sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

ENTREVISTA - JIVM: POETA PASTORAL, MUEZIM DA CAATINGA

Por Goulart Gomes

Entrevista concedida ao escritor Goulart Gomes, publicada no dia 3 de março de 2009, em seu blog Território Inimigo (http://www.goulartgomes.com/index.php), Confira:


Prezados leitores:

Estou iniciando, hoje, a publicação de uma série de entrevistas com escritores, as quais serão quinzenalmente disponibilizadas aqui no site TERRITÓRIO INIMIGO. Essas entrevistas pretendem apresentar não apenas o Escritor e sua Obra, mas o Ser Humano que é a essência de cada um de nós, pessoas com suas ricas histórias e aprendizados, que são a fonte de toda obra literária.
Para começar, entrevistei JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO, companheiro de longa jornada, poeta e produtor cultural da minha geração, um incansável batalhador, que não se limita a divulgar sua própria obra, mas também a de vários outros contemporâneos, num exemplo de solidariedade e companheirismo. Apreciem:


Quatro cavaleiros: JIVM, Gabriel (2 anos), Moisés (9 anos) e Aloísio (7 anos)

GOULART GOMES
– Você nasceu em Olho D’Água do Pai Mané, recôndito lugarejo de Alagoas. Como diria Guimarães Rosa, o sertão nos habita? Dois Riachos é o seu Caminho de Swann?

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – O Sertão é dentro. É interior. O mestre Rosa sabia das coisas. Nada tem com os estereótipos forjados nem com delimitações geográficas. O Sertão é o Tao do Ser.
De Dois Riachos quase nada sei. Mas Olho d’Água do Pai Mané está bem lá dentro, bem no fundo do pote da infância. Uma sombra costurada nos três primeiros anos azuis da minha existência.

GG – Como e porque a Bahia entrou em sua vida?

JIVM – Contra o Destino nem Zeus nem Deus. Estava escrito nas estrelas. Morávamos em Arapiraca e, no final dos anos setenta, meu pai comprou uma fazenda na Bahia – e como soava distante esse nome e esse lugar: Bahia. A partir de então, meus irmãos e eu passamos a visitar essa propriedade, a fazenda Nova Esperança (Cerca de Pedra), que fica no município de Maracás, pelo menos uma vez por ano. Em 1982, aos 14 anos, passei uns três meses na fazenda. Nesse período, fui a um povoado chamado Peixe, onde conheci uma morena: Cássia – meu primeiro alumbramento (como diria Bandeira). Em 1988, no mês de março, próximo dos meus 20 anos, resolvi morar na Cerca de Pedra, decisão que deu um encaminhamento para a minha vida bem diferente do que a maioria dos jovens da minha geração teve. Fiquei por uma década entre a caatinga baiana e a fria e aconchegante cidade de Maracás.

GG – Você é graduado em Comunicação e faz Mestrado em Letras. Entre um livro e outro, ferra gado, monta cavalo, tira leite de vaca e de pedra. Como é lidar com o sertão ficcional e o real ao mesmo tempo?

JIVM – A minha vida é bem corrida. Entre a poeira dos livros e o pó da estrada. Tangendo boiadas, “debaixo de um sol a pino/ que reduz tudo ao espinhaço”, ou lendo pilhas de livros deitado numa rede armada debaixo de dois pés de algaroba. Ou, ainda, dentro de um carro, voando para Jequié (que fica a 140 km da fazenda), ou pro mestrado em Feira de Santana (que fica a 300 km da fazenda e a 250 km de Jequié), ou para eventos em Salvador (que fica a 400 km da roça, a 360 km de Jequié e a 110 km de Feira) – nesses momentos é que ouço música: Beethoven, Stravinsky, Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti, Zé Ramalho, Raimundo Fagner, Led Zeppelin, Bob Dylan... E tem ainda o tempo que fico na internet, fazendo divulgação dos eventos, dos meus poemas, de poemas de outros poetas e atualizando meu blog. Tudo isso faz parte do Sertão que sou, onde ficção e realidade são uma coisa só.

GG – Pesquisando seu nome no Google encontramos referência a 3.630 páginas, mais do que muitos poetas famosos. Isso é resultado da inspiração ou da transpiração?

JIVM – É resultado de um trabalho feito com inspiração. É o reconhecimento da transpiração inspirada.

GG – Qual é a Ítaca da sua saga poética: a fama, o sucesso ou o dinheiro?

JIVM – Eu sou um poeta de tradição pastoral. Herdeiro de Davi, o salmista, e dos vaqueiros Damião Tavares, Pedro Vaqueiro, Sérvulo Duarte e Moisés Vieira de Melo, meu avô. Gente que viveu em busca da glória divina, da bem-aventurança. E essa é a minha busca: alcançar a glória divina da poesia. A glória de Deus, dos deuses e das musas.

GG – Além de poeta, você se arrisca como cantador, de vez em quando. Alguma pretensão musical ou isso faz parte da tradição dos poetas-cantadores do Nordeste?

JIVM – Sou apenas um muezim da caatinga. Solto os aboios que estão dentro do peito para que eles encontrem expressão no firmamento, para que vibrem na imensidão. A minha sina é a Poesia. Estou alinhado ao poetas-cantadores da nação nordestina, cavaleiros e peregrinos como Patativa do Assaré, Elomar, Cego Aderaldo, Luiz Gonzaga e Vavá Machado & Marcolino – os Bridões de Ouro do país das Alagoas.

GG – Hoje você reside em Jequié e também atua em Maracás. O que essas cidades representam em sua Literatura?

JIVM – Maracás, cidade das flores, é um lugar que faz parte do meu ser. Vivi muitas loucuras etílicas e saboreei a companhia aconchegante de várias musas nas noites frias de Maracás. Foi onde comecei a assumir minha condição de poeta, muito influenciado pela vivência no Grupo Viajantes do Pensamento, criado por Edmar Vieira, Edivando Damasceno, Nel Velame e por mim. Ainda hoje transito muito por Maracás.
Em Jequié, onde moro há três anos, não conheço quase ninguém. Relaciono-me com pouquíssimas pessoas, grandes figuras como seu Belo, meu barbeiro; a professora Valéria Lessa; o poeta Maurício Bastos Almeida, mais conhecido como Mauricéia Desvairada; e meu querido amigo Leonam Oliveira, o Velho Léo – presidente da Academia de Letras de Jequié.

GG – Parece que o sucesso de alguns autores incomoda muito a outros. A sua fama também lhe trouxe alguns adversários. O que você diria aos detratores da sua obra?

JIVM – Meus caros detratores, agradeço-lhes por dedicarem boa parte do vosso precioso tempo em um trabalho árduo e gigantesco de divulgação da minha obra. Até o final do ano estarei lançando mais um livro, conto com a atenção e dedicação de todos vocês. Continuem trabalhando bastante!

GG – Dentre as imagens míticas da sua poesia há uma recorrência ao Centauro. Seria ele a simbologia do sertanejo, antes de tudo um forte?

JIVM – No livro A infância do Centauro há uma recorrência a este mito. E ele aparece justamente como a representação do vaqueiro e seu cavalo – dois seres que se amalgamam e passam a ser uma entidade possuidora de rara fortaleza.

GG – E seu caso com a égua Guinevere? Amor platônico ou primeiro romance de um adolescente?

JIVM
– Amor platônico. Na hora em que recebi a notícia do nascimento de Guinevere, estava acabando de ler As brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley. Daí ter colocado o nome da rainha de Arthur e Lancelot na pordinha de olhos azuis. Dei-a de presente para Linda.

GG – Você realizou, ao longo de quatro anos, um dos mais importantes eventos de poesia da Bahia, o Poesia na Boca da Noite. Por que não há público para a poesia no mais criativo estado do Brasil?

JIVM – Porque a cidade de Salvador é grande e cheia de opções e, também, porque a poesia não é prioridade para quase ninguém. Boa parte dos poetas que participaram do projeto, só apareceu no dia da sua apresentação. O que me leva a entender que tinham outras prioridades ou, então, por acharem que os outros poetas não mereciam atenção mesmo. Mas os realmente interessados sempre apareciam por lá.

GG – Você, além de vencer na Literatura, venceu também o Alcoolismo. Que lições ficaram daquele período conturbado da sua vida?

JIVM – Duas lições: o vício cega e leva o sujeito a perder a dignidade. Foram duas décadas de muito álcool e outras drogas. Agora, sete anos depois de ter feito a travessia, percebo o quanto sofri e quanto sofrimento causei. O aprendizado maior, porém, foi compreender que o grande barato é estar sóbrio, é ser senhor de si, perceber-se no Cosmo e saborear a poesia de cada instante da existência – essa é a loucura sagrada e este é o meu testemunho.

