domingo, 14 de novembro de 2010

TRÊS POEMAS DE JANARA SOARES

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SONHO


Sonhava que a luz não existia
e as cores eram cores por si só.
Podia tocá-las! E elas, densas,
Se desfaziam como algodão doce
lentamente lambido,
lentamente salivado.

Nesse sonho o azul royal
– antes tão aristocrata –
era liberto para amar
todos os vermelhos dos cardeais.

E a Inquisição não se importava.
Os seios não eram rosas, os seios;
eram girassóis dourados.
Cansados da delicadeza do veludo,
percorreram outros campos.
Mais ainda floridos, os seios.

Os sons tomaram formas
e meus olhos se alegraram:
como o Gato, o Dó maior me sorria.
Era vermelho intenso o Si menor
e voava feito águia.

E quando Morpheus resolveu me deixar
espantado pela chegada de Aurora
restou um cobertor no chão
e um rosto no espelho que eu quase desconhecia.
Voltei para a cama. A vida podia esperar.



MIGUEL


Ele chega trajando uma camisa parda
Caminhando com a paciência dos séculos
Cabelo caído numa face sem cor
Escondendo em seu olho os fins dos milênios.

Sem armadura, espada ou cota de malha
Sentou ao meu lado, forçando um sorriso.
Pediu uma cerveja, meio descontente.
No sereno da mesa desenhou um círculo.

– Cansei de Guerras, – me disse o arcanjo,
– muito trabalho, o pagamento é pouco.
Já vi de tudo. Só falta ser humano.

– E a glória? – Depende do ângulo.
Sorriu de novo, pediu outra cadeira...
Encheu mais um copo. Jorge vem chegando.



O GRANDE RIO


Minha porta está fechada.

Enquanto isso corre o boato
dos corpos sem coração.

Foram encontrados ontem
– às margens do grande rio –
molhados por tanto pranto
que as mulheres carpideiras
não se puseram a chorar.
Em cada peito um buraco
– como quando se planta uma árvore –
cada um, ali, perdido,
pedindo alguma semente.
Os joelhos estavam inchados,
das mãos corriam sangue e cera,
os pés calejados dormiam
o sono de toda uma vida.

Dizem nos botecos, à meia luz,
que há muito os corações já não existiam.
As pobres vítimas não eram tão pobres
se a morte sabe o que faz.

Dizem, como sempre, dizem
que os corações evaporaram,
não havia mais lugar ali
para um coração existir.

Dizem, como sempre acontece
quando aparece alguma notícia,
dizem que cada corpo trazia em si
um pouquinho do nada do inferno.
Que qualquer pedaço de vazio
é como uma maçã podre no cesto.

Minha porta está fechada.
Não quero ser encontrada
às margens do grande rio.

5 comentários:

Ricardo Thadeu disse...

poesia certeira.
versos densos.
muito bom, Janara.
¡adiós!

Gildeone dos Santos Oliveira disse...

Bons Versos Janara.
Parabéns!
Bem-vinda ao Sangue Novo!

Georgio Rios disse...

Som, imagem e metáfora.Eis a tríade que embala estes versos.

APignataMacêdo (Anderson Pignata Macêdo) disse...

Doçura Rebelde, gestados em uma "cabecinha" jovem mas com uma grande maturidade, só podem "parir" muita luz em um Mundo de trevas.
Nem todo poeta é filosofo, Mas toda Filosofa é Poetisa.
Continue e seu brilho iluminará muitos caminhos obscuros.

Parabéns!

Com Respeito e Atenção,

Vitor Nascimento Sá disse...

Janara,

Esse de Miguel é muito bom!
Parabéns.
Bom te ver por aqui.