segunda-feira, 26 de abril de 2010

ROSEIRAL: LANÇAMENTO EM PLANALTINO

Fotos: Ricardo Prado

No dia 7 de abril, lancei meu Roseiral na cidade de Planaltino. Saí de Salvador com o fotógrafo Ricardo Prado e com o poeta Elizeu Moreira Paranaguá, meus amigos estimados. Chegamos em Planaltino por volta das 18 horas. O evento começou por volta das 19h 30. O Clube Social Planaltinense estava lotado. Evento organizado por meu amigo Edmar Vieira é sempre assim. Então, entrou o Grupo Renascer, da cidade de Planaltino, e recitou poemas do livro A infância do Centauro. Depois foi a vez do Grupo Concriz, de Maracás, que recitou poemas do Roseiral. Foi uma beleza de evento. Logo no início, Marla, uma das integrantes do Grupo Renascer leu apresentou um texto sóbrio sobre o Roseiral. Zeca Braga, o prefeito da cidade, foi uma presença marcante, e relembramos do lançamento do meu segundo livro, Decifração de abismos, em 2002, e Zeca e toda aquela turma boa, Nigueira, Salomé, Renê Silva, Bino e tantos outros, já estavam lá, participando, querendo coisas novas para sua comunidade. Para mim foi uma grande satisfação, voltar a Planaltino e receber uma homenagem tão bonita daquela comunidade. Agradeço ao meu amigo Edmar Vieira, agradeço ao Zeca Braga, à Marla e a todos que contribuíram para o êxito do evento.

Edmar Vieira

Marla apresentando texto sobre o livro Roseiral

Grupo Renascer recitando poemas do livro A infância do Centauro

Grupo Renascer, da cidade de Planaltino

Grupo Concriz recitando poemas do livro Roseiral

Grupo Concriz, da cidade de Maracás

José Inácio Vieira de Melo assistindo recital

Plateia - Clube Social Planaltinense lotado

JIVM e Edmar Vieira

José Inácio Vieira de Melo

Elizeu Moreira, Zeca Braga, Vitor Nascimento, JIVM, Edmar Vieira e Renê Silva

Zeca Braga e esposa e JIVM

Grupo Concriz e Grupo Renascer

terça-feira, 20 de abril de 2010

JIVM - CÂNTICO PARA GABRIEL


Hoje, 20 de abril, meu filho caçula, Gabriel Inácio, está completando três anos. Para mim, é uma imensa alegria! Celebro essa data com um cântico dedicado ao meu pequeno príncipe de cabelos encaracolados. Luz em sua vida!!!
JIVM


CÂNTICO PARA GABRIEL
Para Gabriel Inácio Soglia de Melo


As portas se abrem e contigo, Gabriel,
chega a luz de um novo dia – um novo tempo.
Só sei dizer, Gabriel, dessa luz dos teus olhos
que é tão radiante quanto o clarão do sol.

As promessas do teu sorriso são meu acalanto.
Tanta pureza que até a tua sombra brilha.
E, atrás de ti, Gabriel, a natureza canta!
E tudo, neste momento, é pleno e plano.

Gabriel, o infinito soluça, em mim, de alegria!
Festejo a tua presença dedilhando minha lira,
soltando estes versos para a imensidão.
Gratidão, Gabriel, é o que sinto. Gratidão.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

segunda-feira, 19 de abril de 2010

ROSEIRAL: LANÇAMENTO EM SALVADOR, NA ALB

Fotos: Ricardo Prado
Foto em que Ricardo aparece: Lis Gomes

O lançamento de meu livro Roseiral foi um belo momento. Aconteceu na Academia de Letras da Bahia, em 16 de abril de 2010, dia de meu aniversário de 42 anos. O evento contou com a participação especialíssima do Grupo Concriz, da cidade de Maracás, que fez um recital com poemas do Roseiral. Vários amigos e escritores estiveram presentes. Minha mãe, Inácia Rodrigues; meu irmão caçula, Aloísio Júnior; sua esposa, Gil; e meu sobrinho, Aloísio José; vieram de Alagoas para celebrar esse momento especial comigo. Claro que lá estavam meus filhos, Moisés e Gabriel, e minha mulher, Linda Soglia. Claro que estavam meus amigos/irmãos Ricardo e Gabriel. E Lis Gomes, esposa de Gabriel e minha amiga, que organizou primorosamente o simples e saboroso coquetel. Agradeço a todos que compareceram e curtiram comigo o lançamento de meu novo livro e o meu aniversário. Um agradecimento especial para Edson Barbosa e para Gabriel Gomes. Agora, vejamos alguns registros do evento.


Marcelo, do Grupo Concriz, recitando o poema Transmutação

Ailana recitando um poema do Roseiral

Grupo Concriz recitando o poema Eu queria ser Elizeu Moreira Paranaguá

Amigos. Elizeu Moreira Paranaguá (de camisa listrada)

Ruy Espinheira Filho, José Inácio Vieira de Melo e Florisvaldo Mattos

Elizeu Moreira Paranaguá, Bárbara e JIVM

Vitor Nascimento Sá e Edivaldo Boaventura

Kátia Borges e José Inácio Vieira de Melo

Lima Trindade e JIVM

Gabriel Inácio Soglia de Melo

Carlos Moisés, Inácia Rodrigues de Santana e Aloísio José

Linda Soglia e Lis Gomes

Ricardo Prado, JIVM e Gabriel Gomes

JIVM e Grupo Concriz (Aleandro, Marcelo, Ailana, JIVM, Ivana, Vitor e Pablo)

Lis, Gabriel, Linda, Gabrielzinho, JIVM, Inácia, Gil e Moisés.
Sentados: Aloísio Júnior e Aloísio José (Lulu)

