quarta-feira, 16 de abril de 2008

A INFÂNCIA DO CENTAURO

Francisco Carvalho


O poeta alagoano José Inácio Vieira de Melo, residente em Jequié, Estado da Bahia, é confessadamente um nômade. Não se enclausura em gabinetes à espera de que os poemas lhe caiam das nuvens, à maneira de bátegas que despencam do céu. Viaja pelo Brasil inteiro para dialogar com poetas de tendências as mais diversas, e nisso se emparelha com os menestréis dos tempos antigos, que recitavam poemas e canções nos palácios dos reis ou nas assembléias e praças públicas, onde filósofos de todas as tendências discutiam suas teorias sobre a origem do universo.
Em texto publicado na contracapa do livro, Gerardo Mello Mourão, falecido recentemente, faz elogios explícitos à poesia de José Inácio. Segundo palavras do vate das Ipueiras, sabedor de muitos idiomas e profundo conhecedor do legado cultural de numerosos países, “José Inácio Vieira de Melo sabe que o poeta é o fundador dos seres. Só ele pode trazer dos abismos a decifração de todas as formas do ser, para expressá-las na linguagem pura da metáfora". Dono de memória privilegiada, recita poemas inteiros de autores de sua predileção, sem omitir palavras ou pausas rítmicas dos textos poéticos. Nas abas do livro, testemunhos de poetas e críticos literários de expressão nacional são unânimes em destacar o alto nível das ficções poéticas do livro A Infância do Centauro, publicado em 2007 pela Escrituras Editora, de São Paulo.
Divididos em sete partes, os poemas de José Inácio exploram temáticas que vão dos labirintos do cotidiano às perplexidades da metafísica. Em Metamorfose (p. 45), o poeta deseja “Olhar bem dentro do azul / e ver a morte da borboleta / libertar o amarelo”. Em Rastros (p. 131), “O poeta traz os segredos da poeira. / Em sua mão pulsa o nó do espanto: / um sorriso bêbado de eternidade: / um poema”. Em Romaria (p. 118), estruturado em redondilha maior, JIVM rende homenagens a repentistas e trovadores nordestinos, que de alguma forma trazem de volta a imagem sonora dos cancioneiros de uma época perdida na noite dos tempos e cujos acordes ainda ressoam aos nossos ouvidos. “Dentro de mim, nas lonjuras, / bem dentro do meu juízo, / um romeiro caminhando / em busca do que preciso”.
Hélio Pólvora, conhecedor minucioso das técnicas do verso, observa que JIVM, apesar das inquietações que eventualmente comprometem a transparência de certos poemas, “insiste na fidelidade às raízes por via de uma emocionalidade acentuada”. Hildeberto Barbosa Filho, lúcido comentarista do fenômeno poético, é de opinião que a escrita do poeta “não se esgota no mero formalismo, na medida em que o Autor também possui o universo memorial da terra e da origem”. Lêdo Ivo também elogia o poeta alagoano. Manifesta a impressão de que a poesia de José Inácio Vieira de Melo, embora vincada de certa aridez, “esconde e guarda uma chuva secreta”.
De quando em vez fala-se em poeta urbano, em contraposição àquele que celebra os acontecimentos da terra, os chamados poetas telúricos. Tal modo de pensar, salvo melhor juízo, não passa de uma falsa questão. Até porque, do ponto de vista ético, o homem da cidade e o homem do campo são biologicamente da mesma matéria, além de possuírem a mesma estrutura psíquica. Bastaria lembrar o Autor de Guerra e Paz, para quem ser universal é cantar a sua aldeia. E que dizer dos contos imortais de Tchecov, cuja temática põe em relevo os conflitos e angústias dos camponeses russos, esmagados pelas engrenagens burocráticas dos poderosos?
Grande parte dos poemas de JIVM é dedicada às coisas do campo. Aos “vaqueiros de todos os ventos, / montados no Relâmpago e no Trovão”... Em Dança das Redondilhas (p. 35), o poeta nos convida a “cantar um galope / no coração da caatinga, / dizer palavras de luz / nos versos de sete sílabas, / caminhar passo acertado: / cadência de redondilhas”. Na página 108, este minúsculo auto-retrato da subjetividade: “Eu, / que venho de tempestades / anuncio a calmaria. // A violência / que existia em mim / rasguei na bala”.
Não são muitos os poetas que dedicam versos aos animais. Poetas eróticos, desde tempo imemoriais, tangem as cordas de seus alaúdes em louvor dos encantos de suas amadas. Dante coloca Beatriz Portinari nos vértices do paraíso. Camões celebrou as amadas em sonetos imortais. Bocage o fez de modo diverso, em versos impregnados de lubricidade. José Inácio Vieira de Melo escreve epitáfio para uma “égua de olhos azuis”: “Meus cavalos choram por ti, égua de olhos azuis. / Não mais invadirei o vento montado no teu galope. // Que fique inscrito na tua lápide / o verso de lágrimas dos meus cavalos” (p. 93). Num poema de reverência à autoridade paterna, o poeta beija-lhe as mãos “como uma árvore / beija suas raízes”.
José Inácio Vieira de Melo, menestrel do país dos nordestinos, cavalga o poema desde A Infância do Centauro, entidade mitológica que, segundo os léxicos, era metade homem e metade cavalo. Sua escrita poética tem o ímpeto das águas represadas nos açudes do Nordeste. Atento aos conflitos da terra e do homem, seus versos desenham a prostituta com a leveza de quem derrama bálsamo numa ferida: “Os anelos / os cachos / que poderiam / ser metáfora / não passam / de labirintos”. Para encerrar essas breves considerações, nada melhor que esta chave de ouro, burilada pelo próprio poeta: “No âmago de tudo o quês sentes... / Mas não adianta me perguntar, / eu também estou procurando”.


Ilustração: Juraci Dórea.

Francisco Carvalho é poeta e ensaísta. Publicou, entre outros, Quadrante Solar (1982) – Prêmio Nestlé de Literatura, Girassóis de Barro (1997) – Prêmio Fundação Biblioteca Nacional, Memórias do Espantalho (2005) e Corvos de Alumínio (2007).

Resenha publicada no suplemento Correio das Artes, editado por Linaldo Guedes, em João Pessoa, Paraíba, na edição de março de 2008; e na revista O Escritor n°118, da UBE, em abril de 2008, em São Paulo - editada por Izacyl Guimarães Ferreira.

3 comentários:

CLAU disse...

José Inácio,
poeta nas letras e na vida.
Parabéns pela fortuna crítica que você acumulando através da caminhada poética. Mais que merecido todas as referências que o enaltecem.
Vá em frente, poeta.
Abraço fraterno-literário,
CLAU

Eliane Alcântara. disse...

José Inácio, eu poderia dizer que
ter acesso à sua escrita é um prêmio.
Não seria novidade, já que amo seus versos
e a cada dia tenho aprendido a admirar
mais o seu trabalho dentro da Literatura.
Parabéns pelas conquistas e que a
cada dia elas aumentem conforme o
seu talento e vontade do Pai.
Um beijo e belo sábado!

Leila Regina disse...

Inácio!
Tua poesia é extraordinária, cada dia mergulho ainda mais fundo nesse universo poético.
Estou torcendo por você, sua paixão pela poesia me contagiou e não tenho dúvidas que vou estar sempre te acompanhando.
Beijos...
Leila