Foto: Ricardo Prado
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JIVM: "A minha poesia é feita fundamentalmente a partir do que vivi e do que vivo." |
FABRÍCIO BRANDÃO – O traço essencial de sua
poesia é marcado por um universo feito de imagens, atravessando paisagens
humanas e estabelecendo uma íntima relação com um sertão de memórias. O que
dizer dessa gênese de palavras?
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – O que dizer? As palavras me escolheram
ou eu as escolhi? A paisagem poética da minha poesia tanto é uma paisagem que
observo como também é a paisagem na qual estou inserido. O meu Sertão é o Tao
do Ser de um ser tão perplexo e deslumbrado com a existência. Sinto que a minha
criação está intrinsecamente ligada às minhas origens geográficas e humanas,
embora saiba que esses fatores não são determinantes. A minha poesia é feita
fundamentalmente a partir do que vivi e do que vivo. Vivencio a poesia de cada
momento. Como diz a minha poeta de cabeceira, Cecília Meireles: “Eu canto
porque o instante existe”.
FB
– A porção existencialista de seus versos ganha uma dimensão toda especial num
livro como Roseiral,
obra que exala o vigor de mistérios humanos. Em que medida as palavras
denunciam o espanto de se estar vivo?
JIVM
– As palavras,
dentro da poesia que faço, não buscam outra coisa que não seja dar expressão ao
meu sentimento. E o meu sentimento de perplexidade é enorme, é absurdo e não
suporta amarras. No livro Roseiral fui tomado por uma revolta que
desconhecia. Agi com uma carnalidade instintiva, portanto os impulsos da minha
escrita sobrepuseram, muitas vezes, qualquer tentativa de contenção de
linguagem e ou de um formalismo comportado. Então, as palavras buscam
denunciar, em sua potencialidade, todo espanto do meu ser diante da imensidão
do Cosmo. É como está lá no Roseiral,
no poema “Rosa viva”: “Minhas palavras ardem a forjar/ estas flores que canto
por prazer/ e que dão febre e fazem delirar”.
FB – A capacidade de transcendência é o grande
trunfo de um poeta?
JIVM – Há muitos poetas que nem sequer acreditam em
transcendência, como é o caso do meu amigo Luis Antonio Cajazeira Ramos. Para o
grande poeta, autor do magnífico livro Mais
que sempre, essa conversa de transcendência é papo furado. Agora, é
impossível de se imaginar o poeta Jorge de Lima sem os delírios de fé, sem o
fervor da transcendência poética e sem as epifanias. Pois bem, sou da estirpe
de Jorge de Lima. A transcendência é a minha glória. Por conta do sentimento do
sagrado e do sublime é que me afino tanto com poetas como Gerardo Mello Mourão,
Santo Souza e Francisco Carvalho, assim como com outros bem mais jovens, como a
Mariana Ianelli e o Alexandre Bonafim.
FB – Mesmo aguçadas doses de lucidez e
racionalidade poderiam não ser suficientes para afastar os efeitos, se é que
seja possível considerar assim, místicos das palavras. Você crê numa
perspectiva de transformação humana através da literatura?
JIVM – A palavra tem efeito místico para quem é
místico, para quem tem espiritualidade. Como Novalis, acredito que “a poesia é
a religião original da humanidade”. Todos nós estamos em constante processo de
transformação, portanto tudo contribui para a nova conformação do ser em
processo. A literatura amplia os horizontes, traz novas possibilidades, é uma
fonte de conhecimento. E o conhecimento é caminho de transformação.
FB
– Que aspectos você considera como sendo os mais importantes na construção de
um debate sobre a poesia contemporânea?
JIVM – A poesia contemporânea é a que está sendo
feita a todo instante, portanto é algo que está em constante processo de
transformação e não adquire uma conformação com limites bem delineados, visto
que a cada dia surgem novos poetas. Se a intenção do debate é fazer uma análise
crítica atribuindo valoração, há de se fazer um recorte, pegando a produção de
um determinado período, na qual já seja possível identificar alguns aspectos
estéticos consolidados. A partir da constatação, levantar questões, fazer
comparações e aproximações com o que veio antes, com o que já está estabelecido,
ou seja, com os cânones. Confesso que estou muito mais propenso a criar
circunstâncias para a divulgação da produção dos poetas que estão surgindo,
através da publicação de livros e da participação dos poetas em projetos que
promovam a leitura dessa produção. O tempo é o grande definidor daquilo que
terá uma permanência maior.
Foto: Ricardo Prado
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JIVM: "Quem faz poesia pensando em ter um grande reconhecimento está fadado a sofrer decepções por toda a vida" |
FB
– Atualmente, a múltipla apropriação do verso livre parece causar uma falsa
sensação de que fazer poesia é algo fácil. Nesse sentido, a criação poética não
anda um tanto banalizada?
JIVM – Não me alio aos puristas. Quanto mais pessoas
existirem praticando seus versos, melhor. Não estou defendendo quantidade,
prezo pela qualidade. Mas fico muito contente quando vejo alguém alçar voo no
seu delírio e escrever um poema, por mais ingênuo que seja. Na verdade, o que
me desagrada mesmo são os pretensiosos – aqueles que se arvoram de grandes
poetas e que passam a ditar seus conceitos minúsculos e a determinar o que é
bom e o que é ruim, a partir de seu gosto pessoal.
O verso livre é o mais acessível, pois qualquer um pode
escrever uma estrofe composta de linhas irregulares e dizer que é um poema. Que
maravilha! Sabemos, porém, que fazer poesia com versos livres é bastante
complicado, pois requer muita habilidade por parte do poeta, visto que cada
verso tem sua medida e que, ainda assim, é preciso construir um ritmo que reja
a peça como um todo. De vez em quando, leio alguns poetas que se vangloriam de
só fazer e apreciar poesia medida e rimada. E ainda têm a petulância de afirmar
que se não tiver esses atributos técnicos, não é poesia. Uma afirmação dessa
natureza, para mim demonstra uma grande limitação.
Que bom que as pessoas estejam cada vez mais escrevendo
versos, publicando-os em seus blogs ou em coletâneas. Agora, se o sujeito, realmente,
está interessado em seguir pelo pedregoso caminho da arte, e, como diria Jorge
de Lima, for um assinalado, ou ainda no dizer de Ruy Espinheira Filho, for um
fatalizado, perceberá que a coisa não é fácil não! E investirá a maior parte de
sua vida em leituras e no exercício constante da escrita. Ou então, os que
buscam facilidades, logo desistirão ou continuarão, por algum tempo, escrevendo
algo que não repercutirá.
Quem leva a poesia a sério, está sempre a ler poesia, está
sempre a buscar seu caminho, na tentativa de encontrar e de aperfeiçoar sua
dicção poética, seu ritmo, seu verso. Sabe que é um compromisso para toda a
existência. E também tem consciência de que pouco, ou nada, terá de recompensa.
Quem faz poesia pensando em ter um grande reconhecimento está fadado a sofrer
decepções por toda a vida.
FB – Talvez seja muito cedo ainda para se
falar na consolidação de uma nova geração de poetas, mas, na sua opinião, o que
será fundamentalmente necessário para que isso ocorra?
JIVM – Realmente, é muito cedo. O que será
fundamentalmente necessário? Que os poetas continuem fazendo poemas, publicando
seus livros e que o tempo passe… Com o passar da peneira do tempo,
inevitavelmente, essa nova geração que você menciona se configurará.
FB – Você tem um engajamento muito intenso no
que se refere à articulação de eventos, nos quais estão envolvidos, sobretudo,
novos autores. Como é que se dá essa aproximação com tais escritores e quais
são as características que, a seu ver, pontuam com mais ênfase as letras destes
criadores?
JIVM – É que vejo muita gente reclamando,
lamuriando-se, choramingando. No entanto, são poucas as pessoas que têm a
coragem de fazer alguma coisa. E aqueles tantos que choramingam e reclamam são
os primeiros a encontrar defeito nas atividades que são realizadas. Eu sempre
me coloquei no lugar de fazer as coisas. De buscar alternativas. Os projetos
que realizo não contemplam, sobretudo, jovens. Dão oportunidades a poetas de
todas as faixas e vertentes. Desde 2001 que venho coordenando eventos e, na
medida do possível, tento contemplar a diversidade da poesia baiana. É claro
que sempre há os insatisfeitos, que são aqueles que acham que deveriam ser
sempre convocados, por se atribuir um valor que efetivamente não têm. Outros
nunca serão sequer mencionados, porque não vou me envolver com delinquentes nem
muito menos com canalhas, elementos que com certeza vivem apenas em função da
destruição. Esses, para mim, não existem. E pronto! E ponto! Que façam seus
eventos, que arrebanhem multidões para a sua pretensa alta poesia. Eu não dou a
mínima. Há meia dúzia de desesperados que vivem tentando achincalhar as coisas
que faço. Berram, ciscam, bufam, gemem, ganem e eu continuo na minha caminhada.
O engraçado é que toda vez que esses pobres diabos tentam me prejudicar,
imediatamente acontece algo muito bom para mim. É sintomático. De modo que me
dão sorte. São um amuleto.