FLORISVALDO MATTOS, UMA POESIA QUE TRANSCENDE O TEMPO

Por Cid Seixas

Foto: Ricardo Prado
Florisvaldo Mattos

Meu primeiro alumbramento com a poesia de Florisvaldo Mattos se deu cerca de dez anos depois da publicação do surpreendente Reverdor. Surpreendente porque, ao ter contato com o livro de poesia de Florisvaldo Mattos, tomei conhecimento de outros livros publicados na Bahia dos anos sessenta.
Descobri também a geração de Godofredo e Carvalho Filho, pioneiros da modernidade na Bahia, ao tempo em que fui tomado pelo espanto diante das obras de dois novos poetas revelados em livro nos meados dos anos sessenta; os excelentes Florisvaldo Mattos e José Carlos Capinan. Secundarista do Colégio da Bahia, chegado do interior, passei a estagiar em jornais e emissoras de rádio para ter meu próprio dinheirinho de estudante.Foi através das obrigações da redação dos Diários Associados, como repórter de setor, encarregado de cobrir a área cultural, que conheci, mais de perto, o nome de Florisvaldo Mattos, então diretor da sucursal do Jornal do Brasil, e o nome de Capinan, poeta do tropicalismo. Mas em seguida veio o entusiasmo ao reconhecer que estes dois intelectuais, já então respeitados, eram autores de dois livros que seriam marcantes para a minha geração, Reverdor, de Florisvaldo, e Inquisitorial, de Capinan.
Vivendo os anos de engajamento da juventude estudantil, tomei o livro de Capinan como cartilha, soletrada como forma de oposição ao regime direitista vigente; e, confuso aprendiz dos segredos da palavra, fiquei ser saber como incluir a poesia de Florisvaldo Mattos no espaço do modernismo. Ainda identificando a modernidade com o poema sem eira nem beira, sem sela e sem cabresto, sem rima e sem medida, não sabia como compreender a rigorosa “escritura em pedra” deste poeta moderno e de feição clássica.
Pensava então que a poética instaurada pela geração de 45 era um retrocesso. Pensava também que o parnasianismo já era, que Olavo Bilac era uma besta e que nós estávamos com a verdade, única, porque nossa. Como então compreender o fascínio, ambíguo, incômodo, porque me espantava, diante do “galope amarelo” ou da “maquina de alvura sonora”, que aquela poesia que não me parecia, caracteristicamente, modernista provocava em mim?
Arrastado pela força e pelo mistério da palavra poética, passei a contemplar, com um respeito, quase religioso, que as coisas desconhecidas ou não compreendidas nos provocam, aquela “sonora arquitetura”. E graças ao espanto inaugural que a poesia impõe, pude principiar a compreender coisas que não compreendia.
Assim, em lugar de falar da obra de Florisvaldo Mattos como alguém que se dedica à crítica literária, abdico ao trono analítico – no qual muitos se sentam, ostentando o higiênico papel de críticos, – para falar de surpresas e de incertezas que são a pedra de toque da mais contrita leitura do texto literário.
Assim, que me seja permitido falar de lembranças; lembranças da descoberta sempre renovada dessa poesia que hoje nos traz a esta sala.
Foi mais ou menos naqueles passados dias dos anos setenta que conheci o movimento Armorial de Pernambuco, liderado por Ariano Suassuna, resultante da fusão de uma escrita, de uma pintura e de uma música embebidas em raízes da terra, mas ao mesmo tempo universalizadas pelo rigor clássico e erudito.
No esforço de compreender a poesia de Florisvaldo, através do confronto com a fusão do telúrico com o erudito, proposta por Suassuna, publiquei na página 4 do jornal A Tarde, de 24 de março de 75, um artigo intitulado “O armorial dos três poetas”. Era uma forma de explicar como uma poesia recorrente às frondosas matas do cacau e às pedras da terra gasta, não a terra desolada de Eliot, mas a terra ressequida dos nossos sertões; era uma forma de explicar a fusão desses elementos, tão nossos e tão palpáveis, com o rigor de uma escrita que não prescinde da experiência acumulada, ou do aprendizado clássico.Aqui, agora, ouso arriscar uma outra comparação da poesia de Florisvaldo Mattos com a obra esplendorosa de Sosígenes Costa. Não seria por acaso a admiração manifesta do poeta grapiúna de hoje pelo poeta grapiúna de ontem um indício de identidade?Curiosamente, apesar do poema Iararana ser, em muitos aspectos, comparável ao Cobra Norato, que colocou Raul Bopp como figura importante do modernismo, Sosígenes entra na História da Literatura Brasileira apenas como um poeta simbolista. Sua importância como modernista é triunfalmente desconhecida pelos olhos eruditos do centro-sul. Aqueles olhos cujas mãos que escreveram a história.
A aproximação dos torneios verbais da escrita de Florisvaldo Mattos com a de Sosígenes ou de outros poetas simbolistas e parnasianos é uma tentação ao leitor. Anos atrás, relacionava-se sua domação de pedras com a arquitetura poemática de João Cabral de Melo Neto e de outras vozes pós 45. Mas se evitava uma aproximação com o parnasianismo, movimento que foi injustamente massacrado pelos pontas-de-lança de 22, como forma de afirmação do novo através da desqualificação do velho.
Assim, aproximar um poeta brasileiro moderno dos poetas parnasianos pareceria pura provocação. O mesmo não ocorreu, por exemplo, em Portugal. Fernando Pessoa, considerado por Roman Jakobson como síntese da modernidade presente nos grandes artistas europeus do século XX, sustenta o seu salto em direção ao futuro no declarado diálogo com o passado e com os fantasmas que assombram os velhos sobrados da memória.Foi esta capacidade de Pessoa de transitar entre tradição e ruptura que levou o crítico lusitano Arnaldo Saraiva, nos dois volumes do livro O modernismo português e o modernismo brasileiro, a buscar em Olavo Bilac raízes do elaborado engenho formal de Fernando Pessoa. Convém lembrar que, na sua época, Bilac foi o poeta brasileiro de maior audiência em Portugal, o que justifica a possível influência.
E nada disso desqualificou a poesia de Pessoa; mesmo perante os inseguros vanguardistas brasileiros. O seu valor é intrínseco. Assim também ocorre com todo poeta.
Por que, então, não considerarmos o entrelugar do verso de Florisvaldo Mattos? Porque situá-lo descarnado das leituras e influências que se entremostram, que se velam e revelam na sintaxe do verso?
Florisvaldo Mattos não temeu escandir sua arte nos limites do soneto, mesmo quando os poetas que se queriam modernos, a qualquer custo, estigmatizavam as jóias de quatorze pedras preciosas.
Desse modo, o metro fixo de dez pés emprestou seu ritmo inconfundível aos versos brancos do cantor das tropas “conduzindo cacau para Água Preta”.
Se no citado já artigo de 1975 procurávamos compreender a féerica arquitetura da “fábula civil sonhada”, vinte anos mais tarde, no artigo intitulado “Domação da palavra”, publicado na coluna Leitura Crítica, do jornal A Tarde (de 15 de abril de 1996), voltamos à poética de Florisvaldo Mattos, quando do lançamento de A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior.
Nesse novo texto, lembramos que o primeiro livro individual do poeta trazia uma seleção rigorosa e circunscrita a um mesmo tema, o que podia ser entendido como evidência do completo domínio da poesia pelo autor que ali fazia seu primeiro concerto solo. Nesse bem cuidado volume, com ilustrações de Calasans Neto, o autor dizia: “Os poemas deste livro – escritos de 1955 a 1963 – foram escolhidos pelo autor, para publicação, tendo em vista uma unidade temática de base agrária.”
Tal escolha fez com que Florisvaldo passasse a ser visto como um poeta do campo, não faltando as comparações com o Virgílio das Georgicas e com outros poetas universais. Mas a sua obra obedece a duas grandes vertentes; essa primeira, onde o elemento telúrico define a natureza do canto, e uma outra, citadina ou cosmopolita, que amplia e desenvolve o alcance de uma voz do interior.
A natureza do canto deste poeta tem de fato a marca da grei: Água Preta, Uruçuca, Itabuna, enfim, as terras do sem fim da Nação Grapiúna.
Foi esse vínculo primeiro do poeta com a região, suas roças adubadas com o sangue dos homens de aluguel e os sonhos desfeitos, que deu à sua voz o selo de compromisso com o Homem. Num momento em que o engajamento partidário era o sedutor caminho encontrado por muitos escritores e artistas, o compromisso humanístico e – digamos – telúrico de Florisvaldo Mattos traçou a arquitetura fulgurante da sua escrita, em torno da qual aqui estamos reunidos.


REFERÊNCIAS:

MATTOS, Florisvaldo. Reverdor; poesia. Xilogravuras de Calasans Neto. Salvador, Macunaíma, 1965.
MATTOS, Florisvaldo. A caligrafia do soluço & poesia anterior. Salvador, Fundação Casa de Jorge Amado / Copene, 1996, 180 p.
SARAIVA, Arnaldo. O modernismo brasileiro e o modernismo português; subsídios para o seu estudo e para a história das suas relações. Volume I. Porto, s. ed., 1986, 336 p.
SARAIVA, Arnaldo. O modernismo brasileiro e o modernismo português; subsídios para o seu estudo e para a história das suas relações. Volume II: Documentos dispersos. Porto, s. ed., 1986, 336 p.


Texto lido durante o evento Encontros Literários, realizado na Academia de Letras da Bahia, no dia 16 de abril de 2010.

