terça-feira, 26 de outubro de 2010

A DÉCIMA SINFONIA DE CARLOS MOISÉS



Hoje, 26 de outubro de 2010, meu filho primogênito, Carlos Moisés, está completando 10 anos. Festa em meu coração!
E um dia ouvíamos a “Sinfonia Coral” (Nona Sinfonia) de Beethoven, sentados à beira de uma fogueira, lá na fazenda Pedra só e, de repente, quando os cantores líricos cantavam a “Ode à Alegria” de Schiller, Moisés trouxe do âmago do seu ser o poema “Sinfonia”. Não sabia ele que havia feito um hai-kai.
E era uma vez, Moisés, Gabriel e eu galopando dentro da tarde – meus filhos e eu entrando na boca da noite. Passamos num açude para dar água aos nossos cavalos. E havia uma árvore cheia de garças, e as estrelas começavam a brilhar no firmamento. Foi quando Moisés trouxe para nós o seu poema “Galope”. E seguimos galopando, noite adentro.
Parabéns, Carlos Moisés, meu filho. Vida longa, Saúde, Paz, Amor e Poesia. Que a claridade do Sol e da Lua alumie seu caminho.
A minha gratidão a Deus, à Linda, aos deuses, às divindades, aos santos, às musas, aos poetas pela dádiva da companhia de meus filhos.

JIVM



DOIS POEMAS DE CARLOS MOISÉS SOGLIA DE MELO


S I N F O N I A

É cheio de estrelas
o silêncio do maestro.
Dança a lua cheia.


G A L O P E

Minhas mãos feitas de garças
agarram-se à saia do Universo:
cavaleiro, galopo estrelas.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

JIVM - ROSEIRA



ROSEIRA


Quanto pode durar a planta breve?
Da pétala à cabeça – a extensão:
um verão de calipígias mulheres,
rosas rubras que despertam prazeres.

Espinhos, espalhadas folhas cantam,
cantam e atravessam, de ponta a ponta,
as pedras das linhas duras do sonho.
Dentro, as mulheres, rosas escandidas.

As mulheres respondem com o orvalho
e caminham, de saltos altos, por
cima e saltam, inocentes, a morte.

E recebem obeliscos linheiros
e cantam os gemidos espondeus
e florescem nas formas da beleza.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

terça-feira, 12 de outubro de 2010

SANGUE NOVO - FABRÍCIO DE QUEIROZ VENÂNCIO



DESAGUAR EM VERSOS – FABRÍCIO DE QUEIROZ VENÂNCIO, 23 anos, nasceu em Salvador e é estudante da Universidade Federal da Bahia. Tem poemas publicados na antologia Diversidade e Convivência (EDUFBA 2009). Participou da Praça do Cordel e da Poesia, na Bienal do Livro da Bahia (2009), e editou e participou da primeira edição da revista Na Borda da Xícara. Mantém o blog http://www.fabriciodequeiroz.blogspot.com/ Para ele a escritura é um desaguar em versos. Vamos conhecer um pouco do manancial de Fabrício, poeta que inventou a borda da xícara e que borda versos no tecido do universo.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Por que você escreve?

FABRÍCIO DE QUEIROZ VENÂNCIO – Escrever para mim é como um desaguar. E algumas coisas só consigo desaguar em forma de verso. Comecei dessa forma e com as leituras e o tempo fui aperfeiçoando o modo de escrever, quanto a rima, forma, etc. Contudo, não mudei essa minha peculiaridade de "desaguar em versos".

JIVM – Você e dois amigos, Max e Darlan, publicaram o primeiro e único número da revista Na borda da xícara. De quem foi a idéia? E por que a revista homenageia o poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos? E por que não publicaram outras edições?

FQVNa Borda da Xícara surgiu de uma reunião semanal fracassada que eu e mais três amigos, Max, Lucas (este compõe a primeira edição da revista) e Vítor, tínhamos para discutir nossas leituras, uma espécie de café literário/filosófico. Em mais uma falta semanal dos dois últimos, Max propôs a construção de uma revista e eu simplesmente topei. No mesmo dia esquematizamos o formato, dividimos atividades, resgatei um nome que Max sugeriu para um blog a alguém e posteriormente convidamos Darlan para ajudar.
O livro Como Se (do Cajazeira) foi encontrado num sebo pelo Vítor, que nos levou e imediatamente nos apaixonamos. Depois de um tempo, já com a revista em editoração, conseguimos o número dele e ele foi muito atencioso em nos encontrar (na época ele só conheceu o Max) e dar conselhos... Depois se afastou e justificou que não queria que a revista ficasse com a "cara dele", mas com a nossa. Cajazeira foi nossa grande descoberta na Bahia, nos abriu as portas para que conhecêssemos o que de bom se faz de poesia por aqui, é um excelente poeta e sua atenção e ações foram fundamentais na elaboração da revista. Eu e o Max somos fãs dele.
Não continuou, por enquanto, por questão financeira. Nós não queríamos, na época, encher a revista com propaganda de patrocinadores, o que nos afastou da idéia da busca de patrocínio privado. Resolvemos bancar e contar com os escritores para isso. Pagamos boa parte do custo da primeira edição indo a eventos vender a revista, o que dá um trabalho enorme. Nenhum de nós três vive pela literatura e decidimos não ter esse trabalho novamente e tentar custear a revista via edital de cultura. Passamos da primeira fase em um destes, mas não deu. Vamos continuar tentando via edital.

JIVM – Você lê muito? Qual foi o primeiro livro que leu? O que está lendo agora? Quais são os seus escritores referenciais?

FQV – Leio muito sim e não lembro o primeiro livro que li, acho que foi algum fininho que encontrei pela biblioteca da escola onde fiz meu ensino fundamental, em Cajazeiras.
Lembro do primeiro que me marcou, que foi As Brumas de Avalon, de Marion Z. Bradley. Atualmente estou lendo um livro técnico e, enfim, Dom Quixote.
Acredito que vou apreendendo um pouco do que vou lendo. Inicialmente lia poetas de língua inglesa como T.S. Eliot e Willian Blake. Eliot influenciou muito na forma em que escrevo. Depois fui descobrindo os clássicos e agora estou no Brasil e na Bahia, com Ruy Espinheira, Ivan Junqueira, Cajazeira Ramos, etc.

JIVM – Como você analisa a cena poética de Salvador? Os eventos e projetos são muitos e há espaço para todos? Ou a coisa é escassa? Os poetas são unidos ou se degladeiam? E você nesse meio, como age?

FQV – Pra mim é difícil dar uma resposta confiável a essa pergunta, já que aos espaços, quando frequento-os, chego, assisto, digo alguns "ois" e vou embora. Não por falta de crédito, ou qualquer coisa assim, mas por timidez mesmo. Não me lembro de 'degladeamento' em meio impresso ou digital. Sei de algumas rixas vindas de rumores, mas nada escancarado.
Eventos existem. Agora, quando vou, comumente me deparo com as mesmas pessoas (não que não goste delas) e, quando há novas, são normalmente da Academia. Carecemos de um Projeto para de fato tentar começar a universalizar a poesia... Tem tanta gente "jogando versos" por aí. Deve-se ter precaução para que não se forme um meio caduco que fica escrevendo para si mesmo. Poesia é arte e portanto uma das formas de procurar entender a si e ao mundo.

JIVM – E agora? Uma nova revista? A publicação do primeiro livro? E o que mais?

FQV – Aguardando editais para Na Borda da Xícara, acho que a revista merece. Quanto a livro não me sinto a vontade com os meus poemas para colocá-los em um livro, não ainda. Existe uma proposta de uma editora para eu e o Max escrevermos um livro juntos, já que temos alguns poemas "a quatro braços", mas estamos vendo isso ainda. É algo, no mínimo, ousado de se fazer.
Mas, pelo lado de cá, ousadia não falta.

TRÊS POEMAS DE FABRÍCIO DE QUEIROZ VENÂNCIO


















PAREDES


"O que são as lembranças senão o idioma dos sentimentos?"
Júlio Cortázar


Pia no canto do quarto um rádio empoeirado,
a maresia, convidada pela janela aberta,
passeia livre pelos objetos usados.

A parede, sebosa e caduca, não se recorda do branco;
o brilho faz parte da memória da madeira
e a cadeira já não serve para sentar.

Um último pio do vento e pronto, arma-se a lembrança:
risos de criança que giram num carrossel envelhecido,
ciranda de velhos que rezam em redor do epitáfio.



IDADES


O silêncio está enferrujado na dobradiça.
Atrás da porta repousa o tempo,
na cabeceira está o pó e no pó
repousam minhas peças velhas.

O terço foi atacado pelas feras,
a cruz tem a ferrugem da descrença;
a santa imagem repousa só
e seus pés estão descalços.

