segunda-feira, 28 de março de 2011
JIVM NO QUINTA POÉTICA, NA CASA DAS ROSAS (SP)
segunda-feira, 21 de março de 2011
terça-feira, 15 de março de 2011
PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS COM O POETA SALGADO MARANHÃO

Exemplo de iniciativa de sucesso na Bahia, o projeto está no quarto ano de atividades, na cidade de Maracás. Em 2011 serão mais sete escritores, somando 29 desde a edição 2008.Observando os resultados positivos, outros municípios, a exemplo de Planaltino, Iramaia e Nova Itarana estão desenvolvendo projetos similares. No dia seguinte, 19 de março, Salgado Maranhão participará do projeto Fala de Poeta, na cidade de Planaltino.
Em Maracás, o evento contará, como sempre, com um belo recital poético apresentado pelo Grupo Concriz, um momento musical com Léo Guita (da Tribo do Rock) e amigos. O poeta José Inácio Vieira de Melo, curador do projeto, apresentará o poeta, com quem fará um bate papo sobre literatura e assuntos afins. Aberto à comunidade maracaense e cidades vizinhas, o evento é gratuito. É só aparecer no Auditório Municipal de Marácas, às 19 hs 30 min.
segunda-feira, 14 de março de 2011
VERÔNICA DE VATE - SALGADO MARANHÃO

Aos 15 anos, ainda adolescente, mudou-se com os irmãos e a mãe para Teresina, Piauí, onde foi alfabetizado.
Escreveu artigos sobre música para um jornal local e conheceu Torquato Neto, que o incentivou a ir para o Rio de Janeiro, o que fez no ano de 1972. Torquato Neto também sugeriu que criasse um pseudônimo, segundo este, o nome José Salgado Santos parecia nome de arquivista e não de poeta.
Estudou Comunicação na Pontifícia Universidade Católica (PUC).
Terapeuta corporal, foi professor de tai chi chuan e mestre em shiatsu.
A partir de 1976 colaborou em várias publicações com artigos e poemas, como a revista "Música do Planeta Terra", a convite de Júlio Barroso, então editor da revista, na qual também colaboravam Sergio Natureza, Caetano Veloso, Ronaldo Bastos, Jorge Mautner e Jorge Salomão, entre outros.
Em 1978 foi um dos organizadores, com Sergio Natureza e Moacyr Félix,do livro "Ebulição da escrivatura -Treze poetas impossíveis" (Ed. Civilização Brasileira, 1978, RJ), coletânea que reuniu diversos poetas, como Sergio Natureza (assinando Sérgio Varela), Antônio Carlos Miguel (sob o pseudônimo de Antônio Caos), Éle Semog, Mário Atayde, Tetê Catalão, entre outros.
Publicou poemas e artigos na revista "Encontro com a Civilização Brasileira" (1978). Nos anos seguintes, publicou "Aboio" (cordel/ Ed. Corisco -Teresina - 1984), "Punhos da serpente" (poesia/ Ed. Achiamé, RJ, 1989), "Palávora" (poesia - Ed. Sette Letras, RJ, 1995), "O beijo da fera" (poesia - Ed. Sette Letras, RJ, 1996) e "Mural de ventos" (poesia - Ed. José Olympio, RJ, 1998).
Em 1998, ganhou o prêmio "Ribeiro Couto", da União Brasileira dos Escritores (UBE), com o livro "O beijo da fera". No ano seguinte, com o livro "Mural de ventos", foi o vencedor do "Prêmio Jabuti", da Câmara Brasileira do Livro, dividido com Haroldo de Campos e Gerardo Mello Mourão.
Em 2007 sua poesia foi estudada na Universidade de Brown, em Providence, Rhode Island, nos Estados Unidos.
Tem poemas traduzidos para o inglês, holandês, francês, alemão e espanhol.
Sobre ele, declarou seu conterrâneo Ferreira Gullar: "Salgado é um dos mais brilhantes poetas de sua geração e possui um trabalho de linguagem muito especial".
ABOIO
Para Alcione e para João do Vale (in memoriam)
Quem olha na minha cara
já sabe de onde eu vim
pela moldura do rosto
e a pele de amendoim
só não conhece os verões
que eu trago dentro de mim.
A vida desde pequeno
sempre cavei no meu chão
da raiz da planta ao fruto
fazendo calos na mão
eu aprendi matemática
descaroçando algodão.
Carcarás, aboios, lendas,
são minha história e destino
tudo que a vida me deu
é tudo que agora ensino
na quebrada do tambor
eu sou velho e sou menino.
AMOR ANÔNIMO
Amarrei o meu destino
na calda de um furacão
e me vejo do retrovisor de um sonho
a devastar telhados,
a decretar meu próprio apocalipse.
Amarrei meu coração
no rabo de um vulcão de saias
e sigo qual lunático
num pântano de fogo
sem bússola, sem corda, sem escolta
e sem saber sequer se existe volta.
quinta-feira, 10 de março de 2011
JIVM - GALO DE BRIGA
GALO DE BRIGA
Para Abraão Batista
Dentro da gema dos teus olhos
– núcleo da vivacidade –
diamantes violentos incrustados.
Todo o teu ser emplumado
concentra-se e conforma-se
em afiados punhais para a batalha.
Desde os esporões ao bico,
ao bater aflito de tuas asas,
tudo centrado e concentrado
no teu único motivo:
cravar a morte no teu irmão,
tirar o brilho do teu rival.
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
sexta-feira, 4 de março de 2011
RESULTADO DO SORTEIO DO LIVRO ROSEIRAL
terça-feira, 1 de março de 2011
PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS 2011 - ANO IV
Sob a necessidade de proporcionar aos maracaenses e ao público das cidades vizinhas opções de fruição da arte, trilhando caminhos opostos ao divertimento fácil e às armadilhas da cultura de massa, e sob a necessidade ainda maior de apresentar a diversidade da poesia brasileira e os escritores que se inscrevem no cenário literário atual, o projeto Uma Prosa Sobre Versos está na sua quarta edição, com a presença de renomados escritores, os quais estarão dialogando com o público sobre arte poética, cadeia produtiva do livro, relação entre escritor e leitor, crítica literária e experiências vivenciadas. Venha fazer parte desta festa, celebrar a beleza da linguagem.
Edmar Vieira
Coordenador do projeto Uma Prosa Sobre Versos
Diretor de Cultura do município de Maracás
Projeto Uma Prosa Sobre Versos 2011
18 de março – Salgado Maranhão (MA/RJ)
13 de maio – Elder Oliveira (BA)
e João de Moraes Filho (BA)
15 de julho – Alexandre Bonafim (MG/SP/GO)
9 de setembro – Igor Fagundes (RJ)
14 de outubro – Gláucia Lemos (BA)
e Lima Trindade (DF/BA)
Coordenação: Edmar Vieira
Curadoria: José Inácio Vieira de Melo
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
SORTEIO DE TRÊS EXEMPLARES DO LIVRO ROSEIRAL
Caro leitor, serão sorteados três exemplares do livro Roseiral, do poeta José Inácio Vieira de Melo.
Para participar do sorteio é preciso ser seguidor do blog Cavaleiro de Fogo.
Caso ainda não seja um seguidor, aproveite para se tornar um (à direita, em SEGUIDORES - logo após a capa do CD A casa dos meus quarenta anos).
Em seguida, basta colocar seu nome completo e seu e-mail no espaço dos comentários desta postagem e responder a seguinte pergunta: Qual o subtítulo do livro de poemas Roseiral?
COMO SERÁ FEITO O SORTEIO:
Os nomes dos participantes serão escritos em pequenos pedaços de papel, que serão dobrados e depois serão colocados dentro de um copo. O copo será sacudido várias vezes e depois serão retirados – um de cada vez – os três pedaços de papel com os nomes dos sorteados.
O resultado será divulgado aqui no blog. Após a divulgação os vencedores deverão mandar seus endereços para o e-mail jivmpoeta@gmail.com
***A promoção é válida até o dia 3 de março de 2011***
* Os comentários desta postagem só serão liberados no dia 4 de março *
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
PORTUGUESIA 2011 - REGISTROS
Wilmar Silva (MG), Fernando Ramos (RS), Rita Dahl (Finlândia), JIVM (AL/BA) e Gervasio Monchietti (Argentina)
JIVM (AL/BA), Ronald Augusto (RS) e Gervasio Monchietti (Argentina). Mediação: Gilberto Mauro (MG)
PROVOCAÇÃO: A vida e a morte do sol
ou Medulas de diálogo ou Metaformose vida e arte
JIVM ENTRE OS POETAS DA ESTIRPE DOS GUIMARAENS:Lucas Guimaraens e Afonso Henriques Neto
(bisneto e neto do poeta Alphonsus de Guimaraens)
OS POETAS ÍGNEOS: Ignacio Martínez-Castignani (Espanha) e José Inácio Vieira de Melo (AL/BA)
JIVM ENTRE OS POETAS PORTUGUESES: Luis Serguilha e Jorge Melícias
Babillak Bah (PB/MG), JIVM (AL/BA, Elaine Pauvolid (RJ), Rodrigo Zaidan Soro Araújo (RJ) e o filho de Babilak
Francesco Napoli, JIVM, Leonardo Morais e Rubens Rangel. Ao fundo: Wilmar Silva
LANÇAMENTO/APRESENTAÇÃO dos livros
A terceira Romaria, de JIVM (AL/BA), e Árvore em V, de Francesco Napoli (MG)
JIVM soltando um aboio e recitando o poema "Romaria" do seu livro A terceira romaria
LANÇAMENTO/APRESENTAÇÃO dos livros
A terceira Romaria, de JIVM (AL/BA), e Árvore em V, de Francesco Napoli (MG)
JIVM (AL/BA), Rita Dahl (Finlândia), Ronald Augusto (RS) e Wilmar Silva (MG)
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
JIVM NO PORTUGUESIA 2011

PORTUGUESIA 2011
Festa da poesia de línguas portuguesas e espanholas
Local: Instituto Cervantes – Belo Horizonte – MG
PROVOCAÇÃO:
A VIDA E A MORTE DO SOL OU
MEDULAS DE DIÁLOGO OU
METAMORFOSE VIDA E ARTE
CONVIDADOS:
Gervásio Monchietti & José Inácio Vieira de Melo & Ronald Augusto
PROVOCADORES:
Gilberto Mauro & Joaquim Palmeira

Data: 20/02/2011 – Horário: 19 horas
Local: Instituto Cervantes – Belo Horizonte – MG
APRESENTAÇÃO/LANÇAMENTO DOS LIVROS
A TERCEIRA ROMARIA
José Inácio Vieira de Melo
ÁRVORE EM V
Francesco Napoli
PROVOCADOR:
Leonardo Morais
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
JIVM - RURAL

Para Ivaldo Vieira de Melo
No teu cavalo peito nu cabelo ao vento
Alceu Valença
Eu vou pra roça, ajudar o dia a amanhecer,
chamar os bezerros pelos nomes de suas mães
e ver a vacaria apojar
e sentir a chuva de leite em meus olhos.
Eu vou pra roça, lá Manoel é Mané
e a única máscara são os calos de suas mãos:
– mãos encardidas de leite.
Eu vou pra roça, começar o dia com um sorriso.
Meu cavalo e eu – Centauro do Sertão –
sairemos campo afora
apascentando a boiada, o milharal, o açude.
E os cajus haverão de destravar as fronteiras
e ouvirei o canto das patativas se estender até Assaré
e me entenderei com as beldroegas
e compreenderei a labuta das formigas.
Das quedas, trarei a lição do levantar
e seguirei pela vida ao lado de meu irmão.
Eu vou pra roça, lá o documento é a palavra.
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
Poema do livro A terceira romaria, que vai ter a segunda edição lançada pela editora Anome Livros, no projeto Portuguesia, no dia 20 de fevereiro, às 19 horas, no Instituto Cervantes, em Belo Horizonte – MG, com a presença do autor.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
SANGUE NOVO - GABRIELA LOPES

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Qual o seu conceito de poesia?
GABRIELA LOPES – Se pensarmos de uma forma objetiva ou acadêmica, a poesia é o tratamento das palavras, isto é, trabalha com a linguagem para se criar uma mensagem estética. Mas o que seria a estética? A arte em si? Esses limites dentro das discussões da arte e da poesia são sempre difusos. O que eu posso afirmar é o conceito de poesia baseado no meu conhecimento empírico como leitora e criadora. Poesia é uma forma de ver o mundo dentro de um jogo de repensar aquilo que parece obvio para o outro e transformá-lo em algo inédito, é perceber o que está nas entrelinhas das situações, pessoas, objetos. Se pedíssemos a alguém para desenhar um gato, cada um desenharia de uma maneira diferente, a poesia é justamente essa observação da minha própria subjetividade e daquilo que me cerca.
JIVM – Para o poeta alagoano Lêdo Ivo, o poeta tem dois deveres essenciais: dar um sentido à vida e uma forma à realidade. E para você, quais são os deveres essenciais do poeta?
GL – O dever essencial do poeta é observar, anotar, assistir. O poeta é o telespectador da vida. Porém não é um telespectador passivo, o poeta também assume o papel de cineastra de um filme que é a própria vida. Experimenta de várias formas, corta, edita tudo que vê para finalizar. Trabalha com a imaginação e com a visão não tão obvia dos fatos, é quem consegue traduzir a subjetividade humana em palavras.
JIVM – quando foi que você se descobriu poeta? Lembra do primeiro livro de poemas que lhe marcou? Qual a importância da leitura na formação de um escritor? Quais são seus autores referenciais? E o que anda lendo, atualmente?
GL – Sempre gostei de ler poesia, mas por conta de algumas inibições quando mais nova, demorei a me aventurar a escrevê-la, comecei pela prosa poética e só ao entrar na faculdade de Letras consegui me aventurar. Ao fazer isso, percebi que a poesia já estava em tudo que escrevia ou na forma como vejo o mundo, então não sei dizer ao certo quando me descobri, mas sim, quando comecei a expor a minha poesia. Não lembro ao certo qual foi o meu primeiro livro de poemas, mas lembro de um diário que eu escrevi diversos poemas de Cora Coralina, cada página tinha um trecho ou os poemas inteiros. Á partir dela comecei a ler vários outros, e os que mais me marcaram além de Cora foram Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa e Mário Quintana na poesia, e Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst na prosa . A leitura desses poetas influenciou na minha produção textual como uma bricolagem, um pedaço de cada, um pedaço de mim, um pedaço do outro e quanto mais bagagem eu tenho, mais confiante me sinto como poeta. A leitura funciona como o fortalecimento do escritor. Atualmente, estou me desafiando nessas férias a ler em espanhol Como agua para chocolate da Laura Equivel.
JIVM – Como você analisa a discussão da forma e do conteúdo na poesia? Qual a importância do conhecimento das técnicas de metrificação para o fazer poético? E letra de música é poema? E o que define um texto como objeto de realização da arte poética?
GL – Forma e conteúdo se completam. Ou melhor se suplementam. Quando funcionam de formas equilibradas, forma dando razão a conteúdo e vice-versa, a poesia se torna mais rica. Como o uso da métrica, que permite uma sonoridade e equilíbrio no poema quando bem utilizada, mas isso depende da proposta, porque até a desconstrução da métrica é uma forma válida de construir a arte poética. Letra de música é uma manifestação poética, pois pretende passar pelo processo da oralidade que é diferente da leitura da poesia, entretanto muitos poemas são musicados, então penso que a interpretação pode ser mudada de acordo com o tom da voz ou a melodia. Música é um recurso e uma forma de ver a poesia entre tantas possíveis. O texto se torna um objeto de realização poética quando há possibilidades de interpretação da subjetividade. É a provocação na leitura e o efeito no leitor que transformam a poesia em uma arte, uma comoção ou uma ruptura consigo mesmo.
JIVM – E agora, Gabriela? Como andam o cravo e a canela? Da sua janela, a lua é um requeijão ou uma esponja redonda? Quais os projetos dessa jovem escritora? Já pensa em publicar o primeiro livro? E o que mais?
GL – Cravo e Canela só no chá da tarde. As vezes sinto que a lua nem aparece no céu ou está resplandescente demais... Pensar no futuro é sempre algo angustiante e ao mesmo tempo intrigante. Tenho tentado escrever duas histórias, talvez contos, talvez romances, ainda estão se construído como ideias. Quero trabalhar com escrita e com imagem, roteiro de cinema, romance, poesia. Nada certo ainda. O que sei é que preciso do processo criativo como forma de viver.
TRÊS POEMAS DE GABRIELA LOPES
PAUSA
O mesmo horário, as mesmas figuras
Meu corpo estirado e inerte
Do vai e vem de falas sem sentido
A tevê ligada com o volume nas alturas
Meus olhos pesavam sem sono
O mesmo lugar, a mesma rotina
A moleza se espalhava
Na forma dos meus ombros caídos
Os ouvidos latejavam
De futilidades constantemente repetidas
Cansado da fadiga do cansaço
Levantei
E na rua só ouvia o murmuro do silêncio.
TEIMOSIA
Costurei meus lábios
Cortado pelo silêncio
Que se molda como água
Em corpo de símbolos dispersos
Astros no instante de touro
Não me deixam perder.
EGO
Cristalizada na pintura
Guardo-me em caixa de nós
Moldada na janela em fresta
Da casa de bonecas.
Revela
A beleza de moça altiva
Na timidez de boca rosa
De olhar narciso
E Maria, as três contemplam
A margarida no jardim de ervas
Na mobilidade do cadeado.
Esconde
A sala de eco vazio
Moça curvada em melancolia
Corcunda de pai, mãe em libras
Tece sonhos em manta invisível
Dividida nos cacos de vidro
Pintada do sangue de juntar-se.
Renasce
Na bravura de velejar em tempestade
Desenhada em faces do tempo
Na tela sem moldura
Metamorfose de cada segundo
Me desfaço por inteira
E crio mais uma vez.
domingo, 30 de janeiro de 2011
JIVM - NERO

