
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
PERFIL LITERÁRIO – JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

sábado, 21 de agosto de 2010
SANGUE NOVO - CLARISSA MACEDO
POESIA: TUDO O QUE VEJO E SINTO – CLARISSA MACEDO é estudante de Licenciatura em Letras Vernáculas, mas principalmente é poeta. Como tal, entende que “as “Letras” podem ser uma âncora ou uma vela”. Soteropolitana, nascida em 1988, mas residente em Feira de Santana, escreve poesias, contos e algumas crônicas. Tenta um romance a pequenas investidas. Dança, luta, almeja pintar e leva a música sempre consigo. Participa da Antologia do concurso Feirense de Poesia Godofredo Filho e do CD Volume III dos Poetas Feirenses. É poeta que busca a poeta que é, e em tudo o que ver e sente há poesia. Vejamos como é isso.
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – O que é a poesia? Por que ser poeta?
CLARISSA MACEDO – A poesia é... sem muitas explicações. Quaisquer tentativas de explicá-la seriam uma incompletude. No entanto, o peito arfa em querer pronunciar que, para mim, a poesia é, também, parte de um viver no qual ela sempre penetra irremediavelmente. Em tudo o que vejo e sinto a poesia está lá, mesmo que timidamente, dando a sua consciência dolorosa e o seu afago discrepante e abrasador... Não sei se sou poeta em inúmeras definições. Acredito que o ser poeta ainda silencia traços que não se pode apalpar. Mas, sensitivamente, escrevo num desenfrear apaixonado. Não me lembro de viver sem o poetar, sem aquela inspiração sensorial que me invade e me leva. Ainda busco poeta em mim, me tateando, foge, volta...
JIVM – Como foi que a poesia chegou na sua vida? Quando foi que você se percebeu poeta?
CM – Não sei exatamente, mas me lembro de ter escrito alguns versinhos aos oito anos, e a face marejada da mamã diante do papel... O primeiro poeta que li foi Drummond e foi decisivo. Fiquei extasiada. Leio desde pequenina, e me dei conta de que sempre divaguei bastante, desde a infância, entre quimeras... A escrita e a poesia foram tomando forma e lugar em mim. Mas creio que estou me percebendo ainda, enroscada nas dúvidas jocosas e nos arrebatamentos soturnos.
JIVM – Quais são os poetas que mais lhe influenciam? O que anda lendo? E na prosa, quais os autores que mais lhe impressionam?
CM – Talvez diga os que mais me emocionam, o que é também uma influência. O Cruz e Souza, o Augusto, Baudelaire, Maiakóvski – com suas nuvens de calças, Drummond, Álvares, Rabelo, Bandeira, Rimbaud, Antero... Ler poesia é prazeroso e difícil, exige muito de mim. Sempre leio muitas coisas, misturo tudo. Nunca largo meus prediletos e procuro ler os colegas, meus contemporâneos, acho importante valorizar, de algum modo, aquilo que se faz hoje. Leio vários colegas escritores, como Julio Reis e Markus V. B. dos Santos. Tô curtindo esses dias um pouco de Nestor Perlongher, Osvaldo Lamborghini, Horácio Costa. Kafka e sua aterrorizante aflição que me direciona a buscá-lo, Machado e sua maestria, Torga, Clarice, Eça, Borges, Nelson e uns outros mais, ao ermo.
JIVM – Você é aluna do curso de Letras da Universidade Estadual de Feira de Santana. Em que medida ser estudante de Letras contribui para a sua poesia?
CM – Estudar é muito importante. Esmiuçar o que se gosta é ainda mais importante. Ser aluna do curso de Letras, quando entrelaçada profundamente com a Literatura, é perigoso. É necessário ter discernimento para não confundir as informações enriquecedoras, críticas prudentes com a verborragia trágica, o podamento bestial que cerca alguns. Conhecimento e banalidade andam juntos. Ler, ler, diminuir a ignorância, é um dos caminhos para se adquirir o precioso discernimento. Há uma metade duma meia dúzia de mestres que mostram uma boa trilha do conhecimento, e, sobretudo, ter papos desencanados com muitos colegas é essencial para uma formação, talvez, adequada. É uma luta infindável... As “Letras” podem ser uma âncora ou uma vela. É questão de decisão.
JIVM – Como anda a sua produção? Algum projeto para publicação de livro? E o que mais?
CM – Sou movida pelo sentimento, pela inspiração – esta vem quando quer. Na fase em que me encontro, ainda de profunda crise com a verdadeira escrita, estou tentando bastante. Não fico longe da escrita. Em alguns momentos eu afasto alguns versos intolerantes que me afligem, mas a poesia é insistente e penetrante. Alguns projetos existem. Os primeiros são referentes a um livro de poesias e outro de contos. Pretendo fazer algumas coisas que mesclem a pintura, a dança, a música – que também são grandes paixões em minha vida. Fazer arte, respirá-la, conhecê-la, amasiar-me com ela são projetos que sempre me ocorrem, me convocam. A jornada é, simultaneamente, trivial e surpreendente. No mais, uma vaga.
TRÊS POEMAS DE CLARISSA MACEDO

CRISÓLITO
Era um homem nu.
Arrotado pelas têmporas do tempo
No acalento
Desdenhava de si, do outro
E do outro,
Aqueles lobos emoldurados
Em seus quintais.
Desenhando um traço,
Fino trato da rima perdida.
Caçando cachos de seu destempero
Em face do advento seu,
Nas pútridas petrolíferas,
Limpando as passadas,
Erguia seu tom negruminoso
E desconcertante,
Sente a pré raiz...
Suas tripas crispadas
De ontem,
Apenas lavadas
Por seu despertar salgado,
Exíguo e nédio,
Distorcem e quedam
LINHITA
Boi homem
Quer aquilo que não pode ter
Num Vesúvio
Mercenários reprimidos a espirrar
Sua chama fria...
Ecos a vaticinar clangores póstumos
VIOLÃO CHORADEIRO
Pousou abelha,
Doce ser de ferrões,
Na capa violeta
Do instrumento de cordas
Cordas de notas
Antigas e solitárias
Belas errantes
Da vida trivial –
A brevidade triste
Voou a abelha
Sem deitar seu instinto
Ouviu a melodia
Do acorde matizero
Anelagem soturna
Sofreguidão bonina
domingo, 15 de agosto de 2010
JIVM - FUNERAL
FUNERAL
Assustadoramente toca o sino.
A morte, com seus ternos e tapetes
sensacionais, conduz, em caracóis,
dolentes multidões tão carregadas
de vozes que deságuam cemitérios.
Exposta a dor dos que ficam suspensos,
começam a florescer outros símbolos:
rosas brancas ressurgem nas lembranças.
Os pássaros da noite estão no vento,
vozes que vibram dentro do silêncio,
tumulto na frieza de uma lápide.
Na agonia de viver tudo morre.
E o mistério da vida desenvolve,
na morte, novas vidas em instantes.
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
ESSA POESIA É PRA TOCAR NO RÁDIO
Lê sem ler, o que só é possível num certo de-lírio. [Jacques Derrida]
O inútil de fazer, segundo João Cabral de Melo Neto, vale mais que não fazer. Fazer está na ordem das debulhadas, fazer o pensamento pensar, fazer a escrita começar seu desconhecer – escolher seus escolhidos. José Inácio Vieira de Melo é um desses tais que vêm ao mundo pra não ter outras virtudes, que não as de poeta, o mais inútil dos fazeres. Por que outro motivo alguém se colocaria a cultivar rosas escarlates em pleno sertão – sem ter como manejar mais do que palavras? Ato de sensualidade, mostrar a escrita ao outro. Tocar, esfregar, afrontar. Múltiplos lances-movimentos que desejam trocas, reverberações de um sentir novo, aberto, total. Nada mais inútil, e não menos imoral, fazer frente aos narcisismos, às individualidades com a leitura. Instintivamente, o texto vai se adestrando no hábito de não se dirigir a ninguém, ou, por outro, de simular ao menos o receptor incauto. Se há uma escrita que escolhe, há uma voz que se quer ouvida, distinguida, ampliada, mesmo que por seu obscuro assovio. Josefina não canta, ela apenas assobia pior. É pela voz que o texto começa seu devir animal. Ler-escutar é uma metamorfose. E por esse duplo ato o poeta opera rebeliões entre dois mundos: o mundo irreal, o mundo cotidiano. Lança seus temas numa rede de repetições e variações intermináveis. Se de um lado enfatiza a literatura que circula nas comunidades centrais do sertão – literaturas bem menores que as menores, como cordel, cordões, reisados; de outro, se lança num circuito aberto de voo estético sem fronteira, que inclui Gertrude Stein, ecos de Carlos Drummond, o formalismo precioso e raro de João Cabral de Melo Neto, a essência marítima de fazer viajar as viagens em Herberto Helder e Gerardo Mello Mourão – tudo atravessado pelos ritmos inumeráveis a que aludiu Manuel Bandeira, e por isso mesmo arrisco dizer que ao fundo dessa poesia há lances embrionários de bossa nova, escutem, escutem, escutem... Mas que ninguém se engane: não se trata de uma escrita meramente submetida aos processos cultos dos grandes centros, de que muito se tem servido certa poesia desmunida de vigor e originalidade. A cópia sem o rigor dos ensinamentos, que se reduz à má sorte dos aprendizes sem talento, sempre entregues a itinerários determinados com antecedência. Música & escrita como que numa apresentação sussurrada, rouca e de assovios dissonantes, que talvez se pudesse tocar no rádio, como num delírio de escuta-e-leitura que manipulasse o sistema de recepção da poesia, quase nunca conflitante e alterado – convencional a não mais poder. Dos influxos do sertão às conjunções do ser-tudo, a poesia é convivência, vida comum, reimpressão dos caminhos dos homens a que Jorge Luis Borges bifurca, na ausência de mapas e atlas mais precisos, com o uso desproposital de um espelho e uma enciclopédia. José Inácio Vieira de Melo, algo que numa contraleitura dos lugares e paisagens a que se ajustam expectativas reais e sonhos de paraíso, movimenta sua poesia às direções remotas dos sentidos dos homens, aos seus desenfreados horizontes, às rotas empoeiradas a que uma suposta rosa-dos-ventos indicou o futuro – ou terá sido o passado? Com todas as variações e permutações iminentes.
2. o livro
Se um homem atravessasse o Paraíso num sonho, e lhe dessem uma flor como prova de que lá estivera, se ao despertar encontrasse essa flor em sua mão... o que dizer então? [Coleridge]
José Inácio Vieira de Melo, em “Roseiral”, empreende o ato de fazer o outro perceber/perceber-se nos duplos e nas transmutações de si: despertar “a vontade de plantar pedras em outras cabeças”, como consequência de uma linguagem que joga, brinca, viaja – e não se faz trocar por fichas neutras. Daí que, desde os poemas iniciais, o poeta evoca o retrato de cabeças como um gravurista que não se basta à representação. “Eu jogo uma pedra em tua cabeça para que ela cresça em dor”, ou: “A tua cabeça é um precioso amuleto dentro da minha cabeça”. A iconografia que o poeta quer é outra. Uma que fizesse circular um retrato que fosse o menos comum, do quanto que deste lugar existe, se é que existe o lugar e se pode falar por si ou de sua cópia, ou de seu vulto – e, assim, não mais ter que estampar uma mesma e única fisionomia no imediatismo precipitado da pergunta: o que é o sertão? Isto não mais. O retrato falado a que certo cinema, certa literatura, certa música não cessam de nomear, fixar. Uma sociologia que não se sabe se das artes, se das suspeitas, se das discriminações. Por certo nunca a das diferenças, das singularidades, das ramificações. Que esses clichês se abram em outros nomes-imagens não como buquês que ornam e celebram uma vida passivamente administrada; buquês que logo murcham nas mãos daqueles que já estavam mortos. Contra isto a potente investida dessa poesia multiplicada, transmutada, saída do silêncio e da solidão – num estrondo, numa pancada: “Para que, plantada em tua cabeça, a pedra frequente a tua existência”.
“Roseiral” tem como horizonte a amplidão. Requer conversa, diálogo, fala amigável, alegre e incessante. E isto é mais do que tentar uma ênfase. O livro todo nos afeta o imaginário com a vivacidade das coisas cuidadosamente feitas, e não arrefece o impulso de subida nas cinco seções em que se divide. Sem sacrificar a complexidade das temáticas, e sem cair na exterioridade do genérico, chega aos pontos de tensão em áreas de sensibilidade que pra muitos pareciam esgotadas, exauridas. Aqui, a “pedra”, a “rosa”, a “odisséia” – ou a viagem e o nomadismo – abrem espaço pra uma cena maior, de acentuada potência elocutória: um fluxo, um nascimento, uma torrente de coisas sendo devidamente despertadas em simetrias secretas. Não é mais o livro numa combinação híbrida de Rilke, Lorca, nem mesmo Celan, mas o livro inaudito. Um que se volta aos segredos como se de um álbum de família vertiginoso e nada dócil, de nomes-imagens travejados; livro que ativa toda a penúria que somos no instante impreciso das horas e descobertas. É o menino, a infância, a casa, o homem – aquele cadinho que somos, pra quem as coisas acontecem e, a uma só vez, escapam, multiplicam-se. “Eu não sei nem pra onde ir com a minha diferença”. O que somos é algo que criamos – somos nossa própria criação e não cessamos de fazê-la aqui e alhures. Formas de criação em linhas, trânsitos, direções fundamentais e intermediárias. Aventuras secretas e prazeres comuns. O aberto. O fechado. A favor disso o poeta adverte de seu modesto e imenso propósito: “E agora eu só sei te falar desse labirinto”.
Ney Ferraz Paiva é poeta, autor de Não era suicídio sobre a relva, 2000, e Nave do nada, 2004, ambos pela Fundação de Cultura Cidade do Recife.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
VERÔNICA DE VATE - HELENA ORTIZ
Helena Ortiz nasceu em Pelotas-RS, é radicada no Rio de Janeiro. Poeta, contista, cronista e jornalista, criou e dirigiu, entre 1999 e 2005, o projeto Panorama da Palavra, uma mostra semanal de poesia. O projeto deu origem a um jornal mensal homônimo, que tem edição em papel e na internet (http://www.panoramadapalavra.com.br/), e também à Editora da Palavra, seu braço editorial.
Estudou no Instituto de Educação Assis Brasil e depois no Colégio Pelotense, onde foi aluna do escritor Aldyr Garcia Schlee. Na Faculdade de Direito venceu o primeiro concurso de contos de que participou, promovido pela Universidade.
Em 1969 mudou-se para o Rio de Janeiro onde ficou até 1974. Retornou a Pelotas e atuou como colunista do jornal Gazeta Pelotense, onde publicou os primeiros poemas e prestou concurso público para o cargo de taquígrafa da Câmara de Vereadores. Em 1985 prestou outro concurso, desta vez para a Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, onde permaneceu até 1985. Em Porto Alegre foi editora da Rede Brasil Sul e colunista do jornal sindical da ALRGS. Freqüentou a Oficina Literária ministrada pelo escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC, de onde resultou a publicação dos primeiros contos. Em 1997 publicou o primeiro livro de poemas Pedaço de mim, pela editora T&T, em memória da filha Alice.
Em 1985 prestou concurso para a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, freqüentou a oficina de poesia da Estação das Letras e publicou pela Ed. Blocos os livros Margaridas e Azul e sem sapatos, seguidos de Em par, em 2001, pela Editora da Palavra, que inaugurou a editora, e em 2005, Sol sobre o dilúvio. Durante esse período organizou o evento panorama da palavra, e além desse, que se tornou o mais conhecido, organizou outros em homenagem a Manoel de Barros, Garcia Lorca e Carlos Drummond de Andrade.
Reuniu, em 2009, os contos premiados em vários concursos, no livro O Silêncio das Xícaras.
Escreveu, em 2008 e 2009, o livro baseado em quê? volumes I e II, em defesa da legalização das drogas, e vai lançar, agora, em Maracás e Jequié o livro Poemas.
Mantém o blog http://www.integradaemarginal.blogspot.com/
*
Helena Ortiz vai participar do projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, no dia 13, às 19:30 hs, no Auditório Municipal. No dia seguinte, 14 de agosto, estará em Jequié, onde participará do projeto Travessia das Palavras, na Biblioteca Central, às 19:30 hs. Os dois eventos contarão com a participação especial do Grupo Concriz. Em Maracás, além da participação do Grupo Concriz, o evento vai contar também com o Grupo Renascer, da cidade de Planaltino, e com o Grupo Tama Afro e Jorge Café.
No dia 18, Helena estará na Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho, como escritora convidada do projeto Com a Palavra o Escritor, que vai começar às 17 horas. O poeta Vitor Nascimento Sá é quem vai fazer a apresentação da escritora gaúcha.
INÚTIL PAISAGEM
Mi táctica es quedarme en tu recuerdo/
no sé cómo/ ni sé con qué pretexto/
pero quedarme en vos
Mario Benedetti
saber que bebes,
em pé, o café na padaria
e não pensaste em mim
desde que levantaste
olho pela janela (já conheces a paisagem)
Penso comigo: mais um dia a vencer
enquanto te esqueço
e me esqueces
POEMA DE ADEUS
A Idea Vilariño (1920-2009)
não vi o mundo
como sonhei
verdade que não
a era da felicidade esgarçou-se
ante o domínio de um deus novo
e obsceno
ficaram-me olhos e cadernos
mantenho-me à sombra
HELENA ORTIZ
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
SANGUE NOVO - RICARDO THADEU