No chão o retrato das minhas eras,
o cabresto que me atém ao luar.
Junto à janela a marca do suor,
a lembrança do eco de passos no vitral.

As traças me fazem lembrar a vida,
os ratos me causam o comichão.
Eu, não sou mais que uma saudade
carregada por um vento já cansado;

um vento farto de mim.



FORMIGAS NO TETO


Faz pouco sentido enquanto espero
a música ainda toca triste, baixo
os amigos estão na sala, sorrindo
estamos indo em silêncio
e nosso choro não pode ser escutado.

Enlouquecemos mas somos ignorantes,
no nosso jogo só existem dois.
No formigueiro brincamos de ciranda,
chamamos de belo o perigoso
de desejo o que é costume.

Pensamos e sorrimos ao mundo,
Somos sebosos e é suja nossa fé,
nosso respiro é gorduroso:
só no cochilo há o alívio,
só na parede a distração.

Não somos mais que este quarto,
Este odor de cigarro abafado,
esta porta de ferro fechada:
Sua ferrugem é o nosso carisma
e nossa canção está no teto.

As formigas caminham,
concentram a nossa atenção.
A tela se apaga pelo desuso,
o banho quente cessa.
E o silêncio, lentamente, nos sufoca.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

VERÔNICA DE VATE - MYRIAM FRAGA



MYRIAM DE CASTRO LIMA FRAGA nasceu em Salvador, Estado da Bahia, a 09 de novembro de 1937, filha de Orlando de Castro Lima e Beatriz Pondé de Castro Lima.
Tendo iniciado suas atividades literárias publicando assiduamente em revistas e suplementos literários, estréia em livro com Marinhas, poesia, no ano de 1964, pelas Edições Macunaíma – editora especializada em publicações de tiragem limitada e de alto padrão gráfico, sob a orientação artística do gravador Calasans Neto.
Com poemas traduzidos para o inglês, francês e alemão, tem participado de diversas antologias no Brasil e no exterior. É citada em várias publicações nacionais e estrangeiras, entre elas: Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira, de José Paulo Paes e Massaud Moisés (1968); Grande Enciclopédia Delta Larousse (1972); Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho, (1990), História da Literatura Brasileira, de Luciana Stegagno Picchio (1997) e Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras:1711-2001, por Nelly Novaes Coelho (2002).
Tem participado, como escritora convidada, de inúmeras conferências e seminários no Brasil e em outros países, como: I Encontro da Poesia Brasileira – Semana Joaquim Cardoso, em Recife (1981); II Bienal Nestlé de Literatura, em São Paulo (1984); Brasilian Writters Project, nos EUA (1985); 40º Congresso da União Brasileira de Escritores – UBE, em São Paulo (1986); III Bienal Nestlé de Literatura, em São Paulo (1986); 5º Encontro Nacional de Acervos Literários Brasileiros, PUC – Rio Grande do Sul, (2001); Simpósio sobre a Cultura e a Literatura Caboverdianas, em Mindelo, Cabo Verde (1986); Encontro Poesia em Lisboa, em Lisboa (1998); III Congresso Nacional de Escritores, em Pernambuco (2002); Colloque Jorge Amado, Sorbonne, em Paris (2002); Encontro sobre poesia, na Universidade de Rennes, França (2005), Festival Literário de Parati – FLIP, Rio de Janeiro (2006); Festival Literário de Porto de Galinhas, Recife (2007); Semana do Brasil, em La Rochelle, França (2007);
Eleita por unanimidade membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, tomou posse no dia 30 de julho de 1985, passando a ocupar a cadeira de n.º13, que tem como patrono o poeta Francisco Moniz Barreto, na vaga de Luiz Fernando Seixas de Macedo Costa. Foi membro do Conselho Federal de Cultura, do Conselho Federal de Política Cultural, e do Conselho Estadual de Cultura, do Conselho Editorial da Fundação Cultural do Estado da Bahia. e do Conselho da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia-FAPESB.
Diretora Executiva da Fundação Casa de Jorge Amado desde sua instituição, em julho de 1986, vem se dedicando, igualmente, à área de Administração Cultural. Entre 1980 e 1986, esteve à frente de projetos pioneiros na Fundação Cultural do Estado da Bahia, quando coordenou a Coleção dos Novos e foi responsável pelo projeto de criação do Centro de Estudos de Literatura Luiz Gama, hoje Departamento de Literatura.
Membro do Conselho da Associação Baiana de Imprensa – ABI, além de manter colaboração em revistas e jornais, foi responsável pela coluna Linha D’Água, sobre assuntos culturais, publicada aos domingos no jornal A Tarde, de Salvador, de 1984 a 2004.
Recebeu os seguintes títulos e prêmios: Prêmio Arthur de Salles (Secretaria de Educação e Cultura do Estado da Bahia, 1969); Prêmio Casimiro de Abreu (Secretaria da Educação e Cultura do Estado do Rio de Janeiro, 1972); Medalha Castro Alves (Ordem Brasileira dos Poetas da Literatura de Cordel. Salvador, 1984); Medalha do Mérito Castro Alves (Secretaria de Educação e Cultura do Estado da Bahia, 1984); Personalidade Cultural (União Brasileira de Escritores – UBE. Rio de Janeiro, 1987); Medalha Maria Quitéria (Câmara dos Vereadores da Cidade do Salvador, 1996); Prêmio COPENE de Cultura e Arte (COPENE. Salvador, 1996); Troféu Catarina Paraguaçu (MAM e TGM. Salvador, 1997); e Prêmio Alejandro José Cabassa (UBE. Rio de Janeiro, 1998).

BIBLIOGRAFIA

POESIA
Marinhas (Ed. Macunaíma, Salvador, 1964); Sesmaria (Ed. Imprensa Oficial da Bahia, Prêmio Arthur Salles, Salvador, 1969); O livro dos Adynata (Ed. Macunaíma, Salvador, 1973); A ilha (Ed. Macunaíma, Salvador, 1975) O risco na pele (Ed. Civilização Brasileira, Rio, 1979); A cidade (Ed. Macunaíma, Salvador, 1979); As purificações ou o sinal de talião (Ed. Civilização Brasileira, Rio, 1981); A lenda do pássaro que roubou o fogo (Ed. Macunaíma, Salvador, 1983); Six poems, trad. Richard O’Connell (Ed. Macunaíma, Salvador, 1985); Os deuses lares (Ed. Macunaíma, Salvador, 1992); Die Stadt, trad. Curt Meyer-Clason (Ed. Macunaíma, Salvador, 1994); Femina (Ed. Casa de Palavras/ COPENE, Prêmio COPENE Cultura e Arte, Salvador, 1996) e Poesia Reunida (Ed. Academia de Letras da Bahia / Assembléia Legislativa, 2008).

ANTOLOGIAS
Cinco poetas (Ed. Macunaíma, Salvador, 1966); Antologia da moderna poesia baiana (Ed. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1967); 25 poetas da Bahia (Ed. DESC, Salvador, 1968); Sete cantares de amigos (Ed. Arpoador, Salvador, 1975); Antologia de poetas da Bahia, em alfabeto braile (Ed. da Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1976); Em carne viva, org. Olga Savary (Ed. Anima, Rio de Janeiro, 1984); Poetas contemporâneos, org. Henrique Alves (Ed. Roswitha Kempf, São Paulo, 1985); Simulations, org. Richard O’Connell (Atlantis Editions, Flórida/USA, 1993); Sincretismo – a poesia da geração 60, org. Pedro Lyra (Ed. Topbooks, Rio de Janeiro, 1995); Modernismo brasileiro, org. Curt Meyer-Clason (Druckhaus Galrev, Berlim /ALEMANHA, 1997); Poésie du Brasil, org. Lourdes Sarmento (Ed. Vericuetos, Paris/FRANÇA, 1997); Poesia em Lisboa (Ed. Casa Fernando Pessoa/P.E.N. Club Português, Lisboa/PORTUGAL, 1998); A poesia baiana no século XX, org. Assis Brasil (Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1999); Águas dos Trópicos, org. Beatriz Alcântara e Lourdes Sarmento (Ed. Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, 2000); Antologia de Poetas Brasileiros, sel.org. Mariazinha Congílio (Universitária Editora Ltda, Lisboa, 2000); A Paixão premeditada, org. Simone Lopes Pontes Tavares (Ed. Fundação Cultural do Estado da Bahia, 2000);Poetas da Bahia século XVII ao século XX, org. Ildásio Tavares (Ed. Imago/Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 2001); Antologia da Poesia Brasileira, org. Xose Lois Garcia (Ed. Laiovento /Santiago de Compostela/Galiza, 2001); Companhia de Poetas, org. José Alberto Pinho Neves (Ed.Funalfa, Juiz de Fora, Minas Gerais, 2003); Perfil Grécia - em Poetas do Brasil, org. Stella Leonardos (Ed. Francisco Alves/Rio de Janeiro, 2004); Geopoemas (Geopoems), org. Luiz Angélico da Costa (Ed. da Universidade Federal da Bahia –EDUFBA, Salvador, Bahia, 2007).

