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sexta-feira, 3 de junho de 2022

ENTREVISTA | JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO: UM POETA QUE BUSCA AS ORIGENS NAS LONJURAS

Fotos: Ricardo Prado
Garatujas Selvagens: os rabiscos primordiais de José Inácio Vieira de Melo

José Inácio Vieira de Melo lançou, recentemente, Garatujas Selvagens, seu novo livro de poemas, publicado pela Arribaçã Editora, casa editorial paraibana. Saudado pelas escritoras Ana Miranda e Denise Emmer e pela poeta mexicana María Vázquez Valdez, nos textos da contracapa, orelha e posfácio, JIVM ergue seu monumento poético com a seiva telúrica, que lhe é peculiar, mas só que agora irrigado pelo sangue latino. Garatujas Selvagens é uma galeria que tem como ponto inicial os “Rabiscos rupestres”, estendendo-se pelas “Lonjuras” e pela “Cartografia do medo”. Faz também uma “Panorâmica das mães” até desembocar nos “Autorretratos” e na “Rota do ser”. Imagético e musical, cheio de “Retratos”, “Afrescos” e de “Instantâneos” seu novo poemário tem mesmo “Rota infinita”. Nesta conversa boa, ele nos fala da origem de sua poesia, da presença da musicalidade neste novo trabalho, do medo e da coragem, da sua busca e do poder curativo e redentor da poesia. Vamos percorrer os caminhos do poeta. 

Sandra Santos – Tua poesia tem o aroma das algarobeiras e o encantamento do aboio. Onde aprendeste o canto primeiro? Quais foram teus mestres? Quem te acompanha nas leituras ao pé do fogo e vela teu sono na mesinha de cabeceira? 

José Inácio Vieira de Melo – Até os 14 anos fui criado no campo e em cidades do interior das Alagoas, o que considero um grande privilégio. Entre os 14 e os 19, vivi em Maceió, onde estão as praias mais bonitas do Brasil. Aos 20 anos, fui morar na caatinga baiana, entre o Vale do Jiquiriçá e a Chapada Diamantina. Nesses lugares do Brasil profundo, as algarobeiras são uma presença constante. Elas fazem parte do cenário da minha poética, porque estão bem enraizadas no meu imaginário. E toda minha vida, até os dias de hoje, sempre estive em contato com os vaqueiros, cantando e ouvindo toadas, tangendo gado e aboiando com esses guerreiros encourados. Mas o canto primeiro foi lá nas Alagoas, na fazenda Boa Sorte, na Ribeira do Traipu. Os meus mestres foram os vaqueiros do meu convívio, que tinham um grande zelo por mim. Desde meu avô Moisés, passando por Pedro Vaqueiro, Sérvulo Duarte e Linduarte, até chegar à figura emblemática de Damião Alagoano, mas isso já foi a partir de 1988, aqui na Bahia. Sinto sempre que uma legião de vaqueiros me acompanha, abrindo caminhos e me protegendo. Digo isso no poema Pedra Só, um canto épico, que é o núcleo do livro homônimo, publicado em 2012. Porém esse canto primeiro está entrelaçado aos primeiros cantos oferecidos pelas leituras iniciais e fundamentais para o desenvolvimento da minha escritura, que são a Bíblia, a poesia de Castro Alves e de Patativa do Assaré, o livro Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa e a trilogia Os Peãs de Gerardo Mello Mourão, as obras de Hermann Hesse, Gabriel García Márquez e João Cabral de Melo Neto. E, um pouquinho mais adiante, a poesia de Herberto Helder e de Jorge de Lima. Atualmente tenho lido pouco ao pé da fogueira. Mas faço sempre dois momentos de leituras, bem distintos. A leitura silenciosa e solitária, quase sempre deitado em uma rede ou sentado diante de uma mesa, na minha singela biblioteca (um quarto repleto de livros). O outro momento é o da leitura compartilhada, sempre em voz alta. Meus companheiros mais frequentes são meus filhos, Moisés e Gabriel, e minha mulher, Linda Soglia. Cada um com um exemplar da obra da vez em mãos, seja o livro físico, seja o e-book, nos kindles da vida. No meu caso, é obrigatório o uso do livro convencional como suporte. Durmo pouco e o meu sono é um mistério velado pela leveza. 

Ana Luiza – Seu livro Entre a Estrada e a Estrela, publicado em 2017, é formado por dois poemas longos. Já em seu mais recente lançamento, Garatujas Selvagens, de 2021, encontramos uma estrutura em dez partes, com poemas que em sua maioria não passam de uma página e que chegam a uma forma ainda mais concisa na seção intitulada "Instantâneos". Claro que se pode supor que os poemas simplesmente ‘escolhem’ consolidar-se assim ou assado, mas lhe faço a seguinte pergunta: em sua opinião, a que mais se pode atribuir uma organização tão diversa da anterior? 