GG – Em uma livraria, um jovem escritor lhe pede três indicações de livros para comprar. O que você recomendaria?

JIVM – O guardador de rebanhos (Alberto Caeiro/Fernando Pessoa), Cem anos de Solidão (Gabriel Garcia Marquez) e A túnica inconsútil (Jorge de Lima).

GG – A sua poesia dialoga com João Cabral, e outros grandes poetas nordestinos: a pedra, a faca, o mandacaru. Quais suas outras influências?

JIVM – Cabral e Lorca, Pessoa e Kaváfis, Whitman e Rilke, Jorge de Lima e Cecília Meireles, Davi e Homero, Patativa do Assaré e Sierguei Iêssinin, Gerardo Mello Mourão e Foed Castro Chamma. As referências são muitas e, a cada dia, aumentam, pois sou um leitor contumaz. Mas não poderia deixar de destacar o espanto e o fascínio que me causou a poesia do poeta contemporâneo português Herberto Helder, uma descoberta recente que revelou novas possibilidades para o poeta que sou. Esses dias, li A outra margem do tempo, de Alexandre Bonafim, e os originais de Canção para meus companheiros e outros poemas, de Narlan Matos. Dois bons livros de dois jovens poetas. Bonafim é mineiro e vive na interior de São Paulo; é um poeta de epifanias: “Esculpes o infinito no itinerário dos pássaros/ a rasgarem o silêncio. Tão intensamente abraças/ a febre, que a vida multiplica, em ti, os pães e as palavras”. Narlan é baiano e vive nos EUA; seu livro inédito é um canto de despertar narcisos (“Minha época sou eu nu em frente ao espelho”), um canto que convida-nos a conclamar a aurora de um novo tempo (“Porque minha era está coberta de hera”). Pois bem, Alexandre Bonafim e Narlan Matos agora são, também, minhas referências. E outras e outras virão.

GG – Tolstói diz que as famílias felizes se parecem, mas as infelizes o são cada uma à sua maneira. Linda, sua esposa; Moisés e Gabriel, seus filhos, fazem a sua felicidade?

JIVM – Linda é minha Penélope, meu fio terra. Meus filhos, ao lado da Estrela do Oriente, são os astros mais brilhantes do firmamento e ampliam meu horizonte. Minha família é bem singular, mas me proporciona momentos de felicidade.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

GOULART GOMES - QUIRÃO



Q U I R Ã O
Para José Inácio Vieira de Melo


esse magarefe das letras
em si, homem e alazão
ordenha poemas nas tetas
nos ubres da inspiração

os cascos fendem o chão
sendo o solo seu papiro
sua pata é a sua mão
pedregulhos, os escritos

esse vaqueiro-poeta
traçando riscos no céu
pai do pequeno profeta
e do arcanjo novel

faz da pena um cinzel
das ideias, um martelo
esculpindo no papel
o seu canto mais belo

herdeiro das velhas tribos
de adoradores do fogo
sua arte não tem estribos
sua via não tem retorno

seu mote, o próprio povo
dos gerais e do sertão
seu verso, o eterno novo
poeta sábio, és Quirão!


GOULART GOMES
Ouro Preto, MG, 9/2/10

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

POEMA DE MARIANA IANELLI


Escultura: Rubens Ianelli


Deste-me o segredo de teu nome
E era pouco;
Deste-me luz, completo entendimento,
Uma força maior que a tua
Para quando eu me perdesse.
Juventude e paciência,
Que vão juntas raramente,
Apegaram-se a mim
Porque estive em tua presença
E ainda hoje permaneço
Leal a teus mandamentos.
Debaixo do sol, onde por um instante
Nos olhamos sem diferença,
Eu pretendi este poema em teu louvor
E, como se não fosse por ti,
Me tornei imenso.


MARIANA IANELLI

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

SANGUE NOVO - CAIO RUDÁ



PSICOLOGIA DO POEMA – Com respostas que deixam nítidas as marcas do curso de Psicologia, CAIO RUDÁ é um jovem escritor que usa muito da intuição para compor sua poética e, apesar de não ser afeito às influências, as tem e as cita: Drummond e Leminski, o que não precisava fazer, pois saltam aos olhos. Caio Rudá de Oliveira nasceu em Riachão do Jacuípe, interior da Bahia, pouco depois de as águas de março fecharem o verão de 1989. Atualmente, cursa graduação em Psicologia, pela Universidade Federal da Bahia, mantém o blog Das Idéias de Caio Rudá (http://dasideiasdecaioruda.blogspot.com/) e escreve para a revista virtual de literatura Samizdat (http://www.revistasamizdat.com/). Sua vida é transitar entre o litoral e o sertão, assim como o faz também entre Arte e Ciência, na esperança de que um desses lhe explique o ser humano. Não é um entusiasta das explicações, mas esclarece que “não há o que pague um poema pronto”.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – O que a poesia significa para você? Por que e para que ser poeta?

CAIO RUDÁ – Poesia para mim é um modo de perceber e pensar o mundo, e não a restrinjo apenas à escrita. Se a obra de Patativa do Assaré está vinculada em muito à oralidade, gosto de atrelar a minha à meditação. Poesia é uma contemplação mental. Com relação ao porquê e para que ser poeta, confesso que não sou entusiasta das explicações. Não porque me falte curiosidade de entender as coisas, mas pelo completo oposto: tanto me sobra que não me contento com motivos rasos. No curso de Psicologia a gente aprende que em matéria de comportamento humano não se fala em causalidade, e todo ato é multideterminado. Assim, a resposta mais plausível é que ser poeta foi o resultado do modus vivendi de meus anos recentes. Já a finalidade é mais fácil de dizer: não há o que pague um poema pronto.

JIVM – O nome do seu blog, “Das ideias de Caio Rudá”, fez-me lembrar de uma afirmação de Mallarmé, na qual ele diz que “a poesia se faz com palavras, e não com idéias”. Como você analisa essa assertiva?

CR – Conta a História que tal frase surgiu em resposta ao pintor e amigo Degas, que alegava ter boas idéias, mas não as conseguia passar para o papel. Acontece que toda atividade artística deriva de idéias. Pintores, poetas, atores ou cantores, todos diferem no produto final, no modo como direcionam sua criatividade, porém utilizam a mesma matéria-prima para suas obras. Ou as palavras de Mallarmé nasciam diretamente do movimento de seus punhos? Não quero dizer, contudo, que Mallarmé estivesse errado no que dissera, tampouco que minha visão seja completamente coerente. Pelo contrário, somos falíveis no que dizemos. Muitas vezes mudamos as palavras de nosso discurso, e até falamos o oposto do que pensamos. Só penso que haja entre o poeta francês e o estudante de Psicologia diferentes pontos de vista, e é natural que eu priorize processos cognitivos, enquanto que ele o faça com a matéria de seu ofício.

JIVM – E por falar em blog, como você analisa o uso da internet, dos espaços visuais e dos novos suportes tecnológicos, para divulgação da poesia? Essas novas tecnologias substituirão o livro impresso?

CR – A Internet é uma ferramenta muito eficiente para os poetas. Há a facilidade de edição e divulgação, existe a aproximação com o leitor e um blogue bem arquitetado pode ser considerado uma obra artística. Levando em conta a realidade do mercado editorial, é uma alternativa viável e eficaz. Quanto a suplantar o livro tradicional, aí já são outros quinhentos. Se pensarmos no CD, é possível esperar um fenômeno semelhante com os livros, no entanto, quando o exemplo são revistas e jornais, parentes mais próximos do livro, já se nota uma certa postura reacionária. Mudar isso talvez caiba em parte aos próprios escritores. Alguns utilizam os blogues como passaporte, isto é, apenas para chegar ao destino desejado, o livro impresso, e depois o blogue acaba preterido. Enquanto as tecnologias digitais forem acessórios dos escritores, acredito que uma capa bacana, folhas de boa qualidade e um ISBN ainda serão mais atraentes. Culpar unicamente os autores, no entanto, talvez seja exagerado, pois por mais que sua escrita seja verdadeira e espontânea é natural sonhar com o reconhecimento, que, na área em questão, só se dá com o livro impresso. Por outro lado, conheço alguém que dá muito crédito aos livros virtuais, e realmente aposta na publicação independente. Ele é o Henry Alfred Bugalho, escritor brasileiro residente nos Estados Unidos, autor de várias obras lançadas de maneira autônoma, em formato digital. O grande problema desse tipo de publicação é que estão na contramão da lógica capitalista de mercado. Não desaprovo iniciativas com a do Henry, pois eu mesmo já lancei um livro eletrônico. Só acredito que o status quo se mantenha, ao menos pelo próximos anos.

JIVM – Uma pergunta óbvia, mas de suma importância para um autor em formação. Quais são seus escritores referenciais. E desses autores, quais obras foram mais representativas?

