Izacyl Guimarães Ferreira
é também um dialogador nato e cultivado
O nome do livro é A infância do centauro, do jovem ainda (pois não está na faixa dos quarenta, que se costuma chamar de “meia idade”) poeta José Inácio Vieira de Melo.
Um livro que tem na contra-capa as palavras de Gerardo Mello Mourão e nas orelhas saudações de nomes como Lêdo Ivo e Ruy Espinheira Filho, entre outros ilustres leitores escritores (essa raça perigosa dos que estão em ambos os lados dos espelhos), não requer mais recomendações, que todas serão supérfluas.
E veja-se ainda a lista de sua fortuna crítica, com dezenas de entradas, entre as quais me descubro entre celebridades.
Centauro. Homem e cavalo. Figura mítica. Mas o poeta, que é do sertão, cavalga o animal com a segurança de quem pisa a terra do sertão em que nasceu e olha o céu da Bahia onde vive, céu em que as estrelas parecem brilhar mais, não fosse ela terra de santos de dois mares, poetas de mil vozes, todos aqueles cheiros de bem comer, bem dançar, bem lutar, bem viver.
Com tudo isso dialoga este poeta, um dialogador nato e cultivado, leitor atento dos mestres e fazedor de seu próprio caminho.
Algo que muito me agrada em seus poemas é que neles nada se esconde. A realidade que vê e vive está inteira, sem máscaras além das permitidas pela poesia, esta realidade superior dada a tão poucos. Além do real que se vê nos seus versos, está a clareza de água limpa de quem tem o que dizer e sabe como dizer.
Dou exemplos:
O primeiro, abre o livro neste quarteto e diz:
Teu centauro te espera,
monta em seu dorso
e vê o mundo pelos olhos da esfinge:
és o enigma, não o decifrador.
Eis, de pronto, o clima criado para a fruição do mistério maior da poesia. O poema termina assim:
Há de existir um lugar
onde os teus mistérios possam descansar.
Adiante nos dirá, confessando por todos nós:
não há deus que me comunique por inteiro.
ILUMINAÇÃO – Mas, dizia eu, este poeta está pisando um chão real e fala a língua geral dos homens, poetas ou leitores, cantadores de feira (que conhece bem...) e sua audiência, e nos comove com esta quase trova doméstica (que, me perdoem, me ecoa de longe eu ter dito em similar celebração “dona de si” num poema de título “Dona Sylvia”):
Dona-de-casa
Os sentimentos areados,
o cristal dos olhos polidos,
o terreiro tão bem varrido.
Minha mãe – senhora de si.
Continuando neste ver e dizer:
Morder o infinito
e sentir o gosto da criação.
// Não sei ser quase.
Acima falei de diálogos. Nem sempre dialogar é raciocinar, i.e. trocar idéias. Pode ser, e por certo será mais diálogo, quando transcende a razão e penetra na área da iluminação, como neste poema para Cecília Meireles
Cecília não é nome para se colocar em filha.
Cecília é única. Uma deusa que conheço.
..................................................................
Cecília é um templo dentro do poeta que sou.
Outra qualidade deste poeta do real da vida e da magia da palavra é, forte, a mescla destas duas faces da existência: o dia-a-dia, que sabe celebrar com naturalidade e ternura, e a noturnidade que nos cerca, aquela esfinge pronta a devorar os famintos de verdades ocultas. Entre o dia claro do real e a noite nem sempre estrelada de destinos, por onde andamos todos, José Inácio não parece perder-se além do suportável – mistério de bicho homem/centauro? – e em romaria, palavra de seu primeiro livro e peregrinação de sua poesia, celebra. Celebrar é o que nos cabe, já ensinava Rilke, poeta de ombros que anjos, Orfeu e mulheres souberam tocar, que um deus (qual?) soube tocar.
Fico a pensar, diante de uma poesia tão segura de si, se esta é a infância ou a juventude do centauro, como cavalgará o poeta décadas adiante?
Artigo publicado no A Tarde Cultural, em 14 de julho de 2007, em Salvador, Bahia. Fotógrafo: Ricardo Prado
Um livro que tem na contra-capa as palavras de Gerardo Mello Mourão e nas orelhas saudações de nomes como Lêdo Ivo e Ruy Espinheira Filho, entre outros ilustres leitores escritores (essa raça perigosa dos que estão em ambos os lados dos espelhos), não requer mais recomendações, que todas serão supérfluas.
E veja-se ainda a lista de sua fortuna crítica, com dezenas de entradas, entre as quais me descubro entre celebridades.
Centauro. Homem e cavalo. Figura mítica. Mas o poeta, que é do sertão, cavalga o animal com a segurança de quem pisa a terra do sertão em que nasceu e olha o céu da Bahia onde vive, céu em que as estrelas parecem brilhar mais, não fosse ela terra de santos de dois mares, poetas de mil vozes, todos aqueles cheiros de bem comer, bem dançar, bem lutar, bem viver.
Com tudo isso dialoga este poeta, um dialogador nato e cultivado, leitor atento dos mestres e fazedor de seu próprio caminho.
Algo que muito me agrada em seus poemas é que neles nada se esconde. A realidade que vê e vive está inteira, sem máscaras além das permitidas pela poesia, esta realidade superior dada a tão poucos. Além do real que se vê nos seus versos, está a clareza de água limpa de quem tem o que dizer e sabe como dizer.
Dou exemplos:
O primeiro, abre o livro neste quarteto e diz:
Teu centauro te espera,
monta em seu dorso
e vê o mundo pelos olhos da esfinge:
és o enigma, não o decifrador.
Eis, de pronto, o clima criado para a fruição do mistério maior da poesia. O poema termina assim:
Há de existir um lugar
onde os teus mistérios possam descansar.
Adiante nos dirá, confessando por todos nós:
não há deus que me comunique por inteiro.
ILUMINAÇÃO – Mas, dizia eu, este poeta está pisando um chão real e fala a língua geral dos homens, poetas ou leitores, cantadores de feira (que conhece bem...) e sua audiência, e nos comove com esta quase trova doméstica (que, me perdoem, me ecoa de longe eu ter dito em similar celebração “dona de si” num poema de título “Dona Sylvia”):
Dona-de-casa
Os sentimentos areados,
o cristal dos olhos polidos,
o terreiro tão bem varrido.
Minha mãe – senhora de si.
Continuando neste ver e dizer:
Morder o infinito
e sentir o gosto da criação.
// Não sei ser quase.
Acima falei de diálogos. Nem sempre dialogar é raciocinar, i.e. trocar idéias. Pode ser, e por certo será mais diálogo, quando transcende a razão e penetra na área da iluminação, como neste poema para Cecília Meireles
Cecília não é nome para se colocar em filha.
Cecília é única. Uma deusa que conheço.
..................................................................
Cecília é um templo dentro do poeta que sou.
Outra qualidade deste poeta do real da vida e da magia da palavra é, forte, a mescla destas duas faces da existência: o dia-a-dia, que sabe celebrar com naturalidade e ternura, e a noturnidade que nos cerca, aquela esfinge pronta a devorar os famintos de verdades ocultas. Entre o dia claro do real e a noite nem sempre estrelada de destinos, por onde andamos todos, José Inácio não parece perder-se além do suportável – mistério de bicho homem/centauro? – e em romaria, palavra de seu primeiro livro e peregrinação de sua poesia, celebra. Celebrar é o que nos cabe, já ensinava Rilke, poeta de ombros que anjos, Orfeu e mulheres souberam tocar, que um deus (qual?) soube tocar.
Fico a pensar, diante de uma poesia tão segura de si, se esta é a infância ou a juventude do centauro, como cavalgará o poeta décadas adiante?
Artigo publicado no A Tarde Cultural, em 14 de julho de 2007, em Salvador, Bahia. Fotógrafo: Ricardo Prado
Izacyl Guimarães Ferreira escreve, traduz e comenta poesia. Edita a revista “O Escritor” e o portal www.ube.org.br, da União Brasileira de Escritores, em São Paulo, entidade da qual é Presidente do Conselho. Tem 15 livros publicados, entre eles "Discurso urbano" (2007), vencedor do Prêmio de Literatura 2008 da Academia Brasileira de Letras , categoria poesia.





O poeta José Alcides Pinto era um santo lá do Ceará. Ele fazia milagres por onde passava, milagres em forma de versos que entravam no sentimento das pessoas e as curavam de suas aflições imediatas. Tive o prazer de conhecer esse vate em 2006, quando fui convidado para participar da Bienal Internacional do livro do Ceará. Já conhecia a sua obra e mantínhamos uma correspondência irregular, ou seja, quando em vez trocávamos cartas, sempre enviando livros um para o outro. Mas foi em 20 de agosto de 2006 que apareci em sua casa. Fui recebido como um príncipe pelo poeta e por sua bela filha Jamaica. Conversamos muito, o poeta deu-me alguns de seus livros, leu uns poemas meus, ficou encantado com uns poemas do poeta baiano Affonso Manta, que recitei para ele. Na hora de partir, lembro bem do conselho de José Alcides: “Poeta, seja fiel à sua lira, não deixe que nada atrapalhe o seu caminho, faça sua poesia de acordo com a sua consciência poética, mesmo quando todos disserem que está errado”. Essas palavras têm sido um estímulo grande nessa minha jornada.




Do ritual de fé das ialorixás na Festa do Bembé do Mercado, em Santo Amaro da Purificação, até o cansaço estampado no rosto dos passageiros do trem do subúrbio ferroviário de Salvador. Do brilho amarelo do sol refletido no mar, à escuridão misteriosa das águas do Dique do Tororó. As manifestações culturais e religiosas que compõem a identidade baiana inspiram o trabalho do fotógrafo Ricardo Prado.
