terça-feira, 15 de abril de 2008

JIVM - GÊNESE

G Ê N E S E


Ilustrações: Juraci Dórea

Sabe, moça da encruzilhada,
quando te encontrei foi um assombro.
Tu trazias estampada no semblante
a indagação que me acompanha.
O mais espantoso é que também
eras a resposta que sempre busquei.

Não aquela resposta exata, matemática.
A verdade que tua chegada me trouxe
foi a das abelhas zunindo no romper da aurora
em busca do mel das flores das algarobeiras,
foi a dos cavalos galopando na boca da noite
sonhando com touceiras de capim e éguas luzidias.

Ah, moça, tu estás no centro da Rosa dos Ventos,
pra onde deres o passo é caminho o que há.
A gente olha pra cima e não vê limite:
é tudo um azulão que não acaba mais.
Mas basta dá meio-dia, o limite aparece,
e não é longe não: bem na boca do estômago.

Sabe, vou te dar um chapéu do tamanho do céu,
que é pra te proteger dos devaneios solares
e pra que todos te percebam e apontem para ti:
“olha lá a moça que sombreia o mundo”.
E todos vão te olhar e todos vão te aplaudir
e o arco-íris vai ficar preto-e-branco de inveja.

Aí, um passarinho, desses bem miudinhos
que trazem uma sanfona de cento e vinte no peito,
vai aparecer e assobiar uma cantiga doce:
e a gente, espiando bem dentro dos olhos,
começa a sentir um monte de estrelas pipocar.
É isso, quando te encontrei, nasci.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

3 comentários:

Anônimo disse...

Inácio
Parabéns! Sua Obra é fascinante, me encantei com o modo de vc sentir e lidar com as palavras. Sua poesia retrata do mais concreto ao abstrato e essa mistura de elementos me fez mergulhar nesse universo misterioso.
Seu blog ficou ótimo, vou estar sempre passeando por ele.
Beijos e sucessos sempre.
Leila Regina

Idalina de Carvalho disse...

GÊNESE (visão mineira em homenagem a José Inácio Vieira de Melo, pelo seu aniversário.


Sabe, moço da encruzilhada, quando deparei com seu poema foi um assombro. Ele trazia estampado no marfim do papel a dor que me acompanha. O mais espantoso é que também ele dizia da pessoa que ninguém viu. Não aquela pessoa aparente, segura. A verdade que aquele poema me trouxe foi a das abelhas zunindo no romper da aurora em busca do mel das algarobeiras - muito embora eu não tenha noção do que seja uma algarobeira. Foi a dos cavalos galopando na boca da noite - embora nem hajam cavalos por aqui. Ai, moço .. sua poesia está no centro da rosa dos ventos, pra onde deres o passo é caminho o que há. A gente olha cada palavra e não vê limite para interpretação... é tudo uma beleza, uma emoção que não acaba mais. Sabe, vou te dar um chapéu do tamanho do céu que é pra você ficar mais tempo olhando para os campos e fazendo poesia e pra que, ao ler o que escreve, cada pessoa possa dizer: "Olha lá o moço que suaviza a vida da gente com poesia!!!!"
E todos os outros poetas vão te olhar e todos vão te aplaudir e os que moram lá no céu vão ficar roxinhos de inveja...
Aí, um passarinho, desses bem miudinhos, que trazem uma uma viola bem mineira no peito, vai aparecer e assobiar uma cantiga doce: e a gente, espiando bem devagarinho sua poesia, começa a sentir um monte de estrelas pipocar.

É isso, quando conheci sua poesia, moço, eu nasci.

Idalina de Carvalho
Projeto CHÁ COM LEITURA
Cataguases - Minas Gerais

Analuka disse...

Estes teus versos me lembram, um pouco, a poesia de Manoel de Barros: algo na pureza, na força da inocência, no dizer ao mesmo tempo denso e singelo... Lindas as ilustrações de Juracy Dórea, fiquei imaginando um livro, com os desenhos dela e teus escritos, será que é uma idéia já concretizada?... Bom descobrir este espaço, tomarei a liberdade de linkar lá no meu blog. Abraços.