"Registro da fala do silêncio", primeiro poema do
meu primeiro livro, foi publicado no livro didático de Língua Portuguesa
"Textos e Linguagens - 9º ano". Foram cinco páginas dedicadas ao
poema e exercícios de interpretação. O livro foi organizado por Márcia De
Benedetto Aguiar Simões e Maria Inês Candido dos Santos, publicado pela editora
Escala Educacional, 4ª edição, 2012. Veja abaixo a reprodução da página que
contém o poema.
segunda-feira, 25 de março de 2013
quinta-feira, 21 de março de 2013
NO REINO DA PEDRA SÓ
Por Denise Almeida
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Pedra Só (Escrituras Editora, 2012) |
Recebi, como presente para os
olhos e o entendimento, o livro poético de José Inácio Vieira de Melo, Pedra Só. Nada escreverei sobre o autor,
que há no posfácio do livro um texto deslumbrante que diz muito mais e melhor
que eu da vida e da história deste poeta. Tem que ler no livro. Tem que ler o livro.
Texto escrito por amigo, compadre e cúmplice da vida: há que se cuidar da
leitura do broto para que o livro e o poeta dêem flor.
Foi numa quinta-feira quase
santa que recebi pelos correios o Pedra
Só. Rasguei o envelope branco, que não sei abrir correspondência com calma
e ciência, e vi pela primeira vez o livro. Vinha vestido de novo, com resíduo
mesmo de engenho e gráfica, com marcas de toque e dígito sobre o brilho da
capa.
Não sou de abrir livros de
poesia sem ciência e calma. Guardei o exemplar sobre a mesa de trabalho e
fiquei olhando de longe. Sim. Para a leitura de livros de poesia é preciso
primeiro distância. Deste autor, o JIVM, em especial, eu tive uma distância
quase astronômica. Já explico a razão.
Nós do sudeste somos assim, outros.
Na verdade somos os mesmos. Só olhamos no espelho, só queremos ler poesia dos
pares, só queremos editar os amigos, só andamos a cavalo no carrossel de nossas
próprias vaidades intelectuais e poéticas. Pus bem distante dos olhos e do
entendimento o tal livro. Vou ler mais tarde, quando todos dormirem.
Sim. Nós sudestinos gostamos de
ler livros depois que todos dormem. Acreditamos estar acordados e estendendo
nossa erudição. A solidão para cognição ampla é elemento primordial. Só ela
serve de horizonte para fortalecer a vaidade e a cultura pessoal. Sempre lemos,
pois, sozinhos, em estado de ritual e confissão, coisa iniciática e profética. Na
verdade, só lemos livros de poesia no espelho, e o deleite que temos desta poesia
é tão rico em fleuma e narcisos. Quase tudo o que lemos fala do nosso umbigo,
do quanto somos notáveis, do quanto o mundo e a linguagem nos pertencem, do quanto
somos eruditos e dominamos o cenário da análise e da crítica literária, da
produção e da encenação, estas coisinhas grandiosas e laicas. Se não for
espelho, nem lemos.
O Pedra Só não é espelho meu, nem narciso ou fleuma. É um objeto poético
não-identificável sobre a mesa, à espera de leitura, significação e descoberta,
com ou sem aventura pessoal e estética. O Pedra
Só entrou na minha vida como um corpo estranho, querendo fruição.
É claro que ninguém chega ao
desconhecido com fome e sede desregradas. Há que se namorar primeiro a capa, a lombada,
as cores, a forma, o projeto gráfico, os tipos, as imagens. Pura defesa da
vaidade. Texto só mais tarde, quando na alma houver escudo protetor. Quando
vier o voyeur do que não é a alma da
gente. Que será de Narciso sem o próprio espelho como cenário para os céus da
literatura e da alma?
Ah, o livro... Há mesmo um céu,
na primeira capa. Um cenário de sertão com lua e azul invitando à leitura. Uma
paisagem tão estranha aos meus entendimento e olhos. Bobagem ficar engenhando e
enovelando nós de logomarca a emaranhados de vegetação no sertão, melhor
proceder à leitura do livro. À leitura do livro!
Nem era um céu estrondosamente
azul quando comecei a ler a obra. Senti um volume quase ao meio do livro, na
Toada do Tempo. O poeta havia encartado o que parecia ser uma flor do sertão,
destas sempre vivas, que duram mais que a morte. Engano meu. Era um espinho
rútilo, que me atravessou o dedo, machucando fundo a carne. Ao retornar os
olhos da ferida à página vi que estava grafado, como citação de outro autor e
abrindo o pomo, o verso: “ – E o poema
faz-se contra o tempo e a carne.” Doida e doída verdade.Versos de outrem.