CR – Gosto muito de uma frase do meu amigo e poeta Georgio Rios, que diz "alguns clichês são necessários". Impossível não falar das referências. O problema em meu caso é que não há muitas. Meu interesse e produção poética são recentíssimos, sempre preferindo antes as formas em prosa. Meu despertar para a poesia seguiu um rumo que é o contrário do padrão: começa-se a escrever depois de encantado com uma obra de um grande autor, e a tendência é imitar em algum grau essa referência. Eu não segui esse caminho. Comecei a fazer poesia por conta própria, um processo meio ególatra e auto-reforçador. A escolha por não ler os grandes autores foi deliberada. Não queria de modo algum parecer com alguém, pois acredito que invariavelmente incorporamos traços do que gostamos, e em dois mil anos de poesia está cada vez mais difícil ser original. Hoje, com um mínimo de maturidade poética, faço leituras mais produtivas. Leio o que quero, me apaixono, critico. Tenho uma mente mais aberta e não-formatada. Há um sujeito, no entanto, que sempre foi uma pedra no meio do caminho, o próprio Drummond, cuja poesia sempre admirei. Leminski também foi um marco para mim. Quando descobri sua obra, mais do que encanto, me identifiquei com seus poemas, o que me encorajou bastante a continuar escrevendo o que escrevia, do modo que escrevia.

JIVM – Deixe registradas as suas impressões sobre os rumos que a sua poesia vem tomando. E o que teremos para adiante? Algum livro para ser publicado? O que mais?

CR – Percebo que tenho amadurecido a escrita. É a grande coisa que consigo perceber sobre mim mesmo. Como não sou poeta por ofício, tenho liberdade de experimentar e escrever. Porém livre-arbítrio não é palavra de ordem para mim. O que sou hoje é condição do que já vivi, e a característica da observação é o que me marca. Os rumos que minha poesia tomará depende de como a vida passará para mim e como irei absorver os eventos que virão. Acho que no fundo, entretanto, sempre vou escrever sobre a condição do homem, o enigma da (in)existência, como prefiro chamar. Deixando as especulações e impressões de lado, para 2010 planejo organizar alguns de meus poemas e enviá-los a alguma editora. Há também uma antologia de minicontos para ser publicada, com a minha participação, e pretendo finalizar um volume de contos breves. Obviamente, espero continuar escrevendo e tendo idéias. No mais, gostaria de agradecer pelo espaço e oportunidade de voz aqui no blogue. Também, não poderia deixar de lado o apoio do amigo Georgio, que acreditou no que escrevia desde os primeiros versos. E aos meus leitores deixo o agradecimento pela crítica e comentários. Obrigado a todos.

TRÊS POEMAS DE CAIO RUDÁ


Fotos: Ricardo Prado














O POETA NA AREIA



Há vários caminhos para a boa ventura.
Um deles é certo, porém;
permiti-me apresentá-lo.
Repousa no refletir do sol na água
às cinco e quarenta e cinco da tarde
no porto da Barra.

Caminhai, baianos,
segui por ele, turistas.
Fixai o olhar no círculo,
lá ao fundo, luminoso.
Ide a ele que vem a vós, pais e irmãos,
todo santo dia, cá na baía de todos os santos,
estes que vos abençoam
a caminhada por sobre as águas.
Não é preciso milagre,
somente que observeis o tapete alaranjado
duelando com o azul costumeiro
(aliás, cores não brigam,
apenas entram em contraste)
e andeis pelo brilho.

As seis horas são esperadas.
Movei-vos pela estrada, portanto,
que os cavalos-marinhos já vêm
enrolar o tapete, ao que se põe
o sol, não no horizonte,
mas atrás da ilha de Itaparica,
ao som das palmas que batem
os bons viajantes na areia
cada vez mais fina, desgastada
de emoção por tantos crepúsculos.



GOTAS


feito nuvens de verão
estendidas no varal
descansam roupas brancas
donde pingam
lentamente
a denúncia do árduo labor
de lavar a sujeira, o suor
e a dor.



TESTAMENTO


Eu quero morrer louco
são nem um pouco
doido de pedra
demente, decadente
sem mente, sim
completamente doente.

Eu quero morrer assim
para não fechar meus olhos
ciente de que é o fim.

domingo, 31 de janeiro de 2010

JIVM - SETE IRMÃS


Remedios Varo - Seventh sister


SETE IRMÃS
Para Remedios Varo


Essas sete musas mal-assombradas
de cabeleiras ruivas, encardidas,
são santas de bocetas encarnadas,
trazem entre as mãos minhas sete vidas.

As cabeleiras ruivas dessas musas
são trepadeiras místicas em rito,
um anelo claro como um oráculo
a escalar as formas breves do mito.

São sete noites vividas por Borges,
são sete fadas da ilha de Lesbos,
são sete acordes de Joaquin Rodrigo,
são sete facas de Aderaldo, o Cego.

Ah minhas sete irmãs, filhas de Safo,
lamber vossos cus é meu paraíso!
A plenitude de vossas entranhas
é o aconchego destes meus delírios.

Sete musas grávidas, musas graves,
a gravidade não pesa no abrigo.
A minha voz é um caminho cego
como Borges, Aderaldo e Rodrigo.

Ah minhas sete irmãzinhas serenas,
vamos jogar enquanto há tabuleiro,
sete damas-rainhas, sete Helenas,
sou vosso servo, vosso cavaleiro.

Musas oblongas, ventres salientes,
em vossas carnes quentes eu reparo,
de fora a fora, com prazer e encanto,
as sete faces de Remedios Varo.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Poema do livro inédito ROSEIRAL,
a ser publicado pela Escrituras Editora,
com lançamentos marcados para março e abril.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

SANGUE NOVO - PRISCILA FERNANDES



VOO PARA FORA DA ASA DA PALAVRA – Com um discurso que lembra bastante os enunciados da poesia de Manoel de Barros, PRISCILA FERNANDES mistura a argila da criação ao mesmo tempo em que mergulha para um vôo para fora das asas da palavra. E assim vai se inventando, melhor ainda, inventa seus passos. Priscila nasceu em Salvador, em 1986. Filha de pais velejadores passou sua primeira infância vivendo em alto mar. Mesmo em terra firme morou com sua família em diversos e inusitados lugares, como numa fazenda na Amazônia e na Suécia. Já há alguns anos de volta a Salvador, Priscila cursou Letras na UFBA e hoje estuda Psicologia e Psicanálise. Ainda não tem livro publicado, mas já escreveu centenas de poemas e mantém O blog Chafariz (http://pffernandes.blogspot.com/), onde publica seus textos em composição com obras plásticas de seu gosto. Participou da abertura da quarta edição do projeto Poesia na Boca da Noite (2007) e da Praça de Cordel e Poesia na 9ª Bienal do Livro da Bahia (2009).

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Como foi que a poesia entrou na sua vida? O que ela representa para você?

PRISCILA FERNANDES – Antes mesmo de aprender a ler e escrever eu tinha uma brincadeira: abrir os livros da casa e inventar o que lia. Uma vez aconteceu de ser um livro de poemas, tomei aquele susto! Me impressionei com a forma do texto, como contar uma nova história a cada página? E por que, de repente, as linhas eram quebradas por espaços vazios? Acho que foi aí que a poesia me invadiu, bem aí nesta pergunta. De alguma forma, depois de um tempo, entendi que aquilo ali era dizer mais com menos palavras, e ainda com vazios... Hoje o sentido da poesia para mim segue basicamente o mesmo, e a busca pela palavra exata, pela palavra enxuta, pela palavra imagem, a palavra coisa, a “despalavra”, é infinita. A palavra que bem-diz do impossível é o que me relaciona com a poesia.

JIVM – Ser poeta não é nada fácil. Ser mulher e ser poeta é mais difícil ainda? Por que?

PF – Concordo com todos que afirmam que a poesia é inevitável. Ela é algo que acontece, um ato, uma experiência humana. Penso ainda que a palavra é também doença, é o furo de existir, o limite da linguagem. Ser poeta é nomear isso, essa dor, essa incompletude. É fazer delirar o verbo, é exercitar o avesso das coisas, o contrário dos sentidos. Por isso também acho que a poesia está para além de gênero. Ser mulher e ser poeta é a minha condição existencial, não há nenhuma parceria e nenhuma incompatibilidade entre as duas instâncias. A mulher que sou está na minha poesia, ser mulher no mundo é tão difícil quanto ser o que quer que seja. Ser é difícil e é aí que a palavra começa, no “descomeço”.

JIVM – Quais são seus escritores referenciais? O que está lendo no momento?