BIOGRAFIAS
Flor do sertão
(Ed. Macunaíma, Salvador, 1986), Uma casa de palavras (Fundação Casa de Jorge Amado/Casa de Palavras, Salvador, 1997), Leonídia, a musa infeliz do poeta Castro Alves (Fundação Casa de Jorge Amado/Casa de Palavras/Copene, Salvador 2002).

INFANTO-JUVENIL
Castro Alves (Ed. Callis, Coleção Crianças Famosas, 2001); Jorge Amado (Ed. Callis, Coleção Crianças Famosas, 2002); Jorge Amado (Ed. Moderna, Mestres da Literatura, 2003); Castro Alves (Ed. Moderna, Mestres da Literatura, 2004); Luiz Gama (Ed. Callis, A luta de cada um, 2005); Carybé (Ed. Moderna, Mestres da Pintura, 2005); Graciliano Ramos (Ed. Moderna, Mestres da Literatura, 2007)

*

Amanhã, a cidade de Maracás terá o momento de culminância do projeto Uma Prosa Sobre Versos com a presença de Myriam Fraga, diva da poesia baiana. E para receber a grande poeta, mais uma vez o Grupo Concriz preparou um recital com uma antologia de poemas da convidada, com o qual receberá a poeta de Femina, em homenagem calorosa. Calorosa é uma palavra que se aplica bem para a comunidade maracaense, que apesar de viver na terra do frio, sabe passar afetividade e calor humano. Todos que participaram e participam do projeto, dos organizadores à platéia, estamos de parabéns. Que na noite de amanhã, às 19:30 hs, o Auditório Municipal de Maracás esteja repleto de pessoas, como é de costume. E que em 2011 o projeto seja mais forte ainda.
Mas a jornada poética de Myriam não para por aí, na noite do dia seguinte, sábado, 9 de outubro, encerrará as atividades do projeto Travessia das Palavras, que vai acontecer na Câmara Municipal de Vereadores, da cidade de Jequié, às 19:30 hs. O projeto vai contar também com a presença do Grupo Concriz, que brindará a poeta com um belo recital. Na mesma noite, Leonam Oliveira, um dos coordenadores do projeto Travessia das Palavras e atual presidente da Academia de Letras de Jequié, dará posse ao novo presidente da instituição, Adilson Gomes, assim como aos novos membros da ALJ: Ivan Estevan Ferreira, José Inácio Vieira de Melo, Julio Pereira Lucas Neto, Maribel Oliveira Barreto e Zilda Freitas.


ARS POETICA


Poesia é coisa
De mulheres.
Um serviço usual,
Reacender de fogos.

Nas esquinas da morte,
Enterrei a gorda
Placenta enxundiosa

E caminhei serena
Sobre as brasas
Até o lado de lá
Onde o demônio habita.

Poesia é sempre assim:
Uma alquimia de fetos,
Um lento porejar
De venenos sob a pele.

Poesia é a arte
Da rapina.
Não a caça, propriamente,
Mas sempre nas mãos
Um lampejo de sangue.

Em vão,
Procuro meu destino:
No pássaro esquartejado
A escritura das vísceras.

Poesia como antojos,
Como um ventre crescendo,
A pele esticada
De úteros estalando.

Poesia é esta paixão
Delicada e perversa,
Esta umidade perolada
A escorrer de meu corpo,

Empapando-me as roupas
Como uma água de febre.



POEMA


O canto é o mesmo.
Farol de destinos
Decapitados.

Brancos os campos
De sol mais claro
E os olhos baços.

Fita de pedras
Circundando o exato.

No corpo de vidro
As serpentes se agitam,
E as enxadas na pedra
Reconstroem o espaço.

Antes era o silêncio,
Água tranquila
Onde nadavam peixes,

Antes era o não ser,
A flor boiando escura.

Hoje existe apenas
A fadiga da pedra,
O sono amortecido das esferas,

E o corpo se descosendo,
Inexoravelmente.


MYRIAM FRAGA

terça-feira, 5 de outubro de 2010

JIVM NO TERÇAS POÉTICAS - REGISTRO


Abaixo alguns registros fotográficos da minha passagem por Belo Horizonte, onde participei do Terças Poéticas, em 28 de setembro, projeto semanal coordenado pelo poeta Wilmar Silva. Além do Terças Poéticas, gravei o programa Tropofonia, da Rádio UFMG Educativa, apresentado por Wilmar Silva, Francesco Napoli e Cristina Borges, que vai ao ar às segundas-feiras, às 23 horas. O Tropofonia é uma loucura! O programa dedicado à minha poesia será veiculado na próxima segunda, dia 11 de outubro. Para assistir basta entrar no site da Rádio UFMG Educativa (http://www.ufmg.br/online/radio/) e ouvir a programação em tempo real.
JIVM

"Não é nada fácil ser juiz da própria loucura"

"Meu coração é mesmo a rosa viva"

"A vida é uma lavoura de pólvora"

José Inácio Vieira de Melo e Wilmar Silva

Wilmar Silva, Regina Mello e JIVM

JIVM e Paulinho Pedra Azul

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

JIVM - SOLUÇO


Foto: Ricardo Prado

SOLUÇO


Tem uma voz que grita o tempo todo em meus ouvidos:
– Esse menino é todo diferente dos outros!

(E eu ainda não sei onde é que está essa diferença
nem muito menos o que fazer com essa diferença.
Eu não sei nem pra onde ir com a minha diferença).

E agora eu só sei te falar desse labirinto.
E este soluço que saiu da casa do medo
está cheio de coragem.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

sábado, 25 de setembro de 2010

JIVM NO PROJETO TERÇAS POÉTICAS



Serviço
Evento: Terças Poéticas - José Inácio Vieira de Melo
& homenagem a Francisco Carvalho
Data: 28 de setembro de 2010
Horário:18h30
Local: Jardins Internos do Palácio das Artes,
Belo Horizonte - MG
Entrada franca
Classificação etária: livre
Informações: (31) 3236-7400

terça-feira, 21 de setembro de 2010

POESIA SEM “MÁSCARA DE FERRO”

Por Francisco Carvalho


Depois de ler o admirável posfácio de Eliana Mara Chiossi, não sei o que mais poderia dizer a respeito do livro de poemas de José Inácio Vieira de Melo: Roseiral de palavras que nos transmitem os conteúdos da modernidade literária do tempo presente. O poeta rebelde à linguagem transcendente dos versejadores que celebram o mundo, como se fosse uma casa de portas e janelas abertas para os líricos de meia tigela. Eliana Chiossi mergulha nos labirintos de sua dicção poética para decifrar os enigmas de sua personalidade literária. Ela nos fala, com extraordinária densidade crítica, do “abalo mais visível do seu universo interior, presente nas combinações semânticas” que conferem “a seus versos uma tonalidade rubra, passional e incendiária”, num processo de associações que incendeiam as ideias, à maneira de coivaras que ardem nas fazendas sertanejas para a plantação das primeiras chuvas.
Destaca a composição dos sonetos brancos, impressos na segunda parte do livro. Afirma que o poeta tem profunda admiração “pelos poemas de forma fixa. Estudioso assíduo da metrificação, escolhe os versos decassílabos” para exprimir sensações e desenvolver temas sobre acontecimentos telúricos que homenageiam o “feminino”. O poeta exibe comportamento viril na sua poesia, e o faz de maneira explícita, com palavras e ideias precisas.
Os sonetos brancos me parecem ótimos, além de serem uma forma de sair da “máscara de ferro” do velho soneto petrarquiano, tão vilipendiado pelas gerações modernas. Os sonetos brancos me agradam pela flexibilidade formal, principalmente os rimados sem o rigor dos sonetistas à moda antiga. Acredito que a boa poesia pode estar presente nos versos rimados e metrificados. Inúmeros poetas poderiam servir de exemplo a essa afirmação, desde que não se leve demasiado a sério o vício de rimar dos parnasianos.
JIVM é um poeta admirado pelos amantes da poesia, medida ou sem medida. Não se apresenta como poeta radical. Pelo contrário, é bastante flexível para compreender que os tempos mudaram, e que os poetas têm de estar atentos para o rumo da onda. Na página 75, ele confessa abertamente: “Em seus largos cômodos,/ habitam uma enorme solidão/ e muitas vontades de vida.” na página 70 ele nos diz que sua “noite é imensa dentro da sua largura/ e de um canto a outro é cheia de grilos”... Na página 69, faz o elogio das nádegas femininas, sem levar em conta o falso moralismo dos que tentam esconder os privilégios da sexualidade.
Lendo JIVM, ficou-me a impressão de que ele tem grande afinidade com a obra poética de Gregório de Matos, conhecido pela alcunha de O Boca do Inferno. Segundo Augusto de Campos, “Gregório de Matos continua a esperar que as gerações mais novas arranquem a “máscara de ferro” dos sonetos de piedade e arrependimento que, em nome do ‘humano’ e do decoro, lhe afivelam à genial boca do inferno”.
Estou convencido de que JIVM é um poeta de expressão nacional, na medida em que usa a linguagem do povo na realização de seus poemas. Ele recorre à sensibilidade dos humildes para exprimir os sonhos de cada um de nós.


