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quarta-feira, 20 de junho de 2012

CANTINHO DO CONTO - QUANDO EU ESTAVA A CAVALO SOBRE MIM MESMO

Por Bruno Gaudêncio


QUANDO EU ESTAVA A CAVALO SOBRE MIM MESMO
        Para Nelson de Oliveira

“(...) som de tudo que é um som de silêncio,
mais que ruído ou voz, que se distinga a solidão.”
Ricardo Guilherme Dicke

Quando eu estava a cavalo sobre mim mesmo, montado na sela das penumbras existenciais, procurei lançar no jogo dos espelhos luzes na escuridão de Etílio, visto que fui deveras invadido pelo terror da presença enigmática de sua finitude cruel. Trôpego, ganhei as pedras assustado com o sangue da vítima, molhando cada detalhe nos cheiros das alucinações. As escuridões das esquinas nas serras aos quatro pés ardiam no poço escuro das amarguras e lamentações. Fitei as linhas dos ouvidos, das bocas, escutando o manobrar dos trilhos da voz clamorosa, exigindo na bruma um ventre límpido, cuja faca formaria um arrepio em dentes de pavorosas sombras. Reconheci vibrante, apesar de cadáver, o ser que estava trajado nas súplicas cadeiras de terra e cal. Alto, Etílio atinava as subidas serras do ar berrante, beijando o canivete rubro nas impróprias castanheiras. Meu pescoço sentia a navalhada vibrante desposando as fibras no sangue quente e ardente da faísca. Etílio clamava retratos dignos na voz dos ossos. Olhares nas coxas tornadas dos bichos observavam as vargens do sítio. Pavorosas testemunhas do assalto que em mim indiscretas desviavam lâmpadas de impaciência, atropelando a noite na rigidez da memória. Vento a sussurrar desafios nas bordas do queixo. A luz e o rigor da condenação invadindo a cada minuto. A poeira nas sonoras crostas da alma. Calcava a chuva imóvel quando o íntimo bruto gritou saliva e sangue aos meus ouvidos, respigando agruras nas cinzas dos pés da algaroba. O cavalo ao mesmo tempo suspirou negramente as vergonhas.  A penumbra exaltada clamou em uma breve história do espírito, um perdão que não havia, em meio aos espantalhos habitados de pássaros. Voltei correndo, deixando a vista buliçosa na praça da minha pele, larga e fugida, em meio aos pêlos do cavalo que se confundiam com os meus. Etílio continuava alto na voz dos espantos. Canhão de dores ardia nas gramas das pernas. As penugens queimavam ao som das peles púrpuras. Quando cheguei ao conforto da casa, cobri os olhos com o desinteresse dos meus cabelos e nas crinas cravou-se um aço. Meus medos desviavam atônitos os ovos apunhalados da tradição. Dedos galgavam heróicas explicações sombrias sobre a solidão eterna do temor, nos pés das calçadas. E eu continuava vivo no abrangido suspiro de Etilio no ar da janela.


Bruno Gaudêncio é escritor, jornalista e historiador. Nasceu em Campina Grande, Paraíba, em 02 de dezembro de 1985. Mestre em História pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Graduado em Jornalismo e História pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Publicou os livros O ofício de engordar as sombras (poesia, 2009) e Cântico voraz do precipício (conto, 2011). Edita a revista eletrônica de literatura Blecaute (http://revistablecaute.blogspot.com/)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

CANTINHO DO CONTO - A PRIMEIRA VEZ

Por Lima Trindade



A PRIMEIRA VEZ 
para Nelson Luiz

            A primeira vez que o vi ele estava com um velho paletó cinza e comemorava aniversário. Eu já o vira outras vezes. Contudo, a primeira vez que REALMENTE o vi foi naquela noite. Noite de seu aniversário, noite especial porque seria a noite em que eu verdadeiramente o veria, pois das outras vezes, mesmo aquelas quando adquiria a dimensão de um jogador de basquete – e jogador de basquete sim é o exemplo quase perfeito para identificar-lhe o tamanho ao subir os tablados dos pequenos teatros salpicados na cidade para recitar para quase ninguém que queira escutar, mas todos sabem que estão ali justamente para ouvi-lo e, se possível, aplaudi-lo e dizer que sempre entenderam tudo e acharam demais cara, principalmente aquele verso ou aquela hora em que ele grita com raiva ou por pouco, muito pouco o choro não lhe banha a face – e ele parece maior muito maior mas não tão grande quanto naquela hora parado no meio da sala bebendo e chorando porque ganhara um livro de presente de aniversário de uma menina que me falaram fora sua namorada e fumava e fumava soltando fumaça com medida graça e eu reparando nas suas longas costeletas e no desenho dos lábios se abrindo para soprar a fumaça. Lembro especialmente do paletó meio amarrotado e também folgado e do gosto do vinho barato e do quanto ele me lembrava Jack Kerouac, o velho beatnik, emocionado apenas porque ganhara um livro de presente de aniversário, lembro que tinha um espelho na sala e eu não olhava diretamente para ele, mas para o espelho, porque assim ninguém descobriria o que comigo se passava: que eu estava apaixonado e com medo que alguém pudesse desconfiar de meu amor que naquela hora não era todo consciente, era meio misturado à bebedeira, sim era a bebida que fazia isso com a gente, confundia o gosto e a noção de beleza, porque um homem não pode achar bonito outro homem, ainda mais se a beleza tiver uma aura de sensualidade, ora, ora ele era realmente bonito e seu charme me embebedava no meio de tanta gente ali interessante feito poetas, atrizes, pintores e admiradores que não eram merda nenhuma mas também ali estavam bebendo e falando e falando e falando... Ele contudo não falava e seus olhos doces e alguma coisa tristes para alguns não eram tristes para mim, no entanto, pois eu compreendia a dor escondida pela qual ele provavelmente teria passado e eu achava que era a mesma dor minha, por isso sabia que não podia ser tristeza, mas um sentimento intenso e um tanto santo de se identificar com as cruezas do mundo e não ficar indiferente como todas as pessoas que conheço menos eu e ele que estava fazendo aniversário e eu o mirando pelo espelho até que alguém resolveu colocar música e fazer soar aquela voz arrastada da cantora de cabaré francês que nunca esquecerei, assim como não posso esquecer dele vindo em minha direção e pegando minha mão para que dançássemos enquanto todos explodiam em risos e eu tentava me desvencilhar mas ele era firme e resoluto e eu não tive como deixar de sentir seu rosto colado ao meu e o quanto era quente aquele paletó oscilando em movimentos de rodopios lentos ao embalo da bela música e dos risos que me envergonhavam e me faziam querer morrer, o que não seria de modo algum ruim porque morrer nos braços dele era o que eu queria desde que tinha nascido, pelo menos foi o que pensei no instante em que a música acabava e ele beijava minha testa como ninguém jamais houvera beijado, agradecendo e sorrindo para então dividir-se em atenções aos demais convidados, deixando-me no meio da sala nesta hora já totalmente deslocado, porém feliz e querendo viver eternamente por ter com ele dançado, quem poderia de alguma maneira imaginar meu contentamento apesar de parecer desconcertado, deste modo quando alardearam o fim da bebida e sugeriram dar continuidade fora dali num bar daquela cidade que eu não conhecia direito porque era a primeira vez que lá tinha estado, eu aceitei e redobrei as esperanças de novamente me aproximar dele e então penetramos no dorso da noite e eu achei que vê-lo andar com o livro que havia ganho no bolso do paletó cinza em busca de um ponto para eles determinado, mas para mim completamente vago, era uma visão mágica acrescida pelo jogo de luzes e sombras dos escassos postes de eletricidade e vãos da estrada em que caminhávamos, os poetas, as atrizes, os pintores e os admiradores o circundavam enquanto eu ia atrás admirando o cortejo fiel, até quando percebi que tinha bebido demais e o cadarço do meu sapato estava desamarrado e vacilei no passo e caí no asfalto, sem forças para me levantar enquanto eles seguiam na noite que só poderia ser esta e jamais outra, eu o perdendo enfim em seu paletó cinza.  

Lima Trindade nasceu em 23 de dezembro de 1966 em Brasília, DF. Vive em Salvador desde 2002. É autor do romance Supermercado da Solidão (LGE, Brasília, 2005) e dos livros de contos Todo sol mais o Espírito Santo (Ateliê Editorial, São Paulo, 2005) e Corações Blues e Serpentinas (Arte Pau Brasil, São Paulo, 2007). Participou das antologias de contos Todas as gerações (LGE, Brasília, 2006), organizada por Ronaldo Cagiano, O melhor da festa (Nova Roma, Porto Alegre, 2009), org. por Fernando Ramos, e Geração Zero Zero: fricções em rede (Língua Geral, Rio de Janeiro, 2011), org. por Nelson de Oliveira. É mestre em Letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), tendo estudado os contos de João Silvério Trevisan, Reinaldo Arenas e David Leavitt. Edita mensalmente, desde 1999, a revista eletrônica Verbo21 (www.verbo21.com.br), divulgando e entrevistando novos e antigos autores, além de ensaios sobre a cultura em geral. Tem vários textos publicados em jornais e revistas do Brasil e exterior: Revistas Cult, LSD, Iararana, sites Bestiário, Germina e Confraria do Vento; jornais Correio Braziliense e A Tarde, entre outros.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

CANTINHO DO CONTO: A MESMA DE TEMPOS ATRÁS

Renata Belmonte


Se você me perguntasse, responderia assim: cresci observando minha mãe colecionar vestidos para o grande dia, a data do retorno que nunca aconteceu. Às vezes, me escondia em seu quarto, apenas para tentar ser parte de seus delírios, cada roupa uma nova dramatização para o fim da longa espera. Vestir-se significava experimentar um pouco da felicidade projetada em seus sonhos. Quando morreu, tive dúvidas sobre qual deles ela deveria usar. Optei pelo que comprou por último, um longo rosa seco com leves bordados em prata. Imaginei que em seu enterro, ela talvez conseguisse o que tanto almejava. Ledo engano. Em cada palavra sentida, a ausência do único que importava. De preto, despi-me para sempre da esperança de qualquer aviso. E fiz a escolha pela nudez, transformando-a em profissão.
Apenas se você me perguntasse, eu responderia. Convivo bem com silêncios, com a falta de explicações. Fui menina criada em cantos, tranças feitas pelas empregadas, órfã de pai, intervalo incômodo da vida da mãe. Por isso, diariamente, sou abandonada e não me importo.
Eles chegam sorrindo, camisas impecavelmente passadas, são suas mulheres que os vestem para nossos encontros. Fazem da mesma forma com as crianças, quando as arrumam para as festinhas de aniversário dos colegas. É uma longa tradição. Crescem acostumados a mandar, exigir, dispensar. Presto atenção em seus rostos redondos, escorregadios. Não, não há qualquer vestígio de remorso ou culpa. No final, quando já estão satisfeitos, colocam o dinheiro em cima da cômoda e vão embora agradecendo, repetindo as mesmas palavras que diriam para qualquer vendedor de cigarros. Alguns, enquanto caminham, ainda olham para trás, têm esperança de compreender o que lhes falta. Outros preferem ignorar a existência de razões. Em nenhum caso, sinto-me magoada ou comovida. Não me cabe essa parte. Compreendo muito bem o papel que represento na vida das pessoas.
A amante. Nada mais ou menos que isso.
Confesso que sabia que voltaria a me procurar. Esta porta sempre esteve aberta. Muitos são os que passam ou passaram por ela. Seria estranho que logo você fosse a exceção, o vácuo da minha história. Guardo ainda, num álbum de aspecto infantil, aquela nossa fotografia. Aquela em que estamos abraçados e felizes. Quando não me sinto vigiada, gosto de revê-la. Um dia feliz, eternizado em um pedaço de papel. Às vezes, chego até a recriar as sensações daquele momento. No entanto, não pense que faço o mesmo que minha mãe. Já lhe disse, muitos são os que deitam e deitaram na minha cama.
Sim, durante esses anos, estive lhe aguardando. Porque a sua vinda, o nosso encontro era uma coisa natural, previsível.
Apenas isso. A amante.
Olhe para mim. Não sou a mesma de tempos atrás.
Convido-o para entrar.
Novamente, nós.
Você, sapato preto de cromo alemão, passos fortes, mesmo perfume daqueles tempos. Reconheço-o, de pronto, através dos sentidos menos festejados. Chegou a hora. Sou golpeada, estremeço por dentro, fico gelada, sinto medo. No entanto, não demonstro qualquer surpresa ou ansiedade. Não me permito esse tipo de atitude insensata. Minha mãe dizia que chegaria a época em que eu a compreenderia, saberia o que era amar e sofrer. Sim, tenho esse homem na minha frente, só que não lhe concedo tamanha liberdade, possuo um enorme respeito por mim. Estou numa camisola clara, sento-me à beira da cama. Duas taças de vinho nos esperam, na pequena mesa de sempre. Peço que me informe sobre suas fantasias e desejos mais secretos. Ignoro-o quando me pergunta sobre as minhas preferências. Levanto-me, acendo um cigarro e fumo de forma sensual, como faziam as mulheres elegantes de antigamente, as mesmas que sempre ameaçavam minha mãe, em seus devaneios mais angustiantes.
Ela sempre soube que eu seria assim. Desde criança, quando me escondia em vestidinhos cor-de-rosa e repreendia a minha maneira de falar, já tinha certeza de que eu pertenceria a outra categoria.
Brindamos. Nossos cálices se chocam, interagem. Três goles para jamais esquecer. Uma nova chance. Nossos corpos, finalmente, se aproximam. E não há mais nada, além da pequena distância existente entre nós.
Faz silêncio, no universo. Em pouco tempo, começará mais um espetáculo de amor, vida e destruição. De longe, sei que alguns rezam para que nada de mal ocorra. Julgam o que sentimos, condenam meu comportamento. Outros, sim, aqueles que já viveram isso, aguardam ansiosos o momento do encontro, desejam reviver seus sentimentos pretensamente acabados. Tenho consciência de que com minha mãe é diferente, ela está em posição única, híbrida, confusa, dramática. Receia que eu consiga realizar o que ela sempre quis. Meu amante está diante de mim, meus anos de espera não foram em vão. Consigo vê-la, ao nosso lado, parada, observando dividida, cada ato, cada segundo. Sei que não chora, seu desespero é mudo, como o das santas arrependidas que povoavam o altar de nossa velha casa. Imagino que tenha uma vela nas mãos, apesar de não haver clareza sobre no pedido. Encontra-se em posição única, híbrida, confusa, dramática. Não sabe ao certo o que é mais forte, o amor, a inveja, a dor, o desejo ou o medo. Prevê que não haverá final feliz, em nenhuma das hipóteses. Seu vestido é longo, rosa seco com leves bordados em prata. Está pronta. Gostaria que tudo tivesse sido diferente em sua vida. No entanto, não há mais espera, chegou a hora. A menina cresceu, ganhou seios do mesmo tamanho dos seus, tem seus olhos, são seus olhos que estão fixos nos de seu amante. Apenas lhe resta aguardar. E, de alguma forma, torcer. Porque, afinal de contas, ainda são uma família.
Ponho meus lábios à disposição dos seus. Abro minha boca lentamente. Nossas línguas se acham. Nos beijamos.
Passamos a reconhecer nossos corpos. Sim, não sou a mesma de tempos atrás.
As roupas como tapetes, as peles nuas, juntas, desejando ser apenas uma. Toda a minha vida eu esperei por esse dia. O retrato, eles sorrindo, abraçados e felizes. Sinto-me muito mais bela quando estou perto de você. Ele sobre ela, o toque, as carícias. Os beijos, as línguas em choque, o hálito a denunciar seu passado, leve sabor do vinho, a bebida dos amantes. Como num filme. O cheiro, o cheiro dele, de seu perfume, de sua pele, o perfume da pele, o cheiro da pele dela e dele, não há mais como distinguir, individualizar. Vamos, faça o que quiser, meu corpo lhe pertence. Jamais se deve dizer isso a um homem, ela sabe, mas, desta vez, não se importa. As partes, os olhos fechados, os sussurros, gemidos, a intensidade, força, a força dos longos anos de espera, o prazer. O que Deus uniu, ninguém separa.
Desde que nasci, já estava escrito. Minha mãe sempre previu que, um dia, isso iria acontecer.
Ouço os latidos dos cães, logo compreendo: transmitem a notícia pela noite. Estamos em silêncio, todas as palavras foram mortas. Você permanece inerte, parado, não pronuncia qualquer gesto de carinho. É esse deserto que me faz, subitamente, perceber o motivo de sua demora: nos encontramos em lados distintos da cama. Como em todas as nossas vidas, nas quais pertencemos a lados opostos do mundo.
Sofro, sofro, sofro. Nem o relógio se compadece. Insiste em me dizer, repetir que, em alguns minutos, você irá embora. Do mesmo jeito, da mesma maneira que fazem todos os outros.
Procure saber qualquer coisa sobre mim, como foram os meus anos, se sou feliz, se tive um cachorro, se me formei, como entrei para essa vida, qualquer coisa, o mínimo, qualquer coisa.
São os cães, em seus uivos noturnos, que me avisam, relembram: a amante. Nada mais ou menos que isso.
E apenas se você me perguntasse, eu responderia.
Enquanto se veste, passo a me lembrar de minha mãe experimentando seus vestidos, glória e decadência, em questão de minutos. Estamos no final do grande dia, da data do retorno. Não há mais dramatização para o fim da longa espera. Ela se encontra rente à cama, linda em seu vestido rosa seco com leves bordados em prata. Finalmente chegou a boa hora.
Sim, pai, agora, você vai nos pagar.
Você coloca a quantia acertada sobre a cômoda. Acompanho-o até a porta. Vejo ir, sem olhar para trás, meu primeiro amante, aquele que me privou de tanta coisa, aquele que fez com que minha mãe, eternamente, me culpasse pelo seu abandono.
Trouxe-o, de volta, mãe. Pare de me atormentar. Fique em paz. Descanse em paz.
Como não estou sendo mais vigiada, revejo a fotografia mais bonita que já vi. Um dia de sol, no parque. Nós, abraçados e felizes. Não tenho certeza. Caso seja realmente você, os anos lhe foram bastante violentos. Aliás, para todos nós.


Renata Belmonte é advogada e escritora. Publicou os livros de contos Femininamente (Casa de Palavras, Prêmio Braskem Arte e Cultura 2003), O que não pode ser (EPP, Prêmio Cultura e Arte Banco Capital 2006) e Vestígios da Senhorita B (PP5, Cartas 2009) e participou das antologias Outras moradas (EPP, 2007) e Antologia Sadomasoquista da Literatura Brasileira (Dix, 2008).

sábado, 31 de janeiro de 2009

CANTINHO DO CONTO: A PROVA FINAL

Carlos Ribeiro




Roberto tinha um defeito. Melhor dizendo: Roberto, segundo sua mulher, Marli, tinha um grande e único defeito. Era uma peculiaridade, um traço do caráter que, no início do relacionamento, há distantes 20 anos, parecera a ela uma virtude, mas que, com o passar do tempo, tornara-se algo exasperante. Para não dizer: algo verdadeiramente insuportável.
O grande problema, dizia Marli, era que Roberto, em nenhuma circunstância, se irritava. Nunca perdia a paciência. Jamais respondia às reclamações que ela, freqüentemente, lançava-lhe à cara. Em nenhum momento dirigia-lhe sequer uma palavra um pouco mais dura, com o mínimo tom de rispidez.
No início, Marli considerava isto uma vantagem especial, um presente dos céus. Principalmente naquele tempo em que viviam a fase dourada de descobertas e encantamentos. Não havia, ainda, grandes dívidas a saldar, problemas com filhos. Não havia a convivência diuturna, o dormir e acordar juntos, o esperar na porta do banheiro, as idiossincrasias mútuas, os desentendimentos cotidianos.
Marli considerava-se uma privilegiada. Roberto era uma recompensa à sua persistência. Fora a única filha dos Andrades, a casar, segundo achava-se na época, tardiamente, aos 28 anos. Mas valera a pena esperar. Ele era o exemplo mais bem acabado, que se possa imaginar, de um gentleman. Nunca esquecia de abrir a porta do carro, de puxar a cadeira no restaurante, de enviar-lhe flores e tantas outras delicadezas cotidianas, geralmente esquecidas no correr da vida em comum.
Assim procedeu, ano após ano, sem dar-se conta de que se acumulava, em Marli, como camadas de pó, nas paredes de uma caverna, uma certa apreensão, que, pouco a pouco, evoluía para uma impaciência, e daí para uma intolerância, manifestada nas mínimas coisas: no atraso, para ela insuportável, de alguns segundos, para um encontro; num sorriso, que considerava ridículo; numa frase, que achava inconveniente; numa palavra ou gesto qualquer, que precipitava, subitamente, para a surpresa dos que conviviam com o casal, um inferno de xingamentos, gritos e admoestações. E, finalmente, na conclusão fatal de que ela sabia, sim, o que ele queria. Suas verdadeiras intenções...
A revelação viera de chofre: Roberto queria fazê-la perder a razão. Percebera, finalmente, que havia algo mais por trás daqueles sorrisos, daquelas atitudes gentis – como um pântano oculto por trás de perfumados jardins. Lembrava-se sempre do que lhe dizia a avó: “Minha filha, não existem homens perfeitos”. Por isso, quanto mais perfeitos lhes parecessem, mais cuidado deveria ter. Mais necessário seria vigiar cada um dos seus passos. E assim procedeu. A partir daquele momento, cada gesto de Roberto passava a ser um sinal, vestígio de alguma coisa repulsiva, que se gestava, no silêncio das tardes, entre as sombras dos móveis na sala; mas que, mais cedo ou mais tarde, viria à tona, em toda a sua assombrosa monstruosidade. O perigo era iminente. Ela não podia perder o controle. Não podia ficar esperando que o pior finalmente acontecesse. Tinha que fazer alguma coisa. Se ele ainda reagisse às suas agressões! Se ainda mostrasse sua verdadeira face... poderia haver, quem sabe, uma chance de entendimento. Cabia a ela, num último e desesperado gesto de amor, mostrar quem ele realmente era.
E o fez. Foi numa morna sexta-feira, que ela o recebeu, carinhosamente, à porta da casa, quando ele chegou, à noite, do trabalho. Havia anos que não o beijava. Que não sorria o riso encantador, aquele que tanto o fascinara nos primeiros anos do relacionamento. Que não lhe preparava um jantar, na varanda, com a vista para o mar, da sua bela casa, em Ondina.
Roberto custou a acreditar. Então, acontecera o milagre? Comeu, sorridente, a macarronada, e a sobremesa de figos em calda, que ela mesma preparou. Falou das dificuldades no trabalho, mas também das chances que despontavam. Chegou a desenterrar os velhos planos. Quem sabe, no próximo ano, fariam, juntos, aquela viagem ao Oriente? – aquela que ele sempre dissera que faria, um dia, antes de morrer?
Roberto falou, contou casos, riu e fez-lhe seguidas declarações de amor, até perceber que havia algo estranho em Marli – na forma como ela sorria, no jeito fixo de olhar para ele, na maneira distante como reagiu, quando ele falou sobre a sensação desagradável que, subitamente, lhe acometia; a dor no estômago, as palpitações, o suor frio, os pedidos para que chamasse a empregada (mas ela estava de folga, naquela noite), o médico...
Mas, já não havia tempo. Ao compreender, finalmente, o que se passava, Roberto pensou, pela primeira vez, em dizer uma palavra ríspida à sua linda e querida mulher. Chegou a sentir o impulso, tantos anos reprimido, de agredi-la, de fazê-la ver o seu desespero. Mas conteve-se a tempo. Sentiu apenas uma dor aguda, no coração, ao perceber que não poderia mais protegê-la de si mesma.
Marli permaneceu, silenciosa, diante dele, testemunhando a agonia lenta do homem que um dia amou – esperando, inutilmente, a prova final de que ele ainda a amava, a palavra dura, o gesto violento que enfim o redimisse.


Carlos Ribeiro (Salvador – 1958). Jornalista, ficcionista e doutorando em literatura pela Universidade Federal da Bahia, é autor de sete livros, dentre os quais O Chamado da Noite, O Visitante Noturno, Abismo e Lunaris. Participa das antologias e coletâneas Geração 90: Manuscritos de computador, Contos cruéis, Antologia panorâmica do conto baiano - século XX, Quartas histórias, Capitu mandou flores: Contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte e Travessias singulares: pais e filhos. Co-edita a revista de arte, crítica e literatura Iararana. É membro da Academia de Letras da Bahia e professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB/Cachoeira. O conto "A prova final" faz parte do livro inédito Contos de sexta-feira, que tem publicação prevista para este ano.

domingo, 6 de julho de 2008

CANTINHO DO CONTO: A ROSEIRA

Alejandro Reyes

Ilustração: Bel Borba


Hoje eu morri, e há reunião de família. É um pouco desconcertante ver tanta gente e ouvir tanto barulho dentro de casa, onde durante tanto tempo morei só e onde quase nunca recebia visitas. Mas não tenho do que me queixar; na verdade, é muito bom ter a família reunida. Família e algumas outras pessoas, conhecidos que há muitos anos não via e que eu pensei que já nem se lembravam de mim. Lá vêm eles, um a um, param em frente ao caixão e dão uma última olhada no meu rosto enrugado, elogiam minha aparência e fazem algum comentário sobre minhas supostas qualidades. Só não há lágrimas derramadas, mas isso é normal, estranho seria que as houvesse.
É curioso ser, de repente, motivo para tanto alvoroço, depois de ter vivido solitária durante tantos anos. Houve muitos preparativos antes de que chegassem os convidados. As empregadas da minha filha limparam a casa, fizeram salgados e os arrumaram na mesa da copa, e minha neta Isabel maquiou-me e colocou este laço vermelho em meu cabelo cinzento. Acho que fiquei um pouco ridícula com este laço e com estes lábios pintados e estas bochechas rosadas, mas de que serve a vaidade depois da morte? Além disso, ninguém mais achou ridículo, e todos dizem que eu estou muito bonita, mais bonita do que eu estivera nos últimos anos, embora eu desconfie que é porque querem ficar com a lembrança de uma bonequinha inofensiva e maquiada e não da velha rabugenta e solitária que eu era. Seja como for, não acho de muita importância o que as pessoas dizem ou pensam, pois, em momentos como este, as coisas que alguma vez nos preocuparam se desvanecem num nevoeiro prazeroso de indiferença. Cá estou eu, deitada no meu caixão macio e gostoso, e até uns minutos atrás sentia-me tão sossegada e contente no meu descanso modesto e pacato, que cheguei a pensar que nada na vida me aconteceu de mais agradável que a morte.
Mas nada no mundo é permanente, nem o prazer nem o desgosto, nem mesmo depois da morte, e uns minutos atrás começou a surgir em minha mente uma tênue inquietação. As pessoas passam em frente ao caixão e exclamam: “Olha como está linda, parece uma rosa!”. “Parece uma rosa, parece uma rosa…” E, de tanto falarem em rosas, lembrei-me da minha roseira e, pela primeira vez desde que morri, senti um certo desassossego e lamentei ter morrido. Quem cuidará agora da minha roseira? Olhei cuidadosamente ao meu redor: ninguém. Lá estão meus filhos, meus netos… mas ninguém, eu tive a certeza, ninguém se interessará por uma roseira.
Ganhei essa roseira da minha mãe, no dia em que eu passei no vestibular, há tantos e tantos anos. Minha mãe era uma mulher simples, humilde, que nada entendia de estudos, mas que muito sabia da vida. Estava transbordante de orgulho e de alegria, seu sonho sempre foi ver sua filha se formar, queria que eu tivesse um destino diferente do dela. E para isso eu fiz infinitos esforços, trabalhei dobrado para poder pagar o pré-vestibular, estudei obsessivamente, passei noites e noites em vela.
Mas destino é destino, e ele é regido por forças alheias à vontade do homem, por criaturas celestiais ou do céu banidas, ou simplesmente pelo acaso, pelo absurdo, ninguém sabe por quê. Minha mãe adoeceu. Minha pobre mãe, depois de uma vida inteira de abnegação e labuta, veio adoecer no momento em que o único sonho de sua vida poderia ter-se realizado. Tive que desistir da universidade. Remédios, operações, tratamentos, tinha que pagá-los de alguma forma. Ou esperar que a saúde pública a deixasse morrer lentamente. Consegui outro emprego, saía cedo de manhã e só chegava à noite, para encontrar minha mãe deitada e sem forças, mas aguardando-me acordada e com um dificultoso sorriso. Enquanto a roseira floria, minha mãe enfraquecia, desvanecia-se lentamente, e eu enlouquecia porque o dinheiro nunca alcançava para pagar os remédios.
Foi então que cedi à pressão do meu chefe. Há vários meses que ele me cercava, fazendo de tudo para que eu deitasse com ele, prometendo aumentos e regalias e ameaçando-me com a demissão. Entrei em seu escritório na hora do almoço, e disse-lhe que precisava de um empréstimo, pois minha mãe estava morrendo e não tinha dinheiro para os remédios. Sorriu. E foi ali mesmo que perdi minha virgindade, de bruços sobre a mesa onde se espalhavam os materiais de publicidade das roupas da última moda. O pobre homem. Tão pequenos prazeres para tanta perda de humanidade. É tão pedregosa a estrada da vida, que nunca entendi por que tanta gente dedica seus dias a torná-la ainda mais dolorosa. Hoje ele está morto, como eu. Afinal, somos todos iguais.
Depois disso, não tinha por que me preocupar com os escrúpulos. Fazer com um, fazer com outro, tanto faz, é tudo mais ou menos a mesma coisa. Com o tempo a gente se acostuma, o ser humano é assim, acostuma-se a tudo. Pelo menos assim eu podia comprar os remédios e não ficar desesperada cada vez que o dinheiro acabava. Quando chegava de madrugada, e não havia sabão no mundo que tirasse a sujeira do corpo e da alma, ia molhar minha roseira, e ao seu lado ficava sentada muito tempo, maravilhada ao ver que suas pétalas continuavam vermelhas, verdes suas folhas, exuberantes suas formas delineadas no resplendor da alvorada, intocadas pela poluição do mundo.
Minha mãe morreu. Coisas do destino. Com remédios ou sem remédios, lá se foi, e eu fiquei com as mãos vazias e apenas uma roseira como lembrança.
Poderia, então, ter voltado aos estudos, ter realizado o sonho da minha mãe. Mas tinha as dívidas. E, além disso, estava grávida. Minhas amigas, colegas de profissão, recomendaram o aborto. Mas eu via minha roseira, a vida que brotava luminosa a cada dia, e soube que não poderia arrancar o fruto do meu próprio ventre.
Muitas vezes me perguntei se eu fui uma boa mãe. Mas isso foi antes. Depois, deixei de pensar nisso. De qualquer forma, não se pode mudar o passado. Mas agora, com a ociosidade da morte, voltam as perguntas há tanto tempo enterradas. Não, acho que não fui uma boa mãe. É difícil ser mãe e puta ao mesmo tempo, coisas antípodas.
De qualquer forma, tentei. Tentei muito. Tive três filhos: dois homens e uma mulher, todos de pais diferentes, anônimos, desconhecidos, frutos de encontros inconseqüentes. Eles nunca souberam, nem da sua origem nem da minha profissão. Inventei todo tipo de empregos e ocupações importantíssimas para justificar minhas ausências noturnas, coisas que só uma criança acreditaria. E criei um pai mítico para eles. Era marinheiro, viajava muito. Depois morreu, numa tempestade. Morte heróica, terminou se afogando para salvar uma menina. Era bonito, forte, honesto, uma beleza. Até eu acabei me apaixonando por ele, e tão convincente foi minha fantasia, que não me surpreenderia se daqui a pouco me encontrasse com ele, em algum recanto da morte, ainda cheirando a algas e maresia.
Suportei todo tipo de humilhações e atropelos. Coisas do ofício, coisas da vida. Sem falar dos remorsos, da angústia, da solidão. Dignidade: que estranho sabor tem essa palavra, como tantas outras, deste lado da morte. Coisas sem sentido, palavras sem peso, vazias. Mas fazem parte da vida. Na vida elas pesam, são coisas imensas. Passei a maior parte da minha vida tentando não perder minha dignidade, segurando-a com todas as minhas forças no meio da tormenta. E, quando sentia que a tinha perdido, minha roseira a devolvia-me. Porque, em minha roseira, morava minha mãe, sempre otimista, sempre florida, sempre ao meu lado, me presenteando com o vermelho das suas pétalas, sem julgamentos nem acusações, e me mostrando que até no esterco podem nascer coisas belas.
Durante anos e anos economizei tudo o que pude, sem deixar de mandar os filhos para a escola e comprar livros e cadernos e lápis de cor e tudo o que eles pudessem precisar para se tornarem pessoas honestas, livres, felizes. Ingenuidade pensar que alguém pode ser realmente feliz. A infelicidade faz parte da vida tanto quanto a fome. Sacia-se durante um tempo, mas, em algum momento, há de voltar. Sempre falta alguma coisa, o homem é sempre incompleto. No caso deles, faltou o cuidado, uma intimidade mais profunda e estável. Como disse, é difícil ser puta e mãe. Mas, sobretudo, faltou um pai de verdade. O pai mítico usurpou meu lugar. Comparavam-me a ele e, ao lado do herói das mil qualidades, eu fazia uma lamentável figura: uma mãe ausente que trabalhava em horários esquisitos, levantava ao meio dia, conversava com as flores e andava triste e melancólica a maior parte do tempo.
Quando tive suficiente dinheiro para largar de vez o ofício e abrir uma pequena vendinha, sentindo que por fim minha consciência poderia descansar, meus filhos me recriminaram. Achavam espantoso e inaceitável que sua mãe se resignasse a viver das rendas de um mercadinho miserável. Não trabalhava para uma firma importante? Não virava as noites projetando campanhas publicitárias e outras coisas imprescindíveis?
Que estranha é a morte. Eu, que pensava que ela era paz e descanso, vejo agora que é tudo o contrário. Depois de tanto tempo cultivando minha solidão, aprendendo a viver sem remorsos nem rancores, deu-me agora de pensar nestas coisas. Meus filhos se foram, depois de formados, para viver suas vidas longe de mim. Realizei o sonho da minha mãe, mas os sonhos raramente são como os sonhamos. Todos terminaram a universidade e nunca pensaram em agradecer meus esforços. Ao contrário, sentiram-se alegres de poderem afastar-se de mim, livres do peso de uma mãe fracassada. Juliano foi para Brasília, Felipe para São Paulo, e tão ocupados estão com seus muitos negócios, que nunca tiveram tempo para visitar esta velha que vivia enfiada nesta casa sozinha, falando com uma roseira como uma louca. Só Teresina ficou na cidade, mas ela não gosta de sair daquela cobertura dela, e muito menos vir aqui, porque não tem garagem e não gosta de estacionar seu carro novo na rua.
Meus filhos… Aí estão eles, em pé, perto da minha cabeça, conversando. Não sabem que posso ouvi-los e por isso conversam descontraidamente de seus negócios, de suas viagens e de suas últimas compras, conservando apenas o olhar baixo e a voz taciturna, para o resguardo das aparências e benefício dos convidados.
Não quero mais estar aqui. Quero que fechem este caixão e me levem para o Campo Santo e me metam num buraco e acabem com todos os discursos e me cubram de terra, para poder dormir em silêncio e esquecer minha vida e minha morte. Esquecer sobretudo que em alguns dias minha roseira também estará morta, e então será como se eu nunca tivesse existido. Porque, agora que o penso, minha vida pode se reduzir a isso: uma roseira no meio de um deserto de fracassos e desencontros. Mas que impertinência querer que uma vida valha alguma coisa, que dela algo fique para uma suposta posteridade. E o que é a posteridade, afinal, senão um trem de esquecimento que nunca pára, ou que pára em momentos como este, para despejar os seus mortos com solenidade e seguir seu eterno caminho de indiferença?
Lá vêm eles, meus filhos e meus netos, se despedirem pela última vez. Chegou o carro da funerária, agora vão fechar o caixão. Chegou a hora. E minha roseira? Morrerá, enfim, de sede, seca e esquecida, cinza como o resto do mundo? Minha roseira, minha pobre roseira, que será do mundo sem tua beleza? Meus filhos me olham, meus netos também, mas ninguém se atreve a tocar-me, a beijar minha testa fria. Foi-se minha paz e minha alegria de morta. Um pesar doloroso esmaga-me agora.
Fecha-se o caixão e preparo-me para dormir, e tento não pensar nos pés que pisarão minha roseira. Como é escura a escuridão! As vozes da minha família se ouvem longínquas, afasta-se já o barulho do mundo. Mas, de repente, abre-se novamente o caixão e aí está Felipe, meu filho, dizendo: “Esperem um momento”. Meu Deus! Cortou minhas rosas! Matou minha roseira! E agora coloca-as no meu peito e fecha-se novamente o caixão.


Alejandro Reyes é mexicano e mora em Salvador desde 1995. pertence à nova geração de ficcionistas da Bahia. Publicou os seguintes livros de contos: Vidas de Rua (Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1997); O Lacandón (Salvador: Bureau Gráfica e Editira, 1997) e Contos Mexicanos (Salvador: A Romana, 2004). Seu romance inédito A Rainha do Cine Roma, obteve menção honrosa no Prêmio Sesc de Romance 2003. desde 2004, encontra-se em Berkeley, onde concluiu mestrado em Estudos Latino-americanos, na Universidade da Califórnia, sobre a realidade dos meninos de rua. Atualmente faz doutorado em Literatura Latino-americana, na mesma universidade, sobre literatura marginal – Brasil e México.

sábado, 10 de maio de 2008

CANTINHO DO CONTO: O CANTO DE ALVORADA

Aleilton Fonseca


O dia já clareava, com os avisos dos pássaros. A hora certa do canto de Alvorada. Era um belo galo, senhor absoluto da primeira hora da manhã. O nome era um batismo de fé num futuro de glórias. Alvorada, desde frangote, já dominava o terreiro: distribuía bicadas nas canelas dos galinhos que ousassem desafiá-lo. Mestre Ambrósio, anos a fio a criar galos de raça, saberia a hora certa de fazê-lo descer à rinha para brigar. Criador experiente, em cada ninhada escolhia o filhote que daria um lutador imbatível durante várias temporadas. Muita fama, algum dinheiro, sensação e certeza de que a rinha continuava firme, apesar da recente proibição. Na cidadezinha, um lugar sem outros atrativos, muitos gostavam das rinhas, nos finais de semana. Era a única diversão de peões, feirantes, pedreiros, vendeiros e até de algumas pessoas influentes, que ajudavam a manter a rinha funcionando.
Mestre Ambrósio confiava no futuro de Alvorada. Aquele galo, sim, o melhor de todos. Ia ser, com certeza. Na hora certa, quando estivesse preparado, com esporões em riste, entraria na arena para estraçalhar. Com apostas de favorito, transformaria em pinto qualquer um dos valentões calejados de pelejas e vitórias. Os freqüentadores da rinha acompanhavam o crescimento do galo, admiravam-se da dedicação do tratador e de sua fé na força do animal. Alvorada já era famoso na praça, antes mesmo de iniciar sua carreira de glórias. Era conhecido dos maiores apostadores, que já viviam na expectativa de assistir a sua grande estréia. Alguns arriscavam uma proposta pelo futuro campeão, ouvindo todos a mesma resposta firme do treinador:
— Este galo eu não vendo por dinheiro nenhum.
O galo já valia uma fortuna. Promessa certa de grande desempenho. Os apostadores queriam vê-lo em ação, mas mestre Ambrósio não tinha um qualquer de pressa. Já adulto, o animal estava forte e arisco, não encontrava páreo nas lutas de treinamento. Do alto de seu canto, agitava as asas com firmeza e harmonia, riscava o chão, marcando seu território, absoluto no terreiro. Galos experientes, com vitórias contadas, apanhavam, baixavam a crista diante das bicadas e dos esporões do futuro campeão. Mestre Ambrósio sorria satisfeito. Tinha certeza, já previa os lances das melhores brigas no meio da rinha. Alvorada faria estrago, invencível anos e anos. Ia ser, mas na hora certa. Por enquanto, esperassem.
Ambrósio sabia: era preciso ter calma e calcular o momento certo da estréia. Uma coisa era o terreiro, calmo e arejado. Outra coisa era a rinha, o círculo apertado, o barulho da platéia, a pressão dos olhares. Alvorada tinha força de brigão, mas ainda não estava pronto: faltava muito pouco.
O criador tinha uma afeição diferente por esta ave. Era o resultado de muitos cruzamentos de galos de raça com as fêmeas mais ariscas. Desde que deitara aqueles ovos de casca áspera, mais dura que o normal, tivera a intuição de que um deles daria um macho dos melhores já produzidos no seu terreiro. Acompanhou o choco passo a passo, cuidou para que a galinha não demorasse de voltar ao ninho, para que os ovos não esfriassem nem gorassem. As semanas se passavam; agia ali a natureza, com seu ciclo perfeito. O futuro galo de briga ia-se gestando.
Quando os ovos começaram a se romper, um deles exigiu bicadas mais fortes do filhote. Ele veio à luz, estreou um pio repetido, forte, meio esganiçado, desde já imponente. Era um bom sinal. Certeza de canto firme e asas poderosas. Por coincidência ou cuidado, Ambrósio estava por perto e ajudou a alargar a saída, afastando as cascas com a unha. Riu satisfeito ao receber a primeira bicada do filhote em seu dedo. Ali estava, talvez, o animal tão esperado.
Mestre Ambrósio tocava há tempos o negócio da criação de aves de raça. Mas o que o empolgava mesmo eram os galos de briga, paixão herdada do velho pai. Nas tardes de sábado, a rinha era como um estádio. Os aficionados chegavam de vários pontos da cidade, com seus animais de estimação super bem-tratados, transportados em tipóias típicas, bordadas por suas mulheres ou encomendadas às costureiras das vizinhanças. Eram interessantes essas peças, com suas abas, com alças semelhantes às de sacolas de tecido, um bojo onde se colocava o corpo do animal e com dois furos paralelos, por onde passavam as pernas que iam pensas, pelas ruas, ou em guidões de bicicletas.
A rinha fazia parte da tradição do lugar, funcionava ali há mais de cinqüenta anos. Um grupo de trabalhadores do interior de Sergipe ali se estabelecera, trazendo a novidade. O finado mestre Jorge, pai de Ambrósio, trouxera da terra natal, junto aos patrícios, os primeiros galos de raça e de briga, com a idéia e o sonho de tocar uma rinha. Começou com a cara e a coragem, devagar, com dedicação e vontade. O negócio foi prosperando aos poucos, com a criação e a venda de aves de raça. Mestre Jorge foi desenvolvendo seu tino de treinador, ganhou a experiência de preparar os frangotes para a luta. Os bichos, uma vez adultos, bem nutridos com milho e ração preparada em casa, tornavam-se pequenos gladiadores de pena.
A rinha era um templo: espaço de consagração e decepção, entre vitórias e derrotas. Ali começava ou acabava a fama de um galo de briga e de seu dono ou tratador. Tal como uma praça de touros, a rinha se desenhava enquanto palco de vida e morte. Os animais se enfrentavam com uma fúria silenciosa, olho no olho, crista a crista, a bicadas e golpes de esporões afiados. O sangue e as penas, num ruflar de asas ariscas, cristas dilaceradas, os pescoços arrepiados. As batalhas levavam horas e se transformavam em tema de discussões, dias e dias. Nas paredes, algumas fotos antigas, outras mais recentes, os assentos de madeira em volta, como uma pequena galeria de circo. Era uma arena trágica para os galos, o deleite dos amantes do estranho esporte.
O galo que perdia o combate cambaleava até cair. Moribundo, ia para os tratos com ervas e ungüentos que pudessem recuperá-lo aos poucos, se agüentasse. Curado, poderia mais tarde retornar à rinha para as grandes revanches. Porém, se morresse em combate, ia direto para a chamada panelada de sábado, degustada pelos participantes do esporte, regada a cerveja. Já os vencedores cresciam no conceito de todos. Seu dono amealhava considerações. As apostas subiam cada vez mais. O animal pegava valor no preço, como subia o valor de um canário que cantasse melhor após a primeira muda de penas.
O tempo glorioso de Mestre Jorge passou. O velho tratador não resistiu à decepção de ver o seu melhor galo, pelo qual chegara a enjeitar uma oferta alta em dinheiro vivo, perder uma luta e morrer na rinha. Trovão caiu feio, sangrado por um franguinho de primeira luta. Um golpe de sorte, um puro acaso. O velho Jorge entendeu o pressentimento que tivera naquele dia. Não tivera tempo de fazer a simpatia especial que dava mais força ao galo. Subestimara o inimigo, e Trovão morreu. O tratador, chateado demais, quebrou as regras: não deixou que levassem Trovão à panelada daquele sábado. Enterrou o galo no terreiro, como um ente querido, ao lado de seu saudoso cachorro perdigueiro. Depois disso, o velho Jorge perdeu a graça, ficou triste e desanimado. Não preparou nenhum outro galo de briga. Morreu com essa tristeza, sem jeito que se desse.
Mestre Ambrósio herdou o lugar do pai. Desde menino já acompanhava o velho, ajudava no trato diário das aves, aprendia a profissão por vivência e entusiasmo. E agora, experiente e afamado, sabia que cada galo tem a hora certa de subir ao ringue, encarar o inimigo de frente, sem cacarejar. Havia lá uns segredos que guardava para si mesmo, algo como uma superstição, que ele empregava. Quando preparava um galo para briga, tratava-o de maneira especial. Deixava-o a sós com as galinhas, dono do terreiro, por três dias. O galo ali se sentia senhor absoluto, sem rival que lhe disputasse as fêmeas. Horas antes da luta, o mestre recolhia a ave, prendia-a num abrigo ali mesmo no terreiro, e soltava outro macho em meio às galinhas. O lutador, privado de seus privilégios, e vendo o rival livre para desfrutar de suas fêmeas, ficava inquieto, riscava o chão com as esporas, cacarejava alto, inconformado. Dali saía para a rinha certamente com muita raiva acumulada. E descontava no adversário, com toda fúria, castigando-o a bicadas certeiras, com esporões vingativos. Depois da luta, o galo treinado por mestre Ambrósio regalava-se de volta ao convívio com suas fêmeas. Esse era o segredo a sete chaves que tornava mestre Ambrósio um treinador respeitado, já que vencer seus galos era um desafio quase impossível. E nisso também se apostava, quando e quem o venceria. A fama corria, vinham tratadores de outras cidades, e mais de longe, adversários cada vez mais qualificados. Galo de Ambrósio era invencível, até que um dia se provasse o contrário.
Muitos queriam ver Alvorada lutar. Alguns para admirar os lances de perícia adquirida nos treinos, outros com sede de ver o tratador derrotado.
— Está com medo de botar o galo na rinha, compadre?
A provocação irritava mestre Ambrósio. Por que tinham tanta vontade de derrotá-lo, se ele preparava galos para todos, se proporcionava espetáculos que valiam pelas apostas e pelas diversões? Ora, talvez por isso mesmo. Tudo fazia parte da mesma festa. A sede de pequenas crueldades permeava aquele esporte esquisito. Uma delas era o gosto de ver o favorito perder a briga, pela emoção da surpresa e do desafio. Degustar a carne de um favorito, inesperadamente derrotado, era talvez mais saboroso. Mestre Ambrósio se preocupava com isso. Mas estava certo de que não iam conseguir derrotá-lo. Alvorada estava pronto para brigar bonito, de igual para igual, com o melhor galo que aparecesse. Com a velha simpatia que pai lhe ensinara deixaria o galo enfezado e feroz, capaz de derrotar o qualquer que o desafiasse. Mas, e se não fosse um dia bom? E se Alvorada perdesse a briga, como acontecera com Trovão há tantos anos? Este era o receio do tratador, pelo amor que sentia pelo galo, um verdadeiro animal de estimação.
— Como é, vai ou não vai botar o galo na rinha? Ou está com medo?
— Vou, claro que vou. Vocês vão ver.
Espalharam o boato de que Alvorada subiria à rinha na próxima jornada de lutas. As apostas foram se multiplicando, nas rodas de conversas, nas praças, nas feiras. Era clima de festa esperada, sem volta. Mestre Ambrósio, de surpreso com a notícia, se viu enredado, que não podia recuar. Mas o treinador se perguntava se o galo estava mesmo pronto. E não havia jeito de adiar a estréia no sábado. As apostas cresciam, a notícia da luta se espalhava entre os interessados, corria até nas cidades vizinhas. Alvorada havia de subir à rinha sem falta, sob pena de provocar pilhérias, descrédito, desmoralização. E isso Ambrósio não podia tolerar. O galo estava bem treinado, forte, em forma. Certamente estava pronto para a briga. Mas isso garantia que iria vencer? No terreiro, o tratador observava a ave, que ciscava despreocupado, soberano. Ora, Alvorada venceria qualquer peleja.
No sábado a rinha estava apinhada, entre conversas e animação, na torcida pelos galos, nas brigas preliminares. Os homens se acomodavam como era possível, na casa lotada, com visitantes de fora, alguns estranhos, com seus galos a tiracolo, gente de outras bandas. Chegava a hora de se definir o adversário de Alvorada, pela escolha da platéia, ou pelo desafio da maior oferta em aposta. O desafiante firmava o valor da aposta que oferecia, como uma espécie de leilão da luta. Entre os desafiantes, dentre os da cidade, apenas dois fizeram um desafio, porém sem convicção de que pudessem vencer. Naquelas circunstâncias, seria honroso desafiar o galo de Mestre Ambrósio, ainda que para dali ver sua própria mascote ir direto para a panelada de sábado.
Na hora de firmar o desafio, surgiu, da última fila, a voz de um visitante. Era um homem moreno, estatura média, cabelos grisalhos e bigode ralo. Nunca fora visto antes por ali. Trazia um galo à mão, numa tipóia bem bordada, o bicho de olhos vivos, piscando sem parar, como se nervoso com o barulho do ambiente, de prontidão para a luta. Com voz pausada, o homem fez, em desafio, uma aposta dez vezes maior que qualquer outra oferta já cantada naquela rinha. E diante dos olhares surpresos e silenciosos dos presentes, o desafiante se apresentou.
— Sou Manuel Ramos, venho de Estância, cidade de seu pai. Sou filho de um velho compadre de Seu Jorge. Eu também trato de galos de briga; aprendi com meu pai . Eu soube de sua fama, resolvi vir para o desafio. Este aqui é o melhor galo que já tive na vida. Venho cuidando para que seja um vencedor. Estréia hoje para valer, igual a seu galo. Vamos ver quem é melhor.
Mestre Ambrósio coçou a nuca, acariciou a crista de Alvorada na tipóia vermelha, com frisos brancos. Pensou um pouco. Não havia mais jeito. O desafio estava posto de forma irrecusável. Era confrontar Alvorada contra o galo do visitante, que aparentava ser um treinador experiente, firme e confiante. Era um lance arriscado, mas não podia recusar.
— Muito prazer, seu Manuel. Aceito a aposta – disse, com certa preocupação, diante do vozerio geral.
Na hora da luta, cada tratador fazia os preparativos finais para o combate. Acertavam os esporões de metal nas patas dos bichos. Massageavam as asas e o pescoço, apertavam o bico abrindo e fechando algumas vezes, faziam gestos de avançar com a mão sobre a ave para apurar os seus reflexos. Diante da expectativa da platéia, inquieta, em conversas e comentários animados, era hora de se iniciar o combate. Como um ritual, os galos eram apresentados à platéia, seguros pelas asas pelos treinadores, em lados contrários da arena de luta. Assim alçados, ao sinal de uma contagem de um até três, soltavam-se as aves na arena mortal.
Os dois galos logo se encararam, arrepiando penas do pescoço e das asas, cabeças em riste, olhos adrenalinos. Reconheciam-se já em disputa pelo mesmo espaço, correram para o centro da rinha, em franco combate. Era a sorte lançada. Um balé de gestos agressivos, numa coreografia de volteios, saltos, golpes, espera, avanços e recuos, diante da gritaria animada dos torcedores em volta. Dois galos bem treinados, uma briga com lances espetaculares, como poucas vistas por ali.
Eu, narrador futuro, me espremia num canto, mais atrás, firme na ponta dos pés para ver os lances da briga. Sorrateiro, bem quieto, com medo de ser posto para fora, pois proibiam meninos naquele lugar. Mas o dia era de total atenção ao centro da rinha, ou, pelo simples, toleravam minha presença discreta. A cada bicada, a cor avermelhando-se nas cristas e pescoços dos galos, isso me deixava preso no misto de angústia, pena, expectativa, sem saber para que ave torcer, com medo de ver uma delas, cada qual tão bonita, cair derrotada na rinha, entregue ao abate, direto para a panela.
Em meio àquela gritaria, as aves guerreavam, em gestos acirrados, mostrando os efeitos de treinamentos requintados. Manuel, nervoso e arisco, gritava para seu galo desafiante: — Vamos, Veloz! – revelando o sugestivo nome do combatente. Mestre Ambrósio permanecia calado, concentrava-se em estudar, nos lances dos animais, qual era a tendência da luta. Embora calado, notava-se uma aflição no seu cenho enrugado. Ele sabia quando uma briga era das mais ferozes, daquelas que deixava um galo morto e outro bastante estragado. E essa era uma briga das mais perigosas. Ele avaliava o esforço das aves, sentia pelos saltos e golpes de Veloz que Manuel era um excelente treinador.
Ia a luta se desenrolando, de parte a parte, os bichos se atacavam, se revezam em golpes mais fortes. Veloz era melhor nos saltos, quando suspendia o esporão de forma perigosa para Alvorada. Ia acertando-o na coxa, sempre arriscando encaixar um golpe certeiro, talvez mortal. Esses golpes repetidos serviam para minar a resistência do inimigo pouco a pouco, deixando-o sem forças para saltar, para avançar. Com tempo, ia se cansando, ferido na base, acabava se entregando aos golpes fatais do adversário. Alvorada era mais forte, atacava com mais consistência e às vezes acuava Veloz num ponto da rinha, de um lado ou do outro. Havia equilíbrio, a luta mostrava-se empatada, sem vantagem clara para uma das aves.
Nas brigas de galo acertava-se, por acordo, um intervalo. Servia para descansar um pouco os lutadores, quando se julgava a luta empatada. O treinador podia ajustar as esporas dos bichos, limpar os pescoços sanguinolentos, massagear o peito, refrescar com um curioso banho. O treinador enchia a boca de água gelada, segurava a ave diante de si, na altura do seu rosto e borrifava, soprando o líquido da boca no corpo da ave, daí massageando o peito e as coxas para aliviar as dores e a tensão. Alguns acariciavam seus galos, até beijando-lhes o pescoço como incentivo à luta. Mas cada treinador só podia pedir um intervalo de cada vez, e se o outro concordasse. Só tinha direito a novo pedido, depois que o adversário usasse o mesmo direito.
A briga empolgava a platéia. Os galos não decepcionavam. Alvorada distribuía toda a sorte de golpes, conforme seus treinos mais requintados. Veloz, no entanto, era um galo surpreendente, forte, bem treinado, ou mesmo o que se diz: — um galo bom de briga! Um páreo duro para mestre Ambrósio. Os bichos seguiam em saltos, bicadas, negaceios de asas, olho no olho, procurando acertar um ao outro com os esporões em riste. Um balé de golpes e saltos, desenhando ziguezagues na arena, uma coreografia que deixava respingos de sangue pelas cabeceiras do ringue, no revestimento de um tecido rústico com enchimento acolchoado. A platéia admirava-se da disposição das aves na briga. Os mais empolgados faziam novas apostas. Alvorada e Veloz recebiam novas cotações. A torcida quase que dividida, uns até apostando num improvável empate, se ambos restassem vivos, mas esgotados, sem forças para lutar. Seria uma pena se um daqueles magníficos galos viesse a morrer, numa carreira de luta tão curta, mal iniciada. Podiam dar espetáculos contra inimigos mais fracos, fazendo o delírio dos torcedores.
Este narrador espichava o pescoço, procurava acompanhar a dança de golpes pelo tablado, prognosticando o fim das duas aves. Parecia-me que ambas estavam prestes a cair mortas, mutuamente vencidas, causando um silêncio de pena. Seria um castigo para todos aqueles homens.
A briga continuava e Veloz agora parecia estar em vantagem, acertando mais bicadas do que levava. Alvorada lutava, mas sempre recuando, com saltos cada vez mais baixos, sem alcançar vantagem contra o inimigo. Manuel, satisfeito com o desempenho de sua mascote, observava de esguelha, verificando o ânimo de mestre Ambrósio, se ele entregava os pontos. Mas a regra era clara, se o tratador entregasse os pontos, o galo perdedor saía desacreditado, jamais voltava a lutar na rinha. E Alvorada não merecia tamanha desonra, já que, em desvantagem, bastante machucado, lutava sem medo contra a fúria de Veloz. Mestre Ambrósio, observador experiente de quantas lutas, sentia que os golpes de seu galo atingiam o inimigo, mas não faziam um bom efeito. E viu que, pela posição que Veloz adotava, os esporões de Alvorada não o alcançavam em cheio. Restavam forças para reagir, mas os golpes não surtiam efeito. Assim, a sua derrota era uma questão de tempo, suas forças iam-se minando, o cansaço ia-lhe abatendo. Só um intervalo poderia reverter a situação, corrigindo-se o ângulo das esporas de metal. Era preciso fazer algo: uma parada, um borrifo de água gelada, uma massagem no peito, algo que salvasse Alvorada da derrota. Mas era nítido que Veloz estava vencendo e Manuel não consentiria em parar a luta. Confiante, enfrentava o olhar nervoso de mestre Ambrósio, diante da gritaria da platéia, que sentia a proximidade de uma definição na luta, uns apreensivos pelos valores apostados, outros comemorando a vitória iminente.
Os gritos se chocavam: Veloz! Veloz! Alvorada! Alvorada! O galo de mestre Ambrósio cambaleou pela primeira vez, junto à borda almofadada da rinha. Mas seguia lutando, aplicando os golpes de esporão, mas sem atingir o alvo em cheio. Nesse momento, o tratador sentiu perto o perigo de perder sua ave predileta. Pensou em fazer algo, pedir uma pausa, sair da luta, salvar Alvorada. Mas não tinha coragem de ceder, pois sentia que o galo queria lutar, espanando as asas, perdendo penas, o sangue escorrendo da crista. Eram lances fortes, bicadas firmes, esporeadas no ar, cortes nas coxas dos gladiadores de penas, ambos sangrando, bicos abertos de cansaço, penas espalhadas pelo chão. A platéia, quase em delírio, seguia gritando a cada lance mais espetacular, aos gritos: “Vai! Aí! Bica! Vai! Sangra! Mata!”. Era a expectativa de um lance fatal. Pelos movimentos da luta, muitos já esperavam ver Alvorada tombar vencido.
O galo de Ambrósio cambaleou mais de uma vez e, diante de uma bicada forte de Veloz, os torcedores já esperavam de pé pela queda fatal. Ali, quase solenemente, fez-se um silêncio longo. Uma espera, uma aflição, um galo bicava, o outro retrocedia, sem ânimo. Então mestre Ambrósio, meio que em desespero, quebrou sua tradição: de calado rompeu a pular e a gritar, com as palavras de incentivo que usava ao treinar o seu galo.
— Eia! Vai! Pega! Reage, Alvora! Enfrenta! Alvora!
Era só sua voz no recinto, nervosa, quase embargada, uma lágrima vinha brotando dos olhos cansados do velho tratador. Foram a voz e os apelos de Ambrósio? O que foi que deu ânimo novo ao galo? O que se sabe é que Alvorada soltou um cacarejo como um gemido de aflição, agitou as asas, riscou o chão e partiu instintivamente para cima do inimigo. Veloz, num lapso de surpresa, abaixou um pouco o corpo, recuando. Alvorada, por estar meio desequilibrado, acertou de lado, com o esporão em cheio no pescoço do inimigo. O golpe prostrou Veloz na rinha e este foi o último gesto de luta de Alvorada, que ambos tombaram lado a lado, com as cristas e os pescoços ensangüentados.
A luta chegava ao final, já se apurava o resultado. Ou se considerava o empate por esgotamento, ou o empate por morte dos dois galos. Já se examinavam as aves, daí logo constatando: Veloz, sem reação, não respirava: estava morto, vencido, nas mãos de seu dono desapontado. Veloz, conforme a praxe, seguia dali para se juntar aos demais perdedores da tarde, como iguaria da panelada. Alvorada, sem reação, ainda respirava: estava vivo, embora extenuado. Já recebia os cuidados nos braços de mestre Ambrósio, agora feliz, aliviado.
Esportivamente, Seu Manuel veio cumprimentar o mestre, e pagar a aposta devida. Prometia voltar para novas jornadas. E assim avaliou:
— Foi uma boa luta, em verdade um empate – disse, traindo no ritmo da fala uma certa tristeza. Dobrou a tipóia de Veloz, tentou enfiar num dos bolsos, mas não conseguiu. Então, olhou-a mais uma vez e atirou num canto, na minha direção. Eu peguei a tipóia do galo vencido, guardei como troféu que até hoje figura em meu velho baú de lembranças.
Seu Manuel se despediu, que já ia pegar a estrada, de volta a sua cidade. Ali, de ouvidos atentos, ouvi as suas observações, que deixaram Ambrósio em silêncio, preocupado.
— É uma pena. Seu galo é muito bom, mas, assim ferido, dessa noite não escapa.
Aquele sábado terminou em festa, com rodadas de cerveja, cantigas ao som de sanfonas e violões. A panelada já ia para o fogo e a expectativa era grande, pois diziam que galo bravo dava mais caldo, tinha mais sabor.
Mestre Ambrósio não ficou para comemorar. Seguiu para casa com o seu campeão na tipóia, muito ferido, num silêncio que só cedia a um ruído de cacarejo impossível, como gemidos de dor. Em casa, Ambrósio preparou beberagens que lhe enfiou bico adentro, passou ungüentos medicinais no corpo do bicho, tratou os ferimentos da crista, fez curativos no pescoço. Agasalhou Alvorada num ninho especial, com serragem e maravalhas finas, num canto bem arejado do terreiro. Ele se sentia culpado pelo sofrimento do animal, e orgulhoso pela vitória contra o pior inimigo que já vira na rinha. Manuel era um treinador dos melhores, com certeza. Ambrósio acariciou seu galo de estimação, abaixou-se e o beijou no bico. E, aproximando-se das aurículas do bicho, disse: “Boa noite, velho!”. Mas logo voltou, para ficar observando-o mais um pouco. “Você vai escapar dessa, velho”, ainda disse. E daí se recolheu, entre enternecido e confiante.
Na cama, sua mulher, Dona Dália, já ressonava, que dormia sempre mais cedo. Ela detestava brigas de galo. Já deitado, mestre Ambrósio sentiu o cansaço do dia, dos anos, da vida. Pela primeira vez sofrera de verdade com uma briga de galo. Sentira um aperto, quase uma dor no peito, com medo de perder. Não pela aposta em si, mas pela vida do galo. Não queria ver o bichinho cair morto diante de todos, virar tira-gosto de sábado, devorado com cerveja. Agora, Ambrósio sentia: Alvorada não era apenas um galo; era seu animal de estimação, mais que um amigo. E se emocionou, lembrando do trato diário com o pinto, o frango, o belo galo. Vinha-lhe a decisão firme. Nunca mais entregaria Alvorada à rinha. Deixaria essa vida de uma vez, como Dália vivia pedindo. Livre, Alvorada viveria solto pelo terreiro, a cobrir as galinhas de raça, como um verdadeiro reprodutor. Era o melhor galo de todos os tempos. Merecia ter uma linhagem, ninhada após ninhada. Os filhotes de Alvorada iriam povoar todos os terreiros, com aquele porte de campeão invencível, com aquele canto que encantava a manhã. Um canto que fazia os pássaros suspenderem a voz para ouvir.
Ambrósio estava sem sono, via a noite se arrastar. Como se sonhasse de olhos abertos, revia os piores lances da luta. Imaginava Alvorada morto, como seria sua enorme tristeza. Mas logo revia as melhores cenas, e o lance final da luta: o galo inimigo tombando, Alvorada reagindo, olhos semi-abertos, ferido mas vivo, vivo como sempre. Alvorada vivo!
A madrugada declinava, começava a clarear, com os avisos dos pássaros. Era a hora certa, como todo dia era, do canto de Alvorada. E, de repente, esquecido das feridas da ave, que também doeram, agudas, dentro dele, Ambrósio apurou bem os ouvidos. E de lá do terreiro, ouviu o canto de Alvorada. Era o belo canto de sempre, absoluto sinal de vida, entre os primeiros raios da manhã. Era um canto nítido, claro, imponente, superior: este canto, este que só mestre Ambrósio ouvia, e de agora para sempre ouviria, todo dia. Porque, nas redondezas, outros cantos longínquos assumiam o vago romper da manhã. No terreiro desolado, era só a alvorada que rompia e se elevava, e era alva como todos os dias. No entanto, estava envolta num silêncio de luto – que só se escutava, ali e além, o canto triste dos passarinhos.


Aleilton Fonseca nasceu em Firmino Alves, BA (1959), viveu em Ilhéus, Vitória da Conquista, João Pessoa, São Paulo, e reside em Salvador. Cursou Letras (UFBA) e fez doutorado na USP. Foi professor na Université d’Artois (França), em 2003; Hoje atua na UEFS-Bahia. Publicou Jaú dos Bois e outros contos (1997), O desterro dos mortos (2001), O canto de Alvorada (2003) e Nhô Guimarães (2006). Co-organizou vários livros. Recebeu, entre outros, o Prêmio Nacional Herberto Sales (ALB-BA, 2001) e o Prêmio Marcos Almir Madeira (UBE-RJ, 2005). É co-editor de Iararana - revista de arte, crítica e literatura, correspondente de Latitudes: “cahiers lusophones” (França), além de membro da Academia de Letras da Bahia.