terça-feira, 27 de abril de 2010

ROSEIRAL: LANÇAMENTO EM MARACÁS

Fotos: Ricardo Prado

O lançamento do Roseiral na cidade de Maracás foi magnífico! O Grupo Concriz, a cada recital, parece ganhar mais força e mais encanto. Foi uma emoção e tanto escutar meus poemas recitados por aqueles jovens e crianças, com tanta paixão, com tanto brilho. Eu sou um privilegiado, por poder contar sempre com o apoio de pessoas como Nelson Portela, prefeito de Maracás, Edmar Vieira, diretor de cultura de Maracás, Vitor Nascimento Sá, diretor do Colégio Estadual Edivaldo Boaventura, e Marcelo Nascimento, coordenador do Grupo Concriz. E de todos os integrantes do Grupo Concriz. E de toda a comunidade maracaense. Todos muito envolvidos na realização do projeto Uma Prosa Sobre Versos. Pois bem, o lançamento de Roseiral fez parte do Uma Prosa Sobre Versos do mês de abril, na verdade foi a abertura da temporada de 2010, que vai trazer nomes como Myriam Fraga e Astrid Cabral.
A noite começou com a participação do músico Marcos Belchote. Em seguida, Edmar e Nelson fizeram breves considerações. Na sequencia, o Grupo Concriz trouxe sua força radiante, apresentando um recital com poemas do livro Roseiral. Após o recital, falei da minha trajetória de poeta e de ser humano, para uma plateia de 300 pessoas. Logo depois, bati um papo com Edmar Vieira e com o publico presente, que se manifestou através de perguntas. E, finalmente, chegou a hora do lançamento do livro propriamente dito. Tudo perfeito!

Marcos Belchote

Edmar Vieira

Nelson Portela

Grupo Concriz - Larissa

Grupo Concriz - Marcelo Nascimento

Grupo Concriz - Hermann Henrique (à frente)

Grupo Concriz - Aleandro, Marcelo, Ailana, Ivana, Pablo e Vitor

Grupo Concriz - Marcelo, Robson (sentado, à frente) e Pablo

Grupo Concriz - Robson, Vitinho, Lane e Fillipe

Grupo Concriz - Ivana, Ailana e Manuelle

Grupo Concriz - Aleandro

Grupo Concriz - Ivana, Flávia, Ailana e Manuelle

Grupo Concriz - Marcel, o caçula da turma (ao centro, recitando)

Grupo Concriz - Marcelo Nascimento e Pablo Sá

Grupo Concriz

Público no Auditório Municipal

Grupo Concriz

José Inácio Vieira de Melo

JIVM

JIVM e Edmar Vieira

José Inácio e Carlos Moisés

Lançamento do Roseiral

JIVM e a avó de Marcel

Ailana, Larissa, JIVM, Flávia e Marcela


Edmar e Vitor; Pablo, JIVM e Marcelo; Moisés e Robson

segunda-feira, 26 de abril de 2010

ROSEIRAL: LANÇAMENTO EM PLANALTINO

Fotos: Ricardo Prado

No dia 7 de abril, lancei meu Roseiral na cidade de Planaltino. Saí de Salvador com o fotógrafo Ricardo Prado e com o poeta Elizeu Moreira Paranaguá, meus amigos estimados. Chegamos em Planaltino por volta das 18 horas. O evento começou por volta das 19h 30. O Clube Social Planaltinense estava lotado. Evento organizado por meu amigo Edmar Vieira é sempre assim. Então, entrou o Grupo Renascer, da cidade de Planaltino, e recitou poemas do livro A infância do Centauro. Depois foi a vez do Grupo Concriz, de Maracás, que recitou poemas do Roseiral. Foi uma beleza de evento. Logo no início, Marla, uma das integrantes do Grupo Renascer leu apresentou um texto sóbrio sobre o Roseiral. Zeca Braga, o prefeito da cidade, foi uma presença marcante, e relembramos do lançamento do meu segundo livro, Decifração de abismos, em 2002, e Zeca e toda aquela turma boa, Nigueira, Salomé, Renê Silva, Bino e tantos outros, já estavam lá, participando, querendo coisas novas para sua comunidade. Para mim foi uma grande satisfação, voltar a Planaltino e receber uma homenagem tão bonita daquela comunidade. Agradeço ao meu amigo Edmar Vieira, agradeço ao Zeca Braga, à Marla e a todos que contribuíram para o êxito do evento.

Edmar Vieira

Marla apresentando texto sobre o livro Roseiral

Grupo Renascer recitando poemas do livro A infância do Centauro

Grupo Renascer, da cidade de Planaltino

Grupo Concriz recitando poemas do livro Roseiral

Grupo Concriz, da cidade de Maracás

José Inácio Vieira de Melo assistindo recital

Plateia - Clube Social Planaltinense lotado

JIVM e Edmar Vieira

José Inácio Vieira de Melo

Elizeu Moreira, Zeca Braga, Vitor Nascimento, JIVM, Edmar Vieira e Renê Silva

Zeca Braga e esposa e JIVM

Grupo Concriz e Grupo Renascer

terça-feira, 20 de abril de 2010

JIVM - CÂNTICO PARA GABRIEL


Hoje, 20 de abril, meu filho caçula, Gabriel Inácio, está completando três anos. Para mim, é uma imensa alegria! Celebro essa data com um cântico dedicado ao meu pequeno príncipe de cabelos encaracolados. Luz em sua vida!!!
JIVM


CÂNTICO PARA GABRIEL
Para Gabriel Inácio Soglia de Melo


As portas se abrem e contigo, Gabriel,
chega a luz de um novo dia – um novo tempo.
Só sei dizer, Gabriel, dessa luz dos teus olhos
que é tão radiante quanto o clarão do sol.

As promessas do teu sorriso são meu acalanto.
Tanta pureza que até a tua sombra brilha.
E, atrás de ti, Gabriel, a natureza canta!
E tudo, neste momento, é pleno e plano.

Gabriel, o infinito soluça, em mim, de alegria!
Festejo a tua presença dedilhando minha lira,
soltando estes versos para a imensidão.
Gratidão, Gabriel, é o que sinto. Gratidão.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

segunda-feira, 19 de abril de 2010

ROSEIRAL: LANÇAMENTO EM SALVADOR, NA ALB

Fotos: Ricardo Prado
Foto em que Ricardo aparece: Lis Gomes

O lançamento de meu livro Roseiral foi um belo momento. Aconteceu na Academia de Letras da Bahia, em 16 de abril de 2010, dia de meu aniversário de 42 anos. O evento contou com a participação especialíssima do Grupo Concriz, da cidade de Maracás, que fez um recital com poemas do Roseiral. Vários amigos e escritores estiveram presentes. Minha mãe, Inácia Rodrigues; meu irmão caçula, Aloísio Júnior; sua esposa, Gil; e meu sobrinho, Aloísio José; vieram de Alagoas para celebrar esse momento especial comigo. Claro que lá estavam meus filhos, Moisés e Gabriel, e minha mulher, Linda Soglia. Claro que estavam meus amigos/irmãos Ricardo e Gabriel. E Lis Gomes, esposa de Gabriel e minha amiga, que organizou primorosamente o simples e saboroso coquetel. Agradeço a todos que compareceram e curtiram comigo o lançamento de meu novo livro e o meu aniversário. Um agradecimento especial para Edson Barbosa e para Gabriel Gomes. Agora, vejamos alguns registros do evento.


Marcelo, do Grupo Concriz, recitando o poema Transmutação

Ailana recitando um poema do Roseiral

Grupo Concriz recitando o poema Eu queria ser Elizeu Moreira Paranaguá

Amigos. Elizeu Moreira Paranaguá (de camisa listrada)

Ruy Espinheira Filho, José Inácio Vieira de Melo e Florisvaldo Mattos

Elizeu Moreira Paranaguá, Bárbara e JIVM

Vitor Nascimento Sá e Edivaldo Boaventura

Kátia Borges e José Inácio Vieira de Melo

Lima Trindade e JIVM

Gabriel Inácio Soglia de Melo

Carlos Moisés, Inácia Rodrigues de Santana e Aloísio José

Linda Soglia e Lis Gomes

Ricardo Prado, JIVM e Gabriel Gomes

JIVM e Grupo Concriz (Aleandro, Marcelo, Ailana, JIVM, Ivana, Vitor e Pablo)

Lis, Gabriel, Linda, Gabrielzinho, JIVM, Inácia, Gil e Moisés.
Sentados: Aloísio Júnior e Aloísio José (Lulu)

FLORISVALDO MATTOS, UMA POESIA QUE TRANSCENDE O TEMPO

Por Cid Seixas

Foto: Ricardo Prado
Florisvaldo Mattos

Meu primeiro alumbramento com a poesia de Florisvaldo Mattos se deu cerca de dez anos depois da publicação do surpreendente Reverdor. Surpreendente porque, ao ter contato com o livro de poesia de Florisvaldo Mattos, tomei conhecimento de outros livros publicados na Bahia dos anos sessenta.
Descobri também a geração de Godofredo e Carvalho Filho, pioneiros da modernidade na Bahia, ao tempo em que fui tomado pelo espanto diante das obras de dois novos poetas revelados em livro nos meados dos anos sessenta; os excelentes Florisvaldo Mattos e José Carlos Capinan. Secundarista do Colégio da Bahia, chegado do interior, passei a estagiar em jornais e emissoras de rádio para ter meu próprio dinheirinho de estudante.Foi através das obrigações da redação dos Diários Associados, como repórter de setor, encarregado de cobrir a área cultural, que conheci, mais de perto, o nome de Florisvaldo Mattos, então diretor da sucursal do Jornal do Brasil, e o nome de Capinan, poeta do tropicalismo. Mas em seguida veio o entusiasmo ao reconhecer que estes dois intelectuais, já então respeitados, eram autores de dois livros que seriam marcantes para a minha geração, Reverdor, de Florisvaldo, e Inquisitorial, de Capinan.
Vivendo os anos de engajamento da juventude estudantil, tomei o livro de Capinan como cartilha, soletrada como forma de oposição ao regime direitista vigente; e, confuso aprendiz dos segredos da palavra, fiquei ser saber como incluir a poesia de Florisvaldo Mattos no espaço do modernismo. Ainda identificando a modernidade com o poema sem eira nem beira, sem sela e sem cabresto, sem rima e sem medida, não sabia como compreender a rigorosa “escritura em pedra” deste poeta moderno e de feição clássica.
Pensava então que a poética instaurada pela geração de 45 era um retrocesso. Pensava também que o parnasianismo já era, que Olavo Bilac era uma besta e que nós estávamos com a verdade, única, porque nossa. Como então compreender o fascínio, ambíguo, incômodo, porque me espantava, diante do “galope amarelo” ou da “maquina de alvura sonora”, que aquela poesia que não me parecia, caracteristicamente, modernista provocava em mim?
Arrastado pela força e pelo mistério da palavra poética, passei a contemplar, com um respeito, quase religioso, que as coisas desconhecidas ou não compreendidas nos provocam, aquela “sonora arquitetura”. E graças ao espanto inaugural que a poesia impõe, pude principiar a compreender coisas que não compreendia.
Assim, em lugar de falar da obra de Florisvaldo Mattos como alguém que se dedica à crítica literária, abdico ao trono analítico – no qual muitos se sentam, ostentando o higiênico papel de críticos, – para falar de surpresas e de incertezas que são a pedra de toque da mais contrita leitura do texto literário.
Assim, que me seja permitido falar de lembranças; lembranças da descoberta sempre renovada dessa poesia que hoje nos traz a esta sala.
Foi mais ou menos naqueles passados dias dos anos setenta que conheci o movimento Armorial de Pernambuco, liderado por Ariano Suassuna, resultante da fusão de uma escrita, de uma pintura e de uma música embebidas em raízes da terra, mas ao mesmo tempo universalizadas pelo rigor clássico e erudito.
No esforço de compreender a poesia de Florisvaldo, através do confronto com a fusão do telúrico com o erudito, proposta por Suassuna, publiquei na página 4 do jornal A Tarde, de 24 de março de 75, um artigo intitulado “O armorial dos três poetas”. Era uma forma de explicar como uma poesia recorrente às frondosas matas do cacau e às pedras da terra gasta, não a terra desolada de Eliot, mas a terra ressequida dos nossos sertões; era uma forma de explicar a fusão desses elementos, tão nossos e tão palpáveis, com o rigor de uma escrita que não prescinde da experiência acumulada, ou do aprendizado clássico.Aqui, agora, ouso arriscar uma outra comparação da poesia de Florisvaldo Mattos com a obra esplendorosa de Sosígenes Costa. Não seria por acaso a admiração manifesta do poeta grapiúna de hoje pelo poeta grapiúna de ontem um indício de identidade?Curiosamente, apesar do poema Iararana ser, em muitos aspectos, comparável ao Cobra Norato, que colocou Raul Bopp como figura importante do modernismo, Sosígenes entra na História da Literatura Brasileira apenas como um poeta simbolista. Sua importância como modernista é triunfalmente desconhecida pelos olhos eruditos do centro-sul. Aqueles olhos cujas mãos que escreveram a história.
A aproximação dos torneios verbais da escrita de Florisvaldo Mattos com a de Sosígenes ou de outros poetas simbolistas e parnasianos é uma tentação ao leitor. Anos atrás, relacionava-se sua domação de pedras com a arquitetura poemática de João Cabral de Melo Neto e de outras vozes pós 45. Mas se evitava uma aproximação com o parnasianismo, movimento que foi injustamente massacrado pelos pontas-de-lança de 22, como forma de afirmação do novo através da desqualificação do velho.
Assim, aproximar um poeta brasileiro moderno dos poetas parnasianos pareceria pura provocação. O mesmo não ocorreu, por exemplo, em Portugal. Fernando Pessoa, considerado por Roman Jakobson como síntese da modernidade presente nos grandes artistas europeus do século XX, sustenta o seu salto em direção ao futuro no declarado diálogo com o passado e com os fantasmas que assombram os velhos sobrados da memória.Foi esta capacidade de Pessoa de transitar entre tradição e ruptura que levou o crítico lusitano Arnaldo Saraiva, nos dois volumes do livro O modernismo português e o modernismo brasileiro, a buscar em Olavo Bilac raízes do elaborado engenho formal de Fernando Pessoa. Convém lembrar que, na sua época, Bilac foi o poeta brasileiro de maior audiência em Portugal, o que justifica a possível influência.
E nada disso desqualificou a poesia de Pessoa; mesmo perante os inseguros vanguardistas brasileiros. O seu valor é intrínseco. Assim também ocorre com todo poeta.
Por que, então, não considerarmos o entrelugar do verso de Florisvaldo Mattos? Porque situá-lo descarnado das leituras e influências que se entremostram, que se velam e revelam na sintaxe do verso?
Florisvaldo Mattos não temeu escandir sua arte nos limites do soneto, mesmo quando os poetas que se queriam modernos, a qualquer custo, estigmatizavam as jóias de quatorze pedras preciosas.
Desse modo, o metro fixo de dez pés emprestou seu ritmo inconfundível aos versos brancos do cantor das tropas “conduzindo cacau para Água Preta”.
Se no citado já artigo de 1975 procurávamos compreender a féerica arquitetura da “fábula civil sonhada”, vinte anos mais tarde, no artigo intitulado “Domação da palavra”, publicado na coluna Leitura Crítica, do jornal A Tarde (de 15 de abril de 1996), voltamos à poética de Florisvaldo Mattos, quando do lançamento de A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior.
Nesse novo texto, lembramos que o primeiro livro individual do poeta trazia uma seleção rigorosa e circunscrita a um mesmo tema, o que podia ser entendido como evidência do completo domínio da poesia pelo autor que ali fazia seu primeiro concerto solo. Nesse bem cuidado volume, com ilustrações de Calasans Neto, o autor dizia: “Os poemas deste livro – escritos de 1955 a 1963 – foram escolhidos pelo autor, para publicação, tendo em vista uma unidade temática de base agrária.”
Tal escolha fez com que Florisvaldo passasse a ser visto como um poeta do campo, não faltando as comparações com o Virgílio das Georgicas e com outros poetas universais. Mas a sua obra obedece a duas grandes vertentes; essa primeira, onde o elemento telúrico define a natureza do canto, e uma outra, citadina ou cosmopolita, que amplia e desenvolve o alcance de uma voz do interior.
A natureza do canto deste poeta tem de fato a marca da grei: Água Preta, Uruçuca, Itabuna, enfim, as terras do sem fim da Nação Grapiúna.
Foi esse vínculo primeiro do poeta com a região, suas roças adubadas com o sangue dos homens de aluguel e os sonhos desfeitos, que deu à sua voz o selo de compromisso com o Homem. Num momento em que o engajamento partidário era o sedutor caminho encontrado por muitos escritores e artistas, o compromisso humanístico e – digamos – telúrico de Florisvaldo Mattos traçou a arquitetura fulgurante da sua escrita, em torno da qual aqui estamos reunidos.