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Ricardo Thadeu, aos 20 anos vc publicou seu primeiro livro, “D’antes”. Quando se deu seu contato com a poesia? O que representa a poesia na sua vida? E como aconteceu esse livro ainda em idade tenra?
RICARDO THADEU – Eu tinha contato com a poesia desde criança. Depois que entrei na universidade e conheci alguns poetas como Lupeu Lacerda e Wladimir Cazé, por intermédio do amigo Georgio Rios, esse interesse se intensificou. A poesia é pra mim hoje a forma de expressão na qual encontro maior liberdade. Não vivo sem. A idéia do livro surgiu em 2008. Organizei um material do meu blog (100 Fundamentos) e submeti à revisão do poeta e amigo Roberval Pereyr. Depois, corri atrás da publicação que se concretizou no final de 2009.
JIVM – Como é ser um poeta de 21 anos em uma pequena cidade do interior da Bahia? Que relação as pessoas da sua família e da sua comunidade têm com a sua poesia? O que você pretende com sua poesia? Escreve por que e para que e para quem?
RT – Apesar das barreiras geográficas e de algumas limitações como a ausência de livrarias e de bibliotecas aqui em minha cidade, sigo escrevendo. Tento manter contato, pessoalmente ou pela internet, com conterrâneos meus que escrevem, como Caio Rudá. Minha família e meus amigos colaboram muito, compram os livros, ajudam a divulgar, lêem e me dão sugestões. Aí está o sentido da minha poesia. Semear palavras e, se possível, colher boas leituras. Por isso, escrevo para qualquer um que prepara seu campo para receber a poesia e não tenha medo de ficar com uma pulga atrás da orelha, é claro.
JIVM – Que análise você faz da poesia contemporânea do Brasil? E da Bahia? Quais os poetas que mais lhe influenciaram? O que anda lendo, atualmente?
RT – Cara, tem muita gente boa por aí. É humanamente impossível acompanhar o mosaico da poesia brasileira contemporânea. Na Bahia, a quantidade poetas de alto nível impressiona. Falar de influência é complicado, mas acho que posso citar com segurança os poetas Drummond, Lupeu Lacerda (Entre o Alho e o Sal), Idmar Boaventura, Leminski, Luís Antonio Cajazeira Ramos, Roberval Pereyr e Bukowski. A influência é uma espécie de perseguição. A personagem de A lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho, matou o professor de lógica aos 16 anos. Costumo dizer que tento matar cada poeta que já li até hoje toda vez que concebo um verso. Mas eles (os poetas) permanecem ali, no meu encalço. O último livro de poesias brasileiro que li foi o Debaixo das rodas de um automóvel, de Rogério Skylab. Os melhores dos últimos tempos foram o Roseiral (seu), o Macromundo de Wladimir Cazé e o Depois da Chuva de Georgio Rios.
JIVM – A internet contribui na criação poética e, por extensão, na criação artística, ou apenas serve para informar e divulgar? E os blogs, qual a contribuição que trouxeram para os escritores?
RT – Influencia claro. Os poemas e contos curtos que publico no blog, ou em livro, por exemplo, são, em parte, fruto desta rapidez, desta brevidade exigida no mundo virtual, mas o aspecto da divulgação também é muito importante. A internet possibilita também o contato com vários autores. Foi através dos blogs que conheci Renata Belmonte e Mayrant Gallo e me aproximei de Lupeu Lacerda. A própria revista Entre Aspas (onde conheci muitos escritores e leitores), hoje desativada, funcionava na plataforma de um blog. Visito vários blogs por dia. Leio, comento. Eles substituíram, em parte, os fanzines e deram voz a uma galera que talvez não fosse enxergada.
JIVM – E agora, poeta? O que vem pela frente? Um novo livro a caminho? Árvores plantadas? Filhos a nascer? E a nascente de seus versos, jorrando sempre? E o que mais?
RT – Depois do D’ANTES, percebi o quanto é importante interagir com outras pessoas do meio. Os próximos livros serão o durantes e o Depois. Junto com o D’ANTES, formarão o que eu chamei de A trilogia do tempo. A nascente está jorrando. Estou lapidando meus poemas, escrevendo muito, lendo bastante, conversando com os amigos para colher os frutos desta jornada que é a seara da literatura. Bem, o que vem pela frente é, sem dúvida, o caminho e seus percalços. O importante já foi feito: o primeiro passo. Deixo aqui o agradecimento pela oportunidade que você, Inácio, deu a mim e vem dando a esta moçada boa que está trilhando as sendas da poesia. Aos que lerem estas palavras, meu muito obrigado.
TRÊS POEMAS DE RICARDO THADEU

Para minha mãe
Quando estou na pior,
prestes a amarrar uma bigorna no pescoço
e me jogar da ponte
é você que me diz: let it be.
E quando eu quero correr pelado
e gritar para o mundo ouvir
que essa merda de vida não vale a pena,
é você que me diz: let it be.
E nas vezes que choro cortando cebolas
ou vendo meu time perder,
ou quando sei que os ETs
vão invadir a Terra,
que amanhã é segunda-feira
e percebo que essa é só uma leitura
de uma canção famosa
é você que me diz: let it be.
BILHETE NA GELADEIRA
querida F.,
vou ausentar-me por um tempo
o revólver está dentro da gaveta
os cadáveres estão no guarda-roupa
não se esqueça de alimentar o peixe
com amor,
R.
AUTOBIBLIOGRAFIA
o poeta é um fingidor:
assiste ao jornal nacional
e não vê desgraça,
vê poesia

sexta-feira, 30 de julho de 2010
JIVM - VINGANÇA
Ilustração: Daniel Biléu

V I N G A N Ç A
Eu vou pegar o machado de meu avô para te partir ao meio.
Tu me abandonaste no meio do tempo
e eu ainda estou perdido no meio da mata da tua ignorância.
Eu sou fraco, muito fraco. Eu corri para todos os lados
com os olhos esbugalhados sem saber para onde ir,
porque eu tinha medo, eu tinha muito medo, eu morria de medo.
Aí eu olhei pros quatro cantos e não enxerguei nada.
Eu não conseguia ver a imensidão,
apenas sentia um imenso abandono.
Eu vou me vestir de índio para tirar teu escalpo,
e vou dançar ao redor da fogueira dos tempos,
e no caldeirão dos meus prazeres cozinharei tua carne morena,
e, na brasa das tempestades que gritam o meu desespero,
assarei tuas carnes e banquetearei os que alimentaram tua ambição.
Já podes sentir a justiça do machado do meu avô:
o teu sangue lava os focinhos dos porcos.
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
domingo, 25 de julho de 2010
MARIANA IANELLI - FLOR DO OFÍCIO
Foto: Petronio Cinque
FLOR DO OFÍCIO
Emboscada no silêncio
Eu preparo a rosa inútil
Com as horas que salvei
Do desperdício.
Feito um verme
Decompondo ceticismo
Em força indômita,
Preparo e deito essa flor
No teu caminho
Para quando o teu corpo
(Tão quebrantável quanto o meu)
For sozinho pastorear
Seus demônios no vazio.
Quase dois mil anos
Guardado no deserto
Um salmo esperou
Para recobrar sua melodia –
E eu não te esperaria?
MARIANA IANELLI
Kátia Borges entrevista Mariana Ianelli:
A FEBRE MÁGICA – “Sinto falta de poemas que emocionem”
Clique no link abaixo, leia e comente a entrevista,
publicado em 25/07/2010, na revista Muito, do jornal A Tarde, em Salvador:
http://revistamuito.atarde.com.br/?p=5300
segunda-feira, 19 de julho de 2010
SANGUE NOVO - DANIEL FARIAS

