domingo, 24 de agosto de 2008

JIVM - A CASA DOS MEUS QUARENTA ANOS

Ilustração: Conceição

















A CASA DOS MEUS QUARENTA ANOS

Assim é a casa dos meus quarenta anos,
assombrada e sóbria como um bacurau.

Em seus largos cômodos,
habitam uma enorme solidão
e muitas vontades de vida.

É noite e estou em meu quarto
urdindo meus infinitos à eternidade.
Eu – apenas eu – eu.

Lá fora, uma sinfonia de questionamentos:
grilos, sapos, rãs na sua intermitente litania
enlouquecem meus fantasmas.

A minha casa, às três horas da madrugada,
tem os olhos bem abertos – esbugalhados sertões –
e os seus fantasmas, somatórios do eu,
vão se arrumando do jeito que podem.

Um, no quarto ao lado,
implora para que desatem o nó da forca.
Não suporta mais as folhas da algarobeira
chorando o seu destino.

No quarto do outro lado,
outro choraminga suas dores, suas pernas quebradas,
o sangue escorrendo para o nada
(esse espectro dói demais e a sua grande
novidade é saber que vai morrer).

No quarto derradeiro,
os morcegos dormem sossegadamente
e seu mundo não é de cabeça para baixo.
No quarto derradeiro da casa dos meus quarenta anos,
os morcegos adubam o terreno e aguardam a chegada
de mais um dia, de mais um ano.

E assim, no bater das asas do galo pedrês,
o choro do recém-nascido.

E de dia a casa dos meus quarenta anos
é cheia de janelas azuis abertas para o azul.
E uma multidão de ventos vem assobiar dentro dela,
vem renovar os ares, sacudir os quadros nas paredes,
jogar meus retratos pelo chão.
Ventos dadaístas
a remexer nos meus poemas, mudar seus versos,
rearrumar suas estrofes.

E o dia vai crescendo com uma claridade medonha,
e as telhas da minha casa abrem os olhos
e olham para o alto e se benzem e dizem amém
(cada telha da casa dos meus quarenta anos
é um olho aceso espiando dentro de suas cores).

E há momentos em que tudo que é bicho se cala
e a casa mais parece um cemitério.

A casa dos meus quarenta anos é caiada de branco
e tem janelas azuis abertas para o azul.

A casa dos meus quarenta anos – cemitério de ilusões.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

5 comentários:

Jaquelyne disse...

Lindos quarenta anos...
Eu quero que os meus possam ser tão líricos quanto os seus!
Abraços,Poeta!

lucasgarny disse...

Muitos bem vividos, mesmo a unica novidade sendo a morte.

muito lindo.

Parabens poeta

d'Angelo disse...

"Em seus largos cômodos,/habitam uma enorme solidão/e muitas vontades de vida" : maestria ao descrever os cenários da existência!

Salvador Santos Filho disse...

A casa dos meus quarenta anos, para mim, é uma relíquia poética que o melhor poeta brasileiro da modernidade escreveu. Parabéns, José Inácio. Um forte abraço deste que a cada dia torna-se um seu admirador confesso.

Alzira Guedes disse...

os ventos dadaístas a remexer os seus poemas.....linda imagem construída para quem está deste lado,a ousar "ver". bendita a casa dos teus 40 anos, poeta...