quinta-feira, 23 de abril de 2009

VERÔNICA DE VATE - KÁTIA BORGES


KÁTIA BORGES é jornalista, formada em Comunicação Social pela Ufba e especialista em Gestão da Informação em Multimeios (FTC) e Análise do Discurso Audiovisual - Televisão, Cinema e Vídeo(Ufba). Desde 1995, trabalha no jornal A TARDE, onde atualmente é uma das editoras da revista semanal "Muito". Poeta, lançou o primeiro livro, "De volta à caixa de abelhas", em 2002, pelo selo As Letras da Bahia. Tem poemas publicados em duas coletâneas, "Sete Cantares de Amigos" e "Concerto Lírico para 15 vozes", e incluídos no projeto "Mídia Poesia", parceria entre TVE e Rede Bahia. Foi selecionada, ainda, para integrar a coleção "Roteiros da Poesia Brasileira", no livro dedicado aos poetas dos anos 2000, a ser lançado pela Editora Global. Tem poemas publicados em revistas eletrônicas, como "Sibila", "Panaroma da Palavra", "Rascunho", "Máquina da Palavra" e "Jornal da Poesia". Já participou de diversos projetos de recitais e encontros com leitores, como "Malungos", "Poesia na Boca da Noite", "Travessia das Palavras" e "Semana de Letras da Ufba". Edita o blog "Madame K" (http://www.mmeka.wordpress.com/) e escreve também para teatro, tendo participado no ano passado da peça "Batata!", do grupo baiano Dimenti, com o texto "O escorpião amarelo".


AO SOL


Sair ao sol,
encarar o dia,
sem medo das sombras
que insistem.

Sim, sair de dentro
e ver a rua e o mundo,
com ruídos, entre dentes,
buzinas, rangidos, vômitos,
sob a luz que escorre
na cidade quente.

No meio fio,
sentar e apreciar a paisagem,
com seu tanto de Guernica, de guerra civil
mascarada por rostos
sorridentes.

Sair ao sol,
enquanto chove
intermitantemente.


KÁTIA BORGES

KÁTIA BORGES - DESASSOSSEGO



DESASSOSSEGO


Na porta da mercearia
de bairro, fumo um cigarro,
o primeiro do dia, após
um acontecimento que
não é de amor ou de poesia.

Na porta da mercearia,
sonhos antigos passam,
acenam, pedem adeus.
Ah, Deus, se vão,
“com o mistério das coisas,
por baixo das pedras e dos seres”.

Três moedas tilintam no bolso
da bermuda xadrez, ouço
uma canção distante.
Peço que tirem os chapéu
sem respeito aos meus sonhos
mortos, um momento solene
no café, algo que celebre
esta melancolia ou a dilacere de vez.

(E, como este “fumo leve
que foge entre meus dedos”,
segue o segredo de viver sem culpas
que desconheço)

Na porta da mercearia de bairro,
pouco importam os astros,
e a água da Lua. Na Terra, só
esta secura envolta em bruma.
Na Terra, só este desassossego…


KÁTIA BORGES

segunda-feira, 20 de abril de 2009

GABRIEL INÁCIO SOGLIA DE MELO - DOIS ANOS

“Clareia manhã, clareia! Abre as janelas manhã
E deixa esta casa cheia com teu cheiro de romã"


O dia começa. Hoje, meu filho caçula, Gabriel Inácio Soglia de Melo, está completando dois anos de idade. Neste momento, estou em Salvador. Gabriel, em Jequié. Sei que está acordando, sei que seus cabelos anelados trazem notícias dos sonhos dos querubins. Gabriel galopa no vento, Gabriel traz os segredos da poeira em suas mãos. Gabriel é o sopro da esperança a movimentar meus dias. É o ânimo, o brilho que chega em minha alma e a faz delirar. Gabriel Inácio é a poesia que existe neste momento e eu posso sentir sua presença em cada movimento do meu ser, do meu espírito, do meu intelecto.
Gabriel, meu filho, sopro ao vento esta oração e louvo tua presença, e te digo daqui, de todos os lugares do meu ser, anda sempre pelo caminho do bem e busca sempre a felicidade. Parabéns, meu filho querido.
JIVM

Fotos: Ricardo Prado

"Gabriel traz os segredos da poeira em suas mãos"

" A mim ensinou-me tudo/ Ensinou-me a olhar para as coisas"

"A Criança Eterna acompanha-me sempre."

quinta-feira, 16 de abril de 2009

41

Fotógrafo: Ricardo Prado

“Não existe um só homem que algum dia já não tenha pegado uma navalha em suas mãos e que ao mesmo tempo não tenha pensado em como seria fácil cortar o fio prateado da vida”Lord Byron
Ufa! Escapei dos quarenta!
Agora que cheguei aos 41, posso confessar que fazer 40 anos foi um dos momentos mais difíceis e terríveis da minha vida. Senti um desespero tão grande... Uma dor no peito, uma tristeza. É que descobri que não era imortal. E aí percebi que já não tinha mais aquele corpo vigoroso, que não tinha chegado a lugar nenhum e que todos me olhavam desapontados. Na verdade, eu é que estava desapontado com tudo. E comigo.
Mas aí o mal já estava consumado, o dia 16 de abril de 2008 passou. E as dores na coluna foram ficando mais fortes. E eu só pensava em sumir. E o pior que não era sumir no mundo não. Eu sentia vontade de sumir do mundo. Mas aí vinha a lembrança de meus filhos e, em algum cantinho, esboçava-se um sorriso dentro de mim. Ah! estes filhos maravilhosos! Mas aí vinha o pensamento: “eu sou um irresponsável! Como é que fui colocar filhos neste mundo miserável! Para viver uma existência mesquinha, limitada e sem sentido”. Cheguei mesmo a desejar não estar vivo.
Mas me agarrei com meus poetas – os santos culpados – e fui tocando em frente. Um dia depois do outro mergulhado em profunda tristeza. Até que um dia comecei a ler um livro de um japonês chamado Akutagawa, um sujeito que se suicidou aos 35 anos com uma dose de Veronal. Antes, escreveu um conto chamado A vida de um idiota. Quando o li, percebi quanto daquela maneira de ser estava dentro da minha, o quanto éramos parecidos, irmanados. Ao final do conto, o personagem – ele próprio – pedia desculpas à mulher e aos filhos por suas limitações, lamentava mesmo a infelicidade deles em o terem como pai, e por aí seguia.
Foi então que percebi que o caminho seguido por Akutagawa não era o meu. Lembrei-me de minhas origens sertanejas, lembrei-me de meus delírios de poeta. Senti vontade de dar um passo e depois outro e outro e outro. Senti necessidade de caminhar, caminhar apenas por caminhar. E as coisas começaram a vicejar de novo, os versos voltaram a brotar no meu ser.
Aí, eu saí daquela depressão, abandonei a tristeza e fui cuidar em viver. Viver cada momento. Viver por viver. Viver até a hora que der certo. Viver até morrer de tanto viver.
E, agora, cá estou com 41 anos. Cheio de vontades. Meus filhos e minha mulher dormem. Estão com saúde. Eu também com saúde. Muitos livros para ler. Um livro para publicar. Muitos projetos. Amanhã começa a Bienal do Livro. Estarei lá com meus companheiros, levando a palavra poética ao sentimento das pessoas. Agora, posso dizer: este é um momento de felicidade.
JIVM
Quero celebrar este momento com poesia – música que toca em minha alma:

Um Poeta é um rouxinol
que se senta na escuridão
e canta para se confortar
da própria solidão com belos sons;
seus ouvintes são como homens arrebatados
pela melodia de um músico invisível,
que se sentem comovidos e em paz,
ainda que não saibam como nem porquê.

PERCY BYSSHE SHELLEY

sexta-feira, 3 de abril de 2009

PRAÇA DE CORDEL E POESIA – O GRANDE ENCONTRO DOS POETAS BAIANOS

Por José Inácio Vieira de Melo


Para a Praça de Cordel e Poesia, na 9ª Bienal do Livro da Bahia, foram convidados 101 poetas, um número bastante animador. Artistas da palavra, de vários territórios do estado, desfilarão seus versos durante os 10 dez dias de celebração do livro.
São poetas das mais diversas vertentes. Alguns, célebres, como Maria da Conceição Paranhos, Antonio Brasileiro e Ruy Espinheira Filho. Outros, estreantes, dando seus primeiros passos, como os editores da revista Entre Aspas: Georgio Rios, Paulo André e Thiago Lins ou os editores da revista Na borda da xícara: Fabrício de Queiroz e Max da Fonseca. Vários deles, ainda inéditos, postando seus poemas em blogs criativos e sonhando com a publicação do primeiro livro, como é o caso de Martha Galrão, Raiça Bonfim, Emanuel Mirdad e Priscila Fernandes.
Os cordelistas vão dar um colorido especial para a Praça, apresentando seus tipos extraordinários, ou ainda, descrevendo as personagens de destaque de sua comunidade com traços bem engraçados. Antonio Barreto, Franklin Maxado e Jotacê Freitas são alguns dos nomes representativos da literatura de cordel que estarão presentes, assim como um expressivo grupo de novos cordelistas da Bahia, sendo Tarcísio Mota um dos mais jovens, com 18 anos. As mulheres também marcarão presença. Maysa Miranda, Creusa Meira e Gilmara Cláudia mostrarão que a força feminina também vigora no cordel.
Além dos cordelistas, a Praça de Cordel e Poesia vai contar com a participação das duplas de repentistas: Paraíba da Viola & Tranquilino e Caboquinho & João Ramos, e da dupla de emboladores Palito & Braz.
Como já foi dito, poetas de vários territórios da Bahia participarão do evento, o que reflete uma das prioridades da Secretaria de Cultura do Estado, que é descentralizar a cultura, ou seja, desconcentrar a atenção dos territórios do Recôncavo e da Região Metropolitana de Salvador, e valorizar também os outros 24 territórios de identidade da Bahia. Desta maneira, desde poetas dos territórios do Baixo Sul e do Litoral Sul até poetas dos territórios do Portal do Sertão e do Piemonte Norte do Itapicuru estarão presentes mostrando para o público a força artística proveniente do seu lugar de origem.
E de todos os rincões da Bahia afloraram poetas para participar da Praça: o cordelista José Olívio, do Agreste de Alagoinhas; os poetas Georgio Rios e Inaê Sodré, da Bacia do Jacuípe; Leonam Oliveira e Jussara Midlej, do Médio Rio de Contas; Júlio Lucas, cosmopolita do território de Itaparica; e Edmar Vieira, Vitor Nascimento Sá e Marcelo Nascimento, integrantes do Grupo Concriz, do Vale do Jiquiriçá. O grupo Concriz, proveniente da cidade de Maracás, é um dos destaques da Praça de Cordel e Poesia. Sua força jogralesca e o aprimoramento técnico de seus recitais têm rendido elogios de grandes nomes da literatura baiana, como Florisvaldo Mattos, Roberval Pereyr e Ruy Espinheira Filho.
E mais: Moacir Eduão, do território de Irecê; José Walter Pires, do Sertão Produtivo; Herculano Neto, do Recôncavo; Nívia Maria Vasconcellos, do Portal do Sertão; Antonio Naud Junior, do Litoral Sul; Vânia Melo e vários outros da Região Metropolitana de Salvador. Para completar o time, Walter César, poeta beat da Aldeia de Arembepe. E muitos, muitos outros grandes talentos.
A Bahia, berço da poesia brasileira, é acolhedora por natureza. Poetas nascidos em outros Estados e em outras Regiões encontraram alento no seio da terra de Gregório de Mattos. E aqui aportaram Ivan Maia e Héber Sales, oriundos do estado de Pernambuco; Mônica Menezes, de Sergipe; Eliana Mara Chiossi, de São Paulo; Fabrícia Miranda, do Rio de Janeiro; Thiago Lins e Nuno Gonçalves, do Ceará. Nomes certos na Praça.
Outro grupo representativo que vai marcar presença no evento é o Poetrix. Criado pelo poeta Goulart Gomes, o movimento espalhou-se pelo mundo afora, tendo hoje mais de 200 mil adeptos. A Praça vai ter onze integrantes do Poetrix, uma verdadeira seleção. Seis dos poetrixtas são de outros Estados: Regina Lyra (PB), Lílian Maial (RJ), Marilda Confortin (PR), Hércio Afonso, Pedro Cardoso e Reneu Berni (DF).
Além desta pluralidade de poetas, representantes de praticamente todos os territórios de identidade do Estado, o projeto vai contar com a força cênica do ator Jackson Costa, com a interpretação suave e sensível da bela cantora Carla Visi e com a presença marcante do cantador Sapiranga. Jackson vai recitar poemas de Castro Alves e de Patativa do Assaré. Carla vai interpretar poemas de Cecília Meireles que foram musicados por Raimundo Fagner. Sapiranga vai mostrar o telurismo de suas composições.
A Praça prestará homenagem aos poetas Patativa do Assaré e Antônio Vieira. Patativa, pelo seu centenário de nascimento, e Antônio, artista singular da Bahia, pelo seu falecimento em 10 de junho de 2007. Os dois poetas terão seus poemas recitados ao longo da Bienal. Albert e Alexandre Vieira, filhos do poeta baiano, declamarão cordéis de seu pai.
Antônio Vieira apregoava que “os nomes dos poetas populares/ deveriam estar na boca do povo”. No grande encontro dos poetas da Bahia, na Praça de Cordel e Poesia, eles serão proferidos em alto e bom som, ecoando por dez dias para mais de 250 mil pessoas ouvirem.

José Inácio Vieira de Melo é poeta, jornalista e produtor cultural. Curador e coordenador da Praça de Cordel e Poesia.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

9ª BIENAL DO LIVRO DA BAHIA - PRAÇA DE CORDEL E POESIA



9ª BIENAL DO LIVRO DA BAHIA
PRAÇA DE CORDEL E POESIA
COORDENAÇÃO E CURADORIA:
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


Dia 17 (sexta-feira)

18h - POESIA
Inaê Sodré
Raiça Bomfim
Gibran Sousa
&
Barná Cardoso

19h 10min - CORDEL
Antonio Barreto
Franklin Maxado

20h 20min - POESIA
Edgar Velame
Ivan Maia
Jackson Costa


Dia 18 (sábado)

18h - POESIA
Fabrícia Miranda
Júlio Lucas
Leonam Oliveira

19h 10min - CORDEL
Paraíba da Viola
&
Leandro Tranquilino

20h 20min - POESIA
Antonio Brasileiro
Ruy Espinheira Filho


Dia 19 (domingo)

18h - POESIA
Antonio Naud Júnior
Rita Santana
Idmar Boaventura

19h 10min - CORDEL
NOVOS CORDELISTAS DA BAHIA:
Carlos Neves
Creusa Meira
José Olívio
Rogério Snatus
Tarcísio Mota
Osmar Machado Jr.
&
Igor Reis

20h 20min - POESIA
Martha Galrão
Marcus Vinícius Rodrigues
Nívia Maria Vasconcellos


Dia 20 (segunda-feira)

18h - POESIA
Emanuel Mirdad
Sérgio Silva
Wesley Correia

19h 10min - CORDEL
Carlos Alberto
Davi Nunes
Pardal do Jaguaribe
Lucas de Oliveira

20h 20min - POESIA
Adriano Eysen
Eliana Mara Chiossi
Walter César


Dia 21 (terça-feira)

18h - POESIA
MOVIMENTO POETRIX:
Goulart Gomes
Hércio Afonso
Jussara Midlej
Lílian Maial
Marco Bastos
Marilda Confortin
Oswaldo Martins
Pedro Cardoso
Regina Lyra
Reneu Berni
Sandra Mamede

19h 10min - CORDEL
GRUPO CONCRIZ:
Caroline Brito
Edmar Vieira
Gina Alves
Hermann Henrique
Ivana Karoline Machado
Marcelo Nascimento
Mateus Machado
Pablo Sá
Vitor Nascimento Sá

20h 20min - POESIA
Maria da Conceição Paranhos
Luis Antonio Cajazeira Ramos


Dia 22 (quarta-feira)

18h - POESIA
Bernardo Almeida
Fabrício de Queiroz
Max da Fonseca

19h 10min - CORDEL
Palito
&
Braz

20h 20min - POESIA
Damário Dacruz
Lita Passos
Wladimir Cazé


Dia 23 (quinta-feira)

18h - POESIA
Georgio Rios
Paulo André
Thiago Lins

19h 10min - CORDEL
Jotacê Freitas
Sergio Bahialista
&
Gutemberg

20h 20min - POESIA
Elizeu Moreira Paranaguá
Vânia Melo
Herculano Neto


Dia 24 (sexta-feira)

18h - POESIA
João de Moraes Filho
Nuno Gonçalves
José Ricardo Vidal

19h 10min - CORDEL
Crispiniano Neto
Albert Vieira
Alexandre Vieira

20h 20min - POESIA
Kátia Borges
Mayrant Gallo


Dia 25 (sábado)

18h - POESIA
André Galvão
Mônica Menezes
André Guerra

19h 10min - CORDEL
Caboquinho
&
João Ramos

20h 20min - POESIA
Cardan Dantas
Paulo Pedro Pepeu
Xangai


Dia 26 (domingo)

18h - POESIA
Heber Sales
Priscila Fernandes
Moacir Eduão

19h 10min - CORDEL
NOVOS CORDELISTAS DA BAHIA:
Gilmara Cláudia
Maysa Miranda
João Augusto
José Walter Pires
Alemão do Ceará
Zezão Castro

20h 20min - POESIA
Carla Visi
Sapiranga

segunda-feira, 30 de março de 2009

APRENDENDO COM ESTE MENINO A MONTAR CENTAUROS DE RELUZENTE POESIA

Alexandre Bonafim

"Meu cavalo e eu - Centauro do Sertão" - JIVM

O lirismo de José Inácio Vieira de Melo atinge-nos em nosso âmago, justamente por ser uma lírica atenta ao que o homem tem de mais fundo, mais intenso. Pungente, sem deixar de ser leve; existencial, sem abandonar a alegria viva, a poesia de José Inácio é bíblica, sacra, pois revela em nosso cotidiano um pergaminho de epifanias. Com efeito, há nesse lirismo, preciso e cortante, feito apenas de palavras necessárias, aquele vislumbrar em perpétuo encanto, tão característico das crianças e dos loucos. E é por comungar com esse olhar “auroral” da infância, dos delirantes, que a sua palavra desvela o mágico, o mítico, no chão batido do cotidiano. Há versos do poeta que são verdadeiro choque elétrico e nos cativa, emociona, com a precisão dos prestidigitadores; versos lapidares, nascidos já perfeitos, pois irrompem daquele “coração selvagem” joyciano, do inconsciente coletivo a nos desvelar no eterno mesmo, no velho a se renovar infinitamente, para sempre: “Para quem está no breu/ qualquer lampejo é alumbramento”, “Somente os olhos dizem/ o que as palavras sonham”, “a despedida é a véspera do encontro”, “os mitos vestem o meu nome”. Versos que já nascem como epígrafes da própria vida.
O encantamento da linguagem, a flamejante “alquimia do verbo” de Rimbaud, seduz-nos já no título do livro (e que título belo!) e em poemas dignos de serem antologiados entre os melhores feitos em nosso atual cenário literário. Esse é o caso do poema que recebe o mesmo título do livro:

Eu venho do caos primordial.
Percorri as searas da escuridão
(caminhos que não sei).

Desse tempo sem memória
nasce a consciência dos dias
(como não sei, invento).

Fantasma de barro,
preciso de um amálgama
e que teus olhos me afirmem.

Sou um centauro escarlate
e galopar na infância
é a minha metafísica.


Moisés e Gabriel - filhos de JIVM

Na poesia de Inácio o mítico desnuda a vida, abre possibilidades de existência capazes de dar um fundamento ontológico ao homem, esse mesmo homem, órfão, da pós-modernidade, massacrado pela tecnologia, pelas máquinas, pelo consumo. Nesse sentido, o mítico surge como fonte de existência, alimento de alma a nos humanizar, a nos trazer um gosto de sacralidade, de vivacidade. Por isso é bom lembrar as palavras de Gusdorf “o mito tem por função [...] justamente tornar possível a vida. É assim que ele dá um embasamento às sociedades humanas permitindo-lhes que durem.” Lembrando o sempre importante recado de Alfredo Bosi: poesia é resistência à reificação e, se assim é, a poesia de Inácio resiste aos nossos tempos de barbárie, permitindo a permanência da nossa sociedade. Poesia-esperança, poesia-louvor, poesia-vida, eis o que encontramos em A infância do Centauro. Eis o que encontramos nesse belíssimo poema, ponto alto de sua obra:

RIBEIRA DO TRAIPU

Ainda sinto o entardecer na Ribeira do Traipu,
ainda sinto a terra arada e fecundada pelos grãos de milho.
E, amanhã, quando chover, o verde fervilhará,
e sentirei o sabor das baixadas do Traipu
na espiga de milho assada na fogueira de São João,
na centelha azul da minha infância, na brasa dessa lembrança.

Na brasa da minha mão sinto a tarde queimando,
traduzindo mistérios em matizes rubros,
lá na Ribeira do Traipu, onde ficou aquele menino,
no meio do tempo, olhando pros quatro cantos,
sem entender nada, buscando voltar para onde não sabia.

Trago dentro o menino perdido nos beiços das estradas,
acocorado na beirada do Traipu, em época de enchente,
esperando um não sei quê passar, talvez um papagaio cego,
nos destroços do que foi uma mesa, a anunciar o caminho de casa.

Afirma Bahchelard “sempre sonhar será mais que viver”. É justamente por viver na nudez dos sonhos, por incendiá-los com o lume vivo da infância, que José Inácio nos brinda com a surpresa sempre nascente da poesia.


BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
GUSDORF, Georges. Mito e metafísica. São Paulo: Convívio, 1980.
MELO, José Inácio Vieira de. A infância do Centauro. São Paulo: Escrituras, 2007.


Alexandre Bonafim nasceu em Belo Horizonte. Atualmente mora em Franca, interior de São Paulo. É poeta, ensaísta e professor de literatura brasileira. Publicou os livros Biografia do deserto (2006) e A outra margem do tempo (2008).

quinta-feira, 26 de março de 2009

FLORISVALDO MATTOS - NÃO AOS CAVALOS TRIUNFANTES

Ilustração: Ângelo Roberto


NÃO AOS CAVALOS TRIUNFANTES
Aos meninos de My-Lai


Não me tragam esses cavalos.
Não, não me dêem nenhum deles.

Nem o de Alexandre Magno
que comeu os mitos do oriente.
Nem o cavalo de César
que riscou o chão da Gália
foi à Espanha e voltou
para acabar com Pompeu.

Nem o intrépido corcel de Aníbal
na derrota de Cartago.
Nem o fero potro de Átila
de patas excomungadas.
Não, nem mesmo Babieca,
o louco cavalo do Cid.

Nenhum daqueles valentes
fortes cavalos cruzados
cobertos de ferrarias:
grandes cavalos blindados
heróis da Idade Média
salvação da cristandade.
Nem o branco de Napoleão
empinado sobre os Alpes
suando revolução.

E outros cascos triunfantes
outras crinas memoráveis
cavalos como bandeiras
sejam árabes ou romanos
espanhóis ou americanos
não me dêem esses cavalos!

Para mim de nada servem
as ferraduras de sangue
que chagaram geografias.
Esse peitoral de bronze
dizimador de cidades
arrasador de sementes.

O fogo de suas narinas
pulou séculos e mapas
transformou povos em cinzas
e ainda queima os espaços.
Os relinchos são navalhas.

Não, já vos disse, não quero.
para mim de nada servem,
são cavalos militares
ensinados para a guerra.

Desde criança que amo
cavalos pelas campinas
sentindo o cheiro do pêlo
saltando pedras e cercas
(a disputa era com os ventos
Ao espelho de águas claras).

Quero esses, e somente esses,
cavalos da natureza,
livres de arreios e pulsos –
ruços, alazães, castanhos,
negros, melados ou pampos.


FLORISVALDO MATTOS

quarta-feira, 18 de março de 2009

PROJETO TRAVESSIA DAS PALAVRAS



O projeto Travessia das Palavras é uma iniciativa da Academia de Letras de Jequié (ALJ) e tem como base o encontro de um escritor baiano reconhecido com o público jequieense, com o intuito de proporcionar a aproximação da platéia com os autores e o conhecimento de suas obras.
Esses encontros acontecerão uma vez por mês. O escritor convidado falará de sua obra, de seu processo de criação e fará leituras de sua produção. O público poderá participar, fazendo perguntas. O projeto vai contar ainda com participações de grupos de recitais e de músicos locais.
Como já foi supracitado, O evento vai ser mensal, sempre no último sábado de cada mês, das 19h 30 min às 21h 30 min, na Casa de Cultura Pacífico Ribeiro, iniciando no dia 28 de março e se estendendo até o dia 28 de novembro, somando um total de oito apresentações.
Além, da leitura e recital de poemas, contos e trechos de romances por seus próprios autores e por grupos de recitais, o projeto visa formar um público leitor e ouvinte de literatura, aproximar o público do autor, apoiar e desenvolver a tradição da oralidade na poesia e contemplar e dar visibilidade aos escritores baianos contemporâneos e artistas locais.
Para a estréia do projeto Travessia das Palavras, foi convidado Florisvaldo Mattos, um dos mais significativos poetas brasileiros do século XX.
Formado em direito, Florisvaldo Mattos optou pelo jornalismo, atividade que exerce até o presente, como editor chefe do jornal A Tarde, o maior do Norte-Nordeste. Nos anos 60, integrou em Salvador o grupo da chamada Geração Mapa, liderado pelo cineasta Glauber Rocha.
Entre suas obras publicadas, estão Reverdor (1965); Fábula Civil (1975); A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior (1996); Mares Acontecidos (2000) e o livro de ensaios Travessia de Oásis – A Sensualidade na Poesia de Sosígenes Costa (2004), no qual analisa a trajetória poética do também baiano Sosígenes Costa (1901-1968) e até encontra aproximações entre a obra dele e a do poeta grego Konstantinos Kaváfis (1863-1933).
Além da presença do poeta Florisvaldo Mattos, o evento vai contar também com a participação especial do Grupo Concriz – poetas recitadores e afins, da cidade de Maracás, que vai recitar poemas do autor convidado. O Grupo Concriz, formado por 12 jovens, coordenados pelos poetas irmãos Marcelo Nascimento e Vitor Nascimento Sá, tem participado de vários eventos no estado da Bahia, e sua presença no projeto Uma Prosa Sobre Versos, em Maracás, é garantia de casa cheia, devido às suas performances arrebatadoras. Segundo o poeta Ruy Espinheira Filho: “na Bahia não existe nada semelhante”.
Travessia das Palavras é coordenado por Leonam Oliveira, escritor e presidente da Academia de Letras de Jequié, e por José Inácio Vieira de Melo, poeta, jornalista e produtor cultural. Conta com o apoio da Secretaria de Cultura e Turismo de Jequié.
A Casa de Cultura Pacífico Ribeiro fica na Rua Gerônimo Sodré, 61, no centro da cidade de Jequié, em frente do Tênis Clube de Jequié. A entrada é gratuita. Os estudantes que comparecerem receberão certificados.