JIVM – De fato, o Garatujas Selvagens apresenta uma organização bem distinta dos meus dois livros anteriores, tanto do Entre a estrada e a estrela (2017) quanto do Sete (2015), que são livros que têm um tom épico e uma espinha dorsal bem definida, conduzindo todos os poemas. O que acontece é que, além de ter demorado mais tempo do que o habitual para publicar o Garatujas Selvagens, vários poemas, que havia feito no período em que publiquei os dois livros anteriores, ficaram de fora deles porque não se encaixavam naquelas propostas. Esses poemas foram guardados e depois foram se aproximando tematicamente de outros que eu ia escrevendo e, de imediato, publicava nas redes sociais. De repente eu já tinha um amontoado de poemas, dividido em pequenos grupos, pequenas seções. Alguns amigos falavam da necessidade de reunir esses poemas em um livro, sobretudo o poeta Salgado Maranhão, que afirmava que meu público estava precisando de um livro assim, com poemas mais soltos. Então, fui reunindo os poemas, comecei a observá-los mais, dividi-los em grupos bem definidos, até chegar a uma estrutura que me deixou muito animado. Aí foi que comecei a pensar em um artista para fazer capa e ilustrações internas. Depois que escolhi o Ramiro Bernabó, muita coisa mudou no livro: poemas foram excluídos, outros modificados e outros foram criados. Como pode ver, dialogo bem com as ilustrações, que, para mim, não são meros ornamentos plásticos, mas poemas visuais que devem se comunicar com os versos do livro. Finalmente, o livro chegou a uma conformação estética, seja no que se refere ao suporte ou aos poemas em si. Os caminhos trilhados foram, em boa parte, intuitivos, mas com o sentimento antenado, na busca de uma seara estética na qual fosse possível vislumbrar o desconhecido. Por isso, o que marca o Garatujas Selvagens é a busca, como bem resume o poema “Procura”, que está presente na seção “Lonjuras”: “No claro ou no escuro/ procuro porque procuro/ sempre novos rumos.// Sem pensar futuros/ procuro porque me curo/ ao ultrapassar muros.” Como pode perceber, a atribuição para a mudança é a própria necessidade de mudança. É procurar nas lonjuras. 

JIVM: Não faço distinção entre poesia e vida,
porque sem poesia minha vida não teria nenhum sentido
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Sony Ferseck – Seu Garatujas Selvagens, nas dez seções que o compõem, faz um percurso que sai da pedra (“Rabiscos rupestres”), ganha “Lonjuras” até chegar na “Rota do Ser”, que permite, inclusive, que vejamos as fotografias feitas durante o trajeto. Uma verdadeira trilha poética. Duas dessas paradas, dessas seções, são dedicadas às mães, inclusive a sua, Dona Inácia. A mãe é mesmo poesia e vice-versa? 

 JIVM – A Mãe é o Uni-verso e é o Meta-verso. A mãe é a nossa casa – resguarda nossa inocência enquanto crescem nossas asas. A Mãe é a Divindade. Por outro lado, a Mãe é filha, é cria e é também fundida em estreitezas disfarçadas de glórias. A partir das limitações que sofrem muitas mulheres, muitas mães, suas crias podem ser vítimas de fúrias, de ódios, de traumas – e aí a Poesia Universal da Divindade Mãe pode se transformar numa energia obscura. Mas ainda assim, a Mãe é o templo aconchegante da existência. Nas duas seções que você destaca, “Panorâmica das mães” e “Afresco para Inácia”, dentre outros vislumbres, estão incutidas tanto a dimensão metafísica da Mãe, como geradora do Universo e/ou de Universos, assim como a dimensão social da pessoa que também foi gerada no ventre de uma outra pessoa, dentro de uma estrutura que minimiza seus potenciais. E para disfarçar o reducionismo e a sobrecarga, atribui-lhe um dom divino, uma missão sagrada. Os poemas das duas seções expressam e extravasam as dores físicas e as mutilações espirituais. Em “Afresco para Inácia”, na qualidade de filho assustado e diferente dos outros, busquei compreender o que se passou com a filha que foi minha mãe. Na verdade, o que busquei foi a redenção pessoal. E consegui. Para mim, a poesia tem também uma dimensão de cura, a poesia é o “Unguento”: “Muitas vezes abre feridas,/ mas é só para extirpar/ de vez o veneno”. 

Marta Eugênia de Oliveira – Em seus poemas, a luz dada sobre a caatinga, as algarobeiras, os galopes, as pedras, oferece ao leitor uma experiência de plurissignificados, polifonia e metafísica. A presença do canto muitas vezes assume um lugar de coragem, valentia perante o escuro que é o porvir. Em Garatujas Selvagens o medo é considerado na parte intitulada de "Cartografia do Medo". Sua relação com o medo sofreu alterações de outras obras até aqui? 

JIVM – O medo tem uma importância imensa na minha poesia, que é o mesmo que dizer na minha vida, porque é o medo que desperta a coragem. Não faço distinção entre poesia e vida, porque sem poesia minha vida não teria nenhum sentido. E sei mesmo que tudo não tem sentido, mas através da arte consigo atribuir os mais diversificados sentidos a minha passagem existencial. O medo me acompanha desde a aurora da minha vida, desde quando me entendo por gente, ou antes mesmo dessa compreensão. Ao invés de me paralisar, o medo me impulsiona para o desconhecido. De peito aberto, corpo e alma só arrepios, sigo em frente, com os olhos esbugalhados, soltando aboios para a imensidão, em busca do novo, em busca do inusitado verso que as estradas que invento, com meus passos errantes, possam me oferecer. O medo é um grande e precioso companheiro, pois me deixa bem acordado, sempre perplexo, sempre arrepiado, em estado de delírio, com muita febre. Sim, Marta, com o passar do tempo, a minha relação com o medo foi e vai se alterando, assim como as garatujas que vou fazendo, porque estou sempre me modificando. É aquela história lá do nosso roqueiro mor Raul Seixas, de preferir ser uma “Metamorfose ambulante”. Sim, o medo é a corneta que mantém sempre alerta a coragem. 

José Inácio Vieira de Melo: O caráter transgressor e a
força revolucionária da poesia espantam muito as pessoas

Sandra Santos – Como poeta e ativista cultural, tens tido papel fundamental na construção do cenário poético brasileiro. Muitos poetas foram publicados por antologias ou revistas literárias por ti organizadas. Nomes de sul a norte do país foram divulgados e apresentados ao público em eventos literários sob tua curadoria. Dono dessa experiência e conhecimento da poesia desses tantos brasis, te pergunto: nestes tempos de redes sociais, eventos virtuais e meta-verso... A poesia está mais viva do que antes? 

JIVM – Da maneira como concebo a poesia, meu impulso é dizer que a poesia é a própria vida, ou mesmo que é a poesia que confere existência às coisas. A poesia está em tudo, inclusive no nada. A dimensão virtual da poesia sempre existiu, o que ocorre é que somente agora é que passamos a observá-la por essa esfera, daí a impressão de novidade. Por outro lado, apesar de todas as possibilidades que fomos desenvolvendo a partir dos avanços tecnológicos, como suportes e plataformas, para exibirmos e disponibilizarmos nossa diversidade poética e artística, a poesia continua sendo para poucos. Está posta para todos, mas poucos são os que se banham nas suas águas. O caráter transgressor e a força revolucionária da poesia espantam muito as pessoas, que de tão perdidas, tão preocupadas com o conforto material para o futuro, esquecem que estão de passagem e não vivem o que cada uma tem de fato, que é o momento presente, tão carregado de poesia, chegando por todos os lados e por todos os sentidos. Quanto ao cenário poético brasileiro, nunca vi tanta gente publicando, formando tantos grupos, turmas, guetos. Na maioria, os próprios integrantes lendo uns aos outros. Mas, ainda assim, é um momento muito bom. Novas e assustadoras poéticas aparecendo, questionando convicções e propondo rupturas. Como não sei ficar quieto, vivo a promover recitais e pelejas, a provocar discussões e encontros, tentando sempre levar a palavra poética para adiante, desejando mesmo que ela chegue ao sentimento de cada pessoa. 

Sony Ferseck – Creio que em "Rabiscos rupestres", você consegue tirar a poesia da pedra, sem permanecer nela. Da pedra você vai à música, tanto que chega a poetizar "Os livros cantam o caminho de casa". Que referências musicais Garatujas Selvagens canta no caminho desta sua morada poética? 

JIVM – A pedra emana música. Quando batemos na pedra ela nos responde com som, e se batemos compassado, o som será ritmado e aí o voo é certo. Lembremos a poeta Cecília Meireles: “Tem sangue eterno a asa ritmada”. E se batermos pedra na pedra, além de som teremos fogo, surgindo novas dimensões: som e luz, “Rabiscos rupestres”, livros inaugurais cantando o caminho de casa. Este poemário, Garatujas Selvagens, está repleto de musicalidade. Não sei nem se dou conta de lembrar toda música que nele há, por ser tanta. Porque há a música das palavras de uma plêiade de poetas, assim como há a música instrumental de inúmeros compositores, assim como as vozes de outros tantos cantores. Mas bem na superfície, nos lajedos da Pedra Só que sou, são nítidos as presenças de Amelinha, Belchior, Ednardo e Fagner, esse Pessoal do Ceará que tanto marcou a minha juventude e que me acompanha até hoje com tanto vigor. Estão comigo, a rapaziada do Clube de Esquina, com Milton Nascimento ofertando a voz da Divindade para todos nós. Da Paraíba vem o Chico César, a Cátia de França, a Elba e o Zé Ramalho. De Pernambuco, vem o Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Dominguinhos. É bem presente a força do rock inglês do Pink Floyd e do Led Zeppelin, assim como da poesia do Bob Dylan e Leonard Cohen. Estão presentes Villa-Lobos, Luiz Gonzaga e Elomar, o “Sangue Latino” de Ney Matogrosso, Secos & Molhados, Paco de Lucía e Joaquín Rodrigo. Do país das Alagoas, o Djavan, o Carlos Moura, Jacinto Silva e Nelson da Rabeca. Beethoven, sempre. O “Vento Nordeste” de Terezinha de Jesus. Os bárbaros baianos Gil, Gal, Bethânia e Caetano. Os bruxos Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos. Todos esses cantares ecoam em cada verso das minhas Garatujas Selvagens. E mais, vários poemas ganham melodia logo depois que são feitos. Abro a boca para lê-los e já sai uma melodia que toma conta do texto. Há também alguns poemas que já foram musicados por compositores desses Brasis, parceiros meus que tanta alegria me proporcionam ao musicarem meus versos, antes mesmo do livro ser publicado, como aconteceu com os poemas “Nonada”, que virou uma linda canção no violão e na voz do meu amigo paraense Enrico Di Miceli; “A vida é sonho”, maravilhosamente musicado por Petrucio Baêtto, meu conterrâneo, lá das Alagoas; e “Década”, que ganhou uma sofisticada roupagem musical do meu malungo amapaense Paulo Bastos. Outros poemas já estão na mira de alguns parceiros. Outro dia, Thiago Amud, genial cantor e compositor carioca, mandou um ‘zap’ pedindo que separasse o poema “Caboclo de lança” para ele, assim como o Marcel Torres, cantor e compositor baiano, de Feira de Santana, mandou uma melodia bonita, um ijexá, para os dois haicais espelhados que iniciam a seção “Instantâneos”. Aproveito para dizer que me sinto privilegiado ao ouvir alguns poemas meus interpretados, em forma de canções, por Ana Luiza, Carla Visi e Patricia Bastos, musas e divas da Música e Poesia do Brasil. Como pode ver, a música se apossa dos versos que faço. Na verdade, sinto que minha poesia transborda musicalidade. 

JIVM: já estou começando a botar o pé na estrada,
novamente, levando minhas 
garatujas selvagens aos
quatro ventos, espalhando a poesia por todos recantos. 