Francisco Carvalho é poeta e ensaísta. Publicou, entre outros, Quadrante Solar (1982) – Prêmio Nestlé de Literatura, Girassóis de Barro (1997) – Prêmio Fundação Biblioteca Nacional, Memórias do Espantalho (2005) e O Sonho é Nossa Chama (2010).

Resenha publicada na revista virtual Verbo21 número 133, agosto 2010 (http://www.verbo21.com.br/v3/)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

SANGUE NOVO - ÉRICA AZEVEDO



ASTRO FLAMEJANTE – ÉRICA AZEVEDO nasceu em 1983, na cidade de Santo Estevão,onde ainda reside. É professora de Língua portuguesa e literatura brasileira, graduada em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), mesma Instituição em que se especializou em Estudos Literários. Para Érica poder transformar um momento ou um novo olhar num poema é algo tão necessário quanto o próprio respirar. Vamos, então, conversar um pouco com essa jovem poeta que, como Florbela Espanca, acredita que ser poeta é “ter cá dentro um astro que flameja”.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – A poesia atende a quais demandas suas? Ou é você que atende a um chamamento premente, “mais urgente do que a vida”, como diria o poeta Alberto da Cunha Melo? Ser poeta é uma missão ou um projeto?

ÉRICA AZEVEDO – Eu não escolhi ser poeta, quando percebi já estava escrevendo, ou melhor, já sentia a necessidade de escrever. Este é o meu modo de aquietar as angústias que alimentam meu ser, minha forma de tornar suportáveis as dores humanas. Poder transformar um momento ou um novo olhar num poema é, para mim, algo tão necessário quanto o próprio respirar. Florbela Espanca afirmou que ser poeta é “ter cá dentro um astro que flameja”. E esse astro às vezes me queima, outras me extasia... E assim continuo escrevendo e vivendo. Posso dizer, apenas, que não criei o projeto de me tornar poeta, mas a busca pelo aperfeiçoamento enquanto poeta tornou-se um projeto.

JIVM – Um poeta ao publicar um livro e colocá-lo à venda, nas livrarias, pretende o que, já que tem consciência de que não vai vender quase nada? E você, sente-se animada com essa realidade? Por que abraçar esse ofício?

EA – Sabe quando lemos um poema e sentimos que ele expressa algo que não conseguiríamos organizar em pensamentos e ficamos emocionados durante a leitura? Enquanto poeta me sinto realizada duplamente quando percebo que um poema escrito por mim tocou alguém. É isso que me move. Por isso, mesmo sabendo que um livro não alcançaria uma grande quantidade de venda o desejo de publicar permanece.

JIVM – Em que momento de sua vida você foi tocada pela poesia? Qual o primeiro livro de poemas que você leu? O que está lendo agora? Quais os poetas que lhe conduzem às esferas do delírio?

EA – Não conseguiria precisar quando comecei a me encantar pela leitura e produção poética, mas devo ter rabiscado meus primeiros versos aos 13 anos, ou um pouco antes. O primeiro livro de poesias que li foi uma seleção de melhores poemas de Bandeira. São muitos os poetas que me conduzem ao êxtase literário: Bandeira, Quintana, Pessoa, Florbela Espanca, Drummond, Paulo Leminski, Ruy Espinheira Filho, entre tantos outros. Permaneço lendo esses poetas que me encantam profundamente e buscado conhecer as produções do momento seja através dos livros ou dos blogs.

JIVM – O que pode ser feito para que o povo brasileiro, sobretudo os jovens, leia mais? E em que medida a leitura pode contribuir para a evolução do ser e, consequentemente, da sociedade?

EA – A leitura é essencial para ampliar nossos conhecimentos, para nos aprimorar enquanto ser humano, uma vez que através dela entramos em contato com experiências que nos mostram distintas “realidades” e com isso podemos nos aprimorar enquanto pessoas. Penso que quando os jovens perceberem o prazer que a leitura pode proporcionar a resistência que se tem a ela se tornará ínfima. Creio que somente por meio da descoberta do prazer da leitura pode se conseguir que as pessoas leiam mais.

JIVM – O que você anda fazendo? Já tem algum projeto de publicação de livro? E o que mais?

EA – Estou trabalhando como professora de língua portuguesa e de literatura. Estou selecionando alguns poemas para publicar muito em breve. Também tenho escrito alguns contos e enveredar pela poesia e prosa simultaneamente é um desafio que estou disposta a abraçar.

TRÊS POEMAS DE ÉRICA AZEVEDO
















CHUVA


Ouço a chuva que passa
intensamente
e molha tudo em sua volta
seus sinais de presença
desperta-me numa noite fria
que eu queria apenas dormir.

Insisto em fechar os olhos,
ela insiste em cair
e pelos meus ouvidos atravessa o telhado
e molha os sonhos
que adormecem em mim.



RETRATO


Minha alma carrega um peso
que não permite
ajuste.

Todo Lugar é
lugar nenhum.

Meu corpo é uma vasilha sem forma
que me torna livre
como um pássaro
que não sabe voar.



DESTINOS


Num espaço
fechado
andando entre vozes
e dedos
persigo uma multidão
ao encontro de mim.

Até que a multidão
chegue ao fim.

domingo, 12 de setembro de 2010

JIVM - JARRO INDÍGENA


JARRO INDÍGENA


Flechas guaranis vieram falar
da superfície e desses arvoredos,
da luz, ventre da noite e mãe do dia,
e do rio que dessedenta os homens.

A fim de desdobrar certos estados
na palavra, a mulher anela o barro
da tarde: jarro tecido em imagens,
alucinados arcos-cintilantes.

O real é um todo obscuro e triste.
Nele ouvimos as demandas dos homens,
ventos que guardam grandes mãos vazias.

Assim bradam as flechas guaranis,
entre o duplo do espelho acendem tempo
e espaço, sendo sempre o estradar.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

VERÔNICA DE VATE - ASTRID CABRAL



ASTRID CABRAL (FÉLIX DE SOUSA) nasceu a 25/09/36 em Manaus, AM, onde fez os primeiros estudos e integrou o movimento renovador Clube da Madrugada. Adolescente ainda transferiu-se para o Rio de Janeiro, diplomando-se em Letras Neolatinas na Faculdade Nacional de Filosofia, atual UFRJ, e mais tarde, após concluir os sete anos da Cultura Inglesa, como professora de língua e literatura norte-americana pelo Instituto Brasil Estados Unidos. Concluiu o curso de História da Arte/Carlos Cavalcanti, no Rio de Janeiro e estudou arte islâmica e bizantina na American University of Beirut. Freqüentou o Language Tuition Center de Londres, o Loop College e o Truman College de Chicago aperfeiçoando os conhecimentos de inglês. Lecionou língua portuguesa e literatura brasileira no ensino médio carioca e na Universidade de Brasília, onde integrou a primeira turma de docentes saindo em 1966 em conseqüência do golpe militar. Antes de afastar-se cursou o mestrado de letras concluindo todos os créditos exigidos. Em 1968 ingressou por concurso no Itamaraty, tendo servido como Oficial de Chancelaria em Brasília, Beirute, Rio e Chicago. Com a anistia, em 1988 foi reintegrada à UnB, passando a lecionar modernismo brasileiro, barroco e arcadismo no curso de graduação em letras. Ao longo de sua vida profissional desempenhou os mais variados trabalhos, fora e dentro da área cultural. Serviu na Embaixada do Brasil em Beirute e no Consulado Geral brasileiro em Chicago. Trabalhou vários anos no Arquivo Histórico do Itamaraty e no IBECC, órgão do MRE ligado à UNESCO. Detentora de importantes prêmios na área de poesia, figura em mais de quarenta antologias no Brasil e no exterior. Tem igualmente participado de movimentos ligados à oralização da poesia no Rio de Janeiro, tais como Poesia Simplesmente e Panorama da Palavra, além de outros. Idem de congressos e celebrações poéticas nacionais e internacionais. Colabora com assiduidade em jornais e revistas especializadas. Foi fundadora da Associação Nacional dos Escritores de Brasília e pertence ao PEN CLUBE do Brasil. Traduziu vários livros para a Biblioteca de Seleções e para a Editora Global, “Walden ou a Vida nos bosques” e “Desobediência Civil” de Henry David Thoreau. Viúva do poeta Afonso Félix de Sousa, com quem conviveu mais de 45 anos, é mãe de cinco filhos. Atualmente reside no Rio de Janeiro.