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Por que ser poeta? Como foi o despertar da poesia em você?
DANIEL FARIAS – A pergunta que me levou a ser poeta foi “por que não sê-lo?”. Antes dela houve um processo de autodescoberta, um caderno/coleção de frases, poemas e citações (que me levaram a criar as minhas) e uma mudança no caminho de casa numa noite: encontrei um amigo, por acaso, num ponto de ônibus. No papo de atualização das vidas (que durou hora) me disse ser poeta e ter um blog. Depois de lê-lo, cheio de comentários, descobri outro universo: de poetas vivos, de leitores atentos e de muito a ser dito. Então passei a publicar e não parei de escrever. No início era apenas prosa, um pouco distante em terceira pessoa. Mas foi inevitável aproximar-me de mim mesmo para continuar. E então veio: por que não? Já que estamos vivos, como a poesia.
JIVM – A poesia exerce algum papel na sociedade? E o que você pretende com sua poesia?
DF – A poesia, como toda arte, é alimento. Não conheço quem viva sem. Ela é a pausa necessária e urgente a todos os membros da sociedade. Ela é multifacetada, etérea e se adapta facilmente. Podemos vê-la em diversos momentos de nossa vida, ela ultrapassa os versos e os papéis, esses são apenas meios de registrá-la. Daí porque às vezes talvez passe despercebida e é justamente por isso que precisamos lembrar de sua existência. E de sua importância na sensibilização dos homens: de seus olhares, de suas relações, de suas percepções de mundo e dos outros. Se, de alguma forma, meus versos puderem, minimamente, contribuir com isso, estarei satisfeito.
JIVM – Quais são os seus poetas referenciais? O que você está lendo atualmente? E prosa você lê também? Mais conto ou romance?
DF – Comecei com Drummond. Converso com Vinícius e Pessoa. Waly me intensifica. Arnaldo me expande. E é sempre bom passear por Leminski, Bandeira e João Cabral. Ultimamente tenho lido e me admirado com poetas que tive a honra de conhecer pessoalmente: Cajazeira, José Inácio, Kátia Borges e Eliana Mara. Com Damário não dei essa sorte, mas sinto-me próximo pela amizade que tenho com seu sobrinho. Minhas amigas Emília Nuñez, Fernanda Veiga e Raiça Bomfim também são simplesmente maravilhosas. Leio muitos livros em prosa, a grande maioria são romances. Meu melhor amigo nesse estilo morreu recentemente, ocasião em que soube que Saramago é um tipo de árvore que nasce nos escombros. Calvino, Cortázar e Dostoiévski também foram grandes acontecimentos.
JIVM – Heidegger definiu a poesia como “fundação do ser mediante a palavra”. O que você acha dessa definição? E você como define a poesia? E mais, como você define a sua poesia?
DF – Gosto muito da definição de Damário: “Para que serve a poesia? Para fazer o homem. Para que serve o homem? Para fazer poesia.” Talvez seja onde o homem é mais humano. Sendo esse o manancial da fundação, ótimo. Um local para onde voltarmos para lembrar quem somos. Gosto de pensar minha poesia como o registro de momentos sob meu olhar, a paralisação do tempo, o recorte de algo essencial e sua reverberação em mim. A poesia é um sinal amarelo (http://seeufosseumlivro.blogspot.com/2009/06/sinal-amarelo.html). A única maneira que conheço de compartilhar tudo isso é o poema, já que não desenho.
JIVM – Algum livro em andamento? Quando o poeta Daniel Farias pretende sair da gaveta, melhor dizendo, do blog para o livro? Tem algum outro projeto que tenha ligação com a sua poesia? E o que mais?
DF – Acho fundamental ultrapassar a virtualidade. Concordo com Caetano quando diz que “os livros são objetos transcendentes, mas podemos amá-los do amor táctil”. É uma honra integrar essa iniciativa perspicaz do Sangue Novo. Tenho um projeto com alguns amigos em fase de seleção no edital estadual de criação literária (estamos habilitados, pelo menos - risos). Chama-se Segundos Instantes, e é voltado para esse segundo olhar sobre os intervalos. A proposta inclui palestras de fomento à escrita e à captação poética, para que outros jovens sintam-se legitimados a tanto. Acho importantíssimo vencer a inércia e propor essas coisas, é uma vitória contra nós mesmos. O próprio título de meu blog aponta para isso. Talvez mude o seu tempo verbal, inclusive. Outra idéia é reunir alguns poemas em um livro chamado Quandos. Outro projeto é o espetáculo Há Mar, poético e itinerante, também com amigos e também no aguardo. Além disso pretendo colocar poesia no rádio. Precisamos fazer com que ela chegue desmistificada ao encontro do maior número de pessoas. A percepção poética também é mote para um experimento audiovisual, também em pré-produção, intitulado Paissagem. Alguns escritos foram recentemente inseridos no espetáculo A Canoa, do Groove Estúdio Teatral. No mais? Sigo priorizando minha maior paixão: o teatro! E brincando de fazer música no violão, uma hora apresento alguma coisa, sempre com amigos, sempre com prazer.
TRÊS POEMAS DE DANIEL FARIAS

um dia desses
opte pelo caminho
mais bonito
seja turista
em sua própria casa
e fotografe
ainda que na retina
a cor e a inclinação
do sol visto
daquela esquina
se apaixone de novo
pelo mesmo sorriso
não há de ser sem motivo
lembre-se daquela praia
ou daquele café
e vá
ainda que chova
ou que seja terça
sem pressa
se parar nas luzes vermelhas
ouça das músicas as letras
baixe o volume para escutar
sua cabeça mas aumente se ela quiser
gritar
sorria
seja gentil
olhe olho
abraçe com braço
um dia desses
e são tantos
da gravidade do acaso
se isso que eu sou
de fato te importasse
decerto que abria essa porta
e se impunha
me arrebatava na hora
e me transportava agora
pra fora da força da sorte
pra perto
pro aperto
pra dentro
ressonância
cada eco
tem o tamanho
exato
de seu abismo
com calma
o tempo
te transforma
em silêncio

sábado, 17 de julho de 2010
WILMAR SILVA E JIVM PELOS VAREDOS DA PEDRA SÓ
O poeta mineiro Wilmar Silva passou uma semana aqui na Bahia, em nossa companhia. Participou de eventos em diferentes cidades do estado e, além de ter encantado e de ter causado espanto com sua arte conceitual e terral, fez várias amizades. Para mim, um dos momentos mais marcantes desse nosso encontro foi a ida para a Pedra Só – a minha roça. Chegamos ao fim do entardecer, quando já estava escurecendo: Wilmar Silva, Vitor Nascimento Sá, Ivana Karoline e eu. Acendemos uma fogueira e ficamos a contemplar as estrelas, a ouvir música e poesia. Ouvimos, silenciosamente, o cd de poesia biosonora Neo Não – Wilmar Silva acompanhado pela guitarra do Francesco Napoli. Depois, ouvimos alguns poemas meus recitados por Chico de Assis e por Rita Santana. E lá para uma hora da madrugada, fomos dormir. De manhã, pegamos os cavalos e cavalgamos mundo afora, caatinga adentro. À tarde, seguimos rumo a Salvador. Abaixo, deixo o registro da nossa caminhada pelos varedos do Grande Sertão. Wilmar Silva e José Inácio Vieira de Melo – dois poetamigos.
JIVM
de seus cascos famosos de cavalos inteiros”
segunda-feira, 5 de julho de 2010
VERÔNICA DE VATE - WILMAR SILVA
Foto: Paulo Lacerda

