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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

UM POETA VESTIDO DE SOL E FOGO

Décio Torres Cruz

Foto: João Urban
"Para quem não conhece a fascinante e encantatória poesia 
do grande poeta José Inácio Vieira de Melo, seu novo livro 
O filho do Sol apresenta um resumo de sua escrita
extasiante e vigorosa  que nos arrebata por inteiro."

A Bahia produz grandes escritores, mas também acolhe poetas e artistas de diversas partes do Brasil e do mundo. É o caso do alagoano José Inácio Vieira de Melo, radicado em nosso estado desde 1988. 0 premiado autor de diversos livros de poesia celebrou, neste ano, seus 55 anos com uma antologia intitulada O filho do Sol (Mondrongo, 2023).

Como destaca a crítica literária Raquel Naveira no prefácio, o poeta e produtor cultural "é mesmo 'filho do sol': o sol do sertão, do fogo que se espalha pelas ideias e imagens, do conhecimento dos meandros poéticos, da ânsia de imortalidade presente em todo aquele que escreve com paixão pela palavra.” Sua relação com o sol e o fogo também é mencionada na orelha do livro pela poeta e professora da Uneb Lilian Almeida, quando afirma que a inteireza do sol habita os versos de José Inácio, "nascido sob a égide do elemento fogo”. Inácio carrega a marca da brasa da palavra “Ígneo" no próprio nome derivado do latim "Ignatius", que significa "ardente" ou "cheio de fogo". A forte conotação de Intensidade e fervor presente em seu nome também se apresenta em seus temas, como em “Suíte de amor, ódio e guerra", no qual "Chovem raios de sol / sobre o voo dos urubus / que assistem o espetáculo / da batalha sangrenta: / prenúncio do grande banquete "
 
A temática rural

"Da mesma forma que o poeta estadunidense Robert Frost
escolheu uma fazenda no campo no frio estado de Vermont
para morar, José Inácio Vieira de Melo passa boa parte
do seu tempo na fazenda Pedra Só, no município
de Iramaia, na Chapada Diamantina."

Dividido em dez partes, o livro é composto de 55 poemas. Com exceção de cinco inéditos, os poemas foram selecionados de seus livros anteriores cujos títulos nomeiam as divisões: Códigos do silêncio (2000); Decifração de abismos (2002); A terceira romaria (2005); A infância do Centauro (2007); Roseiral (2010); Pedra Só (2012); Sete (2015); Entre a estrada e a estrela (2017); e Garatujas Selvagens (2021). O autor nos brinda com uma excelente antologia de poemas selecionados com bastante esmero que fica difícil para os leitores decidir qual deles pode ser eleito como o melhor ou o favorito, tamanha a potência, o vigor e a beleza lírica de cada um deles.

Da mesma forma que o poeta estadunidense Robert Frost escolheu uma fazenda no campo no frio estado de Vermont para morar e elegeu, como temática, a labuta do dia a dia e os elementos da natureza ao seu redor, partindo do prosaico para a criação de versos que se imortalizaram ao criar teorias filosóficas sobre a existência humana, o mesmo se passa com esse sertanejo que, em vez da neve, pinheiros e bétulas, tem como tema o sol, o calor, a fauna, a flora e os habitantes do sertão, lá que passa parte de seu tempo na fazenda Pedra Só, no município de Iramaia, quando não está viajando para fazer curadorias ou participar de eventos e festivais literários pelas capitais.

A região rural da Chapada Diamantina aparece como tema e personagem em seus versos. Enquanto Frost dedicava poemas ao trabalho de conserto de cercas de pedras que caem com o passar das estações (Mending Wall), faz uma parada no meio da floresta para contemplar a neve caindo numa tardinha de inverno (Stopping by woods...) ou para escolher o caminho que faz a diferença em nossas vidas (The road not taken), fatos cotidianos de uma vida rural, mas que ganham dimensões metafísicas, nosso poeta "cavaleiro de fogo" também fica dividido “entre a estrada e a estrela" de seu "habitat", ao mesmo tempo que aborda personagens míticos e passeia pela cultura cristã e medieval, fazendo-nos refletir sobre crenças e tudo aquilo que move nossa existência terrena.

Como "a morte promete jardins” em seus “exercícios crísticos”, ele pede a "benção" ao “anjo da guarda", escreve um “epitáfio" para "as bodas de sangue" de Guinevere, constrói um "totem para Frida Kahlo" e "inventa pontes ao longínquo" para a violoncelista e poeta Denise Emmer. Na "toada da despedida" registra “a fala do silêncio” e descreve “auroras", "rosas", "pedras amoladas e facas atiradas", “galos de briga", "cordeiros de abril", "cavalos de luas", e "gaviões sutis". E "num estalar de dedos", traça "caligrafias" em forma de "garatujas selvagens" na "esteira do infinito". Lá, compõe música com "violões deslumbrados" e faz a “travessia" na "rota infinita" para um "mundo feito pra gente andar" onde filosofa sobre a "gênese" da "transmutação", a "metamorfose" e a “sagração" do "mito do centauro" e das "musas escarlates". Essas palavras aspeadas foram extraídas de versos ou títulos de seus poemas.

"A poesia de José Inácio Vieira de Melo nos traz esperança
e nos conforta. Em defesa da vida e do meio-ambiente, seus
versos possuem tanto a força potente do grito denunciador de
atrocidades quanto a beleza lírica da vida em sua transição."

O poema Ideograma, que abre o livro, é um metapoema que estabelece reflexões sobre inspiração e a arte infinita da escrita. Como um exímio pintor, o poeta delineia as triviais e metafóricas léguas tornadas línguas de estradas que conduzem a vilarejos longínquos. Nessa viagem, podemos perceber partos de animais soltos no tempo e o brilho efêmero de vaga-lumes na solitude da noite que, ao disseminarem suas luzes velozes pelo firmamento, compõem uma sinfonia noturna e tracejam um “ideograma do Universo".

Ouçamos a voz do poeta nesse seu jogo transformador do particular no universal: "Ao pé do ouvido / a sílaba inumerável / da escrita. // Um cata-vento assoviador / sussurra o tom da mandala / que me anima. // E sigo / traço a traço,/ quilômetro a quilômetro, // até chegar à senha / das lonjuras. // Légua é língua de estrada, / régua estendida / ao desconhecido dicionário, // o intacto vilarejo / onde libérrimas éguas parem, / na boca da noite, / velocíssimos vaga-lumes / que se espalham / no firmamento // a compor o ideograma / do Universo."

Do mesmo modo que Robert Frost falava do fim do mundo em "fogo e gelo", ligando desejo e ódio aos elementos naturais, em entrevista, José Inácio me fala de sua preocupação com a seca e o extremo calor que consomem sua região. Conversamos sobre as mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global e sobre o temor em relação aos futuros cataclismas que se avizinham e para os quais nos sentimos impotentes ante os descasos dos governantes do mundo.

Contudo, sua poesia nos traz esperança e nos conforta. Em defesa da vida e do meio-ambiente, seus versos possuem tanto a força potente do grito denunciador de atrocidades quanto a beleza lírica da vida em sua transição. Num apelo pungente, em Suíte de amor, ódio e guerra, ele convoca seus leitores a seguirem em frente, mesmo quando "falta noite no vazio que restou do dia", pois “é preciso que a voz / diga a palavra vida // e que ela transborde / e se bifurque e se divida // em milhares de vozes / cheias de vida".

Para quem ainda não conhece a fascinante e encantatória poesia desse grande poeta, seu novo livro O filho do Sol apresenta um resumo de sua escrita extasiante e vigorosa que nos arrebata por inteiro e que deve ser melhor conhecida do grande público.
 
Sobre o autor
Foto: João Urban
"O poeta José Inácio Vieira de Melo e sua obra"

José Inácio Vieira de Melo (1968) é poeta, jornalista, produtor cultural, coordenador e curador de vários eventos literários. Além dos livros já mencionados, publicou as antologias 50 poemas escolhidos pelo autor (2011) e O galope de Ulisses (2014). Organizou Concerto lírico a quinze vozes - Uma coletânea de novos poetas da Bahia (2004), Sangue Novo - 21 poetas baianos do século XXI (2011) e Concerto lírico - 15 poetas 15 anos depois (2019). Publicou os CDs de poemas A casa dos meus quarenta anos (2008) e Pedra Só (2013).

Foi coeditor da revista literária lararana (2004 a 2008). Participa das antologias Pórtico Antologia Poética I (2003), Sete Cantares de Amigos (2003), Roteiro da poesia brasileira - Anos 2000 (2009), Autores Baianos: Um panorama 2 (2014), Orillas de América Literaria - Poesía Brasileira Contemporánea (2020) e Poemas de amor e guerra (2020).

No exterior, participou das antologias Voix croisées: Brésil-France (Marselha, 2006); Impressioni d'Italia - Piccola antologia di poesia in portoghese con traduzione a fronte (Nápoles, 2011); En la otra orilla del silencio - Antologia de poetas brasileños contemporáneos (Cidade do México, 2012), Traversée d'océans - Voix poétiques de Bretagne et de Bahia (Paris, 2012); A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua (Maputo, 2013) e Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Review, 2013). Tem poemas traduzidos para o alemão, árabe, espanhol, francês, italiano, inglês e finlandês.

Dentre os prêmios conquistados, destacam-se o Prêmio O Capital 2005, com o livro A terceira romaria, o Prêmio QUEM 2015, da Revista Quem, da editora Globo, na categoria Literatura - Melhor Autor, com o livro Sete, e o Prêmio de Poesia Hilda Hilst 2021 da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, com o livro Garatujas Selvagens.



Décio Torres Cruz é escritor, crítico literário, poeta, professor e pesquisador da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). É
 Ph.D. em Literatura Comparada pela State University of New York (SUNY) em Buffalo, nos Estados Unidos. Mestre em Teoria da Literatura, especialista em Tradução e bacharel em Letras/Língua Estrangeira, com concentração em língua e literaturas de língua inglesa pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Autor de vários livros, Décio Torres publicou diversos ensaios sobre diferentes temas e contribuiu para pesquisas acadêmicas nas áreas de estudos de adaptação, linguística aplicada, estudos culturais, estudos shakespeareanos, entre outros.



segunda-feira, 7 de agosto de 2023

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO: O FILHO DO SOL

 Por Raquel Naveira 

Foto do autor: Luciano Avanço | Foto da capa: Ricardo Prado
"55 anos celebrados nesta Antologia de 55 poemas
escolhidos, intitulada O Filho do Sol, de José Inácio
Vieira de Melo, alagoano radicado na Bahia,
poeta premiado, jornalista e produtor cultural"

Um número mágico: 55. Aos 55 anos, vários desafios foram superados com coragem. O numeral cinco representa os cinco sentidos, a ordem do Homem no Universo. 55 anos celebrados nesta Antologia de 55 poemas escolhidos, intitulada O Filho do Sol (Editora Mondrongo, 2023), de José Inácio Vieira de Melo. 

 José Inácio, o alagoano radicado na Bahia, poeta premiado, jornalista e produtor cultural, é mesmo “filho do sol”: o sol do sertão, do fogo que se espalha pelas ideias e imagens, do conhecimento dos meandros poéticos, da ânsia de imortalidade presente em todo aquele que escreve com paixão pela palavra. 

 Os títulos dos livros de José Inácio nos levam a pistas do seu imaginário e do seu fazer poético. Códigos do Silêncio... o silêncio com seus mutismos, taciturnidades, segredos. O silêncio em códigos, em símbolos, em células, em sistemas para decifrar a escrita, para transmitir mensagens. O poeta nos incita a interpretações: “O silêncio, este que fala e de tanto que fala,/ é um hieroglífico poema,/ e estes versos: tradução e codificação.” Silêncio em que se penetra: “Silêncio na carne/ Silêncio que sente a areia passar./ Tempo para a solidão do poema.” Silêncio e solidão, condições propícias para se criar Poesia. 

O poeta, em Decifração de Abismos, entrega ao leitor poemas místicos, crísticos, como comprovam estes versos: “Eu sempre tive o desejo incontinenti de salvar o mundo”; “Sempre cri ser o redentor de toda miséria humana”; “Sinto em cada estrela uma Madalena a luzir”. Bebe as fontes da bênção, num poema patriarcal: “Meu pai,/ beijo tuas mãos,/ não como um homem/ pretende beijar as de Deus,/ mas como uma árvore/ beija suas raízes.” Nessa busca de sua ancestralidade mais profunda, clama por seu avô Moisés: “O meu avô Moisés: meu anjo da guarda.” 

 Quando o poeta José Inácio nos vem à mente, é fácil imaginá-lo de chapéu, montado sobre um cavalo, os olhos perdidos pelos cactos do sertão. O cavalo é símbolo de poder, força, liberdade, confiança. Figura que representa os desejos humanos mais impulsivos. Os cavalos estão presentes na poesia viril desse cavaleiro do fogo, filho do sol, com “coração de rubi, “ígneo, Ignácio, Inácio”: “... trazias os céus dentro dos olhos,/ o relinchar da paixão pagã/ dos cavalos que trago dentro de mim”; “... a dos cavalos galopando na boca da noite/ sonhando com touceiras de capim e éguas luzidias.” 

Foto: Ricardo Prado
"E um homem sobre o cavalo se transforma numa espécie
de centauro. José Inácio é centauro que galopa, galopa,
galopa, transcendendo a ele mesmo e às suas explicações."
 
E um homem sobre o cavalo se transforma numa espécie de centauro, daí o título do livro A Infância do Centauro, com dois cernes temáticos: a infância e o centauro. O centauro é vermelho, escarlate: “O teu centauro te espera,/ monta em seu dorso/ e vê o mundo pelos olhos da esfinge:/ és o enigma, não do decifrador.” O centauro é o conflito da natureza masculina: homem e cavalo, razão e instinto, delicadeza e brutalidade. José Inácio é centauro que galopa, galopa, galopa, transcendendo a ele mesmo e às suas explicações. Galopa o território da sua infância, a sua principal metafísica, a sua memória: “Gosto de subir no telhado da casa/ e olhar para dentro do quintal,/ é lá que estão o menino e a arte.” 

Roseiral... rosas que exalam romantismo e sensualidade. Rosas belas e efêmeras colhidas no jardim, ao pôr do sol. O poeta declara: “Meu coração é mesmo a rosa viva”; “Estas rosas que vês em mim são brasas.” Há pura eroticidade neste poema com o tom bíblico do “Cântico dos Cânticos”: “Que as tuas nádegas aventureiras estejam abertas/ para o poema em linha reta que te ofereço”; “Num estalar de dedos/ encontro impulso para viajar pelo infinito./ Num beijo, fundo a linguagem/ que desperta em mim o desejo do gozo e do atrito.” 

Chegamos ao livro Sete. Sete é também número simbólico. A humanidade aguarda o cumprimento da profecia apocalíptica do final dos tempos com uma revelação que virá em forma de sete estrelas, sete selos, sete trombetas, sete calamidades. Aprecio essa proposta do poeta de uma certa unidade através da escolha de uma temática central, no caso, o número sete e seus sortilégios. Um livro que nos faz mergulhar no poder oculto desse número como no poema “Sete Irmãs”: “São sete noites vividas por Borges,/ São sete fadas da ilha de Lesbos,/ São sete acordes de Joaquin Rodrigo,/ são sete facas de Aderaldo, o Cego.// Ah minhas sete irmãzinhas serenas,/ vamos jogar enquanto há tabuleiro,/ sete damas rainhas, sete Helenas,/ Sou vosso servo, vosso Cavaleiro.” 

 Há ainda A Terceira Romaria, o três, outro número perfeito. A terceira romaria é a derradeira, a que vai de encontro à morte: “Inevitável a única certeza:/ um dia a Derradeira vai lamber/ a tua boca e já estarás/ habitando noutras plagas.” 

Foto: Divulgação
"José Inácio Vieira de Melo no auge de seus 55 anos
e 55 poemas, é como um pianista selvagem que nos
eleva com suas notas e compassos a paragens muito
altas, quando afirma: "Prontos para minha passagem/
meus pianos pairam sob um céu de rosas."

A expressão Pedra Só remete à pedra de João Cabral de Melo Neto, A Educação pela Pedra. A pedra somente. Fundamental e angular. A pedra sozinha, solitária, no calcinante sertão: “Da boca dos pássaros, os violões do sol./ Rezo benditos e grito os nomes da Terra.”

Garatujas Selvagens são rabiscos surreais, desenhos, grafismos, arabescos: “Há um tigre dentro do relógio,/ correndo por entre os sonhos/ e atravessando a savana do tempo.” 

 Muitas são as referências a pessoas como a tia Aurora: “A casa de tia Aurora é um lugar dentro do meu sentimento”; às musas empalidecidas como Cássia e Quitéria; às mães protetoras, feras “com dentes de amor”, “...açudes onde se afogam os filhos”; à mãe do poeta, Dona Inácia, cuja dimensão do amor ele só foi compreender na maturidade, quando descobriu que “filhos são sementes de alegria e germes de sofrimento”. 

 Referências também a escritores, mostrando a erudição do poeta que aprecia Federico Garcia Lorca, Jorge de Lima, Baudelaire, Safo, Homero e, na contemporaneidade, Denise Emmer. A ela dedica o poema “A Violoncelista”, a poetisa tocando seu cello, escalando paraísos; ofertando beleza às nossas entranhas. 
 As referências bíblicas vão da misteriosa Madalena ao rei Davi, passando por Salomão, com a lembrança do “Cântico dos Cânticos”. Com certeza, o evangelho de José Inácio é a música. É também o evangelho do silêncio, dos abismos, da memória, dos cavalos de fogo, das rosas vivas, das pedras, das garatujas e ideogramas, das sete colinas. 

José Inácio Vieira de Melo, no auge de seus 55 anos e 55 poemas, é como um pianista selvagem que nos eleva com suas notas e compassos a paragens muito altas, quando afirma: “Prontos para a minha passagem,/ meus pianos pairam sob um céu de rosas.”

Foto:Filipe Vido
Raquel Naveira é escritora, professora universitária, crítica literária e Mestre em Comunicação e Letras. Autora de vários livros de poemas, ensaios, romances e infanto-juvenis. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras de São Paulo, à Academia de Letras do Brasil, à Academia de Ciências de Lisboa e ao PEN Clube do Brasil.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O POETA JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO BRILHA NO MÉXICO

- Por José del Val -


José Inácio Vieira de Melo contagia uma platéia de 2.000 pessoas no VIII Festival de Poesia As Línguas da América Carlos Montemayor, na Sala de Concertos Nezahualcoyotl, na Cidade do México

José Inácio Vieira de Melo, alagoano radicado na Bahia, poeta jornalista e produtor cultural, foi um dos destaques no VIII Festival de Poesia As Línguas da América Carlos Montemayor, na Cidade do México, que aconteceu em 11 de outubro de 2018. José Inácio se sobressaiu por conta da sua poesia visceral e por sua performance singular. Em um texto preciso, o etnólago José del Val, diretor do Festival, dá a dimensão da participação de José Inácio ao representar o Brasil e a língua portuguesa na nação dos astecas e do poeta Octavio Paz.

José del Val: A figura do poeta José Inácio no palco estava cheia de vigor e intensidade, com sua palavra precisa e com sua voz poderosa teve como resultado uma fusão sem igual.

            O poeta brasileiro José Inácio Vieira de Melo é uma figura de referência no campo poético de seu país. Prova disso é que seu trabalho atraiu a atenção de grandes poetas da língua portuguesa como Thiago de Mello, Lêdo Ivo, Antonio Miranda e Affonso Romano de Sant'Anna. Por essa razão, suas composições poéticas alcançaram diversas latitudes em todo o mundo, já que seu trabalho foi traduzido para o alemão, árabe, espanhol, finlandês, francês, inglês e italiano. Como prova de sua qualidade literária, e em recompensa ao seu árduo trabalho, em 2015 foi agraciado com o prêmio Quem Literatura, quando foi considerado o melhor autor de literatura naquele ano; razões suficientes para ser convidado como representante da língua portuguesa para o VIII Festival de Poesia Línguas da América Carlos Montemayor.
            Sem dúvida um acerto. A figura do poeta no palco estava cheia de vigor e intensidade, porque com sua palavra precisa e com sua voz poderosa, cheia de melodia, acompanhada por uma gestualidade corporal harmônica, que insinuava que mais do que um recital poético se tratava de um encontro com a palavra e a música, teve como resultado uma fusão sem igual.
            O estrado onde descansavam impressos seus poemas era mais um espectador de sua caminhada no palco, de sua voz em movimento.

José Inácio Vieira de Melo (Brasil), Fredy Chikangana (Colômbia) e os mexicanos  Juany Peñate Montejo e Victor Terán - Monumento com poema do imperador Nezahualcoyotl, na entrada do teatro que recebe seu nome, onde aconteceu o Festival

            Foram dias de intensa atividade para o poeta, onde o encontro com os poetas indígenas, que representariam as línguas originais do continente, estimulou a seleção do trabalho que apresentou.
            A palavra de Vieira de Melo enquadra-se perfeitamente na dimensão do VIII Festival de Poesia, evento em que "a poesia se tornou uma arma carregada de futuro", pois foram os jovens os principais espectadores que lotaram o local na quinta-feira, 11 de outubro. Nele, durante três horas, soaram as vozes ancestrais, as vozes de outros mundos, outras realidades. Lá, José Inácio Vieira de Melo participou com uma das quatro principais línguas de origem européia que habitam o continente americano.


José Inácio Vieira de Melo nas Pirâmides de Teotihuacan

            "No aconchego dos teus braços / quero estar o tempo inteiro. // Pelas estradas do mundo / com o sentimento aberto" – recitava José Inácio, enquanto enchia de poesia e canto o auditório do ancestral imperador poeta Nezahualcoyotl.



JOSÉ DEL VAL – Etnólogo mexicano, Diretor do Programa Universitário de Estudos da Diversidade Cultural e Interculturalidade da UNAM (Universidade Nacional Autónoma do México) e Diretor do Festival de Poesia As Línguas da América Carlos Montemayor.

Texto publicado originalmente na Revista Muito Mais, Edição Nº 15, Página 110, Dezembro de 2018

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO, ENTRE A ESTRADA E A ESTRELA - E VIVA WHITMAN!

Por Waldemar José Solha

José Inácio Vieira de Melo, Walt Whitman e Bob Dylan, andarilhos da poesia.

Uma inesquecível e deslumbrada leitura do poema BRASIL – de RONALD de CARVALHO – marcou-me os anos de adolescência, enquanto devorava os 18 volumes do Tesouro da Juventude, pois o poeta já começava com a empolgação herdada do americano:

"Nesta hora de sol puro 
palmas paradas
pedras polidas 
claridades
faíscas 
cintilações"

"Eu ouço o canto enorme do Brasil!"

Recentemente resenhei o excelente BABELICAL, do paraibano radicado em Brasília – mestre em literatura pela UnB, LEONARDO ALMEIDA FILHO – também com muito de Walt Whitman, sem qualquer angústia de influência. De repente recebo mensagem com a maravilhosa tradução, do IVO BARROSO, do EU CANTO O CORPO ELÉTRICO, depois de uma conversa nossa sobre o grande cantor da América. E FERNANDO PESSOA é ótimo, porém fica ainda melhor quando , assinando "Álvaro de Campos", escreve como o grande autor de LEAVES OF GRASS e suas três traduções ao gosto do freguês - Folhas de Erva, de Relva, de Grama.

E acabo de ler ENTRE A ESTRADA E A ESTRELA, que me comprova a felicidade enorme de Whitman de grassar fecundas rebentações em tantos poetas notáveis. O autor – alagoano radicado na Bahia – disse numa entrevista, que escreve “deitado em folhas de relva” e, nessa nova obra, apesar de afirmar que “agora, só quero ouvir Bob Dylan” – o poeta e compositor declaradamente na trilha whitmaniana – é bem mais Whitman do que ele.
Whitman, em toda biografia aparece como poeta, orador e andarilho. E talvez José Inácio seja o mais andarilho / de seus filhos, pois logo nos primeiros versos aborda pela vez primeira o refrão:

"O mundo foi feito pra gente andar.
(...)
E por mais que se percorra mundos,
por mais longe que se chegue,
mão haverá chegada, não haverá,
porque o mundo foi feito pra gente andar."

E isto é Whitman puro:

"No meu movimento, gentes, geografias,
diamantes, espinhos, auroras, crepúsculos."

E diamantes o leitor encontrará em cada bateia. “Sei que estou mais próximo de uma formiga / do que de uma estrela, mas só quero brilhar”. “A vida é leve quando as garças voam / sobre Sete Coqueiros / e abandonam a solidão no mar”. “Caminhar / até a padaria mais próxima / e comer um sonho que me leve à tua rua”. “Sou um país que vem correndo solto, / como um b arco a favor do vento”. “Tudo em mim reclama por outros mundos. / Tudo em mim clama fundo pelo desconhecido!”

Fascinam-me todos esses não-eus - whitmanianos poetas, soltos na buraqueira, vendo muita gente e muitos lugares - em versos tão livres quanto eles.


W J Solha é escritor, ator e artista plástico. Tem prêmios literários com romances e poesia; e com o filme O Som ao Redor recebeu o prêmio Guarani de melhor ator coadjuvante de 2012, prêmio igual no Festival de Cinema de Brasília, em 2013, por Era uma vez eu, Verônica. É seu o libreto da ópera Dulcineia e Trancoso, de Eli-Eri Moura, 2009; UNIRIO, 2017. É autor do quadro Ceia, do Sindicato dos Bancários da Paraíba, e do painel Homenagem a Shakespeare, da UFPB.