sábado, 1 de outubro de 2011

JIVM - SONATA DAS MUSAS ESCARLATES

Ilustração/Invenção: José Carlos Mélo


SONATA DAS MUSAS ESCARLATES


Nos olores dos aloendros escarlates, as musas todas.
O escarlate em sua noite cria a linguagem por dentro.

Por dentro da madrugada, os gemidos escarlates
de Cássia sobre a alfombra de folhas dos cajueiros.

Os tempos extinguiram os corpos, distantes,
mas os mares e os risos ainda estão envolvidos.

Outrora, a água e a cidra, os barcos nos azulejos,
outrora, por dentro do corpo da noite recendiam os jasmins,
outrora, Quitéria era infanta e se fazia escarlate ao cantar do galo.

À noite, os vestidos de verbenas eram imortais.
No mais, tudo era gozo e rito nas liturgias do céu.

Às vezes, as borboletas fazem um culto à memória de Margarete,
e os ventos povoam as pedras dos jazigos daqueles anos azuis
que jazem aqui, dentro do peito, e nos arrabaldes que vejo.

E era Linda, com os olhos sombreados dentro da noite,
e eu todo perdido nos aromas de avelã de sua volúpia,
e sobre suas ancas escarlates estou, como o mar por dentro.

E, na noite do mar adolescente, Aliane e seus cheiros:
nas pupilas das águas, no âmago das praias, envolvidos.

O verde do mar e o sangue das verbenas, enredados
no negror da noite. E eu ouvia Carla e me envolvia
nas trepadeiras dos seus cabelos, no seu templo de música.

E pelos céus da minha paixão desfilavam em flor e fogo
os vultos de Vilma e de Vanessa – estandartes escarlates.

Assim, Duíno Selvagem, breve como as águas do Sertão,
estendo as musas escarlates que perenizam minha saga.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

30 comentários:

Pedra do Sertão disse...

A semântica dos nomes femininos deixa ao poema um ar bem do cotidiano, como se as conhecêssemos também. Parabéns!

Antom Laia Lopez disse...

na nuite cria o escarlate de dentro a dentro...

outrora os barquinhos nos azulejos em azul cèu...

como sempre muito obrigado pero que mui muito...

Emanuelle Rocha disse...

Lindooo

Zen Morbeck disse...

Musas escarlates... Muito digno, muito profundo, como sempre. Sucesso. ABçs

Gildeone dos Santos Oliveira disse...

Poema com o cheiro do chão de JIVM.
A ilustração com um quê de armorial!

Muito bom.

Flavio Martinez Sol disse...

Obrigado por essa viagem poética. Momentos de prazer infindo. Um abraço.

Magali Martucci disse...

Poeta na memória da beleza...lindo!

Neyse Fernandes disse...

Poeta José Inácio Vieira de Melo ! O monólogo do Poeta, me faz passear dentro de sua sensibilidade nesse magestoso Poema : "Sonata das Musas Escarlates", como se estivesse passeando entre Oráculos de Beleza pura !!!Além da personalidade poética, possui uma elegância em sua delicadeza, que brinca na suavidade de suas palavras!!! Encanto-me com seu estilo ! Parabéns! Bjs.

Alzira Taquetti disse...

Como sempre seus textos são maravilhosos! Bjs azuis

Maria Anita Barrios Motta disse...

Belíssimo poema!! Grande poeta de Luz!!!

Mariza David disse...

Mariza David David É este escarlate por dentro, pulsante e pulsando a todo momento, que nos torna o que somos...Ah, andamos tão escondidos, precisamos sair de dentro de nós, para que todos vejam que os feios e os bonitos têm a mesma cor, o mesmo aroma de vida, de flores... Parabéns, JIVM!!!

Clotilde Ribeiro disse...

Que lindíssimo José Inácio!!!!! Tudo lindo: do sentimento transbordante, do texto (sob o ponto de vista linguístico e semântico), à ilustração deliciosa, totalmente harmonizada com tudo!!! Acabo de me deliciar com sua SONATA DAS MUSAS ESCARLATES!!!

Clô

António J. de Oliveira disse...

Lindo!... sublime a forma como homenageia os amores 'passageiros' de uma vida!... que muitos mais venham para perpetuarem a sua encantadora 'saga' poética!... abraço :)

zantonc disse...

Um ritmo e uma sonoridade do mar por dentro de donzelas ou náufragas da memória escarlate.

Anyanaj Valentina disse...

As mulheres tem muitas faces e uma delas é a da Escarlate, linda e estremamente feminina. Adoro ser essa mulher que fascina. José Inácio Vieira Melo, Obrigada pela linda poesia!

Salgado Maranhão disse...

Belíssimo poema, Zé Inácio, de uma imagética absolutamente inaugural. Abração, Salgado Maranhão.

Ana María Diaz Velo disse...

Exquisito poema en idioma tan dulce que lo realza aún más.

Mariangela Alvarez disse...

Arrasou.. Musa Escarlate... é a digníssima do Crowley Adorei... Vc é uma estrela... bjs!

Florisvaldo Mattos disse...

Está aí, Zé Inácio: gostei deste seu poema, escandido em versos de ritmos longos, deixando no ar um aroma de ambiência portuguesa, em que parecem ressoar sublimes musicalidades e imagens que remetem a Camilo Pessanha e no Brasil a Dante Milano e Henriqueta Lisboa, no desdobramento da saga modernista. E talvez outros mais, de boa lavra, cujos versis me acenam mas não recordo objetivamente. Valeu, prossiga dedilhando essas cordas de sonoridades simbolistas, mas sem qualquer submissão passadista..
Um abraço.
Florisvaldo

Fernanda Galvão disse...

‎"o escarlate em sua noite cria a linguagem por dentro"... Dizer o quê? *_* Obrigada, obrigada, obrigada. Lindos, ambos.

Shirley São Paulo disse...

Parabéns José Inácio Vieira Melo!!! É emocionante ler os versos sensíveis do poema à flor da pele! Captura pelo homem da alma feminina em jardins florais de amor! Intenso reconhecimento nas Letras do Brasil!!!... Paz!

Roberta Tostes Daniel disse...

‎"..breve como as águas do Sertão,/ estendo as musas escarlates que perenizam minha saga". Aqui também leio chaga, fazendo em mim doer a beleza dos versos!!

Jorge Tufic disse...

Poeta, parabéns pela sonata das musas escarlates.

Marcelo Moraes Caetano disse...

Linda sonata. Adoro o jeito particular como José Inácio torna a forma canônica (uma sonata, por exemplo) numa forma transcendente e regionalmente universal. Sempre um prazer aos 6 sentidos.

Ivan Maia disse...

Memórias com cor de sangue, saliva, suor e outras secreções corpoeticas

Luiz Trevisan disse...

Belo... criativo, comprometedor, maravilhoso...

Sânzio de Azevedo disse...

Beleza de poema, José Inácio Vieira de Melo. Abraços.
Sânzio de Azevedo.

Vânia Melo disse...

Harmonia entre versos e jogo linguístico com um fôlego ímpar!
Inácio e as musas!
Beijos, poeta!

Raiça Bomfim disse...

Que delicioso poema!!

Maria Fernanda Ávila disse...

Oi, Zé!

Estou boba com esse poema! Amei muito!

Sensível e delicado, mas também ousado. Lindo ver como acontecem as imagens nessa sua memória cheia de palavras...

Sinto saudade de vc, de suas histórias e mesmo de suas histórias com suas musas, que sempre me divertiram e, agora, me emocionaram... Vc me fez lembrar desse seu lado sedutor e seduzido, sempre às voltas com essas mulheres que, sem dúvida, perenizam a saga desse cavaleiro escarlate!

Quero que saiba que meu carinho e admiração por vc nunca acabam!

Mande notícia, meu compadre (quase, quase)...

Beijo enorme!


Maria Fernanda