quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

TERRA NA VEIA: A POESIA DE JIVM

Por Romério Rômulo

Capa da primeira edição: Ramiro Bernabó - Capa da segunda edição: Fernando Aguiar

1. princípio

cada vez mais antecipo que poesia é auto-revelação. dos sonetos do shakespeare à divina comédia do dante.
do eu do augusto ao cão sem plumas do joão cabral. da rosa do povo do drummond aos sonetos do camões.
dos cantos do neruda aos operários do vinicius. do roseiral do josé inácio ao roçzeiral do gullar.


2. decisão

sertanejo decide nascer. JIVM brotou em alagoas e foi andar nas plagas da bahia. nada impune, que não se faz um sertanejo impunemente. ainda mais poeta.


3. romarias

quantas romarias faz um poeta? por decisão, em motivos que só ele domina, JIVM relata a Terceira:

 “ouvir os deuses do campo
pelos bicos dos passarinhos”

josé já se converteu nos códigos do silêncio e na decifração de abismos. outras palavras caminharam.
josé, firme, que sertanejo anda a cavalo.


4. os passos

a terceira romaria me traz umas cidades invisíveis do italo calvino. mas, cabe melhor sondá-la como fazenda de porteiras rompidas.
caminhei pelo livro e descontrolei uns versos. montei e desmontei poemas, que JIVM merece.

abre:

 “eu, poeta dos sertões,
passarinho do vento nordeste...”

“por teres me escolhido para fundar
os jardins das algarobeiras
e dos mandacarus.”

em “olho d' água”, porteira 1:

“ah, essas cicatrizes, esses calos
pelo corpo e pela alma do menino.
ah, esse deserto de ilusão.”

tudo memória, que essa terra exige memória.

“a poesia era um buraco maior que o buraco.
...............................................................
a poesia lava os pés e as lágrimas.”

JIVM descobre a serventia do verso, descobre a sua devassidão. e relata a ausência de tudo, o vazio descomunal.
sua paz é pródiga:

“a violência
que existia em mim
rasguei na bala.”

ou saga:

 “anjos bêbados anunciando o apocalipse às estrelas:
era um joão batista, era um zé limeira, era eu.”

as dúvidas, perdidas e achadas:

“qual lâmina d'água decepará a dúvida?”

os sertões presentes:

“não me ofereça o paraíso, quero o seixo da estrada.”

na “ribeira de traipu”, porteira segunda:

“de repente dava um redemoinho
na minha cabeça de vento
e já era outra história.”

“lá o documento é a palavra”. dela também se faz o estalo da vida, quando o poeta é convidado a apascentar rochas, nos peitos da vacaria.
na romaria mesmo, “lá me vou com minha cruz/ peregrino de mim mesmo/ no meio da travessia.”
JIVM fala das suas terras, suas valas, seus cercados. um pé de milho pode ser poesia. qualquer oco de mundo vai ser verso. o menino perdido no beiço das estradas, acocorado nas enchentes, se mostra uma revelação do espanto.

“maturi”, penúltima porteira:

“na primeira vez,
senti, pela primeira vez,
o mistério das estrelas.”

e na cantiga de amor:

“és tanto e tudo e como dói a tua ausência.”

as bodas de sangue, em versos de garcia lorca, aparecem. contra os punhais, uma peixeira de 12 polegadas. ferro contra ferro. para antonio gades, morador de havana, nascido nas brenhas e bailador gitano do mundo, há uma oferenda.

na última porteira, “cerca de pedra”, o poeta fecha o verbo:

“o poeta traz os segredos da poeira.
em sua mão pulsa o nó do espanto:
um sorriso bêbado de eternidade:
um poema.”

fechado com cerca de pedra, “ouvindo/ o silêncio das estrelas!”


5. declaro:

por meu fiel amigo manuelzão, guia e personagem do guimarães rosa, que JIVM bebeu em definitivo das águas da poesia. a terra soa nele como praga e bênção.


romério rômulo campos valadares é professor de Economia Política da Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP. Poeta e editor, publicou vários livros de poesia, entre eles Bené para flauta e Murilo (1990), Matéria Bruta (2006) e Per Augusto & Machina (2009).


Prefácio da segunda edição de A terceira romaria, publicada  em 2011.

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