segunda-feira, 16 de abril de 2012

JIVM - 44 - CORDEIRO DE ABRIL

Foto: Ricardo Prado


CORDEIRO DE ABRIL
  

Eu sou filho de Abril,
um deus do calendário
que traz no semblante
trinta sóis a contemplar
meus quarenta rubis.

Nasci no seio de Abril,
por isso esta cor rubra,
esta atitude vermelha,
este desejo encarnado.

Circulo nos veios de Abril,
faço parte da claridade,
da brisa que atravessa
o sertão das palavras.

Eu sou filho de Abril
e apascento as roseiras
no verdor das horas.

Sou o cordeiro e o signo
tangendo a si próprio
como quem tange
para bem longe
o pensamento.

O cordeiro de Abril,
que vivencia pecados
e inventa mundos
por onde passear
de tardezinha.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

terça-feira, 10 de abril de 2012

VERÔNICA DE VATE - JOTACÊ FREITAS

Jotacê Freitas é pseudônimo de José Carlos de Freitas, natural de Senhor do Bonfim, Bahia, nascido a 06 de março de 1964. Seu interesse pela literatura surgiu aos 15 anos, tendo conhecido o Cordel através da mãe, Dona Izabel, que comprava folhetos sobre Padre Cícero, Lampião e Bocage. Iniciou sua obra com versos livres e publicou seis livros em que experimenta desde o concretismo ao hai-kai e recebeu prêmios da ACLASB – Academia de Ciências, Letras e Artes de Senhor do Bonfim. Dirigiu e escreveu espetáculos teatrais recebendo prêmios por atuação e direção no Grupo Teatral Nós-Nas-Tripas. Tem mais de 100 folhetos publicados e venceu o Prêmio Nacional de Literatura de Cordel - 2005 da Fundação Cultural do Estado da Bahia, com Panvermina e Zabelê nas quebradas do Sertão; e o Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel 2010 – Edição Patativa do Assaré, promovido pelo MINC, com o romance O Rei Cego e os Filhos Maus. Também foi repórter nos jornais O Lapa-pau, Nossa Gente, Correio dos Sertões e Jornal de Juazeiro. Fez graduação em Pedagogia na UNEB; iniciou o curso de Letras na UFBa e foi pesquisador do PEPLP – Programa de Estudos e Pesquisas da Literatura Popular e Diretor da Comissão Baiana de Folclore. É especialista em Artes na Educação pela FAAC-ES. Atualmente exerce a função de professor Arte-educador na Rede Municipal de Salvador.

Jotacê Freitas e Luiz Natividade abrirão a quinta temporada do projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, no Vale do Jiquiriçá. O evento acontecerá no dia 13 de abril, às 19 h 30 min, no Auditório Municipal de Maracás, com entrada gratuita. Os dois cordelistas serão homenageados pelos grupos Concriz, da cidade de Maracás, e Flor de Mandacaru, da cidade de Planaltino, que recitarão seus cordéis. O evento será aberto pelo Grupo Luzeiro, liderado pelo violeiro Nel velame. Após os recitais, Jotacê e Natividae baterão um papo com José Inácio Vieira de Melo e responderão as perguntas da plateia.

No dia seguinte, 14 de abril, os dois cordelistas participarão do projeto Palavra de Poeta, na cidade de Planaltino, onde serão recebidos pelos grupos de recitadores da cidade: Grupo Renascer e Flor de Mandacaru. E muito mais. Eventos imperdíveis!



OUVIDO VIROU PENICO NAS CIDADES DA BAHIA!


Meu ouvido né penico
Diz o dito popular
Quando alguém muito irritado
Resolve enfim se queixar
Do barulho promovido
Por outro em qualquer lugar.

A Bahia em geral
Tem produzido barulho
E nossa Lei do Silêncio
Não dá conta do embrulho
Que a Poluição Sonora
Tá virando um entulho.

Começa com as buzinas
Nas vias e cruzamentos
Por pura infantilidade
Buzinam a todo momento
Com pressa ou necessidade
De vender o equipamento.

Outro dia aconteceu
De um barbeiro reclamar
Da buzina em sua porta
Que estava a incomodar
Perguntou se estava à venda
Pois ele iria comprar.

Retado com a pergunta
O dono ameaçou
Ir em casa buscar arma
E em seguida voltou
Entrou na barbearia
E o barbeiro matou.

A barbárie está de volta
As pessoas estressadas
Trabalho engarrafamento
As ruas esburacadas
A gentileza não existe
Até a Paz anda armada.

Vizinhos não se respeitam
Cada qual faz o que quer
O som alto o futebol
A briga com a mulher
Cães latindo papagaios
E demonstrações de fé.

A educação de berço
Algo que antes se tinha
Nas famílias regulares
É coisa que se definha
O bom senso já morreu
A ignorância é rainha.

Sua liberdade finda
Aonde a minha começa
Você quer ouvir som alto
Mas a minha não é essa
Seja em casa ou na rua
Licença por favor peça.

Sabe-se que é ilegal
Mas isso virou mania
Entre jovens e coroas
Aqui em nossa Bahia
O importante é estar
Ouvindo pornofonia.
                            
Isto em todo o estado
Leste Oeste Norte e Sul
Senhor do Bonfim Juazeiro
Alagoinhas Gandu
Barreiras e Itabuna
Em Lençóis e Camamu.

Nos incomodam nos ônibus
Ouvindo no celular
Música no viva-voz
Estridente de lascar
Obrigando a todo mundo
O seu barulho escutar.

Não se pode cochilar
Relaxar o pensamento
Durante toda a viagem
É um verdadeiro tormento
E às vezes há disputas
Entre os filhos de jumento.

Vivem no tempo antigo
Do rádio consola-corno
Pois o fone-de-ouvido
É pra evitar transtorno
Você ouve a sua música
Sem incomodar o entorno.

Mas baiano como dizem
Gosta de aparecer
Quer mostrar o aparelho
Ligado pro outro ver
A potência que ele tem
E o som que lhe dá prazer.

Funk pagode e axé
Até gospel evangélico
Rap exalta marginais
Arrocha e forró elétrico
Jornalistas locutores
São muito maquiavélicos.

‘Empurram’ diariamente
Merda nos alto-falantes
Deixando o povão ‘ligado’
No baixo nível gritante
‘Ou tão mal intencionados
Ou são muito ignorantes’.

A Bahia né só isso
Outros sons por aqui tem
MPB rock’n roll
Samba-de-roda também
Pé-de-serra e instrumental
Mas só tocam o que convém.

Mandam aumentar o som
Ouvir a todo volume
Com violência sonora
Pra escorrer o chorume
Se não gostar de barulho
Você que se acostume.

É carro de cafezinho
Propaganda em bicicleta
O camelô dos CDs
A putaria decreta
A rádio comunitária
Toca música indigesta.

Por isso os motoristas
Instalam um som potente
E como os donos do mundo
Abrem o fundo bem em frente
À casa de qualquer um
Que seja honrado e decente.

E a rua vira um brega
Não importa o horário
Dia noite ou madrugada
Se juntam os voluntários
Periguetes e putões
Nos fazendo de otários.

Ninguém pode reclamar
Pois tem medo de morrer
Com pessoa ignorante
É melhor não se meter
E esperar que a Prefeitura
Possa uma atitude ter.

As leis até que existem
Mas ninguém as faz cumprir
A SUCOM trabalha pouco
Com a equipe pra agir
A Polícia não se mete
O Detran nem tá aí.

E o carnaval continua
Durante todo o ano
Os carros fazem barulho
E os motoristas insanos
Enchem a cara de cervejas
Pra atropelar fulano.

Os psicólogos falam
Que esta exibição
É para ocultar problema
Que eles têm com a ereção
E mostram a sua potência
No carro com o sonzão.

Em frente à minha casa
Um carro desses parou
Pedi pra baixar o som
E o miserável não baixou
Me acocorei no carro
Fiz cocô no seu capô.

Ele se incomodou
Com a atitude que eu tomei
Quis brigar no meio da rua
E eu me justifiquei
Ele caga em meu ouvido
No carro dele eu caguei.

Aqui eu faço um apelo
Não transforme o meu ouvido
Em penico auricular
Não me deixe coagido
Aceite a evolução
Use o fone-de-ouvido.


JOTACÊ FREITAS

segunda-feira, 9 de abril de 2012

VERÔNICA DE VATE - LUIZ NATIVIDADE

Luiz Natividade é natural  de Junqueiro, Alagoas, nasceu em  07 de maio 1961, filho de Benicio Natividade Costa e Maria Edite Costa. Veio para a Bahia para estudar e por aqui ficou. Foi batizado e registrado como JOSE LUIZ COSTA, depois entrou na justiça para ratificação de documentos, solicitando o sobrenome da família, NATIVIDADE, que seu pai, por falta de instrução, não o colocou na sua certidão de nascimento. Teve uma infância feliz no Sítio Vazia de Cima, onde morou até os 6 anos de idade, vendo as festas populares, como Guerreiro, Diana, Chegança e Reisado. Depois seu pai transferiu a família para a cidade de Junqueiro, Alagoas,  em 1966. Aprendeu com o tio, a fazer suas primeiras cordas de palha de coqueiro e colher da pau. Passava suas tardes na carpintaria do mestre Manoel Marques, homem de inteligência brilhante, Mestre de obras, Carpinteiro, incentivador da cultura popular na Cidade. Cresceu vendo sua Mãe riscando, desenhando, costurando e bordando  roupinhas de bebê. Isso contribuiu para sua formação de desenhista. Iniciou seus estudos na Cidade de Junqueiro.   ABC na escola RURAL; depois no  Padre Aurélio Góis;  e a seguir no  Ginásio Nossa Senhora  Divina Pastora. Em 1980 muda-se para Salvador, onde completou seus estudos. Formado em Artes Plásticas, pela  UFBA  (Universidade Federal da Bahia), Escola de Belas Artes, em 1993. Realizou mais de 50 exposições nos seus 30 anos de arte. Sua primeira foi na cidade de Castro Alves, BA, em 1985  a convite do artista plástico Balbino Azevedo; a segunda, na sua cidade Natal, Junqueiro, AL, em 1985. Idealizador do projeto Natividade de Xilogravura, levando essa arte milenar aos quatro canto do Brasil, fazendo cursos, oficinas e palestras de xilogravuras. Tornou-se empreendedor individual em 2010 com literatura e cordel, trazendo a Mini Literatura de Cordel e o manual de xilogravura. Poeta, desenhista,  pintor, xilogravador e escritor, já escreveu os cordéis Marieta que eu vi viver, O homem da mesa, Manual de Xilogravura - uma idéia feita a mão, O orgulhoso que tropeçou na sorte, O Mendigo que virou Senador, Junqueiro minha vida  e vários outros. Mantém o blog www.natividadexilo.blogspot.com, onde divulga seus trabalhos. 

Luiz Natividade e Jotacê Freitas abrirão o quinto ano do projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, no Vale do Jiquiriçá. O evento acontecerá no dia 13 de abril, às 19 h 30 min, no Auditório Municipal de Maracás, com entrada gratuita. Os dois cordelistas serão homenageados pelos grupos Concriz, da cidade de Maracás, e Flor de Mandacaru, da cidade de Planaltino, que recitarão seus cordéis. O evento será aberto pelo Grupo Luzeiro, liderado pelo violeiro Nel velame. Após os recitais, Natividade e Jotacê baterão um papo com José Inácio Vieira de Melo e responderão as perguntas do público.

No dia seguinte, 14 de abril, os dois cordelistas participarão do projeto Palavra de Poeta, na cidade de Planaltino, onde serão recebidos pelos grupos de recitadores da cidade: Grupo Renascer e Flor de Mandacaru. E muito mais. Eventos imperdíveis!