Assim entro eu no Reino da
Pedra Só, onde desfruto e penso a linguagem e a poesia. Assim a gente começa a
ler os poemas da Pedra Só, como outra pessoa. No discurso, nos olhos, no
entendimento. Com as mãos feridas do espinho essencial e primordial do sertão, com
o entendimento engolido pelos olhos, com a alma tragada pela verdade poética da
escritura de um poeta tão outro, tão engendrado e engenhado de verdades e
escolhas de palavra certíssimas.
Para a leitura de Pedra Só não vamos sozinhos. Um José
Inácio vestido de poeta e fantasma nos dá a mão, cercado dos filhos, do rei do
baião e de outros tantos fantasmas, que reconheço aos poucos, como referência
textual direta ou enovelada nos versos. Eis que o poeta toma de um cavalo e
depois de bebê-lo se metamorfoseia em centauro, e o Reino da Pedra Só naufraga
nos mares de sangue e areia do Sertão, desenterrando um forró do sertanejo
doido, um Corisco em cada metáfora-esquina, um velho Heitor na fogueira, as
filhas da Memória como musas escarlates dos amores antigos e do sexo
reinventado nos desejos do poeta em construção, tão moço e menino...
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O Reino da Pedra Só |
Em primeiro lugar, a Pedra Só.
Existe mesmo uma fazenda incrustada na realidade, de nome Pedra Só, com pedras,
cactáceos, algarobeiras, homens de fibra, de couro, moças de beleza indizível e
sol descomunal. Para esta Pedra Só o desejo de uso de dicionários, que a gente
quer conhecer, decifrar e reconhecer tudo o que do sertão nos é estranho. É
possível buscar no Google Earth a
localidade certeira de tal lugar, a descrição fiel da paisagem, catalogar os bois,
os couros curtidos, as pedras do caminho, o céu e o homem autor da obra. Tem
este último na internet e na vida nome, história, rosto, corpo, postura e
registro imagético.
Só que, desconfiamos de pronto, já que nem os
Portugais de Camões e Pessoa, nem o Tejo da portuguesa literatura, foram, de
fato, pátrias ou rios, por que o seriam o poeta e a Pedra Só? Portugais e Tejos
nunca existiram ao migrar para a o universo da literatura. Sempre foram lugares
para desejo de abstração do lugar, desejo de língua e reinvenção da língua, a
pátria que virou linguagens. Portugais e Tejos sempre foram maiores e melhores
que o frágil conceito geográfico de lugar, migraram para ícones de tantos
graus, foram roubados pelas palavras, reescritos, rasgados, queimados, recriados,
uma fleuma flama fora dos narcisos e do espelho. Assim são os cenários da literatura,
espaços muito maiores, onde sempre viveram o desejo de pátria e de língua, o
desejo hediondo de representação da memória, o cuidado e o amor a eles,
tamanhos estes desejos. É deste esforço de transformar e transmutar tudo, como
na morte e na alquimia, e depois delas, que o poeta centauro nos leva para a
Pedra Só, espaço original e primordial de vivências, metáforas, poesia, amores,
dores, perdas, encontros, reminiscências e alquimia de vida em verso.
Assim é a Pedra Só: um
não-lugar, um anti-lugar, onde a anti-matéria é um recriadíssimo sertão mnemônico
que se desvencilhou dos sertões tão certos, referenciais e cartesianos,
evadindo-se de lugares geográficos do planeta para o refúgio nas metáforas-pedras
do meio do caminho dos olhos e da sensibilidade deste centauro, que nos guia de
mãos dadas com a poesia e por ela.
Na Pedra Só a gente entra pelas raízes do
grande sertão aéreo recriado pela linguagem, pelos céus profundos e áridos da
poesia. Estamos nos embrenhando e emaranhando na escritura da palavra poética
que, num labirinto de metáforas, de imagens, de recursos estéticos, de figuras,
de estilo, de métrica, harmonia, ritmo e canto lavram a rede onde pisamos. Ou
ainda, lavam de pó a urdidura e a trama na qual acreditamos pisar, e que é solo,
sol, teto e pedra só. Pedra Só.
Tudo nesse universo imaginário
é invenção e personificação: bois mugem solidões, sabores se estendem em
varas, a fazenda real sucumbe à invenção
do poeta cavaleiro da solidão, deslumbrado de si e do mundo: ele agora se desfunde
ao cavalo, é homem áspero e bravio, é estudioso da língua e da cultura. Depois
se refunde e retorna o centauro, a se embaralhar nas memórias, na reinvenção do
sertão com a boca do tempo a engolir tudo: as mais antigas lembranças, a
saudade e a dor do vivido, a perda e o reencontro da essência mesmo do que, no
homem, só pode ser grafado em escritura pelo centauro ou cantado em aboio pelo
poeta.
A gente adentra esta Pedra Só atravessando
junto com a boiada as Sete Portas de Tebas, refazendo o caminho da criação. No
princípio não era o verbo, era o berro do poeta menino, afogado de desejos,
rancores, amores, metáforas arrancadas da terra e do céu como tubérculos ou
estrelas. O menino cresce em linguagem e estilo, recupera os signos do passado.
A semiótica de sua história se inventa e reinventa incessante na mente,
incessantemente. O poeta e a poesia sobrevivem ao tempo, à morte de si mesmos,
ao esquecimento do que lhes era próprio. Emerge a paisagem e a Pedra Só se muta
em poeta e poesia. A gente sente a paisagem deste menino já velho, vestido de poeta,
ir se metamorfoseando em palavra poética e verso branco ou de cor. O lugar
abstrato do verso é, em carne e espírito, o sertão bíblico, o maná que emana da
vegetação e alimenta o pão da poesia.
Ao lado deste menino velho e
gasto surgem, em visita a esta Pedra Só
linguística, outros tantos meninos gastos e velhos da mitologia ou da
literatura: Homero vem a cavalo e singra os mares da imaginação e a Pedra Só é a Ilíada e Odisséia de
ícones poéticos, é a Ítaca onde pisamos os sonhos e a imaginação de salmos
escritos em palimpsestos , que são curtidos em peles de cabras, ovelhas e bodes
do sertão. A poesia é filha das memórias do Velho Testamento, faz o poeta
engendrar o Novíssimo Testamento de si, arrancando
signos da memória, lugar em que brilham pastores, vacas, sanfonas, fogueiras,
amores, secas, afetos e desafetos. Mas a mesma Pedra Só é também a Eneida
e Heitor incendeia a fogueira que ilumina a razão do poeta centauro, e nascem dali
a Tróia e seu Aquiles herói, a brilhar nos olhos da criança de ouro, outra, que
o poeta reinventa na cara de Deus e batiza como face amorosa de seu filho, de
seu avô, de seu pai.
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O poeta José Inácio com seus filhos, Moisés e Gabriel, cavalgando na Pedra Só |
Tudo agora é um baú de ossos e
de versos, morre glorioso o passado que renasce sob forma de poemas que morrem
de novo na escrita, que outra vez renasce na leitura dos versos e assim, nesta
sucessão infinita de gêneses e mortes, gesta a escritura do livro: tecido por
formigas, sussurrado pelas éguas do vento, escriturado pela tinta de bois decapitados,
o sertão como o início, o enigma primordial, a pedra filosofal da origem de tudo.
Nada pode ser evitado, tudo urge ser vivido: a urgência da poesia maior que a
da vida. Parodiando o não tão velho Ferreira, a poesia de JIVM existe porque a
vida não basta.
A gente evolui nas mãos do
poeta e o centauro esconde as patas: não tem mais mãos ou patas, o que a gente
segura é um mandacaru, os espinhos dos vivos e dos mortos, os amores sofridos e
extáticos da adolescência, os frutos da maturidade, o pasmo essencial do cristal
das palavras, o pasmo original dos olhos comedores de mundo do homem. O poeta
agora é templo do tempo, revela o seu manancial humano e limítrofe, dança como
o Rei Davi, salga a carne e convida para o graal da poesia. A gente se rende a
esta santa ceia cósmica e universal no fundo do quintal. Para quem bebe em
grande taça e furta ciente do copo dos outros, há um graal posto à mesa do
poeta: para todos. Estão convidados para esta vasta refeição poética os olhos e
o entendimento de todas as gentes, da mais culta à mais pueril, da mais anciã à
mais rebenta. Nesta mesa sagrada de escritura poética estão os mais perfeitos
arranjos e arranhos da metáfora, da comparação, da analogia quase tátil dos
versos. Chegam vestidos de sertanejos os filósofos pré-socráticos, os arquétipos
da civilização, os registros míticos do pensamento ocidental, os alemães e sua
filosofia duríssima, os salmistas e os apóstolos com sede, o Jokerman Dylan, Luiz Gonzaga e um índio
da Judéia brincando de Deus, terrível e infalível como João Cabral. A besta e
os cavaleiros do apocalipse absentem a modernidade, Ulisses engole a boca da
noite, Teseu encarna o minotauro e,
distraído, vence a semântica e a semiótica nos labirintos da memória do poeta. Narciso
olha o espelho do graal e perde o próprio rosto, emerge um Duíno Selvagem,
desembestado de dores e amores, que
reveste a couraça do poeta e encarna o próprio Héracles, comedor de
virgens metáforas. Aportam os amigos, os parentes, a família, os poetas
nordestinos, a literatura baiana antiga e a contemporânea, a literatura das
literaturas, os clássicos, os inclassificáveis, os entes Ricardo, Vítor,
Moisés, Damião, Pedros (quem pode colher todas as referências como flores?), Elizeu,
Mariana, Cecília, Leonardo, as armas e os brasões assinalados da Bahia, das
Alagoas, das Mauritânias. Da orla mediterrânea surge uma Ouro Preto de
Drummonds, rubis, rebus, meninas de luz. As metáforas se ajeitam à mesa como
pérolas da alma, as escolhas de palavras perfeitas, como diamantes barrocos e
safiras persas. A gente come, bebe, dorme, acorda, traga e traça poesia, os
versos a nos fazer lírios de água nos olhos e não simples narcisos... Já é
Páscoa nas cigarras e crianças e Cristo chove o sertão. Grilos deglutem o
tempo, meninos reinventam mitologias, Moisés e Gabriel reinauguram o Cosmos no
Sertão. O homem retorna e dá uma resposta para a cara de Deus e o tempo:
Gratidão. Beethoven é todo ouvidos e abre a porta dos sonhos do que é o esforço
de cognição da língua, fruição da poesia, da linguagem dela. Nasce a sinfonia
do que é dizível e indizível, do que só pode ser sonhado ou aboiado: o encontro
do literato ao que se sonha literário. O pão da poesia está servido: cachorros
ganem novas parábolas, o graal transborda. A gente dança com rapsódias,
argonautas, titãs, espinhos, estrelas, réquiens e missais, arqueiros lexicais, sangue
e sombra purificam a unidade do homem. O castelo do mistério do mundo nas mãos,
nas mandalas, no sangue, na plumagem do Pavão Mysteriozo, nas vigílias
totêmicas do espanto. A gente se rende a estas caligrafias de um renascituro José
Inácio, com seu graal infinito de pasmos e gozos do que é o ser, o tempo, o
real, o mundo, a Poesia. É hora de regar com o vinho e o silêncio a rendição à
Poesia, à vertigem dela, à ilusão do mundo pelas (das) palavras, já que todo o
caminho é irreversível. E JIVM, o Poeta,
quebra todos os espelhos, pisa os narcisos, e nos brinda com as tais
metalinguagens do canto poético. A gente aporta ao final da ceia profana e
sagrada como uma caixa de Pandora aberta ao entendimento, aos olhos já vazados
pelos espinhos que antes feriram apenas as mãos. Quão Poesia é esta, que nos embriaga com a areia e o sangue de todos
os fantasmas e demônios, de todos os querubins e argônios, de toda a ciência da
palavra que só pode ser vivida a olho nu, sob o sol do sertão e aboiada como o
mais gutural e eloquente dos poemas do homem... Eis um poeta que encosta e se
recosta no que, para Heidegger, era a condenação do próprio homem: ser é ser as
próprias possibilidades: é fazer-se ser. Assim a gente sai da santa ceia Poesia,
com o enorme graal nas mãos, para além das possibilidades do ser,
transfigurados em palavra poética, metamorfoseados em linguagem, contaminados
viral e letalmente de Vida e Poesia.
Deito de lado o livro, deito ao
lado a vida. As minhas mãos agora são mandacarus do sertão, as gentes se foram,
adormeceram quando fechei o livro, que agora vibra, pulsa, respira e aguarda
outros olhares e outras leituras. O meu
neto ri e pega o volume. Livro vovó, poesia vovó, espinho vovó, e não há
dicionários de símbolos ou signos, nem dicionários de mitologias ou a caixa Google de pesquisa: a viagem poética
dele é o livro, o retângulo de papel, o prisma de idéia ou cor. Azul, vovó. Céu,
vovó, e começo a ouvir dele, segurando o Pedra
Só, seu primeiro poema sujo. Sem
espelhos e narcisos, só com a boca, a carne e o tempo. Que assim seja a leitura
do Pedra Só nos olhos dos outros...
Tenho quarenta e nove anos, o
meu neto tem dois. Lemos agora, juntos, o Pedra
Só. Juntos gostamos muito da poesia de José Inácio Vieira de Melo e com ela
aprendemos um pouco mais longe.
Denise Almeida é poeta e ensaísta, graduada em
Letras pela UFMG, e docente livre na rede estadual de Minas Gerais. E-mail: dedealmeida2009@hotmail.com
Ensaio publicado originalmente no Portal Cronópios (www.cronopios.com.br), em 5 de março de 2013
terça-feira, 12 de março de 2013
sexta-feira, 8 de março de 2013
13ª SEMANA DE POESIA DO MORRO DE SÃO PAULO
13ª Semana
de Poesia do Morro de São Paulo
(De
8 a 14 de março de 2013, na Praça do Artesanato)
Coordenação:
Ângela Toledo
PROGRAMAÇÃO COMPLETA:
08/03 – SEXTA-FEIRA : Dia Internacional da Mulher
14:00Hs - Oficina de
reciclagem para confecção de Máscaras
18:00Hs - Ciranda da Mulher-Menina/Entrega de
certificados às Mulheres de Honra
20:00Hs - Prosa com o Poeta, convidada: Celeste Martinez
(Valença)
21:00Hs – Sarau/palco
livre.
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09/03 – SÁBADO
14:00Hs – Oficina de Cordel com Antonio Carlos de Oliveira Barreto
18:00Hs – Apresentação dos trabalhos da biblioteca
comunitária (Neli)
20:00Hs – Prosa com o Poeta, convidados: Antônio Barreto
e Elizeu Moreira Paranaguá
20:40Hs – Recital: “O cordel de Barreto e a metafísica de
Elizeu”
21:10Hs – Sarau/palco livre.
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10/03 – DOMINGO
14:00Hs – Oficina de reciclagem para confecção de
instrumentos musicais.
18:00Hs – Ciranda de Leitura para crianças com Rosemar
20:00Hs – Prosa com o Poeta , convidado: José Inácio
Vieira de Melo
20:30Hs - Recital
“Os aboios e as parábolas da Pedra Só”, com JIVM
20: 50Hs – Lançamento do livro “Pedra Só” de José Inácio
V. de Melo
21:10Hs – Sarau/palco livre
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11/03 – SEGUNDA-FEIRA
14:00Hs – Oficina de poesia com o poeta José Inácio
Vieira de Melo
18:00Hs – Ciranda de leitura para crianças (Biblioteca, COM Neli e Rosemar)
20:00s – Prosa com o Poeta convidada: Amália Grimaldi
21:00Hs – Sarau/Palco livre
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12/03 – TERÇA-FEIRA
14:00Hs – Oficina de Reciclagem com o “Ateliê Mãos de
Luz”
18:00Hs – Colégio Nossa Senhora da Luz, com Edson Mendes
20:00Hs – Prosa com o Poeta, convidada: Núbia Paiva.
21:00Hs – Sarau/Palco livre
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13/03 – QUARTA-FEIRA
14:00Hs – Oficina de poesia com Núbia Paiva
18:00Hs – Biblioteca Comunitária e Ciranda de leitura
para crianças.
20:00Hs – Prosa com o Poeta,convidada: Ângela Toledo e
Lázaro Lopez.
21:00Hs – Sarau/palco livre.
_________________________________________________________________________
14/03 – QUINTA-FEIRA (Aniversário do Poeta Castro Alves
de Dia Nacional da Poesia)
14:00Hs – Oficina Geral Resgate da Mémoria Popular
(Cirandas ,cânticos,ditos)
18:00Hs – Apresentação do Grupo Kilombolas “Os Versos da
Capoeira”, Mestre Carlito Santos.
20:00Hs – Recital de poemas de Antônio Frederico de
Castro Alves,com BillY Well.
21:00Hs – sarau/palco livre – Fechamento da 13ª Semana de
Poesia com entrega de certificado aos Cavalheiros de Honra de M.S.P.
Obs.: As oficinas serão realizadas no salão da Igreja
Matriz Nossa Senhora da Luz e as apresentações na praça principal. Itens
sujeitos a alterações.
sábado, 2 de março de 2013
A FOLHA E O ESPINHO NA POESIA DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
Por Ronaldo Correia de Brito
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"O espinho e a folha como símbolos da poesia de José Inácio: lirismo e sobrevivência, beleza e alimento " |
José Inácio Vieira de Melo me
deu seu livro Pedra Só com duas lembranças da fazenda onde ele se esconde: um
espinho de mandacaru e uma folha de algarobeira. Servindo de marcadores entre
as páginas e os poemas, interpretei o espinho e a folha como símbolos da poesia
de José Inácio: lirismo e sobrevivência, beleza e alimento.
Uma vez por ano, na paisagem
nordestina, o mandacaru se cobre de flores brancas, que exalam perfume embriagador
e duram apenas uma noite. Abrem quando o sol se põe e mal o dia começa a
clarear elas murcham. Parece a representação do fugaz. As longas pétalas e
sépalas expõem a sexualidade floral do androceu e gineceu, celebram núpcias de
algumas horas e depois se fecham e morrem. Uma floração passageira, diferente
do mandacaru que teima em sobreviver ao estio, por anos e anos.
O cardeiro plantado na fazenda
Pedra Só lembra a poesia de José Inácio. Mas os versos se espraiam bem além das
antíteses entre espinho e flor, acutilada e afago, devassidão e ascese.
“Na Pedra Só,
as formigas tecem as
escrituras
no abismo da noite tão
enorme
e o espantalho veste a seda
do orvalho
para receber de braços
abertos,
o sabor das auroras, o
sagrado”.
Zé Inácio não traçou meu roteiro
de leitura. O livro abundante em memórias de gregos não possui um fio de
Ariadne. O poeta não me revelou nada além da poesia e seus signos, de um
espinho e uma folha, plantados como enigmas em meio às páginas.
Ao acaso descubro na página 21
a folha da árvore mágica sertaneja, a algarobeira, “sempre verde ao chão
vermelho, floreando mel sobre o voo das abelhas, poleiro das galinhas e das
estrelas, maná de vagens amarelas, santa, santa, santa...”. Zé Inácio compôs para a árvore santificada uma
litania de ecos, sons nutrizes como os frutos da algaroba, poesia alimento,
concreta, antítese do efêmero representado pela flor do cardeiro.
À sombra da árvore onde
descansam cavalos, e cabras mitigam a fome, e agrônomos se queixam das raízes
que chupam a água do solo e o empobrecem, e professores distribuem rações de
sementes como se fossem chocolates aos alunos, e cães cochilam esquecidos, ali,
resguardado à sombra, o poeta pensa em mulheres e sexo.
“Incrustadas por brasas
aflitas
as fêmeas se enlaçam aos
machos
e afloram gerações e
gerações
para desfolhar as pedras de Deus”.
E chegam para visitá-lo os
poetas que o acompanham no exercício de sentir o mundo, a corporação de ofício
de que fazem parte Ruy Espinheira Filho, Francisco Carvalho, Gerardo Mello
Mourão, Florisvaldo Mattos, Mariana Ianelli, Bob Dylan e tantos outros danados,
porque Zé Inácio nunca fica sozinho, o exercício da poesia é para ele o
encontro com pessoas e música, para ouvi-las e pedir que escutem seus aboios.
Também chegam os filhos Carlos Moisés e Gabriel Inácio, os compadres Gabriel
Gomes e Ricardo Prado, o pai mandando por fogo na mata, o vento da Ribeira do
Traipu e a madrugada sertaneja, vozes secas, aboio livre, outono e chuva de
Páscoa. Chegam excitados e solenes e sentam enquanto esperam o banquete de
poesia que será servido nas páginas de Pedra Só.
“Só tua boca pode receber
este mel
e conhecer as liturgias das
areias
e saborear o sangue das
origens
no cálice que transborda nesta mesa”.
Ronaldo Correia de Brito é dramaturgo, contista, romancista,
documentarista, médico e psicanalista. É autor dos livros de contos Faca, Livro
dos homens e Retratos imorais, além dos romances Galileia e Estive lá fora.
Artigo publicado no Jornal A Tarde, no Caderno +2, na página 3, em Salvador-BA, em 2/3/2013
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