sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

SANGUE NOVO - PRISCILA FERNANDES



VOO PARA FORA DA ASA DA PALAVRA – Com um discurso que lembra bastante os enunciados da poesia de Manoel de Barros, PRISCILA FERNANDES mistura a argila da criação ao mesmo tempo em que mergulha para um vôo para fora das asas da palavra. E assim vai se inventando, melhor ainda, inventa seus passos. Priscila nasceu em Salvador, em 1986. Filha de pais velejadores passou sua primeira infância vivendo em alto mar. Mesmo em terra firme morou com sua família em diversos e inusitados lugares, como numa fazenda na Amazônia e na Suécia. Já há alguns anos de volta a Salvador, Priscila cursou Letras na UFBA e hoje estuda Psicologia e Psicanálise. Ainda não tem livro publicado, mas já escreveu centenas de poemas e mantém O blog Chafariz (http://pffernandes.blogspot.com/), onde publica seus textos em composição com obras plásticas de seu gosto. Participou da abertura da quarta edição do projeto Poesia na Boca da Noite (2007) e da Praça de Cordel e Poesia na 9ª Bienal do Livro da Bahia (2009).

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Como foi que a poesia entrou na sua vida? O que ela representa para você?

PRISCILA FERNANDES – Antes mesmo de aprender a ler e escrever eu tinha uma brincadeira: abrir os livros da casa e inventar o que lia. Uma vez aconteceu de ser um livro de poemas, tomei aquele susto! Me impressionei com a forma do texto, como contar uma nova história a cada página? E por que, de repente, as linhas eram quebradas por espaços vazios? Acho que foi aí que a poesia me invadiu, bem aí nesta pergunta. De alguma forma, depois de um tempo, entendi que aquilo ali era dizer mais com menos palavras, e ainda com vazios... Hoje o sentido da poesia para mim segue basicamente o mesmo, e a busca pela palavra exata, pela palavra enxuta, pela palavra imagem, a palavra coisa, a “despalavra”, é infinita. A palavra que bem-diz do impossível é o que me relaciona com a poesia.

JIVM – Ser poeta não é nada fácil. Ser mulher e ser poeta é mais difícil ainda? Por que?

PF – Concordo com todos que afirmam que a poesia é inevitável. Ela é algo que acontece, um ato, uma experiência humana. Penso ainda que a palavra é também doença, é o furo de existir, o limite da linguagem. Ser poeta é nomear isso, essa dor, essa incompletude. É fazer delirar o verbo, é exercitar o avesso das coisas, o contrário dos sentidos. Por isso também acho que a poesia está para além de gênero. Ser mulher e ser poeta é a minha condição existencial, não há nenhuma parceria e nenhuma incompatibilidade entre as duas instâncias. A mulher que sou está na minha poesia, ser mulher no mundo é tão difícil quanto ser o que quer que seja. Ser é difícil e é aí que a palavra começa, no “descomeço”.

JIVM – Quais são seus escritores referenciais? O que está lendo no momento?

PF – A primeira poeta da minha vida foi Cecília Meireles, bem antes de compreender o sentido dos seus versos eu já me apaixonei pelo ritmo e sonoridade dos seus poemas. Acho que seu livro Cânticos é um legado para a poesia, não deixo nunca de voltar a ele.
Manuel Bandeira e sua metapoesia me impressionou muito durante um determinado momento, as idéias em seus poemas mudaram definitivamente a minha maneira de encarar a escrita. Ana Cristina César me acompanhou também por um bom tempo, assim como outras poetas da angústia: Emily Dickinson, Silvia Plath, Virginia Woolf, Marguerite Duras.
Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, e.e. cummings e o espanhol Ángel Gonzáles são as obras completas que mais acessei na minha estante. Mas há poucos anos descobri Manoel de Barros e desde então ele e Caetano Veloso são tudo o que mais me impressiona em termos de poesia.
No momento estou lendo Anna Akhmátova e Mário Quintana, ambos pockets adquiridos em loja de conveniência por alguns reais. Além destes dois autores, os blogs de alguns poetas contemporâneos fazem parte da minha leitura diária. Entre eles Juan Iscla, José Inácio Vieira de Melo, Kátia Borges e Carlos Besen.

JIVM – O poeta cearense Francisco Carvalho diz que “o poeta diz as coisas como elas não são” e em outro poema afirma: “a prosa anda a cavalo/ a poesia voa”. Você se sente situada dentro desse contexto poético? O que essas afirmações despertam no seu eu-poético?

PF – Quase como Francisco Carvalho, penso que o poeta diz as coisas como elas não são (ditas). O poeta não é um construtor de verdades, nem um inventor de coisas. O poeta é um ‘desinventor”. Ele desinveste a roupa das palavras, diz os nomes por suas costas, pelo seu inverso. O exercício poético é fazer as coisas serem o impossível da língua.
Manoel de Barros diz que “Poesia é voar fora da asa.” e é quando leio isso que me situo enquanto poeta. Não me interesso por prosa ou poesia se elas não tiverem esse propósito, o de voar fora da asa da palavra, de alcançar a terceira margem do rio, a água da palavra.

JIVM – E agora, Priscila? O que mais?

PF – E agora Zé? O que mais que não um poema?

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

(Manoel de Barros – O livro das Ignorãças)

7 comentários:

Georgio Rios disse...

Uma entrevista que me apresenta uma poeta em verso e prosa.Sábias e bem colocadas respostas e estes poemas... Um cancionerio de belos versos.Parabéns Priscila!!!Parabéns Zé Inacio!!!

Caio Rudá disse...

Se não dissesse que estudava psicanálise eu ia suspeitar. Esse vocabulário de paradoxos é coisa dos lacanianos, e ele enriquece a poesia. Gostei do estilo da Priscila.

Inácio, traz o divã!

Juliana disse...

que chic, Pri!dando entrevistas por aí!!Arrasou!!!!huhuhuhuuuuuuuhuuuuu!

Adorei essa entrevista...aprendi mais sobre vc e sobre poesia!
adorei isso: "o delírio do verbo"..fazer o verbo delirar é algo fascinante!parabéns por fazer isso assim tão bem!
beijo!

Wilson Holanda disse...

Passo aqui sempre mas hj precisei parar um pouco e comentar. Fiquei tocado com a poesia da Priscila Fernandes. Parabéns menina! E Parabéns José Inácio Vieira de Mello pelo belo blog!
abços...

Vera Mendes Lima disse...

Lindos poemas e gostosa entrevista, priscila joga com palavras e sentidos com muita fineza. Continue no caminho da poesia menina!

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Eu já conhecia a poesia da Priscila.

Gostei da entrevista.

Abraços,

CC

Raiça Bomfim disse...

Eu já tinha visto a Priscila aqui no blog, mas apenas passado o olho na entrevista. Na época, me deti nos poemas, que me encantaram, como tantos outros de seu blog, o qual acompanho há tempos. Hoje reli a entrevista com calma e tive minha admiração pela Priscila poeta acrescida. Gostei muito.

Brigada sempre por compartilhar riquezas, Zé.

Abraço grande,
raiça.