REFERÊNCIAS:

MATTOS, Florisvaldo. Reverdor; poesia. Xilogravuras de Calasans Neto. Salvador, Macunaíma, 1965.
MATTOS, Florisvaldo. A caligrafia do soluço & poesia anterior. Salvador, Fundação Casa de Jorge Amado / Copene, 1996, 180 p.
SARAIVA, Arnaldo. O modernismo brasileiro e o modernismo português; subsídios para o seu estudo e para a história das suas relações. Volume I. Porto, s. ed., 1986, 336 p.
SARAIVA, Arnaldo. O modernismo brasileiro e o modernismo português; subsídios para o seu estudo e para a história das suas relações. Volume II: Documentos dispersos. Porto, s. ed., 1986, 336 p.


Texto lido durante o evento Encontros Literários, realizado na Academia de Letras da Bahia, no dia 16 de abril de 2010.

JOSÉ INÁCIO: UM HIERÓGLIFO QUE DÁ VOZ AO SILÊNCIO

Por Cid Seixas

Foto: Ricardo Prado
José Inácio Vieira de Melo

De acordo com a programação deste evento, a minha intervenção foi prevista para secundar a exposição da professora Eliana Mara, que já escreveu, por mais de uma vez, e com fecunda propriedade, sobre a poesia de José Inácio Vieira de Melo. Diante da primazia da fala de Eliana Mara, optei por ser bem mais breve do que na primeira intervenção.
Quando fui convidado para participar desta mesa de poesia, na qual os centros constelares são o engenho de Florisvaldo Mattos e a arte de José Inácio Vieira de Melo, confesso que achei temerária e desproporcional a presença de uma nova voz, há pouco tempo ainda desconhecida, ao lado da figura respeitada de Florisvaldo Mattos.
Isso porque eu era um completo ignorante das artes e dos apartes de Inácio, vivente das Alagoas retirado cá pras bandas da Bahia. Temia que a poesia solar de Florisvaldo Mattos projetasse sombra sobre o outro lado. Mas depois de uma primeira leitura, ainda de forma ligeira e transversal, de alguns versos de Inácio Vieira de Melo, vi que não estava diante de um simples iniciante dos caminhos da escrita, mas de um poeta, com pleno direito de se fazer ouvir.
Justifica-se, portanto, a presença do alagoano ao lado do grapiúna. Na verdade, são dois sóis que brilham em pontos diversos e com intensidades múltiplas e singulares.
Curiosamente, os temas dos dois poetas se afastam e se achegam.
A Espanha, entremeada na poesia de Florisvaldo Mattos, aparece em forma de “Bodas de sangue” no verso de José Inácio.
Se, no “Soneto Rural” do livro Reverdor, Florisvaldo recolhe “pastoral envelhecida / ao som da flauta”, por sua vez, José Inácio, não mais em forma de soneto, mas através do poema livre nominado “Rural”, anuncia: “Eu vou pra roça, ajudar o dia amanhecer (...) / e sentir a chuva de leite em meus olhos.”
“Eu vou pra roça, lá o documento a palavra.”
Este verso que fecha a porteira do poema “Rural” abre para nós uma encruzilhada na qual escolho dois caminhos de significância. No primeiro, o poeta retoma o valor moral de um compromisso assumido nos tempos de antanho. Na roça, não é preciso firmar escritura para manter a palavra. O documento é o próprio sujeito. Ou: o homem é a palavra; e a palavra é o homem.
Observe-se que ao criar uma ambivalência para a expressão escritura, aqui tratada como documento, mas que remete também à arte da escrita, estamos tão somente explorando as possibilidades deste verso de José Inácio: “Eu vou pra roça, lá o documento é a palavra.”Vejam a ressonância árcade do sentido. Lembre-se que os poetas do século XVIII, cansados da empolada erudição neoclássica dos séculos anteriores, especialmente no maneirismo, contraditoriamente, elegeram o campo como espaço das suas elucubrações poéticas. Se o ruído vulgar das cidades, apinhadas de gente confusa, não permitia o medrar da palavra, plena de som e de sentido, a figuração do campo assegura o fluir da poesia no sopro do vento, no canto das aves, na calma dos dias esquecidos do relógio e medidos somente pela chegada e pela partida do sol e da lua.
Ora, o verso do catingueiro Inácio insiste: “Eu vou pra roça, lá o documento é a palavra.” Se na cidade são os documentos que valem em lugar do homem, os debêntures, as letras de câmbio, os títulos legais; no campo, podemos viver esquecidos de toda esta parafernália infernal. Na roça o homem é a sua palavra.
E aqui estamos no campo da palavra poética, a linguagem como morada do ser, na concepção de Heidegger. Ou o versículo de João: “No princípio era o verbo”. A palavra divina constrói o mundo, a partir do nada. A palavra poética constrói o homem, a partir do sentido. A frase “o documento é a palavra” significa também: o que importa é a palavra, seu som, seu ritmo, seu sentido, sua poesia.
Eis porque vale a pena aceitar o convite do catingueiro Inácio e ir para a roça montado na garupa do seu cavalo Centauro. No seu mundo rural, enquanto ele sente a chuva de leite nos olhos, nós podemos sentir os respingos da poesia das suas palavras.
E que não se pense que a ausência dos apetrechos que entopem, atulham as casas, as ruas, as lojas e as cidades torna o campo um lugar ermo onde se vive a esmo. Não. No seu “Registro da fala do silêncio” o poeta Vieira de Melo ensina que o silêncio “é um hieroglífico poema”. Ou, podemos dizer, para concluir, que o poema é um hieróglifo que dá voz ao silêncio.


BIBLIOGRAFIA:

MELO, José Inácio Vieira de. A infância do centauro; poesia. Ilustrações de Juraci Dórea. São Paulo, Escrituras, 2007, 136 p.
MELO, José Inácio Vieira de. Roseiral; poesia. Ilustrações de Daniel Biléu. São Paulo, Escrituras, 2010, 108 p.
MELO, José Inácio Vieira de. Cavaleiro de fogo; blog. http://jivmcavaleirodefogo.blogspot.com/

Texto lido durante o evento Encontros Literários, realizado na Academia de Letras da Bahia, no dia 16 de abril de 2010.

ENCONTROS LITERÁRIOS NA ALB - FLORISVALDO MATTOS & JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


Encontros Literários na ALB é uma atividade do Ponto de Cultura da Academia de Letras da Bahia. Trata-se de bate-papos com escritores, com a leitura e discussão de textos previamente selecionados, objetivando a aproximação do público leitor com autores baianos, no oferecimento de uma visão panorâmica de nossa literatura atual. Os encontros irão de set/2009 a dez/2011.
O Encontro Literário com os poetas aprilinos Florisvaldo Mattos e José Inácio Vieira de Melo aconteceu em 16 de abril de 2010, dia do aniversário de José Inácio. Logo em seguida, aconteceu o lançamento do livro Roseiral, também de JIVM. Participaram como comentadores das obras dos poetas, os críticos e escritores Cid Seixas e Eliana Mara Chiossi. O projeto é coordenado pelo poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos. As fotos abaixo, do Encontro Literário JIVM & FLORI, são do fotógrafo Ricardo Prado.


Eliana Mara, Florisvaldo Mattos, Cajazeira Ramos, JIVM e Cid Seixas

Florisvaldo Mattos, Luís Antonio Cajazeira Ramos e José Inácio Vieira de Melo

Cid Seixas

Eliana Mara Chiossi

Florisvaldo Mattos

José Inácio Vieira de Melo

Plateia do Encontros Literários na ALB

Eliana Mara, Florisvaldo Mattos, Cajazeira Ramos, JIVM e Cid Seixas

segunda-feira, 12 de abril de 2010

CONVITE: LANÇAMENTO DE ROSEIRAL NA ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA, EM SALVADOR



Caros amigos, queridas amigas, convido-os para o lançamento de meu livro Roseiral, na Academia de Letras da Bahia, em Salvador. O evento vai acontecer na próxima sexta-feira, dia 16 de abril – uma data muito especial para mim: o dia do meu aniversário. Pois é, completarei 42 anos. E tenho motivos de sobra para comemorar. Depois de um ciclo de cinco lançamentos em cidades do Vale do Jiquiriçá. Agora, chegou a vez de Salvador.


O lançamento de Roseiral fará parte de uma programação que inclui o projeto Encontros Literários, do qual participarei ao lado do grande poeta Florisvaldo Mattos. Luis Antonio Cajazeira Ramos, coordenador do projeto, convidou os críticos/escritores Eliana Mara Chiossi e Cid Seixas para comentarem poemas meus e de Florisvaldo. Depois dessa homenagem é que acontecerá o lançamento propriamente dito. Terei o prazer de contar com a participação especialíssima de seis integrantes do Grupo Concriz, que irão Fazer um recital com poemas do Roseiral. O evento vai ser registrado pelo fotógrafo Ricardo Prado. Conto com a presença de todas as pessoas que gostam da minha poesia. Até lá.

JIVM

quinta-feira, 8 de abril de 2010

PROGRAMA LEITURAS - ENTREVISTA COM JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO



Programa Leituras – TV Senado

Maurício Melo Júnior entrevista o poeta
José Inácio Vieira de Melo

A entrevista vai ao ar nos seguintes dias:
11/04 (domingo) – às 08h e às 20h30
17/04 (sábado) – às 09h30 e às 19h30

A partir do dia 13/04 a entrevista estará disponível
na página da TV Senado: www.senado.gov.br/tv

quinta-feira, 1 de abril de 2010

PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS 2010



O projeto Uma Prosa Sobre Versos chega ao terceiro ano. O que é maravilhoso. A cidade de Maracás consolida-se como importante centro cultural do território do Vale do Jiquiriçá e de todo estado da Bahia. Vários escritores baianos passaram por Maracás nos dois anos que se passaram, desde o poeta Cleberton Santos, que abriu o projeto em março de 2008, até Adriano Eysen, que fechou a programação de 2009. Também participaram do projeto nomes como Roberval Pereyr, Rita Santana, Damário Dacruz, Kátia Borges, Ruy Espinheira Filho e Eliana Mara Chiossi, entre outros.
Um dos momentos mais emocionantes de cada noite de poesia do projeto é quando o Grupo Concriz abre o evento com um recital com poemas da obra do poeta convidado. Não há quem não se emocione. Essa turma do bem e da beleza, composta por 30 jovens e crianças, sem sombra de dúvidas, faz a diferença e já é um referencial na Bahia. Sua influência começa a germinar novos grupos, como Os Verborrágicos, do Colégio Estadual Edivaldo Boaventura, e Fadas Indelicadas, ambos em Maracás, e também o Grupo Renascer, na cidade de Planaltino.
Até 2009, participaram apenas poetas baianos ou radicados na Bahia. Agora, o projeto abre as portas para poetas de outros estados, e é assim que via receber a amazonense Astrid Cabral e a gaúcha Helena Ortiz, ambas radicadas no Rio de Janeiro, assim como o poeta Wilmar Silva, mineiro que agita a cena poética de Belo Horizonte.
Além dos poetas das regiões Norte, Sul e Sudeste, participarão os poetas baianos Jorge de Souza Araújo, da cidade de Ilhéus, Leonam Oliveira e Maurício Bastos Almeida, de Jequié, e Myriam Fraga, de Salvador. Myriam, dama da poesia baiana e diretora executiva da Fundação Casa de Jorge Amado, encerrará as atividades de 2010, em outubro, em grande estilo.
Embora seja o curador do projeto, fui convidado por Edmar Vieira, diretor de cultura do município e coordenador de Uma Prosa Sobre Versos, para fazer o evento de abertura com o lançamento do meu livro Roseiral. Para mim, que acompanho o projeto desde sua gênese, é motivo de muita satisfação. E, desde já, convido a todos para participarem das sete noites de poesia e encantamento que serão realizadas de abril a outubro no Auditório Municipal de Maracás, que se transforma num templo de poesia. E Maracás, conhecida como Cidade das Flores, passa a ser, também, a Cidade da Poesia.


PROGRAMAÇÃO DO PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS 2010
MARACÁS - BAHIA

8 de abril – José Inácio Vieira de Melo (Alagoas / Bahia)

7 de maio – Leonam Oliveira e Maurício Bastos Almeida (Jequié - Bahia)

4 de junho – Jorge de Souza Araujo (Ilhéus - Bahia)

9 de julho – Wilmar Silva (Minas Gerais)

13 de agosto – Helena Ortiz (Rio Grande do Sul / Rio de Janeiro)

3 de setembro – Astrid Cabral (Amazonas / Rio de Janeiro)

8 de outubro – Myriam Fraga (Salvador - Bahia)