Obras publicadas:

Alameda (ficção) 1ª edição: GRD, Rio, 1963; 2ª edição: Editora Valer, Manaus, 1998
Ponto de cruz (poesia) Cátedra, Rio, 1979
Torna-viagem (poesia) Pirata, Recife, 1981
Zé Pirulito (história infantil) Agir, Rio, 1982
Lição de Alice (poesia) Philobiblion, Rio, 1986
Visgo da terra (poesia) Edição Puxirum, Manaus, 1986
Rês desgarrada (poesia) Thesaurus, Brasília, 1994
De déu em déu (poesia reunida) Sette Letras/Biblioteca Nacional, Rio, 1998
Intramuros (poesia) Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, 1998
Rasos d’água (poesia) Co-edição Governo do Amazonas, Editora Valer, Manaus, 2003
Jaula (poesia) Editora da Palavra, Rio de Janeiro, 2006
Ante-sala (poesia) Editora Bem-te-vi, Rio de Janeiro, 2007
Antologia pessoal, Thesaurus, Brasília, 2008
Antologia/50 poemas escolhidos pelo autor, Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2008
Sobre escritos/ Rastro de leituras (crítica literária) Editora da Universidade do Amazonas, Manaus. No prelo.

*

Ontem, Astrid Cabral participou do Projeto Com a Palavra o Escritor, na Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho, às 17 horas. Foi apresentada pelo poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos. Amanhã, dia 10, será a vez da cidade de Maracás receber a poeta amazonense, em um grande evento, como soe acontecer na Cidade das Flores, com a participação sempre especial do Grupo Concriz. E no dia seguinte, sábado, 11 de setembro, encerrando a jornada poética de Astrid, ela irá participar do projeto Travessia das Palavras, em Jequié, a Cidade Sol, que também contará com a presença da turma boa do Grupo Concriz. E viva a Poesia!!!


PERFIL


Dona de casa
dona de nada
escrava de lavras
à terra amarrada.
Mãe de família
mãe de alegrias
entre lutos e sustos.
Jaqueira imensa
cheia de frutos.
Poeta nas horas vagas?
Poeta nas horas plenas
embora raras...
O mais, não vale a pena.



DAS COISAS


Algumas são perecíveis.
As comestíveis, por exemplo,
tão assimiláveis e semelhantes
nas urgências e desgastes do corpo
tão irmãs no destino decadente
mergulham conosco na voragem.

Outras são descartáveis
e se afastam de nós cada vez mais
rejeitadas por nossos gestos
rebaixadas a lixo e ainda assim
recicláveis com direito pleno
à metamorfose e reencarnação.

Grande parte das coisas
é de assombrosa resistência
matéria incólume pelas eras
muralhas e pirâmides de pedra,
pontes, arcos, e torres de ferro,
coroas de ouro e diamante.

Efêmeros seres em trânsito,
devemos conviver com presenças
tão duradouras que até diríamos
participantes da eternidade.
Destas mantemos distância
devido às incompatíveis esferas.

Abro o guarda-roupa e encontro
os casacos com que meu filho
enfrentou a neve de Chicago
e caminhou ao sol da Califórnia
a camisa de um ido Carnaval.
Restos de seu rastro no mundo.

Não fosse a vida humana
assim breve, impermanente
poderia vesti-los a qualquer instante
perfeitos, embora pendurados
bem mais de uma dezena de anos
nos ombros fantasmas dos cabides.

Como disse um amigo às vésperas
de seu embarque definitivo:
o mundo só se acaba pra quem morre.
Daí a sobrevivência das coisas.
Apesar da aparência precária
de mudez e paralisia, resistem.

Longo é o circuito de tantas coisas
Pequenas enquanto o tempo nos destrona
Derrubando-nos ao rés-do-chão.


ASTRID CABRAL

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O QUE HÁ DE NOVO

Por Helena Ortiz


Cheguei de Recife, de onde trago boas notícias. E antes fui à Bahia, de onde também trago boas notícias. Não sei o que há em todo o Brasil, mas posso testemunhar que a literatura nunca esteve tão viva, pelo menos nos lugares por onde andei.
O que tenho a contar é que fui a Maracás, interior da Bahia, para participar do projeto "Uma prosa sobre versos", que mensalmente convida um autor de poesia. O poeta convidado envia a sua obra antecipadamente e essa obra é selecionada para ser recitada pelo grupo Concriz, dirigido por Vitor Nascimento Sá. À frente do projeto, Edmar Vieira de Almeida, diretor de cultura da Secretaria Municipal de Educação que conta também com a colaboração sobre todas as coisas do poeta José Inácio Vieira de Melo.
O evento acontece no Auditório Municipal, que dá para a praça. O autor chega e pensa que está sonhando, vendo tanta gente querendo ouvir poesia. E quando começa o espetáculo, e aquelas crianças e adolescentes começam a oferecer, como se fosse algo totalmente novo, a nossa própria poesia, isso é emoção que dificilmente se esquece, e que dificilmente é contida. Grandes poetas estiveram lá, e todos eles ficaram marcados pela maravilha que é não só o trabalho, mas o fato de que existe uma cidade onde a poesia é lida constantemente, acariciada, transformada pelas vozes e a força de cada um dos membros do conjunto. Dessa maneira a poesia passa a ser algo natural, familiar, e todos se encontram aptos a conversar depois sobre ela, a fazer perguntas, dissipar dúvidas, matar curiosidades sobre o autor. E com que carinho, com que sinceridade fomos tratadas, eu e Luiza Viana, que estava comigo. Por isso digo que vim cheia de esperança. Porque a coisa mais bonita que eu conheço é ver que a gestão pública se movimenta no objetivo de oferecer ao povo não o que a televisão impinge, não o que o modismo aponta, mas a oportunidade do conhecimento da obra dos autores brasileiros que estão aí, vivos e acessíveis, além de proporcionar a expressão da sensibilidade dos jovens em formação.
No dia 10 de setembro estará lá Astrid Cabral. Tenho certeza de que também irá se emocionar. Tenho certeza de que irá emocionar o povo de Maracás. Existe coisa melhor para o poeta?
Acima, uma foto do grupo em cena. E a idéia deu tão certo que foi criado também um outro grupo, o Renascer, da cidade de Planaltino, que trilha o mesmo caminho: intimidade com a poesia, intimidade com cada pessoa que está ligada à realização de um projeto tão bonito, bom para o Brasil, para a literatura, para a cidadania, que é o que alcançam crianças bem nutridas e bem formadas. É sonho? Não é não, gente, é grandeza.

JIVM, Helena Ortiz e Iolanda Costa

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

1ª FLIMAR - FESTA LITERÁRIA DE MARECHAL DEODORO



A 1ª Festa Literária de Marechal Deodoro, FLIMAR, é um projeto ousado e revolucionário, que tem como objetivos a política de incentivo à leitura e a preservação de nossa cultura. Haverá uma série de palestras e mesas de debates com escritores de expressão nacional, cuidadosamente selecionados, como Marina Colasanti, Ignácio Loyola Brandão, Maurício Melo Júnior, Arriete Vilela, Antonio Torres, José Inácio Vieira de Melo, Nina Reis e Homero Fonseca, proporcionando ao público a oportunidade de ver de perto os escritores da sua admiração. O ator Chico de Assis fará uma grande homenagem ao poeta Jorge de Lima. A FLIMAR dará amplo destaque também para os segmentos da cultura popular – a nordestinidade será devidamente contemplada.

Carlito Lima
Coordenador da FILMAR
Secretário de Cultura de Marechal Deodoro


Minha participação na FLIMAR:

Sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Espaço Cultural Santa Maria Magdalena da Alagoa do Sul (Centro Histórico)

18 :00 hs – MESA REDONDA:
“Distribuição e comercialização de livros – A profissão do escritor”
MEDIADOR: Homero Fonseca (PE)
PARTICIPANTES:
Adriana Ruiz (ARGENTINA)
Arnaldo Ferreira (PE)
José Inácio Vieira de Melo (BA)
Lindemberg Medeiros de Araújo (AL)
Nina Reis (DF)
Roberto Bianchi (URUGUAI)
Simone Cavalcante (AL)

Sábado, 4 de setembro de 2010
Programa Proler (Casa de Câmara e Cadeia)

14:30 hs – PALESTRA: “Painel da Poesia Baiana Contemporânea” – José Inácio Vieira de Melo

16:00 hs – LANÇAMENTO: ROSEIRAL, livro de poemas de José Inácio Vieira de Melo

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

PERFIL LITERÁRIO – JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


Ouça, logo abaixo, a entrevista que Oscar D’Ambrosio, do programa Perfil Literário, da Rádio Unesp, fez comigo, no mês de abril, tendo como foco principal o meu livro Roseiral. Entrevista 677.

sábado, 21 de agosto de 2010

SANGUE NOVO - CLARISSA MACEDO



POESIA: TUDO O QUE VEJO E SINTO – CLARISSA MACEDO é estudante de Licenciatura em Letras Vernáculas, mas principalmente é poeta. Como tal, entende que “as “Letras” podem ser uma âncora ou uma vela”. Soteropolitana, nascida em 1988, mas residente em Feira de Santana, escreve poesias, contos e algumas crônicas. Tenta um romance a pequenas investidas. Dança, luta, almeja pintar e leva a música sempre consigo. Participa da Antologia do concurso Feirense de Poesia Godofredo Filho e do CD Volume III dos Poetas Feirenses. É poeta que busca a poeta que é, e em tudo o que ver e sente há poesia. Vejamos como é isso.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – O que é a poesia? Por que ser poeta?

CLARISSA MACEDO – A poesia é... sem muitas explicações. Quaisquer tentativas de explicá-la seriam uma incompletude. No entanto, o peito arfa em querer pronunciar que, para mim, a poesia é, também, parte de um viver no qual ela sempre penetra irremediavelmente. Em tudo o que vejo e sinto a poesia está lá, mesmo que timidamente, dando a sua consciência dolorosa e o seu afago discrepante e abrasador... Não sei se sou poeta em inúmeras definições. Acredito que o ser poeta ainda silencia traços que não se pode apalpar. Mas, sensitivamente, escrevo num desenfrear apaixonado. Não me lembro de viver sem o poetar, sem aquela inspiração sensorial que me invade e me leva. Ainda busco poeta em mim, me tateando, foge, volta...

JIVM – Como foi que a poesia chegou na sua vida? Quando foi que você se percebeu poeta?

CM – Não sei exatamente, mas me lembro de ter escrito alguns versinhos aos oito anos, e a face marejada da mamã diante do papel... O primeiro poeta que li foi Drummond e foi decisivo. Fiquei extasiada. Leio desde pequenina, e me dei conta de que sempre divaguei bastante, desde a infância, entre quimeras... A escrita e a poesia foram tomando forma e lugar em mim. Mas creio que estou me percebendo ainda, enroscada nas dúvidas jocosas e nos arrebatamentos soturnos.

JIVM – Quais são os poetas que mais lhe influenciam? O que anda lendo? E na prosa, quais os autores que mais lhe impressionam?

CM – Talvez diga os que mais me emocionam, o que é também uma influência. O Cruz e Souza, o Augusto, Baudelaire, Maiakóvski – com suas nuvens de calças, Drummond, Álvares, Rabelo, Bandeira, Rimbaud, Antero... Ler poesia é prazeroso e difícil, exige muito de mim. Sempre leio muitas coisas, misturo tudo. Nunca largo meus prediletos e procuro ler os colegas, meus contemporâneos, acho importante valorizar, de algum modo, aquilo que se faz hoje. Leio vários colegas escritores, como Julio Reis e Markus V. B. dos Santos. Tô curtindo esses dias um pouco de Nestor Perlongher, Osvaldo Lamborghini, Horácio Costa. Kafka e sua aterrorizante aflição que me direciona a buscá-lo, Machado e sua maestria, Torga, Clarice, Eça, Borges, Nelson e uns outros mais, ao ermo.

JIVM – Você é aluna do curso de Letras da Universidade Estadual de Feira de Santana. Em que medida ser estudante de Letras contribui para a sua poesia?

CM – Estudar é muito importante. Esmiuçar o que se gosta é ainda mais importante. Ser aluna do curso de Letras, quando entrelaçada profundamente com a Literatura, é perigoso. É necessário ter discernimento para não confundir as informações enriquecedoras, críticas prudentes com a verborragia trágica, o podamento bestial que cerca alguns. Conhecimento e banalidade andam juntos. Ler, ler, diminuir a ignorância, é um dos caminhos para se adquirir o precioso discernimento. Há uma metade duma meia dúzia de mestres que mostram uma boa trilha do conhecimento, e, sobretudo, ter papos desencanados com muitos colegas é essencial para uma formação, talvez, adequada. É uma luta infindável... As “Letras” podem ser uma âncora ou uma vela. É questão de decisão.

JIVM – Como anda a sua produção? Algum projeto para publicação de livro? E o que mais?

CM – Sou movida pelo sentimento, pela inspiração – esta vem quando quer. Na fase em que me encontro, ainda de profunda crise com a verdadeira escrita, estou tentando bastante. Não fico longe da escrita. Em alguns momentos eu afasto alguns versos intolerantes que me afligem, mas a poesia é insistente e penetrante. Alguns projetos existem. Os primeiros são referentes a um livro de poesias e outro de contos. Pretendo fazer algumas coisas que mesclem a pintura, a dança, a música – que também são grandes paixões em minha vida. Fazer arte, respirá-la, conhecê-la, amasiar-me com ela são projetos que sempre me ocorrem, me convocam. A jornada é, simultaneamente, trivial e surpreendente. No mais, uma vaga.

TRÊS POEMAS DE CLARISSA MACEDO




















CRISÓLITO


Era um homem nu.
Arrotado pelas têmporas do tempo
No acalento
Desdenhava de si, do outro
E do outro,
Aqueles lobos emoldurados
Em seus quintais.
Desenhando um traço,
Fino trato da rima perdida.
Caçando cachos de seu destempero
Em face do advento seu,
Nas pútridas petrolíferas,
Limpando as passadas,
Erguia seu tom negruminoso
E desconcertante,
Sente a pré raiz...
Suas tripas crispadas
De ontem,
Apenas lavadas
Por seu despertar salgado,
Exíguo e nédio,
Distorcem e quedam



LINHITA


Boi homem
Quer aquilo que não pode ter

Num Vesúvio
Mercenários reprimidos a espirrar

Sua chama fria...
Ecos a vaticinar clangores póstumos



VIOLÃO CHORADEIRO


Pousou abelha,
Doce ser de ferrões,
Na capa violeta
Do instrumento de cordas

Cordas de notas
Antigas e solitárias
Belas errantes
Da vida trivial –
A brevidade triste

Voou a abelha
Sem deitar seu instinto
Ouviu a melodia
Do acorde matizero
Anelagem soturna
Sofreguidão bonina

domingo, 15 de agosto de 2010

JIVM - FUNERAL


Foto: Ricardo Prado


FUNERAL


Assustadoramente toca o sino.
A morte, com seus ternos e tapetes
sensacionais, conduz, em caracóis,
dolentes multidões tão carregadas

de vozes que deságuam cemitérios.
Exposta a dor dos que ficam suspensos,
começam a florescer outros símbolos:
rosas brancas ressurgem nas lembranças.

Os pássaros da noite estão no vento,
vozes que vibram dentro do silêncio,
tumulto na frieza de uma lápide.

Na agonia de viver tudo morre.
E o mistério da vida desenvolve,
na morte, novas vidas em instantes.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

ESSA POESIA É PRA TOCAR NO RÁDIO

Por Ney Ferraz Paiva


1. a leitura

Lê sem ler, o que só é possível num certo de-lírio. [Jacques Derrida]

O inútil de fazer, segundo João Cabral de Melo Neto, vale mais que não fazer. Fazer está na ordem das debulhadas, fazer o pensamento pensar, fazer a escrita começar seu desconhecer – escolher seus escolhidos. José Inácio Vieira de Melo é um desses tais que vêm ao mundo pra não ter outras virtudes, que não as de poeta, o mais inútil dos fazeres. Por que outro motivo alguém se colocaria a cultivar rosas escarlates em pleno sertão – sem ter como manejar mais do que palavras? Ato de sensualidade, mostrar a escrita ao outro. Tocar, esfregar, afrontar. Múltiplos lances-movimentos que desejam trocas, reverberações de um sentir novo, aberto, total. Nada mais inútil, e não menos imoral, fazer frente aos narcisismos, às individualidades com a leitura. Instintivamente, o texto vai se adestrando no hábito de não se dirigir a ninguém, ou, por outro, de simular ao menos o receptor incauto. Se há uma escrita que escolhe, há uma voz que se quer ouvida, distinguida, ampliada, mesmo que por seu obscuro assovio. Josefina não canta, ela apenas assobia pior. É pela voz que o texto começa seu devir animal. Ler-escutar é uma metamorfose. E por esse duplo ato o poeta opera rebeliões entre dois mundos: o mundo irreal, o mundo cotidiano. Lança seus temas numa rede de repetições e variações intermináveis. Se de um lado enfatiza a literatura que circula nas comunidades centrais do sertão – literaturas bem menores que as menores, como cordel, cordões, reisados; de outro, se lança num circuito aberto de voo estético sem fronteira, que inclui Gertrude Stein, ecos de Carlos Drummond, o formalismo precioso e raro de João Cabral de Melo Neto, a essência marítima de fazer viajar as viagens em Herberto Helder e Gerardo Mello Mourão – tudo atravessado pelos ritmos inumeráveis a que aludiu Manuel Bandeira, e por isso mesmo arrisco dizer que ao fundo dessa poesia há lances embrionários de bossa nova, escutem, escutem, escutem... Mas que ninguém se engane: não se trata de uma escrita meramente submetida aos processos cultos dos grandes centros, de que muito se tem servido certa poesia desmunida de vigor e originalidade. A cópia sem o rigor dos ensinamentos, que se reduz à má sorte dos aprendizes sem talento, sempre entregues a itinerários determinados com antecedência. Música & escrita como que numa apresentação sussurrada, rouca e de assovios dissonantes, que talvez se pudesse tocar no rádio, como num delírio de escuta-e-leitura que manipulasse o sistema de recepção da poesia, quase nunca conflitante e alterado – convencional a não mais poder. Dos influxos do sertão às conjunções do ser-tudo, a poesia é convivência, vida comum, reimpressão dos caminhos dos homens a que Jorge Luis Borges bifurca, na ausência de mapas e atlas mais precisos, com o uso desproposital de um espelho e uma enciclopédia. José Inácio Vieira de Melo, algo que numa contraleitura dos lugares e paisagens a que se ajustam expectativas reais e sonhos de paraíso, movimenta sua poesia às direções remotas dos sentidos dos homens, aos seus desenfreados horizontes, às rotas empoeiradas a que uma suposta rosa-dos-ventos indicou o futuro – ou terá sido o passado? Com todas as variações e permutações iminentes.

2. o livro

Se um homem atravessasse o Paraíso num sonho, e lhe dessem uma flor como prova de que lá estivera, se ao despertar encontrasse essa flor em sua mão... o que dizer então? [Coleridge]

José Inácio Vieira de Melo, em “Roseiral”, empreende o ato de fazer o outro perceber/perceber-se nos duplos e nas transmutações de si: despertar “a vontade de plantar pedras em outras cabeças”, como consequência de uma linguagem que joga, brinca, viaja – e não se faz trocar por fichas neutras. Daí que, desde os poemas iniciais, o poeta evoca o retrato de cabeças como um gravurista que não se basta à representação. “Eu jogo uma pedra em tua cabeça para que ela cresça em dor”, ou: “A tua cabeça é um precioso amuleto dentro da minha cabeça”. A iconografia que o poeta quer é outra. Uma que fizesse circular um retrato que fosse o menos comum, do quanto que deste lugar existe, se é que existe o lugar e se pode falar por si ou de sua cópia, ou de seu vulto – e, assim, não mais ter que estampar uma mesma e única fisionomia no imediatismo precipitado da pergunta: o que é o sertão? Isto não mais. O retrato falado a que certo cinema, certa literatura, certa música não cessam de nomear, fixar. Uma sociologia que não se sabe se das artes, se das suspeitas, se das discriminações. Por certo nunca a das diferenças, das singularidades, das ramificações. Que esses clichês se abram em outros nomes-imagens não como buquês que ornam e celebram uma vida passivamente administrada; buquês que logo murcham nas mãos daqueles que já estavam mortos. Contra isto a potente investida dessa poesia multiplicada, transmutada, saída do silêncio e da solidão – num estrondo, numa pancada: “Para que, plantada em tua cabeça, a pedra frequente a tua existência”.
“Roseiral” tem como horizonte a amplidão. Requer conversa, diálogo, fala amigável, alegre e incessante. E isto é mais do que tentar uma ênfase. O livro todo nos afeta o imaginário com a vivacidade das coisas cuidadosamente feitas, e não arrefece o impulso de subida nas cinco seções em que se divide. Sem sacrificar a complexidade das temáticas, e sem cair na exterioridade do genérico, chega aos pontos de tensão em áreas de sensibilidade que pra muitos pareciam esgotadas, exauridas. Aqui, a “pedra”, a “rosa”, a “odisséia” – ou a viagem e o nomadismo – abrem espaço pra uma cena maior, de acentuada potência elocutória: um fluxo, um nascimento, uma torrente de coisas sendo devidamente despertadas em simetrias secretas. Não é mais o livro numa combinação híbrida de Rilke, Lorca, nem mesmo Celan, mas o livro inaudito. Um que se volta aos segredos como se de um álbum de família vertiginoso e nada dócil, de nomes-imagens travejados; livro que ativa toda a penúria que somos no instante impreciso das horas e descobertas. É o menino, a infância, a casa, o homem – aquele cadinho que somos, pra quem as coisas acontecem e, a uma só vez, escapam, multiplicam-se. “Eu não sei nem pra onde ir com a minha diferença”. O que somos é algo que criamos – somos nossa própria criação e não cessamos de fazê-la aqui e alhures. Formas de criação em linhas, trânsitos, direções fundamentais e intermediárias. Aventuras secretas e prazeres comuns. O aberto. O fechado. A favor disso o poeta adverte de seu modesto e imenso propósito: “E agora eu só sei te falar desse labirinto”.


Ney Ferraz Paiva é poeta, autor de Não era suicídio sobre a relva, 2000, e Nave do nada, 2004, ambos pela Fundação de Cultura Cidade do Recife.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

VERÔNICA DE VATE - HELENA ORTIZ


Fotografia: Natália Grill


Helena Ortiz nasceu em Pelotas-RS, é radicada no Rio de Janeiro. Poeta, contista, cronista e jornalista, criou e dirigiu, entre 1999 e 2005, o projeto Panorama da Palavra, uma mostra semanal de poesia. O projeto deu origem a um jornal mensal homônimo, que tem edição em papel e na internet (http://www.panoramadapalavra.com.br/), e também à Editora da Palavra, seu braço editorial.
Estudou no Instituto de Educação Assis Brasil e depois no Colégio Pelotense, onde foi aluna do escritor Aldyr Garcia Schlee. Na Faculdade de Direito venceu o primeiro concurso de contos de que participou, promovido pela Universidade.
Em 1969 mudou-se para o Rio de Janeiro onde ficou até 1974. Retornou a Pelotas e atuou como colunista do jornal Gazeta Pelotense, onde publicou os primeiros poemas e prestou concurso público para o cargo de taquígrafa da Câmara de Vereadores. Em 1985 prestou outro concurso, desta vez para a Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, onde permaneceu até 1985. Em Porto Alegre foi editora da Rede Brasil Sul e colunista do jornal sindical da ALRGS. Freqüentou a Oficina Literária ministrada pelo escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC, de onde resultou a publicação dos primeiros contos. Em 1997 publicou o primeiro livro de poemas Pedaço de mim, pela editora T&T, em memória da filha Alice.
Em 1985 prestou concurso para a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, freqüentou a oficina de poesia da Estação das Letras e publicou pela Ed. Blocos os livros Margaridas e Azul e sem sapatos, seguidos de Em par, em 2001, pela Editora da Palavra, que inaugurou a editora, e em 2005, Sol sobre o dilúvio. Durante esse período organizou o evento panorama da palavra, e além desse, que se tornou o mais conhecido, organizou outros em homenagem a Manoel de Barros, Garcia Lorca e Carlos Drummond de Andrade.
Reuniu, em 2009, os contos premiados em vários concursos, no livro O Silêncio das Xícaras.
Escreveu, em 2008 e 2009, o livro baseado em quê? volumes I e II, em defesa da legalização das drogas, e vai lançar, agora, em Maracás e Jequié o livro Poemas.
Mantém o blog http://www.integradaemarginal.blogspot.com/


*

Helena Ortiz vai participar do projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, no dia 13, às 19:30 hs, no Auditório Municipal. No dia seguinte, 14 de agosto, estará em Jequié, onde participará do projeto Travessia das Palavras, na Biblioteca Central, às 19:30 hs. Os dois eventos contarão com a participação especial do Grupo Concriz. Em Maracás, além da participação do Grupo Concriz, o evento vai contar também com o Grupo Renascer, da cidade de Planaltino, e com o Grupo Tama Afro e Jorge Café.
No dia 18, Helena estará na Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho, como escritora convidada do projeto Com a Palavra o Escritor, que vai começar às 17 horas. O poeta Vitor Nascimento Sá é quem vai fazer a apresentação da escritora gaúcha.















INÚTIL PAISAGEM

Mi táctica es quedarme en tu recuerdo/
no sé cómo/ ni sé con qué pretexto/
pero quedarme en vos
Mario Benedetti


saber que bebes,
em pé, o café na padaria
e não pensaste em mim
desde que levantaste

olho pela janela (já conheces a paisagem)
Penso comigo: mais um dia a vencer

enquanto te esqueço
e me esqueces



POEMA DE ADEUS
A Idea Vilariño (1920-2009)


não vi o mundo
como sonhei
verdade que não

a era da felicidade esgarçou-se
ante o domínio de um deus novo
e obsceno

ficaram-me olhos e cadernos
mantenho-me à sombra


HELENA ORTIZ

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

SANGUE NOVO - RICARDO THADEU



SEMEADOR DE PALAVRAS – RICARDO THADEU é um poeta jovem. Bem jovem mesmo. Aos 20 anos publicou seu primeiro livro, D’ANTES. E agora, aos 21, já tem mais dois livros em andamento, o durantes e o Depois. Nasceu em Riachão do Jacuípe (03/06/1989) onde vive até hoje. É estudante de Letras com Língua Espanhola (UEFS), poeta, contista e cordelista. Começou a publicar os primeiros rabiscos no blog 100 Fundamentos (http://www.ricardothadeu.blogspot.com/). Apesar de morar em uma pequena cidade do interior da Bahia, Ricardo está antenado com os acontecimentos do mundo e, sobretudo com os escritores de seu tempo. Para Ricardo Thadeu “A poesia é a forma de expressão na qual encontro maior liberdade”. Vamos, então, conhecer esse poeta cheio de juventude, que vive a semear palavras.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
– Ricardo Thadeu, aos 20 anos vc publicou seu primeiro livro, “D’antes”. Quando se deu seu contato com a poesia? O que representa a poesia na sua vida? E como aconteceu esse livro ainda em idade tenra?

RICARDO THADEU
– Eu tinha contato com a poesia desde criança. Depois que entrei na universidade e conheci alguns poetas como Lupeu Lacerda e Wladimir Cazé, por intermédio do amigo Georgio Rios, esse interesse se intensificou. A poesia é pra mim hoje a forma de expressão na qual encontro maior liberdade. Não vivo sem. A idéia do livro surgiu em 2008. Organizei um material do meu blog (100 Fundamentos) e submeti à revisão do poeta e amigo Roberval Pereyr. Depois, corri atrás da publicação que se concretizou no final de 2009.

JIVM – Como é ser um poeta de 21 anos em uma pequena cidade do interior da Bahia? Que relação as pessoas da sua família e da sua comunidade têm com a sua poesia? O que você pretende com sua poesia? Escreve por que e para que e para quem?

RT – Apesar das barreiras geográficas e de algumas limitações como a ausência de livrarias e de bibliotecas aqui em minha cidade, sigo escrevendo. Tento manter contato, pessoalmente ou pela internet, com conterrâneos meus que escrevem, como Caio Rudá. Minha família e meus amigos colaboram muito, compram os livros, ajudam a divulgar, lêem e me dão sugestões. Aí está o sentido da minha poesia. Semear palavras e, se possível, colher boas leituras. Por isso, escrevo para qualquer um que prepara seu campo para receber a poesia e não tenha medo de ficar com uma pulga atrás da orelha, é claro.

JIVM
– Que análise você faz da poesia contemporânea do Brasil? E da Bahia? Quais os poetas que mais lhe influenciaram? O que anda lendo, atualmente?

RT – Cara, tem muita gente boa por aí. É humanamente impossível acompanhar o mosaico da poesia brasileira contemporânea. Na Bahia, a quantidade poetas de alto nível impressiona. Falar de influência é complicado, mas acho que posso citar com segurança os poetas Drummond, Lupeu Lacerda (Entre o Alho e o Sal), Idmar Boaventura, Leminski, Luís Antonio Cajazeira Ramos, Roberval Pereyr e Bukowski. A influência é uma espécie de perseguição. A personagem de A lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho, matou o professor de lógica aos 16 anos. Costumo dizer que tento matar cada poeta que já li até hoje toda vez que concebo um verso. Mas eles (os poetas) permanecem ali, no meu encalço. O último livro de poesias brasileiro que li foi o Debaixo das rodas de um automóvel, de Rogério Skylab. Os melhores dos últimos tempos foram o Roseiral (seu), o Macromundo de Wladimir Cazé e o Depois da Chuva de Georgio Rios.

JIVM – A internet contribui na criação poética e, por extensão, na criação artística, ou apenas serve para informar e divulgar? E os blogs, qual a contribuição que trouxeram para os escritores?

RT – Influencia claro. Os poemas e contos curtos que publico no blog, ou em livro, por exemplo, são, em parte, fruto desta rapidez, desta brevidade exigida no mundo virtual, mas o aspecto da divulgação também é muito importante. A internet possibilita também o contato com vários autores. Foi através dos blogs que conheci Renata Belmonte e Mayrant Gallo e me aproximei de Lupeu Lacerda. A própria revista Entre Aspas (onde conheci muitos escritores e leitores), hoje desativada, funcionava na plataforma de um blog. Visito vários blogs por dia. Leio, comento. Eles substituíram, em parte, os fanzines e deram voz a uma galera que talvez não fosse enxergada.

JIVM – E agora, poeta? O que vem pela frente? Um novo livro a caminho? Árvores plantadas? Filhos a nascer? E a nascente de seus versos, jorrando sempre? E o que mais?

RT – Depois do D’ANTES, percebi o quanto é importante interagir com outras pessoas do meio. Os próximos livros serão o durantes e o Depois. Junto com o D’ANTES, formarão o que eu chamei de A trilogia do tempo. A nascente está jorrando. Estou lapidando meus poemas, escrevendo muito, lendo bastante, conversando com os amigos para colher os frutos desta jornada que é a seara da literatura. Bem, o que vem pela frente é, sem dúvida, o caminho e seus percalços. O importante já foi feito: o primeiro passo. Deixo aqui o agradecimento pela oportunidade que você, Inácio, deu a mim e vem dando a esta moçada boa que está trilhando as sendas da poesia. Aos que lerem estas palavras, meu muito obrigado.

TRÊS POEMAS DE RICARDO THADEU





















DEIXA ESTAR, RAPAZ, DEIXA ESTAR
Para minha mãe


Quando estou na pior,
prestes a amarrar uma bigorna no pescoço
e me jogar da ponte
é você que me diz: let it be.
E quando eu quero correr pelado
e gritar para o mundo ouvir
que essa merda de vida não vale a pena,
é você que me diz: let it be.
E nas vezes que choro cortando cebolas
ou vendo meu time perder,
ou quando sei que os ETs
vão invadir a Terra,
que amanhã é segunda-feira
e percebo que essa é só uma leitura
de uma canção famosa
é você que me diz: let it be.



BILHETE NA GELADEIRA


querida F.,

vou ausentar-me por um tempo
o revólver está dentro da gaveta
os cadáveres estão no guarda-roupa
não se esqueça de alimentar o peixe

com amor,

R.



AUTOBIBLIOGRAFIA

o poeta é um fingidor:
assiste ao jornal nacional
e não vê desgraça,
vê poesia

sexta-feira, 30 de julho de 2010

JIVM - VINGANÇA


Ilustração: Daniel Biléu

V I N G A N Ç A


Eu vou pegar o machado de meu avô para te partir ao meio.
Tu me abandonaste no meio do tempo
e eu ainda estou perdido no meio da mata da tua ignorância.
Eu sou fraco, muito fraco. Eu corri para todos os lados
com os olhos esbugalhados sem saber para onde ir,
porque eu tinha medo, eu tinha muito medo, eu morria de medo.

Aí eu olhei pros quatro cantos e não enxerguei nada.
Eu não conseguia ver a imensidão,
apenas sentia um imenso abandono.

Eu vou me vestir de índio para tirar teu escalpo,
e vou dançar ao redor da fogueira dos tempos,
e no caldeirão dos meus prazeres cozinharei tua carne morena,
e, na brasa das tempestades que gritam o meu desespero,
assarei tuas carnes e banquetearei os que alimentaram tua ambição.

Já podes sentir a justiça do machado do meu avô:
o teu sangue lava os focinhos dos porcos.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO