra a dura caminhada de Severino, um retirante nordestino, que migra do sertão para o litoral pernambucano em busca de uma vida melhor.

Direção
Afonso Serpa

Produção Executiva
Mario Lellis
Roger Burdino
Maurício Fonteles

Direção de Produção
Alexandre Fischgold

Roteiro
Afonso Serpa

Assistente de Direção
Felipe Benévolo

Final Cut
Bruno Laranjeiras

Elenco
Gero Camilo
André Ríccari
Vanda Phaelante
Lívia Falcão
Eduardo Japiassú
João Augusto Lira
Jones Melo
Fábio Caio
Vavá Schön

Coro
Diego Cunha
Raphaella Feitosa
Marcela Rossiter
Monteiro Oliveira
Rejane Mansur
Thiago Barba
Miguel Falcão
Socorro Neves
Natasha Neves
Flávia Barbachan
Pedro Caroca
Paulo Bandeira
Isabela Cribari
Érico Monnerat

Trilha Sonora
Lucas Santtana
Rica Amabis

Músicos COnvidados
Marcelo Jeneci
siba

Desenho Sonoro
Maurício Fonteles
Marco Rezende

Estúdio de Dublagem
Onomatopéia Idéias Sonoras

Seleção de Casting
Marcela Rossiter
Raphaella Feitosa

Técnicos de Gravação
Jorge Romão
Bruno Lins

Assistentes Técnicos
Thiago Barba Távora
Neto Alves

Direção de Animação
Felipe Benévolo

Direção de Render e Composição
Bruno Godinho
Lucas Seixas

Direção de Arte
Bruno Godinho
Danilo Lima
Lucas Seixas

Direção de Fotografia
Bruno Godinho
Lucas Seixas

Direção de Produção 3D
Wanderley "Deco" Filho

Modelagem
Hadson Fonseca

Modelagem Adicional
Aurélio Henrique "Jota"
Danilo Lima
Felipe Benévolo
Iúri Lopes
Thyago Cévola
Wanderley "Deco" Filho

Rig
Hadson Fonseca

Rig Adicional
Aurélio Henrique "Jota"
Felipe Benévolo
Thyago Cévola
Wanderley "Deco" Filho

Animação
Apoena Rezende
Iúri Lopes
Thyago Cévola

Animações Adicionais
Alessandra Mota
Aurélio Henrique "Jota"
Fabiana Catunda
Guilherme "Feliz" Peres
Hadson Fonseca

Efeitos Visuais
Wanderley "Deco" Filho

Efeitos Visuais Adicionais
Hadson Fonseca
Iúri Lopes

Textura, Iluminação, Render e Composição
Bruno Godinho
Danilo Lima
Lucas Seixas

Textura, Iluminação, Render e Composição Adicionais
Apoena Rezende
Hadson Fonseca

Estagiários de Animação
Hozielt Huston
Isabela Padilha
Leonardo Perego

Agradecimentos
Cristina Lellis, Marco Lellis
Aleixo, Emerson e Brunico
Daniel Luna

Fundação Joaquim Nabuco

Presidência da Fundação Joaquim Nabuco
Fernando Lyra

Diretoria de Cultura
Isabela Cribari

Coordenadoria-Geral da Massangana Multimídia Produções
Germana Pereira

Coordenadoria de Direção e Criação
Carla Denise

Coordenadoria de Produção
Nilza Lisboa

Coordenadoria Técnica
Carlos Alberto da Silva

Supervisão Geral
Isabela Cribari
Germana Pereira

Encaminhamento de autorização dos herdeiros de João Cabral de Melo Neto
Pesquisa de acervo institucional e briefing sobre obra e autor
Pré-seleção de casting e direção de testes atores | Recife
Carla Denise

Estudo sobre adaptação da obra para audiovisual
Luiz Felipe Botelho

TV Escola

Coordenação Geral de Produção
SUPERVISÃO GERAL DO PROJETO
Érico Monnerat

Direção Geral da TV Escola
Érico da Silveira

sábado, 7 de janeiro de 2012

JIVM - A PUPILA DE NARCISO

Ilustração: Theo Szczepanski


A PUPILA DE NARCISO


Vestido com a graça da Lua,
um cisne no lago do espaço.

Padece o poeta aos pedaços,
no espelho límpido das águas.

Narciso que cintila perdido,
buscando no rosto uma casta.

Até que na espuma dos tempos
salva a legião de afogados.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


“A pupila de Narciso” é um dos seis poemas inéditos de JIVM
que foram publicados no jornal Rascunho, na edição de janeiro de 2012, de nº 141.
Os seis poemas fazem parte do livro PEDRA SÓ, a ser lançado em setembro.
Confira todos os poemas clicando no link abaixo:

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

RESULTADO DO SORTEIO DO LIVRO 50 POEMAS ESCOLHIDOS PELO AUTOR

O sorteio teve 23 participantes.

Os três contemplados foram:

Antemar Campos dos Santos

Maurilio Tadeu de Campos

Vanessa Macias

domingo, 1 de janeiro de 2012

SORTEIO DE TRÊS EXEMPLARES DO LIVRO 50 POEMAS ESCOLHIDOS PELO AUTOR


Caro leitor, serão sorteados três exemplares do livro 50 poemas escolhidos pelo autor, do poeta José Inácio Vieira de Melo.

Para participar do sorteio é preciso ser seguidor do blog Cavaleiro de Fogo.
Caso ainda não seja um seguidor, aproveite para se tornar um (à direita, em SEGUIDORES - logo após a capa do CD A casa dos meus quarenta anos).
Em seguida, basta colocar seu nome completo e seu e-mail no espaço dos comentários desta postagem e responder a seguinte pergunta: Qual o título do texto escrito pelo poeta Affonso Romano de Sant’Anna para a apresentação do livro 50 poemas escolhidos pelo autor?

COMO SERÁ FEITO O SORTEIO:
Os nomes dos participantes serão escritos em pequenos pedaços de papel, que serão dobrados e depois serão colocados dentro de um copo. O copo será sacudido várias vezes e depois serão retirados – um de cada vez – os três pedaços de papel com os nomes dos sorteados.
O resultado será divulgado aqui no blog. Após a divulgação os vencedores deverão mandar seus endereços para o e-mail jivmpoeta@gmail.com

***A promoção é válida até o dia 5 de janeiro de 2012***

* Os comentários desta postagem só serão liberados no dia 6 de janeiro *

* A resposta para a pergunta do sorteio, você encontrará aqui no blog *

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

JIVM - TOADA DA DESPEDIDA

Meus queridos amigos, desejo que 2012 seja um ano de Harmonia em nossas vidas. Que o Amor norteie nossos passos. Saúde, Sucesso e Sorrisos. Paz, Prosa e Poesia. Abraços.
JIVM

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

JIVM - FIAT LUX



F I A T   L U X


Era uma vez o escuro,

e fez-se a luz,
a tênue luz de um candeeiro,

então questionei:
– Mal se divulga um vulto?

O candeeiro flamejou:
– Para quem está no breu
qualquer lampejo é alumbramento.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

TRAVESSIA

José Inácio Vieira de Melo

A outra margem é um título que suscita muitas abordagens, sobretudo quando o assunto é poesia e tem-se como referência um escritor como João Guimarães Rosa, cuja linguagem é um manancial que banha a todos nós, os escritores contemporâneos de língua portuguesa.
As águas de Idmar Boaventura são as mesmas do mestre Rosa, mas são, também, outras bem diversas; digamos que umas se banham nas outras para seguirem seus cursos ainda mais límpidas. Idmar é consciente dessa confluência, e assim, solitário na pluralidade, é um “rio de infindáveis margens”, que busca a terceira margem – lugar dos libertos.
A outra margem não é, necessariamente, o outro lado do rio. Pode ser também um mergulho nas profundezas das regiões abissais do ser humano, pode ser o lugar da incessante busca dessa criatura que está de passagem e que constrói “catedrais/ de vento,/ monumentos/ de plástico”, como a querer perpetuar o seu traço efêmero ou criar condições para “O retorno”.
Neste seu segundo livro, Boaventura nos oferece um “Auto-retrato” existencialista e traz todo o Cosmo em sua íris (“Sou mesmo sozinho./ Todo o universo/ mora em meus olhos,/ e o outro universo/ não me diz respeito”). No que tange ao aspecto formal de sua lírica, é possível fazer aproximações com Antonio Brasileiro e Roberval Pereyr, poetas de sua admiração, assim como com o já citado Guimarães Rosa.
Além dos poemas inéditos, A outra margem reapresenta 19 poemas de seu belo livro de estréia O desossar das horas, vencedor do prêmio Tribuna Cultural 2001, do jornal Tribuna do Sertão, da cidade de Feira de Santana. Nesses poemas, Idmar viola os templos e “viaja até a última fronteira”, numa linguagem seca e apurada que “vaga sem destino/ nos escuros vãos/ da memória”.
Idmar Boaventura é um representante do que há de mais vigoroso na novíssima poesia da Bahia. Seus versos produzidos até agora demonstram seu potencial e já lhe conferem uma credencial. Na verdade, trata-se de um estigma mesmo – Idmar Boaventura é mais um gauche na vida, traz as asas do albatroz, é um fatalizado pela palavra poética.
Ao fazer a travessia para (e por) A outra margem, o leitor vai ter a oportunidade de se banhar nas águas da existência e, como o poeta, descobrir “que entre mim e mim mesmo/ há cem mil léguas de abismo”.

Apresentação do livro de poemas A outra margem (Selo Letras da Bahia, 2008)

domingo, 11 de dezembro de 2011

JIVM NA VII FLIPORTO - REGISTROS

VII FLIPORTO
Festa Literária Internacional de Pernambuco
Olinda - PE – 11 a 15 de novembro de 2011


José Inácio Vieira de Melo e Maria Paula, atriz e escritora, autora de Liberdade crônica, 12/11/2011

 José Inácio Vieira de Melo e Gonçalo M. Tavares, escritor português autor de Jerusalém e Uma viagem à Índia – 12/11/2011

 Fernando Báez, venezuelano, autor de História universal da destruição dos livros, e José Inácio Vieira de Melo – 13/11/2011

 José Inácio Vieira de Melo e Rogério Pereira, editor do jornal Rascunho – 13/11/2011

 Assaad Zaidan, escritor libanês autor de Letras e História - mil palavras árabes na língua portuguesa, Mamede Mustafa Jarouche, tradutor de As mil e uma noites, José Inácio Vieira de Melo e uma jornalista – 13/11/2011

José Inácio Vieira de Melo e Antônio Campos, escritor e curador da Fliporto – 13/11/2011 

 José Inácio Vieira de Melo e Raimundo Gadelha, escritor e editor da Escrituras Editora – Lançamento da antologia de poemas de JIVM 50 poemas escolhidos pelo autor, 14/11/2011

 José Inácio Vieira de Melo lendo o poema "Nero", Lourdes Sarmento, Carlos Souza, Delasnieve Daspet e Vera Passos – Lançamento da antologia de poemas de JIVM 50 poemas escolhidos pelo autor, 14/11/2011

José Inácio Vieira de Melo soltando um aboio no lançamento da sua antologia 50 poemas escolhidos pelo autor, 14/11/2011 

 José Inácio Vieira de Melo no lançamento da sua antologia 50 poemas escolhidos pelo autor, 14/11/2011

 José Inácio Vieira de Melo no Mirante da Ribeira, Olinda – Alt Fest Fliporto, 14/11/2011

 Na Oca das Artes no Alt Fest Fliporto no Mirante da Ribeira – Adriana Mayrinck, JIVM, Silvia Schmidt , Tuppan Poeta, Alexandre Revoredo e Stephany Metódio , Ricardo Lisboa, Daniela Galdino, Beliza Parente e Lorenza Mucida, 14/11/2011

José Inácio Vieira de Melo e Maria Paula, atriz e escritora, autora de Liberdade crônica, 14/11/2011

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

TROPIKAOS - O NOVO CANGAÇO CULT

José Inácio Vieira de Melo


Carlos Drummond de Andrade intitulou seu primeiro livro de Alguma Poesia. Júlio Lucas resolveu chamar seu poemário de Novamente Poesia, que é um título bastante curioso para um livro de estréia. Paradoxal, à primeira vista, traz nas entrelinhas um sentido de renovação, como se o poeta quisesse mostrar que a poesia se renova toda vez que um poeta publica um livro.
“Das canções de alma”, nomenclatura da primeira sessão, diz muito do universo poético de Júlio Lucas. Sua ligação com a cultura pop, sobretudo com a música popular brasileira, é uma marca que sobressai nas três partes em que está dividido o livro. As outras duas são “Das canções de vísceras” e “Novamente Poesia”.
As canções ouvidas pelo autor ao longo de sua existência ficaram de tal modo impregnadas no seu íntimo que condicionaram o ritmo de seus versos. Ao ler os poemas de Júlio Lucas, a impressão que fica é de que uma canção está sendo executada. Por vezes, a marcação é de uma balada suave a seduzir a sua amada; em outros momentos, os versos seguem o andamento de um blues – e tudo é dito de modo espontâneo, celebrando o cotidiano, com seus entraves e seus encantos.
No poema inicial, “Muito prazer”, Júlio se apresenta como “herói de faroeste caboclo” “do Novo Cangaço Cult”. E vai deixando pistas das suas referências poéticas, que passam pelo rock brasileiro – representado nos versos acima citados pela alusão à música “Faroeste caboclo” da banda Legião Urbana – e pelos poetas Waly Salomão e Ferreira Gullar, sobretudo o Waly escrachado e o Gullar da poesia social.
Júlio conclui sua apresentação, dizendo ser “todos estes faróis de banidos que vos falam”.  E fala do alto de sua patente de cangaceiro, quiçá um novo Virgulino Ferreira da Silva. E fala com a coragem de um guerrilheiro, quiçá um novo Ernesto Guevara.
O novo Cangaço Cult parece ser o cenário da sua estética, que se fundamenta nos anseios tropicalistas, expostos e explorados no poema “Tropikaos”, que desvenda, desafia, desfia, chuta, extrai, sorve e cospe “nos pretores culturais/ na coerência puritana/ na estética estática”.
E outras referências afloram no decorrer da leitura. Desde “os pincéis flutuantes de Pollok” até “a falsa modéstia de Tom Zé”. São tantas influências explícitas! É melhor deixar para que o leitor atento tenha o prazer de descobri-las. Mas uma se destaca com tanta intensidade, na sessão “Novamente Poesia”, que é preciso fazer menção, trata-se do poeta paranaense Paulo Leminski, o bandido que falava latim, com o qual Júlio dialoga na maioria dos poemas desse capítulo. E é aqui que Júlio Lucas se realiza melhor enquanto poeta, criando hai-kais que dão mostra do seu poder de síntese e de sua inclinação para a poesia minimalista. Um belíssimo exemplo é “Arte de menino”:

Menino lança a pedra
Quica salpica no espelho d’água
E a vidraça do céu estilhaça

Quem é capaz de fazer um poema com esse poder imagético, pode dizer que tem um caminho poético a seguir. E mais não precisa ser dito, os poemas falam por si.

Prefácio do livro de poemas Novamente Poesia (Ponto e Vírgula, 2011)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

10ª BIENAL DO LIVRO DA BAHIA - POESIA, SEMPRE VIVA - REGISTROS

10ª Bienal do Livro da Bahia
Mesa redonda: Poesia, sempre viva
Debate com os poetas Ângela Vilma, Antonio Brasileiro e Mariana Ianelli.
Mediador: José Inácio Vieira de Melo
Fotos: Ricardo Prado
Data: 5 de novembro de 2011

 José Inácio Vieira de Melo

 Mariana Ianelli, Antonio Brasileiro, Ângela Vilma e José Inácio Vieira de Melo

 Ângela Vilma

 Mariana Ianelli, Antonio Brasileiro, Ângela Vilma e José Inácio Vieira de Melo

Mariana Ianelli

 Antonio Brasileiro, Ângela Vilma e José Inácio Vieira de Melo

 Antonio Brasileiro

 Mariana Ianelli

 José Inácio Vieira de Melo

Mariana Ianelli, Antonio Brasileiro, Ângela Vilma, José Inácio Vieira de Melo e o público

 Antonio Brasileiro, Mariana Ianelli, José Inácio Vieira de Melo e Ângela Vilma

 Mariana Ianelli e José Inácio Vieira de Melo