LUIZ NATIVIDADE EM ATIVIDADE:





segunda-feira, 2 de abril de 2012

PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS 2012 - ANO V




PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS 2012 – ANO V
Coordenador: Edmar Vieira
Curador: José Inácio Vieira de Melo

13 de abril – Jotacê Freitas (BA) e Luiz Natividade (AL/BA)

11 de maio – Martha Galrão (BA) e Raimundo Gadelha (PB/SP)

8 de junho – Iolanda Costa (BA) e Júlio Lucas (BA)

3 de agosto – José Geraldo Neres (SP) e Lívia Natália (BA)

14 de setembro – Iracema Macedo (RN/RJ) e José Inácio Vieira de Melo (AL/BA)

sexta-feira, 30 de março de 2012

12ª SEMANA DE POESIA DO MORRO DE SÃO PAULO - REGISTROS

Morro de São Paulo – BA, 8 a 14 de março de 2012
Fotógrafo: Pierre L'eplattenier


Ângela Toledo anunciando a noite de poesia - 10/03/2012

Ângela Toledo - Bobo do Morro - 10/03/2012

Ângela Toledo e José Inácio Vieira de Melo - 10/03/2012

Gabriel Inácio a ouvir seu pai recitar - 10/03/2012

José Inácio Vieira de Melo - 10/03/2012

JIVM e Carlos Moisés - 10/03/2012

Carlos Moisés - 10/03/2012

Ângela Toledo e José Inácio Vieira de Melo - 10/03/2012

José Inácio Vieira de Melo - 11/03/2012

JIVM - 11/03/2012

Ângela Toledo - Poeta do Morro - 11/03/2012

José Inácio Vieira de Melo, Castro Alves e Ângela Toledo - 11/03/2012

Gente - 11/03/2012

Ricardo Vidal - 12/03/2012

Adriano Pereira - 12/03/2012

Ricardo Vidal, Ângela Toledo e Adriano Pereira - 12/03/2012

Ângela Toledo - Dama do Morro - 13/03/2012

Ângela Toledo - Rainha do Morro - 14/03/2012

quarta-feira, 28 de março de 2012

EL PEINE QUE TE PEINA O LA GRAMATICA DE LOS COLORES

Por Jesús Gómez Morán

Comentario a “En la otra orilla del silencio”

Que la figura de Fernando Pessoa (junto con la de Mário de Sá-Carneiro) eclipsa todo el panorama de la poesía en lengua portuguesa perteneciente al siglo XX es tan evidente que su sombra ha caído incluso sobre otros autores lusitanos de este mismo periodo. Y la respuesta a tal hecho, de este lado del Atlántico, ha sido doble. Por un lado la tradición poética brasileña ha legado nombres de la talla de Manuel Bandeira, Mário y Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade y Cecília Meireles quienes constituyen una generación áurea a la que posteriormente habrán de unirse João Cabral do Melo Neto, Lêdo Ivo y Haroldo de Campos: es decir, lo que en Portugal se presentó con dos nombres que acapararon la atención del llamado “Modernismo” (que correspondería al movimiento de vanguardia tanto lusitano como brasileño), en Brasil arrojó una pléyade de poetas colosales.
Por otro lado, habría que considerar que en el entorno de la cultura popular la tradición lírica brasileña ha aportado un amplio listado de auténticos trovadores de la talla de Vinícius de Morães, Milton Nascimento, Chico Buarque de Holanda (quien además es novelista), Caetano Veloso y un largo etcétera que sería prolijo enumerar aquí. Sin embargo la mención permite destacar un par de cualidades de esa gramática de colores que de por sí detenta la tradición poética de Brasil: la cadencia y la sonoridad. Y esto se constata con este libro que la curiosidad intelectual, pero sobre todo la empática afición de Fernando Reis (juntando el nombre y el apellido de uno de los heterónimos de Fernando Pessoa) como editor y con su propio trabajo como traductor ha entregado. Pongo un ejemplo del poema “Sete irmãs” de José Inácio Vieira de Melo:

Essas sete musas mal-assombradas
de cabeleiras ruivas, encardinadas,
são santas de bocetas encarnadas
trazem entre as mãos minhas sete vidas.

As cabeleiras ruivas dessas musas
são trepadeiras místicas en rito,
um anelo claro como um oráculo
a escalar as formas breves do mito.

São sete noites vividas por Borges,
são sete fadas da ilha de Lesbos,
são sete acordes de Joaquin Rodrigo,
são sete facas de Aderaldo, o Cego.

El caso es que, como se dice popularmente, en esta obra compilada por José Geraldo Neres se juntaron el hambre con las ganas de comer. En el trabajo de todos los colegas se conjuntó la autenticidad y la acuciosa dedicación para intentar que las cualidades señaladas de este tipo de poesía se mantuvieran al ser vertidas al español. En cuanto a mi participación, tengo que agradecer a Fernando hacerme cómplice en esta aventura que me llevó a refrescar mis clases de portugués en el CELE. Sintiéndome contento, aunque no satisfecho del todo con el resultado, tengo que reafirmar esa idea de que todo poema es revelación y misterio, y de los poemas de los excelentes autores que son Beatriz Bajo y Marco Vasques, puedo decir que al traducirlos se reveló, para mí antes que para nadie, parte de la belleza y de las implicaciones simbólicas que contienen, pero que aún quedan varios detalles cubiertos bajo un atrayente halo de misterio.
Ahora bien, conociendo a Fernando desde tiempo atrás cuando compartimos numerosas veladas escuchando a Gal Costa o a Elis Regina cantando “Aquarela do Brasil”, la pregunta nació de modo inevitable: ¿cómo es eso del “Brasil brasileiro”, “coqueiro que da coco” o el “pente que te penteia”? En ese momento la única conjetura plausible consistía en hacer énfasis en la acción, aunque reconozco que la explicación para nuestra extrañeza cultural y lingüística era pobre. No sé si ahora estemos en condiciones de despejar semejante enigma, pero sí creo que en esos días se fraguó en él la necesidad de impregnarse del ambiente que produjeron tales expresiones literarias. Para explicarlo necesito hacer un paréntesis. Estoy convencido de que hay dos formas de salir del patio de vecindad en que uno viva. Una es leyendo; la otra es viajando (y ahora que lo pienso, la aventura de traducir es un compendio de ambas). Creo que Fernando Reyes obtuvo la autorización para llevar a cabo esta empresa en gran medida debido a su espíritu viajero: Cuba, Canadá, Francia, Europa del Este son parte de los sellos que tiene su pasaporte, tanto el oficial como el intelectual. Esta referencia nos sitúa de golpe en uno de los propósitos de esta obra, si no es que el más importante: trasladarnos a otras latitudes. Consideremos por ejemplo el mensaje plástico de la portada, esa ilustración propia de de la geografía bahiana (de São Salvador do Bahia, pues) en la que se empiezan a encender algunas luces, mujeres y hombres aparecen terminando sus faenas diarias y la serenidad del anochecer inunda el panorama.
Toda traducción es un puente y constituye una ligazón. Por ese espíritu festivo, por lo elaborado de su gastronomía, por la pasión futbolera, México y Brasil tienen vínculos estrechos que se aproximan aún más con el puente establecido a raíz de la publicación de En la otra orilla del silencio. Antología de poetas brasileños contemporáneos. Si el lector al repasar sus páginas, más que sentirse trasladado, se siente ubicado como si fuera parte de ese ámbito que les dio origen, creo que todos los que tuvimos participación para hacerla posible tendríamos que sentirnos bastante congratulados.

Jesús Gómez Morán
Instituto de Investigaciones Filológicas. Universidad Nacional Autónoma de México.

segunda-feira, 19 de março de 2012

JIVM - PAVÃO MYSTERIOZO

Ilustração: Gustavo Athayde


PAVÃO MYSTERIOZO


A juventude abriga a zoada,
bebe o vinho da aridez
e sente o gozo do oásis.

Em seu canto cabe
o voo imenso do Condor
para dentro de alguma paisagem.

Minha angústia pretende esse voo:
Ícaro partindo para o Sol:
maior de todas as transcendências.

E de repente voar diante dos homens,
Pavão Mysteriozo, pássaro formoso,
mesmo sob essa longa indiferença.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


“Pavão Mysteriozo” é um dos cinco poemas inéditos de JIVM que foram publicados na revista eletrônica Musa Rara. Os poemas fazem parte do livro PEDRA SÓ, a ser lançado em setembro deste ano, pela Escrituras Editora.
Para conferir os cinco poemas e as ilustrações de Gustavo Athayde – Gustha! – basta clicar no link abaixo – e deixem seus comentários no site da Musa Rara:

quarta-feira, 14 de março de 2012

JIVM - ENCRUZILHADA


ENCRUZILHADA


Algo me aflige e não sei o que é.
Sinto relampejos de minhas existências
e não sei o que fazer nem para onde ir.

Vivo a buscar o signo que me presentifique,
que, uma vez enunciado, seja por si.
Estou exausto de ser uma representação.

Tem um bicho dentro de mim que quer
pular para fora de tudo e ser a aurora.

Ah se eu fosse o sol não arderia tanto!


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

EN LA OTRA ORILLA DEL SILENCIO

En la otra orilla del silencio é o título da antologia que será lançada na próxima segunda-feira, dia 27, na Cidade do México. 22 poetas brasileiros contemporâneos foram selecionados pelo poeta paulista José Geraldo Neres e traduzidos para o espanhol pelo poeta mexicano Fernando Reyes. Veja abaixo a relação dos poetas e, ao final da postagem, um de meus poemas que constam na antologia.



EN LA OTRA ORILLA DEL SILENCIO, UNAM, 2012
POESÍA CONTEMPORÁNEA BRASILEÑA

Compilación: José Geraldo Neres
Traducción y Edición: Fernando Reyes

AUTORES: JORGE PIEIRO | R. LEONTINO FILHO | EDSON BUENO DE CAMARGO | NEY FERRAZ PAIVA | PAULO KAUIM | WILMAR SILVA | FLÁVIA PEREZ | JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO | ARTHUR CECIM | DENISON MENDES | MARCO VASQUES | KARINA JUCÁ | KATYUSCIA CARVALHO | DOMINGOS GUIMARAENS | MÁRCIO SIMÕES | AURORA LEONARDOS | BEATRIZ BAJO | RÁDI OLIVEIRA | MARIANO MAROVATTO | DHEYNE DE SOUZA | AUGUSTO DE GUIMARAENS CAVALCANTI | AFONSO HENRIQUE RODRIGUES ALVES |

La Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) a través del Colegio de Ciencias y Humanidades, con el apoyo de Ediciones Libera. Se presentará en la Feria Internacional del Libro del Palacio de Minería (Calle Tacuba # 5, Centro Histórico, de la Ciudad de México) el día 27 de febrero de 2012. 

Remedios Varo - A sétima irmã


SIETE HERMANAS
Para Remedios Varo


Esas siete musas mal asombradas
de cabelleras rubias, mugrientas,
son santas de relicario encarnadas,
traen entre las manos mis siete vidas.

Las cabelleras rubias de esas musas
son enredaderas místicas en rito,
un anhelo claro como un oráculo
escalando las formas breves del mito.

Son siete noches vividas por Borges,
son siete hadas de la isla de Lesbos,
son siete acordes de Joaquín Rodrigo,
son siete facones de Aderaldo, el Ciego.

¡Ah, mis siete hermanas, hijas de Safo,
lamer vuestros culos es mi paraíso!
La plenitud de vuestras entrañas
es un amparo de estos mis delirios.

Siete musas embarazadas, musas graves,
la gravidez no pesa en el abrigo.
Mi voz es un camino ciego
como Borges, Aderaldo y Rodrigo.

Ah, mis siete hermanitas serenas,
vamos a jugar mientras hay tablero,
siete damas-reinas, siete Helenas,
soy vuestro ciervo, vuestro caballero.

Musas oblongas, vientres salientes,
en vuestras carnes calientes yo reparo,
de cabo a rabo, con placer y encanto,
las siete faces de Remedios Varo.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
Traducción: Fernando Reyes

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

JIVM - PEDRAS AMOLADAS, FACAS ATIRADAS



PEDRAS AMOLADAS, FACAS ATIRADAS
Para João Cabral de Melo Neto


Vai, poeta
pega a xara
e amola as tuas facas
e de uma só cutelada
desata a sangria

O olhar já é pétreo:
Vai, tira o couro da poesia
– não temas a carne trêmula –
e inerva os teus versos

Vai, poeta
com tuas facas
destrincha a carne
e nela passa o sal
e estende-a ao sol
                       
Então não é dessa
carne seca que é feito
o teu ritmo?

Vai, magarefe
                       das palavras

Ah poeta
apesar de tuas lâminas
serem as mais afiadas
é a pedra do rim
                          que é
pois com tuas pedradas
descubro e descubro

Vai, poeta doido
                           de pedra.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

TERRA NA VEIA: A POESIA DE JIVM

Por Romério Rômulo

Capa da primeira edição: Ramiro Bernabó - Capa da segunda edição: Fernando Aguiar

1. princípio

cada vez mais antecipo que poesia é auto-revelação. dos sonetos do shakespeare à divina comédia do dante.
do eu do augusto ao cão sem plumas do joão cabral. da rosa do povo do drummond aos sonetos do camões.
dos cantos do neruda aos operários do vinicius. do roseiral do josé inácio ao roçzeiral do gullar.


2. decisão

sertanejo decide nascer. JIVM brotou em alagoas e foi andar nas plagas da bahia. nada impune, que não se faz um sertanejo impunemente. ainda mais poeta.


3. romarias

quantas romarias faz um poeta? por decisão, em motivos que só ele domina, JIVM relata a Terceira:

 “ouvir os deuses do campo
pelos bicos dos passarinhos”

josé já se converteu nos códigos do silêncio e na decifração de abismos. outras palavras caminharam.
josé, firme, que sertanejo anda a cavalo.


4. os passos

a terceira romaria me traz umas cidades invisíveis do italo calvino. mas, cabe melhor sondá-la como fazenda de porteiras rompidas.
caminhei pelo livro e descontrolei uns versos. montei e desmontei poemas, que JIVM merece.

abre:

 “eu, poeta dos sertões,
passarinho do vento nordeste...”

“por teres me escolhido para fundar
os jardins das algarobeiras
e dos mandacarus.”

em “olho d' água”, porteira 1:

“ah, essas cicatrizes, esses calos
pelo corpo e pela alma do menino.
ah, esse deserto de ilusão.”

tudo memória, que essa terra exige memória.

“a poesia era um buraco maior que o buraco.
...............................................................
a poesia lava os pés e as lágrimas.”

JIVM descobre a serventia do verso, descobre a sua devassidão. e relata a ausência de tudo, o vazio descomunal.
sua paz é pródiga:

“a violência
que existia em mim
rasguei na bala.”

ou saga:

 “anjos bêbados anunciando o apocalipse às estrelas:
era um joão batista, era um zé limeira, era eu.”

as dúvidas, perdidas e achadas:

“qual lâmina d'água decepará a dúvida?”

os sertões presentes:

“não me ofereça o paraíso, quero o seixo da estrada.”

na “ribeira de traipu”, porteira segunda:

“de repente dava um redemoinho
na minha cabeça de vento
e já era outra história.”

“lá o documento é a palavra”. dela também se faz o estalo da vida, quando o poeta é convidado a apascentar rochas, nos peitos da vacaria.
na romaria mesmo, “lá me vou com minha cruz/ peregrino de mim mesmo/ no meio da travessia.”
JIVM fala das suas terras, suas valas, seus cercados. um pé de milho pode ser poesia. qualquer oco de mundo vai ser verso. o menino perdido no beiço das estradas, acocorado nas enchentes, se mostra uma revelação do espanto.

“maturi”, penúltima porteira:

“na primeira vez,
senti, pela primeira vez,
o mistério das estrelas.”

e na cantiga de amor:

“és tanto e tudo e como dói a tua ausência.”

as bodas de sangue, em versos de garcia lorca, aparecem. contra os punhais, uma peixeira de 12 polegadas. ferro contra ferro. para antonio gades, morador de havana, nascido nas brenhas e bailador gitano do mundo, há uma oferenda.

na última porteira, “cerca de pedra”, o poeta fecha o verbo:

“o poeta traz os segredos da poeira.
em sua mão pulsa o nó do espanto:
um sorriso bêbado de eternidade:
um poema.”

fechado com cerca de pedra, “ouvindo/ o silêncio das estrelas!”


5. declaro:

por meu fiel amigo manuelzão, guia e personagem do guimarães rosa, que JIVM bebeu em definitivo das águas da poesia. a terra soa nele como praga e bênção.


romério rômulo campos valadares é professor de Economia Política da Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP. Poeta e editor, publicou vários livros de poesia, entre eles Bené para flauta e Murilo (1990), Matéria Bruta (2006) e Per Augusto & Machina (2009).


Prefácio da segunda edição de A terceira romaria, publicada  em 2011.