Mas voltando a responder a sua pergunta, os projetos que
coordeno, na sua maioria são voltados para a poesia brasileira contemporânea,
com destaque para a poesia baiana. E repito, não são voltados principalmente
para novos autores, mas para os poetas em geral. Já coordenei projetos em
Salvador, Maracás, Planaltino e Jequié. Levei poetas baianos da geração
sessenta, como Florisvaldo Mattos, Myriam Fraga, Antonio Brasileiro, Maria da
Conceição Paranhos, Ildásio Tavares, Ruy Espinheira Filho, e da geração
oitenta, como Roberval Pereyr, Luis Antonio Cajazeira Ramos, Aleilton Fonseca,
Douglas de Almeida e Walter Cesar. E vários poetas de outros estados, apenas
para citar alguns: Mariana Ianelli (SP), Salgado Maranhão (MA), Marize Castro
(RN), Alexandre Bonafim (MG), Astrid Cabral (AM), Antonio-Mariano Lima (PB),
Neide Archanjo (SP), Raimundo Gadelha (PB), Helena Ortiz (RS), Wilmar Silva
(MG), Igor Fagundes (RJ), etc… Como vê, são muitos e, dos que citei, apenas
três podem ser considerados jovens poetas, a Mariana Ianelli, o Igor Fagundes e
o Alexandre Bonafim, mas cada qual tem ao menos quatro livros publicados. Citei
esses nomes apenas para comprovar que também destaquei os poetas já
reconhecidos e com uma obra já sedimentada. Com isso não quero passar a imagem
de que não valorizo a produção dos jovens. Sempre busquei dar o mesmo espaço
para todos. Claro que alguns se destacam mais. Isso vai da força da poesia de
cada um e da sua desenvoltura com o público. Mas se abri espaço para autores
que já têm um certo reconhecimento e que já obtiveram importantes premiações,
tentei e tento mostrar ainda mais os poetas mais jovens. A diferença é que em
relação aos mais jovens, além de projetos, organizei coletâneas envolvendo-os.
Em 2004 organizei uma coletânea com 15 poetas da minha geração, que hoje já não
são mais tão jovens, refiro-me ao
Concerto lírico a quinze vozes. E hoje, parece-me que a maioria já
está bem situada na literatura baiana, alguns até com certa repercussão em
nível nacional. Creio que, de modo geral, acertei nas minhas escolhas. Mais
recentemente, em 2011, organizei a coletânea Sangue
Novo, que reúne 21 jovens poetas – esses sim, bem jovens – todos
nascidos a partir de 1980. Nesses trabalhos busquei apenas promover o encontro
de vozes que andavam muito dispersas, na tentativa de promover um diálogo da
poesia que anda sendo feita na Bahia. Repare, não me refiro a um diálogo sobre
a poesia, mas da poesia propriamente dita. Alguns poetas, já conhecia
pessoalmente, outros mandaram seus primeiros livros para mim. Boa parte,
encontrei em blogs e nas redes sociais. A meu ver, o que mais aproxima esses
jovens poetas, em geral, é um acentuado lirismo e o diálogo com outras linguagens
artísticas, sobretudo com a música pop e com o cinema. Na maioria, são
estudantes ou professores de Letras ou de outros cursos das ciências humanas.
Poucos cultivam o verso medido, embora alguns tenham pleno domínio das técnicas
de metrificação. Enfim, são poetas de uma época de fragmentação de identidade,
em que se fala de uma aldeia global, onde os encontros são virtuais e os
grandes acontecimentos mundiais são assistidos em tempo real. Sem dúvida, esses
adventos tecnológicos interferem na criação de qualquer artista, não apenas
desses novos autores.
FB – O que definitivamente você não endossa na
dita pós-modernidade?
JIVM – Não endosso essa nomenclatura
“pós-modernidade”. Agrada-me o termo “contemporaneidade”. Mas, no fim das
contas, não muda nada. No mais, quem sou para endossar ou não alguma coisa
nesses tempos pós-modernos? Vivo muito à margem de tudo, embora esteja quase
sempre conectado. As minhas atividades, boa parte delas, acontecem em casa
mesmo, digitando nas teclas de um PC ou de um notebook. Quando não estou em
casa, vou para a minha roça, a Pedra Só, um lugar onde não tem sequer energia
elétrica nem água encanada, onde fico completamente isolado de toda essa
parafernália tecnológica. E como é bom, depois de um dia no campo, lidando com
gado, andando a cavalo, poder chegar em casa, deitar numa rede e ler um bom
livro, tendo a certeza de que nenhum telefone vai tocar nem ninguém vai
aparecer para atrapalhar. Nada de televisão, nada de rádio, apenas o canto dos
pássaros. Sem contar que a brisa do Sertão traz um sentimento tão profundo e
mágico que a gente fica sem saber o que diabo é pós-modernidade. E quando chega
a noite, ah meu irmão, aparece uma roça de estrelas no céu que não há conceito
que possa abranger a sua imensidão… E se é noite de lua cheia, a epifania é
certa. Pois bem, a pós-modernidade tende a desmistificar todo esse meu discurso
arcaico por um processo de desconstrução e bla bla blá. A única coisa que
pretendo sempre endossar é o rumo dos meus passos e os matizes de minha poesia.
O que sei eu da pós-modernidade?