Marta Eugênia de Oliveira – Na segunda parte do livro – “Lonjuras” – a distância é companheira bem de perto, entre o invisível e o ancestral. Sente-se os encalços do caminho de volta, invocado em alguns poemas, pelas “Trilhas” apresentadas e pelo “Suco” que alimenta a esperança, “porque mesmo voltando,/ sem onde nem quando,/ se continua seguindo”. A amplitude dessa busca está aliada à dimensão inefável da linguagem poética? Por isso Garatujas Selvagens

JIVM – Gosto quando uma pergunta dá nó no pensamento, porque já vem carregada de poesia. Esse enunciado leva a gente pra um monte de lugar. Sou um peregrino da linguagem, as palavras desfilam nos meus sonhos, formando tapetes de versos, os mais diversos, os mais esquisitos. As “Lonjuras” são o que busco alcançar. Então, quando vislumbro a distância, lá bem longe, onde a vista se perde, onde o pensamento não alcança – sigo resoluto até lá. Mas ao chegar lá, no que era longe, tudo se torna perto. O que me move mesmo é a vontade do encontro, mas que seja – tudo o que está por vir – um renovar de sensações, de alegrias, de olho brilhando ao se concretizar o abraço, o encontro. É, sim, a dimensão inefável da linguagem poética, mas pode ser também a presença que realiza, de fato, o momento. Pode ser, como quer Wittgenstein, a linguagem inaugurando o ser. Garatujas Selvagens por isso, porque o rabisco primordial é o que há de mais simples, é o que há de mais natural e de mais espontâneo. 

Ana Luiza – Quando me deparo com a sua obra, vejo que ela sobrevoa e mergulha nos muitos mistérios e espantos da vida, do cosmo, da mulher, da sua própria biografia, que sua força poética tange, como gado, para mais adiante, para o que ainda não se desenhou. Na sua figura vejo ao mesmo tempo o aboiador e o aedo, o apaixonado pelos livros e pelas pessoas, o sertanejo e o jornalista, o artesão sensível em busca do risco e do traço, o menino estupefato diante do porvir e o homem maduro que tem o tempo bufando diante de si. Um poeta, mais que tudo, antenado com o movimento do mundo desde o seu mundo, que ele amplifica ao promover todos os encontros possíveis entre todas essas partes. Minha pergunta é: o que mais se pode esperar de José Inácio Vieira de Melo? 

JIVM – O que você apresentou na sua generosa descrição, Ana Luiza, diz muito do meu movimento. Perpassado que sou por todas essas características enunciadas, estou bem marcado pela figura do poeta andarilho, do produtor cultural, por conta da minha prontidão em realizar as coisas mais aparentemente ‘sem futuro’, porque fadadas a “desmanchar no ar”. Mas que sempre acabam acontecendo e deixando um rastro de beleza na imensidão, na memória, no sentimento. Essa pandemia, que abalou a humanidade e que ainda está tendo desdobramentos, trouxe também muitas reflexões e intensificou a busca de várias formas de se aproximar do outro, que não são aquelas que mais ansiamos e queremos – os encontros presenciais –, mas as que são cabíveis: as conversas virtuais. Estou, sim, a me movimentar, só que muito mais através das redes sociais, porque ainda há muitas restrições de deslocamento e, sobretudo, de aglomeração. Na medida do possível, já estou começando a botar o pé na estrada, novamente, levando minhas garatujas selvagens aos quatro ventos, espalhando a poesia por todos recantos. Há muito o que se semear por aí. 


ANA LUIZA é cantora, poeta e compositora. É nascida em Santos e radicada em São Paulo. Em 2020 a editora Laranja Original publica seu primeiro livro,
Rubra, com o qual participou de festivais internacionais de poesia. Sua trajetória musical de mais de trinta anos a serviço da canção contempla uma variada discografia, parcerias com diversos artistas e turnês pelo Brasil e Exterior. 



MARTA EUGÊNIA DE OLIVEIRA, baiana radicada nas Alagoas, é poeta e professora. Graduada em Letras e Especialista em Linguística. Curadora da Fliara – Feira Literária de Arapiraca-AL, lugar onde mora e atua na Secretaria de Cultura do município. Autora do livro de poemas
Quanto Tanto (Multifoco, 2014). Um novo livro está a caminho: E o risco das floriculturas nas datas capitais, a ser publicado ainda este ano pela editora Trajes Lunares. 

SANDRA SANTOS, gaúcha nascida em São Luiz Gonzaga. Vive em Porto Alegre, onde é coordenadora e curadora do Castelinho do Alto da Bronze Espaço Cultural. Escreve contos, crônicas e poesia. Seus versos já foram traduzidos e publicados em diversos países como Romênia, Itália, Chile, Argentina. Seu último livro Flor de Udumbara (Hanan Harawi, 2016) foi publicado no Peru em língua originária quechua, além de português e espanhol. 

SONY FERSECK (na poesia) e WEI PAASI (em Makuxi Maimu). Pertence ao povo Macuxi, do estado de Roraima. É poeta, escritora, palestrante, pesquisadora. Publicou os livros
Pouco verbo (Máfia do Verso, 2013), Movejo (Wei Editora, 2020) e Weiyamî: mulheres que fazem sol (Wei Editora, 2022). Cofundadora, junto com Devair Fiorotti (1971 - 2020), da primeira editora independente de Roraima, Wei Editora.


Entrevista publicada originalmente na revista Correio das Artes, em João Pessoa-PB, na edição de maio de 2022.

quinta-feira, 3 de março de 2022

ENTRE/VISTAS - JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

 Por Artur Gomes


José Inácio Vieira de Melo: "Eu só sou quando estou na Poesia"

Conheci a poesia de José Inácio Vieira de Melo através de seu maravilhosos livro Sete, pelas redes acompanho atento a sua produção, seja com a poesia escrita, seja através das suas leituras em vídeo, poeta com quem encontro grandes afinidades, na forma de pensar e transpor para o branco do papel suas vivências. "Unguento", é um poema que eu gostaria imensamente de ter escrito e prometo que em breve estará no meu repertório de Poesia Falada. 

Artur Gomes - Como se processa o seu estado de poesia? 

José Inácio Vieira de Melo - Eu só sou quando estou na Poesia. A Poesia é o processo. 

Artur Gomes - Seu poema preferido? Seu ou de um outro poeta de sua preferência. 

JIVM - O poema 2 do canto I - “Fundação da ilha”, do livro Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, onde há uma quadra que diz assim: Mesmo sem naus e sem rumos,/ mesmo sem vagas e areias,/ há sempre um copo de mar/ para um homem navegar. 

Artur Gomes - Qual o seu poeta de cabeceira? 

JIVM - Já tive vários, em momentos distintos da vida: Patativa do Assaré, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Gerardo Mello Mourão, Herberto Helder... Porém, cada vez mais, Jorge de Lima tem se firmado como uma referência fundamental, assim como os contemporâneos Roberval Pereyr e Salgado Maranhão. 

 Artur Gomes - Em seu instante de criação existe alguma pedra de toque, algo que o impulsiona para escrever? 

 JIVM - Apenas me movimento e sigo pelos caminhos que vão surgindo a partir desse movimento. Vez por outra, sou convocado pela Deusa Poesia, e aí não tem muita explicação, a criação vem com as imagens mais insólitas e, muitas vezes, das mais delirantes esferas. E nessas horas, sou pura entrega, numa dedicação sem limites. 

Artur Gomes - Livro que considera definitivo em sua vida? 

JIVM - É necessário citar ao menos três: Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez; Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa; e O guardador de rebanhos, de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa. 

Artur Gomes - Além da poesia em verso, já exercitou ou exercita outra forma de linguagem com poesia? 

JIVM - Sim. A música. Vários compositores, grandes talentos, têm musicado meus poemas e, vez em quando, coloco letra em alguma melodia. Para mim, é uma grande alegria ter parceiros musicais em todas as regiões do Brasil. Já fiz também alguma coisinha para teatro, a pedido de Jackson Costa, ator e diretor baiano. Agora, estou sendo convocado, pelo cineasta baiano Rogério Sagui, a fazer roteiro de filme e de série de televisão, mas ainda não tive coragem de encarar essa parada. Ando muito acomodado, muito mesmo. 

Artur Gomes - Qual poema escreveu quando teve uma pedra no meio do caminho? 

JIVM - Pedra no meio do caminho é o que não falta. Então, vários poemas vieram das topadas. Porém o mais emblemático se chama “Exercícios crísticos”, de Decifração de abismos, meu segundo livro, publicado em 2002. 

Artur Gomes - Revisitando Quintana: você acha que depois dessa crise virótica pandêmica, quem passará e quem passarinho? 

JIVM - Para o inferno seguirá o verme que hoje se espoja na cadeira do presidente. O vírus também passará, como toda tempestade. Nós, que sabemos cantar e apreciar a existência, continuaremos passarinhos. Mas também passaremos, leves como folhas ao vento. Lembrar, sempre lembrar, com José de Alencar: Tudo passa sobre a terra. 

José Inácio Vieira de Melo: "Escrevo para me estender a todo ser"

Artur Gomes – No prefácio do livro Pátria A(r)mada o poeta e jornalista Ademir Assunção, afirma que cada poeta tem a sua tribo, de onde ele trás as suas referências. Você de onde vem, qual é a sua tribo? 

JIVM - Eu sou um Fulni-Ô. Tenho parentesco com os Xucuru-Kariri e com os Payayás. Aproximei-me dos Tucujus, pelos quais tenho amor. Escrevo para me estender a todo ser, a toda pessoa. Eis a minha aldeia. 

Artur Gomes - Nos dias atuais o que é ser um poeta, militante de poesia? 

JIVM - "O poeta tira tua maquiagem/ e escancara tua lepra/ e mostra o quanto és fedorento.// O poeta te desavessa/ te mostra por dentro/ e revela o quanto és perebento.// Por isso que na entrada/ da tua casa, da tua alma/ essa placa bem transparente:// não há espaço para poetas/ e essa coisa de poesia/ é uma praga de gente vadia.// Mal sabes tu, que a poesia/ é o unguento.// Muitas vezes abre feridas,/ mas é só para extirpar,/ de vez o veneno.// A poesia é o bálsamo/ que atravessa todos os tempos". Como pode ver, a resposta veio em forma de verso. O nome deste poema é “Unguento”. Ele faz parte do meu livro inédito Garatujas Selvagens, a ser publicado ainda este ano. 

Artur Gomes - Que pergunta não fiz que você gostaria de responder? 

JIVM - Faltou nada não. Está tudo certo (E nada está certo).


Entrevista feita pelo escritor Artur Gomes. Foi publicada no blog entre/vistas (https://arturgumes.blogspot.com/) em 9 de fevereiro de 2021.

Fotos: Ricardo Prado.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

ENTREVISTA | VIAGEM ÀS PLAGAS CÓSMICAS DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Fotos: Ricardo Prado
José Inácio Vieira de Melo, autor de Entre a estrada e a estrela (Mórula Editorial, 2017)

Chico de Assis, ator alagoano.  Jackson Costa, ator baiano.  Ambos apaixonados por poesia. Distantes um do outro cerca de mil quilômetros, fizeram, ao longo de cinco meses, uma entrevista com o poeta José Inácio Vieira de Melo, que lançou seu oitavo livro, Entre a estrada e estrela, em outubro de 2017, e acaba de celebrar o cinquentenário de seu nascimento. As perguntas foram enviadas, aos poucos, por e-mail, com cópias compartilhadas entre os três. Estava assim a trio, ciberneticamente, reunido em nome da poesia.
Entre perguntas e respostas, foram abordados assuntos como o fazer poético, a pasárgada sertaneja de José Inácio Vieira de Melo, a inquietante razão de existir e a sensação que o poeta tem de estar sempre a escrever o mesmo livro, com estilos e formas diferentes. É impossível ler essa entrevista sem ser abduzido para uma fantástica e introspectiva viagem às plagas cósmicas desse poeta que vive a aliteração de existir entre a estrada e a estrela.
JIVM: "A reflexão existencial sempre esteve presente em meus livros"

Chico de Assis – Depois de vários livros que enfatizam a temática sertânica, o que levou você a escrever Entre a estrada e a estrela, que traz no núcleo uma reflexão sobre a existência?

José Inácio Vieira de Melo – A reflexão existencial sempre esteve presente em meus livros. Não acredito que se possa fazer poesia sobre outra coisa, que não seja a vida e suas inquietações. Até mesmo quando lemos uma equação ou uma receita de bolo, ali está a marca da existência. Mas, de fato, Entre a estrada e a estrela é um livro bem diferente dos anteriores, apesar de ser um retorno para a minha poesia inicial. Ou seja, em 2000 publiquei meu livro de estreia, Códigos do silêncio, no qual pretendia dizer o que só consegui agora. Nos livros que se seguiram ao da estreia, minha poesia foi tomando rumos e fôlegos diversificados, tendo, quase sempre, como cenário a paisagem do Sertão. Entre a estrada e a estrela é apenas um desdobramento do que vinha fazendo, pois, como nos ensina Guimarães Rosa, “O Sertão é o mundo”, e eu sinto essa afirmação da forma mais abrangente, porque, para mim, o Sertão é o Cosmo. Neste Entre a estrada e a estrela, que tem apenas dois capítulos, que são dois longos poemas, percorro o planeta Terra em “O mundo foi feito pra gente andar” e, na segunda parte, “Na esteira do Infinito”, faço uma viagem pelo Universo, a partir das metáforas que surgiram na imensidão das noites da Pedra Só, que oferta aos sentidos as mais impressionantes roças de estrelas. Como pode ver, tudo que faço nasce de um sentimento sertânico, existencialista.

"O mundo foi feito pra gente andar" entre a estrada e a estrela

Jackson Costa – “O mundo foi feito pra gente andar, isso eu já disse, é este verso que tem marcado meu ritmo”, são versos de Entre a estrada e a estrela. De que maneira as suas andanças literárias pelo Brasil – conhecendo novas paisagens e conhecendo, de perto, poetas que você só tinha contato através das redes sociais e dos livros – contribuíram para a maturidade do poeta, visível no seu novo livro?

JIVM – Rapaz, há mais de uma década que não paro de rodar pelo Brasil, do Norte ao Sul, levando minha poesia. E como é forte a relação que estabeleço com os poetas dos vários Brasis que vou descobrindo dentro desse país fantástico, que é o Brasil. De fato, sou andarilho do verso, um apóstolo da palavra poética. Nessas andanças, vou encontrando outros saberes e diversos sabores, e como é farto o alimento que recebo do convívio com as pessoas – absorvendo seus costumes, suas falas, seus ritmos, suas comidas. O diálogo com poéticas, as mais diversas, vai transformando, sim, a minha maneira de sentir e registrar o verso no papel. Depois de passar por Porto Velho, na Amazônia, ou em Araricá, no Rio Grande do Sul, a palavra que chega para compor meu poema, assenta-se na folha com um brilho bem diferente. Saber receber os novos ares que cada paisagem oferece, assim como os afetos do povo de cada lugar, é o que mais me impulsiona ao movimento, à vontade de caminhar “porque o mundo foi feito pra gente andar/ pra gente se descobrir e se inventar e se reinventar”. Cada poeta que conheço – que me oferta o milagre do seu verso – acrescenta muito aos rumos da minha poética. A minha poesia, creio que já disse isso várias vezes, é feita do somatório de todas as minhas leituras, de todas as minhas experiências no misterioso palco da vida. Essa maturidade, à qual você se refere, é da existência mesmo. Além do fato de que vou completar 50 anos, a minha vida é completamente imbricada com a poesia. É uma embolada na outra. Mas o que sinto, verdadeiramente, é que cada passo trás novas descobertas, cada momento traz um aprendizado. Portanto, essa maturidade é muito relativa.

Chico de Assis Você, além de poeta, recita e canta seus versos. Seu canto trás uma musicalidade que remete ao aboio dos vaqueiros do sertão. A musicalidade sertaneja sempre esteve presente em sua vida?

JIVM – Sempre! Desde que eu me entendo por gente, a musicalidade do meu povo – as gentes dos grandes sertões – esteve a permear meu imaginário, marcando definitivamente meu ser e, por conseguinte, toda minha arte. Você fala do aboio dos vaqueiros, que é algo que se destaca na minha performance, mas os violeiros e os cantadores de coco, que andavam pela feira livre de Arapiraca, em Alagoas, também tiveram um papel de destaque na minha formação. Esse traço estético, a presença da oralidade, demarcada por uma forte intuição rítmica, está presente no Entre a estrada e a estrela, amalgamado ao som cadente e compassado da poesia grandiloquente de Gerardo Mello Mourão, assim como das baladas intermináveis de Bob Dylan e Van Morrison e do som psicodélico do Pink Floyd. Neste livro, especificamente, quis mesmo enfatizar a importância dos cantores nordestinos na minha vida e na minha poesia. Então, aparecem, literalmente, os cearenses Belchior, Ednardo e Raimundo Fagner, os pernambucanos Alceu Valença e Geraldo Azevedo, meus conterrâneos Djavan, Hermeto Paschoal e Jacinto Silva, os paraibanos Cátia de França, Elba Ramalho, Vital Farias e Zé Ramalho, os baianos Elomar e Xangai, e vários outros. De uns tempos para cá, percebi que minha poesia é muito musical. Então, abro um livro meu qualquer, em uma página qualquer, e já saio lendo e cantando ao mesmo tempo. E as melodias são repletas dessas referências gonzagueanas.

Alagoano radicado na Bahia, José Inácio completou 50 anos neste mês de abril

Jackson Costa Você diz: "Andar, perder o centro". O que representa esse lugar chamado  Pedra Só, esse Sertão, pra quem já tem a alma desterrada pela arte da escrita?

JIVM – A Pedra Só é uma fazenda que fica na caatinga, no Portal da Chapada Diamantina, no município de Iramaia, no estado da Bahia. Esse é o registro oficial, que está na escritura da propriedade. Mas para o poeta que sou, a Pedra Só é a minha Pasárgada, minha Terra do Nunca, minha Ilha de Karakantá, é o meu Macondo, meu Sítio do Pica Pau Amarelo. Minha alma desterrada arde e vibra ao sentir o gosto do Sol. E a Pedra Só é o Império do Sol. A Pedra Só é o entre-lugar que me proporciona todas as possibilidades de delírio, no sentido mais abrangente e mais amplo que a palavra delírio possa ter: mais profundo que a inspiração e mais intenso que a transpiração.

Chico de Assis – Ao fim da leitura de Entre a estrada e a estrela, fiquei com dois versos bem incrustados no meu pensamento: “porque o mundo foi feito pra gente andar / nos dez de galope na beira do mar”. Entre a estrada e a estrela é um chamamento para viver o mundo?

JIVM – A sua pergunta me proporciona uma sentimento de realização, porque traz em seu bojo uma compreensão do livro, que espero que todos os meus leitores alcancem também. Entre a estrada e a estrela é um convite para viver o mundo em sintonia com o Cosmo. A minha intensão estética é de despertar vontades no leitor: que sinta vontade de percorrer mundos – interiores, exteriores, ficcionais, inimagináveis; que sinta vontade mesmo de botar o pé na estrada, como o fez Jesus Cristo, que andava para cima e para baixo, sem a menor preocupação com o amanhã, visto que dedicava todo seu tempo a propagar o Amor entre as pessoas; que sinta vontade de se perder, como Jack Kerouck e toda uma nação de hippies e andarilhos, até que encontre algo maior que seu próprio umbigo. O meu livro é, sim, um chamamento e pretende ser até mais: uma convocação para que cada vivente bote o pé na estrada e entenda que estamos aqui de passagem e que a única forma disso tudo ter sentido é vivenciarmos a profundidade do Amor.

Entre a estrada e a estrela, "Na esteira do infinito"

Jackson Costa – O poeta Castro Alves, numa entrevista concedida ao escritor e professor carioca Augusto Sérgio Bastos, em 1871, diz: “Acho que o poeta deve falar aos corações. Eu falo. Mas, não é com sussurros que se incendeia o público; é com entusiasmo, dramaticidade, retórica. O poeta é, às vezes, um corcel sem freios... Eu tenho consciência de que faço alguns poemas para voz alta”. Vejo essas características na sua obra. Você é um dos poucos poetas, nesse país, que diz com força e beleza os próprios versos. Em Entre a estrada e a estrela, esta característica se vê mais acentuada. Você pode falar sobre isso?

JIVM – Ah, que maravilha ler as palavras do mais belo poeta brasileiro, o genial Castro Alves. E como a sua resposta a Augusto Sérgio Bastos está de acordo com sua obra poética e, também, com o que compreendo sobre a função da poesia, pensando essa palavra ‘função’ muito mais como uma forma de interação com sentimentos e emoções do que como engrenagem partícipe de uma estruturação organizacional. Se não tiver emoção, se não alcançar o sentimento, se não falar ao coração, pode ser qualquer coisa, menos poesia. E qualquer coisa também pode ser poesia, mas tem que passar pela alquimia do verso, pelo magia do encantamento, tem que se tornar algo que inaugure arrepios na minha e na tua existência. Tenho acreditado, cada vez mais, que “o poeta é um corcel sem freios...” Sim, o mundo foi feito pra gente andar, galopando na beira do mar, voando nas ondas do ar quente do Sertão, mergulhando na imensidão do Infinito. Falar da minha expressão poética é algo muito ‘arriscoso’, prefiro que os outros o façam. E a crítica tem sido bastante enfática ao apontar o tom exclamativo do meu canto, a expressão solar do meu verso. Agora, essa característica de dizer os poemas tentando imprimir em cada palavra toda a tensão estética, toda força emocional, é algo que atribuo à minha experiência com os artistas populares, que me trouxeram uma cultura oral, o que é bem comum para quem nasceu no interior das Alagoas e viveu a infância e boa parte da adolescência em um Sertão arcaico, onde a expressão maior era a oralidade, onde a voz tinha um poder de encantamento sem limites. Aliado a isto, está a leitura da Bíblia e o contato com a música de profetas/andarilhos, como Elomar, Bob Dylan e Zé Ramalho. O que melhor definiria minha poesia nesse livro Entre a estrada e a estrela seria pensá-lo como a voz do vento, trazendo consigo a poeira dos tempos. Não uma voz qualquer, mas todas as vozes num coro uníssono, onde se destacasse, aqui e ali, um grito extravagante, uma voz alta, um berro de existência, um canto de louvor à vida, de alguém que sente que está apenas de passagem.

Chico de Assis – Acompanho sua obra desde 2007, quando você lançou o livro A infância do centauro, do qual faz parte o maravilhoso poema “Gênese”, que recito frequentemente. A partir desse primeiro contato até às produções mais recentes, pude constatar o tom mítico e místico da sua poética, o que lhe aproxima bastante de Jorge de Lima. E, ao meu ver, você, assim como o autor de Invenção de Orfeu, são poetas epifânicos. Mesmo quando você cria imagens desconcertantes, causando estranhamentos, acaba sempre por despertar no leitor uma iluminação. Você tem essa sensação, de transcendência, no momento em que está compondo seu verso? Como é que JIVM se sente ao fazer sua poesia?

JIVM – Ser conterrâneo de Jorge de Lima, para mim, já é uma grande satisfação. Ter minha poesia aproximada à do grande mestre alagoano, é uma glória, porque se trata de um dos poetas que mais tencionou a linguagem; e por ter perquirido caminhos tão inusitados, foi capaz de cometer vários dos momentos apicais da poesia de língua portuguesa. Jorge de Lima é o estandarte da epifania.
É isso mesmo, Chico, minha poesia vem de um manancial místico e tem veios míticos, sendo assentada numa paisagem agreste e que se lança às esferas do delírio. Tenho feito essa afirmação com certa frequência, porque não encontro outra maneira de me expressar sobre o que escrevo. Como disse antes, acho um pouco delicado falar sobre isso. No entanto, é possível fundamentar as bases da minha poesia a partir dessa bifurcação, que seria o mítico e o místico, ambos impregnados por Eros. Na verdade, vivo a escrever o mesmo livro, talvez reescreva, o tempo todo, o primeiro livro, ou pode ser que esteja escrevendo novos capítulos do livro da minha existência. Muitos escritores acham cômica essa minha forma de pensar a arte poética, como algo sublime. Mas não escrevo para agradar a ninguém, nem aos escritores nem aos leitores. Escrevo para continuar vivo, escrevo porque preciso, escrevo porque escrevo. Não escrevo para fazer sucesso, não escrevo pensando em vender milhares de livros, escrevo para validar o momento, para valorizar minha passagem por aqui, escrevo porque preciso exaltar a beleza que brota na minha essência, mesmo que não consiga transmiti-la através da linguagem, mas é a melhor maneira que tenho para fazê-lo, então eu vou lá e faço!  Quando faço meus poemas sinto uma tensão profunda, um vazio a me avassalar e um desejo amplo de alcançar o impossível.


JIVM revela que escreve porque precisa "exaltar a beleza que brota na sua essência"

Jackson Costa Poeta, sei que ainda há muito chão, muita estrada para este seu novo livro trilhar Brasil a dentro. Há novas escritas para um próximo livro? E os projetos, como andam? E o que significa, para você, esse momento em que o nosso país está passando? Em que pode influenciar na sua poesia?

JIVM – Enquanto houver vida, há caminhos a serem trilhados. Em relação ao percurso do livro Entre a estrada e a estrela, confesso que, pela primeira vez, estou um tanto acomodado. Fiz poucos lançamentos e o promovi bem menos que os outros. A começar por essa entrevista que vem se desenrolando desde novembro de 2017 e só chegamos à sua conclusão em meados de abril de 2018, nas vésperas dos meus 50 anos. Mas é agora mesmo que volto a botar o pé na estrada, levando meus versos por aí, desde a Casa das Rosas, em São Paulo, até o Centro Cultural Justiça Federal, no Rio de Janeiro; desde os interiores das Alagoas aos interiores da Bahia e do Piauí. Literalmente estou ‘entre a estrada e a estrela’. Sobre os projetos, continuo fazendo coisas, curadorias, inventando possibilidades de promover  encontro de escritores com o público, para que possam divulgar seus livros. Não é nada fácil, sobretudo nesse momento em que só se fala de ‘crise’. Às vezes, vem aquela vontade de desistir, mas não tem como, não consigo. Agora, agorinha mesmo, acabei de aceitar o convite de Ângela Fraga de Sá, diretora executiva da Fundação Casa de Jorge Amado, para fazer parte da comissão de curadoria da segunda edição da Flipelô, Festa Literária Internacional do Pelourinho, um evento espetacular que vai acontecer de 9 a 12 de agosto, em Salvador. A tirar pela primeira edição, que aconteceu em agosto de 2017, vai ser uma grandiosa festa baiana de literatura. Sobre os escritos para um novo livro, tenho feito, esporadicamente, poemas avulsos, mas nada que se caracterize como um livro. Por outro lado, recebi o convite de uma editora para fazer um livro de poesia infantil e isso tem despertado, em mim, uma novo olhar sobre as coisas. Tenho me voltado para a minha infância e pensado muito na infância dos meus dois filhos, principalmente a do meu caçula, Gabriel Inácio, que vai completar, por esses dias, 11 anos. Estou meninamente animado com essa ideia. Agora, saio da alegria da infância para responder, com pesar, sobre esse terrível momento que o nosso país está atravessando. Sinto que existe uma onda de ódio tomando conta das pessoas. O aparato tecnológico que trouxe a possibilidade de termos contato com um número imenso de pessoas, ao invés de nos aproximar fraternalmente, afundou-nos no pântano da intolerância. Como se não bastasse, esse escancarar da corrupção institucionalizada, que assola e avassala todo o país, estamos afundados no mais tenebroso sentimento, que é o ódio. E o que é pior ainda, perdemos nossos ideais. A indiferença com que tratamos as coisas que verdadeiramente interessam, que é o nosso bem estar e o bem estar do outro, é que nos tem afundado nesse caminho tenebroso da violência. Enquanto nos dividimos idiotamente entre esquerda e direita, as figuras satânicas dos políticos continuam o seu jogo de destruição. A minha poesia aponta para outros caminhos, trilha por outras vias; a minha poesia quer andar de mãos dadas com qualquer pessoa que esteja aberta para compreender o outro. E aqui falaram mais alto, bem dentro do meu sentimento, o poeta Drummond e o Messias.


Chico de Assis é ator. Natural de Maceió, Alagoas, atuou nas novelas Irmãos Coragem, Deus nos Acuda e Velho Chico. Além de diversas minisséries, como Memorial de Maria Moura, Agosto e Menino de Engenho. No cinema participou de Memórias do cárcere, Deus é Brasileiro e Espelho D´água. Tem uma profunda ligação com a poesia brasileira, sobretudo com a obra de Jorge de Lima, poeta alagoano autor de Invenção de Orfeu.



Jackson Costa é ator e diretor. Natural de Itabuna, Bahia, trabalhou em minisséries e novelas como “Pedra sobre Pedra”, Renascer, Paraíso, Tocaia Grande, A Pedra do Reino e Dalva e Herivelto - Uma Canção de Amor. No cinema participou de O Dono do Mar e Estranhos. Lançou um Cd, no qual interpreta poesias de Castro Alves e Gregório de Matos, poetas da sua predileção, e de vários outros poetas. Dirige o grupo musical Virado no Mói de Coentro.


Entrevista publicada originalmente na revista Correio das Artes, em João Pessoa-PB, na edição de abril de 2018.