domingo, 21 de março de 2010

ENTREVISTA - MARCELO NASCIMENTO



TORMENTO E ÊXTASE – Ao entrar no Auditório Municipal de Maracás para assistir os ensaios do Grupo Concriz, normalmente ouve-se logo a voz tonitruante de MARCELO NASCIMENTO a chamar a atenção: alguém errou o verso que recitava; outro quebrou o ritmo de tal verso; aquele parece estar com fome, pois está recitando sem força. Observações sempre seguidas de uma gargalhada folgazona. Assim é o poeta Marcelo Nascimento, co-diretor do Grupo Concriz, equipe de jovens poetas e recitadores que, desde 2007, realiza recitais em diversas cidades da Bahia. Marcelo nasceu em 1983, em Maracás, onde reside, e trabalha no Instituto de Educação de Maracás. Sobre sua atuação no Grupo Concriz diz “Meu objetivo é fazer com que as pessoas possam sentir algo de diferente e que esse sentimento possa despertar em alguns a paixão que despertou em mim”. E mais “Pretendo continuar gritando versos por aí feito um louco e recrutando novos loucos para essa batalha tão árdua e tão fascinante”. Vamos, então, conhecer um pouco mais sobre esse jovem poeta que vive o tormento e o êxtase da poesia.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – A sua ligação com a poesia é bem recente. Fale como aconteceu. E, a partir daí, qual o espaço que a poesia passou a ocupar em sua vida?

MARCELO NASCIMENTO – Sim, realmente a poesia na minha vida é algo muito novo. Na minha infância e adolescência, tive pouco contato com a literatura. Com a poesia o contato foi ainda menor: somente alguns poemas em livros didáticos, alguns versos soltos de poetas famosos. Mas nada me chamou a atenção a ponto de me despertar algum interesse. Só em 2007, precisamente no lançamento do seu livro, A infância do Centauro, em Maracás, quando ouvi o Grupo Concriz recitando, é que algo me incomodou. Daí em diante, passei a ler alguns poemas. Foi quando conheci Paulo Leminski que percebi que estava sendo tomando pela poesia e, desde então, ela me acompanha, me atormenta. É meu fardo, mas também é meu êxtase e esse é o grande encantamento do qual sou mais uma vítima. Não saberia mais viver sem essa explosão de sentimentos que só a poesia me proporciona.

JIVM – Além de poeta, você atua em uma turma de jovens recitadores, o Grupo Concriz, como coordenador e como uma das vozes de destaque nos recitais. Fale dessa experiência, numa perspectiva pessoal e também de grupo.

MN – Minha história com a poesia está diretamente ligada com o Grupo Concriz e é graças a esse trabalho que desempenho como recitador e um dos coordenadores que tenho a oportunidade de conhecer vários autores e estudar mais profundamente suas obras. O grupo veio me acolher num momento muito difícil da vida e logo se tornou minha família. Hoje, como parte do grupo, vejo o papel social da arte e, consequentemente, do artista. Somos formadores de opinião, nosso compromisso é facilitar o acesso das pessoas à poesia em uma época em que vemos tantos jovens alienados por uma mídia massificadora que impõem à nossa sociedade um processo de imbecilização, com programas que se baseiam na exploração da miséria alheia para manter altos níveis de audiência e de músicas que se dedicam a vulgarizar o sexo, transformando uma relação tão delicada e íntima em algo banal, sem o menor censo de respeito aos nossos ouvidos.

JIVM – Percebe-se que você lê muito. Já selecionou poemas para mais de 15 recitais de poetas diferentes. Qual o critério que você utiliza para selecionar os poemas? O que fica para você de cada poema e de cada poeta. Quais são as suas referências?