NERO
Botei fogo no mundo, botei sim!
Um vento forte soprava do norte,
peguei o facho em chamas e ateei fogo
nas coivaras ao meio-dia em ponto.
A caatinga é uma fogueira só:
que coisa mais linda a língua do fogo
lambendo tudo que é garrancho e pau,
estalando e chiando no imo verde
dos espinhos dos pés de quiabento!
Oh, bom pastor, somente a luz do fogo
para purificar os quiabentos.
Agora, meu pastor, que as sarças ardem,
que estou na brasa do meu sentimento,
toco minha lira em louvor de Nero.
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
SANGUE NOVO - VANNY ARAÚJO

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Vanny, por que inventar de ser poeta? Ou já se nasce poeta? E o que é ser poeta? E o que é a poesia?
VANNY ARAÚJO – Acho que a gente já nasce sendo poeta. Com aquela marca característica de quem nasce assim, cabeça das nuvens, mania de pensar demais, de amar demais todas as coisas. Mas isso não significa que uma pessoa não possa se descobrir poeta ao longo da vida. Um analfabeto pode ser um poeta fantástico. Poesia não é só meia dúzia de palavras numa folha. Poesia pode ser até uma folha em branco. Poesia é sentimento. E ser poeta é compreender esse sentimento e enxergá-lo nas pequenas coisas.
JIVM – Quais são os poetas que lhe fazem delirar e que lhe acompanham nos seus sonhos? O que lhe inspira? Que autores são referenciais? O que anda lendo no momento?
VA – Ah, não saberia viver sem eles! Paulo Leminski, Alice Ruiz, Mário Quintana, Florbela Espanca, Elisa Lucinda. Gosto muito de poesia feita por mulheres. O que me inspira? Acho que o mundo me inspira. A tristeza do mundo. A angústia. Gosto de escrever prosa sobre seres humanos em situações limites. Porém, paradoxalmente, gosto de poesias doces, felizes, amáveis. Me identifico muito com o fantástico Caio Fernando Abreu. Acho que fomos parentes numa outra dimensão...
Ando lendo um livro que ganhei do namorado, A Casa da Mãe Joana, de Reinaldo Pimenta. Curiosidades sobre a origem das palavras. Gosto muito de etimologia e ele é super gostoso de ler.
JIVM – Você escreve prosa, poesia e prosa poética. O que diferencia cada uma dessas linguagens?
VA – Adoro histórias. Adoro escrever sobre pessoas que eu nunca poderei ser. Por isso gosto muito de escrever contos. Histórias curtas, na medida certa, sobre personagens às vezes não tão interessantes assim. Mas não consigo me dissociar da poesia enquanto escrevo em prosa. Por isso a maioria dos meus escritos se tratam de prosa poética. Com muitas imagens, ritmo, e metáforas fáceis de se visualizar. Acho que a diferença está mais no ler do que no escrever. Conseguiríamos versar qualquer texto se quiséssemos. E como eu falei anteriormente, poesia está em tudo que se vê...
JIVM – Como é fazer poesia em um tempo que privilegia a velocidade e especialização constantes, em um tempo de parafernálias tecnológicas que nos aproximam virtualmente e, muitas vezes, enfraquecem os encontros, os contatos físicos?
VA – Não acho que a tecnologia atrapalhe em nada, acho até que aproxima. Se nascesse no século passado, provavelmente morreria sem que uma só alma lesse meus textos. O blog me proporcionou uma vontade maior de mostrar o que eu mais gosto de fazer. O problema todo está na cabeça das pessoas. Uma tela não substitui um rosto, um teclado não substitui um aperto de mão, uma caixa de som não é a mesma coisa que a voz. Mas pode parecer tão mais fácil se esconder atrás de uma máquina!
JIVM – E você, moça de 19 anos, o que pretende com a sua escrita? Algum livro no prelo? Qual a novidade em estar vivo? E o que mais?
VA – Seria audácia minha dizer que pretendo viver disso. Mas, quem sabe? Sinceramente não me vejo fazendo outra coisa. Que o universo e todas as estrelas do céu conspirem a favor disso!
Não tenho nenhum outro projeto literário em vista, até o presente momento. Mas novamente, quem sabe? O que pintar, eu faço. Termino com uma frase de Caetano: "Se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria, isto pra mim é viver".
TRÊS POEMAS DE VANNY ARAÚJO

AMARÁS
Meu coração outonou, meu destino soprou: amarás, amarás, amarás.
Até o último ato; até o último pranto.
É que eu nasci para amar.
E tenho como destino o triste, como sina, me entregar demais, me entregar total. Eu nasci para amar, e cada pedacinho de mim é amor; cada poro, cada pêlo.
Eu nasci pra ver o amor no espelho, amor diário, amor nas quinas e esquinas dos meus olhos, num suspiro sincero de alma.
Desde então, vou vivendo e vendo o desgastar das cordas do meu coração, amando mais, e sempre, e pronto, e só, e fim.
E no meu peito vibra tenso o aviso, a sorte: amarás, amarás, amarás.
EPOPEIA DRAMÁTICA DE UMA DONZELA BURLESCA
Minha vida sendo um romance
Seria daqueles bem mamão-com-açúcar
Daqueles que vendem em banca, sabe?
Eu a mocinha indecisa
Ele o rapaz ansiado
A gente passaria a maior parte separado
Eu vivendo com outros, ele distraindo outras
Se batendo e se desencontrando
Ou pior:
A gente poderia se amar, e não conseguir ficar juntos
Sabe-se lá por quê!
Eu seria bem sofrida, minha vida sendo um romance
E veria complicação em tudo
Seria tudo muito complicado
- Oh, meu amado! Eu te amo, mas não podemos ficar juntos!
Frescura, frescura, frescura...
Sabe do que mais?
Minha vida sendo um romance
Eu pularia logo pras últimas páginas
Pra me ver ficando pra sempre com você
Sem complicações
Sem desencontros
Sem controvérsias
Mas pensando bem, que graça teria?
Objetividade é pós-moderno demais
Eu sou romântica
- Até demais, até demais...
QUIMERA
Minha vida é procurar incansavelmente por uma metade.
Cada rosto que eu vejo, cada olhar que eu fito, o faço na vã esperança de reconhecer aquele que um dia chamarei de meu.
Um par.
Mas espero em vão... espero, e esperar tornou-se minha metade temporária.
É triste perceber isso, perceber que perco meu tempo ansiando por algo que não sei ao certo o que é. Ou se existe.
Mas é essa ânsia que me sustenta, que me afaga, que me consola. A ânsia de chamá-lo de meu bem, a ânsia de reconhecer nele a parte que faltava em mim.
Enquanto espero, e ah, como eu espero, vou contando os passos, os dias e as horas. Vou contando as nuvens eternas que me observam no azul do céu.
Invento amores platônicos, escrevo rimas insensatas, canto melodias inexistentes.
E guardo as histórias que lerei pra ele um dia, e ele rirá delas, ele rirá de mim enquanto diz que eu pareço um esquilo.
Eu serei o esquilo dele e ele meu menino-sol. E nós caminharemos nas calçadas de mãos dadas, enquanto chove fininho, ele recitando Neruda e eu bebendo coca-cola.
E seremos assim, dois-em-um, pra sempre. Minha vida sendo colorida pelos seus lápis, cada dia de uma cor.
"Serei...serás...seremos"
E meus poemas terão, enfim, sentido.
E minha vida terá, enfim, sentido.

sábado, 22 de janeiro de 2011
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
SANGUE NOVO - EDSON OLIVEIRA

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Qual a importância que a poesia tem na sua vida? Por que ser poeta? Onde você pretende chegar com a sua poesia? Enfim, para que serve a poesia?
EDSON OLIVEIRA – Penso que a poesia nos conduz a outra órbita, não ordinária, incomum, mas ao mesmo tempo vulgar e cotidiana. E se é possível falar em alguma função atribuída à poesia, imagino que seja mexer os ponteiros de nossas vidas e desfazer à noite as verdades que construímos durante o dia. Há quem diga que não tem função alguma a poesia, mas talvez esteja ai sua “funcionalidade”; não servir a nada nem para nada e perturbar aquele que a põe em movimento. E nesses movimentos que vão de um ponto a outro do hemisfério, sonho com uma poesia que um dia me leve sorrateiramente a mim.
JIVM – Que tempo de sua vida você dedica à poesia? Você é um leitor assíduo de poesia? Para você, é importante ter uma leitura de poesia? E o que anda lendo, atualmente? Tem recordação do primeiro livro de poemas que leu? E quais escritores são suas principais referências?
EO – Não sou um leitor assíduo de poesia, e nem tão pouco um poeta de ofício que tem escrivaninha, caneta e papel a seu serviço. Sou poeta intuitivo, que vê, sente, rumina, pára e escreve. Não sonho com os melhores versos do mundo, nem com um Prêmio Nobel de Literatura em minha estante; quero apenas captar o mundo, o meu mundo, através desse filtro imperfeito que é a palavra. E nessa busca me são úteis todos os poemas que já foram escritos ou aqueles que passeiam pelas ruas à espera de um sopro de vida. Leio Drummond, Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Gerardo Mello Mourão, Fernando Pessoa, Adélia Prado, Florbela Espanca, José Inácio Vieira de Melo, Sandro Ornellas, Lupeu Lacerda, Eliana Mara Chiossi, mas também me comove a poesia das cenas vulgares. E isso aprendi com o mestre Quintana, primeiro poeta dos meus olhos, cujos versos jamais esquecerei.
JIVM – Você é mestre em Literatura e Diversidade Cultural. Qual foi a contribuição que a academia trouxe para a sua criação? Como é que a poesia é tratada na academia? Há, realmente, poesia e prosa de ficção na Faculdade de Letras?
EO – Ainda luto contra esse título de mestre e todo o peso que sua liturgia acadêmica demanda. Meu avô está vivo há 101 anos, e este, sim, é que julgo mestre, de fato. Os outros são colecionadores de papéis e de diplomas, inclusive eu. Diante disso, embora o academicismo das letras tenha importância e materialidade para a formação de professores de literatura imagino que ele nos prive de acompanhar sem vícios o nascedouro efervescente das artes, neste caso a poesia; sem falar na blindagem que os grandes centros de pesquisa em letras apresentam quanto à chegada de nomes estranhos ao grande cânone literário.
JIVM – Qual a influência das outras linguagens artísticas – artes plásticas, cinema, música, dança, teatro, prosa, etc – na sua criação poética? Você também escreve prosa? Pratica alguma dessas manifestações artísticas citadas?
EO – Entendo que todas as artes estão conectadas. Elas dialogam entre si, se alicerçam mutuamente e ganham forma, cada qual, nos contornos de outra linguagem artística. Também é assim com a poesia, e ainda que eu não transite enquanto autor por outros campos da arte imagino que todos eles são evocados quando escrevo meus poucos versos.
JIVM – E o que anda aprontando o jovem Edson Oliveira? Quais projetos o movem? O primeiro livro já está esboçado? Algum projeto de publicação? E que mais?
EO – Não tinha maiores planos quanto à publicação de meu primeiro livro. Mas agora me chegou às mãos a oportunidade de integrar o projeto Sangue Novo - 21 poetas baianos do século XXI. Sem dúvidas, essa será uma grande vitrine, e eu espero saber aproveitá-la da melhor maneira possível. Tenho aprontado poemas pra essa coletânea (rs...).
TRÊS POEMAS DE EDSON OLIVERIA

À MUSA
Minha musa
é uma égua de dentes largos
a romper-me os bagos em noites girassóis
Com cabelos de ferrugem e olhos cor de anum
a filha da puta
sussurra verso seco
em meus ouvidos
Sinto arder a pena
se a ninfa preta
cruza
e geme palavras turvas
Quando canta,
vejo tremer a carne da cadela
Na sua cauda, escuto o fogo que escorre de mim.
Ah! Como é bom morrer...
Mas depois do gozo, a mariposa encolhe as asas
guardo minhas pernas no armário
e fico triste de tanto vomitar.
Dói-me o peito perder-te, musa.
ODE AO POETA
Tua língua
dança sobre a lâmina
teu sangue sujo
passeia pelas curvas
de teu corpo
e inunda as ruas da cidade.
Vejo o mundo explodir
de tuas veias, e
as pedras
os bancos
os pássaros e
as bicicletas
são da cor
do teu verso, e
o teu verso
é da cor do mendigo
que enfeita as esquinas.
QUANDO EU MORRER
Quando eu morrer
não quero flores brancas e amarelas
ou verso doce em meus ouvidos
não quero sinos e estrelinhas
nem o pranto de um amor sofrido
Quero a risada insana
quando eu morrer
e a dança leve
dos lírios antigos
Quero mãos livres do peito aberto
e a terra pesada
sobre meu jazigo
Quando eu morrer
quero morrer devagarzinho
pra lembrar dos sonhos das noites frias
e da paixão de ter vivido.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
SANGUE NOVO - BERNARDO ALMEIDA

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Para o poeta Schiller “a poesia é uma força divina e misteriosa, que age de maneira incompreendida”. E para você, o que é a poesia? E por que ser poeta? É algo imprescindível em sua vida?
BERNARDO ALMEIDA – Eu sinto a poesia como uma fratura exposta. É quando a pele rompe, o osso brota e o sangue jorra que enxergamos, de fato, o que há dentro de nós. É uma forma de autoconhecimento bastante impiedosa, apesar de eu não acreditar que a dor seja necessariamente a única fonte de inspiração de um poeta. É uma experiência sublime, bastante íntima, e, ao mesmo tempo, comum a todos – seja como criador, seja como leitor. No entanto, também acredito que a poesia possa ser o momento anterior a essa fratura, quando ainda não sabemos o que se esconde sob a pele e ficamos a imaginar.
Sobre ser poeta, acho que foi um caminho natural. Simplesmente, segui o fluxo e desemboquei nisso. Não consigo me enxergar apartado da poesia. Ser poeta muitas vezes incorre em baixas no campo de batalha da vida, mas isso não me intimida. Ao contrário, traz mais lenha à fogueira.
JIVM – Como a poesia chegou na sua vida? Lembra do primeiro livro de poesia que leu? E agora, qual livro está lendo? E quais são seus autores referenciais?
BA – Acredito que o meu primeiro contato com os versos aconteceu quando estava aprendendo a escrever o meu nome completo. Eu insistia em escrevê-lo versificado. Agora, livro de poesia, lembro-me de um, quando morava em Recife ainda na década de 1980, que trazia poesias de Manuel Bandeira, Drummond e Cecília Meireles. Mas, não recordo o título da obra.
No momento, estou lendo Poemas e Ensaios, de Edgard Allan Poe, Outono Transfigurado, de Georg Trakl, Ode ao Vento Oeste e Outros Poemas, de P. B. Shelley, além de alguns poemas de Nietzsche, em A Gaia Ciência. Estou terminando também a leitura de um livro do Marquês de Sade chamado “Escritos filosóficos e políticos” no qual achei uma poesia bastante interessante dele. Fora esses que citei, sempre mantenho no meu criado-mudo alguns autores, que são como companheiros de bar. No entanto, ficam ao lado da cama em forma de livro, e o máximo que chegam perto do álcool é através dos respingos da minha saliva ao ler em voz alta seus textos. São eles: Baudelaire, Bukowski, Pablo Neruda, Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Augusto dos Anjos, Genaro de Vasconcelos, Castro Alves, Antero de Quental... Ficam divididos em duas pilhas ao lado da cama junto com outros títulos em prosa. Tenho mania de ler vários livros ao mesmo tempo... Meus autores preferidos, para não cometer injustiças, são aqueles cujas obras ainda estão na minha biblioteca – seja física ou virtual (Rimbaud, Dylan Thomas, Maiakóvski, Leminski, Vinícius de Moraes, Walt Whitman, Fernando Pessoa, Sylvia Plath, Ediane do Monte, Leonard Cohen, Elizeu Moreira Paranaguá e mais uma galera).
JIVM – Como você analisa o cenário literário da Bahia? Principalmente de Salvador, que é a cidade em que você vive? E a população de Salvador tem conhecimento dos seus autores contemporâneos? Em caso negativo, o que poderia ser feito para que os poetas, e os escritores em geral, fossem mais lidos e, consequentemente, mais conhecidos e seus livros vendessem mais?
BA – Na Bahia, o cenário literário é bastante plural. Percebo que há muita gente escrevendo, mas não há estrutura editorial aqui. Então, boa parte do que se publica tem interferência do Estado, através dos editais. Acho importante a existência desse tipo de auxílio, mas o artista perde muito com essa vinculação, que representa um modelo bastante ultrapassado. A arte, para mim, teve um papel libertador. De acordo com esse ponto-de-vista, não compreendo como a associação de um escritor e sua obra com as estruturas governamentais de poder de uma sociedade possam contribuir para a manutenção desse caráter intrínseco à arte. Os artistas sempre estiveram do outro lado quando governos de direita e esquerda tentaram oprimir e desrespeitar ainda mais os direitos humanos.
A população de Salvador conhece pouco sobre quem são seus autores contemporâneos. De uma forma geral, para um número significativo de pessoas, tivemos apenas Castro Alves, Gregório de Matos, Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro. Talvez eu esteja exagerando. No entanto, isso não reflete o grau de interesse das pessoas daqui pela literatura, que é razoável para um País como o nosso - repleto de analfabetos.
Acredito que se os educadores tivessem mais interesse pela literatura, sobretudo pela poesia, teríamos um número maior de apreciadores. Acho também que o formato dos eventos literários precisa mudar. Infelizmente, tudo o que não tem cara de shopping center, tudo o que não envolve espetacularização, atrai menos público nos dias atuais. No final de dezembro, fui a um evento de literatura no Teatro Castro Alves que fazia dó. A platéia era composta basicamente pelos expositores.
JIVM – Qual a contribuição que as novas tecnologias trouxeram para literatura? E o livro, está com seus dias contados? Um novo suporte mais prático poderá aumentar o número de leitores?
BA – As novas tecnologias facilitaram a disseminação de obras e autores de uma maneira fantástica. É um canal de comunicação poderoso, sobretudo para escritores independentes. Quando liberei gratuitamente no meu site (www.bernardoalmeida.jor.br) dois arquivos de poesia, Achados e Perdidos e Crimes Noturnos, não imaginava que chegaria em 2010 com mais de 20 mil downloads. A internet nos tornou menos reféns de editoras. Penso que os leitores de e-books têm tudo para se popularizarem no Brasil, e isso vai espelhar o interesse dessa nova geração pela leitura. No entanto, não acredito que o livro esteja com os dias contados. Talvez, o formato livro, em alguns casos, sim. Vejo muitas pessoas baixando e-books, gratuitos ou pagos, e imprimindo eles depois. Por outro lado, eu mesmo tenho muitos e-books no computador os quais comprei, posteriormente, uma cópia em papel. Dá para conviver sem que o autor sofra com isso. Na verdade, ele só tem a ganhar porque cada formato está ligado a um tipo de público. Então, o que acontece é uma adequação para que mais pessoas possam ter acesso a obras literárias.
JIVM – E o que mais? Quais projetos? Já pensa em publicar o primeiro livro?
BA – Na verdade, eu já publiquei um primeiro livro, mas foi de maneira independente. Depois, quando vendi os exemplares em papel, distribui os arquivos gratuitamente na web. Penso em publicar outro livro em papel, sim. Ainda em 2011. O que não falta é poesia, mas vida de sagitariano não é muito ordenada – são as paixões, antes dos planos, que nos guiam.
TRÊS POEMAS DE BERNARDO ALMEIDA

PALAVRA
Uma palavra pode ser proferida
E esquecida com o tempo
Outra pode ser aquecida e sentida
Além da eternidade
Uma palavra pode ser mantida
Pode ser vencida
Pode ser transformada
Pode ser omitida
Pode ser deturpada
Pode ser lembrada
Uma palavra
Afasta o homem da ignorância
Aponta a saída do labirinto
Fantasiosa ou realista
Carrega vida em seu sentido
Uma palavra
Quando lançada
Não tem rumo
Não tem caminho certo
Trilha ao impulso do vento
E na velocidade do pensamento
Segue firme, vaga e veloz
Como uma flecha
Pode destronar uma certeza
E como uma chama
Pode transformar corações em brasa
Uma palavra
Simples e inútil
Pode mudar o mundo
Pode ultrapassar uma crença
Pode desatar nós e preconceitos
Pode vencer uma guerra
Aquela mesma palavra
Esquecida em meio a tantas outras
Na página amarelada de um livro qualquer
Pode ser a salvação
Ou a perdição
Na vida de alguém
Uma simples e imperfeita
Palavra
MOLHO REQUENTADO
Um brinde à morte
Esta idônea rapariga
Que de tão especial que é
Restringe-se a aparecer
Uma única vez em cada e toda vida
DE TODOS OS DECANOS INSANOS E PROFANOS
Na minha casa destampada
Baratas surgem das panelas
Rugem nas madrugadas
Têm tamanho de ratos
Na sala, morcegos rondam
Cadeiras aleijadas e abajures sem luz
Tateiam, bêbados, os prantos do escuro
Em círculos incompletos – devoram o absurdo
Os pisos não participam do festim
Pedem apenas para ser trocados
Súplica negada!
No prédio, não há janelas
Mas televisões
Cujas telas são auditórios
Em que o palestrante profere
Um discurso pornô
Em sincronia
Com os reais ruídos
Do amor
Aqui, nas madrugadas
Da Bahia, em Salvador
Não existem santos
Talvez cheguem como tais
Mas morrem sempre mundanos
Nada a expiar, somos todos perdidos
Processo de canonização interrompido
Pelos eflúvios sexuais
Pela efusão da libido
Embebidos em êxtase
Peristálticos excessos
Na cidade que é mãe
E amante do poeta
Que é tia e mãe
Das minhas netas
Devotos do prazer
Todos os santos amuados
Converteram-se em vivazes peregrinos
Em busca do deus humano do orgasmo
Que redime o pecado
Sem tentar curar ou glorificar
Aquilo que já está salvo e satisfeito
Ceifado, deglutido, envenenado e celebrado
Pela carne nua da hóstia
Banhada nos mares hostis
Relutantes e resolutos
Da pia batismal oceânica
Na qual deitou a cabeça
Do nome de nascença
Dessa terra lúbrica
Que se fez povoar
Pela indiferença
domingo, 9 de janeiro de 2011
JIVM - EXERCÍCIOS CRÍSTICOS
Poema de José Inácio Vieira de Melo, recitado pelo próprio autor, na Fliporto 2010, em Olinda, para o Portal de Poesia Íbero-americana, site criado por Antonio Miranda, escritor e diretor da Biblioteca Nacional de Brasília.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
JIVM - NOTURNO
Saúde e sorrisos no Ano Novo.
Poesia e pássaros por toda a existência.
Abraços.
JIVM

NOTURNO
A minha noite é imensa dentro da sua largura,
e de um canto a outro é cheia de grilos –
deuses do Oriente que cantam para as estrelas
que se deleitam e dançam seu brilho para mim.
A minha noite é silente e calma – uma tempestade
que avança na imensidão dos meus abismos
como vermes a roer minha carne e meu prazer.
Dentro da minha noite tem uma vaca
que é sagrada e é um templo, uma igreja:
o seu chocalho é o sino que a todo instante
anuncia a vida e me convida para o agora.
A minha noite é enorme e dentro dela cabem
as mil e uma noites, bilhões de estrelas
e toda a poesia.
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO




