segunda-feira, 7 de abril de 2008

O GALOPE POÉTICO DO CENTAURO

Luciano José


Jornalista e escritor, nascido em Olho d'Água do Pai Mané, povoado de Dois Riachos, Alagoas, em 1968, está radicado na Bahia desde 1988. Publicou seu primeiro livro de poesia em 2000, com o título Códigos do Silêncio, Decifração de Abismos (2002) e A Terceira Romaria (2005). Seu livro mais recente, A infância do Centauro (2007), tive oportunidade de conhecer quando esteve em Palmeira dos Índios na intenção de divulgá-lo.
O trabalho literário de José Inácio expressa alguns elementos significativos como se fora fios de tons diversos que, ao se entrecruzarem, vão formando o tecido consistente e primoroso da sua produção poética. O modo de compor o poema se mistura à percepção da realidade pela via dos mitos e aos componentes pertencentes à tradição oriental (oásis, faraó, harém, hieróglifo). No entanto, como a fala da mitologia costuma estar em sintonia com a religião, percebemos a expressão de sentimentos e crenças na mensagem de Cristo e no legado de seu ensinamento. Além disso, é conveniente lembrar que sua poesia, nostalgicamente, faz referências as suas vivências, personagens com quem se relacionou (ou ainda se relaciona) e coisas próprias do universo da vida do homem sertanejo, na constatação de elementos como a caatinga, o vaqueiro, a fogueira, o mandacaru, o chão rachado, os açudes. No entender do poeta, todas essas coisas são "totens do Sertão", mas quando se referem aos caramujos (os bois de sua boiada), com seus respectivos nomes, passam a ser "totens da infância".
Também se destaca na sua produção o momento em que a poesia pensa em si mesma, numa reflexão metalingüística (Nascimento do poema), assim como o que ela representa para o poeta (Dois momentos e Rastros). No templo do poeta que José Inácio é, não podemos deixar de destacar as presenças marcantes de Mário Quintana, Cecília Meireles e Jorge de Lima. Isso sem contar a sacada formidável com a figura de João Cabral ao defini-lo como "poeta doido de pedra".
Outro elemento importante na sua obra é a louvação da figura feminina como deusa que encanta, provocando delírios e êxtases, revelados no poema Imagem. Contudo, a metáfora entra em cena quando o termo "égua" tenta traduzir não só a sensualidade da mulher, mas a sua luta pela conquista da emancipação, comparada à "égua baia que não conhece cabresto".
Portanto, a poesia de José Inácio revela as contradições contidas no ser quando pretende romper às amarras do destino (Ausência e Glória), quer se afirmar em toda sua plenitude (Encruzilhada) e, diante da indefinição do lugar nenhum, almeja chegar em algum lugar (Sentido). Para finalizar, propomos uma questão: o trabalho poético de Inácio tem possibilidade de perdurar? Sim, o que possui qualidade, consistência e expressão clara de vida tende a ser duradouro. Neste sentido, sua capacidade criadora atinge o auge com A infância do Centauro, na medida em que nos proporciona vibrações variadas e momentos de uma beleza cativante.


Ilustração: Juraci Dórea

Luciano José é poeta e professor de Filosofia na Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL).

Resenha publicada no jornal Tribuna do Sertão, no dia 12 de novembro de 2007, em Palmeira dos índios, Alagoas.

3 comentários:

anjobaldio disse...

Parabéns pelo blog e obrigado por linkar o anjo baldio. Grande abraço

Moacy Cirne disse...

Cheguei aqui através de uma dica no blogue de Linaldo Guedes. Estou brechando com calma as coisas de sua moradia. Numa primeira leitura, nordestino que sou (residindo no Rio), muita coisa me agradou. Mas preciso voltar com mais vagar. Eventualmente, aproveitarei algo daqui no meu Balaio Porreta. Com os devidos créditos, naturalmente. Um abraço.

Idalina de Carvalho disse...

Diz tudo, essa resenha do professor Luciano José! De dar inveja (porque ele diz com propriedade, com um requinte e clareza tais que é como se conferisse o dom da vida a cada palavra, cada verso dos poemas de seus poemas, José Inácio).

Venho adiando o momento de dizer alguma coisa, de deixar um comentário a respeito de sua obra, de seu blog, caro amigo poeta. Porque comentar a sua poesia é uma responsabilidade sem tamanho e, confesso, em meio a tanto trabalho, sinto-me meio enferrujada na crítica literária.

Mas o professor Luciano disse bem e me mostrou outros aspectos que eu não havia observado.

Enfim, estou aqui. Sua obra é apaixonante, enriquecedora. Seu blog é como você mesmo: traz uma estética de bom gosto e conteúdo de excelente qualidade.

Parabéns.

Idalina de Carvalho
Cataguases-MG