JOSÉ INÁCIO: UM HIERÓGLIFO QUE DÁ VOZ AO SILÊNCIO

Por Cid Seixas

Foto: Ricardo Prado
José Inácio Vieira de Melo

De acordo com a programação deste evento, a minha intervenção foi prevista para secundar a exposição da professora Eliana Mara, que já escreveu, por mais de uma vez, e com fecunda propriedade, sobre a poesia de José Inácio Vieira de Melo. Diante da primazia da fala de Eliana Mara, optei por ser bem mais breve do que na primeira intervenção.
Quando fui convidado para participar desta mesa de poesia, na qual os centros constelares são o engenho de Florisvaldo Mattos e a arte de José Inácio Vieira de Melo, confesso que achei temerária e desproporcional a presença de uma nova voz, há pouco tempo ainda desconhecida, ao lado da figura respeitada de Florisvaldo Mattos.
Isso porque eu era um completo ignorante das artes e dos apartes de Inácio, vivente das Alagoas retirado cá pras bandas da Bahia. Temia que a poesia solar de Florisvaldo Mattos projetasse sombra sobre o outro lado. Mas depois de uma primeira leitura, ainda de forma ligeira e transversal, de alguns versos de Inácio Vieira de Melo, vi que não estava diante de um simples iniciante dos caminhos da escrita, mas de um poeta, com pleno direito de se fazer ouvir.
Justifica-se, portanto, a presença do alagoano ao lado do grapiúna. Na verdade, são dois sóis que brilham em pontos diversos e com intensidades múltiplas e singulares.
Curiosamente, os temas dos dois poetas se afastam e se achegam.
A Espanha, entremeada na poesia de Florisvaldo Mattos, aparece em forma de “Bodas de sangue” no verso de José Inácio.
Se, no “Soneto Rural” do livro Reverdor, Florisvaldo recolhe “pastoral envelhecida / ao som da flauta”, por sua vez, José Inácio, não mais em forma de soneto, mas através do poema livre nominado “Rural”, anuncia: “Eu vou pra roça, ajudar o dia amanhecer (...) / e sentir a chuva de leite em meus olhos.”
“Eu vou pra roça, lá o documento a palavra.”
Este verso que fecha a porteira do poema “Rural” abre para nós uma encruzilhada na qual escolho dois caminhos de significância. No primeiro, o poeta retoma o valor moral de um compromisso assumido nos tempos de antanho. Na roça, não é preciso firmar escritura para manter a palavra. O documento é o próprio sujeito. Ou: o homem é a palavra; e a palavra é o homem.
Observe-se que ao criar uma ambivalência para a expressão escritura, aqui tratada como documento, mas que remete também à arte da escrita, estamos tão somente explorando as possibilidades deste verso de José Inácio: “Eu vou pra roça, lá o documento é a palavra.”Vejam a ressonância árcade do sentido. Lembre-se que os poetas do século XVIII, cansados da empolada erudição neoclássica dos séculos anteriores, especialmente no maneirismo, contraditoriamente, elegeram o campo como espaço das suas elucubrações poéticas. Se o ruído vulgar das cidades, apinhadas de gente confusa, não permitia o medrar da palavra, plena de som e de sentido, a figuração do campo assegura o fluir da poesia no sopro do vento, no canto das aves, na calma dos dias esquecidos do relógio e medidos somente pela chegada e pela partida do sol e da lua.
Ora, o verso do catingueiro Inácio insiste: “Eu vou pra roça, lá o documento é a palavra.” Se na cidade são os documentos que valem em lugar do homem, os debêntures, as letras de câmbio, os títulos legais; no campo, podemos viver esquecidos de toda esta parafernália infernal. Na roça o homem é a sua palavra.
E aqui estamos no campo da palavra poética, a linguagem como morada do ser, na concepção de Heidegger. Ou o versículo de João: “No princípio era o verbo”. A palavra divina constrói o mundo, a partir do nada. A palavra poética constrói o homem, a partir do sentido. A frase “o documento é a palavra” significa também: o que importa é a palavra, seu som, seu ritmo, seu sentido, sua poesia.
Eis porque vale a pena aceitar o convite do catingueiro Inácio e ir para a roça montado na garupa do seu cavalo Centauro. No seu mundo rural, enquanto ele sente a chuva de leite nos olhos, nós podemos sentir os respingos da poesia das suas palavras.
E que não se pense que a ausência dos apetrechos que entopem, atulham as casas, as ruas, as lojas e as cidades torna o campo um lugar ermo onde se vive a esmo. Não. No seu “Registro da fala do silêncio” o poeta Vieira de Melo ensina que o silêncio “é um hieroglífico poema”. Ou, podemos dizer, para concluir, que o poema é um hieróglifo que dá voz ao silêncio.


BIBLIOGRAFIA:

MELO, José Inácio Vieira de. A infância do centauro; poesia. Ilustrações de Juraci Dórea. São Paulo, Escrituras, 2007, 136 p.
MELO, José Inácio Vieira de. Roseiral; poesia. Ilustrações de Daniel Biléu. São Paulo, Escrituras, 2010, 108 p.
MELO, José Inácio Vieira de. Cavaleiro de fogo; blog. http://jivmcavaleirodefogo.blogspot.com/

Texto lido durante o evento Encontros Literários, realizado na Academia de Letras da Bahia, no dia 16 de abril de 2010.

ENCONTROS LITERÁRIOS NA ALB - FLORISVALDO MATTOS & JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


Encontros Literários na ALB é uma atividade do Ponto de Cultura da Academia de Letras da Bahia. Trata-se de bate-papos com escritores, com a leitura e discussão de textos previamente selecionados, objetivando a aproximação do público leitor com autores baianos, no oferecimento de uma visão panorâmica de nossa literatura atual. Os encontros irão de set/2009 a dez/2011.
O Encontro Literário com os poetas aprilinos Florisvaldo Mattos e José Inácio Vieira de Melo aconteceu em 16 de abril de 2010, dia do aniversário de José Inácio. Logo em seguida, aconteceu o lançamento do livro Roseiral, também de JIVM. Participaram como comentadores das obras dos poetas, os críticos e escritores Cid Seixas e Eliana Mara Chiossi. O projeto é coordenado pelo poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos. As fotos abaixo, do Encontro Literário JIVM & FLORI, são do fotógrafo Ricardo Prado.


Eliana Mara, Florisvaldo Mattos, Cajazeira Ramos, JIVM e Cid Seixas

Florisvaldo Mattos, Luís Antonio Cajazeira Ramos e José Inácio Vieira de Melo

Cid Seixas

Eliana Mara Chiossi

Florisvaldo Mattos

José Inácio Vieira de Melo

Plateia do Encontros Literários na ALB

Eliana Mara, Florisvaldo Mattos, Cajazeira Ramos, JIVM e Cid Seixas

segunda-feira, 12 de abril de 2010

CONVITE: LANÇAMENTO DE ROSEIRAL NA ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA, EM SALVADOR



Caros amigos, queridas amigas, convido-os para o lançamento de meu livro Roseiral, na Academia de Letras da Bahia, em Salvador. O evento vai acontecer na próxima sexta-feira, dia 16 de abril – uma data muito especial para mim: o dia do meu aniversário. Pois é, completarei 42 anos. E tenho motivos de sobra para comemorar. Depois de um ciclo de cinco lançamentos em cidades do Vale do Jiquiriçá. Agora, chegou a vez de Salvador.


O lançamento de Roseiral fará parte de uma programação que inclui o projeto Encontros Literários, do qual participarei ao lado do grande poeta Florisvaldo Mattos. Luis Antonio Cajazeira Ramos, coordenador do projeto, convidou os críticos/escritores Eliana Mara Chiossi e Cid Seixas para comentarem poemas meus e de Florisvaldo. Depois dessa homenagem é que acontecerá o lançamento propriamente dito. Terei o prazer de contar com a participação especialíssima de seis integrantes do Grupo Concriz, que irão Fazer um recital com poemas do Roseiral. O evento vai ser registrado pelo fotógrafo Ricardo Prado. Conto com a presença de todas as pessoas que gostam da minha poesia. Até lá.

JIVM

quinta-feira, 8 de abril de 2010

PROGRAMA LEITURAS - ENTREVISTA COM JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO



Programa Leituras – TV Senado

Maurício Melo Júnior entrevista o poeta
José Inácio Vieira de Melo

A entrevista vai ao ar nos seguintes dias:
11/04 (domingo) – às 08h e às 20h30
17/04 (sábado) – às 09h30 e às 19h30

A partir do dia 13/04 a entrevista estará disponível
na página da TV Senado: www.senado.gov.br/tv

quinta-feira, 1 de abril de 2010

PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS 2010



O projeto Uma Prosa Sobre Versos chega ao terceiro ano. O que é maravilhoso. A cidade de Maracás consolida-se como importante centro cultural do território do Vale do Jiquiriçá e de todo estado da Bahia. Vários escritores baianos passaram por Maracás nos dois anos que se passaram, desde o poeta Cleberton Santos, que abriu o projeto em março de 2008, até Adriano Eysen, que fechou a programação de 2009. Também participaram do projeto nomes como Roberval Pereyr, Rita Santana, Damário Dacruz, Kátia Borges, Ruy Espinheira Filho e Eliana Mara Chiossi, entre outros.
Um dos momentos mais emocionantes de cada noite de poesia do projeto é quando o Grupo Concriz abre o evento com um recital com poemas da obra do poeta convidado. Não há quem não se emocione. Essa turma do bem e da beleza, composta por 30 jovens e crianças, sem sombra de dúvidas, faz a diferença e já é um referencial na Bahia. Sua influência começa a germinar novos grupos, como Os Verborrágicos, do Colégio Estadual Edivaldo Boaventura, e Fadas Indelicadas, ambos em Maracás, e também o Grupo Renascer, na cidade de Planaltino.
Até 2009, participaram apenas poetas baianos ou radicados na Bahia. Agora, o projeto abre as portas para poetas de outros estados, e é assim que via receber a amazonense Astrid Cabral e a gaúcha Helena Ortiz, ambas radicadas no Rio de Janeiro, assim como o poeta Wilmar Silva, mineiro que agita a cena poética de Belo Horizonte.
Além dos poetas das regiões Norte, Sul e Sudeste, participarão os poetas baianos Jorge de Souza Araújo, da cidade de Ilhéus, Leonam Oliveira e Maurício Bastos Almeida, de Jequié, e Myriam Fraga, de Salvador. Myriam, dama da poesia baiana e diretora executiva da Fundação Casa de Jorge Amado, encerrará as atividades de 2010, em outubro, em grande estilo.
Embora seja o curador do projeto, fui convidado por Edmar Vieira, diretor de cultura do município e coordenador de Uma Prosa Sobre Versos, para fazer o evento de abertura com o lançamento do meu livro Roseiral. Para mim, que acompanho o projeto desde sua gênese, é motivo de muita satisfação. E, desde já, convido a todos para participarem das sete noites de poesia e encantamento que serão realizadas de abril a outubro no Auditório Municipal de Maracás, que se transforma num templo de poesia. E Maracás, conhecida como Cidade das Flores, passa a ser, também, a Cidade da Poesia.


PROGRAMAÇÃO DO PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS 2010
MARACÁS - BAHIA

8 de abril – José Inácio Vieira de Melo (Alagoas / Bahia)

7 de maio – Leonam Oliveira e Maurício Bastos Almeida (Jequié - Bahia)

4 de junho – Jorge de Souza Araujo (Ilhéus - Bahia)

9 de julho – Wilmar Silva (Minas Gerais)

13 de agosto – Helena Ortiz (Rio Grande do Sul / Rio de Janeiro)

3 de setembro – Astrid Cabral (Amazonas / Rio de Janeiro)

8 de outubro – Myriam Fraga (Salvador - Bahia)

sábado, 27 de março de 2010

JIVM - CÂNTICO DOS CÂNTICOS


Ilustração: Daniel Biléu


CÂNTICO DOS CÂNTICOS


Que as tuas nádegas aventureiras estejam abertas
para o poema em linha reta que te ofereço,
que a minha escrita torta e avessa
chegue linheira na olaria de tua carne
e ardas e ardo neste morno forno
das tuas nádegas tão abundantes.

Das tuas nádegas tão montanhosas
o horizonte é mais macio e a minha linguagem
saboreia o mel do fel que trazes
e de teus olhos gemem os arco-íris
e teu corpo todo é um esplendor, uma assombração
e quanta delícia anunciam teus arrepios
e tuas nádegas aventureiras tão venturosas
são uma tempestade de emoções.

Que idioma mágico que tu inventas
quando me aventuro por tuas nádegas
e me perco profundamente e profundamente
me encontro na plenitude cega que tudo enxerga
e profundamente me encanto cantando uníssono
neste nosso idioma o novo cântico dos cânticos.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Poema do livro Roseiral

domingo, 21 de março de 2010

ENTREVISTA - MARCELO NASCIMENTO



TORMENTO E ÊXTASE – Ao entrar no Auditório Municipal de Maracás para assistir os ensaios do Grupo Concriz, normalmente ouve-se logo a voz tonitruante de MARCELO NASCIMENTO a chamar a atenção: alguém errou o verso que recitava; outro quebrou o ritmo de tal verso; aquele parece estar com fome, pois está recitando sem força. Observações sempre seguidas de uma gargalhada folgazona. Assim é o poeta Marcelo Nascimento, co-diretor do Grupo Concriz, equipe de jovens poetas e recitadores que, desde 2007, realiza recitais em diversas cidades da Bahia. Marcelo nasceu em 1983, em Maracás, onde reside, e trabalha no Instituto de Educação de Maracás. Sobre sua atuação no Grupo Concriz diz “Meu objetivo é fazer com que as pessoas possam sentir algo de diferente e que esse sentimento possa despertar em alguns a paixão que despertou em mim”. E mais “Pretendo continuar gritando versos por aí feito um louco e recrutando novos loucos para essa batalha tão árdua e tão fascinante”. Vamos, então, conhecer um pouco mais sobre esse jovem poeta que vive o tormento e o êxtase da poesia.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – A sua ligação com a poesia é bem recente. Fale como aconteceu. E, a partir daí, qual o espaço que a poesia passou a ocupar em sua vida?

MARCELO NASCIMENTO – Sim, realmente a poesia na minha vida é algo muito novo. Na minha infância e adolescência, tive pouco contato com a literatura. Com a poesia o contato foi ainda menor: somente alguns poemas em livros didáticos, alguns versos soltos de poetas famosos. Mas nada me chamou a atenção a ponto de me despertar algum interesse. Só em 2007, precisamente no lançamento do seu livro, A infância do Centauro, em Maracás, quando ouvi o Grupo Concriz recitando, é que algo me incomodou. Daí em diante, passei a ler alguns poemas. Foi quando conheci Paulo Leminski que percebi que estava sendo tomando pela poesia e, desde então, ela me acompanha, me atormenta. É meu fardo, mas também é meu êxtase e esse é o grande encantamento do qual sou mais uma vítima. Não saberia mais viver sem essa explosão de sentimentos que só a poesia me proporciona.

JIVM – Além de poeta, você atua em uma turma de jovens recitadores, o Grupo Concriz, como coordenador e como uma das vozes de destaque nos recitais. Fale dessa experiência, numa perspectiva pessoal e também de grupo.

MN – Minha história com a poesia está diretamente ligada com o Grupo Concriz e é graças a esse trabalho que desempenho como recitador e um dos coordenadores que tenho a oportunidade de conhecer vários autores e estudar mais profundamente suas obras. O grupo veio me acolher num momento muito difícil da vida e logo se tornou minha família. Hoje, como parte do grupo, vejo o papel social da arte e, consequentemente, do artista. Somos formadores de opinião, nosso compromisso é facilitar o acesso das pessoas à poesia em uma época em que vemos tantos jovens alienados por uma mídia massificadora que impõem à nossa sociedade um processo de imbecilização, com programas que se baseiam na exploração da miséria alheia para manter altos níveis de audiência e de músicas que se dedicam a vulgarizar o sexo, transformando uma relação tão delicada e íntima em algo banal, sem o menor censo de respeito aos nossos ouvidos.

JIVM – Percebe-se que você lê muito. Já selecionou poemas para mais de 15 recitais de poetas diferentes. Qual o critério que você utiliza para selecionar os poemas? O que fica para você de cada poema e de cada poeta. Quais são as suas referências?

MN – Não me considero ainda um devorador de livros. Sei que posso e devo ler mais. Quando o Grupo Concriz está em temporada de recitais, fico muito focado nos poemas do autor que estamos trabalhando e acabo por não conseguir manter o ritmo de leitura desejado. Mas não posso negar que, mesmo assim, leio bastante, principalmente se levado em conta o nível de leitura do brasileiro. Selecionar poemas para um recital é uma paixão que demorei a descobrir. O meu primeiro critério é sentir como vai ficar um poema recitado, qual será a reação do público ao ouvi-lo. Meu objetivo é fazer com que as pessoas possam sentir algo de diferente e que esse sentimento possa despertar em alguns a paixão que despertou em mim. E isso vem funcionando de forma, no mínimo, razoável. Posso perceber isso quando vejo tantas crianças e adolescentes procurando nosso grupo com interesse de participar desse mundo tão espetacular. Cada poema deixa muito para mim. Alguns deles ficam tão enraizados no meu ser que sinto como se fossem um pouco meus também. De cada poeta tento sugar o máximo das suas experiências e de sua infância. A história de cada autor, seja ele poeta ou de qualquer outro gênero, me faz entender melhor sua produção e me guia pelos caminhos da palavra, mostram-me as possibilidades de caminhos que tenho como poeta. Assim, vou criando minhas referências que incluem os poetas consagrados, como Carlos Drumond de Andrade, Manoel Bandeira, Mário Quintana, Cecília Meireles, Paulo Leminski, Fernando Pessoa, Pablo Neruda, Federico García Lorca e outros nomes. Recentemente, tive o grande prazer de ler alguns poetas russos. Fiquei encantado com Vladimir Maiakóvski e Sierguéi Iessiênin. Mas também tenho dedicado uma atenção especial aos poetas baianos vivos: Adriano Eysen, Aleilton Fonseca, Antonio Brasileiro, Antonio Carlos de Oliveira Barreto, Carlos Barbosa, Cleberton Santos, Damário Dacruz, Eliana Mara Chiossi, Elizeu Moreira Paranaguá, Florisvaldo Mattos, José Inácio Vieira de Melo, Kátia Borges, Lita Passos, Rita Santana, Roberval Pereyr, Ruy Espinheira Filho e outros que desempenham um trabalho tão árduo para um público tão reduzido. Venho lendo esses autores pelo meu trabalho com o grupo e também por entender que é importante, para um leitor, conhecer o que vem sendo produzido em sua própria época. Fico triste em pensar que estão esperando que nossos poetas morram para darem a eles a devida atenção.

JIVM – A que você atribui o êxito do Grupo Concriz? O que você sente ao participar de um recital? E qual a impressão que você tem dos seus colegas durante um recital?

MN – Eu considero que nosso êxito se deve a 10% de talento e 90% de dedicação, responsabilidade e perseverança. Não teríamos chegado onde estamos se não fosse por nossos esforços diários. Quando falo dos nossos esforços, não poderia deixar de mencionar algumas pessoas que, mesmo não subindo ao palco, fazem parte do grupo e tem uma dedicação incondicional para que nosso trabalho seja sempre um sucesso. Devemos muito a Edmar Vieira, diretor de cultura de Maracás, criador do Projeto Uma Prosa Sobre Versos – um projeto que, uma vez por mês, tira famílias inteiras de casa para nos ouvir recitar no Auditório Municipal e para ouvir um poeta falar sobre sua obra. Temos gratidão também a Manoel Paciência, um gênio do artesanato que assumiu conosco um compromisso mensal com a decoração para nossos recitais; a você, Inácio, por sua incansável luta para levar o nome de nosso grupo em qualquer lugar que vá; a outras pessoas que, de um jeito de outro, estão sempre nos ajudando como podem.
Apresentar um recital, para mim, é mágico. No momento em que estou no palco, sinto-me o próprio Deus reescrevendo o Gênesis, reconstruindo o mundo do meu jeito. Meus colegas de palco são guerreiros e fadas. Eles são as pessoas mais importantes do mundo. Naquele momento, devo cuidar deles e dar-lhes segurança. E são eles as pessoas que me dão o apoio que preciso. Tenho total confiança neles e sei que são grandes heróis.

JIVM – E agora? Quais os caminhos do poeta Marcelo Nascimento e de sua poesia? E o que mais?

MN
– Sem dúvidas, o caminho das incertezas. Pretendo continuar gritando versos por aí feito um louco e recrutando novos loucos para essa batalha tão árdua e tão fascinante, continuar também estudando – ainda preciso descobrir muito do Marcelo homem e principalmente do artista, recitador e poeta. Só assim vou conseguir descobrir um pouco dos meus caminhos e dos caminhos da poesia.
No mais, resta-me deixar meus agradecimentos a você, José Inácio Vieira de Melo, não só pela oportunidade de falar sobre minha escrita e meu trabalho com o Grupo Concriz, mas também por tantas leituras indicadas, por tantos poetas promissores que traz ao conhecimento do público através da coluna Sangue Novo no seu blog, nos ajudando a tirar nossos poemas das gavetas e lançá-los ao mundo. Precisamos de mais pessoas como você, comprometidas em incentivar novos leitores e escritores numa nação tão carente de cultura literária. Resta-me, além disso, agradecer aos poetas com quem tivemos a honra de trabalhar, sempre tão generosos, derramando elogios sobre o Grupo Concriz, aos meus colegas de grupo pelo engajamento nos caminhos das palavras e aos amigos e familiares sempre prontos a apoiar e incentivar o Marcelo poeta.

TRÊS POEMAS DE MARCELO NASCIMENTO















ÉPICO


Não me importa quem roubou
a mulher daquele espartano estúpido.
Só quero meu lugar seguro
aos muros de Tróia, para me deleitar
com o sangue derramado nos combates.

Assistirei de camarote, o bravo
domador de cavalos sendo
arrastado por suas praias onde,
não faz muito, desancava ao sol.

Assistirei a todas aquelas desgraças
de um jeito um tanto estranho,
dando risadas, fazendo intrigas,
aumentando suas raivas e
saboreando seus corpos mutilados.

Não sairei do meu posto até ver
aquele semi-deus, o mais arrogante
dos mortais, o destemido guerreiro,
cair aos meus pés, atingido
pela flecha do covarde vingador.

E então ele sentirá a fúria
de um verdadeiro Deus.



CIRCO DAS PALAVRAS


Meu mundo é um picadeiro.
Não tenho lonas,
senão esse punhado de estrelas
que cobrem minha fronte.

Cada qual em seu ofício:
o meu é domar palavras,
e, às vezes, lançá-las feito punhais,
cravando-as em minha realidade.

Domar palavras e equilibrá-las
na ponta da língua, pensar antes de
deixá-las ganhar o respeitável público.



CORREÇÕES DO MUNDO


Quando fui Deus, deixei a humanidade
em suas próprias mãos, desisti de por
na mão de meu filho a ferrugem da
salvação eterna. A coroa de espinhos
não lhe coube na cabeça.

Quando fui Deus, dos dez fiz apenas
dois mandamentos: Não adorai a
nenhum deus e amai uns aos outros
como bem quiserem. Seja fraterno ou
carnal, mas seja amor.

Quando fui Deus, não criei Lúcifer,
serpentes, maçãs, dilúvios.
A arca de Noé foi desnecessária.
Seu nome nem foi citado nas escrituras.

Quando for Deus novamente, farei
o planeta achatado e o sol girando
em torno dele. Pois, assim, Galileu
quando for decapitado não será
injustamente.

segunda-feira, 15 de março de 2010

A SEIVA DO ROSEIRAL NO VALE DO JIQUIRIÇÁ



Pois é, nesta semana, precisamente na próxima sexta-feira, dia 19, começa a maratona de lançamentos que farei do meu livro Roseiral em cidades do Vale do Jiquiriçá. Serão cinco eventos. Em todos contarei com a participação especialíssima do Grupo Concriz, que apresentará um recital com poemas do Roseiral. Em todos farei a palestra Painel da Poesia Baiana Contemporânea e, claro, falarei do Roseiral. A escolha desses municípios deu-se por uma questão afetiva e também pela orientação do meu amigo Edmar Vieira. Quero agradecer às pessoas que estão se empenhando para que tudo aconteça da maneira mais agradável possível: ao Hérmeson, diretor do Colégio Estadual ACM, na cidade de Santa Inês; ao Regivânio, diretor de cultura de Itiruçu; ao professor André Galvão, meu colega de mestrado, que está organizando tudo lá em Amargosa; ao Edmar Vieira, diretor de cultura de Maracás e que também exerce funções culturais na cidade de Planaltino; e ao Vitor Nascimento Sá e a toda galera do Grupo Concriz. E viva a poesia!

JIVM

quinta-feira, 11 de março de 2010

ENCONTROS LITERÁRIOS NA ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA


O projeto Encontros Literários, do Ponto de Cultura da Academia de Letras da Bahia, começa no dia 19 de março. Coordenado pelo poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos, O projeto acontece uma vez por mês e homenageia escritores baianos, alternando, a cada mês, entre duplas de ficcionistas e de poetas, sendo que um deles deve ser membro da ALB. Os homenageados lêem seus textos (poemas, contos e/ou trechos de romances), que logo em seguida são comentados por dois estudiosos – professores universitários e críticos literários. A programação de 2010 começa com os ficcionistas Carlos Ribeiro (membro da ALB) e Lima Trindade, que terão seus contos comentados pelo professor doutor Luciano Lima (UFBA / UNEB) e pela jornalista Suzana Varjão. Após o evento haverá o lançamento do livro Contos de sexta-feira, de Carlos Ribeiro.
No mês de abril, terei o prazer de participar desse projeto ao lado do poeta Florisvaldo Mattos (da ALB). Nossa participação vai ser em 16 de abril, dia de meu aniversário de 42 anos, o que para mim é mais um motivo de alegria. Nossos poemas serão analisados pelos professores doutores Cid Seixas (UFBA / UEFS) e Eliana Mara Chiossi (UFBA / UEFS), ambos também escritores. Logo depois do projeto, lançarei meu livro Roseiral. O lançamento vai contar com a participação de seis integrantes do Grupo Concriz, da cidade de Maracás. Sei que vai ser um momento muito especial.
Vejam a programação do primeiro semestre no cartaz abaixo:

terça-feira, 2 de março de 2010

JIVM - FRONTEIRAS


Ilustração: Daniel Biléu


FRONTEIRAS


Perdido sem lua nem uivo,
para mim só tem um caminho:
riscar esporas no vazio.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Poema do livro Roseiral

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

ENTREVISTA - JIVM: POETA PASTORAL, MUEZIM DA CAATINGA

Por Goulart Gomes

Entrevista concedida ao escritor Goulart Gomes, publicada no dia 3 de março de 2009, em seu blog Território Inimigo (http://www.goulartgomes.com/index.php), Confira:


Prezados leitores:

Estou iniciando, hoje, a publicação de uma série de entrevistas com escritores, as quais serão quinzenalmente disponibilizadas aqui no site TERRITÓRIO INIMIGO. Essas entrevistas pretendem apresentar não apenas o Escritor e sua Obra, mas o Ser Humano que é a essência de cada um de nós, pessoas com suas ricas histórias e aprendizados, que são a fonte de toda obra literária.
Para começar, entrevistei JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO, companheiro de longa jornada, poeta e produtor cultural da minha geração, um incansável batalhador, que não se limita a divulgar sua própria obra, mas também a de vários outros contemporâneos, num exemplo de solidariedade e companheirismo. Apreciem:


Quatro cavaleiros: JIVM, Gabriel (2 anos), Moisés (9 anos) e Aloísio (7 anos)

GOULART GOMES
– Você nasceu em Olho D’Água do Pai Mané, recôndito lugarejo de Alagoas. Como diria Guimarães Rosa, o sertão nos habita? Dois Riachos é o seu Caminho de Swann?

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – O Sertão é dentro. É interior. O mestre Rosa sabia das coisas. Nada tem com os estereótipos forjados nem com delimitações geográficas. O Sertão é o Tao do Ser.
De Dois Riachos quase nada sei. Mas Olho d’Água do Pai Mané está bem lá dentro, bem no fundo do pote da infância. Uma sombra costurada nos três primeiros anos azuis da minha existência.

GG – Como e porque a Bahia entrou em sua vida?

JIVM – Contra o Destino nem Zeus nem Deus. Estava escrito nas estrelas. Morávamos em Arapiraca e, no final dos anos setenta, meu pai comprou uma fazenda na Bahia – e como soava distante esse nome e esse lugar: Bahia. A partir de então, meus irmãos e eu passamos a visitar essa propriedade, a fazenda Nova Esperança (Cerca de Pedra), que fica no município de Maracás, pelo menos uma vez por ano. Em 1982, aos 14 anos, passei uns três meses na fazenda. Nesse período, fui a um povoado chamado Peixe, onde conheci uma morena: Cássia – meu primeiro alumbramento (como diria Bandeira). Em 1988, no mês de março, próximo dos meus 20 anos, resolvi morar na Cerca de Pedra, decisão que deu um encaminhamento para a minha vida bem diferente do que a maioria dos jovens da minha geração teve. Fiquei por uma década entre a caatinga baiana e a fria e aconchegante cidade de Maracás.

GG – Você é graduado em Comunicação e faz Mestrado em Letras. Entre um livro e outro, ferra gado, monta cavalo, tira leite de vaca e de pedra. Como é lidar com o sertão ficcional e o real ao mesmo tempo?

JIVM – A minha vida é bem corrida. Entre a poeira dos livros e o pó da estrada. Tangendo boiadas, “debaixo de um sol a pino/ que reduz tudo ao espinhaço”, ou lendo pilhas de livros deitado numa rede armada debaixo de dois pés de algaroba. Ou, ainda, dentro de um carro, voando para Jequié (que fica a 140 km da fazenda), ou pro mestrado em Feira de Santana (que fica a 300 km da fazenda e a 250 km de Jequié), ou para eventos em Salvador (que fica a 400 km da roça, a 360 km de Jequié e a 110 km de Feira) – nesses momentos é que ouço música: Beethoven, Stravinsky, Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti, Zé Ramalho, Raimundo Fagner, Led Zeppelin, Bob Dylan... E tem ainda o tempo que fico na internet, fazendo divulgação dos eventos, dos meus poemas, de poemas de outros poetas e atualizando meu blog. Tudo isso faz parte do Sertão que sou, onde ficção e realidade são uma coisa só.

GG – Pesquisando seu nome no Google encontramos referência a 3.630 páginas, mais do que muitos poetas famosos. Isso é resultado da inspiração ou da transpiração?

JIVM – É resultado de um trabalho feito com inspiração. É o reconhecimento da transpiração inspirada.

GG – Qual é a Ítaca da sua saga poética: a fama, o sucesso ou o dinheiro?

JIVM – Eu sou um poeta de tradição pastoral. Herdeiro de Davi, o salmista, e dos vaqueiros Damião Tavares, Pedro Vaqueiro, Sérvulo Duarte e Moisés Vieira de Melo, meu avô. Gente que viveu em busca da glória divina, da bem-aventurança. E essa é a minha busca: alcançar a glória divina da poesia. A glória de Deus, dos deuses e das musas.

GG – Além de poeta, você se arrisca como cantador, de vez em quando. Alguma pretensão musical ou isso faz parte da tradição dos poetas-cantadores do Nordeste?

JIVM – Sou apenas um muezim da caatinga. Solto os aboios que estão dentro do peito para que eles encontrem expressão no firmamento, para que vibrem na imensidão. A minha sina é a Poesia. Estou alinhado ao poetas-cantadores da nação nordestina, cavaleiros e peregrinos como Patativa do Assaré, Elomar, Cego Aderaldo, Luiz Gonzaga e Vavá Machado & Marcolino – os Bridões de Ouro do país das Alagoas.

GG – Hoje você reside em Jequié e também atua em Maracás. O que essas cidades representam em sua Literatura?

JIVM – Maracás, cidade das flores, é um lugar que faz parte do meu ser. Vivi muitas loucuras etílicas e saboreei a companhia aconchegante de várias musas nas noites frias de Maracás. Foi onde comecei a assumir minha condição de poeta, muito influenciado pela vivência no Grupo Viajantes do Pensamento, criado por Edmar Vieira, Edivando Damasceno, Nel Velame e por mim. Ainda hoje transito muito por Maracás.
Em Jequié, onde moro há três anos, não conheço quase ninguém. Relaciono-me com pouquíssimas pessoas, grandes figuras como seu Belo, meu barbeiro; a professora Valéria Lessa; o poeta Maurício Bastos Almeida, mais conhecido como Mauricéia Desvairada; e meu querido amigo Leonam Oliveira, o Velho Léo – presidente da Academia de Letras de Jequié.

GG – Parece que o sucesso de alguns autores incomoda muito a outros. A sua fama também lhe trouxe alguns adversários. O que você diria aos detratores da sua obra?

JIVM – Meus caros detratores, agradeço-lhes por dedicarem boa parte do vosso precioso tempo em um trabalho árduo e gigantesco de divulgação da minha obra. Até o final do ano estarei lançando mais um livro, conto com a atenção e dedicação de todos vocês. Continuem trabalhando bastante!

GG – Dentre as imagens míticas da sua poesia há uma recorrência ao Centauro. Seria ele a simbologia do sertanejo, antes de tudo um forte?

JIVM – No livro A infância do Centauro há uma recorrência a este mito. E ele aparece justamente como a representação do vaqueiro e seu cavalo – dois seres que se amalgamam e passam a ser uma entidade possuidora de rara fortaleza.

GG – E seu caso com a égua Guinevere? Amor platônico ou primeiro romance de um adolescente?

JIVM
– Amor platônico. Na hora em que recebi a notícia do nascimento de Guinevere, estava acabando de ler As brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley. Daí ter colocado o nome da rainha de Arthur e Lancelot na pordinha de olhos azuis. Dei-a de presente para Linda.

GG – Você realizou, ao longo de quatro anos, um dos mais importantes eventos de poesia da Bahia, o Poesia na Boca da Noite. Por que não há público para a poesia no mais criativo estado do Brasil?

JIVM – Porque a cidade de Salvador é grande e cheia de opções e, também, porque a poesia não é prioridade para quase ninguém. Boa parte dos poetas que participaram do projeto, só apareceu no dia da sua apresentação. O que me leva a entender que tinham outras prioridades ou, então, por acharem que os outros poetas não mereciam atenção mesmo. Mas os realmente interessados sempre apareciam por lá.

GG – Você, além de vencer na Literatura, venceu também o Alcoolismo. Que lições ficaram daquele período conturbado da sua vida?

JIVM – Duas lições: o vício cega e leva o sujeito a perder a dignidade. Foram duas décadas de muito álcool e outras drogas. Agora, sete anos depois de ter feito a travessia, percebo o quanto sofri e quanto sofrimento causei. O aprendizado maior, porém, foi compreender que o grande barato é estar sóbrio, é ser senhor de si, perceber-se no Cosmo e saborear a poesia de cada instante da existência – essa é a loucura sagrada e este é o meu testemunho.

GG – Em uma livraria, um jovem escritor lhe pede três indicações de livros para comprar. O que você recomendaria?

JIVM – O guardador de rebanhos (Alberto Caeiro/Fernando Pessoa), Cem anos de Solidão (Gabriel Garcia Marquez) e A túnica inconsútil (Jorge de Lima).

GG – A sua poesia dialoga com João Cabral, e outros grandes poetas nordestinos: a pedra, a faca, o mandacaru. Quais suas outras influências?

JIVM – Cabral e Lorca, Pessoa e Kaváfis, Whitman e Rilke, Jorge de Lima e Cecília Meireles, Davi e Homero, Patativa do Assaré e Sierguei Iêssinin, Gerardo Mello Mourão e Foed Castro Chamma. As referências são muitas e, a cada dia, aumentam, pois sou um leitor contumaz. Mas não poderia deixar de destacar o espanto e o fascínio que me causou a poesia do poeta contemporâneo português Herberto Helder, uma descoberta recente que revelou novas possibilidades para o poeta que sou. Esses dias, li A outra margem do tempo, de Alexandre Bonafim, e os originais de Canção para meus companheiros e outros poemas, de Narlan Matos. Dois bons livros de dois jovens poetas. Bonafim é mineiro e vive na interior de São Paulo; é um poeta de epifanias: “Esculpes o infinito no itinerário dos pássaros/ a rasgarem o silêncio. Tão intensamente abraças/ a febre, que a vida multiplica, em ti, os pães e as palavras”. Narlan é baiano e vive nos EUA; seu livro inédito é um canto de despertar narcisos (“Minha época sou eu nu em frente ao espelho”), um canto que convida-nos a conclamar a aurora de um novo tempo (“Porque minha era está coberta de hera”). Pois bem, Alexandre Bonafim e Narlan Matos agora são, também, minhas referências. E outras e outras virão.

GG – Tolstói diz que as famílias felizes se parecem, mas as infelizes o são cada uma à sua maneira. Linda, sua esposa; Moisés e Gabriel, seus filhos, fazem a sua felicidade?

JIVM – Linda é minha Penélope, meu fio terra. Meus filhos, ao lado da Estrela do Oriente, são os astros mais brilhantes do firmamento e ampliam meu horizonte. Minha família é bem singular, mas me proporciona momentos de felicidade.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

GOULART GOMES - QUIRÃO



Q U I R Ã O
Para José Inácio Vieira de Melo


esse magarefe das letras
em si, homem e alazão
ordenha poemas nas tetas
nos ubres da inspiração

os cascos fendem o chão
sendo o solo seu papiro
sua pata é a sua mão
pedregulhos, os escritos

esse vaqueiro-poeta
traçando riscos no céu
pai do pequeno profeta
e do arcanjo novel

faz da pena um cinzel
das ideias, um martelo
esculpindo no papel
o seu canto mais belo

herdeiro das velhas tribos
de adoradores do fogo
sua arte não tem estribos
sua via não tem retorno

seu mote, o próprio povo
dos gerais e do sertão
seu verso, o eterno novo
poeta sábio, és Quirão!


GOULART GOMES
Ouro Preto, MG, 9/2/10

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

POEMA DE MARIANA IANELLI


Escultura: Rubens Ianelli


Deste-me o segredo de teu nome
E era pouco;
Deste-me luz, completo entendimento,
Uma força maior que a tua
Para quando eu me perdesse.
Juventude e paciência,
Que vão juntas raramente,
Apegaram-se a mim
Porque estive em tua presença
E ainda hoje permaneço
Leal a teus mandamentos.
Debaixo do sol, onde por um instante
Nos olhamos sem diferença,
Eu pretendi este poema em teu louvor
E, como se não fosse por ti,
Me tornei imenso.


MARIANA IANELLI

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

SANGUE NOVO - CAIO RUDÁ



PSICOLOGIA DO POEMA – Com respostas que deixam nítidas as marcas do curso de Psicologia, CAIO RUDÁ é um jovem escritor que usa muito da intuição para compor sua poética e, apesar de não ser afeito às influências, as tem e as cita: Drummond e Leminski, o que não precisava fazer, pois saltam aos olhos. Caio Rudá de Oliveira nasceu em Riachão do Jacuípe, interior da Bahia, pouco depois de as águas de março fecharem o verão de 1989. Atualmente, cursa graduação em Psicologia, pela Universidade Federal da Bahia, mantém o blog Das Idéias de Caio Rudá (http://dasideiasdecaioruda.blogspot.com/) e escreve para a revista virtual de literatura Samizdat (http://www.revistasamizdat.com/). Sua vida é transitar entre o litoral e o sertão, assim como o faz também entre Arte e Ciência, na esperança de que um desses lhe explique o ser humano. Não é um entusiasta das explicações, mas esclarece que “não há o que pague um poema pronto”.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – O que a poesia significa para você? Por que e para que ser poeta?

