terça-feira, 18 de janeiro de 2011

TRÊS POEMAS DE EDSON OLIVERIA
















À MUSA


Minha musa
é uma égua de dentes largos
a romper-me os bagos em noites girassóis

Com cabelos de ferrugem e olhos cor de anum
a filha da puta
sussurra verso seco
em meus ouvidos

Sinto arder a pena
se a ninfa preta
cruza
e geme palavras turvas

Quando canta,
vejo tremer a carne da cadela
Na sua cauda, escuto o fogo que escorre de mim.

Ah! Como é bom morrer...

Mas depois do gozo, a mariposa encolhe as asas
guardo minhas pernas no armário
e fico triste de tanto vomitar.

Dói-me o peito perder-te, musa.



ODE AO POETA


Tua língua
dança sobre a lâmina
teu sangue sujo
passeia pelas curvas
de teu corpo
e inunda as ruas da cidade.

Vejo o mundo explodir
de tuas veias, e

as pedras
os bancos
os pássaros e
as bicicletas

são da cor
do teu verso, e
o teu verso
é da cor do mendigo
que enfeita as esquinas.



QUANDO EU MORRER


Quando eu morrer
não quero flores brancas e amarelas
ou verso doce em meus ouvidos
não quero sinos e estrelinhas
nem o pranto de um amor sofrido

Quero a risada insana
quando eu morrer
e a dança leve
dos lírios antigos

Quero mãos livres do peito aberto
e a terra pesada
sobre meu jazigo

Quando eu morrer
quero morrer devagarzinho
pra lembrar dos sonhos das noites frias
e da paixão de ter vivido.

9 comentários:

Fabrício disse...

Nossa. Sensacional.

Bem vindo SN.

"À Musa" deu até comichão nas pernas, antes de lembrar do armário.


Abraço

Anônimo disse...

Pequena e grande seleta. O velho Quintana, onde quer que esteja, estampa aquele sorriso. No mais, aquele abraço. T

Vitor Nascimento Sá disse...

Seja bem vindo à turma Edson. Gostei muito do "À Musa", também. Mas o que me impressionou foi o "quando eu morrer". Lança uma necessária materialidade aos nossos hábitos de morrer. Excelente. Parabéns.

Gildeone dos Santos Oliveira disse...

Beleza de versos poeta!
Risos a la muerte! Rss..

Caio Rudá de Oliveira disse...

Um SN que chegou pra acrescentar. Gostei muito desse último poema. É até um contraponto interessante ao meu poema em cujos versos prefiro morrer sem saber desse fim.

Abs.

Lidi disse...

Conheço Edson há um bom tempo e ainda não conhecia a sua poesia. Que heresia a minha. Belos versos!

Érica Azevedo disse...

Não conhecia "quando eu morrer", belos e intensos versos, Edson!

Janara Soares disse...

Como dizem nas bandas de cá da Bahia, botou pra fudê!
À Musa é um poema forte. Imaginei minha mãe lendo...

Layz Costa disse...

Parabéns, professor!
As suas palavras nos mostram o quanto é importante a inspiração e o dom em tudo que se faz, você me inspira.