MN – Não me considero ainda um devorador de livros. Sei que posso e devo ler mais. Quando o Grupo Concriz está em temporada de recitais, fico muito focado nos poemas do autor que estamos trabalhando e acabo por não conseguir manter o ritmo de leitura desejado. Mas não posso negar que, mesmo assim, leio bastante, principalmente se levado em conta o nível de leitura do brasileiro. Selecionar poemas para um recital é uma paixão que demorei a descobrir. O meu primeiro critério é sentir como vai ficar um poema recitado, qual será a reação do público ao ouvi-lo. Meu objetivo é fazer com que as pessoas possam sentir algo de diferente e que esse sentimento possa despertar em alguns a paixão que despertou em mim. E isso vem funcionando de forma, no mínimo, razoável. Posso perceber isso quando vejo tantas crianças e adolescentes procurando nosso grupo com interesse de participar desse mundo tão espetacular. Cada poema deixa muito para mim. Alguns deles ficam tão enraizados no meu ser que sinto como se fossem um pouco meus também. De cada poeta tento sugar o máximo das suas experiências e de sua infância. A história de cada autor, seja ele poeta ou de qualquer outro gênero, me faz entender melhor sua produção e me guia pelos caminhos da palavra, mostram-me as possibilidades de caminhos que tenho como poeta. Assim, vou criando minhas referências que incluem os poetas consagrados, como Carlos Drumond de Andrade, Manoel Bandeira, Mário Quintana, Cecília Meireles, Paulo Leminski, Fernando Pessoa, Pablo Neruda, Federico García Lorca e outros nomes. Recentemente, tive o grande prazer de ler alguns poetas russos. Fiquei encantado com Vladimir Maiakóvski e Sierguéi Iessiênin. Mas também tenho dedicado uma atenção especial aos poetas baianos vivos: Adriano Eysen, Aleilton Fonseca, Antonio Brasileiro, Antonio Carlos de Oliveira Barreto, Carlos Barbosa, Cleberton Santos, Damário Dacruz, Eliana Mara Chiossi, Elizeu Moreira Paranaguá, Florisvaldo Mattos, José Inácio Vieira de Melo, Kátia Borges, Lita Passos, Rita Santana, Roberval Pereyr, Ruy Espinheira Filho e outros que desempenham um trabalho tão árduo para um público tão reduzido. Venho lendo esses autores pelo meu trabalho com o grupo e também por entender que é importante, para um leitor, conhecer o que vem sendo produzido em sua própria época. Fico triste em pensar que estão esperando que nossos poetas morram para darem a eles a devida atenção.

JIVM – A que você atribui o êxito do Grupo Concriz? O que você sente ao participar de um recital? E qual a impressão que você tem dos seus colegas durante um recital?

MN – Eu considero que nosso êxito se deve a 10% de talento e 90% de dedicação, responsabilidade e perseverança. Não teríamos chegado onde estamos se não fosse por nossos esforços diários. Quando falo dos nossos esforços, não poderia deixar de mencionar algumas pessoas que, mesmo não subindo ao palco, fazem parte do grupo e tem uma dedicação incondicional para que nosso trabalho seja sempre um sucesso. Devemos muito a Edmar Vieira, diretor de cultura de Maracás, criador do Projeto Uma Prosa Sobre Versos – um projeto que, uma vez por mês, tira famílias inteiras de casa para nos ouvir recitar no Auditório Municipal e para ouvir um poeta falar sobre sua obra. Temos gratidão também a Manoel Paciência, um gênio do artesanato que assumiu conosco um compromisso mensal com a decoração para nossos recitais; a você, Inácio, por sua incansável luta para levar o nome de nosso grupo em qualquer lugar que vá; a outras pessoas que, de um jeito de outro, estão sempre nos ajudando como podem.
Apresentar um recital, para mim, é mágico. No momento em que estou no palco, sinto-me o próprio Deus reescrevendo o Gênesis, reconstruindo o mundo do meu jeito. Meus colegas de palco são guerreiros e fadas. Eles são as pessoas mais importantes do mundo. Naquele momento, devo cuidar deles e dar-lhes segurança. E são eles as pessoas que me dão o apoio que preciso. Tenho total confiança neles e sei que são grandes heróis.

JIVM – E agora? Quais os caminhos do poeta Marcelo Nascimento e de sua poesia? E o que mais?

MN
– Sem dúvidas, o caminho das incertezas. Pretendo continuar gritando versos por aí feito um louco e recrutando novos loucos para essa batalha tão árdua e tão fascinante, continuar também estudando – ainda preciso descobrir muito do Marcelo homem e principalmente do artista, recitador e poeta. Só assim vou conseguir descobrir um pouco dos meus caminhos e dos caminhos da poesia.
No mais, resta-me deixar meus agradecimentos a você, José Inácio Vieira de Melo, não só pela oportunidade de falar sobre minha escrita e meu trabalho com o Grupo Concriz, mas também por tantas leituras indicadas, por tantos poetas promissores que traz ao conhecimento do público através da coluna Sangue Novo no seu blog, nos ajudando a tirar nossos poemas das gavetas e lançá-los ao mundo. Precisamos de mais pessoas como você, comprometidas em incentivar novos leitores e escritores numa nação tão carente de cultura literária. Resta-me, além disso, agradecer aos poetas com quem tivemos a honra de trabalhar, sempre tão generosos, derramando elogios sobre o Grupo Concriz, aos meus colegas de grupo pelo engajamento nos caminhos das palavras e aos amigos e familiares sempre prontos a apoiar e incentivar o Marcelo poeta.

10 comentários:

Pablo Sá disse...

Parabéns ao Cavaleiro de Fogo,
por mais esta oportunidade de apresentar ao mundo mais um sangue novo, e a meu querido amigo e irmão Marcelo Nascimento por sua sinceridade nas respostas.


abraços

Georgio Rios disse...

Parabéns ao Inácio e ao Marcelo,a cada dia tenho mais certeza de que o Grupo Concriz é um celeiro de talentos!!!Um grande abraço e vida longa a tua poesia Marcelo. Inácio, avante na lida!!!

Lana Damasceno disse...

Parabéns Inácio mais uma vez tirando mais poemas das gavetas(como falou Marcelo) para a todos mostrar.E sim marcelo, continuaremos com você em busca de mais recrutas loucos por isso que chamamos de POESIA!

Aleandro disse...

Inácio sempre revelando Grandes Poetas e agora com nosso grande Amigo Marcelo, um talento único e Cativante, Parabéns Marcelo e que tu consigas fazer com que todos ouçam tua poesia mundo afora, Abraços e muita Sorte nessa Caminhada.
e todo meu Carinho ao Grupo Concriz, essa Familia Maravilhosa e Inácio obrigado por sempre estar nos mostrando Novos Talentos Baianos.

carol disse...

Parabéns a Marcelo e a você Inácio, que tem deixado essa oportunidade pra quem está em busca de conhecimento, de descobertas. Me sinto feliz por estar vendo o trabalho de Marcelo, além de ser meu amigo, ele é um artista e precisa desse apoio e reconhecimento. Aqui eu deixo os meus parabéns e essa saudade enorme que sinto do Grupo Concriz.

abraços

nelvelame disse...

Poesia é sangue que flui fora das veias, sangue que contamina a quem tem contato com ele. Graças a Deus, Marcelo não é mais um dos imunes e já começa a espalhar os virus que impregnam os poemas e arrastam as pessoas para o febril êxtase das palavras.

Abraços

Priscila de Freitas disse...

"Circo das Palavras" me disse muito! Parabéns a mais um sangue novo. Abraços

Caio Rudá disse...

Mais um sangue novo! Ffico cada vez mais feliz em estar junto de poetas como os que Inácio tem apresentado aqui.

Gostei muito da entrevista. Pelas palavras desse poeta, eu diria que sairia com tranquilidade um ensaísta ou crítico daí. Concordo em muito do que ele diz, a alienação em massa a que assistimos, banalização do sexo e proliferação da filosofia da indolência entre os jovens.

Assim como Marcelo, acho muito importante o conhecimento da biografia do poeta para entender a sua obra, bem como o contexto sócio-histórico. O próprio citado Maiakovski é um exemplo de boa poesia que só pode ser entendida na situação da Revolução Russa.

Parabéns ao grupo Concriz, e ao Marcelo, sobretudo, pelas ideias de arte enquanto atriz social, um meio de intervenção no mundo.

Abraços.

Anônimo disse...

Fico muito feliz em poder participar da sua brilhante carreira. Digo isso nao só tendo a visão de Marcelo poeta,mas o Marcelo que pouca gente conhece. Marcelo que abre mão de ter seus horários livres em divertimnentos pessoais para simplismente ficar cuidando e incentivando novos poetas.Valeu SANGUE NOVO!!!!!!!!!!!!!!ESTÁ APRENDENDO COMA TIA HEIM .....

Fernando Pedro Maria disse...

Parabéns ao Inácio pela bela iniciativa pensando sempre para a arte e cultura. Marcelão bela de entrevista e relevantes posicionamentos. É isso ai negão, vamos produzir uma cultura diferente.
Abraços