sábado, 21 de agosto de 2010

SANGUE NOVO - CLARISSA MACEDO



POESIA: TUDO O QUE VEJO E SINTO – CLARISSA MACEDO é estudante de Licenciatura em Letras Vernáculas, mas principalmente é poeta. Como tal, entende que “as “Letras” podem ser uma âncora ou uma vela”. Soteropolitana, nascida em 1988, mas residente em Feira de Santana, escreve poesias, contos e algumas crônicas. Tenta um romance a pequenas investidas. Dança, luta, almeja pintar e leva a música sempre consigo. Participa da Antologia do concurso Feirense de Poesia Godofredo Filho e do CD Volume III dos Poetas Feirenses. É poeta que busca a poeta que é, e em tudo o que ver e sente há poesia. Vejamos como é isso.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – O que é a poesia? Por que ser poeta?

CLARISSA MACEDO – A poesia é... sem muitas explicações. Quaisquer tentativas de explicá-la seriam uma incompletude. No entanto, o peito arfa em querer pronunciar que, para mim, a poesia é, também, parte de um viver no qual ela sempre penetra irremediavelmente. Em tudo o que vejo e sinto a poesia está lá, mesmo que timidamente, dando a sua consciência dolorosa e o seu afago discrepante e abrasador... Não sei se sou poeta em inúmeras definições. Acredito que o ser poeta ainda silencia traços que não se pode apalpar. Mas, sensitivamente, escrevo num desenfrear apaixonado. Não me lembro de viver sem o poetar, sem aquela inspiração sensorial que me invade e me leva. Ainda busco poeta em mim, me tateando, foge, volta...

JIVM – Como foi que a poesia chegou na sua vida? Quando foi que você se percebeu poeta?

CM – Não sei exatamente, mas me lembro de ter escrito alguns versinhos aos oito anos, e a face marejada da mamã diante do papel... O primeiro poeta que li foi Drummond e foi decisivo. Fiquei extasiada. Leio desde pequenina, e me dei conta de que sempre divaguei bastante, desde a infância, entre quimeras... A escrita e a poesia foram tomando forma e lugar em mim. Mas creio que estou me percebendo ainda, enroscada nas dúvidas jocosas e nos arrebatamentos soturnos.

JIVM – Quais são os poetas que mais lhe influenciam? O que anda lendo? E na prosa, quais os autores que mais lhe impressionam?

CM – Talvez diga os que mais me emocionam, o que é também uma influência. O Cruz e Souza, o Augusto, Baudelaire, Maiakóvski – com suas nuvens de calças, Drummond, Álvares, Rabelo, Bandeira, Rimbaud, Antero... Ler poesia é prazeroso e difícil, exige muito de mim. Sempre leio muitas coisas, misturo tudo. Nunca largo meus prediletos e procuro ler os colegas, meus contemporâneos, acho importante valorizar, de algum modo, aquilo que se faz hoje. Leio vários colegas escritores, como Julio Reis e Markus V. B. dos Santos. Tô curtindo esses dias um pouco de Nestor Perlongher, Osvaldo Lamborghini, Horácio Costa. Kafka e sua aterrorizante aflição que me direciona a buscá-lo, Machado e sua maestria, Torga, Clarice, Eça, Borges, Nelson e uns outros mais, ao ermo.

JIVM – Você é aluna do curso de Letras da Universidade Estadual de Feira de Santana. Em que medida ser estudante de Letras contribui para a sua poesia?

CM – Estudar é muito importante. Esmiuçar o que se gosta é ainda mais importante. Ser aluna do curso de Letras, quando entrelaçada profundamente com a Literatura, é perigoso. É necessário ter discernimento para não confundir as informações enriquecedoras, críticas prudentes com a verborragia trágica, o podamento bestial que cerca alguns. Conhecimento e banalidade andam juntos. Ler, ler, diminuir a ignorância, é um dos caminhos para se adquirir o precioso discernimento. Há uma metade duma meia dúzia de mestres que mostram uma boa trilha do conhecimento, e, sobretudo, ter papos desencanados com muitos colegas é essencial para uma formação, talvez, adequada. É uma luta infindável... As “Letras” podem ser uma âncora ou uma vela. É questão de decisão.

JIVM – Como anda a sua produção? Algum projeto para publicação de livro? E o que mais?

CM – Sou movida pelo sentimento, pela inspiração – esta vem quando quer. Na fase em que me encontro, ainda de profunda crise com a verdadeira escrita, estou tentando bastante. Não fico longe da escrita. Em alguns momentos eu afasto alguns versos intolerantes que me afligem, mas a poesia é insistente e penetrante. Alguns projetos existem. Os primeiros são referentes a um livro de poesias e outro de contos. Pretendo fazer algumas coisas que mesclem a pintura, a dança, a música – que também são grandes paixões em minha vida. Fazer arte, respirá-la, conhecê-la, amasiar-me com ela são projetos que sempre me ocorrem, me convocam. A jornada é, simultaneamente, trivial e surpreendente. No mais, uma vaga.

4 comentários:

Lidi disse...

Tive a oportunidade de conversar com Clarissa, ontem, na Feira do Livro. Gostei da entrevista e dos versos. Parabéns, Clarissa. Sucesso. Um beijo.

Caio Rudá de Oliveira disse...

Parabéns a mais uma poeta que chega ao grupo. Leitora de Maiakovski, então, merece um lugar especial.

Bruno Silva disse...

Dei de cara com Clarissa na Oficina de literatura que aconteceu nas dependências da Feira do Livro e me ocorreu a certeza de que ela respira poesia. Agradeço a ela pelas dicas e pelas palavras impactantes.

Ricardo Thadeu disse...

Conheci essa menina na UEFS e tive a oportunidade de participar com ela de uma oficina na Feira do Livro. Escreve bem, muito bem.
Parabéns, Clarissa, pela entrevista e poemas.

¡adiós!