ARRANJOS DE PÁSSAROS E FLORES
Arranjo de melro e dálias
eu/ cavaleiro, invisível é meu galope
atrás do perfume que exala no breu/
nessa praia de cascalhos e penhasco
onde apenas eu, influência de vento,
lavo teu corpo com a própria lima e
enxugo o suor de virilha à língua/
rubi chicote, carmim espora, eu síncope
costas quase ícones meio cones eu-dreno
melros de cetim eu, de sede te sedo
foz de orgasmo no festim floral
Arranjo de gaivotas e pampulha
eu-menino-do-campo, te faço conviva
e digo que a palavra que escrevo é
origem, invento gaivotas no sertão
ilha é meu corpo de encontro ao teu
aqui, longe, após o inverno da tempestade
verto o amálgama da pampulha veleiro
arco-íris que choram de solidão, eu
agora impávido e celeste, anjo de fogo
eu-espelho d’água, narciso e orfeu
flautas e flores, eu-pássaro cais e flora –
WILMAR SILVA
quinta-feira, 1 de julho de 2010
JIVM - ROSA MÍSTICA
ROSA MÍSTICA
Além do sino de bronze, navego
os enlevos internos do poeta,
viajo entre jardins de algarobeiras
e de mandacarus, buscando a Rosa
Mística. Codifico meus silêncios,
aparição de vozes e de luzes,
como paixões centrípetas e avulsas
que arremessam suas bocas à vida.
Porém, ao longo surgem as tormentas.
E a voz segura do poeta rompe
a cera dos ouvidos, leva o mel
ou a pimenta às vísceras abertas
do sentimento. E vejo a Rosa Mística:
origem, infinita criação.
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
domingo, 27 de junho de 2010
PROJETO TRAVESSIA DAS PALAVRAS - ANO II

Esses encontros acontecem uma vez por mês. O escritor convidado fala de sua obra e da sua trajetória. O público participa fazendo perguntas. O projeto conta ainda com a participação especial do Grupo Concriz, uma turma de 30 jovens recitadores da cidade de Maracás, que fazem performances recitativas das obras dos convidados.
O projeto começou em 2009, ano em que teve a participação de oito escritores baianos, desde o poeta Florisvaldo Mattos até o escritor Aleilton Fonseca. Também estiveram presentes Roberval Pereyr, Kátia Borges, Carlos Ribeiro, Antonio Brasileiro, Ruy Espinheira Filho e Renata. Em 2010 o evento toma proporção nacional e traz escritores de várias regiões do país: José Inácio Vieira de Melo, alagoano radicado na Bahia; Wilmar Silva, de Minas Gerais; Helena Ortiz, gaúcha radicado no Rio de Janeiro; Astrid Cabral, amazonense também radicado no Rio; e a baiana Myriam Fraga.
Como já foi supracitado, os eventos são mensais, sempre aos sábados, a partir das 19h 30min, na Biblioteca Central de Jequié, teve início em 11 de junho e vai até o dia 9 de outubro.
Travessia das Palavras é coordenado por Leonam Oliveira, escritor e presidente da Academia de Letras de Jequié, e por José Inácio Vieira de Melo, poeta, jornalista e produtor cultural. Conta com o apoio da Secretaria de Cultura e Turismo de Jequié.
11/06/2010 – José Inácio V. de Melo (AL/BA)
10 / 07 / 2010 – Wilmar Silva (MG)
14/ 08 / 2010 – Helena Ortiz (RS / RJ)
11 / 09 / 2010 – Astrid Cabral (AM / RJ)
09 / 10 / 2010 – Myriam Fraga (BA)
sábado, 19 de junho de 2010
SANGUE NOVO - GIBRAN SOUSA

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Como descobriu a poesia? E por que ser poeta?
GIBRAN SOUSA – Escrevo por que as mulheres existem. Todo o resto é somente uma resultante dessa existência, uma digressão anunciada. Através delas eu descobri a poesia me descobrindo. Pois enquanto sempre – e desde ainda – eu li compulsivamente. De modo a passar intermináveis períodos em bibliotecas e outros locais disseminantes de doenças respiratórias. Onde invariavelmente, pelo meu interesse na palavra, eu mirava as pernas - fingindo as páginas - nos rodapés da minha retina, retinta.
Naquela altura, numa dessas milhares-mulheres-páginas, li: Ezra Pound. E toda a poesia que eu supunha então existir: desistiu; deusistiu. Fiquei preocupadamente impressionado com aquilo, naquele. Pound niilizou todo o meu entendimento de poesia. Seu Vorticismo me apontou para Hulme, Yeats, e, sobretudo Joyce. Ele tornou-se - contraditoriamente - meu herói e minha heroína; meu porto seguro e meu portu-guês. Seus Cantos já preconizavam profeticamente os nossos Campos. E assim – depois dele: depois de tanto tudo: mudo - só me cabia acender a TV, vestir um par de chuteiras, ou mesmo fazer coisas sem nenhuma importância, como viver.
JIVM – você dialoga com a poesia visual? Artistas como Arnaldo Antunes parecem exercer uma forte influência em sua criação? Se eu estiver certo, fale como se deu essa aproximação e o que o fascina nessa maneira de se conceber a poesia?
GS – A meu ver toda poesia é visual, pois toda e qualquer e cada poesia é composta por signos, ideogramas, caracteres, loci-rupestres, imagens-origens, e (/ou) outros. Ou seja, representações multimídias e transmídias de foco-visagem.
Eu dialogo mnemônica e afetivamente com a poesia sonora, apesar de discordar criteriosamente dessa nomenclatura depreciativa. No entanto, utilizo sobremaneira elementos da poesia concreta, assim como da poesia impressionista e imagista.
O Arnaldo exerce pouca influência em minha criação. E isso não é bom, muito menos o contrário, nem chega a ser ruim. Quis sua influência, mas ela não me kiss. Desde então percebo em sua poesia um viés pelo qual a minha também pretende se lançar, porém, por v(e)ias dissonantes. Deixa eu me fazer entender: O concretismo concebe a estrutura-partícula-célula-poema mais comunicável da palavra. Pela síntese, lógica e caráter holístico proporcionado (desculpem-me os poetas tradicionais, subjetivos e cristãos). Entretanto, essa mesma poesia que veio se construindo da década de cinquenta pra já, é extremamente segmentária, ensimesmada e cabotina, apesar de imensamente midiática. Tanto que existem – inclusive - poetas se esforçando para entendê-la, sem, no entanto atingir o famigerado nirvana concreto. Basta assistir a um recital do Augusto de Campos, por exemplo - um dos poetas a quem mais admiro – e pode-se perceber que muitíssimos por cento do público compreendeu pouquíssimo da apresentação. E isso é fato (desculpem-me os poetas concretos, objetivos e pagãos). No entanto, aqueles que compreendem o seu rizoma-trânsito-mórfico ficam num alumbramento inefável. E onde eu caibo nisso? Na comunicabilidade. That is the answer. O Arnaldo faz – e eu também (suponho) - com que a estética da poesia mais comunicável do mundo, seja realmente, comunicável. Tornando a poesia concreta + AXÉssível.
JIVM – O que representa a poesia concreta par você? E a poesia contemporânea da Bahia, desperta a sua atenção? Autores como Florisvaldo Mattos, Myriam Fraga, Ruy Espinheira Filho e Luís Antonio Cajazeira Ramos lhe causam interesse?
GS – A poesia concreta - junto com a velha bossa nova - foi a maior invenção brasileira do século vinte. Ela está em toda a cultura de propaganda desse nosso planeta-vício, desde o craque até o crack. Suas ferramentas, inferências e aplicações recodificaram todo o universo midiático: TV, rádio, internet, fanzine, bula, bunda, HQ, batina, tatuagem etc. Porém, apenas a imensa minoria das pessoas entende de fato essa poesia e suas implicações, embora cientes (creio) dos seus artifícios utilizados no marketing, cinema, artes plásticas, mal como na música. Mas o que a pequena maioria não sabe, é que essa poesia – ainda tão jovem e fotogênica - tem parentes senis, em preto e branco, como o E. E. Cummings e o Mallarmé.
Existem alguns poetas fazendo coisas interessantes na Bahia, são pouquíssimos, mas existem. Principalmente no que tange à poesia performática e à poesia dramática. Existem também bons escritores, e eu acompanho seus poemas com curiosidade e atenção, nas bocas, books e blogs. No entanto, num corte quantitativo, grande parte dos nossos poetas somente alimenta o tempo.
Eu conheço as obras dos autores Florisvaldo Mattos, Myriam Fraga, Luís Antonio Cajazeira Ramos, e principalmente do Ruy Espinheira Filho, pois assim como você eu também não acredito em poeta que não lê poesia, sobretudo poesia contemporânea. Mas o interesse que tenho por eles está na mesma medida do interesse que eles têm por mim.
JIVM – Quais os livros de poesia que mais lhe fascinaram e quais seus poetas preferidos? E por quê?
GS – Os livros de poesia que + me fascinaram (e também me “faxinaram”) foram: Alcools – Apollinaire, The house of fame – Geoffrey Chaucer, Poemóbiles - Augusto de Campos, Algaravias - Waly Salomão, Cantos - Ezra Pound, Memórias Inventadas – Barros, Pedra do Sono – João Cabral, Òboe sommerso – Salvatore Quasimodo, entre outros.
Meus poetas preferidos são John Donne, Amy Lowell, Paul Valéry, Cummings, Mautner, F. S. Flint, Percy Shelley e Keats. Todos eles tiveram, têm e terão em mim uma coisa delicadamente comum: o interesse pelo novo. O não deixar se convencer pelas estruturas. Pois sou eutanasiamente atraído pelo risco estético. E é justamente isso que procuro a cada poema. Corromper silêncios, pausas, sons, sotaques, dicções, concatenações, perspectivas, imagens, timbres, intenções, sugestões, expressões, incorrespondências, texturas, delays, medos, verdades e demônios.
Não sou, entretanto, um tolo defensor de vanguardas ou hermetismos separatistas, pois sei desde Patativa e Schiller que essa compreensão de esquinas é necessária para a construção do novo de novo, pela tradição vigente. Até por que a tradição é isso: tudo aquilo o que nos espera; A invenção; É o “de onde vimos” e o “para onde vamos”. E toda a vanguarda é apenas o trans, a transa, o trânsito...
JIVM – Você tem um grupo que se apresenta fazendo performance poética, fale como é a sua movimentação e de seu grupo. E mais, algum livro para publicar? Algum projeto em via de realização? E o que mais?
GS – Criei um conceito estético chamado Diversital, que também é o nome do recital e do grupo. Mas não é um grupo, especificamente. Pois esse recital tende a acontecer com pessoas diferentes, exceto por mim. Explico: não existem componentes fixos. De modo que posso trabalhar com quem tenho vontade, sem obrigações. E através desse esteio ou suporte (sem suporte) pude trabalhar a palavra com inúmeras representações, tais como: teatro, cinema, fotografia e dança. Dessa forma realizei recitais com o músico Barná Cardoso, com a artista plástica Leilane Cedraz, com o cantor e escritor Jorge Mautner, com o grupo de teatro a Trupe dos Trupícios, com o sapateador Wilson Tavares, com a museóloga Mona Ribeiro, com o diretor Railson Oliveira, com o baixista Clécio Terêncio entre outros.
Tenho cinco livros escritos, nenhum publicado. Na verdade eu nunca fiz um esforço para que isso acontecesse, já houve até tentativa de acordo, ou lançamento em cooperativa, ou ainda uma proposta de uma pequena editora local, mas nunca me interessei suficientemente. Porém, pretendo e vou publicá-los Acredito que um verso meu resume bem a questão: “Prefiro o palco ao eterno, assim como instante à estante”. Mas sempre gostei mesmo foi de luz, de gente, de microfone. Gostei tanto que ainda gosto. E gosto de gostar. Gosto da vaia, do salto, e também gosto do chão. Gosto de você que me lê agora. Mas gosto mesmo é do não!
DOIS POEMAS DE GIBRAN SOUSA
sandras simones sheilas suzanas sílvios
soprando sonoros sustenidos silvos
suspiram surdas sinfonias servis
sob suvenirs
sob suecoss
sob saraus
sob sífilis
sob sites
sob $im
salivando sentando
sumindo sugando surgindo supondo
subindo sangrando sambando saudando
ser sem sul sem sutiã sem sempre
swing silepse serpente
síncope sã
silente
ser
-mão: sob sol
suspenso: sobre sub-
missas santidades sodomizadas
sem sal sem salmo sem salmão só senão
sorrindo suando satisfazendo saciando sujos
sádicos secretos sinceros sujeitos
"suicidas sêmen suspeitos"
sem s
sem se
sem ser
sem sem
sem sede
sem sentir
sequestram-se subornam-se senzalam-se
simulando superlativos sustentam seus sonhos:
servindo sua sugestão seu sexo seus seios sua solidão
A QUEDA CAÍA EM MIM
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terça-feira, 15 de junho de 2010
JIVM - TRANSMUTAÇÃO
Escultura: David, de Gian Lorenzo Bernini
TRANSMUTAÇÃO
Eu jogo uma pedra em tua cabeça para que ela cresça em dor.
Para que, plantada em tua cabeça, a pedra frequente a tua existência
e desperte em ti a vontade de plantar pedras em outras cabeças.
Eu tenho uma vontade enorme de que um dia toda a humanidade
jogue pedras e que Deus receba a pedrada certeira, exata.
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
segunda-feira, 14 de junho de 2010
ROSEIRAL EM JEQUIÉ

JIVM
quinta-feira, 3 de junho de 2010
SANGUE NOVO - ALEXANDRE COUTINHO
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – como descobriu a poesia? E por que ser poeta?
ALEXANDRE COUTINHO – Quando vi já estava escrevendo. Desde meu 12 anos, trago comigo cadernos desorganizados e cheios de orelhas. Daí a publicação como conseqüência. Acho que acabei me tornando poeta (se assim posso me chamar) pelo desejo de minimizar minha estupidez enquanto homem da ordem prática, a poesia acabou sendo arma contra a ignorância, minha e do mundo.
JIVM – A poesia exerce algum papel na sociedade? A poesia tem alguma utilidade? Pessoa é tão necessário quanto um pedaço de pão? Nem só de pão vive o homem, mas é possível viver de poesia?
AC – A poesia é por si só um posicionamento político ante a ordem da linguagem, dos homens e das coisas.
A partir do momento em que começo a pensar utilidade em poesia, tiro dela todo acontecimento; a poesia só responde àquilo que é do desejo.
Pessoa é um farto pedaço de pão, o resto é farelo. Poesia sempre foi fome, e temo que seja insaciável. Se não é possível viver de poesia, é possível viver com poesia?
JIVM – Quais os livros de poesia que mais lhe fascinaram e quais seus poetas preferidos?
AC – Sempre fui um leitor de poesia, muitos livros me fascinaram, entre eles : Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão, da Hilda Hilst; Ou o Poema Contínuo, do Herberto Helder e Barulhos, do Ferreira Gullar. Poetas são muitos, Álvaro de Campos, Ana Cristina César, Borges, Quintana, Manoel de Barros, Baudelaire... por aí vai.
JIVM – Você acaba de ter um livro de poemas, Estudos do corpo, selecionado para publicação pela Fundação Pedro Calmon / Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Fale desse livro, de como foi gerado e o que representa essa seleção/premiação? Qual a previsão para a publicação?
AC – Passei quatro anos com Estudos do Corpo, ele já foi tanta coisa... ali pude experimentar simetrias, compor e decompor o corpo masculino do poema. Meu caderno mais maduro, minha doença mais sadia. Ele ter sido selecionado me mostrou que a coisa mais importante é realmente navegar, pois que a publicação é mero resultado do experimento. Se não fosse por uma amiga, que insistiu em escrever o projeto, o livro estaria até hoje na gaveta. Fiz algumas ilustrações pra ele também. Estou muito feliz com a seleção, ver os Estudos do Corpo ganhar autonomia só me excita mais e me liberta pra outras tentativas. O livro sairá pela 7letras, uma editora carioca, e tem previsão de lançamento para o mês de agosto.
JIVM – Algum novo livro em processo? Algum projeto em vias de realização? E o que mais?
AC – Sim, sim. As coisas estão se criando, acontecendo junto comigo. Além dos poemas, das músicas, que são regulares, porque são respirações de minha natureza sensível, venho experimentando a prosa numa tentativa de vencer uma inabilidade que tenho com histórias. Mas nem sei o que são ou quando se completarão, se é que isso é possível. Além de escrever, também me meto na música e ando desenvolvendo um projeto com minhas composições. Vamos ver no que dá.
TRÊS POEMAS DE ALEXANDRE COUTINHO

JAZZ nº 19
eu provoco, invoco e me coloco
no meio do redemoinho
reteatralizo o desejo
invento mil máscaras
mesmo que esfaceladas
para forçar um diálogo
com teu corpo
ou com teus líquidos.
Invento um efeito qualquer
metamorfoses em cena. sujeito
e espectador. luzes no centro
que contorno. abalos na linguagem
dramas da imagem. sistemas lógicos
da ficção que invento:
uma história das fissuras
um caderno de tuas ausências
ou de meu feitiços. ou das doenças
do desejo. terreno que não se esvazia.
ritual da noite. chamamentos do dia.
JAZZ n°20
Eu já fui mais que esta sombra,
Tão noite como quem esquece
Luzes debaixo d´água. Sorriso de mil vias
Ondulações de umidade sobre a terra:
Contrários da mesma ordem
ou da linguagem das gentes;
Estudiosos da pintura
que nem sabem das velocidades,
fabricando paredes ou fundos
no côncavo das coisas:
- nos desconhecemos
NA FEBRE.
outras texturas. no delírio
a casa em chamas. quando te imagino
terça-feira, 1 de junho de 2010
PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS - JORGE DE SOUZA ARAUJO

VERÔNICA DE VATE - JORGE DE SOUZA ARAUJO
ALGUNS LIVROS PUBLICADOS
Os becos do homem (poesia. Rio de Janeiro: Antares, 1982).
Auto do Descobrimento: o romanceiro de vagas descobertas (Ilhéus-BA: Editus, 1997).
Perfil do leitor colonial (IlhéusBA: Editus, 1999).
Profecias morenas: discurso do eu e da pátria em Antônio Vieira (Salvador: Assembléia Legislativa/Academia de Letras da Bahia, 1999).
Essa esquiva e dilacerada fauna: contos (Ilhéus-BA Letra Impresa, 2002).
Pegadas na praia: a obra de Anchieta em suas relações intertextuais (Ilhéus-Ba: Editus, 2003).
Dioniso & Cia. na moqueca de dendê: desejo, revolução e prazer na obra de Jorge Amado (Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003).
Ainda que nos precipitem (Ilhéus-BA: Letra Impressa, 2005).
Letra, leitor, leituras: reflexões (Itabuna-BA: Via Literarum, 2006).
Graciliano Ramos e o desgosto de ser criatura (Maceió: Edufal, 2008).
Floração de imaginários - o romance baiano no século 20 (Itabuna: BA, Via Litterarum, 2008).
EXCERTOS DE POEMAS DE JORGE DE SOUZA ARAUJO:
A linguagem é um asno roto
no caminho das metamorfoses
o suor no rosto do texto
metáforas soluçando abortos
e seqüestrando formosuras
Caiar o coração é uma certeza tesa.
Minha alma, como um carro de bois
e sua cunha de imburana, geme, penada.
Meu sangue, por canais, transporta afetos
e potros galopam em meu peito estúpida e boçal
melancolia
A angústia humana
moeda do real vincada em símbolos
imagens de cacimbas e de nuvens
ora pó ora água profunda e intestina
habita o interior do homem
nele presença sem resguardo
O amor pra ser gostoso
nunca deve ser pamonha
tem de ser escandaloso
cego surdo e sem vergonha

