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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O POETA JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO BRILHA NO MÉXICO

- Por José del Val -


José Inácio Vieira de Melo contagia uma platéia de 2.000 pessoas no VIII Festival de Poesia As Línguas da América Carlos Montemayor, na Sala de Concertos Nezahualcoyotl, na Cidade do México

José Inácio Vieira de Melo, alagoano radicado na Bahia, poeta jornalista e produtor cultural, foi um dos destaques no VIII Festival de Poesia As Línguas da América Carlos Montemayor, na Cidade do México, que aconteceu em 11 de outubro de 2018. José Inácio se sobressaiu por conta da sua poesia visceral e por sua performance singular. Em um texto preciso, o etnólago José del Val, diretor do Festival, dá a dimensão da participação de José Inácio ao representar o Brasil e a língua portuguesa na nação dos astecas e do poeta Octavio Paz.

José del Val: A figura do poeta José Inácio no palco estava cheia de vigor e intensidade, com sua palavra precisa e com sua voz poderosa teve como resultado uma fusão sem igual.

            O poeta brasileiro José Inácio Vieira de Melo é uma figura de referência no campo poético de seu país. Prova disso é que seu trabalho atraiu a atenção de grandes poetas da língua portuguesa como Thiago de Mello, Lêdo Ivo, Antonio Miranda e Affonso Romano de Sant'Anna. Por essa razão, suas composições poéticas alcançaram diversas latitudes em todo o mundo, já que seu trabalho foi traduzido para o alemão, árabe, espanhol, finlandês, francês, inglês e italiano. Como prova de sua qualidade literária, e em recompensa ao seu árduo trabalho, em 2015 foi agraciado com o prêmio Quem Literatura, quando foi considerado o melhor autor de literatura naquele ano; razões suficientes para ser convidado como representante da língua portuguesa para o VIII Festival de Poesia Línguas da América Carlos Montemayor.
            Sem dúvida um acerto. A figura do poeta no palco estava cheia de vigor e intensidade, porque com sua palavra precisa e com sua voz poderosa, cheia de melodia, acompanhada por uma gestualidade corporal harmônica, que insinuava que mais do que um recital poético se tratava de um encontro com a palavra e a música, teve como resultado uma fusão sem igual.
            O estrado onde descansavam impressos seus poemas era mais um espectador de sua caminhada no palco, de sua voz em movimento.

José Inácio Vieira de Melo (Brasil), Fredy Chikangana (Colômbia) e os mexicanos  Juany Peñate Montejo e Victor Terán - Monumento com poema do imperador Nezahualcoyotl, na entrada do teatro que recebe seu nome, onde aconteceu o Festival

            Foram dias de intensa atividade para o poeta, onde o encontro com os poetas indígenas, que representariam as línguas originais do continente, estimulou a seleção do trabalho que apresentou.
            A palavra de Vieira de Melo enquadra-se perfeitamente na dimensão do VIII Festival de Poesia, evento em que "a poesia se tornou uma arma carregada de futuro", pois foram os jovens os principais espectadores que lotaram o local na quinta-feira, 11 de outubro. Nele, durante três horas, soaram as vozes ancestrais, as vozes de outros mundos, outras realidades. Lá, José Inácio Vieira de Melo participou com uma das quatro principais línguas de origem européia que habitam o continente americano.


José Inácio Vieira de Melo nas Pirâmides de Teotihuacan

            "No aconchego dos teus braços / quero estar o tempo inteiro. // Pelas estradas do mundo / com o sentimento aberto" – recitava José Inácio, enquanto enchia de poesia e canto o auditório do ancestral imperador poeta Nezahualcoyotl.



JOSÉ DEL VAL – Etnólogo mexicano, Diretor do Programa Universitário de Estudos da Diversidade Cultural e Interculturalidade da UNAM (Universidade Nacional Autónoma do México) e Diretor do Festival de Poesia As Línguas da América Carlos Montemayor.

Texto publicado originalmente na Revista Muito Mais, Edição Nº 15, Página 110, Dezembro de 2018

terça-feira, 5 de junho de 2018

O CINEMA QUE O SOL NÃO APAGA, NOVO DISCO DE THIAGO AMUD

Por José Inácio Vieira de Melo




"O cinema que o sol não apaga", novo álbum do cantor e compositor Thiago Amud é uma das mais belas páginas da música contemporânea. "A impotência de quem sonha é terrível", frase do sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, é a epígrafe do disco, mas foi de um sonho inquietante que Amud chegou à sua epopéia sonora, cosmo estético que transborda erudição, sendo, ao mesmo tempo, tão simples e corriqueiro como a flor que desabrocha, agora, em algum lugar do Sertão. Amud, quando pega o violão e se encaminha para a composição, pode ter certeza que algo no mundo vai mudar. O canto deste "Abaporu cobaio" é tão "thiagonizante" que consegue mudar o jeito de seus ouvintes sentir a música, porque, apesar da estranheza, sua expressão é tão de todos. Começo a achar que a missão de Thiago Amud é revelar a nossa face brasílica, planetária, cósmica. O que, certamente, nos faz querer mergulhar, cada vez mais, no céu de sons de Amud, é que o voo que ele nos propõe não é órfão. É certo que seguimos sozinhos, e os caminhos são inóspitos, mas há um lugar onde os nossos mistérios encontram guarida, encontram aconchego. O canto de Thiago Amud é mãe e manhã, é "Nascença". O que não posso deixar de dizer, de reafirmar, de corroborar, é que, além de compositor estupendo, Amud é um belo poeta. Quem entra no seu 'cinema' descobre o sol, descobre-se astro de um filme estranhamente novo. E sonha, e sai por aí, 'assum livre', espalhando luz. O Brasil tem jeito, nós temos jeito, sim! A prova disso é a música de Thiago Amud. 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

TANTOS EUS EM TORNO DE MIM

Por José Inácio Vieira de Melo


Estilhaços de um ser fragmentado ou explosão de vozes que saíram do casulo, Outros eus é um livro que caminha, o tempo todo, em direção à unidade do ser. São tantos “eus” em forma de “mim” que aparecem neste caderno especular, que as letras chegam a adquirir feição própria, estampando no olhar do leitor o somatório de eus que conjugam Érica Azevedo.

Sair do casulo para enfrentar o mundo é um grande fascínio, porém cheio de riscos e, certamente, ninguém passa impune por essa viagem. No que se refere à sua escritura, Érica traça um caminho através de textos curtos, revelando-se uma expoente do minimalismo. Escreve como quem pinta um autorretrato à exaustão, utilizando sempre os mesmos matizes. Parece não ser por falta de outras opções cromáticas, mas por uma necessidade de se refazer naquelas mesmas cores em que confia, mesmo que esteja perdida em meio às suas escolhas. Mas quem está na busca é por que ainda não encontrou. E quem encontrou? Quem se encontrou? Assim, Érica primeiro se estranhece para depois se reconhecer, mas logo em seguida vem um novo estranhamento e, sucessivamente, outros eus se vão configurando.

Vozes, que representam um desencontro, ecoam por todo mapa do livro. Através dos retalhos de uma tempestade, chega-se à sua “Intimidade”: “Meu quarto é uma extensão / do lodo / e do gozo / do meu corpo”. Como o poeta itabirano, Érica também é gauche, tem um olho torto que a leva “por velhas estradas” até chegar “a um ponto morto”, sua herança e ressureição. E abre as pernas para a fecundação – é preciso  que nela algo se inscreva, é preciso renovar o mundo, mesmo que, em “Instantes”, “Uma bala / perpasse meu peito / bem devagarinho... // e sigo cheio de morte / pela vida”. Eis o imponderável: prosseguir com tantos eus em torno de mim.

Prefácio do livro Outros eus (Editora Kalango, 2013)

quarta-feira, 30 de abril de 2014

IRAY, UM CERTO ANJINHO MUITO ESPERTO

Por José Inácio Vieira de Melo


Iray Galrão nasceu para seguir seus sentimentos. E sempre quis ser professora, para poder partilhar com seus semelhantes aquilo que recebeu com tanto amor: o conhecimento.

Na infância, queria interpretar um anjo! Mas nunca foi chamada para desempenhar esse papel nas peças de teatro da escola em que estudava. Apesar de ter o cabelo cacheado, não era louro! Mesmo assim, ela nunca perdeu a graça e saía inventando peraltices para alegrar seus colegas, pois seu espírito não permitia que cortejasse sofrimentos. Iray nasceu para distribuir alegria.

E o tempo passa. E uma vida é vivida. E nada mais provável poderia acontecer do que Iray se tornar uma escritora. Não uma escritora qualquer, mas uma contadora de estórias que consegue, com domínio de linguagem, alcançar e deslumbrar leitores de todas as faixas etárias.

Bem, mas o que há de improvável na sua trajetória para que faça parte de uma coleção intitulada Autores Improváveis? É que Iray, além de escrever as estórias, faz também as ilustrações. Como se não bastasse, ao invés de desenhar e pintar as artes, ela as borda à mão, em um trabalho meticuloso que exige muito zelo.

Sabe aquele desejo de interpretar um anjo? Transformou-se em seu livro de estreia, O Anjinho Jojô.

Agora, chegou a vez de Bolota, a jabuticaba esperta, que acorda ao primeiro clarão do sol, para sentir as maravilhas do mundo que a rodeia.

Só mais uma coisinha! Sabe por que Iray Galrão nunca foi chamada para interpretar um anjo, nas peças escolares? Porque todos já percebiam que ela era um anjo de verdade!

Texto de apresentação do livro Bolota, uma certa jabuticaba muito esperta (Escrituras Editora, 2014)

terça-feira, 22 de abril de 2014

UM PEDAÇO DE CHUVA NO BOLSO DO SACERDOTE

José Inácio Vieira de Melo


José Geraldo Neres é um orixá da poesia, um poeta de terreiro que, com sua flecha de anjo trágico, acende as asas da emoção. Nos olhos de barro de Neres outros silêncios se anunciam, prenhes de signos, para compor a sinfonia do acaso. Neste novo livro, Neres, sacerdote inominável que carrega  um pedaço de chuva no bolso, segue por uma tempestade de metáforas, advindas de um longínquo abismo que abriga no peito. Alquimista do ABCDE, sopra dois dados no ar e nos mantêm suspensos na expectativa dos sonhos que brotam dos textos da sua escritura polifônica. Desde a estreia, com Pássaros de papel, Neres vem desenhando um outro Sol, com a sua macumbaria poética, em cada gesto e verso que compõe, realizando as núpcias das palavras estrangeiras, criando um código pessoal repleto de magia e de assombros. Aliás, a poética de José Geraldo Neres estende fronteiras, ao abarcar territórios desconhecidos, e sua criação prescinde de rótulos, é um fazer em si estendido ao outro, a derramar-se em possibilidades, em caminhos e encontros. Um poeta assim, tão cheio de vazios e de amplidões, só pode despertar florestas de arrepios.

Texto da contracapa do livro Um pedaço de chuva no bolso (Editora Kazuá, 2014)