PF – A primeira poeta da minha vida foi Cecília Meireles, bem antes de compreender o sentido dos seus versos eu já me apaixonei pelo ritmo e sonoridade dos seus poemas. Acho que seu livro Cânticos é um legado para a poesia, não deixo nunca de voltar a ele.
Manuel Bandeira e sua metapoesia me impressionou muito durante um determinado momento, as idéias em seus poemas mudaram definitivamente a minha maneira de encarar a escrita. Ana Cristina César me acompanhou também por um bom tempo, assim como outras poetas da angústia: Emily Dickinson, Silvia Plath, Virginia Woolf, Marguerite Duras.
Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, e.e. cummings e o espanhol Ángel Gonzáles são as obras completas que mais acessei na minha estante. Mas há poucos anos descobri Manoel de Barros e desde então ele e Caetano Veloso são tudo o que mais me impressiona em termos de poesia.
No momento estou lendo Anna Akhmátova e Mário Quintana, ambos pockets adquiridos em loja de conveniência por alguns reais. Além destes dois autores, os blogs de alguns poetas contemporâneos fazem parte da minha leitura diária. Entre eles Juan Iscla, José Inácio Vieira de Melo, Kátia Borges e Carlos Besen.

JIVM – O poeta cearense Francisco Carvalho diz que “o poeta diz as coisas como elas não são” e em outro poema afirma: “a prosa anda a cavalo/ a poesia voa”. Você se sente situada dentro desse contexto poético? O que essas afirmações despertam no seu eu-poético?

PF – Quase como Francisco Carvalho, penso que o poeta diz as coisas como elas não são (ditas). O poeta não é um construtor de verdades, nem um inventor de coisas. O poeta é um ‘desinventor”. Ele desinveste a roupa das palavras, diz os nomes por suas costas, pelo seu inverso. O exercício poético é fazer as coisas serem o impossível da língua.
Manoel de Barros diz que “Poesia é voar fora da asa.” e é quando leio isso que me situo enquanto poeta. Não me interesso por prosa ou poesia se elas não tiverem esse propósito, o de voar fora da asa da palavra, de alcançar a terceira margem do rio, a água da palavra.

JIVM – E agora, Priscila? O que mais?

PF – E agora Zé? O que mais que não um poema?

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

(Manoel de Barros – O livro das Ignorãças)

TRÊS POEMAS DE PRISCILA FERNANDES













A LÍNGUA


Gravidade cor de chumbo
a pesar-me o céu da boca.
Enraízo ao dente um nome
que incha e desengonça.
Grávido de língua, o palato inflama,
umedece o dito num edema afônico.
Cuspo seco e a palavra murcha,
'desidrata o significado
até deixar umas letras'.



CONFISSÃO


Me penduro nessa parede
como um relato,
eu me refrato
e traio as mentiras.

As coisas que não podem ser ditas
- esculpidas na parede -
Decifram a escritura do mito
desmentem o enigma de gesso.

No avesso:
sou real em despedaços...



INSTITUTO DE LETRAS


As mulheres do instituto de letras
têm voz de canivete.

As mulheres do instituto de letras
da Universidade Federal
têm muito a gritar.

As mulheres do instituto de letras
da Universidade Federal da Bahia
morrerão um dia desses:
de câncer na garganta.

Como tem mulheres!
Como são das mulheres as letras,
a palavra, os ganidos.

Não sei como ainda restam vidros
e ouvidos
àquele bendito instituto.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

LINDA - 40


Parabéns, Linda Pastora. Bem-vinda à casa dos 40. Grato por contribuir, de maneira significativa, para o desenvolvimento da paciência em meu ser. Beijos. Com amor
JIVM



PASTORA
Para Linda Soglia


E ouvir uma guitarra
e contemplar teus seios
é minha profissão.
Gerardo Mello Mourão


E como esquecer tua flor?

Como poderei esquecer
que só tu tiras da flauta
os acordes mais saborosos?

E como esquecer
dos aromas de tua rosa?


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

domingo, 10 de janeiro de 2010

SANGUE NOVO - VÂNIA MELO



CANTIGAS DE AMOR E DE CABARÉ – A primeira vez em que vi VÂNIA MELO, não me contive e perguntei, usando um verso do poeta paraíbano Hildeberto Barbosa Filho: “Tu és mulher ou és o fogo do inferno?”, Ela não hesitou e respondeu: “O fogo do inferno”. E é mesmo! Mas é um fogo no qual todos querem se aquecer, pois trata-se do fogo da poesia, trata-se dos calores do amor. Vânia Melo nasceu em Salvador, em 1980. Possui graduação em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia e é especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela Faculdade São Salvador. Participou de eventos de poesia como o Porto da Poesia, na VII Bienal do Livro Bahia (2005), o projeto Poesia na Boca da Noite (2005), a Praça do Cordel e da Poesia, na IX Bienal do Livro Bahia (2009) e Caruru dos Sete Poetas, em Cachoeira, Bahia(2009). Atualmente leciona Literatura e Língua Portuguesa. Pois bem, vamos sentir um pouco a força dessa poeta que é autora de suas cantigas de amor e de cabaré e que deixa transbordar em seus versos sensualidade e beleza.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Vânia, João Carlos Teixeira Gomes, o famoso Joca, tem um poema que diz “A poesia não é um campo de flores./ A poesia é um campo de dores/ temores/ sobressaltos”. Para você, a poesia é um campo de flores ou de dores? E por quê?

VÂNIA MELO – Penso que a poesia é um campo de flores que cultivamos a partir de nossas dores. É a tradução do indizível, a escrita representativa de nossos sentimentos, vivências, aprendizados. A poesia é a palavra encantada que dá conta do que não damos, do intangível.

JIVM – Hoje, fala-se muito em literatura homoerótica, poesia negra, literatura feminina? O que você acha dessas classificações? Há realmente necessidade dessas divisões?

VM – Acredito que há a necessidade das escritas afirmativas enquanto legitimação da fala de um grupo que algumas forças contrárias ocultam. A partir do momento em que se atribuem nomes para formar grupos, há também interesses de grupos hegemônicos em rotulá-los para julgá-los e, por vezes, depreciá-los. Penso que a poesia é eficaz em alcance pela emoção e conscientização. Ela nos faz refletir e também apaixonar, logo cumpre diversos papéis frente à sociedade. A visibilidade positiva de grupos até hoje marginalizados vê na poesia a chuva de flores dissolvendo os males.

JIVM – Em seus escritos há um forte apelo sensual. O que lhe leva a escrever dessa maneira? E quais são as suas principais influências?

VM – Vejo meus escritos como uma liberação das forças que por vezes ocultamos por timidez ou medo. Sim, ocultamos no plural, pois acredito sermos senhores de energias poderosíssimas, entre elas, talvez as mais fortes sejam a do amor, do sexo e sedução. Tudo isso transformado em poesia e escrito por uma mulher ganha uma representatividade forte, visto que é sabido o papel atribuído à mulher em uma sociedade patriarcal e machista como a que vivemos. As coisas vêm melhorando e as mulheres têm um espaço maior pra falar, já somos autoras das nossas cantigas de amor e já não precisamos chamar nossos desejos de “amigo”; Hilda Hilst me diz isso, Florbela Espanca e Clarice Lispector também.

JIVM – Qual o sentido de escrever poesia num país que ignora seus poetas?

VM – O país precisa nos enxergar, ouvir o que temos pra dizer e, principalmente, compreender a importância de nossos escritos. Somos milhões entre cordelistas, repentistas, contistas... Porém é necessário apresentar cultura de modo mais efetivo para a população, desconstruindo ideias já impregnadas sobre Literatura em segundo plano ou em lugar algum e reavivar a importância da leitura, do teatro, da canção. Quando escrevemos, chamamos atenção para a conscientização, a magia, o encantamento, o deleite.

JIVM – Algum livro em vias de publicação? O que a poeta Vânia Melo anda fazendo?

VM – Na verdade, tenho uma gaveta cheia deles... Santas de Cabaré e Eu e barulho do nada são livros de poesia; além deles tenho dezenas de contos que renderiam, pelo menos, dois livros. Outros poemas com temáticas sensuais, algumas memórias e poemas sobre negritude também são produzidos com alguma frequência e já são um começo para outras obras.

TRÊS POEMAS DE VÂNIA MELO

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NEM FLORBELA, NEM CECÍLIA


Não tenho alma
Ela não sonha, nem fica perdida
Tenho olhos de lira
Que tocam quando te vêem
E desafinam quando me miras

Não tenho barcos, nem mãos, nem sonhos
Tenho um pezinho torto
Que corre quando tu olhas
E para quando não voltas.

Queria ser Florbela em meus comas
Queria ser Cecília em meus dias
Mas perdi os versos que te fiz
E acordei dos sonhos de menina por um triz.



CANTIGAS DE CABARÉ


Beijava a cara com um jeito de louco
Envolvia nas pernas, assim meio torto
Falava ao ouvido um segredo rouco
Suado, calado, caia meio morto

Fazia juras ocultas, assim meio bobo
Apertava malvado, batia um pouco
Como quem nada quer olhava seu braço
E com um gesto grosseiro jogava o laço

Pouco a pouco se ia no mesmo passo
Deixava um trocado e se ria palhaço
Saía contente, bêbado, em descompasso

Ficava sozinha, ligava a vitrola
Ouvia cantigas e cantarolas
Que falavam de mar e iam embora.



COISA DE IR EMBORA


Não traga males
Não faça drama
Traga seus olhos
Porque dos meus já não gosto
Traga sua boca, porque na minha, sabor já não há
Me dispa, se dispa

Não traga males
Não faça drama
Enlouqueça, entonteça
Fique em meu corpo
Volte à minha cama
Me vista de gozo, se vista de nu

Não faça malas
Não traga dramas
Obedeça, ceda
Fique em meus olhos
Volte em minha boca
Me vista de ouro, se vista depressa

Não traga malas
Não faça a cama
Entenda, atenda
Fique em meus pensamentos
Volte em meus sonhos
Me vista e não chore, se vista e não volte.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

JIVM - INVENÇÃO DA POESIA


INVENÇÃO DA POESIA
Para Gerardo Mello Mourão


Pele vestida, distribuída e refeita,
parto para o princípio do labirinto.

Parto e principio o labirinto.
Na sua duração se abre o círculo
do espanto.
(Onde o centro? Que duração?).

Musa, teu vestido tem os novelos
da formosura!

O partir desenrola a ausência
e a pausa para o instante se cumpre.
De meu bergantim de ouro eu te informo
um sorriso.

Musa, é sempre a plena estrela
que tem a cauda dos rouxinóis
e que traz a curva da tua sombra.
Em teu ponto começa a extensão do mar,
e teu ponto guarda o profundo início.

E parto,
que a peripécia não é chegar,
que o coração só tem um fim:
ao som do coro das sereias
cantar o ciclo da origem.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Do livro inédito ROSEIRAL, a ser publicado
pela Escrituras Editora, em março de 2010

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

JIVM - ADEUS



O poema Adeus é minha postagem de despedida de 2009 – um ano bom para mim, de muitos feitios e de muitas viagens pelo mundo da poesia. Foi, também, um ano em que pude acompanhar, com satisfação, o desenvolvimento dos meus filhos – Moisés e Gabriel – que estão a crescer vigorosamente, descobrindo, cada qual à sua maneira, os encantos da existência.
Pois bem, para todos vocês que acompanharam meu blog em 2009, os meus agradecimentos e o convite para que continuem a passar por aqui, deixando suas impressões.
Desejo que 2010 seja um ano de Saúde e de Sucesso, de Paz e de Poesia para todos nós. Feliz Ano Novo! Abraços.
JIVM

OBS: Este poema, com a maravilhosa ilustração que o acompanha, do artista plástico Juraci Dórea, foi escolhido pela Edições SM para fazer parte do livro didático Português – Produção de Texto – Volume 2 – Ensino Médio, de autoria de Cecília de Aguiar Bergamim.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

POEMETOS DE JIVM NO CONCURSO VILA D'ÁGUA



O Teatro Vila Velha promoveu o Concurso de Fotografia e Poesia Vila d’Água, que premiou seis fotografias e seis poemas que comporão uma coleção de seis cartões-postais. Os cartões serão distribuídos na cidade de Salvador em 2010. A ideia é que a coleção ajude na formação da consciência sobre os recursos naturais do nosso planeta, principalmente sobre o uso da água. Pois bem, escrevi três poemetos, na véspera do encerramento das inscrições, e os enviei. Para minha satisfação, dois foram premiados. Ainda não sei quais foram. Resolvi colocar os três aqui no blog:


TRÊS POEMETOS D’ÁGUA


I

A água que lava os pés
é a mesma que alimenta a alma
e irriga os veios do corpo:
do teu corpo, teu planeta, tua casa.


II

Lavar as mãos agora
é condenar o jardim.

Olhe pra dentro, e ao redor,
arregace as mangas
e vá cuidar da fonte!

Os arvoredos dos passos só brotam
se a água molhar as plantas dos pés.


III

Tempestade num copo de água?

Tempestade é o seu copo
Sem um pingo d’água!


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

SANGUE NOVO - LIDIANE NUNES



VONTADE DE FALAR ATRAVÉS DA ESCRITA – LIDIANE NUNES nasceu em Salvador, Bahia, em 1983. Com apenas três anos de idade, mudou-se para Feira de Santana, onde vive até hoje. É professora de literatura, graduada em Letras Vernáculas, pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e cursa, atualmente, a Especialização em Estudos Literários, pela mesma instituição. Mantém o blog: http://nuneslidi.blogspot.com/. Lidiane, singela e cristalina no falar e na escrita, é otimista e não tem pressa. Compreende que “um poema não conseguirá mudar o mundo, mas pode tocar um leitor, pode tornar alguém mais sensível, mais humano”. Vamos, então, conhecer um pouco mais dessa moça tímida que, quando sua voz quer calar, é dominada “por uma vontade de falar através da escrita”.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Com tanta coisa legal pra se fazer por aí, por que escolher logo a literatura, e ainda mais a poesia, um ofício solitário, que não dá dinheiro nem visibilidade e, quando muito, desperta a inveja dos medíocres?

LIDIANE NUNES – Acredito que não foi uma escolha. Na verdade, quando me dei conta já estava apaixonada pela literatura, pela poesia. Decidi cursar Letras, porque gostava da área, mas foi na UEFS, durante as aulas de Mayrant Gallo, que descobri, de fato, a minha paixão pela arte literária. Comecei, então, a rabiscar algumas linhas - que nem ouso chamar de versos - sem pensar em ser escritora, em ter visibilidade, nada disso. Não nego que, hoje, penso em publicar. No início não. Escrevia apenas por um impulso, por uma vontade de falar através da escrita, quando a minha voz queria calar. Ainda continua sendo assim, com a única diferença de que agora não quero apenas falar (escrever), quero ser ouvida (lida). Nem que seja pelos meus poucos amigos e mesmo sem ganhar dinheiro. É como uma necessidade.

JIVM – A poesia serve para alguma coisa? O escritor – o poeta – desempenha algum papel na sociedade?

LN – No meu primeiro semestre de Letras, na disciplina Teoria I, discutiu-se sobre a função da arte, tendo como base textos de teóricos como Fischer, Faustino, Eliot, entre outros. Estes defendem que a arte possui quatro funções primordiais: a de prazer, deleite; a de aprimoramento da língua; a documental; e a de transformação social. Alguns colegas meus, até hoje, discordam dessa assertiva. Eu concordo, plenamente. Acredito que um genuíno poeta desempenha, sem dúvida, um papel na sociedade. Claro que um poema não conseguirá mudar o mundo, mas pode tocar um leitor, pode tornar alguém mais sensível, mais humano. E ainda que assim não fosse, pelo simples fato de nos despertar prazer, de nos permitir sentir de outra forma, a poesia valida a sua existência. Não consigo imaginar um mundo sem poesia, sem literatura, sem arte. Seria muito mais opaco. E vazio.

JIVM – Como é, de repente, se descobrir uma escritora? Olhar para trás e reparar o caminho difícil e doloroso que mulheres como Florbela Espanca, Marina Tsvetáieva e Emily Dickinson percorreram não lhe assusta?

LN – Ainda não me descobri uma escritora. Há algum tempo, estou começando a desconfiar. Sempre escrevia e deixava na “gaveta do computador”. Nunca mostrava a ninguém. Tinha um grande receio. Não sei bem do quê. Até que, certo dia, comecei a mostrar os meus escritos para alguns amigos. Eles elogiaram. Porém, para mim, eram suspeitos. Resolvi enviar meus poemas para Mayrant Gallo. Ele gostou de alguns, de outros não. Na semana seguinte, enviei mais um poema, que foi publicado em seu blog, na época, o Contramão. Fiquei muito contente. Segui escrevendo. Este ano, enviei um poema meu para uma amiga escritora e ela disse que eu tinha que perder o medo de publicar, que precisava me arriscar. Suas palavras me marcaram. Passei a postar alguns versos em meu blog e tenho recebido muitos comentários. Por isso, principio a me perguntar: será mesmo que levo jeito para a coisa? A resposta positiva me assusta, sim. O novo sempre me assusta. No entanto, não quero e nem consigo fugir. Então, vou me deixando ser levada, sem pressa...

JIVM – Você lê muito? Considera-se uma grande leitora? Quais são seus livros e autores referenciais?

LN – Leio muito. Amo o ato da leitura. Mas não sei se sou uma grande leitora. Cada dia que passa, percebo o quanto preciso ler ainda. Toda vez que converso com os meus amigos, que também gostam de literatura, saio com uma lista enorme de livros que não desbravei. Sei que ninguém pode ler tudo, entretanto, necessito organizar melhor o meu tempo. Sempre acho que tenho que ler mais. Meus autores referenciais são muitos. Sou apaixonada por Machado de Assis. Admiro bastante Clarice Lispector, Fernando Sabino, Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Albert Camus, Kafka, entre outros. Atualmente, estou adorando ler contos. Ando fascinada por este gênero. Gosto de ler as obras de escritores baianos – ou radicados na Bahia – também: Renata Belmonte, Eliana Mara Chiossi, Ângela Vilma, Mônica Menezes, Mayrant Gallo, Gustavo Rios, Nívia Maria Vasconcellos, JIVM e outros. E tenho um vício chamado blog. Acesso este espaço quase diariamente. Posso ficar muito tempo sem atualizar o meu, mas não passo mais de um dia sem visitar os blogs dos meus amigos. A leitura, para mim, é essencial. Se não leio, sinto que está faltando alguma coisa. Então, me lembro o que é. E abro um livro. Na ausência deste, ligo o computador. Sem Internet? Entro em desespero.

JIVM – Você tem uma grande paixão pelo cinema. A sétima arte influencia de que maneira na sua produção poética?

LN – É, tenho mesmo uma grande paixão pelo cinema. E esta, também, foi influência do Gallo. Acho que o citei em quase todas as respostas. Inevitável. Ele é um eterno mestre e um grande amigo, que sempre me incentiva a continuar escrevendo e me indica bons livros e bons filmes. Depois que participei de uma oficina de cinema que ele ministrou na UEFS, passei a assistir aos filmes com uma visão diferente. Comecei a perceber que cinema é poesia, é metáfora, é arte, é uma das mais belas formas de narrativa. Mas não sei mesmo precisar a influência do cinema na minha escrita. Parece que percebo mais em relação ao assunto. Às vezes, assisto a um filme e, então, tenho a idéia de escrever um poema, um miniconto. Sempre adorei esse dialogismo entre as artes. No entanto, acredito ainda que o cinema me influencia na forma. Só não sei como. Na concisão, na fragmentação, talvez.

JIVM – Já tem algum livro esboçado? Quais os projetos? E o que mais?

LIDIANE NUNES – Não. Nenhum livro esboçado. Escrevo pouco. Tenho poucos poemas. Alguns minicontos. Nem sei se daria para publicar ainda. Fui convidada para participar de uma antologia de minicontos, prevista para ser publicada em 2010. Aceitei. Agora, estou aguardando. O meu único projeto, no momento, é continuar lendo, escrevendo, postando em meu blog e caminhando, sem saber exatamente para onde. No mais, gostaria apenas de agradecer muito pelo convite, pela oportunidade de participar da coluna Sangue Novo. E aproveito para deixar um forte abraço para os que acabaram de ler estas minhas palavras.

TRÊS POEMAS DE LIDIANE NUNES















CASAMENTO


Queria escrever algo
sobre mim
e sobre o outro.

Mas um outro
já escreveu tanto
sobre mim,

que só me resta
dizer sim.



(IN)DECISÃO


Como um peregrino,
eu sigo.

No meio do caminho:
duas rotas

e meu olhar vago,
perdido.



DEUS
Para Mayrant Gallo


A única crença
que me resta.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

PROJETO COM A PALAVRA O ESCRITOR - JIVM

26 de novembro de 2008
Fotos: Ricardo Prado

Hoje completa um ano que participei do projeto Com a Palavra o Escritor, na Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho, em Salvador. Foi exatamente no dia 26 de novembro de 2008, das 17 às 20 horas. A convite da poeta Myriam Fraga, diretora executiva da instituição, tive a satisfação de viver momentos de alegria ao lado de vários amigos. Fui apresentado pela escritora Eliana Mara Chiossi, professora doutora do Instituto de Letras, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que fez a leitura do ensaio "Um cavaleiro andante pelo céu da poesia". Para abrilhantar ainda mais o evento, a cantora Carla Visi, o ator Jackson Costa e os escritores Carlos Barbosa e Edmar Vieira fizeram leituras de poemas meus. O fotógrafo Ricardo Prado, artista das lentes, foi quem fez o registro do evento, além de levar sua presença amiga. Foi uma noite inesquecível, na qual falei da minha vivência de poeta, dos meus livros e do papel que desempenho como produtor cultural. Abaixo, segue o texto de apresentação de Eliana Mara Chiossi, recheado de fotos do evento, feitas por Ricardo Prado.


UM CAVALEIRO ANDANTE PELO CÉU DA POESIA
Por Eliana Mara Chiossi

De vez em quando é bom voltar ao dicionário, para recordar, lembrar com o coração, o sentido das palavras que usamos muitas vezes de modo descuidado. Reverência é, segundo o dicionário Aurélio, “respeito às coisas sagradas, respeito, acatamento, veneração, saudação respeitosa com inclinação do busto para a frente (as mulheres também dobram os joelhos)”. Quero transpor para a palavra o desenho deste gesto, de um corpo que se curva ao que venera, demonstrando meu senso de reverência, por esta data e pelo que este acontecimento fala de mim e de Inácio e de nossa amizade. Fui convidada para esta celebração da palavra, para apresentar o poeta José Inácio Vieira de Melo. E é neste lugar de reverência que o faço. Para retirar, logo de início, qualquer ruído de entendimentos: não estou aqui travestida de encomiasta, de quem se pode esperar todo um discurso laudatório e elogioso e com freqüência, vazio. Não estou aqui porque preciso elogiar. Estou aqui porque quero elogiar. A ocasião pede reverência. O ambiente pede lisura. O afeto pede a delicadeza no trato. A poesia de José Inácio me deu todas as razões.

JIVM, Myriam Fraga e Mayrant Gallo

O que me importa na biografia de Inácio, e já há uma síntese dos seus 40 anos no convite para este evento é começar dizendo que acho lindo o nome do lugar onde ele nasceu: Olho d´água do Pai Mané. Gosto de saber que ele é nordestino. E que um de seus poeta preferidos é João Cabral de Melo Neto. Me interessa sua solidariedade. Me agrada seu jeito sincero demais de ser. De vez em quando, quase brusco. Gosto do jeito como ele sabe ajeitar as cenas da cultura e da poesia desde o lugar onde vive. Gosto de saber que ele transita bem pela internet, nessa rede que aproxima muito rapidamente pessoas tão afins. Saiu de Maceió e veio morar na Bahia, mas mora sempre, sempre, é na roça mesmo, onde estão seus pés, olhos e coração.

Ruy Espinheira Filho e Myriam Fraga

Os lugares que ocupamos dizem de nós, dizem das nossas escolhas e filiações e explicam os encontros, as redes que compomos. Estar aqui hoje, tendo a honra de apresentar o poeta, de anteceder a sua fala, é ocupar um lugar na história de José Inácio, fazer parte da sua trajetória. Nosso encontro pessoal é muito recente e aconteceu por acaso. Sou professora colaboradora no programa de Pós Graduação em Literatura e Diversidade Cultural da UEFS e, em outubro deste ano, há quase um mês, fui ministrar aulas, no curso de Mestrado, de um dos três módulos da disciplina Sertão: ficção e cultura. Ao ver a lista com o nome dos alunos, encontrei o nome de José Inácio e fiquei surpresa porque iria conhecer pessoalmente uma figura que já circulava na minha rotina, enquanto professora, escritora e leitora. Participei de um sarau organizado por ele, recebia sempre poesias de sua autoria e de outros autores através da internet, lia sua coluna na revista digital Cronópios e já havia trabalhado com a antologia por ele organizada, de novos e jovens autores baianos, além de conhecer seu trabalho na revista Iararana. Após alguns encontros, uma afinidade foi sendo estabelecida, até que numa viagem de retorno a Salvador, Inácio me convidou para apresentá-lo nesta noite. O pedido era, na verdade, uma abertura afetiva, uma proposta de parceria. Dias depois, eu tinha em minhas mãos todos os poemas de José Inácio, com alguns dos principais textos críticos sobre sua obra e passei a manter contato com as suas poesias diariamente. E havíamos combinado que se eu não me sentisse confortável de fazer a apresentação, ele escolheria outra pessoa. Estava implícito que, se eu não gostasse das poesias, poderia declinar do convite.

André Guerra, Gabriel Gomes, André Telles e JIVM

Estar aqui tem a ver com o fato de ter gostado, e mais que isso, de ter me identificado com a poesia dele. Não teria sentido estar aqui para algo diferente disso. Não é proibido dizer que não gosto de tudo que José Inácio escreveu nos quatro primeiro livros, não é proibido dizer que prefiro os dois últimos e aproveito poucos poemas de Códigos do Silêncio e Decifração de Abismos. Mas reafirmo que estou aqui para o trabalho da reverência. E o sentido exato de reverência tem a ver com o sentimento genuíno de admiração e respeito. Quero saudar o poeta, ao apresentá-lo aqui, ao preparar o ambiente para que chegue com sua palavra, dizendo antes da minha admiração pela sua escrita.

Myriam Fraga

A cada lançamento de seus livros, José Inácio recebeu tratamento especial por parte da crítica. Autores como Ruy Espinheira Filho, Gerardo Mello Mourão, Nelly Novaes Coelho, entre outros, abordam aspectos de sua poesia, numa visível coerência entre si. Em linhas gerais, todos destacam a temática da representação do sertão, do misticismo, do ambiente rural, falam da dicção poética singular que funde linguagem popular e uso de formas clássicas da tradição ocidental. Conforme Ruy “Que se compreenda bem: o mesmo que José Inácio permanece sendo, em sua atmosfera, não significa mesmice de sua obra. O segundo livro não é igual ao primeiro. O poeta, nos meses que se passaram, foi naturalmente amadurecendo. O mesmo, no caso, é referente, digamos assim, ao caráter lírico, que se mostra sólido em seus valores, suas raízes, suas fontes. O que é uma importante indicação, pois só poetas menores, de obras mais artificiosas do que artísticas, vivem mudando a cada livro, a cada instante, muitas vezes para pior, acabando por nada deixar de vigoroso, de denso, de significativo. Só conseguem, estes, enganar os tolos, pois apenas os tolos confundem artimanhas com arte. Em suma, José Inácio possui essas raízes, essas fontes, e delas retira uma poesia muito pessoal.”

Eliana Mara Chiossi e JIVM

Numa fala de Antonio Naud Junior, ele diz: “(...) E o que leva um homem como José Inácio Vieira de Melo a escrever empenhadamente versos? Talvez creia que só a palavra é o caminho. No mundo terrível à sua volta, nele, não detém – o poeta procura colocar a palavra que sussurre ao vento o próprio tempo. A poesia deste autor sensível, tecida com os fios da memória, forma uma esteira aveludada de sensações exatas. Desse lirismo arrojado surgem vozes sentidas, ardentes, feridas, inflamadas, anunciadas numa paisagem rural formosa e dilacerante em suas intenções espontâneas.”

Eliana Mara Chiossi

Nas entrevistas concedidas, José Inácio reforça as palavras dos críticos. Uma das suas frases sempre citada é: “Sou completamente poeta, mas não um poeta completo.” Ele mesmo se declara como uma pessoa da roça, origem que não abandona nunca. Sobre ser poeta diz: “comecei a me aceitar como poeta, pois não tinha outra opção – nasci com esta praga sagrada”. Declara as influências recebidas de João Cabral, Gerardo Mourão, Drummond e Bandeira e assume a presença da vivência de suas raízes sertanejas.

Eliana Mara, JIVM e a seleta platéia do projeto Com a Palavra o Escritor

Apresentar um poeta conhecido e respeitado, mas ainda jovem na idade e na trajetória enquanto poeta, é um desafio, mas também é sempre uma oportunidade de retomar nossa própria história com a poesia. Minha preferência, inicial, enquanto leitora, sempre foi pela prosa. Aos poucos fui descobrindo que a poesia instalava em mim uma outra inquietação, quase uma perturbação. Até chegar o momento de meu encontro com a constelação da escrita de Clarice Lispector, ponto de partida para a compreensão de que a divisão entre prosa e poesia não me interessava. O que me mobilizava era a escrita na sua rotação e vertigem, para além das fronteiras dos gêneros. Nesse contato quase intensivo com a poesia de José Inácio, nas vésperas de cumprir o ritual de sua apresentação, fui em busca do que me mobilizava na sua escrita. Deixando registrado até aquilo que não me interessava, poemas que eu não guardaria. E decidi destacar os pontos de interesse, nesse universo peculiar da sua escrita, a fim de quem sabe identificar as regularidades, traços de uma dicção pessoal, fulgurações únicas.

José Inácio Vieira de Melo

Os primeiros livros de José Inácio não me agradam muito. Gosto de alguns poemas, apenas. Coincidentemente, os mesmos que depois o poeta vai reapresentando nos livros A terceira romaria e A infância do centauro. Mas os primeiros livros de José Inácio me agradam, quando me entregam uma cifra do seu percurso. Um poeta que vai me agradando cada vez mais a cada livro. Na letra de “Romaria”, música composta por Renato Teixeira, os versos de abertura dizem:

É de sonho e de pó
O destino de um só
Feito eu perdido
Em pensamentos
Sobre o meu cavalo

É de laço e de nó
De jibeira o jiló
Dessa vida
Cumprida a só

Eliana Mara Chiossi e JIVM

Este quadro, a meu ver, decifra metaforicamente, a escrita de José Inácio até A infância do Centauro, que opera uma síntese do que vem sendo trabalhado desde o primeiro livro. A sua escrita grifa também sua andança entre a roça e a cidade. E sua vivência rural não é contigente, mas instituinte, o rural é aquilo que lhe constitui enquanto sujeito.

Edmar Vieira recitando o poema Jardim dos mandacarus

Na poesia dele, há um mapeamento de perguntas sobre a existência. Uma existência cravada no trânsito entre a cidade e o interior nordestino, mas cujo arco pode ser estendido aos questionamentos da existência em outras paragens. E esse homem telúrico, cuja biografia o localiza no mapa nordestino, com seu trabalho identifica as paragens, alça vôo, no seu cavalo, para falar a todos os que acreditam na remissão possível pela ligação com a terra e com suas lições. Dar voz e nome aos vaqueiros, "Ciço Cerqueiro", pais e mães compondo esta lembrança.

JIVM e Carla Visi, que recitou o poema Jardim das algarobeiras

Qual pátria comum, onde todos esses personagens se encontram, que é o destino dos peregrinos e romeiros? seria a pátria da felicidade? a pátria da fraternidade? Ainda que tudo seja uma busca incessante, uma utopia movente e seus resíduos de uma quimera a nunca ser alcançada.

Jackson Costa recitando o poema Romaria para um público atento

Até o ponto de encontro com a cidade utópica de Bandeira, a Pasárgada desejada, que ele retoma no poema "Rural", que eu leio:

Eu vou pra roça, ajudar o dia a amanhecer,
chamar os bezerros pelos nomes de suas mães
e ver a vacaria apojar
e sentir a chuva de leite em meus olhos.

Eu vou pra roça, lá Manoel é Mané
e a única máscara são os calos de suas mãos:
- mãos encardidas de leite.

Eu vou pra roça, começar o dia com um sorriso.
Meu cavalo e eu - Centauro do Sertão -
sairemos campo afora
apascentando a boiada, o milharal, o açude.

E os cajus haverão de destravar as fronteiras
e ouvirei o canto das patativas se estender até Assaré
e me entenderei com as beldroegas
e compreenderei a labuta das formigas.

Das quedas, trarei a lição do levantar
e seguirei pela vida ao lado de meu irmão.
Eu vou pra roça, lá o documento é a palavra.

Carlos Barbosa recitando o poema Gênese. Ao lado: Eliana Mara e JIVM

O mundo, em tese, está disponível para todos que o habitam, na sua conformação idêntica. Existe um mundo apenas. Mas há, em cada poeta que se firma, uma leitura do mundo, que nos obriga a alguns ajustes na nossa própria conformação. Se o convite é aceito, um poeta pode ser o guia para nos perdermos ou nos encontrarmos. O mundo, como descrito pelo poeta, pode ser muito similar ao que já existe para nós, mas o modo de ver e estar sempre se altera, a cada imagem ou metáfora que nos é entregue. Na oscilação constante de reiteração ou ruptura, o mundo de José Inácio me faz ver o que o mundo é para mim, e me desafia.

Zé Inácio cantando uma toada e soltando um aboio

Há uma forte marca de pensamento sobre a própria escrita poética, que talvez esteja sintetizada nos últimos versos de seu poema "Ausência": Tudo é uma enorme ausência/e resta apenas este poema. A abordagem da metalinguagem está associada, quase que todo o tempo, com a reflexão sobre a identidade. O poeta pensa a sua condição a partir da sua condição de poeta. Para flagrar a existência, através das palavras, dos versos:

De óculos escuros
O homem se aproxima
E me pede um poema

Olho em suas lentes e indago:
- o mundo é uma cena?

Os aplausos da platéia

Este homem de óculos escuro, transeunte ou um velho cego, presente na encenação deste eu-lírico que quer se refugiar do avanço das cidades, habitadas pelos pardais nos seus caos alucinados:

Só os pardais dizem bom dia para o caos,
só os pardais cantam serenatas para os surdos
e embalam a dança aérea dos urubus,
enquanto brinco de deus e cheiro a carniça.

Eliana Mara, JIVM e Myriam Fraga

Esta pergunta se transfigura em afirmação. E na sua poesia, José Inácio demonstra que o mundo é uma coleção de cenas em formato caleidoscópico, que a cada poema, o poeta baralha nessas formas do mundo e nos pede para olhar o mundo outra vez. E nesse baralho, composto por cintilações e aforismos, José Inácio me lembra traços da escrita de Nietzche, pela crescente perquirição, pela exposição continuada de uma incompreensão generalizada contra os sentidos da vida. No prólogo ao livro Humano, demasiadamente humano II, Nietzsche diz: “devemos falar apenas do que não podemos calar; e falar somente daquilo que superamos – todo o resto é tagarelice, “literatura”, falta de disciplina. Meus escritos falam apenas de minhas superações: “eu” estou ali, com tudo que me era hostil, meu próprio eu, até mesmo, se me permitem uma expressão mais orgulhosa, meu mais íntimo eu. Já se adivinha (...) sempre foi necessário antes o tempo, a convalescença, a distância, até que em mim nascesse o desejo de explorar, esfolar, desnudar, apresentar posteriormente, para o conhecimento, algo vivido e sobrevivido, algum fato ou fato próprio. Neste sentido, todos os meus escritos (...) sempre falam do que deixei para trás. Aquela irada irrupção contra a patriotice, o comodismo e o abastardamento da linguagem”.

Jackson Costa, JIVM e Carlos Ribeiro

Vejo nestas palavras a compreensão do que Roseiral propõe. Divisor radical de águas, nas quais encontro o amigo José Inácio mais distante, porque agora o eu-lírico reina, quase indomável, na constelação de suas palavras-facas, na zoada ininterrupta do lançamento de pedras, na coragem de ir ao avesso, um centauro assinalado São Jorge, um peregrino interessado em toda espécie de grito, guerra e amores. Guerreiro armado com a palavra destemida, eu-lírico libertado no mundo que descreve como um caleidoscópio de cenas, ajustando contas com o passado e sonhando futuros impossíveis.

Ricardo Prado e JIVM

Mas outra presença muito forte, que fortalece a afinidade entre nós, é a do poeta Herber Helder, que a meu ver, cedeu a José Inácio a senha para o segundo momento de sua escrita. Ao ser convidada para estar aqui, tive o luxuoso privilégio de receber este Roseiral, que é o livro inédito de Inácio. E este foi o momento em que compreendi com toda a clareza os mistérios desse encontro. Neste livro, José Inácio é um poeta mais meu do que antes. Deste poeta, quero todas as palavras e não recuso nem as suas pausas. Anotarei no meu caderno todos os versos e minha caixa com suas palavras estará abarrotada. Este roseiral selvagem me apresenta o poeta José Inácio num momento distinto dos outros. Está muito claro que um ciclo se fechou na Infância do Centauro, que agora galopa destemido, pelo céu da poesia. Um centauro escarlate, arisco e humano, demasiadamente humano.

JIVM - JARDIM DOS MANDACARUS

foto Ricardo Prado Edmar Vieira recitando o poema Jardim dos mandacarus


JARDIM DOS MANDACARUS


Em verdade conheço o cheiro de Sol desse lugar,
uma agreste paragem de chão rachado – solo sagrado.
De noite, o vento corre pelo jardim trazendo algum frescor,
somente um olor-semente exala dessa flor,
vida da pouca vida, mas forte mais.

Além da sombra da cumeeira donde estou e sou,
assunto o que sobrou: uma ode à própria vida.
E nos tortos caminhos desse jardim de mandacarus
espicharei os secos sentimentos para apurar as emoções...

Arreneguei a flor e o fruto por aquela calunga faceira
que tirou o assossego do balanço de rede,
que causou esta sede de vários açudes.

Amarga malunga! Arrepare não...
Somos tantos travaliando pelos obeliscos cactáceos;
aproveitei a aragem para dispor a miragem:
– Jardim dos Mandacarus –
aceso facheiro de espinhos, de sentimentos despenados.

E o que mais dizer, o que mais desse árido ser,
dessa fúria inclemente; são tantas vidas secas
e mesmo assim clorofiladas, mesmo assim aladas...
conheço bem esse lugar, esses mandacarus ardentes,
– esses totens do Sertão.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

JIVM - JARDIM DAS ALGAROBEIRAS

foto Ricardo Prado Carla Visi lendo o poema Jardim das algarobeiras


JARDIM DAS ALGAROBEIRAS


Tenho estado em contato com a Natureza.
Neste lugar – Jardim das Algarobeiras –
tudo apela aos sentidos e tudo é Natureza.
Os pássaros cantam, e o seu vôo é mais que o canto;
a vaca muge, o cavalo relincha, a rã coaxa,
a cartilha estava certa; a cartilha só não
ensinou que o galo inaugura o dia,
e que as árvores (aqui, as algarobeiras,
mais que quaisquer outras – a não ser
aquele solitário pau-ferro) dançam,
dançam envolvidas por um louco dançarino.

Os pássaros cantam, mas é o vento
– o dançarino – que sussurra em seus ouvidos
juras de amor que somente quem corre mundo
pode dizer, e, naquele momento,
na eternidade da canção, tudo é verdade.

Mas além disso há algo mais forte:
os caminhos... O vento é andarilho errante
que se apaixona pela flor de agora
e daqui a pouco pela flor seguinte
e a outra e a outra e,
é aquele capaz de uma noite de volúpia
com quem lhe abrir o coração,
porém seu coração jamais pertencerá a alguém,
porque já nasceu possuído pela estrada.

Como bailam as algarobeiras,
como exibem suas cabeleiras frondosas
de um verde que não há como dizer.
A beleza é simples e é verde.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

JIVM - ROMARIA

foto Ricardo Prado Jackson Costa lendo o poema Romaria


ROMARIA


Oh que caminho tão longe
Cheio de pedra e areia
Domínio popular

Oh que estrada mais comprida
Oh que légua tão tirana
H. Teixeira e Luiz Gonzaga


Dentro de mim, nas lonjuras,
bem dentro do meu juízo,
um romeiro caminhando
em busca do que preciso.

Oh que caminho tão longo
cheio de pedra e de areia,
tenho que firmar o passo
e romper essas cadeias.

Pergunto, em meu desatino,
aonde ir? Que lugar?
Por que a sina de cigarra
esparramando o cantar?

Certo, sou aquele que parte
numa eterna romaria,
faça sol ou faça chuva,
seja de noite ou de dia.

O caminho que percorro
não é o da Rosa dos Ventos,
pois ele surge do nada,
de acordo com o momento.

Oh que estrada mais comprida,
tanto azul, tanta poeira,
em que plaga do Universo
estará o meu Juazeiro?

Cada qual tem seu destino:
Pedro Vaqueiro tangia
gado pelo mundo afora;
seu Fortunato fazia

forno pra queimar tijolo;
Manezim Tetê, meu tio,
caçava tatu e onça
com o luzeiro dos pavios.

Lá me vou com minha cruz,
são poucos beiços de açude
e tantas léguas tiranas.
Maior e vária é esta sede

que vale cada passada
desta minha romaria.
Peregrino de mim mesmo
no meio da travessia.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

JIVM - GÊNESE

foto Ricardo PradoTamanho da fonte Carlos Barbosa lendo o poema Gênese


GÊNESE


Sabe, moça da encruzilhada,
quando te encontrei foi um assombro.
Tu trazias estampada no semblante
a indagação que me acompanha.
O mais espantoso é que também
eras a resposta que sempre busquei.

Não aquela resposta exata, matemática.
A verdade que tua chegada me trouxe
foi a das abelhas zunindo no romper da aurora
em busca do mel das flores das algarobeiras,
foi a dos cavalos galopando na boca da noite
sonhando com touceiras de capim e éguas luzidias.

Ah, moça, tu estás no centro da Rosa dos Ventos,
pra onde deres o passo é caminho o que há.
A gente olha pra cima e não vê limite:
é tudo um azulão que não acaba mais.
Mas basta dar meio-dia, o limite aparece,
e não é longe não: bem na boca do estômago.

Sabe, vou te dar um chapéu do tamanho do céu,
que é pra te proteger dos devaneios solares
e pra que todos te percebam e apontem para ti:
“olha lá a moça que sombreia o mundo”.
E todos vão te olhar e todos vão te aplaudir
e o arco-íris vai ficar preto-e-branco de inveja.

Aí, um passarinho, desses bem miudinhos
que trazem uma sanfona de cento e vinte no peito,
vai aparecer e assobiar uma cantiga doce:
e a gente, espiando bem dentro dos olhos,
começa a sentir um monte de estrelas pipocar.
É isso, quando te encontrei, nasci.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO