Domingo, 5 de Julho de 2009

VERÔNICA DE VATE - CARLOS BARBOSA

foto Ricardo Prado
CARLOS BARBOSA nasceu em 17 de maio de 1958, na fazenda dos avós maternos, no Brundué falado, município de Oliveira dos Brejinhos, vale do rio Paramirim, que deságua no de São Francisco. Criado em Ibotirama, margem direita do Velho Chico, cursou o ensino médio no Colégio Central, em Salvador. Estudou Odontologia na UFBA, curso que abandonou no último semestre para estudar Jornalismo, na mesma universidade. Até então cometia seus versos, escrevia letras de música, participava de festivais e teve seu primeiro texto em prosa premiado no Concurso Permanente de Contos do Jornal da Bahia (1977). Trabalhou na assessoria de comunicação da Caixa Econômica Federal na Bahia e na Matriz, em Brasília, onde ocupou cargos de assessor, gerente, chefe de divisão e gerente executivo da área de publicidade. Estudou Direito na UniCeub, em Brasília. Publicou seu primeiro livro de poemas, Água de Cacimba, em 1998. O segundo livro de poemas, Matalotagem e outros poemas da viagem, veio em 2006 pelo Selo Letras da Bahia. Em 2002, a Bom Texto Editora publicou seu romance A dama do Velho Chico, selecionado pelo MEC para o PNBE 2009. Em 2002, ainda, foi premiado pelo Ministério da Cultura por adaptação do romance A dama do Velho Chico para longa-metragem, no Concurso de Desenvolvimento de Roteiros realizado naquele ano. Em 2004, participou da antologia Poesia de Brasilia, organizada por Joanyr de Oliveira, e da Antologia do Conto Brasiliense, organizada por Ronaldo Cagiano. Mantém um blogue na Internet “contosempre.zip.net”. Mora em Salvador.


A PORTA NO CHÃO

há duas portas em meus olhos
do tipo corta-fogo

há uma dura mão-de-pilão
em meu coração

e minhas mãos colhem
toda manhã
o orvalho que cobre meu peito

há sempre uma porta no chão,
meu eterno tropeço

CARLOS BARBOSA

CARLOS BARBOSA - LEMBRANÇAS DE VIAGEM


LEMBRANÇAS DE VIAGEM

Ele não se lembra bem como aconteceu. Perdeu o controle do carro e saiu da estrada. Assim como quem sobe a calçada para cumprimentar pessoas, ele e o carro tocaram árvores, uma depois da outra, e quedaram-se, cada qual em seu cantinho de mato.
Não tardou muito e os outros surgiram no local do acidente. Primeiro, curiosos; depois, sorrateiros.
Ele os viu, um a um, revirarem o carro e levarem seus pertences; depois, assistiu depenarem seu próprio corpo - não podia mexer-se, não podia falar.
Os outros o deixaram lá, gaveta revirada, e foram cuidar de suas vidas. Disso ele se lembra bem.

CARLOS BARBOSA

AOS NAVEGANTES

Por José Inácio Vieira de Melo

Para seguir viagem com Carlos Barbosa é preciso de pouca coisa. Matalotagem e outros poemas da viagem tem de quase tudo. Que rumo iremos tomar? Qual o destino? Não importa! A bússola do nosso timoneiro tem como norte magnético a poesia.
Então, começaremos por fazer um passeio pelo leito do “Poema em nove gotas para um rio franciscano”. Conosco estarão todos aqueles que um dia deslizaram pelas águas brasílicas do Velho Chico - desde as nações indígenas até o navegante italiano Américo Vespúcio, que o nomeou. Dentro do poema franciscano, as nove gotas clamam pela renovação das águas cálidas, que banham a integridade do país: “mirem:/ o rio está só!// sintam:/ o rio míngua!// ouçam:/ o rio geme!”. Carlos Barbosa rege cada movimento desta suíte de olhos bem abertos. Das pupilas de seus versos, podemos sentir toda emoção que dedica às águas do rio que perpassa a sua infância e a sua cidade de origem, Ibotirama. Mas sabe também que “o pôr-do-sol nas águas/ vale mais que a cidade// vale mais que a veleidade/ de qualquer humana obra”.
Ao sairmos das águas do Rio São Francisco, avistaremos um poemário de temáticas diversificadas, dividido em duas partes: “Matalotagem” e uma seleta da “Poesia anterior”, publicada em seu livro de estréia, Água de cacimba (1998). E é aí que se confirma a coerência lírica do poeta, pois, apesar da profusão de assuntos, sua caligrafia não treme e a linha de seus versos livres continua seguindo os mesmos caminhos tortos condicionados pelo homem que é.
Caçador manco de seguir formigas”, anuncia a sua verdade: “nenhuma plenitude me atrai”.
E assim, fazendo “Exposição de motivos”, duvidando da própria sombra, Carlos Barbosa nos brinda com a água profunda de suas estrofes. Seja nos poemas inéditos ou na seleta dos já publicados, homenageia Brasília, cidade onde viveu (“busco-me entre poeiras planaltinas/ meu nariz perde o faro na esplanada”); dialoga com os poetas Manoel de Barros (“o livro sobre nada é tudo/ que resta daquela noite”) e Zé Limeira (“meu jejum é recheado/ de orvalho e de poesia”), que são algumas de suas principais referências; faz uma “Georação baiana” – espécie de itinerário místico por várias cidades da Bahia; e compreende que “o pior pecado é esquecer o caminho”. E nos alerta: “fugir, jamais/ escapar, sempre”.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

SAPIRANGA CONVIDA

Sapiranga ConVida
Temporada no Goethe Café (Pátio do ICBA)
Corredor da Vitória - Salvador - Bahia
Dias 07, 14, 21 e 28 de julho de 2009
Horário: 20 horas - Couvert: R$ 8,00

É o palco, a sala da casa do artista. Os elementos vívidos prevalecem em seu canto, gestos, expressões e sentidos que num facho de luz, cor e sombra dão forma, com seus versos, a outra vida que se recria a partir do seu universo.
Sapiranga

Sapiranga ConVida - Um espetáculo que revela as faces do Artista brasileiro, inventivo, vetor, antena do mundo, inteiro...

Sapiranga nesse espetáculo apresenta canções da Zona da Mata e também de Músicas Ebulição, ou seja, que demonstram vigor e contemporaneidade e que apontam outros rumos para a música brasileira. Serão apresentadas canções que falam de Amor e política (pensamento Social), reunindo vários estilos do Cancioneiro Nordestino.
O foco principal é a junção entre a Música e a Poesia. Os convidados especiais para cada noite, além de músicos de grande representação no cenário baiano e nacional, são também poetas do mesmo quilate. Para isso, sempre teremos a presença de Músicos e de um Poeta, a cada noite.
As canções que serão apresentadas em Sapiranga ConVida correspondem as várias facetas musicais que coabitam o pensamento do compositor, que utiliza os diversos ritmos brasileiros para compor o seu repertório. Um desses ritmos, o Caboclinho, é original do litoral baiano e é tido como a principal expressão da fusão da música Indígena com a música Negra. Sapiranga apresentará o Caboclinho de forma tradicional e moderna, em sua maneira peculiar de reinventar os ritmos e mexer em sua estrutura sem alterar a essência.
Nessa temporada, que contará com quatro espetáculos durante o mês de julho, Sapiranga receberá como convidados o cantor e compositor Alexandre Leão, o violonista e compositor Amadeu Alves e o poeta José Inácio Vieira de Melo; o cantador Tom Tom Flores, a cantora, violinista e rabequeira pernambucana Laila Rosa e a poetisa Lita Passos; o violonista Robson Barreto, a cantora e compositora Laura Dantas e o poeta Cardan Dantas; o cantor e compositor Roberto Mendes e o poeta Damário Dacruz. Todos esses artistas, em um enlace harmonioso, demonstrarão a diversidade e comunhão da nossa Bahia miscigenada.
Acompanhando Sapiranga, em toda a temporada, estarão os Multi-Instrumentistas, Antenor Cardoso e o Príncipe Uesdra.

Sapiranga ConVida - Programação

07/07 - Alexandre Leão, Amadeu Alves e José Inácio Vieira de Melo

14/07 - Tom Tom Flores, Laila Rosa e Lita Passos

21/07 - Robson Barreto, Laura Dantas e Cardan Dantas

28/07 - Roberto Mendes e Damário Dacruz

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

VERÔNICA DE VATE - ADELMO OLIVEIRA


ADELMO José de OLIVEIRA nasceu em 13 de maio de 1934, na cidade de Itabuna, na Bahia. Em 1962, sob um júri formado por nomes de expressão da literatura brasileira, como Manuel Bandeira, Austregésilo de Athayde, José Carlos Lisboa e Pio de Los Casares, recebeu o Prêmio Nacional Luis de Góngora com ensaio “Góngora e o Sofrimento da Linguagem”. Formado em Direito pela Universidade Federal da Bahia, 1966, participou do Movimento Cultural baiano escrevendo estudos, ensaios e poesias para os principais jornais e revistas de Salvador.
Publicou entre outros títulos: Canto da Hora Indefinida, 1960; Três Poemas, 1966; O Som dos Cavalos Selvagens, 1971; Cântico Para o Deus dos Ventos e das Águas, 1987; Espelho das Horas, 1991; O Canto Mínimo, 2000, Poemas da Vertigem (Antologia Poética), 2005. Participou de várias Antologias Poéticas editadas na Bahia, no Sul do País e no Exterior. Exerceu atividade política contra a Ditadura Militar, sendo preso por duas vezes e torturado. Foi eleito Deputado Estadual à Assembléia Legislativa do Estado da Bahia pelo antigo MDB em 1978.


BALADA DOS ERROS DE UM PROFETA


Joys laugh not! Sorrows weep not!
William Blake

Man, an explosion
walking through the night
in rich and intolerable loneliness
Walt Whitman


Trago para dentro do mundo
Longos dias sem manhã
Longas noites sem aurora
– Estrelas caídas de bruços
No vazio

Trago para dentro do mundo
A Voz – signo obscuro do medo
Grito de silêncio devorado pela esfinge
– Pedra-enígma da mente
Na vertigem

Trago para dentro do mundo
O Sol – zodíaco das trevas
– Touro selvagem empalhado
Cuja língua vomita da boca
Sangue coagulado

Trago para dentro do mundo
A Terra – bólide errante das esferas
– Assobio de náufragos e transeuntes cegos
Que trauteia um eco surdo nos ouvidos
E nos passos que se perdem

Trago para dentro do mundo
A Lua – corvo branco da noite
Que ludibria o terror das sombras
Que dissimula a morbidez da loucura
E afia seus punhais contra o desespero dos dragões

Trago para dentro do mundo
Este navio sem origem
– Este porto sem mar
Cuja âncora atraca na raiz das ruínas
Arquivos de ilusão

Trago para dentro do mundo
Aquilo que é o meu corpo
Aquilo que é a minha alma
– Sopro veloz de um único suspiro
Entre o início do princípio e o ocaso do fim


ADELMO OLIVEIRA
Ipitanga 14.02.2004

ADELMO OLIVEIRA - MONÓLOGO DAS VISÕES DO ACASO
















MONÓLOGO DAS VISÕES DO ACASO


Abro a boca das palavras
Sou a fala
Sou o grito
Sou um eco de silêncio do infinito
que perturba a razão deste enigma

Abro a boca das palavras
Sou a voz de um planeta aflito
– De carne
– De osso
– De espírito

– Espelhos do corpo e da alma
Sou um código que multiplica
estrelas andarilhas

Abro a boca das palavras
Sou mais treva que dia – sou o mito
Sou a multidão que delira
num palco que gira – que gira
entre a volúpia dos sonhos
o terror das máscaras
e o trânsito das coisas vazias
– Sou na paisagem veloz
um comboio de vagões
correndo atrás da fantasia

Mas
sentimentos são vísceras
– De cada paixão
– De cada amor
– De cada cicatriz
saltam milhões de travessias
E nem é preciso acordar no céu
os dragões da lua
E nem é preciso cravar na luz do peito
uma flor

Sentimentos são vísceras
– Se caio sobre um lençol de espumas
– me crucifico
– Se mais eu grito – a eternidade me confina

Enquanto a noite abrir a porteira dos dias
e pensar o coração
O verso nunca termina
– Da imaginação
nasce o ritmo e a melodia
– Poesia é a matriz dos sonhos e dos delírios
Cálice que derramei de vinho
na fronteira da página que lia

Abro a boca das palavras
– Acima ou abaixo dos anéis de Saturno
Do telescópio à periferia
Sentimentos são vísceras
– Trapézio que a mão trepida
sobre um fio de lâmina
Que equilibra – que equilibra
O impulso trágico da vida.


ADELMO OLIVEIRA

Praia da Aleluia, 19.12.06
Ipitanga

LINGUAGEM E VERTIGEM EM ADELMO OLIVEIRA

Izacyl Guimarães Ferreira

Num de seus mais belos poemas, “Traduzir-se”, Ferreira Gullar nos diz “uma parte de mim é só vertigem/ outra parte linguagem”.
Em seu belo livro Poemas da vertigem (Edições Arpoador, 2005) o poeta Adelmo Oliveira junta as duas partes, expressando sua vertigem – amorosa, mística, metafísica – numa linguagem a um tempo direta e clara e com algo de misteriosa, sobretudo na primeira seção, “Baladas”. Na segunda, a dos sonetos, a imposição da forma fixa o obriga a uma expressão menos difusa ou cifrada, pois sua estética é a de quem busca ser entendido.
Na terceira seção, “Outros poemas”, as formas são livres. Ao longo de todo o livro, perpassa um sentimento de insatisfação, apenas aqui e ali inexistente.
Que vertigens expressa? Nos últimos versos do livro, no poema “Elegia do largo dos quinze mistérios” o poeta confessa: “Do outro lado do tempo / A canção é vazia /A paixão é morta / A estrela é fria// A palavra / A palavra é só a solidão escrita.
Para chegar a esta conclusão cheia de angústia, seus versos vertiginosos no que dizem, mas controlados no dizer, constroem uma atmosfera pesarosa que só nos sonetos parece mais aliviada.
Mas o leitor atento pode, sem mesmo começar a ler o livro, antecipar o que o espera, pois a contra-capa reproduz um soneto que não deixa dúvida quanto ao teor geral do livro:

Eu sou um velho ator sem palco e sem platéia
Que traz no cais do peito antigas ilusões
E do pouco que sabe interpreta lições
De palhaço que alegra os meninos da aldeia

Basta o dia raiar pelas bandas da aurora
- Levanta - bate a porta - e vai ganhar a rua
- Tropeça no silêncio em que flutua a lua
- Restos de solidão caminhando lá fora

Esqueço a dor - o espelho - as marcas do meu rosto
- Produtos do salário em que se paga o imposto
Cobrado pelo tempo e pelas fantasias

Andarilho do vento atravessando o acaso
Deixo a tarde no céu - o meu relógio atraso
E assim faço de mim a profissão dos dias


Até mesmo as epígrafes do livro emolduram o desconsolo enorme desta bem realizada poesia de um autor ciente de sua arte, pois vai escolher do otimista Walt Whitman estes versos:

"Man, an explosion
Walking through the night
In rich and intolerable loneliness"

Maria da Conceição Paranhos assina um douto posfácio que bem de perto acompanha a poética de Adelmo, que imerso nestas vertigens consegue um rigor expressivo que só a experiência de um veterano sabe manter, juntando insólitas imagens e dores autênticas e profundas, não só suas, mas de uma visão de mundo que pode ser tida como queixa universal.
E as dualidades dos poemas são muito bem caracterizadas pelo título feliz do posfácio: “Poeta da sábia e profética inocência”. Elucidativa também da poética de Adelmo é a epígrafe do posfácio, de um texto de G: Bataille, “L’Impossinle”, de 1962:

La poésie n’est pas la connaissance de soi-même,encore moín l’experience d’un lontain possible ( de ce qui auparavant n’était pas) mais la simple évocation par des mots de possibiltés inaccesibles.”

Chega a ser deplorável que um poeta deste porte, já passado dos setenta, não tenha o reconhecimento de sua arte, ainda que conhecido em sua Bahia e com obra extensa e diversificada. Mas o tempo saberá corrigir suas falhas.


Izacyl Guimarães Ferreira escreve, traduz e comenta poesia. Edita a revista “O Escritor” e o portal www.ube.org.br, da União Brasileira de Escritores, em São Paulo, entidade da qual é Presidente do Conselho. Tem 15 livros publicados, entre eles "Discurso urbano" (2007), vencedor do Prêmio de Literatura 2008 da Academia Brasileira de Letras , categoria poesia.

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

UM GRANDE ENCONTRO

Este encontro aconteceu no dia 21 de abril de 2009, durante a 9ª Bienal do Livro da Bahia. Mais uma vez meu amigo Ricardo Prado, grande fotógrafo, estava presente e fez não apenas um registro de um encontro de escritores, mas revelou atravez de suas lentes a mágca da amizade de pessoas que amam a literatura. O encontro aconteceu no Largo Dois de Julho, em Salvador. Começou no restaurante Líder, onde almoçamos. Guiomar de Grammont, talentosa escritora mineira e musa do nosso encontro, teve que partir antes mesmo da refeição terminar, por ter um compromisso na Bienal. Então ficamos em seis, contando com a presença de Ricardo, que apesar de não aparecer nas fotos, por ser o artista das lentes, foi uma presença marcante. Para mim, foi um momento singular, dentre tantos que ultimamente a literatura tem me proporcionado.

Mayrant Gallo (BA), Márcio Souza (AM), Guiomar de Grammont (MG), José Inácio Vieira de Melo (AL - BA), Ronaldo Correia de Brito (CE - PE) e Lima Trindade (DF - BA). Fotógrafo: Ricardo Prado (MG - BA)

José Inácio Vieira de Melo, Guiomar de Grammont e Mayrant Gallo

Márcio Souza, autor dos romances “Galvez – imperador do Acre” e “Mad Maria”; Lima Trindade, autor dos livros de contos “Todo sol mais o espírito santo” e “Corações blues e serpentinas”; José Inácio Vieira de Melo, autor dos livros de poemas “A terceira romaria” e “A infância do centauro”; Ronaldo Correia de Brito, autor do livro de contos “Faca” e do romance “Galiléia”; e Mayrant Gallo, autor do livro de contos “O inédito de Kafka” e do livro de poemas “Recordações de andar exausto”.

Em pé: Mayrant Gallo e Ronaldo Correia de Brito. Sentados: José Inácio Vieira de Melo, Lima Trindade e Márcio Souza. Fotógrafo: Ricardo Prado.

Mayrant Gallo, José Inácio Vieira de Melo e Ronaldo Correia de Brito

José Inácio Vieira de Melo, Ronaldo Correia de Brito e Márcio Souza

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

HAI-KAIS AOS MESTRES II

José Inácio Vieira de Melo


O ANDARILHO

Adelmo Oliveira:
vertigens de um andarilho
na sua algibeira.


O ESPANTALHO

Francisco Carvalho,
centauro dos epitáfios,
rei dos espantalhos.


O INVENTOR

É Gerardo Mello
Mourão da nossa nação
o inventor o Homero.

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

VERÔNICA DE VATE - DAMÁRIO DACRUZ

DAMÁRIO DACRUZ é Soterocachoeirano, nascido em Salvador e Cidadão da Cidade de Cachoeira, no recôncavo baiano. Poeta, fotógrafo, jornalista, publicitário e produtor cultural. Graduado pela UFBA e pós-graduado pela UNIFACS em comunicação. Faz poesia há 40 anos, começou em 1968, quando recebeu o prêmio de revelação da Seliba. Liderou movimentos de cultura e arte na universidade. Lutou pela Anistia política e contra a ditadura, foi editor de vários jornais de cultura, diretor de literatura da Fundação Cultural, sindicalista, gerente, coordenador de comunicação publicitária de empresas nacionais e multinacionais. Fotógrafo com várias exposições no Brasil e no exterior Sua poesia se espalha por centenas de jornais, revistas, sites, blogs e paredes da América Latina. Muitas. Prêmios, conferências e viagens a muitos lugares distantes e por diversas vezes. Três livros e mais de 30 posters-poemas publicados. Criador e coordenador- geral do Pouso da Palavra, espaço de arte, cultura e comunicação, em Cachoeira. Pertence a geração de poetas da Bahia dos anos 70/80. Atualmente exerce o cargo de coordenador de propaganda do Governo da Bahia.
*
Damário Dacruz vai apresentar-se, no próximo dia 5 de junhoo, no projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, Bahia, coordenado por Edmar Vieira. Participação especial do Grupo Concriz, que apresentar um recital com poemas de Damário. O Grupo Concriz é composto por 22 jovens da comunidade maracaense e coordenado pelos irmãos Marcelo Nascimento e Vitor Nascimento Sá.


TODO RISCO


A possibilidade
de arriscar
é que nos faz homens.

Vôo perfeito
no espaço que criamos.

Ninguém decide
sobre os passos
que evitamos.

Certeza
de que não somos pássaros
e que voamos.

Tristeza
de que não vamos
por medo dos caminhos.


DAMÁRIO DACRUZ

DAMÁRIO DACRUZ - CERTO VÔO



CERTO VÔO

Cada
pássaro
sabe
a rota
do retorno.

Cada
pássaro
sabe
a rota
de si.

Cada
pássaro,
na rota,
sabe-se
pássaro.

DAMÁRIO DACRUZ

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

9ª BIENAL DO LIVRO DA BAHIA - PRAÇA DE CORDEL E POESIA

O GRANDE ENCONTRO DOS POETAS BAIANOS

Para a Praça de Cordel e Poesia, na 9ª Bienal do Livro da Bahia, que aconteceu do dia 17 a 26 de abril, da qual fui curador e coordenador, convidei 101 poetas, um número bastante significativo. Artistas da palavra, de vários territórios do Estado, desfilaram seus versos durante os dez dias de celebração do livro, da palavra literária, da poesia e da leitura. Confira, abaixo, alguns momentos da Praça de Cordel e Poesia.

17/04 - JIVM e Carlos Moisés

17/04 - José Inácio Vieira de Melo

17/04 - Barná Cardoso, Raiça Bomfim e Gibran Sousa

17/04 - Antônio Barreto e Franklin Maxado

¹7/04 - Edgar Velame e Ivan Maia

18/04 - Leandro Tranquilino e Paraíba da Viola

19/04 - Marcus Vinicius Rodrigues, Martha Galrão e Nívia Maria Vasconcellos

20/04 - Wesley Correia, Sérgio Silva e Emmanuel Mirdad

21/04 - JIVM recitando entre a platéia

21/04 - Gina Alves, Ivana Karoline, Caroline Brito e Matheus Machado (Grupo Concriz - poetas, recitadores e afins, da cidade de Maracás)

21/04 - JIVM e Grupo Concriz (Gina, Ivana, Marcelo Nascimento, Vitor Nascimento Sá, Hermann Henrique, Matheus, Carol e Edmar Vieira)

21/04 - Antônio Barreto e Maria da Conceição Paranhos

23/04 - Thiago Lins, Georgio Rios, JIVM e Paulo André

23/04 - Jotacê Freitas

23/04 - Elizeu Moreira Paranaguá, Vânia Melo e Herculano Neto

24/04 - Kátia Borges e Mayrant Gallo

25/04 - Xangai, Cardan Dantas, Washington Queiroz e Paulo Pedro Pepeu

26/04 - Sapiranga

26/04 - Carla Visi

26/04 - Carla Visi lendo o poema "Jardim das Algarobeiras", do livro "A infância do Centauro", de José Inácio Vieira de Melo

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

VERÔNICA DE VATE - CARLOS RIBEIRO

foto Ricardo Prado
CARLOS RIBEIRO nasceu em Salvador - Bahia, em 19 de agosto de 1958. Jornalista, ficcionista, ensaísta, mestre e doutorando em literatura pela Universidade Federal da Bahia, é autor dos livros Já vai Longe o Tempo das Baleias (contos. Salvador: Fundação Cultural da Bahia, 1982), O Homem e o Labirinto (contos. Salvador: BDA Bahia, 1995), O Chamado da Noite (romance. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1997), O Visitante Noturno (contos. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo, 2000), Caçador de Ventos e Melancolias: um estudo da lírica nas crônicas de Rubem Braga (ensaio. Salvador: Edufba, 2001), Abismo (romance. São Paulo: Geração Editorial, 2004), Lunaris (EPP/Banco Capital, 2007) e À luz das narrativas: escritos sobre obras e autores (Edufba, 2009). Participa das antologias e coletâneas Oitenta, Geração 90: Manuscritos de computador (São Paulo: Boitempo, 2001), Chico Buarque do Brasil (Rio de Janeiro: Garamond,2004), Antologia de contos e crônicas de autores baianos contemporâneos (Salvador, 2004), Contos cruéis (São Paulo: Geração Editorial, 2006), Antologia panorâmica do conto baiano - século XX (Ilhéus: Editus, 2006), Quartas histórias (Rio de Janeiro: Garamond, 2006), Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte (São Paulo: Geração Editorial, 2008) e Travessias singulares: Pais e filhos (Rio de Janeiro: Casarão do verbo, 2008). Tem trabalhos publicados em suplementos culturais e revistas literárias, a exemplo de A Tarde Cultural, Revista da Academia de Letras da Bahia, Revista da Bahia, Exu, Qvinto Império e Rascunho. Em 1988 venceu o concurso de contos promovido pela Academia de Letras da Bahia e, desde 1998, co-edita a revista de arte, crítica e literatura Iararana. Dedicou-se durante muitos anos à divulgação científica, tendo participado de expedições à Antártida, Amazonas e diversas reservas naturais brasileiras. É membro da Academia de Letras da Bahia e professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB/Cachoeira.
*
Carlos Ribeiro vai apresentar-se, no próximo dia 30 de maio, no projeto Travessia das Palavras, na cidade de Jequié, Bahia, coordenado por Leonam Oliveira e José Inácio Vieira de Melo. O evento vai contar com a participação especial do cantor e compositor Nuno Menezes.


NOITE


A noite hoje veio mais cedo. Nem as galinhas recolhiam-se aos poleiros, nem os sapos coaxavam na floresta, nem os pássaros repousavam do vôo diurno e o mundo cobriu-se de sombras.

No meu quarto sumiram, como por encanto, as derradeiras réstias de luz. Não sei se perceberam-nas os lavradores no campo, as lavadeiras do rio Paraguaçu, as inocentes criancinhas a tocarem burricos nesta terra sem fim e sem começo. A noite é como lembranças de amigos que não voltam mais.

A noite veio mais cedo hoje, e antes mesmo que viesse já a antecipara num crepúsculo de cores derramadas no vasto céu, fonte de tudo que há. O gado pastava no campo, indiferente. Nem o cavaleiro freava o cavalo, nem as luzes se acendiam nas cidades, nenhuma porta se abria ao viajante.

Assim, rapidamente, como num assalto, apossaram-se as sombras do mundo, e ante a indiferença dos demais, uniram-se numa só, gigantesca, a projetar-se na imensidão.

Desde então, recolhido em sombra, laboro em sonho formas singelas de luz.

CARLOS RIBEIRO

CARLOS RIBEIRO - VENTO MENINO

Menino: Ian Vinícius

VENTO MENINO

Chove. Pela janela o menino vê as árvores dançando nas tormentas, e no campo as folhas giram em redemoinhos vigorosos. E enquanto o vento a todos suscita terrores, ao menino oferta o fascínio.

Que medo faz essa dança de elementos indomáveis? Que medo traz o zumbido do vento, quando o coração do menino é o vento e a terra em seu contínuo devir?

O menino não está onde os olhos claros refletem os raios, mas lá mesmo, flanando, explodindo, bramindo, gritando, sentindo. Vento menino que colhe o tempo e o carrega para além das almas. Menino vento que toca o sino da igreja, na torre mais alta da sua alegria.

E enquanto for vento ninguém lhe dirá: fique quieto, menino! E ninguém poderá detê-lo: nem as ordens do rei, nem decretos-lei, nem as normas do bom viver. Que bom viver sem normas, vento-rei de tudo, que além de tudo é menino e voa feliz sobre a face do rio.

CARLOS RIBEIRO

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

9ª BIENAL DO LIVRO DA BAHIA - CAFÉ LITERÁRIO

Antonio Calloni e José Inácio Vieira de Melo
Tema: Atualmente, a internet é o lugar da poesia?

Coordenado por Guiomar de Grammont, o Café Literário da 9ª Bienal do Livro, do dia 19 de abril de 2009, apresentou, às 20 horas, os poetas Antonio Calloni e José Inácio Vieira de Melo, que além de discutirem sobre o tema proposto, discorreram também sobre o fazer poético e sobre a recepção da poesia nos dias atuais. Os poetas leram poemas de seus livros mais recentes: Paisagem vista do trem (Antonio Calloni) e A infância do Centauro (José Inácio Vieira de Melo). Parte da família de JIVM veio das Alagoas para assistir o evento. A noite de poesia foi encerrada com JIVM soltando um aboio de Vavá Machado e Marcolino, os Bridões de Ouro do país das Alagoas, mesclado por versos de João do Vale, compositor maranhense de valor singular. O registro deste encontro poético ficou por conta do grande fotógrafo Ricardo Prado.
fotos Ricardo Prado











Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

JIVM - GRÃO DE AREIA

foto Ricardo Prado

Antonio Calloni lendo o poema Grão de areia, de José Inácio Vieira de Melo


GRÃO DE AREIA

Para Carlos Moisés Soglia de Melo


Meu filho, vês aquele grão de areia?
É o teu pai nascendo para os mistérios.
E o que está agora a compor teus pensamentos
é a poeira cósmica dos intergalácticos sertões
pelos quais percorreu o grão de areia
até chegar aqui e nascer para este mundo.

Meu filho, aquele gigante que nos espreita?
É a sombra do grão de areia de onde vieste,
é o grito de teu pai mirando o Cosmo
e te invocando para o sacrifício da vida.

Meu filho, aquele seixo é o teu começo.
Tu o conduzirás às alturas das tuas possibilidades
em um sonho de aventuras e esperanças
que quando finda começa, e é assim mesmo.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

ANTONIO CALLONI - VERMELHO

foto Ricardo Prado
José Inácio Vieira de Melo lendo o poema Vermelho, de Antonio Calloni


VERMELHO


Vermelho espelho
espelha o seio
o seio rosado
de canto sereia

No seio segredo
de leite eterno
de seio espelhado
no espelho vermelho

E o barco do homem
no espelho alado
avista o seio
no espaço rasgado

Mares e seio
na unidade matéria
descendem do Deus
homens, grutas, artéria

Eterno e contínuo
o espelho espelha
seios, barcos, homens
além do olhar
da cona
do falo
além do suar
espelha a mulher
a cantar a beijar
o homem do barco
ferido de ar
pelo fogo da língua
sereia e luar

O espelho vermelho
espelha o corpo lunar
corpos lua
corpos luar
e o barco do homem
viaja no ar
do canto sereia
corpos
lua
luar


ANTONIO CALLONI

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

HAI-KAIS AOS MESTRES

José Inácio Vieira de Melo


O FATALISTA

Nos olhos do cão:
Alberto da Cunha Melo
– vate e furacão.


A MÍSTICA

Conceição Paranhos:
Maria – santa em delírio,
seus versos me banham.


O SEMEADOR

José Chagas planta
sementes no sentimento:
silêncios que cantam.

Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

VERÔNICA DE VATE - ÂNGELA TOLEDO

Ângela Toledo pintando os muros do Morro de São Paulo

ÂNGELA TOLEDO POR ÂNGELA TOLEDO
De Miracema (RJ), onde nasci em 10 de outubro de 1963, mudei-me para Salvador, em janeiro de 1986, onde trabalhei em agências de publicidades como a Publivendas (Fernando Carvalho) e DM-9 (Duda Mendonça). Em Salvador comecei a publicar meus poemas em folhetos, influenciada na época pelos "Poetas da Praça" e pelos intelectuais e escritores que frequentavam o "Quintal - Raso da Catarina" no Campo Grande.
Desde 1991, moro em Morro de São Paulo (município de Cairu-BA), povoado turístico da ilha de Tinharé, na Costa do Dendê. Lá, ao lado de Beto Bahia e Fernanda ViaCava, fundei o Grupo Ensaio, o primeiro do gênero em Morro.
Depois de quatro "folhetins", lancei 40 modelos de poemas postais em série de 8, ilustrados por artistas diferentes. Lancei um poema cartaz com foto de Claude Santos e no total foram sete livros alternativos sendo que o primeiro, Azul (1995), teve apresentação de Jorge Mautner e o último, Vaga Lume, foi publicado em 2004. São livros muito simples e afora os dois mencionados os outros foram feitos por mim mesma. Faço também camisas e bolsas com poesias minhas, em pintura e silckreen. Pinto os muros com poemas, que viraram atração turística aqui no Morro.
Apresento performances ou recitais de Poesia no Teatro do Morro (toda quarta-feira), e onde sou convidada. Organizei durante onze anos a "Semana da Poesia do Morro de São Paulo" de 11 á 14 de março, mantive um projeto de educação sócio-ambiental (voluntariado) e a criação do Grupo Poema Doido com as crianças do projeto.
Este ano retomei meus estudos para concluir o 2º grau. Trabalhei muitos anos como babá, doméstica, balconista, enfermeira, fotógrafa e garçonete. E tenho amigos excepcionais que me enchem de orgulho e alegria já por serem meus amigos.
*
Ângela Toledo vai apresentar-se, no próximo dia 9 de maio, no projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, Bahia, coordenado por Edmar Vieira. O projeto conta com a participação especial do Grupo Concriz, que vai apresentar um recital com poemas de Ângela.

Mural de Ângela Toledo

SILÊNCIO

Tem silêncio em mim,
que não me deixa nem
silenciosamente escrever.
Tem um silêncio em mim,
que ninguém consegue ver
que se perde em si próprio
de tanto se saber.
Tem um silêncio em mim, que
se guarda e se separa,
que se acalma, mas não pára,
que se esconde mas não se cala.
Tem um silêncio em mim,
que nem sei de onde vem:
talvez venha de alguém
e se guarde não sei prá quem.

ÂNGELA TOLEDO

Terça-feira, 5 de Maio de 2009

BRASIL O EL UNIVERSO SUMERGIDO DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Carlos Andrés Almeyda Gómez

Fotógrafo: Ricardo Prado

Bien podría decirse del poeta brasileño José Inácio Vieira de Melo (Dois Riachos, Alagoas, Olho d’Água do Pai Mané, 1968) que, en él, la fuerza de una nueva poesía no sólo se junta -en reflexiva y elevada alquimia- con el decir ‘pial’ o primitivo de buena parte de las letras anteriores, hermanadas más con la idiosincrasia del mito que con las rupturas habituales de las generaciones que le siguen, sino que además logra conciliar varios discursos en un tono mediático, existencial. Y es que, la verdad sea dicha, desde fenómenos como la antropofagia y los cantares pastoriles que suplantaron en el Brasil aquellos ataques modernistas que padecía el resto de nuestro continente, la poética imperante subrayó una suerte de primitivismo en el que lo lírico sometía algunas nociones subjetivas al terreno de la ruralidad, de ahí que en Vieira de Melo -cercano en todo caso a una poesía de raíces populares, ejemplo de ello es su primer libro Códigos do Silêncio, y posteriormente decantada tras la adopción de nuevos y poliformes guiños- el poema conlleve a un diálogo tangible entre lo geográfico, lo ancestral y una voz foránea a la retórica de esos acontecimientos que marcaron a poetas alagoanos como Jorge de Lima.
En este, su tercero libro, A Terceira Romaria, se hace claro el porqué de su título, dado que hay una multitud en compleja conversación, hay una turba de voces que revelan, como lo afirmara el poeta Lêdo Ivo, un “lirismo cortante como el filo de una navaja, una poesía que, antes árida, esconde y guarda una lluvia secreta”. De una voz en mutación, de la suma de vicisitudes y el personal universo en expansión que le lleva a terrenos metafísicos puede citarse Ciço Cerqueiro, uno de los poemas más representativos en A terceira Romaria y del cual Hidelberto Barbosa Filho nos informa con acierto en su prólogo: “la precisa transmutación de ese yo-poético asimila la singularidad de una mirada e idiosincrasia particular, por medio de una empata perceptiva, bien cercana a poetas en fase de maduración”.
Esa “simbología cultural” es el guiño más visitado en la poesía de Vieira de Melo. Salta a la vista, además, su clara disposición al juego interdisciplinario, digamos que esa norma de transito que hace de un poeta joven, una especie de pequeño santuario de afectos. La alusión a sus autores, la estructura profunda que delata lo suyo y que a la vez crea lazos con esos amores ‘foráneos’: El sesgo, o más bien la influencia, de aquellos autores que asoman en el intertexto. Federico García Lorca por ejemplo, de quien Vieira de Melo ha sacado no sólo el título de su poema Bodas de sangre: “¿Qué belleza es esta que tanto me incomoda? (…) ¿O qué anuncian tus inquisidores y translucidos ojos?”. Luego, la cuestión se resuelve, hay formas y lenguajes en un dialogo, una puesta en escena desde el trópico -el verde Brasil- con un frío aire de requiebro gitano, teatro de sincretismos: “Todo en ti es doble, señora del amor brujo. / En tus manos se multiplican los gestos y las bendiciones / y con tus manos dices más que cien mil bocas juntas…”.
Con Paraíso perdido, como Milton, el texto poético toma fuerza, sin tener que romper la simplicidad para demostrar que alude a una compleja maquina, la alquimia del verso es su fuerza para expresarse desde un universo tan pequeño, sin nada que le delate como artificial o esquivo:

Quizá no te acuerdes de la flor
ni mucho menos del rocío,
pero si miras hacia dentro
descubrirás el jardín y la fuente.

De los poemas del libro, Construcción, es uno de esos raros o apológicos textos que hablan del Vieira de Melo anterior al autor que aflora de otros poemas en el libro, es decir, es algo más experimental en cuanto a su decir, como un ars poetica del joven que permanece tras el laboratorio de imágenes de A terceira Romaria.
El sentido onírico que parece ocultarse en algunos trechos del libro demuestra hasta que punto Vieira de Melo ha sabido reunir en un solo espécimen poético tal cantidad de imágenes y recuerdos que no sólo la vivencia es la que se aflora, si no que hay un sin número de convidados que dicen lo suyo, otra vez esa ‘romaria’, las pasiones vitales en ebullición y una pluralidad sometida al bien de un universo particular.
Finalmente, véase como la diversificación en significantes y temáticas hace que Vieira de Melo pueda salir airoso al acartonamiento del ‘arte pastoril’ del cual abrevaron sus poemas inaugurales, viene a revitalizar, tras una búsqueda más intuitiva y a la vez más universal, un discurso diletante y reconciliador, ese micromundo que ayuda a la poesía local o continental a salvarse de las taras que otras generaciones la han impuesto. El universo de José Inácio Vieira de Melo es precisamente eso, la mutación de una voz en conflicto con la estética que la cohabita, un asunto de magia literaria.


Carlos Andrés Almeyda Gómez es colombiano. Éditor de la Revista Artificios y director del periódico de libros Lecturas Críticas.

Texto publicado na revista Agulha, em Fortaleza e São Paulo, em janeiro/fevereiro de 2007

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

VERÔNICA DE VATE - KÁTIA BORGES


KÁTIA BORGES é jornalista, formada em Comunicação Social pela Ufba e especialista em Gestão da Informação em Multimeios (FTC) e Análise do Discurso Audiovisual - Televisão, Cinema e Vídeo(Ufba). Desde 1995, trabalha no jornal A TARDE, onde atualmente é uma das editoras da revista semanal "Muito". Poeta, lançou o primeiro livro, "De volta à caixa de abelhas", em 2002, pelo selo As Letras da Bahia. Tem poemas publicados em duas coletâneas, "Sete Cantares de Amigos" e "Concerto Lírico para 15 vozes", e incluídos no projeto "Mídia Poesia", parceria entre TVE e Rede Bahia. Foi selecionada, ainda, para integrar a coleção "Roteiros da Poesia Brasileira", no livro dedicado aos poetas dos anos 2000, a ser lançado pela Editora Global. Tem poemas publicados em revistas eletrônicas, como "Sibila", "Panaroma da Palavra", "Rascunho", "Máquina da Palavra" e "Jornal da Poesia". Já participou de diversos projetos de recitais e encontros com leitores, como "Malungos", "Poesia na Boca da Noite", "Travessia das Palavras" e "Semana de Letras da Ufba". Edita o blog "Madame K" (http://www.mmeka.wordpress.com/) e escreve também para teatro, tendo participado no ano passado da peça "Batata!", do grupo baiano Dimenti, com o texto "O escorpião amarelo".


AO SOL


Sair ao sol,
encarar o dia,
sem medo das sombras
que insistem.

Sim, sair de dentro
e ver a rua e o mundo,
com ruídos, entre dentes,
buzinas, rangidos, vômitos,
sob a luz que escorre
na cidade quente.

No meio fio,
sentar e apreciar a paisagem,
com seu tanto de Guernica, de guerra civil
mascarada por rostos
sorridentes.

Sair ao sol,
enquanto chove
intermitantemente.


KÁTIA BORGES

KÁTIA BORGES - DESASSOSSEGO



DESASSOSSEGO


Na porta da mercearia
de bairro, fumo um cigarro,
o primeiro do dia, após
um acontecimento que
não é de amor ou de poesia.

Na porta da mercearia,
sonhos antigos passam,
acenam, pedem adeus.
Ah, Deus, se vão,
“com o mistério das coisas,
por baixo das pedras e dos seres”.

Três moedas tilintam no bolso
da bermuda xadrez, ouço
uma canção distante.
Peço que tirem os chapéu
sem respeito aos meus sonhos
mortos, um momento solene
no café, algo que celebre
esta melancolia ou a dilacere de vez.

(E, como este “fumo leve
que foge entre meus dedos”,
segue o segredo de viver sem culpas
que desconheço)

Na porta da mercearia de bairro,
pouco importam os astros,
e a água da Lua. Na Terra, só
esta secura envolta em bruma.
Na Terra, só este desassossego…


KÁTIA BORGES

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

GABRIEL INÁCIO SOGLIA DE MELO - DOIS ANOS

“Clareia manhã, clareia! Abre as janelas manhã
E deixa esta casa cheia com teu cheiro de romã"


O dia começa. Hoje, meu filho caçula, Gabriel Inácio Soglia de Melo, está completando dois anos de idade. Neste momento, estou em Salvador. Gabriel, em Jequié. Sei que está acordando, sei que seus cabelos anelados trazem notícias dos sonhos dos querubins. Gabriel galopa no vento, Gabriel traz os segredos da poeira em suas mãos. Gabriel é o sopro da esperança a movimentar meus dias. É o ânimo, o brilho que chega em minha alma e a faz delirar. Gabriel Inácio é a poesia que existe neste momento e eu posso sentir sua presença em cada movimento do meu ser, do meu espírito, do meu intelecto.
Gabriel, meu filho, sopro ao vento esta oração e louvo tua presença, e te digo daqui, de todos os lugares do meu ser, anda sempre pelo caminho do bem e busca sempre a felicidade. Parabéns, meu filho querido.
JIVM

Fotos: Ricardo Prado

"Gabriel traz os segredos da poeira em suas mãos"

" A mim ensinou-me tudo/ Ensinou-me a olhar para as coisas"

"A Criança Eterna acompanha-me sempre."

Sábado, 18 de Abril de 2009

JIVM NO CAFÉ LITERÁRIO - 9ª BIENAL DO LIVRO DA BAHIA

Tema: Atualmente, a internet é o lugar da poesia?



Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

41

Fotógrafo: Ricardo Prado

“Não existe um só homem que algum dia já não tenha pegado uma navalha em suas mãos e que ao mesmo tempo não tenha pensado em como seria fácil cortar o fio prateado da vida”
Lord Byron

Ufa! Escapei dos quarenta!
Agora que cheguei aos 41, posso confessar que fazer 40 anos foi um dos momentos mais difíceis e terríveis da minha vida. Senti um desespero tão grande... Uma dor no peito, uma tristeza. É que descobri que não era imortal. E aí percebi que já não tinha mais aquele corpo vigoroso, que não tinha chegado a lugar nenhum e que todos me olhavam desapontados. Na verdade, eu é que estava desapontado com tudo. E comigo.
Mas aí o mal já estava consumado, o dia 16 de abril de 2008 passou. E as dores na coluna foram ficando mais fortes. E eu só pensava em sumir. E o pior que não era sumir no mundo não. Eu sentia vontade de sumir do mundo. Mas aí vinha a lembrança de meus filhos e, em algum cantinho, esboçava-se um sorriso dentro de mim. Ah! estes filhos maravilhosos! Mas aí vinha o pensamento: “eu sou um irresponsável! Como é que fui colocar filhos neste mundo miserável! Para viver uma existência mesquinha, limitada e sem sentido”. Cheguei mesmo a desejar não estar vivo.
Mas me agarrei com meus poetas – os santos culpados – e fui tocando em frente. Um dia depois do outro mergulhado em profunda tristeza. Até que um dia comecei a ler um livro de um japonês chamado Akutagawa, um sujeito que se suicidou aos 35 anos com uma dose de Veronal. Antes, escreveu um conto chamado A vida de um idiota. Quando o li, percebi quanto daquela maneira de ser estava dentro da minha, o quanto éramos parecidos, irmanados. Ao final do conto, o personagem – ele próprio – pedia desculpas à mulher e aos filhos por suas limitações, lamentava mesmo a infelicidade deles em o terem como pai, e por aí seguia.
Foi então que percebi que o caminho seguido por Akutagawa não era o meu. Lembrei-me de minhas origens sertanejas, lembrei-me de meus delírios de poeta. Senti vontade de dá um passo e depois outro e outro e outro. Senti necessidade de caminhar, caminhar apenas por caminhar. E as coisas começaram a vicejar de novo, os versos voltaram a brotar no meu ser.
Aí, eu saí daquela depressão, abandonei a tristeza e fui cuidar em viver. Viver cada momento. Viver por viver. Viver até a hora que de certo. Viver até morrer de tanto viver.
E, agora, cá estou com 41 anos. Cheio de vontades. Meus filhos e minha mulher dormem. Estão com saúde. Eu também com saúde. Muitos livros para ler. Um livro para publicar. Muitos projetos. Amanhã começa a Bienal do Livro. Estarei lá com meus companheiros, levando a palavra poética ao sentimento das pessoas. Agora, posso dizer: este é um momento de felicidade.
JIVM
Quero celebrar este momento com poesia – música que toca em minha alma:

Um Poeta é um rouxinol
que se senta na escuridão
e canta para se confortar
da própria solidão com belos sons;
seus ouvintes são como homens arrebatados
pela melodia de um músico invisível,
que se sentem comovidos e em paz,
ainda que não saibam como nem porquê.

PERCY BYSSHE SHELLEY

Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

PRAÇA DE CORDEL E POESIA – O GRANDE ENCONTRO DOS POETAS BAIANOS

Por José Inácio Vieira de Melo


Para a Praça de Cordel e Poesia, na 9ª Bienal do Livro da Bahia, foram convidados 101 poetas, um número bastante animador. Artistas da palavra, de vários territórios do estado, desfilarão seus versos durante os 10 dez dias de celebração do livro.
São poetas das mais diversas vertentes. Alguns, célebres, como Maria da Conceição Paranhos, Antonio Brasileiro e Ruy Espinheira Filho. Outros, estreantes, dando seus primeiros passos, como os editores da revista Entre Aspas: Georgio Rios, Paulo André e Thiago Lins ou os editores da revista Na borda da xícara: Fabrício de Queiroz e Max da Fonseca. Vários deles, ainda inéditos, postando seus poemas em blogs criativos e sonhando com a publicação do primeiro livro, como é o caso de Martha Galrão, Raiça Bonfim, Emanuel Mirdad e Priscila Fernandes.
Os cordelistas vão dar um colorido especial para a Praça, apresentando seus tipos extraordinários, ou ainda, descrevendo as personagens de destaque de sua comunidade com traços bem engraçados. Antonio Barreto, Franklin Maxado e Jotacê Freitas são alguns dos nomes representativos da literatura de cordel que estarão presentes, assim como um expressivo grupo de novos cordelistas da Bahia, sendo Tarcísio Mota um dos mais jovens, com 18 anos. As mulheres também marcarão presença. Maysa Miranda, Creusa Meira e Gilmara Cláudia mostrarão que a força feminina também vigora no cordel.
Além dos cordelistas, a Praça de Cordel e Poesia vai contar com a participação das duplas de repentistas: Paraíba da Viola & Tranquilino e Caboquinho & João Ramos, e da dupla de emboladores Palito & Braz.
Como já foi dito, poetas de vários territórios da Bahia participarão do evento, o que reflete uma das prioridades da Secretaria de Cultura do Estado, que é descentralizar a cultura, ou seja, desconcentrar a atenção dos territórios do Recôncavo e da Região Metropolitana de Salvador, e valorizar também os outros 24 territórios de identidade da Bahia. Desta maneira, desde poetas dos territórios do Baixo Sul e do Litoral Sul até poetas dos territórios do Portal do Sertão e do Piemonte Norte do Itapicuru estarão presentes mostrando para o público a força artística proveniente do seu lugar de origem.
E de todos os rincões da Bahia afloraram poetas para participar da Praça: o cordelista José Olívio, do Agreste de Alagoinhas; os poetas Georgio Rios e Inaê Sodré, da Bacia do Jacuípe; Leonam Oliveira e Jussara Midlej, do Médio Rio de Contas; Júlio Lucas, cosmopolita do território de Itaparica; e Edmar Vieira, Vitor Nascimento Sá e Marcelo Nascimento, integrantes do Grupo Concriz, do Vale do Jiquiriçá. O grupo Concriz, proveniente da cidade de Maracás, é um dos destaques da Praça de Cordel e Poesia. Sua força jogralesca e o aprimoramento técnico de seus recitais têm rendido elogios de grandes nomes da literatura baiana, como Florisvaldo Mattos, Roberval Pereyr e Ruy Espinheira Filho.
E mais: Moacir Eduão, do território de Irecê; José Walter Pires, do Sertão Produtivo; Herculano Neto, do Recôncavo; Nívia Maria Vasconcellos, do Portal do Sertão; Antonio Naud Junior, do Litoral Sul; Vânia Melo e vários outros da Região Metropolitana de Salvador. Para completar o time, Walter César, poeta beat da Aldeia de Arembepe. E muitos, muitos outros grandes talentos.
A Bahia, berço da poesia brasileira, é acolhedora por natureza. Poetas nascidos em outros Estados e em outras Regiões encontraram alento no seio da terra de Gregório de Mattos. E aqui aportaram Ivan Maia e Héber Sales, oriundos do estado de Pernambuco; Mônica Menezes, de Sergipe; Eliana Mara Chiossi, de São Paulo; Fabrícia Miranda, do Rio de Janeiro; Thiago Lins e Nuno Gonçalves, do Ceará. Nomes certos na Praça.
Outro grupo representativo que vai marcar presença no evento é o Poetrix. Criado pelo poeta Goulart Gomes, o movimento espalhou-se pelo mundo afora, tendo hoje mais de 200 mil adeptos. A Praça vai ter onze integrantes do Poetrix, uma verdadeira seleção. Seis dos poetrixtas são de outros Estados: Regina Lyra (PB), Lílian Maial (RJ), Marilda Confortin (PR), Hércio Afonso, Pedro Cardoso e Reneu Berni (DF).
Além desta pluralidade de poetas, representantes de praticamente todos os territórios de identidade do Estado, o projeto vai contar com a força cênica do ator Jackson Costa, com a interpretação suave e sensível da bela cantora Carla Visi e com a presença marcante do cantador Sapiranga. Jackson vai recitar poemas de Castro Alves e de Patativa do Assaré. Carla vai interpretar poemas de Cecília Meireles que foram musicados por Raimundo Fagner. Sapiranga vai mostrar o telurismo de suas composições.
A Praça prestará homenagem aos poetas Patativa do Assaré e Antônio Vieira. Patativa, pelo seu centenário de nascimento, e Antônio, artista singular da Bahia, pelo seu falecimento em 10 de junho de 2007. Os dois poetas terão seus poemas recitados ao longo da Bienal. Albert e Alexandre Vieira, filhos do poeta baiano, declamarão cordéis de seu pai.
Antônio Vieira apregoava que “os nomes dos poetas populares/ deveriam estar na boca do povo”. No grande encontro dos poetas da Bahia, na Praça de Cordel e Poesia, eles serão proferidos em alto e bom som, ecoando por dez dias para mais de 250 mil pessoas ouvirem.

José Inácio Vieira de Melo é poeta, jornalista e produtor cultural. Curador e coordenador da Praça de Cordel e Poesia.

Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

9ª BIENAL DO LIVRO DA BAHIA - PRAÇA DE CORDEL E POESIA



9ª BIENAL DO LIVRO DA BAHIA
PRAÇA DE CORDEL E POESIA
COORDENAÇÃO E CURADORIA:
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


Dia 17 (sexta-feira)

18h - POESIA
Inaê Sodré
Raiça Bomfim
Gibran Sousa
&
Barná Cardoso

19h 10min - CORDEL
Antonio Barreto
Franklin Maxado

20h 20min - POESIA
Edgar Velame
Ivan Maia
Jackson Costa


Dia 18 (sábado)

18h - POESIA
Fabrícia Miranda
Júlio Lucas
Leonam Oliveira

19h 10min - CORDEL
Paraíba da Viola
&
Leandro Tranquilino

20h 20min - POESIA
Antonio Brasileiro
Ruy Espinheira Filho


Dia 19 (domingo)

18h - POESIA
Antonio Naud Júnior
Rita Santana
Idmar Boaventura

19h 10min - CORDEL
NOVOS CORDELISTAS DA BAHIA:
Carlos Neves
Creusa Meira
José Olívio
Rogério Snatus
Tarcísio Mota
Osmar Machado Jr.
&
Igor Reis

20h 20min - POESIA
Martha Galrão
Marcus Vinícius Rodrigues
Nívia Maria Vasconcellos


Dia 20 (segunda-feira)

18h - POESIA
Emanuel Mirdad
Sérgio Silva
Wesley Correia

19h 10min - CORDEL
Carlos Alberto
Davi Nunes
Pardal do Jaguaribe
Lucas de Oliveira

20h 20min - POESIA
Adriano Eysen
Eliana Mara Chiossi
Walter César


Dia 21 (terça-feira)

18h - POESIA
MOVIMENTO POETRIX:
Goulart Gomes
Hércio Afonso
Jussara Midlej
Lílian Maial
Marco Bastos
Marilda Confortin
Oswaldo Martins
Pedro Cardoso
Regina Lyra
Reneu Berni
Sandra Mamede

19h 10min - CORDEL
GRUPO CONCRIZ:
Caroline Brito
Edmar Vieira
Gina Alves
Hermann Henrique
Ivana Karoline Machado
Marcelo Nascimento
Mateus Machado
Pablo Sá
Vitor Nascimento Sá

20h 20min - POESIA
Maria da Conceição Paranhos
Luis Antonio Cajazeira Ramos


Dia 22 (quarta-feira)

18h - POESIA
Bernardo Almeida
Fabrício de Queiroz
Max da Fonseca

19h 10min - CORDEL
Palito
&
Braz

20h 20min - POESIA
Damário Dacruz
Lita Passos
Wladimir Cazé


Dia 23 (quinta-feira)

18h - POESIA
Georgio Rios
Paulo André
Thiago Lins

19h 10min - CORDEL
Jotacê Freitas
Sergio Bahialista
&
Gutemberg

20h 20min - POESIA
Elizeu Moreira Paranaguá
Vânia Melo
Herculano Neto


Dia 24 (sexta-feira)

18h - POESIA
João de Moraes Filho
Nuno Gonçalves
José Ricardo Vidal

19h 10min - CORDEL
Crispiniano Neto
Albert Vieira
Alexandre Vieira

20h 20min - POESIA
Kátia Borges
Mayrant Gallo


Dia 25 (sábado)

18h - POESIA
André Galvão
Mônica Menezes
André Guerra

19h 10min - CORDEL
Caboquinho
&
João Ramos

20h 20min - POESIA
Cardan Dantas
Paulo Pedro Pepeu
Washington Queiroz


Dia 26 (domingo)

18h - POESIA
Heber Sales
Priscila Fernandes
Moacir Eduão

19h 10min - CORDEL
NOVOS CORDELISTAS DA BAHIA:
Gilmara Cláudia
Maysa Miranda
João Augusto
José Walter Pires
Alemão do Ceará
Zezão Castro

20h 20min - POESIA
Carla Visi
Sapiranga

Segunda-feira, 30 de Março de 2009

APRENDENDO COM ESTE MENINO A MONTAR CENTAUROS DE RELUZENTE POESIA

Alexandre Bonafim

"Meu cavalo e eu - Centauro do Sertão" - JIVM

O lirismo de José Inácio Vieira de Melo atinge-nos em nosso âmago, justamente por ser uma lírica atenta ao que o homem tem de mais fundo, mais intenso. Pungente, sem deixar de ser leve; existencial, sem abandonar a alegria viva, a poesia de José Inácio é bíblica, sacra, pois revela em nosso cotidiano um pergaminho de epifanias. Com efeito, há nesse lirismo, preciso e cortante, feito apenas de palavras necessárias, aquele vislumbrar em perpétuo encanto, tão característico das crianças e dos loucos. E é por comungar com esse olhar “auroral” da infância, dos delirantes, que a sua palavra desvela o mágico, o mítico, no chão batido do cotidiano. Há versos do poeta que são verdadeiro choque elétrico e nos cativa, emociona, com a precisão dos prestidigitadores; versos lapidares, nascidos já perfeitos, pois irrompem daquele “coração selvagem” joyciano, do inconsciente coletivo a nos desvelar no eterno mesmo, no velho a se renovar infinitamente, para sempre: “Para quem está no breu/ qualquer lampejo é alumbramento”, “Somente os olhos dizem/ o que as palavras sonham”, “a despedida é a véspera do encontro”, “os mitos vestem o meu nome”. Versos que já nascem como epígrafes da própria vida.
O encantamento da linguagem, a flamejante “alquimia do verbo” de Rimbaud, seduz-nos já no título do livro (e que título belo!) e em poemas dignos de serem antologiados entre os melhores feitos em nosso atual cenário literário. Esse é o caso do poema que recebe o mesmo título do livro:

Eu venho do caos primordial.
Percorri as searas da escuridão
(caminhos que não sei).

Desse tempo sem memória
nasce a consciência dos dias
(como não sei, invento).

Fantasma de barro,
preciso de um amálgama
e que teus olhos me afirmem.

Sou um centauro escarlate
e galopar na infância
é a minha metafísica.


Moisés e Gabriel - filhos de JIVM

Na poesia de Inácio o mítico desnuda a vida, abre possibilidades de existência capazes de dar um fundamento ontológico ao homem, esse mesmo homem, órfão, da pós-modernidade, massacrado pela tecnologia, pelas máquinas, pelo consumo. Nesse sentido, o mítico surge como fonte de existência, alimento de alma a nos humanizar, a nos trazer um gosto de sacralidade, de vivacidade. Por isso é bom lembrar as palavras de Gusdorf “o mito tem por função [...] justamente tornar possível a vida. É assim que ele dá um embasamento às sociedades humanas permitindo-lhes que durem.” Lembrando o sempre importante recado de Alfredo Bosi: poesia é resistência à reificação e, se assim é, a poesia de Inácio resiste aos nossos tempos de barbárie, permitindo a permanência da nossa sociedade. Poesia-esperança, poesia-louvor, poesia-vida, eis o que encontramos em A infância do Centauro. Eis o que encontramos nesse belíssimo poema, ponto alto de sua obra:

RIBEIRA DO TRAIPU

Ainda sinto o entardecer na Ribeira do Traipu,
ainda sinto a terra arada e fecundada pelos grãos de milho.
E, amanhã, quando chover, o verde fervilhará,
e sentirei o sabor das baixadas do Traipu
na espiga de milho assada na fogueira de São João,
na centelha azul da minha infância, na brasa dessa lembrança.

Na brasa da minha mão sinto a tarde queimando,
traduzindo mistérios em matizes rubros,
lá na Ribeira do Traipu, onde ficou aquele menino,
no meio do tempo, olhando pros quatro cantos,
sem entender nada, buscando voltar para onde não sabia.

Trago dentro o menino perdido nos beiços das estradas,
acocorado na beirada do Traipu, em época de enchente,
esperando um não sei quê passar, talvez um papagaio cego,
nos destroços do que foi uma mesa, a anunciar o caminho de casa.

Afirma Bahchelard “sempre sonhar será mais que viver”. É justamente por viver na nudez dos sonhos, por incendiá-los com o lume vivo da infância, que José Inácio nos brinda com a surpresa sempre nascente da poesia.


BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
GUSDORF, Georges. Mito e metafísica. São Paulo: Convívio, 1980.
MELO, José Inácio Vieira de. A infância do Centauro. São Paulo: Escrituras, 2007.


Alexandre Bonafim nasceu em Belo Horizonte. Atualmente mora em Franca, interior de São Paulo. É poeta, ensaísta e professor de literatura brasileira. Publicou os livros Biografia do deserto (2006) e A outra margem do tempo (2008).

Quinta-feira, 26 de Março de 2009

FLORISVALDO MATTOS - NÃO AOS CAVALOS TRIUNFANTES

Ilustração: Ângelo Roberto


NÃO AOS CAVALOS TRIUNFANTES
Aos meninos de My-Lai


Não me tragam esses cavalos.
Não, não me dêem nenhum deles.

Nem o de Alexandre Magno
que comeu os mitos do oriente.
Nem o cavalo de César
que riscou o chão da Gália
foi à Espanha e voltou
para acabar com Pompeu.

Nem o intrépido corcel de Aníbal
na derrota de Cartago.
Nem o fero potro de Átila
de patas excomungadas.
Não, nem mesmo Babieca,
o louco cavalo do Cid.

Nenhum daqueles valentes
fortes cavalos cruzados
cobertos de ferrarias:
grandes cavalos blindados
heróis da Idade Média
salvação da cristandade.
Nem o branco de Napoleão
empinado sobre os Alpes
suando revolução.

E outros cascos triunfantes
outras crinas memoráveis
cavalos como bandeiras
sejam árabes ou romanos
espanhóis ou americanos
não me dêem esses cavalos!

Para mim de nada servem
as ferraduras de sangue
que chagaram geografias.
Esse peitoral de bronze
dizimador de cidades
arrasador de sementes.

O fogo de suas narinas
pulou séculos e mapas
transformou povos em cinzas
e ainda queima os espaços.
Os relinchos são navalhas.

Não, já vos disse, não quero.
para mim de nada servem,
são cavalos militares
ensinados para a guerra.

Desde criança que amo
cavalos pelas campinas
sentindo o cheiro do pêlo
saltando pedras e cercas
(a disputa era com os ventos
Ao espelho de águas claras).

Quero esses, e somente esses,
cavalos da natureza,
livres de arreios e pulsos –
ruços, alazães, castanhos,
negros, melados ou pampos.


FLORISVALDO MATTOS

Quarta-feira, 18 de Março de 2009

PROJETO TRAVESSIA DAS PALAVRAS



O projeto Travessia das Palavras é uma iniciativa da Academia de Letras de Jequié (ALJ) e tem como base o encontro de um escritor baiano reconhecido com o público jequieense, com o intuito de proporcionar a aproximação da platéia com os autores e o conhecimento de suas obras.
Esses encontros acontecerão uma vez por mês. O escritor convidado falará de sua obra, de seu processo de criação e fará leituras de sua produção. O público poderá participar, fazendo perguntas. O projeto vai contar ainda com participações de grupos de recitais e de músicos locais.
Como já foi supracitado, O evento vai ser mensal, sempre no último sábado de cada mês, das 19h 30 min às 21h 30 min, na Casa de Cultura Pacífico Ribeiro, iniciando no dia 28 de março e se estendendo até o dia 28 de novembro, somando um total de oito apresentações.
Além, da leitura e recital de poemas, contos e trechos de romances por seus próprios autores e por grupos de recitais, o projeto visa formar um público leitor e ouvinte de literatura, aproximar o público do autor, apoiar e desenvolver a tradição da oralidade na poesia e contemplar e dar visibilidade aos escritores baianos contemporâneos e artistas locais.
Para a estréia do projeto Travessia das Palavras, foi convidado Florisvaldo Mattos, um dos mais significativos poetas brasileiros do século XX.
Formado em direito, Florisvaldo Mattos optou pelo jornalismo, atividade que exerce até o presente, como editor chefe do jornal A Tarde, o maior do Norte-Nordeste. Nos anos 60, integrou em Salvador o grupo da chamada Geração Mapa, liderado pelo cineasta Glauber Rocha.
Entre suas obras publicadas, estão Reverdor (1965); Fábula Civil (1975); A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior (1996); Mares Acontecidos (2000) e o livro de ensaios Travessia de Oásis – A Sensualidade na Poesia de Sosígenes Costa (2004), no qual analisa a trajetória poética do também baiano Sosígenes Costa (1901-1968) e até encontra aproximações entre a obra dele e a do poeta grego Konstantinos Kaváfis (1863-1933).
Além da presença do poeta Florisvaldo Mattos, o evento vai contar também com a participação especial do Grupo Concriz – poetas recitadores e afins, da cidade de Maracás, que vai recitar poemas do autor convidado. O Grupo Concriz, formado por 12 jovens, coordenados pelos poetas irmãos Marcelo Nascimento e Vitor Nascimento Sá, tem participado de vários eventos no estado da Bahia, e sua presença no projeto Uma Prosa Sobre Versos, em Maracás, é garantia de casa cheia, devido às suas performances arrebatadoras. Segundo o poeta Ruy Espinheira Filho: “na Bahia não existe nada semelhante”.
Travessia das Palavras é coordenado por Leonam Oliveira, escritor e presidente da Academia de Letras de Jequié, e por José Inácio Vieira de Melo, poeta, jornalista e produtor cultural. Conta com o apoio da Secretaria de Cultura e Turismo de Jequié.
A Casa de Cultura Pacífico Ribeiro fica na Rua Gerônimo Sodré, 61, no centro da cidade de Jequié, em frente do Tênis Clube de Jequié. A entrada é gratuita. Os estudantes que comparecerem receberão certificados.

Relação dos escritores convidados:

28 / 03 / 2009 – Florisvaldo Mattos
25/ 04 / 2009 – Kátia Borges
30 / 05 / 2009 – Carlos Ribeiro
25 / 07 / 2009 – Renata Belmonte
29 / 08 / 2009 – Antonio Brasileiro
26 / 09 / 2009 – Roberval Pereyr
24 / 10 / 2009 – Ruy Espinheira Filho
28 / 11 / 2009 – Aleilton Fonseca

Mais informações:
Leonam Oliveira - (73) 8833 3843 leonambahia@uol.com.br
José Inácio Vieira de Melo –(73) 8845 5399 jivmpoeta@gmail.com

Sábado, 14 de Março de 2009

VERÔNICA DE VATE - RUY ESPINHEIRA FILHO

RUY Alberto d'Assis ESPINHEIRA FILHO nasceu em Salvador, Bahia, no dia 12 de dezembro de 1942, filho de Ruy Alberto de Assis Espinheira, advogado, e Iracema D’Andréa Espinheira, de ascendência italiana. Passou a infância em Poções e a adolescência em Jequié, cidades do Sudoeste baiano. De volta a Salvador, em 1961, estudou no Colégio Central da Bahia e, levado pelo poeta Affonso Manta, que conhecia desde Poções, ingressou no grupo boêmio capitaneado por Carlos Anísio Melhor. Ainda nos anos 60, começou a publicar na revista Serial, criada por Antonio Brasileiro, e se iniciou no jornalismo — como cronista da Tribuna da Bahia (1969-1981), onde também trabalhou como copidesque e editor (1974-1980). Colaborou ainda com o Pasquim, como correspondente na Bahia (1976-1981), e foi contratado como cronista diário do Jornal da Bahia (1983-1993). Atualmente assina artigos quinzenas em A Tarde. Graduado em Jornalismo (1973), mestre em Ciências Sociais (1978) e doutor em Letras (1999) pela Universidade Federal da Bahia, UFBA, e doutor honoris causa pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, UESB (1999), é professor associado do Departamento de Letras Vernáculas do Instituto de Letras da UFBA, membro da Academia de Letras de Jequié e da Academia de Letras da Bahia. Publicou 11 livros de poemas: Heléboro (1974), Julgado do Vento (1979), As Sombras Luminosas (1981 — Prêmio Nacional de Poesia Cruz e Sousa), Morte Secreta e Poesia Anterior (1984), A Guerra do Gato (infantil — 1987), A Canção de Beatriz e outros poemas (1990), Antologia Breve (1995), Antologia Poética (1996), Memória da Chuva (1996 — Prêmio Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores), Livro de Sonetos (1998; 2. ed. revista, ampl. e il., 2000), Poesia Reunida e Inéditos (1998), A Cidade e os Sonhos (2003), Elegia de agosto e outros poemas (2005; em 2006 – Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, Prêmio Jabuti – 2º lugar –, da Câmara Brasileira do Livro; Menção Especial do Prêmio Cassiano Ricardo, da UBE-RJ). Tem ainda publicados vários livros em prosa: Sob o Último Sol de Fevereiro (crônicas, 1975), O Vento no Tamarindeiro (contos, 1981); as novelas O Rei Artur Vai à Guerra (1987, finalista do Prêmio Nestlé), O Fantasma da Delegacia (1988), Os Quatro Mosqueteiros Eram Três (1989); os romances Ângelo Sobral Desce aos Infernos (1986 — Prêmio Rio de Literatura [2º lugar], 1985), Últimos Tempos Heróicos em Manacá da Serra (1991); Um Rio Corre na Lua (2007) e os ensaios O Nordeste e o Negro na Poesia de Jorge de Lima, dissertação de Mestrado em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia(1990), Tumulto de Amor e Outros Tumultos – Criação e Arte em Mário de Andrade, tese de Doutorado em Letras, também pela UFBA (2001), Forma e alumbramento — poética e poesia em Manuel Bandeira (2004). Lançou ainda o CD Poemas, gravado pelo próprio autor, com 48 textos extraídos de seus livros, além de alguns inéditos (2001). Contos e poemas seus foram incluídos em diversas antologias, no Brasil e no exterior (Portugal, Itália, França, Espanha e Estados Unidos).


EPÍGRAFE


Sonha que escreve;
escreve que sonha;
quando sonha, escreve;

quando escreve, sonha;
tudo é o mesmo sonho;
fala em sonho: escreve.

Escreve em papel;
escreve no chão
do quintal, nos pássaros;

escreve nas nuvens;
escreve na água,
nos risos, nas mágoas;

escreve na lua,
no sol, no horizonte,
nas pedras, nos ramos;

escreve nos muros;
na falta de rumos;
escreve no escuro,

no claro; desperto
ou dormindo, escreve;
e escreve no vento.

Tudo escreve, escreve;
tudo e sobre tudo
escreve, escreve; e

Depois ainda escreve
mais; escreve (e até
escreve que escreve)

para que a vida
seja um pouco menos
obscura e breve.


RUY ESPINHEIRA FILHO

Sexta-feira, 13 de Março de 2009

RUY ESPINHEIRA FILHO - EPIFANIA


EPIFANIA


Alguns anos não consigo
deixar nas águas do Lete:
os teus catorze morenos
e os meus magros dezessete.
Muitas coisas se afogaram,
e rostos, e pensamentos,
e sonhos, e até paixões
que eram imortais...
Porém,
os meus magros dezessete
e os teus catorze morenos
não entram nem em reflexo
nesse Rio do Esquecimento.

Que magia nos levou
a um espaço e a um momento
para que de nós soubéssemos:
tu, meus magros dezessete;
eu, teus catorze morenos?
Que astúcia do Imponderável
nos abriu aqueles dias
que permanecem tão claros
como quando nos surgiram?
Eu não sei. Mas sei que a vida
nunca mais me foi vazia.

Como não foi fácil, nunca,
por tanto me visitarem
os Arcanjos da Agonia.
Pois, se fui iluminado
por estarmos lado a lado
— os teus catorze morenos
e os meus magros dezessete —,
seria fatal que também
viesse a sentir a alma
em chagas multiplicadas
por setenta vezes sete.

Ah, os teus catorze morenos
e os meus magros dezessete!...
Quanto sofrimento fundo
— mas quanto sonho profundo
e alto!
Que belo mundo
foi-me então descortinado,
porquanto me era dado
o privilégio preclaro
de penar de amor no claro,
no escuro, em todas as cores,
em todos os tons da vida,
dia e noite, noite e dia,
varrido ao vento das asas
dos Arcanjos da Agonia
(que eram, por algum prodígio,
os mesmos da Alegria!...).

Ah, que por mim chorem flautas,
pianos, violoncelos,
as cachoeiras, os céus
comovidos dos invernos...
Chorem, chorem, que mereço
essas lágrimas, porque
tudo sofri no mais pleno
de paraísos e infernos.
Que chorem...
Mas eu, eu mesmo,
não choro... Como chorar,
se mereci essa dádiva
de um amor doer na vida
por setenta vezes sete
mais que qualquer outra dor,
mais que qualquer outro amor?
Só me cabe agradecer,
pois a vida perderia
(e, o que ainda é mais cruel,
sem nem saber que a perdia...)
se não provasse os enredos,
insônias, febres, venenos
que em meus magros dezessete
acendeu a epifania
dos teus catorze morenos!


RUY ESPINHEIRA FILHO

Quinta-feira, 12 de Março de 2009

PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS 2009 - ANO II



Maracás, também conhecida como Cidade das Flores, que fica no sudoeste baiano, a 851 metros acima do nível do mar, é uma cidade fria e aconchegante, com uma população estimada em 30 mil habitantes. Pois bem, foi nesta cidade, colonizada por imigrantes italianos, que aconteceu no ano passado um dos projetos de poesia mais exitosos da Bahia: Uma Prosa Sobre Versos. A cada mês, comparecia ao Auditório Municipal de Maracás uma média de 600 pessoas para ouvir atentamente um poeta e conhecer a sua relação com a literatura.
O evento começava sempre com um recital do Grupo Concriz, coordenado pelo poeta e professor Vitor Nascimento Sá, que selecionava em torno de 40 poemas do convidado para serem recitados por 12 jovens da comunidade maracaense. Devido ao sucesso do Grupo Concriz, seus participantes passaram a ser celebrados na cidade e o interesse pela literatura na comunidade cresceu consideravelmente, sobretudo em relação à poesia.
Diante do sucesso do projeto, o poeta e professor Edmar Vieira, diretor de cultura de Maracás e coordenador de Uma Prosa Sobre Versos, resolveu fazer a segunda edição do evento. Para a estreia, no dia 14 de março, o projeto vai contar com a presença de Ruy Espinheira Filho, um dos poetas mais notórios do Brasil.
Para os meses seguintes, estão convidados os poetas Adriano Eysen, de Feira de Santana/Euclides da Cunha; Ângela Toledo, do Morro de São Paulo; Damário Dacruz, de Cachoeira; Carlos Barbosa de Ibotirama/Salvador; Eliana Mara Chiossi, de São Paulo/Salvador e Mayrant Gallo, de Salvador.
O projeto vai começar no dia 14 de março, aniversário do poeta Castro Alves e dia nacional da poesia. O convidado Ruy Espinheira Filho, é jornalista, mestre em Ciências Sociais e doutor em Letras. Publicou mais de vinte livros em diversos gêneros: poesia, romance, novela, conto, crônica, ensaio, literatura infantil e juvenil. Recebeu vários prêmios literários, dentre eles o Prêmio Nacional Cruz e Souza, de Santa Catarina (pelo livro de poemas As sombras luminosas, 1981) e o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras 2006 e o Prêmio Jabuti (pelo livro Elegia de agosto e outros poemas, 2004). Sua poesia tem sido incluída nas principais antologias brasileiras, contando ainda com traduções na França, na Itália, na Espanha e nos Estados Unidos, além de edições em Portugal e Galícia.
Os poetas convidados de 2008 foram Cleberton Santos, Elizeu Moreira Paranaguá, Lita Passos, Antonio Carlos de Oliveira Barreto, Roberval Pereyr, Rita Santana e José Inácio Vieira de Melo.
O Projeto Uma Prosa Sobre Versos vai ser realizado no Auditório Municipal de Maracás, começando sempre às 19h 30min, com entrada franca, sempre em uma sábado de cada mês.

Grupo Concriz

PROGRAMAÇÃO:

14/03/2009 – RUY ESPINHEIRA FILHO
11/04/2009 – ADRIANO EYSEN
09/05/2009 – ÂNGELA TOLEDO
06/06/2009 – DAMÁRIO DACRUZ
11/07/2009 – CARLOS BARBOSA
08/08/2009 – ELIANA MARA CHIOSSI
12/09/2009 – MAYRANT GALLO

Mais informações:
Edmar Vieira – (73) 3533 2080 – edmarvieira1@gmail.com
José Inácio Vieira de Melo – (73) 8845 5399 – jivmpoeta@gmail.com

Quarta-feira, 4 de Março de 2009

PROJETO PROSA E VERSO NAS VEREDAS DO SERTÃO



UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E TECNOLOGIAS

CAMPUS XXII - EUCLIDES DA CUNHA / BA


A quarta edição do projeto Prosa e verso nas veredas do sertão, organizado pelo poeta e professor Mestre Adriano Eysen, ocorrerá no Campus XXII da UNEB em Euclides da Cunha. Os participantes terão oportunidade de compartilhar experiências com escritores, pesquisadores da cultura e especialistas da história, crítica e teoria literárias, a fim de incentivar a pesquisa e a produção acadêmica, como também estreitar a relação entre autor e leitor.
Os encontros têm a duração de três horas e meia, repetindo-se em dois turnos: vespertino e noturno, das 14:00h às 17h:30min. e das 19:00h às 22h:30min., com intuito de atender ao curso de letras de uma forma ampla sem inviabilizar a participação dos alunos e professores.
Fotógrafo: Ricardo Prado

No dia 05 de março de 2009 (quinta-feira) contaremos com o poeta, jornalista e co-editor da Revista Iararana José Inácio Vieira de Melo, cujo tema da palestra é A Produção Literária na Bahia nos séculos XX e XXI.
Ainda no dia 05 de março, às 16h:30min. e às 21h:00min., ocorrerá o lançamento do livro A infância do Centauro (Escrituras – poesia – 2007) e do CD de poesia A Casa dos meus quarenta anos do palestrante. Dessa forma, o projeto tem o intuito de ampliar relações entre universidade e sociedade, uma vez que uma das suas metas é possibilitar a participação de todos os indivíduos da comunidade que têm interesse em alargar seu universo cultural. As inscrições, no valor de R$ 5,00, serão realizadas do dia 05/02/2009 a 04/03/2009 na sala do NUPE/Especialização - Campus XXII – Euclides da Cunha.

Mais informações:
Professor Adriano Eysen – e-mail: adrianolittera@hotmail.com
Colegiado de Letras – Campus XXII – Euclides da Cunha – Telefones: (75) 3271 – 2416 e 3271-3227.

Terça-feira, 3 de Março de 2009

I SEMINÁRIO DE LITERATURA E DIVERSIDADE CULTURAL - ESTAÇÃO DE MARÇO



UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA

Departamento de Letras e Artes
Programa de Pós-Graduação em Literatura e Diversidade Cultural – PpgLDC


I Seminário de Literatura e Diversidade Cultural - Estação de Março
Dia 4 de março - das 9 às 11h30 e das 14h às 16h30


9h - Conferência de Abertura:

Drummond: cidades e memória
Prof. Dr. Marcio Roberto Soares Dias (UESB)

Lançamento do livro do autor:
Da cidade ao mundo: notas sobre o lirismo urbano de Carlos Drummond de Andrade


10h - Mesa de comunicações de egressos e mestrandos do PPGLDC:

Reynaldo Valinho Alvarez: duas faces do lirismo metapoemático.
Cleberton Santos (UEFS)

O discurso urbano de Izacyl Guimarães Ferreira, o amante apologético da civilização
José Inácio Vieira de Melo (PPGLDC)

Ferreira Gullar: sociedade e criação poética
Wesley Barbosa Correia (IF/BA)

Inutilia Truncat: Uma leitura do conto Civilização de Eça de Queiroz
Alana de Oliveira Freitas El Fahl (UEFS)

Num piscar de olhos: absurdo e fragmentação em Insônia e Estorvo.
Mírian Sumica Carneiro Reis (PPGLDC)


14h - Conferência:
Jorge Amado e a cidade da Bahia
Prof. Dr. Benedito Veiga (UEFS)


15h - Mesa de comunicações de egressos e mestrandos do PPGLDC

Carnaval e literatura
Valdomiro Santana (PPGLDC)

O fim da ordem clássica e o nascimento da modernidade
Idmar Boaventura (UEFS)

Essa Terra: um livro de desencontro
Antônio Gabriel Evangelista de Souza (UEFS)

Embriaguez e desarranjo: uma febre de modernidade em O bicho que chegou à Feira
Isis Moraes (PPGLDC)

A dimensão corresivo do outro em Clarice Lispector e Marrie Darrieusseqc".
Vera Márcia Lopes (PPGLDC)


Local: Sala de Eventos
Prédio da Pós-Graduação em Educação, Letras e Artes (Módulo 2)

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

ENTREVISTA - JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO: POESIA QUE SE ESPALHA

Por Kátia Borges


Alagoano, José Inácio Vieira de Melo escolheu a Bahia para viver e batalhar a carreira literária. Hoje, morando em Jequié, coordena projetos poéticos e prepara novo livro (Entrevista concedida à jornalista e escritora Kátia Borges. Publicada parcialmente na revista semanal Muito #46, do jornal A Tarde, em 15 de fevereiro de 2009, em Salvador, Bahia. - Foto: Rejane Carneiro).

KÁTIA BORGES
– Como a poesia o encontrou nessa vida?

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – A poesia encontrou-me ainda na adolescência. Estava acampando com alguns amigos na Serra das Mãos, em Alagoas. Tomávamos chá de erva cidreira e capim santo. Um dos amigos tinha um radinho “consola corno” e sintonizou-o na Rádio Novo Nordeste, quando o Raimundo Fagner, muezim do Ceará, começou a berrar um poema de Patativa do Assaré. Foi um momento de descoberta, de epifania. A partir daquele momento, a minha comunhão com a poesia estava selada.

KB – Fazer 40 anos mudou sua poesia?

JIVM – Apesar de acreditar que a cada dia inauguramos uma nova idade – como nos ensina Alberto Caeiro: “Sinto-me nascido a cada momento/ para a completa novidade do mundo” –, entrar na casa dos 40 não foi nada fácil. Parece até que os meus fantasmas todos resolveram assomar de uma só vez e, permanentemente, fazer um labafero terrível no meu juízo. E a minha poesia mudou sim. E como mudou! Até outubro lançarei um livro intitulado "Roseiral", no qual os leitores poderão constatar essa mudança.

KB – E dar aulas sobre literatura? Muda a perspectiva?

JIVM – Lecionar literatura é uma satisfação e um grande aprendizado. Ao invés de mudar a perspectiva, potencializa-a e amplia as possibilidades. A cada aula, penso numa maneira mais prazerosa de fazer com que a literatura chegue ao sentimento dos alunos, assim como, também, busco fazer com que eles tenham uma compreensão do que é literatura.

KB – As críticas negativas tiram seu sono?

JIVM – As críticas negativas me deixam com um sorriso no canto da boca, pois surgem da parte de anônimos. A impressão que fica é que são pessoas muito carentes de atenção, que encontram prazer na difamação de outrem. Desde que publiquei meu primeiro livro, "Códigos do silêncio" "(2000), a minha poesia tem recebido uma atenção especial de um número considerável de críticos de várias partes do Brasil e até de outros países, como Portugal e Colômbia, de modo que esses ganidos anônimos não me incomodam. Na verdade são tão repetitivos e tão clichês que se tornaram enfadonhos.

KB – Nos eventos pelo interior, como a poesia se espalha?

JIVM – Desde 1998 que coordeno eventos literários na Bahia, tanto em Salvador como em algumas cidades do interior. E é impressionante como a resposta é diferente. Em Salvador, apesar de contar com o apoio das mídias (rádio, jornal impresso e televisão), o público é bem menor do que no interior. Coordenei durante quatro anos, em Salvador, o projeto Poesia na Boca da Noite (2004-2007), que apresentava sempre dois poetas. A maior platéia foi de 120 pessoas. Já na cidade de Maracás, com população estimada em 30 mil habitantes, participei, no ano passado, do Uma Prosa Sobre Versos, coordenado por Edmar Vieira. Durante todo o ano, o projeto conseguiu manter um público estimado em 600 pessoas, que compareciam ao auditório da cidade para ouvir um escritor e se deliciar com um belíssimo recital de poemas feito pelo Grupo Concriz, uma turma de jovens coordenada pelo poeta Vitor Nascimento Sá. O evento foi tão exitoso que já tem programação definida para 2009, cuja estreia vai ser no dia 13 de março, com a presença do poeta Ruy Espinheira Filho e, claro, do Grupo Concriz. Outro projeto a estrear também em março é o Travessia das Palavras, da Academia de Letras de Jequié, coordenado por Leonam Oliveira, presidente da instituição, e por mim. O primeiro convidado é o poeta Florisvaldo Mattos, que vai ter, também, seus poemas recitados pelo Grupo Concriz. A poesia é interior e se esparrama com fluidez pelos interiores.

KB – A meninada entende, gosta, procura a poesia?

JIVM – A meninada sente a poesia. E dentro desse sentir cabe o espanto, o estranhamento, o encanto, a beleza e a compreensão. Talvez, se os adultos tivessem o olhar da meninada, a poesia não seria, como diz o poeta Francisco Carvalho, “uma ribalta entregue às moscas”. O público desses eventos nem sempre é formado majoritariamente por crianças, mas por jovens entre 15 e 25 anos de idade.

KB – Verso medido ou livre, em qual você se sente mais à vontade?

JIVM – Sinto-me à vontade com os dois. Tanto os versos abundantes de Walt Whitman que se espraiam pelo espírito dos leitores, quanto o rigor das facas cabralinas, a deixar cicatrizes claras. Verso medido é uma liberdade que chega pelo conhecimento. Ao conhecermos a técnica, passamos a compreender que o verso livre também tem sua medida.

KB – Qual o espaço da poesia no mundo hoje?

JIVM – A poesia está em toda parte. O mundo é poesia. A maioria das pessoas é que está com o olhar preso na vitrine.

Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

JIVM - POEMA OBSCURO (QUADRILHA)

Ilustração: Ivonete Dias

POEMA OBSCURO (QUADRILHA)


Era uma vez um homem que não sabia mais o que fazer.
Então, de madrugada, um cavalo saiu montado na ventania
e uma formiga pegou a rabeca e nunca mais parou de tocar.
Certo dia, o sol foi embora e o homem acendeu o candeeiro.

O cavalo encontrou vários seguidores na sua peregrinação.
A formiga é solista das principais orquestras das cigarras.
O sol se casou com uma estrela de outra constelação.
O candeeiro se apagou e o homem escreveu um poema obscuro.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

JOSÉ GERALDO NERES - ENCONTRO NINHOS DE CENTAUROS

Ilustração: Ramiro Bernabó

ENCONTRO NINHOS DE CENTAUROS

a poesia transborda no dorso do enigma
estou longe de mim no fundo dos olhos do centauro
o mundo me habita e uma aquarela espera o seu galope
dentro da infância busco atravessar a ponte
sua voz me guia e inventa fantasmas de barro
trago em mim outras feras e um peixe a escrever flores
procuro um milagre e resta apenas este poema
centauro de língua escarlate
a galopar o espelho
estou aqui na poeira dos seus passos
de mãos dadas com seu filho a cravar palavras a afogar dias
não importa o labirinto brinco de deus e beijo suas raízes
no balanço da rede resta o silêncio e o cheiro do sol na carne
[da moça na encruzilhada a construir a arca da salvação
longe de mim a olhar a sombra dos vaqueiros
estou aqui tragédia a morder poeira
trago em mim um epitáfio e uma romaria
não sei ser quase sou pedra barro lama sêmen
semente de relógio em um deserto de cicatrizes
minha cruz a marcar o silêncio
não me ofereça o paraíso preciso de uma sombra
o poema se aproxima a caminhar além das preces
espero o movimento de suas lâminas
em mim os cavalos e os pássaros invocam o sacrifício da vida

JOSÉ GERALDO NERES
Lendo “A infância do Centauro” de José Inácio Vieira de Melo, Escrituras Editora, 2007

José Geraldo Neres é poeta, ficcionista, roteirista, arte-educador. Assessor literário da Secretaria de Cultura, Prefeitura de Diadema. Bolsista da Fundação Biblioteca Nacional. Co-fundador do grupo Palavreiros.

Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

VERÔNICA DE VATE - VERA LÚCIA DE OLIVEIRA

VERA LÚCIA DE OLIVEIRA nasceu em Cândido Mota e cresceu em Assis, no Estado de São Paulo. Desde 1983, vive na Itália, onde ensina Literatura Portuguesa e Brasileira na Università degli Studi di Lecce. Formou-se em Letras pela Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), em 1981, e em Línguas e Literaturas Estrangeiras, em 1991, pela Università degli Studi di Perugia, na Itália. Neste mesmo país, obteve o doutorado, em 1997, pela Università degili Studi di Palermo. Recebeu em 2005, o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras com o livro A Chuva nos Ruídos, publicado pela Escrituras, uma antologia que reúne poemas de cinco livros, quatro dos quais publicados em edição bilíngüe, na Itália. A autora, que escreve tanto em português como em italiano, recebeu também outros prêmios nacionais de poesia e seus poemas foram traduzidos e publicados em várias antologias no Brasil, Itália, Estados Unidos, Espanha e Portugal. Tradutora e divulgadora da literatura brasileira na Itália, organizou antologias de vários poetas, entre os quais Lêdo Ivo e Carlos Nejar.
Publicou os seguintes livros: A porta range no fim do corredor (poesia), São Paulo, 1983 (Prêmio de Poesia Scortecci, São Paulo, 1982); Geografia d'ombra (poesia), Fonèma Venezia, 1989; Pedaços / Pezzi (poesia), Etruria, Cortona, 1992; Tempo de doer / Tempo di soffrire (poesia), Pellicani, Roma, 1998; La guarigione (poesia), La Fenice, Senigallia, 2000 (Prêmio Nacional de Poesia de Senigallia, Itália, 2000); Uccelli convulsi (poesia), Manni, Lecce, 2001 (Prêmio Nacional de Poesia Gino Perrone, Itália, 2000); Poesia, mito e história no Modernismo brasileiro (ensaio), Ed. da Unesp e Edifurb, São Paulo, 2002; No coração da boca / Nel cuore della parola (poesia), Adriatica, Bari, 2003; A chuva nos ruídos (antologia poética), Escrituras, 2004, São Paulo (Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, 2005); Verrà l'anno (poesia), Fara, Santarcangelo di Romagna, 2005 (Prêmio de Poesia "Popoli in cammino", 2005, Itália); Storie nella storia: le parabole di Guimarães Rosa (ensaio), Pensa, Lecce, 2005. Recebeu, em 2006, do Ministério da Educação, o "Prêmio Literatura para Todos", na categoria de poesia, com o livro inédito Entre as junturas dos ossos, que será publicado pelo MEC.


OS DEUSES


o céu é povoado por Deuses
(a nossa imagem e semelhança)

os vencidos optam por um Deus menor
que mora nos porões do céu
os ricos
por um Deus que viaja de primeira classe
e ignora os aleijões

os Deuses estão sempre em guerra mas quem
vence é o Deus dos vencedores


VERA LÚCIA DE OLIVEIRA

VERA LÚCIA DE OLIVEIRA - VOZES


V O Z E S

dizia que ouvia umas vozes provindas das coisas
que todas as coisas estavam povoadas
que as coisas habitavam os corpos
que quando uma pessoa saía a coisa
ficava gemendo a ausência como um cão
que não pode viver sem a ternura do seu dono

VERA LÚCIA DE OLIVEIRA