quinta-feira, 3 de março de 2022

ENTRE/VISTAS - JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

 Por Artur Gomes


José Inácio Vieira de Melo: "Eu só sou quando estou na Poesia"

Conheci a poesia de José Inácio Vieira de Melo através de seu maravilhosos livro Sete, pelas redes acompanho atento a sua produção, seja com a poesia escrita, seja através das suas leituras em vídeo, poeta com quem encontro grandes afinidades, na forma de pensar e transpor para o branco do papel suas vivências. "Unguento", é um poema que eu gostaria imensamente de ter escrito e prometo que em breve estará no meu repertório de Poesia Falada. 

Artur Gomes - Como se processa o seu estado de poesia? 

José Inácio Vieira de Melo - Eu só sou quando estou na Poesia. A Poesia é o processo. 

Artur Gomes - Seu poema preferido? Seu ou de um outro poeta de sua preferência. 

JIVM - O poema 2 do canto I - “Fundação da ilha”, do livro Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, onde há uma quadra que diz assim: Mesmo sem naus e sem rumos,/ mesmo sem vagas e areias,/ há sempre um copo de mar/ para um homem navegar. 

Artur Gomes - Qual o seu poeta de cabeceira? 

JIVM - Já tive vários, em momentos distintos da vida: Patativa do Assaré, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Gerardo Mello Mourão, Herberto Helder... Porém, cada vez mais, Jorge de Lima tem se firmado como uma referência fundamental, assim como os contemporâneos Roberval Pereyr e Salgado Maranhão. 

 Artur Gomes - Em seu instante de criação existe alguma pedra de toque, algo que o impulsiona para escrever? 

 JIVM - Apenas me movimento e sigo pelos caminhos que vão surgindo a partir desse movimento. Vez por outra, sou convocado pela Deusa Poesia, e aí não tem muita explicação, a criação vem com as imagens mais insólitas e, muitas vezes, das mais delirantes esferas. E nessas horas, sou pura entrega, numa dedicação sem limites. 

Artur Gomes - Livro que considera definitivo em sua vida? 

JIVM - É necessário citar ao menos três: Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez; Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa; e O guardador de rebanhos, de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa. 

Artur Gomes - Além da poesia em verso, já exercitou ou exercita outra forma de linguagem com poesia? 

JIVM - Sim. A música. Vários compositores, grandes talentos, têm musicado meus poemas e, vez em quando, coloco letra em alguma melodia. Para mim, é uma grande alegria ter parceiros musicais em todas as regiões do Brasil. Já fiz também alguma coisinha para teatro, a pedido de Jackson Costa, ator e diretor baiano. Agora, estou sendo convocado, pelo cineasta baiano Rogério Sagui, a fazer roteiro de filme e de série de televisão, mas ainda não tive coragem de encarar essa parada. Ando muito acomodado, muito mesmo. 

Artur Gomes - Qual poema escreveu quando teve uma pedra no meio do caminho? 

JIVM - Pedra no meio do caminho é o que não falta. Então, vários poemas vieram das topadas. Porém o mais emblemático se chama “Exercícios crísticos”, de Decifração de abismos, meu segundo livro, publicado em 2002. 

Artur Gomes - Revisitando Quintana: você acha que depois dessa crise virótica pandêmica, quem passará e quem passarinho? 

JIVM - Para o inferno seguirá o verme que hoje se espoja na cadeira do presidente. O vírus também passará, como toda tempestade. Nós, que sabemos cantar e apreciar a existência, continuaremos passarinhos. Mas também passaremos, leves como folhas ao vento. Lembrar, sempre lembrar, com José de Alencar: Tudo passa sobre a terra. 

José Inácio Vieira de Melo: "Escrevo para me estender a todo ser"

Artur Gomes – No prefácio do livro Pátria A(r)mada o poeta e jornalista Ademir Assunção, afirma que cada poeta tem a sua tribo, de onde ele trás as suas referências. Você de onde vem, qual é a sua tribo? 

JIVM - Eu sou um Fulni-Ô. Tenho parentesco com os Xucuru-Kariri e com os Payayás. Aproximei-me dos Tucujus, pelos quais tenho amor. Escrevo para me estender a todo ser, a toda pessoa. Eis a minha aldeia. 

Artur Gomes - Nos dias atuais o que é ser um poeta, militante de poesia? 

JIVM - "O poeta tira tua maquiagem/ e escancara tua lepra/ e mostra o quanto és fedorento.// O poeta te desavessa/ te mostra por dentro/ e revela o quanto és perebento.// Por isso que na entrada/ da tua casa, da tua alma/ essa placa bem transparente:// não há espaço para poetas/ e essa coisa de poesia/ é uma praga de gente vadia.// Mal sabes tu, que a poesia/ é o unguento.// Muitas vezes abre feridas,/ mas é só para extirpar,/ de vez o veneno.// A poesia é o bálsamo/ que atravessa todos os tempos". Como pode ver, a resposta veio em forma de verso. O nome deste poema é “Unguento”. Ele faz parte do meu livro inédito Garatujas Selvagens, a ser publicado ainda este ano. 

Artur Gomes - Que pergunta não fiz que você gostaria de responder? 

JIVM - Faltou nada não. Está tudo certo (E nada está certo).


Entrevista feita pelo escritor Artur Gomes. Foi publicada no blog entre/vistas (https://arturgumes.blogspot.com/) em 9 de fevereiro de 2021.

Fotos: Ricardo Prado.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

PASSAGEM


PASSAGEM 

 Dentro deste rio que passa, 
sou a pessoa que passa. 
(E dezembro chega. E passa.) 

 Quantos dezembros 
passará essa pessoa 
que se mira no rio 
e sonha que passa? 

 (Há apenas um centauro
 bebendo a água que passa. 

 Ou será uma pedra só, 
jogada na água, a espalhar 
mitos e sonhos que passam?)

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


Poema do livro Garatujas Selvagens (Entre em contato com o autor e adquira seu exemplar. E-mail jivmpoeta@gmail.com ou Instagram @jivmpoeta)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

LETRA LÚDICA | A POESIA DE GARATUJAS SELVAGENS

Por Hildeberto Barbosa Filho

Foto: Ricardo Prado
Hildeberto Barbosa Filho: "Na altura de seus cinquenta e quatro anos
e com uma obra já consolidada, conforme o testemunho de muitos
leitores e de uma seleta fortuna crítica, José Inácio Vieira de Melo
pode dizer, sim, o que diz no poema “Biografia” (P.140), na agudeza
de seu melhor minimalismo: “Biografia ∕ de poeta ∕ é poesia”."

O poeta José Inácio Vieira de Melo, alagoano, radicado na Bahia, possui o espírito aventureiro e a mobilidade dos menestréis medievais. Persegue a palavra poética como persegue o tesouro primordial, sempre iluminado pelo ideário de um Quixote atento às suas virtualidades orais e escritas. 

Já o vi dizendo seus próprios poemas e já o li no silêncio das páginas, tocado pela comoção que os seus versos podem deflagrar na incandescência de algumas imagens vitais. Sinto que para ele a poesia não é apenas um jogo de vocábulos, um quebra-cabeça tipográfico, um experimento artificial com a linguagem. É palavra, sim, porém, palavra que nunca abdica da contaminação da vida, em sua miséria ou em sua beleza. 

Desde Código do silêncio (2000), passando por títulos como Decifração de abismos (2002), A terceira romaria (2005), a que prefaciei, e outros, a exemplo de A infância do Centauro (2007), Roseiral (2010), Pedra só (2012), O galope de Ulisses (2014) e Sete (2015), tenho acompanhado a sua trajetória de poeta lírico, fiel a seu amor pela palavra e aos vocativos especiais da literatura, quer nos esforços que exige em meio a esse tempo de incertezas, ressentimentos e niilismo, quer na possibilidade de seus secretos encantos e privilegiados prazeres. 

Agora me vejo às voltas com Garatujas selvagens (Cajazeiras: Arribaçã, 2021), compulsando uma caprichada edição que, se me agrada pelo engenho e arte da componente gráfico-visual, também me prende pelas lições intrínsecas de sua mensagem poética.

 “Cunhar abalos sísmicos ∕ eis o meu ofício” (P. 21). 

 Talvez esteja aí, nestes dois versos, a origem dos movimentos emotivos e estéticos do lirismo telúrico de José Inácio. Um telurismo, diga-se de passagem, que não se deixa prender aos estereótipos da paisagem sertaneja nem ao gosto corriqueiro de certas pesquisas regionais, posto que nele habita, também, o dado metafísico, trilhado com sensibilidade e imaginação. 

O sertão, que atravessa a clareira dos seus versos e se cristaliza na luz de cada imagem e na geografia do poema, é o sertão dos espaços abertos, de agreste orografia, de Garatujas selvagens, porém, ainda é o sertão mítico e simbólico, explorado pela força da memória e pelo calor da imaginação. 

Penso, ainda, que, a par deste viés centrado nas raízes e na evocação dos elementos ancestrais, inscritos na medula verbal de sua expressão lírica, enriquecem o percurso deste poemário as camadas metalinguísticas do texto, desde já sondadas a partir do poema de abertura, espécie de propedêutica metapoética que, se se revela comprometida com a autonomia da palavra, nem por isto se atém apenas aos sortilégios de sua materialidade sintática e sonora, uma vez que são essenciais as suas irradiações semânticas e os seus efeitos artísticos. 

Vê-se, por outro lado, que essa coletânea assume como que uma dimensão antológica, na medida em que o apuro e a disciplina da edição, distribuída em dez blocos temáticos, resumem, a seu turno, o universo subjetivo e a mitografia pessoal do autor, assim distribuída: “rabiscos rupestres”, “lonjuras”, “cartografia do medo”, “rota infinita”, “retratos”, “instantâneos”, “panorâmica das mães”, “afresco para inácia”, “autorretratos” e “a rota do ser”. 

Tanto o verso longo quanto o verso curto, ou, dito de outra forma, uma poética do excesso, que não se assusta com o peso das palavras, quanto uma poética do mínimo, marcada pela economia e pela contensão, aparecem, aqui, a demonstrar que o poeta procura se exercitar em claves diferentes, fugindo, por conseguinte, ao regime exclusivo desse ou daquele paradigma formal e estilístico. 

 Muito dos motivos abordados nas obras anteriores, como a infância, os entes queridos, as inquietações existenciais, o sentimento amoroso e a terra, sobretudo a terra, são retomados aqui, embora desta feita sob o prisma de uma concepção técnica e literária plenamente maturada, sobretudo no âmbito das configurações metafóricas. 

Se aqui e ali, o fluxo confessional sucumbe aos imperativos da emoção em sua face mais humana, limitando-se, portanto, ao recorte estreito de uma singularidade, não são poucos, contudo, os momentos em que os arranjos vocabulares se convertem na verdade da emoção estética, alcançando, assim, as ressonâncias universais que cabem às exigências da autêntica poesia. 

Exemplo do que afirmo é o poema “Lonjuras” (P.47), que assim se realiza: “O Sertão ∕ é dentro dos longes. ∕∕ É só pra quem sabe estar perto ∕ quando longe. ∕∕ O Sertão ∕ é pra quem sabe ser longe”. Ou, ainda na mesma clave temática, o poema que a ele se segue, intitulado “Trilhas” (P.48): “somente ∕ perdido ∕ nos caminhos ∕∕ o andarilho ∕ está ∕ em casa”. 

Na altura de seus cinquenta e quatro anos e com uma obra já consolidada, conforme o testemunho de muitos leitores e de uma seleta fortuna crítica, José Inácio Vieira de Melo pode dizer, sim, o que diz no poema “Biografia” (P.140), na agudeza de seu melhor minimalismo: “Biografia ∕ de poeta ∕ é poesia”.


Hildeberto Barbosa Filho nasceu em 9 de outubro de 1954, na cidade de Aroeiras (PB). É poeta, cronista, ensaísta e crítico literário, com inúmeras obras publicadas. Professor aposentado da UFPB - Universidade Federal da Paraíba e membro da Academia Paraibana de Letras. Reside em João Pessoa e colabora com o jornal A União, assinando a coluna dominical Letra Lúdica, onde foi publicada esta resenha, e com o Correio das Artes, através da coluna bimensal Convivência Crítica. Suas publicações mais recentes: Valeu a pena (2019) e Gabi voltou (2021), crônicas; As palavras me escrevem (2019) e O solene sabor das coisas inúteis (2020), poesia.

Texto publicado originalmente no jornal A União, na coluna dominical Letra Lúdica, em João Pessoa, Paraíba, em 13 de fevereiro de 2022.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

OUVIR IMAGENS

Por Sérgio de Castro Pinto


Sérgio de Castro Pinto: "Que o leitor atente no jogo imagético,
na originalidade dos versos, no dizer enviesado de José Inácio Vieira de Melo". 

José Inácio Vieira de Melo já tem uma fortuna crítica considerável, fruto de sua pertinácia, de sua perseverança, no trato da linguagem poética. Garatujas Selvagens, livro recém-publicado sob a chancela da Editora Arribaçã (Cajazeiras, Paraíba, 2021), confirma os depoimentos elogiosos sobre a sua poesia, dentre eles os de Denise Emmer, Ana Miranda, María Vázquez Váldez, Fernando Py, Thiago de Mello e outros. 

 Poeta receptivo a muitos temas, José Inácio Vieira de Melo evita a cristalização da linguagem para cumprir uma trajetória que não quer chegar a lugar algum, mas, tão somente, ocupar todos os lugares e empregar a linguagem reivindicada no momento mesmo em que as musas o provocam. Fora disso, creio que a linguagem soa para ele como excrescência, como carta fora do baralho, como mero ornamento, na medida em que carece de emoção. Ou seja, a linguagem puramente experimental passa ao largo de sua poesia, que prefere se impregnar da vida que lateja fora do estéril virtuosismo verbal, do gratuito jogo de palavra-puxa-palavra. 

 Os poemas de Garatujas Selvagens mantêm praticamente o mesmo nível qualitativo, embora eu destaque entre eles os que compõem a seção Cartografia do medo, que utiliza como epígrafe dois versos de uma canção de Antonio Carlos Belchior: “Eu tenho medo de abrir a porta / que dá pro sertão da minha solidão”. Que o leitor atente no jogo imagético, na originalidade dos versos, no dizer enviesado de José Inácio Vieira de Melo.


Sérgio de Castro Pinto nasceu em João Pessoa, Paraíba, no ano de 1947. É poeta, jornalista profissional e professor titular aposentado do Curso de Letras da Universidade Federal da Paraíba, onde defendeu dissertação de mestrado e tese de doutoramente sobre Manuel Bandeira e Mario Quintana, respectivamente. Ao longo de cinqüenta anos de vida literária, conquistou vários prêmios, o primeiro deles no Concurso de Contos Seráphico da Nóbrega, promovido pelo Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito, em 1968, no qual obteve a primeira colocação. Em 2005, Zoo imaginário (poesia), além de conquistar o prêmio Guilherme de Almeida, promovido pela União Brasileira de Escritores, Seção do Rio de Janeiro, foi adotado nas escolas públicas de São Paulo, através do programa “Lendo e Aprendendo”, da Secretaria de Educação daquele estado. Em 2009, por iniciativa do Ministério da Educação, teve uma tiragem de 25 mil exemplares, passando a integrar o acervo do Programa Nacional Biblioteca na Escola. No mesmo ano, a Prefeitura Municipal de João Pessoa instituiu o Ano Cultural Sérgio de Castro Pinto, adotando Zoo imaginário em todos os colégios públicos da capital paraibana. Mais recentemente, A Flor do gol (poesia) foi semifinalista do Concurso Oceanos, antigo Itaú, e Folha corrida (poesia), um dos dez finalistas do Prêmio Rio de Literatura, promovido pelo Centro Cultural Cesngranrio. Em 2020, publicou pela Arribaçã Editora O leitor que escreve, obra que reúne textos seus sobre literatura, livros e autores e autoras.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

UMA ROTA PERSONALÍSSIMA

Por Lima Trindade 


Lima Trindade: "Garatujas Selvagens é a confirmação de um
talento que não se dobra a modas, ao velho "novo" das fórmulas
e olhares comandados por apelos comerciais e "tendências"".

Uma rota personalíssima empreende José Inácio Vieira de Melo em toda sua poesia, sendo seu mais novo livro, Garatujas Selvagens, a confirmação de um talento que não se dobra a modas, ao velho "novo" das fórmulas e olhares comandados por apelos comerciais e "tendências", mas exprime um lirismo que abarca registros urbanos e sertanejos, memória da cultura popular e erudição, influências pop e surrealismo. Ou seja, trata a vida em sua máxima complexidade e não se recusa a extrair o valor múltiplo que há no caos do nosso cotidiano. 

 Em Garatujas Selvagens, sua fonte busca a palavra cristalina submersa nas águas do mito, nas origens: "Cunhar abalos sísmicos / eis meu ofício. / Mergulho no sonho / e vou ao mais profundo / em busca do incriado." E brinca (provoca) com o conceito de garatuja e o senso comum de que é indecifrável, retomando a essência lúdica do sentir, estabelecendo uma proposta de aprendizagem na experiência direta, no contato com o belo: "Em algum tempo / em algum setembro, / em algum domingo, / conformar-se em algo íntegro/ que possa se expressar tão lindamente / e que esse movimento não seja indiferente". 

A edição da Arribaçã Editora é primorosa e conta ainda com a luxuosa colaboração de Ramiro Bernabó nas ilustrações e fotos de Ricardo Prado. 


Lima Trindade
nasceu em Brasília e vive em Salvador. Publicou
As margens do paraíso (romance, 2019), O retrato: ou um pouco de Henry James não faz mal a ninguém (novela, 2014), Corações blues e serpentinas (contos, 2007), Supermercado da solidão (novela, 2005) e no mesmo ano Todo sol mais o Espírito Santo. Seus contos estão traduzidos para o espanhol, inglês e alemão. É editor e mestre em Teoria da Literatura pela UFBA.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

POESIA DE PRIMEIRA LINHA

Por Salgado Maranhão


Salgado Maranhão: "Garatujas Selvagens trata-se de uma poética decantada pelo esmero paciente de um poeta que a cada obra refina ainda mais o seu estilo"

Na semana passada, tive a alegria de receber o novo livro (GARATUJAS SELVAGENS), do poeta José Inácio Vieira de Melo, que eu já conhecera nos originais, mas, vê-lo vestido com uma capa tão bela e ilustrações tão instigantes, foi uma verdadeira epifania. Trata-se de uma poética decantada pelo esmero paciente de um poeta que a cada obra refina ainda mais o seu estilo. Um estilo fruto da escolha telúrica por cantar a sua terra em sua essência de sol e pedra. Meus parabéns para esse bardo que entrega-se ao destino irrecusável da palavra iluminada.


Salgado Maranhão (Caxias, Maranhão). Poeta, jornalista, consultor cultural e compositor (letrista) brasileiro. Autor de mais de uma dezena de livros de poesia, parceiro de grandes nomes da MPB, traduzido para várias idiomas, vencedor de importantes prêmios literários, dentre eles o Jabuti, por duas vezes. Seus livros mais recentes são Avessos avulsos (7Letras, 2016), A sagração dos lobos (7Letras, 2017) e A casca mítica (7Letras, 2019). Reside na cidade do Rio de Janeiro.



sábado, 16 de outubro de 2021

ESTE LIBRO ES UNA CASA, Y TIENE ALAS

 Por María Vázquez Valdez


María Vázquez Valdez: La poética de José Inácio Vieira de Melo
tiene la potencia de los elementos naturales. En su voz, la poesía
es una crisálida que en el viento se va volviendo mariposa"

La palabra de este libro crece como espuma, orbe de colores y formas inauditas e indómitas. En estas líneas – aveni- das hacia el sueño y la memoria – la palabra se extiende, se multiplica en sí misma y resuena como un latido ancestral, ubicuo.

La palabra poética de José Inácio Vieira de Melo tiene la potencia de los elementos naturales. En su voz, la poesía es una crisálida que en el viento se va volviendo mariposa: quienes hemos tenido la fortuna de escucharle, lo sabemos bien. Y esta cualidad se conserva en la palabra escrita, en la poesía contenida en sus libros, que es tallada con la vida misma del poeta.

Este libro – afortunadamente llevado al español con precisión – recibe su título del tercer poema: Garabatos salvajes. Ya desde aquí, en principio, atisbamos ese pulso antiguo que da forma a las cosas más allá de la conciencia, que erige los instan- tes que construyen la vida, como una mano bajo el guante: argamasa de la poesía.

En diez capítulos tenemos un recorrido, por medio de poemas breves, algunos aforísticos, por las estaciones de “Garabatos rupestres”, “Lejanías”, “Cartografía del miedo”, “Ruta infinita”, “Retratos”, “Instantáneas”, “Panorámica de las madres”, “Fresco para Inácia”, “Autorretratos” y “La ruta del ser”, surcadas por caballos, tigres, cebús, música, laberintos, belleza, y la presencia de dos seres excepcionales: Inácia – piedra y flor – y el inolvidable Humberto Ak’abal – nuestro poeta maya, sacerdote de los pájaros.

Hay en estas páginas una ruta que delinea la médula de lo onírico, y hay también una noción acerca del hilo que nos sostiene, que nos conserva unidos a un origen y a un sentido. Y también resalta la certidumbre de que todos los elementos inconmensurables, infinitos, se encuentran en el sitio minúsculo del instante, en el ser finito – pero también incalculable – que es el poeta; y lo confirmamos cuando nos dice: “Soy mi casa / y tengo alas”.

Este libro, estos poemas, enarbolan con plenitud la importancia de la poesía misma para el poeta, ADN del lenguaje y columna vertebral de quien la esculpe en un tiempo sin tiempo – como José Inácio Vieira de Melo. La poesía: camino recorrido, reflejo de la vida misma:“Biografía / de poeta / es poesía”.


(Posfácio do livro Garatujas Selvagens (Arribaçã Editora, 2021) de José Inácio Vieira de Melo) 

María Vázquez Valdez es Poeta, editora, periodista y traductora mexicana nacida en Zacatecas. Es autora de diez libros publicados, entre ellos los poemarios Caldero (1999), Estancias (2004) y Kawsay. La llama de la selva (publicado en la Ciudad de México en 2016 y en Nueva York en 2018). También es autora de Voces desdobladas / Unfolded voices (libro bilingüe de entrevistas, 2004), Estaciones del albatros (ensayos, 2008), y de cinco libros para niños y jóvenes. Es traductora del inglés al español de cinco libros de la escritora estadounidense Margaret Randall, y ha publicado la traducción de poemas de dicha autora en Estados Unidos, Cuba y Brasil. Ha sido editora en diversos medios, entre ellos la revista GMPX de Greenpeace y la Editorial Santillana; fue jefa de publicaciones de la Unión de Universidades de América Latina (UDUAL), cofundadora y directora editorial de la revista Arcilla Roja, y miembro del consejo editorial de la revista de poesía Alforja desde su fundación. Se ha desempeñado en diversos medios como fotógrafa, periodista y editora, y textos y poemas suyos se han incluido en libros y antologías de México y otros países. Estudió el doctorado en teoría crítica, la maestría en diseño y producción editorial y la licenciatura en periodismo y comunicación. Ha colaborado en numerosos proyectos editoriales, y ha sido parte del equipo editorial de la Academia Mexicana de la Lengua. Actualmente desarrolla el proyecto independiente MarEs DeCierto Ediciones, y es directora de la Biblioteca Legislativa y de la Biblioteca General del H. Congreso de la Unión, en México.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

O CANTADOR QUE É POETA

Por Denise Emmer 


Denise Emmer: "Com mais essa admirável obra,
Garatujas Selvagens, José Inácio Vieira de Melo se consolida
no time das grandes vozes da poesia brasileira contemporânea." 


José Inácio Vieira de Melo é poeta cantador das terras de Elomar. Em seu novo livro Garatujas Selvagens, ele inventa claridades de rara poesia escrita, mas que pode ser cantada. O seu sertão é risonho, banhado de sol e pedra com “cheiro de vida / alegria de pássaro / que voa na caatinga”. Está inserido na natureza para criar um mundo agreste que resplandece e faz-se vida presente, como um rio que corre caudaloso. 

No belo poema de abertura, Ofício, reinventa as forças naturais pois, ao “cunhar abalos sísmicos” ele “mergulha no sonho” e revela novas matizes que se desdobram em pura música de palavras, como também nos remete a versos de grande beleza e inventiva linguagem. Mergulha, em busca do incriado, e, em outra estrofe, “E como é estranho / o luminoso minério / que surge assim precipitado”. 

O espanto causado pelas grandezas do mundo é o mesmo da poesia, quando o poeta assume ser o mensageiro do que ainda não foi visto, tampouco percebido. Nessa imersão, nas coisas do natural, mora o seu universo onde ele enxerga até o fantástico em inusitadas imagens, como essas dos versos do poema que dá título ao livro “Há um tigre dentro do relógio / correndo por entre os sonhos / e atravessando a savana do tempo”. 

Revela o sertão das ideias, também das garatujas, e por mais selvagens que sejam ele as transcende e recria. E conhece tanto o mistério da poesia quanto o labirinto dos caminhos sem nunca se perder, tendo como norte seu próprio âmago, quando no poema Trilhas, ele nos guia: “somente / perdido / nos caminhos / o andarilho / está / em casa”. 

José Inácio é poeta das paragens, lá onde as estrelas caem para acender os seus versos. Tem o dom do cantador: quando, de forma pungente e plena de verdade, declama seus poemas, encanta qualquer plateia, mesmo a mais sonolenta. 

É alta, a sua poesia. Das melhores de hoje em dia. E ele afirma a sua inventividade no poema Via das palavras ao escrever: “cada palavra tem sua via. / É tudo imprevisto a cada linha”... E mostra que sua poética é aquela dos autênticos, e não dos versejadores que afiançam ser poema qualquer agrupamento de linhas. 

E assim, o poeta canta alto: “a palavra é o de repente, / é o desprevenido instante, / e tudo se alinha no seu rompante”. E o canto do agreste faz-se universal, pois que é o de todos e a todos comunica com dicção imprevista, por isso, de fala intrínseca. Com mais essa admirável obra, José Inácio Vieira de Melo se consolida no time das grandes vozes da poesia brasileira contemporânea. 


(Texto das orelhas do livro Garatujas Selvagens (Arribaçã Editora, 2021) de José Inácio Vieira de Melo) 


Denise Emmer
é poeta, compositora, cantora, violoncelista e escritora. É carioca, formada em Física e é também montanhista. Publicou vários livros, entre poesia e romance. Foi laureada com importantes prêmios literários do país, tais como APCA (poesia), Olavo Bilac-ABL (poesia), Prêmio PEN do Brasil (poesia e romance), JOSÉ MARTI-CASA CUBA BRASIL (poesia), entre outros.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

A ÂNFORA DA MUSA

Por Ana Miranda


Ana Miranda: "Impetuoso, selvagem, com a alegria de um

 pássaro que voa, o poeta José Inácio Vieira de Melo cria 
a sua própria cartilha, em busca da fonte secreta."


Acorda cedíssimo, ouve os passarinhos, beija a Linda. Muito bonito, com seu chapéu, ele arreia o cavalo e vai pela caatinga espinhosa, tangido pelos ventos, sob os olhos dos abutres. O poeta José Inácio Vieira de Melo vai encher a cisterna de seus sonhos pelo sertão da Pedra Só, onde lavadeiras lavam almas no açude.

Descendente dos Fulni-Ô, José Inácio ama a sua terra, é arraigado, ali ele se entrega à inspiração e recolhe suas palavras - num mundo áspero, abafado, a cavar pedras, no reluzir dos minérios, no sol. Nas pedras do sertão ele esculpe seus versos, e os escreve ouvindo ecos distantes de cantadores e violas, mugidos zebuínos, nos gritos das pedras que enlouquecem. Suas palavras pulsam, passeiam, comovem, são unguentos, relâmpagos, escadas para pular muros. Suas palavras são a sua vida.

Impetuoso, selvagem, com a alegria de um pássaro que voa, o poeta José Inácio cria a sua própria cartilha, em busca da fonte secreta. Assim como os seus antepassados Fulni-Ô, que conseguiram manter viva a própria língua, José Inácio preserva uma linguagem que é sua e é do sertão nordestino. O seu vocabulário já vem de nascença, sua sina está escrita na geografia da vida: Olhos d’Água do Pai Mané, onde nasceu, no município de Dois Riachos; depois Palmeira dos Índios, Arapiraca, fazenda Cerca de Pedra... E agora, Pedra Só, onde ele passa boa parte do tempo.

E os poemas que ele escreve são de tom sertanejo, mas é um sertão que tem ecos de mitologia, de rock’n’roll, onde vaqueiros vaquejam de moto. Ele sente as transformações do sertão e as entrelaça com os sertões mais antigos, numa rota infinita que lhe veio da estirpe. Bela a sua coleção de versos amorosos, as asas de amor abertas sobre Linda; emocionantes as cantilenas para Inácia, sua agreste mãe; minuciosos os seus poemas inspirados no haikai; generosos os versos ao outro.

Afinal, ele nos oferece uma série de poemas de si mesmo, que termina com uma biografia perfeita e belíssima, a nos conduzir para a rota do ser. Esse extraordinário poeta José Inácio Vieira de Melo honra a nossa tradição sertaneja, uma das expressões mais valiosas do Brasil. 


(Posfácio do livro Garatujas Selvagens (Arribaçã Editora, 2021) do poeta José Inácio Vieira de Melo).


Ana Miranda é escritora. Morou em Brasília, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Hoje vive no Ceará, onde nasceu. Estreou como romancista em 1989, com Boca do Inferno (prêmio Jabuti de revelação). Escreveu diversos romances, entre eles Desmundo (1996) Amrik (1997) e Dias & Dias (2002, prêmio Jabuti de romance e prêmio da Academia Brasileira de Letras). Foi escritora visitante em universidades como Stanford e Yale, nos Estados Unidos, e representou o Brasil perante a União Latina, em Roma. 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O POETA JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO BRILHA NO MÉXICO

- Por José del Val -


José Inácio Vieira de Melo contagia uma platéia de 2.000 pessoas no VIII Festival de Poesia As Línguas da América Carlos Montemayor, na Sala de Concertos Nezahualcoyotl, na Cidade do México

José Inácio Vieira de Melo, alagoano radicado na Bahia, poeta jornalista e produtor cultural, foi um dos destaques no VIII Festival de Poesia As Línguas da América Carlos Montemayor, na Cidade do México, que aconteceu em 11 de outubro de 2018. José Inácio se sobressaiu por conta da sua poesia visceral e por sua performance singular. Em um texto preciso, o etnólago José del Val, diretor do Festival, dá a dimensão da participação de José Inácio ao representar o Brasil e a língua portuguesa na nação dos astecas e do poeta Octavio Paz.

José del Val: A figura do poeta José Inácio no palco estava cheia de vigor e intensidade, com sua palavra precisa e com sua voz poderosa teve como resultado uma fusão sem igual.

            O poeta brasileiro José Inácio Vieira de Melo é uma figura de referência no campo poético de seu país. Prova disso é que seu trabalho atraiu a atenção de grandes poetas da língua portuguesa como Thiago de Mello, Lêdo Ivo, Antonio Miranda e Affonso Romano de Sant'Anna. Por essa razão, suas composições poéticas alcançaram diversas latitudes em todo o mundo, já que seu trabalho foi traduzido para o alemão, árabe, espanhol, finlandês, francês, inglês e italiano. Como prova de sua qualidade literária, e em recompensa ao seu árduo trabalho, em 2015 foi agraciado com o prêmio Quem Literatura, quando foi considerado o melhor autor de literatura naquele ano; razões suficientes para ser convidado como representante da língua portuguesa para o VIII Festival de Poesia Línguas da América Carlos Montemayor.
            Sem dúvida um acerto. A figura do poeta no palco estava cheia de vigor e intensidade, porque com sua palavra precisa e com sua voz poderosa, cheia de melodia, acompanhada por uma gestualidade corporal harmônica, que insinuava que mais do que um recital poético se tratava de um encontro com a palavra e a música, teve como resultado uma fusão sem igual.
            O estrado onde descansavam impressos seus poemas era mais um espectador de sua caminhada no palco, de sua voz em movimento.

José Inácio Vieira de Melo (Brasil), Fredy Chikangana (Colômbia) e os mexicanos  Juany Peñate Montejo e Victor Terán - Monumento com poema do imperador Nezahualcoyotl, na entrada do teatro que recebe seu nome, onde aconteceu o Festival

            Foram dias de intensa atividade para o poeta, onde o encontro com os poetas indígenas, que representariam as línguas originais do continente, estimulou a seleção do trabalho que apresentou.
            A palavra de Vieira de Melo enquadra-se perfeitamente na dimensão do VIII Festival de Poesia, evento em que "a poesia se tornou uma arma carregada de futuro", pois foram os jovens os principais espectadores que lotaram o local na quinta-feira, 11 de outubro. Nele, durante três horas, soaram as vozes ancestrais, as vozes de outros mundos, outras realidades. Lá, José Inácio Vieira de Melo participou com uma das quatro principais línguas de origem européia que habitam o continente americano.


José Inácio Vieira de Melo nas Pirâmides de Teotihuacan

            "No aconchego dos teus braços / quero estar o tempo inteiro. // Pelas estradas do mundo / com o sentimento aberto" – recitava José Inácio, enquanto enchia de poesia e canto o auditório do ancestral imperador poeta Nezahualcoyotl.



JOSÉ DEL VAL – Etnólogo mexicano, Diretor do Programa Universitário de Estudos da Diversidade Cultural e Interculturalidade da UNAM (Universidade Nacional Autónoma do México) e Diretor do Festival de Poesia As Línguas da América Carlos Montemayor.

Texto publicado originalmente na Revista Muito Mais, Edição Nº 15, Página 110, Dezembro de 2018

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO, ENTRE A ESTRADA E A ESTRELA - E VIVA WHITMAN!

Por Waldemar José Solha

José Inácio Vieira de Melo, Walt Whitman e Bob Dylan, andarilhos da poesia.

Uma inesquecível e deslumbrada leitura do poema BRASIL – de RONALD de CARVALHO – marcou-me os anos de adolescência, enquanto devorava os 18 volumes do Tesouro da Juventude, pois o poeta já começava com a empolgação herdada do americano:

"Nesta hora de sol puro 
palmas paradas
pedras polidas 
claridades
faíscas 
cintilações"

"Eu ouço o canto enorme do Brasil!"

Recentemente resenhei o excelente BABELICAL, do paraibano radicado em Brasília – mestre em literatura pela UnB, LEONARDO ALMEIDA FILHO – também com muito de Walt Whitman, sem qualquer angústia de influência. De repente recebo mensagem com a maravilhosa tradução, do IVO BARROSO, do EU CANTO O CORPO ELÉTRICO, depois de uma conversa nossa sobre o grande cantor da América. E FERNANDO PESSOA é ótimo, porém fica ainda melhor quando , assinando "Álvaro de Campos", escreve como o grande autor de LEAVES OF GRASS e suas três traduções ao gosto do freguês - Folhas de Erva, de Relva, de Grama.

E acabo de ler ENTRE A ESTRADA E A ESTRELA, que me comprova a felicidade enorme de Whitman de grassar fecundas rebentações em tantos poetas notáveis. O autor – alagoano radicado na Bahia – disse numa entrevista, que escreve “deitado em folhas de relva” e, nessa nova obra, apesar de afirmar que “agora, só quero ouvir Bob Dylan” – o poeta e compositor declaradamente na trilha whitmaniana – é bem mais Whitman do que ele.
Whitman, em toda biografia aparece como poeta, orador e andarilho. E talvez José Inácio seja o mais andarilho / de seus filhos, pois logo nos primeiros versos aborda pela vez primeira o refrão:

"O mundo foi feito pra gente andar.
(...)
E por mais que se percorra mundos,
por mais longe que se chegue,
mão haverá chegada, não haverá,
porque o mundo foi feito pra gente andar."

E isto é Whitman puro:

"No meu movimento, gentes, geografias,
diamantes, espinhos, auroras, crepúsculos."

E diamantes o leitor encontrará em cada bateia. “Sei que estou mais próximo de uma formiga / do que de uma estrela, mas só quero brilhar”. “A vida é leve quando as garças voam / sobre Sete Coqueiros / e abandonam a solidão no mar”. “Caminhar / até a padaria mais próxima / e comer um sonho que me leve à tua rua”. “Sou um país que vem correndo solto, / como um b arco a favor do vento”. “Tudo em mim reclama por outros mundos. / Tudo em mim clama fundo pelo desconhecido!”

Fascinam-me todos esses não-eus - whitmanianos poetas, soltos na buraqueira, vendo muita gente e muitos lugares - em versos tão livres quanto eles.


W J Solha é escritor, ator e artista plástico. Tem prêmios literários com romances e poesia; e com o filme O Som ao Redor recebeu o prêmio Guarani de melhor ator coadjuvante de 2012, prêmio igual no Festival de Cinema de Brasília, em 2013, por Era uma vez eu, Verônica. É seu o libreto da ópera Dulcineia e Trancoso, de Eli-Eri Moura, 2009; UNIRIO, 2017. É autor do quadro Ceia, do Sindicato dos Bancários da Paraíba, e do painel Homenagem a Shakespeare, da UFPB.