CAIO RUDÁ – Poesia para mim é um modo de perceber e pensar o mundo, e não a restrinjo apenas à escrita. Se a obra de Patativa do Assaré está vinculada em muito à oralidade, gosto de atrelar a minha à meditação. Poesia é uma contemplação mental. Com relação ao porquê e para que ser poeta, confesso que não sou entusiasta das explicações. Não porque me falte curiosidade de entender as coisas, mas pelo completo oposto: tanto me sobra que não me contento com motivos rasos. No curso de Psicologia a gente aprende que em matéria de comportamento humano não se fala em causalidade, e todo ato é multideterminado. Assim, a resposta mais plausível é que ser poeta foi o resultado do modus vivendi de meus anos recentes. Já a finalidade é mais fácil de dizer: não há o que pague um poema pronto.

JIVM – O nome do seu blog, “Das ideias de Caio Rudá”, fez-me lembrar de uma afirmação de Mallarmé, na qual ele diz que “a poesia se faz com palavras, e não com idéias”. Como você analisa essa assertiva?

CR – Conta a História que tal frase surgiu em resposta ao pintor e amigo Degas, que alegava ter boas idéias, mas não as conseguia passar para o papel. Acontece que toda atividade artística deriva de idéias. Pintores, poetas, atores ou cantores, todos diferem no produto final, no modo como direcionam sua criatividade, porém utilizam a mesma matéria-prima para suas obras. Ou as palavras de Mallarmé nasciam diretamente do movimento de seus punhos? Não quero dizer, contudo, que Mallarmé estivesse errado no que dissera, tampouco que minha visão seja completamente coerente. Pelo contrário, somos falíveis no que dizemos. Muitas vezes mudamos as palavras de nosso discurso, e até falamos o oposto do que pensamos. Só penso que haja entre o poeta francês e o estudante de Psicologia diferentes pontos de vista, e é natural que eu priorize processos cognitivos, enquanto que ele o faça com a matéria de seu ofício.

JIVM – E por falar em blog, como você analisa o uso da internet, dos espaços visuais e dos novos suportes tecnológicos, para divulgação da poesia? Essas novas tecnologias substituirão o livro impresso?

CR – A Internet é uma ferramenta muito eficiente para os poetas. Há a facilidade de edição e divulgação, existe a aproximação com o leitor e um blogue bem arquitetado pode ser considerado uma obra artística. Levando em conta a realidade do mercado editorial, é uma alternativa viável e eficaz. Quanto a suplantar o livro tradicional, aí já são outros quinhentos. Se pensarmos no CD, é possível esperar um fenômeno semelhante com os livros, no entanto, quando o exemplo são revistas e jornais, parentes mais próximos do livro, já se nota uma certa postura reacionária. Mudar isso talvez caiba em parte aos próprios escritores. Alguns utilizam os blogues como passaporte, isto é, apenas para chegar ao destino desejado, o livro impresso, e depois o blogue acaba preterido. Enquanto as tecnologias digitais forem acessórios dos escritores, acredito que uma capa bacana, folhas de boa qualidade e um ISBN ainda serão mais atraentes. Culpar unicamente os autores, no entanto, talvez seja exagerado, pois por mais que sua escrita seja verdadeira e espontânea é natural sonhar com o reconhecimento, que, na área em questão, só se dá com o livro impresso. Por outro lado, conheço alguém que dá muito crédito aos livros virtuais, e realmente aposta na publicação independente. Ele é o Henry Alfred Bugalho, escritor brasileiro residente nos Estados Unidos, autor de várias obras lançadas de maneira autônoma, em formato digital. O grande problema desse tipo de publicação é que estão na contramão da lógica capitalista de mercado. Não desaprovo iniciativas com a do Henry, pois eu mesmo já lancei um livro eletrônico. Só acredito que o status quo se mantenha, ao menos pelo próximos anos.

JIVM – Uma pergunta óbvia, mas de suma importância para um autor em formação. Quais são seus escritores referenciais. E desses autores, quais obras foram mais representativas?

CR – Gosto muito de uma frase do meu amigo e poeta Georgio Rios, que diz "alguns clichês são necessários". Impossível não falar das referências. O problema em meu caso é que não há muitas. Meu interesse e produção poética são recentíssimos, sempre preferindo antes as formas em prosa. Meu despertar para a poesia seguiu um rumo que é o contrário do padrão: começa-se a escrever depois de encantado com uma obra de um grande autor, e a tendência é imitar em algum grau essa referência. Eu não segui esse caminho. Comecei a fazer poesia por conta própria, um processo meio ególatra e auto-reforçador. A escolha por não ler os grandes autores foi deliberada. Não queria de modo algum parecer com alguém, pois acredito que invariavelmente incorporamos traços do que gostamos, e em dois mil anos de poesia está cada vez mais difícil ser original. Hoje, com um mínimo de maturidade poética, faço leituras mais produtivas. Leio o que quero, me apaixono, critico. Tenho uma mente mais aberta e não-formatada. Há um sujeito, no entanto, que sempre foi uma pedra no meio do caminho, o próprio Drummond, cuja poesia sempre admirei. Leminski também foi um marco para mim. Quando descobri sua obra, mais do que encanto, me identifiquei com seus poemas, o que me encorajou bastante a continuar escrevendo o que escrevia, do modo que escrevia.

JIVM – Deixe registradas as suas impressões sobre os rumos que a sua poesia vem tomando. E o que teremos para adiante? Algum livro para ser publicado? O que mais?

CR – Percebo que tenho amadurecido a escrita. É a grande coisa que consigo perceber sobre mim mesmo. Como não sou poeta por ofício, tenho liberdade de experimentar e escrever. Porém livre-arbítrio não é palavra de ordem para mim. O que sou hoje é condição do que já vivi, e a característica da observação é o que me marca. Os rumos que minha poesia tomará depende de como a vida passará para mim e como irei absorver os eventos que virão. Acho que no fundo, entretanto, sempre vou escrever sobre a condição do homem, o enigma da (in)existência, como prefiro chamar. Deixando as especulações e impressões de lado, para 2010 planejo organizar alguns de meus poemas e enviá-los a alguma editora. Há também uma antologia de minicontos para ser publicada, com a minha participação, e pretendo finalizar um volume de contos breves. Obviamente, espero continuar escrevendo e tendo idéias. No mais, gostaria de agradecer pelo espaço e oportunidade de voz aqui no blogue. Também, não poderia deixar de lado o apoio do amigo Georgio, que acreditou no que escrevia desde os primeiros versos. E aos meus leitores deixo o agradecimento pela crítica e comentários. Obrigado a todos.

TRÊS POEMAS DE CAIO RUDÁ


Fotos: Ricardo Prado














O POETA NA AREIA



Há vários caminhos para a boa ventura.
Um deles é certo, porém;
permiti-me apresentá-lo.
Repousa no refletir do sol na água
às cinco e quarenta e cinco da tarde
no porto da Barra.

Caminhai, baianos,
segui por ele, turistas.
Fixai o olhar no círculo,
lá ao fundo, luminoso.
Ide a ele que vem a vós, pais e irmãos,
todo santo dia, cá na baía de todos os santos,
estes que vos abençoam
a caminhada por sobre as águas.
Não é preciso milagre,
somente que observeis o tapete alaranjado
duelando com o azul costumeiro
(aliás, cores não brigam,
apenas entram em contraste)
e andeis pelo brilho.

As seis horas são esperadas.
Movei-vos pela estrada, portanto,
que os cavalos-marinhos já vêm
enrolar o tapete, ao que se põe
o sol, não no horizonte,
mas atrás da ilha de Itaparica,
ao som das palmas que batem
os bons viajantes na areia
cada vez mais fina, desgastada
de emoção por tantos crepúsculos.



GOTAS


feito nuvens de verão
estendidas no varal
descansam roupas brancas
donde pingam
lentamente
a denúncia do árduo labor
de lavar a sujeira, o suor
e a dor.



TESTAMENTO


Eu quero morrer louco
são nem um pouco
doido de pedra
demente, decadente
sem mente, sim
completamente doente.

Eu quero morrer assim
para não fechar meus olhos
ciente de que é o fim.