domingo, 17 de abril de 2011

ROSEIRAL DE VERTIGINOSA POESIA

Por Alexandre Bonafim


Ontem completei 43 anos. Estava no Reino da Pedra Só. Foi um dia tranquilo, frio e agradável. Passamos o dia, meus filhos e eu, andando à cavalo por dentro da caatinga. À noite, acendi uma fogueira e fiquei sentado, com Linda ao meu lado, ouvindo músicas de Raimundo Fagner, Alceu Valença, Amelinha, Geraldo Azevedo, Ednardo, Elba Ramalho, Belchior e Zé Ramalho.
Amanhã vai ser lançada, na cidade do Rio de Janeiro, a revista Poesia Viva, da editora Uapê.
Para comemorar meus 43 anos, publico, logo abaixo, o artigo que o poeta e ensaísta Alexandre Bonafim escreveu sobre o meu Roseiral e que está presente na revista Poesia Viva.

JIVM

Ilustração: Daniel Biléu

ROSEIRAL DE VERTIGINOSA POESIA
Por Alexandre Bonafim


A palavra, quando desnudada pelas mãos do poeta, faz-se destino dos astros, latejar do corpo, vertigem dos gametas em plenitude, dos pulsos em estertor. A palavra torna-se a vida inteira do cosmos, a memória das marés, dos relâmpagos. O poeta é o biógrafo da humanidade de todos os tempos, o historiador dos sonhos, o escriba dos devaneios. Em seu sangue está inscrito a força atávica dos mitos, das lendas, das paixões em estado de nascimento perpétuo. O poeta é o irmão dos alumbramentos, o pai da inocência, o filho primogênito de toda sede, de toda fome.
Nesse sentido, José Inácio Vieira de Melo é poeta em essência, em integridade, pois carrega o vigor da poesia não somente na alma, mas na pele, no ritmo das veias. O autor de Roseiral não escreve apenas poesia, ele existe na poesia, por isso a sua escrita não é mero artifício da linguagem, mas vivência plena da palavra viva, da palavra que se faz pão e milagre. José é escultor de devaneios, amante das epifanias.
Sua escrita descende da estirpe dos poetas mágicos, dos poetas visionários, tal como o foram Jorge de Lima, Gerardo Mello Mourão e José Alcides Pinto. O poeta de A infância do centauro é, para lembrar uma expressão bem ao gosto de Rimbaud, um vidente do verbo. Por isso sua escrita é sinestésica, é sensitiva, pois José Inácio, tal como o poeta de Charleville, desregra todos os sentidos na busca de uma vivência plena do estar no mundo. Nesse sentido, o escritor alagoano da Bahia move-se por “um saber erótico que ama o mundo que descreve” (MAFFESOLI, 1998, p. 14). Ele faz “sobressair a riqueza, o dinamismo e a vitalidade deste mundo-aí”. Por essa percepção ultra-sensível, o eu lírico dos poemas de José Inácio está “atento à beleza do mundo, às suas expressões específicas”; ele “participa do esforço criativo” do próprio cosmos (MAFFESOLI, 1998, p. 20-21). Tal conhecimento, de natureza intuitiva, irrompe de um “nascimento com” o sensível. Saber encarnado, pulsante, vivo, tal forma de conhecimento estabelece um encontro íntegro entre o ser do homem e o real.
Toda essa força sensitiva do corpo, da alma, energia inscrita na pele e na essência do poema, podemos novamente vislumbrar no novo livro de José Inácio, obra singelamente intitulada Roseiral. Em um belíssimo poema dessa sua nova coletânea, o poeta dá-nos a dimensão exata de tudo o que afirmamos até aqui:

FUGA


As crianças galopam goiabeiras,
sentem o gosto da paisagem de êxtase.
As crianças são deuses, mas não trazem
o germe do sofrimento, só brilham.

Quando o homem chega dentro da criança,
o infinito cai e a casa começa
a ter entranhas, a criar paredes.
Quem mais sofre com isso são as pedras:

sem sangue, sem respiração, sem ritmo,
seus escombros preenchem toda terra;
seus sonhos – fuzilados no horizonte.

Eu ainda saio dessa ciranda,
entro no primeiro buraco negro
e vou me inventar em outra galáxia.
(pag. 18)

Poema de associações lexicais raras, de grande inventividade, “Fuga” é um texto tipicamente bachelardiano, no sentido em que nele o poeta acende em si a infância imortal, o devaneio mais antigo de sua memória de criança. Bachelard, em seu livro A poética do devaneio, delineia uma “topografia” do imaginário poético, na qual memória e invenção se mesclam, transfigurando os eventos do passado. De acordo com o filósofo francês, há em todo homem um “núcleo” de infância, verdadeiro arquétipo, graças ao qual o sonho e o devaneio adquirem importante atuação na existência humana. Assim, conforme explicita Bachelard, o homem só pode alcançar a sua liberdade através da imaginação. É o devaneio, portanto, que liberta o homem da fatalidade do real, permitindo-lhe uma existência nuançada pelo onirismo. Dessa forma, o passado ultrapassa o estritamente factual e objetivo, ele torna-se uma criação, uma obra de arte:

[...] o devaneio voltado para o nosso passado, o devaneio que busca a infância parece devolver vida a vidas que não aconteceram, vidas que foram imaginadas. O devaneio é uma mnemotécnica da imaginação. No devaneio retomamos contato com possibilidades que o destino não soube utilizar. Um grande paradoxo está associado aos nossos devaneios voltados para a infância: esse passado morto tem em nós um futuro, o futuro de suas imagens vivas, o futuro do devaneio que se abre diante de toda imagem redescoberta. (BACEHLARD, 1996, p.107)

Tudo isso pode ser confirmado no poema “Fuga”. Nesse texto, portanto, José Inácio teatraliza a memória, busca no próprio passado o que há de universal em sua seiva, de cósmico em sua vida. Nas belas metáforas desse seu poema, antevemos a liberdade da infância, liberdade despida inclusive de morada, de paredes, de pedras (a casa só se erige com a chegada da idade adulta). Por isso o poeta conclama o existir no buraco negro, nos braços do universo, porque nesse recanto mágico sua vida guarda o gosto de tudo o que é inaugural, de tudo o que se enraíza na infância.
Tal como nas diretrizes de T. S. Eliot, José reinventa a palavra poética a partir da tradição. Essa é a sabedoria dos criadores maduros, dos que amam a poesia verdadeiramente, pois não podemos nos esquecer que o grande lirismo é Homero, é Dante, é Camões. A poesia, para ser madura, tem de nascer do que é vivido até o âmago, do que nasce do húmus mais fecundo da tradição. Por isso José Inácio é um inventor, porque sabe escrever a partir da sábia e humilde aprendizagem com os mestres. Por isso, inclusive, o poeta desvela-se grande sonetista em sua mais recente obra. Soa, nos belos sonetos do livro, o lastro vivo de Jorge de Lima, outro grande inventor, de nossa língua, nesse gênero:

ROSA MÍSTICA


Além do sino de bronze, navego
os enlevos internos do poeta,
viajo entre jardins de algarobeiras
e de mandacarus, buscando a Rosa

Mística. Codifico meus silêncios,
aparição de vozes e de luzes,
como paixões centrípetas e avulsas
que arremessam suas bocas à vida.

Porém, ao longo surgem as tormentas.
E a voz segura do poeta rompe
a cera dos ouvidos, leva o mel

ou a pimenta às vísceras abertas
do sentimento. E vejo a Rosa Mística:
origem, infinita criação.
(pag. 33)

A rosa do poeta congrega aquele lastro típico da lírica sacra, em que erotismo e religiosidade se comunicam num entrecruzamento de energias vivas, pulsantes. Aliás, o sagrado e o erótico nascem do cerne selvagem do existir, daquele ponto obscuro do ser pelo qual nos comunicamos com a nossa essência incognoscível: o inconsciente, a morte, a eternidade, o mistério da existência. Essa conjugação redunda em uma manifestação especial: o poema. A palavra torna-se a via de acesso ao âmago do corpo feminino, ao corpo em sua sagração plena e orgiástica. Verbo e corpo são o pólen dessa rosa germinada pelo alumbramento de um eu lírico encantado pelo tato, pelo sabor, pela visão, pela audição:

DANÇA DAS ROSAS


Rege a rosa impensada a duração
e, do ventre do espinho, nasce a forma
terrena da eternidade que passa.
Ah dolorosa dor que me perpassa.

Sozinha, no ar, minha vulva pensa
– rosa impensada a reger duração –
e digo aos tornozelos e aos jambos
esses incomparáveis sons que sinto.

Da régua restam passos a dançar,
os artelhos, as carnes, o infinito,
resta o canto que busca a alegria.

Com a geometria dos meus pés,
pisar na grande terra masculina
e guardar os segredos da roseira.
(pag. 37)

As rosas, metáfora do cerne do prazer, espocam em encantado erotismo: dulcíssima lascívia feminina com seus saborosos enredos de tornozelos, de braços, de âmagos sumarentos, plenos, abertos ao êxtase e ao infinito. O poeta torna-se artesão do tato, escultor de formas ondulantes, entreabertas pela acuidade visual, sensível, da palavra. O poema, como uma luneta mágica, permite-nos vislumbrar essa epifania dos corpos em arabesco, em movimento caleidoscópico, como a própria corola da rosa em festa.
Com grande sensibilidade, essa consubstanciação entre corpo e cosmos motiva poemas em que o erotismo surge como força vital, força motriz do próprio poema. Eros irrompe, na lírica de José Inácio, como energia telúrica, arrebatamento místico, resgate da sacralidade do amor. Em sua obra, através de imagens de grande beleza, o corpo baila enamorado, movido pelos fascínios do outro. Um intenso desejo manifesta-se no mundo e pelo mundo. Trata-se de um desejo cósmico, um desejo que se reflete no universo, configurando a beleza total. O erotismo transforma-se na encarnação da própria poesia, poema que se faz corpo e sangue, poema que se concretizou em carne e desejo. Octavio Paz reflete sobre a íntima relação entre o erotismo e a poesia: “A relação entre erotismo e poesia é tal que se pode dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poética corporal e a segunda uma erótica verbal” (PAZ, 2001, p.12).
José Inácio, pelas suas rosas, desvelou-nos um livro inventivo, de versos bem construídos e lapidados, em imagens poéticas de grande plasticidade e beleza. Como na poesia dos portugueses Herberto Helder e António Ramos Rosa, as combinações lexicais têm grande efeito de surpresa e suscitam um forte sentimento extasiante. Poesia a caminhar por paragens de rara sintaxe, de surpreendente conjugação de imagens, Roseiral nos surpreende por ser justamente elaborado pela palavra sensitiva, intuitiva, nascida, enfim, daquele “selvagem coração da vida”, tal como podemos vislumbrar em James Joyce e Clarice Lispector.
Por serem gestadas por palavras inaugurais, brindemos o carmim dessas rosas, pois delas ressuscitamos em êxtase!


Alexandre Bonafim é poeta, ficcionista e crítico literário. Mestre em estudos literários e doutorando em literatura portuguesa pela Universidade de São Paulo.


BIBLIOGRAFIA:
BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
MAFFESOLI, Michel. Elogio da razão sensível. Petrópolis: Vozes, 1998.
MELO, José Inácio Vieira de. Roseiral. São Paulo: Escrituras Editora, 2010.
PAZ, Octavio. A dupla chama. São Paulo: Siciliano, 2001.

3 comentários:

Mazé Anunciação disse...

O Roseiral é o que há de melhor na poesia contemporânea brasileira. Amo esse livro. Amo esse poeta. Beijinhos, querido JIVM.

Salete Melo disse...

Lindo demais, poeta!

lupeu lacerda disse...

poeta vaqueiro, nada mais justo meu camarada. sempre te seguindo, se as vezes devagar? é que teu cavalo corre muito. rsrsrsrs. sucesso sempre mi hermano.