Relação dos escritores convidados:

28 / 03 / 2009 – Florisvaldo Mattos
25/ 04 / 2009 – Kátia Borges
30 / 05 / 2009 – Carlos Ribeiro
25 / 07 / 2009 – Renata Belmonte
29 / 08 / 2009 – Antonio Brasileiro
26 / 09 / 2009 – Roberval Pereyr
24 / 10 / 2009 – Ruy Espinheira Filho
28 / 11 / 2009 – Aleilton Fonseca

Mais informações:
Leonam Oliveira - (73) 8833 3843 leonambahia@uol.com.br
José Inácio Vieira de Melo –(73) 8845 5399 jivmpoeta@gmail.com

sábado, 14 de março de 2009

VERÔNICA DE VATE - RUY ESPINHEIRA FILHO

RUY Alberto d'Assis ESPINHEIRA FILHO nasceu em Salvador, Bahia, no dia 12 de dezembro de 1942, filho de Ruy Alberto de Assis Espinheira, advogado, e Iracema D’Andréa Espinheira, de ascendência italiana. Passou a infância em Poções e a adolescência em Jequié, cidades do Sudoeste baiano. De volta a Salvador, em 1961, estudou no Colégio Central da Bahia e, levado pelo poeta Affonso Manta, que conhecia desde Poções, ingressou no grupo boêmio capitaneado por Carlos Anísio Melhor. Ainda nos anos 60, começou a publicar na revista Serial, criada por Antonio Brasileiro, e se iniciou no jornalismo — como cronista da Tribuna da Bahia (1969-1981), onde também trabalhou como copidesque e editor (1974-1980). Colaborou ainda com o Pasquim, como correspondente na Bahia (1976-1981), e foi contratado como cronista diário do Jornal da Bahia (1983-1993). Atualmente assina artigos quinzenas em A Tarde. Graduado em Jornalismo (1973), mestre em Ciências Sociais (1978) e doutor em Letras (1999) pela Universidade Federal da Bahia, UFBA, e doutor honoris causa pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, UESB (1999), é professor associado do Departamento de Letras Vernáculas do Instituto de Letras da UFBA, membro da Academia de Letras de Jequié e da Academia de Letras da Bahia. Publicou 11 livros de poemas: Heléboro (1974), Julgado do Vento (1979), As Sombras Luminosas (1981 — Prêmio Nacional de Poesia Cruz e Sousa), Morte Secreta e Poesia Anterior (1984), A Guerra do Gato (infantil — 1987), A Canção de Beatriz e outros poemas (1990), Antologia Breve (1995), Antologia Poética (1996), Memória da Chuva (1996 — Prêmio Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores), Livro de Sonetos (1998; 2. ed. revista, ampl. e il., 2000), Poesia Reunida e Inéditos (1998), A Cidade e os Sonhos (2003), Elegia de agosto e outros poemas (2005; em 2006 – Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, Prêmio Jabuti – 2º lugar –, da Câmara Brasileira do Livro; Menção Especial do Prêmio Cassiano Ricardo, da UBE-RJ). Tem ainda publicados vários livros em prosa: Sob o Último Sol de Fevereiro (crônicas, 1975), O Vento no Tamarindeiro (contos, 1981); as novelas O Rei Artur Vai à Guerra (1987, finalista do Prêmio Nestlé), O Fantasma da Delegacia (1988), Os Quatro Mosqueteiros Eram Três (1989); os romances Ângelo Sobral Desce aos Infernos (1986 — Prêmio Rio de Literatura [2º lugar], 1985), Últimos Tempos Heróicos em Manacá da Serra (1991); Um Rio Corre na Lua (2007) e os ensaios O Nordeste e o Negro na Poesia de Jorge de Lima, dissertação de Mestrado em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia(1990), Tumulto de Amor e Outros Tumultos – Criação e Arte em Mário de Andrade, tese de Doutorado em Letras, também pela UFBA (2001), Forma e alumbramento — poética e poesia em Manuel Bandeira (2004). Lançou ainda o CD Poemas, gravado pelo próprio autor, com 48 textos extraídos de seus livros, além de alguns inéditos (2001). Contos e poemas seus foram incluídos em diversas antologias, no Brasil e no exterior (Portugal, Itália, França, Espanha e Estados Unidos).


EPÍGRAFE


Sonha que escreve;
escreve que sonha;
quando sonha, escreve;

quando escreve, sonha;
tudo é o mesmo sonho;
fala em sonho: escreve.

Escreve em papel;
escreve no chão
do quintal, nos pássaros;

escreve nas nuvens;
escreve na água,
nos risos, nas mágoas;

escreve na lua,
no sol, no horizonte,
nas pedras, nos ramos;

escreve nos muros;
na falta de rumos;
escreve no escuro,

no claro; desperto
ou dormindo, escreve;
e escreve no vento.

Tudo escreve, escreve;
tudo e sobre tudo
escreve, escreve; e

Depois ainda escreve
mais; escreve (e até
escreve que escreve)

para que a vida
seja um pouco menos
obscura e breve.


RUY ESPINHEIRA FILHO

sexta-feira, 13 de março de 2009

RUY ESPINHEIRA FILHO - EPIFANIA


EPIFANIA


Alguns anos não consigo
deixar nas águas do Lete:
os teus catorze morenos
e os meus magros dezessete.
Muitas coisas se afogaram,
e rostos, e pensamentos,
e sonhos, e até paixões
que eram imortais...
Porém,
os meus magros dezessete
e os teus catorze morenos
não entram nem em reflexo
nesse Rio do Esquecimento.

Que magia nos levou
a um espaço e a um momento
para que de nós soubéssemos:
tu, meus magros dezessete;
eu, teus catorze morenos?
Que astúcia do Imponderável
nos abriu aqueles dias
que permanecem tão claros
como quando nos surgiram?
Eu não sei. Mas sei que a vida
nunca mais me foi vazia.

Como não foi fácil, nunca,
por tanto me visitarem
os Arcanjos da Agonia.
Pois, se fui iluminado
por estarmos lado a lado
— os teus catorze morenos
e os meus magros dezessete —,
seria fatal que também
viesse a sentir a alma
em chagas multiplicadas
por setenta vezes sete.

Ah, os teus catorze morenos
e os meus magros dezessete!...
Quanto sofrimento fundo
— mas quanto sonho profundo
e alto!
Que belo mundo
foi-me então descortinado,
porquanto me era dado
o privilégio preclaro
de penar de amor no claro,
no escuro, em todas as cores,
em todos os tons da vida,
dia e noite, noite e dia,
varrido ao vento das asas
dos Arcanjos da Agonia
(que eram, por algum prodígio,
os mesmos da Alegria!...).

Ah, que por mim chorem flautas,
pianos, violoncelos,
as cachoeiras, os céus
comovidos dos invernos...
Chorem, chorem, que mereço
essas lágrimas, porque
tudo sofri no mais pleno
de paraísos e infernos.
Que chorem...
Mas eu, eu mesmo,
não choro... Como chorar,
se mereci essa dádiva
de um amor doer na vida
por setenta vezes sete
mais que qualquer outra dor,
mais que qualquer outro amor?
Só me cabe agradecer,
pois a vida perderia
(e, o que ainda é mais cruel,
sem nem saber que a perdia...)
se não provasse os enredos,
insônias, febres, venenos
que em meus magros dezessete
acendeu a epifania
dos teus catorze morenos!


RUY ESPINHEIRA FILHO

quinta-feira, 12 de março de 2009

PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS 2009 - ANO II



Maracás, também conhecida como Cidade das Flores, que fica no sudoeste baiano, a 851 metros acima do nível do mar, é uma cidade fria e aconchegante, com uma população estimada em 30 mil habitantes. Pois bem, foi nesta cidade, colonizada por imigrantes italianos, que aconteceu no ano passado um dos projetos de poesia mais exitosos da Bahia: Uma Prosa Sobre Versos. A cada mês, comparecia ao Auditório Municipal de Maracás uma média de 600 pessoas para ouvir atentamente um poeta e conhecer a sua relação com a literatura.
O evento começava sempre com um recital do Grupo Concriz, coordenado pelo poeta e professor Vitor Nascimento Sá, que selecionava em torno de 40 poemas do convidado para serem recitados por 12 jovens da comunidade maracaense. Devido ao sucesso do Grupo Concriz, seus participantes passaram a ser celebrados na cidade e o interesse pela literatura na comunidade cresceu consideravelmente, sobretudo em relação à poesia.
Diante do sucesso do projeto, o poeta e professor Edmar Vieira, diretor de cultura de Maracás e coordenador de Uma Prosa Sobre Versos, resolveu fazer a segunda edição do evento. Para a estreia, no dia 14 de março, o projeto vai contar com a presença de Ruy Espinheira Filho, um dos poetas mais notórios do Brasil.
Para os meses seguintes, estão convidados os poetas Adriano Eysen, de Feira de Santana/Euclides da Cunha; Ângela Toledo, do Morro de São Paulo; Damário Dacruz, de Cachoeira; Carlos Barbosa de Ibotirama/Salvador; Eliana Mara Chiossi, de São Paulo/Salvador e Mayrant Gallo, de Salvador.
O projeto vai começar no dia 14 de março, aniversário do poeta Castro Alves e dia nacional da poesia. O convidado Ruy Espinheira Filho, é jornalista, mestre em Ciências Sociais e doutor em Letras. Publicou mais de vinte livros em diversos gêneros: poesia, romance, novela, conto, crônica, ensaio, literatura infantil e juvenil. Recebeu vários prêmios literários, dentre eles o Prêmio Nacional Cruz e Souza, de Santa Catarina (pelo livro de poemas As sombras luminosas, 1981) e o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras 2006 e o Prêmio Jabuti (pelo livro Elegia de agosto e outros poemas, 2004). Sua poesia tem sido incluída nas principais antologias brasileiras, contando ainda com traduções na França, na Itália, na Espanha e nos Estados Unidos, além de edições em Portugal e Galícia.
Os poetas convidados de 2008 foram Cleberton Santos, Elizeu Moreira Paranaguá, Lita Passos, Antonio Carlos de Oliveira Barreto, Roberval Pereyr, Rita Santana e José Inácio Vieira de Melo.
O Projeto Uma Prosa Sobre Versos vai ser realizado no Auditório Municipal de Maracás, começando sempre às 19h 30min, com entrada franca, sempre em uma sábado de cada mês.

Grupo Concriz

PROGRAMAÇÃO:

14/03/2009 – RUY ESPINHEIRA FILHO
11/04/2009 – ADRIANO EYSEN
09/05/2009 – ÂNGELA TOLEDO
06/06/2009 – DAMÁRIO DACRUZ
11/07/2009 – CARLOS BARBOSA
08/08/2009 – ELIANA MARA CHIOSSI
12/09/2009 – MAYRANT GALLO

Mais informações:
Edmar Vieira – (73) 3533 2080 – edmarvieira1@gmail.com
José Inácio Vieira de Melo – (73) 8845 5399 – jivmpoeta@gmail.com

quarta-feira, 4 de março de 2009

PROJETO PROSA E VERSO NAS VEREDAS DO SERTÃO



UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E TECNOLOGIAS

CAMPUS XXII - EUCLIDES DA CUNHA / BA


A quarta edição do projeto Prosa e verso nas veredas do sertão, organizado pelo poeta e professor Mestre Adriano Eysen, ocorrerá no Campus XXII da UNEB em Euclides da Cunha. Os participantes terão oportunidade de compartilhar experiências com escritores, pesquisadores da cultura e especialistas da história, crítica e teoria literárias, a fim de incentivar a pesquisa e a produção acadêmica, como também estreitar a relação entre autor e leitor.
Os encontros têm a duração de três horas e meia, repetindo-se em dois turnos: vespertino e noturno, das 14:00h às 17h:30min. e das 19:00h às 22h:30min., com intuito de atender ao curso de letras de uma forma ampla sem inviabilizar a participação dos alunos e professores.
Fotógrafo: Ricardo Prado

No dia 05 de março de 2009 (quinta-feira) contaremos com o poeta, jornalista e co-editor da Revista Iararana José Inácio Vieira de Melo, cujo tema da palestra é A Produção Literária na Bahia nos séculos XX e XXI.
Ainda no dia 05 de março, às 16h:30min. e às 21h:00min., ocorrerá o lançamento do livro A infância do Centauro (Escrituras – poesia – 2007) e do CD de poesia A Casa dos meus quarenta anos do palestrante. Dessa forma, o projeto tem o intuito de ampliar relações entre universidade e sociedade, uma vez que uma das suas metas é possibilitar a participação de todos os indivíduos da comunidade que têm interesse em alargar seu universo cultural. As inscrições, no valor de R$ 5,00, serão realizadas do dia 05/02/2009 a 04/03/2009 na sala do NUPE/Especialização - Campus XXII – Euclides da Cunha.

Mais informações:
Professor Adriano Eysen – e-mail: adrianolittera@hotmail.com
Colegiado de Letras – Campus XXII – Euclides da Cunha – Telefones: (75) 3271 – 2416 e 3271-3227.

terça-feira, 3 de março de 2009

I SEMINÁRIO DE LITERATURA E DIVERSIDADE CULTURAL - ESTAÇÃO DE MARÇO



UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA

Departamento de Letras e Artes
Programa de Pós-Graduação em Literatura e Diversidade Cultural – PpgLDC


I Seminário de Literatura e Diversidade Cultural - Estação de Março
Dia 4 de março - das 9 às 11h30 e das 14h às 16h30


9h - Conferência de Abertura:

Drummond: cidades e memória
Prof. Dr. Marcio Roberto Soares Dias (UESB)

Lançamento do livro do autor:
Da cidade ao mundo: notas sobre o lirismo urbano de Carlos Drummond de Andrade


10h - Mesa de comunicações de egressos e mestrandos do PPGLDC:

Reynaldo Valinho Alvarez: duas faces do lirismo metapoemático.
Cleberton Santos (UEFS)

O discurso urbano de Izacyl Guimarães Ferreira, o amante apologético da civilização
José Inácio Vieira de Melo (PPGLDC)

Ferreira Gullar: sociedade e criação poética
Wesley Barbosa Correia (IF/BA)

Inutilia Truncat: Uma leitura do conto Civilização de Eça de Queiroz
Alana de Oliveira Freitas El Fahl (UEFS)

Num piscar de olhos: absurdo e fragmentação em Insônia e Estorvo.
Mírian Sumica Carneiro Reis (PPGLDC)


14h - Conferência:
Jorge Amado e a cidade da Bahia
Prof. Dr. Benedito Veiga (UEFS)


15h - Mesa de comunicações de egressos e mestrandos do PPGLDC

Carnaval e literatura
Valdomiro Santana (PPGLDC)

O fim da ordem clássica e o nascimento da modernidade
Idmar Boaventura (UEFS)

Essa Terra: um livro de desencontro
Antônio Gabriel Evangelista de Souza (UEFS)

Embriaguez e desarranjo: uma febre de modernidade em O bicho que chegou à Feira
Isis Moraes (PPGLDC)

A dimensão corresivo do outro em Clarice Lispector e Marrie Darrieusseqc".
Vera Márcia Lopes (PPGLDC)


Local: Sala de Eventos
Prédio da Pós-Graduação em Educação, Letras e Artes (Módulo 2)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

ENTREVISTA - JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO: POESIA QUE SE ESPALHA

Por Kátia Borges


Alagoano, José Inácio Vieira de Melo escolheu a Bahia para viver e batalhar a carreira literária. Hoje, morando em Jequié, coordena projetos poéticos e prepara novo livro (Entrevista concedida à jornalista e escritora Kátia Borges. Publicada parcialmente na revista semanal Muito #46, do jornal A Tarde, em 15 de fevereiro de 2009, em Salvador, Bahia. - Foto: Rejane Carneiro).

KÁTIA BORGES
– Como a poesia o encontrou nessa vida?

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – A poesia encontrou-me ainda na adolescência. Estava acampando com alguns amigos na Serra das Mãos, em Alagoas. Tomávamos chá de erva cidreira e capim santo. Um dos amigos tinha um radinho “consola corno” e sintonizou-o na Rádio Novo Nordeste, quando o Raimundo Fagner, muezim do Ceará, começou a berrar um poema de Patativa do Assaré. Foi um momento de descoberta, de epifania. A partir daquele momento, a minha comunhão com a poesia estava selada.

KB – Fazer 40 anos mudou sua poesia?

JIVM – Apesar de acreditar que a cada dia inauguramos uma nova idade – como nos ensina Alberto Caeiro: “Sinto-me nascido a cada momento/ para a completa novidade do mundo” –, entrar na casa dos 40 não foi nada fácil. Parece até que os meus fantasmas todos resolveram assomar de uma só vez e, permanentemente, fazer um labafero terrível no meu juízo. E a minha poesia mudou sim. E como mudou! Até outubro lançarei um livro intitulado "Roseiral", no qual os leitores poderão constatar essa mudança.

KB – E dar aulas sobre literatura? Muda a perspectiva?

JIVM – Lecionar literatura é uma satisfação e um grande aprendizado. Ao invés de mudar a perspectiva, potencializa-a e amplia as possibilidades. A cada aula, penso numa maneira mais prazerosa de fazer com que a literatura chegue ao sentimento dos alunos, assim como, também, busco fazer com que eles tenham uma compreensão do que é literatura.

KB – As críticas negativas tiram seu sono?

JIVM – As críticas negativas me deixam com um sorriso no canto da boca, pois surgem da parte de anônimos. A impressão que fica é que são pessoas muito carentes de atenção, que encontram prazer na difamação de outrem. Desde que publiquei meu primeiro livro, "Códigos do silêncio" "(2000), a minha poesia tem recebido uma atenção especial de um número considerável de críticos de várias partes do Brasil e até de outros países, como Portugal e Colômbia, de modo que esses ganidos anônimos não me incomodam. Na verdade são tão repetitivos e tão clichês que se tornaram enfadonhos.

KB – Nos eventos pelo interior, como a poesia se espalha?

JIVM – Desde 1998 que coordeno eventos literários na Bahia, tanto em Salvador como em algumas cidades do interior. E é impressionante como a resposta é diferente. Em Salvador, apesar de contar com o apoio das mídias (rádio, jornal impresso e televisão), o público é bem menor do que no interior. Coordenei durante quatro anos, em Salvador, o projeto Poesia na Boca da Noite (2004-2007), que apresentava sempre dois poetas. A maior platéia foi de 120 pessoas. Já na cidade de Maracás, com população estimada em 30 mil habitantes, participei, no ano passado, do Uma Prosa Sobre Versos, coordenado por Edmar Vieira. Durante todo o ano, o projeto conseguiu manter um público estimado em 600 pessoas, que compareciam ao auditório da cidade para ouvir um escritor e se deliciar com um belíssimo recital de poemas feito pelo Grupo Concriz, uma turma de jovens coordenada pelo poeta Vitor Nascimento Sá. O evento foi tão exitoso que já tem programação definida para 2009, cuja estreia vai ser no dia 13 de março, com a presença do poeta Ruy Espinheira Filho e, claro, do Grupo Concriz. Outro projeto a estrear também em março é o Travessia das Palavras, da Academia de Letras de Jequié, coordenado por Leonam Oliveira, presidente da instituição, e por mim. O primeiro convidado é o poeta Florisvaldo Mattos, que vai ter, também, seus poemas recitados pelo Grupo Concriz. A poesia é interior e se esparrama com fluidez pelos interiores.

KB – A meninada entende, gosta, procura a poesia?

JIVM – A meninada sente a poesia. E dentro desse sentir cabe o espanto, o estranhamento, o encanto, a beleza e a compreensão. Talvez, se os adultos tivessem o olhar da meninada, a poesia não seria, como diz o poeta Francisco Carvalho, “uma ribalta entregue às moscas”. O público desses eventos nem sempre é formado majoritariamente por crianças, mas por jovens entre 15 e 25 anos de idade.

KB – Verso medido ou livre, em qual você se sente mais à vontade?

JIVM – Sinto-me à vontade com os dois. Tanto os versos abundantes de Walt Whitman que se espraiam pelo espírito dos leitores, quanto o rigor das facas cabralinas, a deixar cicatrizes claras. Verso medido é uma liberdade que chega pelo conhecimento. Ao conhecermos a técnica, passamos a compreender que o verso livre também tem sua medida.

KB – Qual o espaço da poesia no mundo hoje?

JIVM – A poesia está em toda parte. O mundo é poesia. A maioria das pessoas é que está com o olhar preso na vitrine.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

JIVM - POEMA OBSCURO (QUADRILHA)

Ilustração: Ivonete Dias

POEMA OBSCURO (QUADRILHA)


Era uma vez um homem que não sabia mais o que fazer.
Então, de madrugada, um cavalo saiu montado na ventania
e uma formiga pegou a rabeca e nunca mais parou de tocar.
Certo dia, o sol foi embora e o homem acendeu o candeeiro.

O cavalo encontrou vários seguidores na sua peregrinação.
A formiga é solista das principais orquestras das cigarras.
O sol se casou com uma estrela de outra constelação.
O candeeiro se apagou e o homem escreveu um poema obscuro.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

sábado, 14 de fevereiro de 2009

JOSÉ GERALDO NERES - ENCONTRO NINHOS DE CENTAUROS

Ilustração: Ramiro Bernabó

ENCONTRO NINHOS DE CENTAUROS

a poesia transborda no dorso do enigma
estou longe de mim no fundo dos olhos do centauro
o mundo me habita e uma aquarela espera o seu galope
dentro da infância busco atravessar a ponte
sua voz me guia e inventa fantasmas de barro
trago em mim outras feras e um peixe a escrever flores
procuro um milagre e resta apenas este poema
centauro de língua escarlate
a galopar o espelho
estou aqui na poeira dos seus passos
de mãos dadas com seu filho a cravar palavras a afogar dias
não importa o labirinto brinco de deus e beijo suas raízes
no balanço da rede resta o silêncio e o cheiro do sol na carne
[da moça na encruzilhada a construir a arca da salvação
longe de mim a olhar a sombra dos vaqueiros
estou aqui tragédia a morder poeira
trago em mim um epitáfio e uma romaria
não sei ser quase sou pedra barro lama sêmen
semente de relógio em um deserto de cicatrizes
minha cruz a marcar o silêncio
não me ofereça o paraíso preciso de uma sombra
o poema se aproxima a caminhar além das preces
espero o movimento de suas lâminas
em mim os cavalos e os pássaros invocam o sacrifício da vida

JOSÉ GERALDO NERES
Lendo “A infância do Centauro” de José Inácio Vieira de Melo, Escrituras Editora, 2007

José Geraldo Neres é poeta, ficcionista, roteirista, arte-educador. Assessor literário da Secretaria de Cultura, Prefeitura de Diadema. Bolsista da Fundação Biblioteca Nacional. Co-fundador do grupo Palavreiros.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

VERÔNICA DE VATE - VERA LÚCIA DE OLIVEIRA

VERA LÚCIA DE OLIVEIRA nasceu em Cândido Mota e cresceu em Assis, no Estado de São Paulo. Desde 1983, vive na Itália, onde ensina Literatura Portuguesa e Brasileira na Università degli Studi di Lecce. Formou-se em Letras pela Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), em 1981, e em Línguas e Literaturas Estrangeiras, em 1991, pela Università degli Studi di Perugia, na Itália. Neste mesmo país, obteve o doutorado, em 1997, pela Università degili Studi di Palermo. Recebeu em 2005, o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras com o livro A Chuva nos Ruídos, publicado pela Escrituras, uma antologia que reúne poemas de cinco livros, quatro dos quais publicados em edição bilíngüe, na Itália. A autora, que escreve tanto em português como em italiano, recebeu também outros prêmios nacionais de poesia e seus poemas foram traduzidos e publicados em várias antologias no Brasil, Itália, Estados Unidos, Espanha e Portugal. Tradutora e divulgadora da literatura brasileira na Itália, organizou antologias de vários poetas, entre os quais Lêdo Ivo e Carlos Nejar.
Publicou os seguintes livros: A porta range no fim do corredor (poesia), São Paulo, 1983 (Prêmio de Poesia Scortecci, São Paulo, 1982); Geografia d'ombra (poesia), Fonèma Venezia, 1989; Pedaços / Pezzi (poesia), Etruria, Cortona, 1992; Tempo de doer / Tempo di soffrire (poesia), Pellicani, Roma, 1998; La guarigione (poesia), La Fenice, Senigallia, 2000 (Prêmio Nacional de Poesia de Senigallia, Itália, 2000); Uccelli convulsi (poesia), Manni, Lecce, 2001 (Prêmio Nacional de Poesia Gino Perrone, Itália, 2000); Poesia, mito e história no Modernismo brasileiro (ensaio), Ed. da Unesp e Edifurb, São Paulo, 2002; No coração da boca / Nel cuore della parola (poesia), Adriatica, Bari, 2003; A chuva nos ruídos (antologia poética), Escrituras, 2004, São Paulo (Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, 2005); Verrà l'anno (poesia), Fara, Santarcangelo di Romagna, 2005 (Prêmio de Poesia "Popoli in cammino", 2005, Itália); Storie nella storia: le parabole di Guimarães Rosa (ensaio), Pensa, Lecce, 2005. Recebeu, em 2006, do Ministério da Educação, o "Prêmio Literatura para Todos", na categoria de poesia, com o livro inédito Entre as junturas dos ossos, que será publicado pelo MEC.


OS DEUSES


o céu é povoado por Deuses
(a nossa imagem e semelhança)

os vencidos optam por um Deus menor
que mora nos porões do céu
os ricos
por um Deus que viaja de primeira classe
e ignora os aleijões

os Deuses estão sempre em guerra mas quem
vence é o Deus dos vencedores


VERA LÚCIA DE OLIVEIRA

VERA LÚCIA DE OLIVEIRA - VOZES


V O Z E S

dizia que ouvia umas vozes provindas das coisas
que todas as coisas estavam povoadas
que as coisas habitavam os corpos
que quando uma pessoa saía a coisa
ficava gemendo a ausência como um cão
que não pode viver sem a ternura do seu dono

VERA LÚCIA DE OLIVEIRA

sábado, 31 de janeiro de 2009

CANTINHO DO CONTO: A PROVA FINAL

Carlos Ribeiro




Roberto tinha um defeito. Melhor dizendo: Roberto, segundo sua mulher, Marli, tinha um grande e único defeito. Era uma peculiaridade, um traço do caráter que, no início do relacionamento, há distantes 20 anos, parecera a ela uma virtude, mas que, com o passar do tempo, tornara-se algo exasperante. Para não dizer: algo verdadeiramente insuportável.
O grande problema, dizia Marli, era que Roberto, em nenhuma circunstância, se irritava. Nunca perdia a paciência. Jamais respondia às reclamações que ela, freqüentemente, lançava-lhe à cara. Em nenhum momento dirigia-lhe sequer uma palavra um pouco mais dura, com o mínimo tom de rispidez.
No início, Marli considerava isto uma vantagem especial, um presente dos céus. Principalmente naquele tempo em que viviam a fase dourada de descobertas e encantamentos. Não havia, ainda, grandes dívidas a saldar, problemas com filhos. Não havia a convivência diuturna, o dormir e acordar juntos, o esperar na porta do banheiro, as idiossincrasias mútuas, os desentendimentos cotidianos.
Marli considerava-se uma privilegiada. Roberto era uma recompensa à sua persistência. Fora a única filha dos Andrades, a casar, segundo achava-se na época, tardiamente, aos 28 anos. Mas valera a pena esperar. Ele era o exemplo mais bem acabado, que se possa imaginar, de um gentleman. Nunca esquecia de abrir a porta do carro, de puxar a cadeira no restaurante, de enviar-lhe flores e tantas outras delicadezas cotidianas, geralmente esquecidas no correr da vida em comum.
Assim procedeu, ano após ano, sem dar-se conta de que se acumulava, em Marli, como camadas de pó, nas paredes de uma caverna, uma certa apreensão, que, pouco a pouco, evoluía para uma impaciência, e daí para uma intolerância, manifestada nas mínimas coisas: no atraso, para ela insuportável, de alguns segundos, para um encontro; num sorriso, que considerava ridículo; numa frase, que achava inconveniente; numa palavra ou gesto qualquer, que precipitava, subitamente, para a surpresa dos que conviviam com o casal, um inferno de xingamentos, gritos e admoestações. E, finalmente, na conclusão fatal de que ela sabia, sim, o que ele queria. Suas verdadeiras intenções...
A revelação viera de chofre: Roberto queria fazê-la perder a razão. Percebera, finalmente, que havia algo mais por trás daqueles sorrisos, daquelas atitudes gentis – como um pântano oculto por trás de perfumados jardins. Lembrava-se sempre do que lhe dizia a avó: “Minha filha, não existem homens perfeitos”. Por isso, quanto mais perfeitos lhes parecessem, mais cuidado deveria ter. Mais necessário seria vigiar cada um dos seus passos. E assim procedeu. A partir daquele momento, cada gesto de Roberto passava a ser um sinal, vestígio de alguma coisa repulsiva, que se gestava, no silêncio das tardes, entre as sombras dos móveis na sala; mas que, mais cedo ou mais tarde, viria à tona, em toda a sua assombrosa monstruosidade. O perigo era iminente. Ela não podia perder o controle. Não podia ficar esperando que o pior finalmente acontecesse. Tinha que fazer alguma coisa. Se ele ainda reagisse às suas agressões! Se ainda mostrasse sua verdadeira face... poderia haver, quem sabe, uma chance de entendimento. Cabia a ela, num último e desesperado gesto de amor, mostrar quem ele realmente era.
E o fez. Foi numa morna sexta-feira, que ela o recebeu, carinhosamente, à porta da casa, quando ele chegou, à noite, do trabalho. Havia anos que não o beijava. Que não sorria o riso encantador, aquele que tanto o fascinara nos primeiros anos do relacionamento. Que não lhe preparava um jantar, na varanda, com a vista para o mar, da sua bela casa, em Ondina.
Roberto custou a acreditar. Então, acontecera o milagre? Comeu, sorridente, a macarronada, e a sobremesa de figos em calda, que ela mesma preparou. Falou das dificuldades no trabalho, mas também das chances que despontavam. Chegou a desenterrar os velhos planos. Quem sabe, no próximo ano, fariam, juntos, aquela viagem ao Oriente? – aquela que ele sempre dissera que faria, um dia, antes de morrer?
Roberto falou, contou casos, riu e fez-lhe seguidas declarações de amor, até perceber que havia algo estranho em Marli – na forma como ela sorria, no jeito fixo de olhar para ele, na maneira distante como reagiu, quando ele falou sobre a sensação desagradável que, subitamente, lhe acometia; a dor no estômago, as palpitações, o suor frio, os pedidos para que chamasse a empregada (mas ela estava de folga, naquela noite), o médico...
Mas, já não havia tempo. Ao compreender, finalmente, o que se passava, Roberto pensou, pela primeira vez, em dizer uma palavra ríspida à sua linda e querida mulher. Chegou a sentir o impulso, tantos anos reprimido, de agredi-la, de fazê-la ver o seu desespero. Mas conteve-se a tempo. Sentiu apenas uma dor aguda, no coração, ao perceber que não poderia mais protegê-la de si mesma.
Marli permaneceu, silenciosa, diante dele, testemunhando a agonia lenta do homem que um dia amou – esperando, inutilmente, a prova final de que ele ainda a amava, a palavra dura, o gesto violento que enfim o redimisse.


Carlos Ribeiro (Salvador – 1958). Jornalista, ficcionista e doutorando em literatura pela Universidade Federal da Bahia, é autor de sete livros, dentre os quais O Chamado da Noite, O Visitante Noturno, Abismo e Lunaris. Participa das antologias e coletâneas Geração 90: Manuscritos de computador, Contos cruéis, Antologia panorâmica do conto baiano - século XX, Quartas histórias, Capitu mandou flores: Contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte e Travessias singulares: pais e filhos. Co-edita a revista de arte, crítica e literatura Iararana. É membro da Academia de Letras da Bahia e professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB/Cachoeira. O conto "A prova final" faz parte do livro inédito Contos de sexta-feira, que tem publicação prevista para este ano.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

JIVM - DISRITMIA


DISRITMIA
Para Linda Soglia


Pandeiro, triângulo, zabumba
e a sanfona de Gonzaga;

o fungado do vento
nas asas das palmeiras;

a premonição, a fidalguia,
a singularidade do uirapuru;

(e porque não a mudez
do urubu e o gralhar da arara?).

Tudo é (alguma
forma de) canto.

Mas a disritmia,
o estrondar dos meus tambores

só quando vislumbro o silêncio
na menina dos teus olhos.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

domingo, 11 de janeiro de 2009

VERÔNICA DE VATE - GERARDO MELLO MOURÃO

SINGULARIDADE DE UM POETA MARCADO PELO HUMANISMO
Por José Inácio Vieira de Melo

Escrevi este texto quando o poeta Gerardo Mello Mourão completou 90 anos, mais especificamente, em 8 de janeiro de 2007, atendendo a um pedido do poeta Florisvaldo Mattos, editor-chefe do jornal A Tarde, de Salvador. A essa altura, Gerardo já estava em coma. O texto só foi publicado no dia 10 de fevereiro e teve uma grande repercussão, sendo reproduzido em vários outros jornais, sites e blogs, do Brasil e de outros países. No dia 9 de março de 2007, praticamente um mês depois, o Vate de Ipueiras viria a falecer, vítima de falência múltipla de órgãos.


AS PERIPÉCIAS


Gerardo Mello Mourão chega aos 90 anos – completados no dia 8 de janeiro – como uma das vozes mais representativas da Literatura Brasileira contemporânea. Um poeta de expressão singular, considerado por vários críticos e muitos escritores – entre eles Carlos Drummond de Andrade, Wilson Martins, José Cândido de Carvalho e Octavio de Faria – como o poeta maior do Brasil.
Nascido em 1917, no pé da serra do Ibiapaba, em Ipueiras, sertão do Ceará, Gerardo teve uma vida bastante acidentada e cheia de aventuras. Sua obra tem merecido, ao longo de mais de meio século, a atenção de grandes nomes da Literatura Ocidental, como Ezra Pound, Octavio Paz, Jorge Luis Borges e Robert Graves.
Aos 11 anos foi para o Seminário São Clemente, em Congonhas do Campo, Minas Gerais, onde permaneceu até os dezoito, período em que aprendeu nove idiomas e traduziu, num exercício diário, textos do grego e do latim, de Homero e Píndaro, Virgílio e Horácio, Ovídio e Propércio.
Abandonou o convento em 1935, poucos meses antes de proferir os votos de pobreza, castidade e obediência. Começou a estudar direito, mas abandonou. Logo em seguida, aderiu ao Integralismo, assim como Câmara Cascudo e Adonias Filho, conduzido para o movimento pelo crítico Tristão de Athayde.

Foi preso 18 vezes durante as ditaduras do Estado Novo e Militar. Numa delas, ficou no cárcere cinco anos e dez meses (1942 – 1948), quando escreveu o célebre romance O Valete de Espadas e dez elegias de perdição reunidas no livro Cabo das Tormentas. Viajou por toda a Europa, América e Brasil.
O país em que viveu mais tempo, no exterior, foi o Chile, onde deu aulas na Universidade Católica de Valparaíso. Na década de 1980 morou em Pequim, na China, onde foi correspondente do jornal Folha de São Paulo. Mais precisamente, foi o primeiro correspondente brasileiro e sul-americano na China. Escreveu, até pouco tempo, crônicas diárias para os principais jornais do Brasil.


SIBILA
(Último oráculo)


Perdido nas veredas das palavras
tapa os ouvidos - canto sibilino
não se escuta: olha apenas estes olhos
apaga teus sentidos - só nos olhos
acharás o caminho; sem meus olhos,
somente os meus - redondos neste rosto -
morrerás entre os ínvios labirintos.

Sibila sou - Sibila, a Sâmia, a Délfica
poetas e pontífices me seguem
olha meus olhos - não te perderás
olha meus olhos e estarás perdido
perdido neles morrerás de amor
e os que morrem de amor não morrem nunca
olha meus olhos - me verás inteira
em teus olhos de morto estarei viva
e minha vida espantará da tua
a morte para sempre - e para sempre
em tua vida há de viver a minha.


GERARDO MELLO MOURÃO

sábado, 10 de janeiro de 2009

SINGULARIDADE DE UM POETA MARCADO PELO HUMANISMO

AS INVENÇÕES

A vasta e variada obra de Gerardo Mello Mourão compõe uma das mais elevadas contribuições para a literatura contemporânea e consegue alcançar dimensões universais, como é de se esperar de toda alta escritura. Escreveu, com brilhantismo e erudição, em verso e em prosa (romances, contos, ensaios e biografias). Entre seus livros, destacam-se o romance O Valete de Espadas (1960), o livro de ensaios A Invenção do Saber (1983), a epopéia Invenção do Mar (1997) e a trilogia poética Os Peãs, composta pelos livros O País dos Mourões (1964), Peripécias de Gerardo (1972) e Rastro de Apolo (1977).

O Valete de Espadas, traduzido para vários idiomas, é um romance que está na pauta do surrealismo, mas em quase nada se assemelha ao realismo mágico latino. Sua profundidade, seus abismos indecifráveis, aproximam Gerardo de autores centro-europeus, como o Herman Hesse de O lobo da Estepe. O personagem principal, Gonçalo Falcão de Val-de-Cães, é um ser perplexo diante da irresidência do ser no mundo. Um dia, ao sair do hotel em que estava hospedado, percebe que está em uma cidade completamente desconhecida; no dia seguinte, acorda em um navio cujo rumo também desconhece. A epígrafe bíblica, logo no início do livro, adequa-se perfeitamente ao estado de coisas e às tensões da personagem: “Não conheço sequer o caminho”.

A Invenção do Saber, reunião de ensaios, é um convite ao pensamento. É também um libelo contra a idolatria tecnológica da atualidade e o seu culto da especialização – “o especialista é o individuo que sabe cada vez mais sobre cada vez menos”. E apresenta como contraposição uma cultura humanística, que, no momento, encontra-se desprestigiada, mesmo por aqueles a quem caberia defendê-la. Inclui, além de 30 artigos originariamente publicados na imprensa, palestras apresentadas em universidades brasileiras e estrangeiras, que abordam temas como a palavra, o poder e o saber.


A epopéia Invenção do Mar, Prêmio Jabuti de 1998, é considerada pelo crítico Wilson Martins como Os Lusíadas brasileiro, que o chama mesmo de Os Brasíliadas, em artigo publicado no jornal Gazeta de Curitiba.

De fato, Mello Mourão, por outros caminhos e de outras formas, alcança o sopro criador de um Camões, aliás, faceta essa que já havia logrado com Os Peãs. Ezra Pound percebeu na trilogia Os Peãs, iniciada com O País dos Mourões, que Gerardo tinha inaugurado o canto da genealogia da América. E esta é uma velha ambição cosmogônica: fazer, não a genealogia pessoal, mas a genealogia do seu povo, do seu mundo.
Passear pela seara da obra de Gerardo Mello Mourão é sentir o “aroma, maciez e música” de uma poesia maior. Nenhum outro poeta brasileiro recebeu, em quantidade e qualidade, número tão grande e tão respeitável de artigos sobre sua obra. Somente os literatos de ouvidos cegos, que não conseguem alcançar o ritmo da sua poética poliédrica, é que não percebem a sua grandiosidade.
O próprio Drummond declarou-se “possuído de violenta admiração pelo imenso, dramático e vigoroso painel” da poesia de Gerardo, pois sabia do opus magnífico do bardo de Ipueiras que, “atestará para sempre a grandeza singular e a intensidade universal da poesia”. Mello Mourão não cabe em moldes nem em escolas literárias. É singular. E vem construindo, solitário, a saga do povo brasileiro.

José Inácio Vieira de Melo


IAM CAINDO


Iam caindo: à esquerda e à direita iam caindo;
Alexandre e Francisco, meus bisavós tombaram,
o primeiro com sua farda de gala, seus botões de ouro e sua patente de coronel
e o outro com sua barba nunca mais alisada e sua bengala de castão de ouro.

Antes, caíam hierárquicos e cronológicos:
Manuel Martins Chaves na prisão do Limoeiro,
Ana, Eufrosina e Úrsula Mourão, da Canabrava dos Mourões, em suas camarinhas cheias de santos,
Antônio, com seus bordados de general nos campos do Paraguai,
um picado de cobra, outro sangrado a punhal, outro varado à bala, outro de maleita,
à esquerda e à direita foram todos caindo,
primeiro os que já eram lenda na memória dos velhos
depois os avós de meus avós,
porque antes tombavam hierárquicos e cronológicos.

Foi assim que tombou, ao lado de seu rifle, o Coronel José de Barros Mello, chamado "O Cascavel", meu tetravô,
e depois o Major Galdino, entre seu bacamarte e suas gaiolas de pássaros, depois,
meu outro avô, o capitão de cenho espesso sobre a tribo
ao talhe de seu tronco frondejando
a cabeça de Mellos e Mourões.

A esquerda e à direita iam tombando,
Úrsula, Francisca e tantas outras,
até cair meu pai.

Depois, começou a romper-se a ordenação da morte
e tombavam os tios e as crianças:
Etelberto, com seus negros cabelos lisos,
Raimundo prometera devolver à terra o que da terra houvera e tombou nela;
Elisa, Elvina e tu,
com teus oito anos e tua cabeça castanha;
tombaram um por um: Ignácia e Ladislau viveram cem anos e também morreram;
tombou Quintino e nunca mais
pela estrada de Águas Belas alazão levará
coronel tão galante e nunca mais na lua
da sela clavinote
tão certeiro;
tombou Quintino e antes dele porque
a morte ia deixando de ser hierárquica e cronológica
tombou no Maranhão Francisco apunhalado.

À direita e à esquerda iam caindo:
Hermenegildo, chefe político e farmacêutico no distrito do Livramento, ainda teve forças para se erguer, beber uma garrafa de aguardente, destruir a farmácia e escrever ao meu avô: "Compadre, vou morrer, os remédios não valem nada quando chega a hora; mando-lhe aquele relógio Patek que você aprecia e a corrente do mesmo, com dois patacões de ouro. Adeus, compadre, Deus o guarde com os seus,
do primo
ass, Hermenegildo".

Outros tombaram sem carta e sem notícia: meu tio e padrinho Antônio Ribeiro deu uma surra no capitão delegado de Polícia e desde a queda do Acioly
desapareceu para sempre,
como Raimundo Mourão, tombado a tiros num seringal do Amazonas: tinha sessenta contos no bolso, surrara todos os barraqueiros e ganhara
num sete de ouros
o dinheiro e as mulheres do cabaret:
pois morreu, com sua chibata na mão, com seus sessenta contos e com suas mulheres,
macho e inquebrável tombou.

À esquerda e à direita iam caindo:
Manuel
Mourão que registrara em seu nome todas as terras do cartório de Ipueiras,
dorme nelas:
Tobias
não tinha terra nenhuma
e matava bois no açougue e vivia disso,
tombou como um de seus bois;
à esquerda e à direita iam caindo
homens e mulheres: Tabajara, pai de Araci, Potiguara e Tupinambá,
fabricava aguardente e não bebia - morreu abstêmio, mas morreu;
o Major Borete Mourão, da Canabrava dos Mourões, destilava a sua no próprio fígado - morreu bêbado, mas morreu;
e Dondon e Cotinha e Missanta Mourão, senhora do Engenho Baixa Verde
e Gilberto e Toínho Mourão e as primas que morriam de parto e pariam filhos também destinados a cair um dia,
foram caindo todos, à esquerda e à direita.
E agora sei: não apenas os de meu sangue iam caindo, pois onde estão José Bento e Sinhá e o Coronel Dédo Catunda?
Onde está o caboclo Antônio Pixuna, com suas mandíbulas que varavam no dente uma cana caiana?
Foram caindo todos: à direita e à esquerda e em todas as cidades
Deolindo assassinado por Chico Monte em Sobral,
o velho Duíno em Minas Gerais, onde
também tombaram outros, Vicente
e sua mulher e Fernando no Espírito Santo e em Porto Alegre,
com a pensão que lhe dera o Governo, a filha de Antônio, general e herói da guerra do Paraguai,
comprava a sepultura, pois
sabia que ia tombar, como tombou:
e em toda parte e em todo tempo, todos,
Bela, Manrica, Sinsa, Torquato, Zezé, Nazária, Aprígio e Waldomiro,
Ignácio e Mariana e Atanagildo,
à esquerda e à direita iam caindo.

E ainda os que encontrei noutros caminhos também foram tombando:
esta é a bengala do Coronel Carvalhinho, pai do Senador e avô de Léa: tombou sem ela e Geraldino
apagou seus grandes olhos e o jovem
sacerdote barroco
Caetano
partiu-se
o grande Cristo de bronze se abatendo sobre
a jarra de porcelana azul
outrora azul do altar.

E tu mesma caíste, eu que te havia por
endereço do coração (e ainda
cantarei de ti, que agora tenho apenas o espanto da implacável derrubada
em que todos vão tombando em toda parte).

Em minha casa, em minha rua e na cidade e no país dos Mourões onde eram clavinotes
e nos outros países além dos mares,
o velho Nicolau, pai de Gofredo,
quem sabe Cuca, a tia de Raul,
e em Milão e em Berlim e na Provença
foram caindo.

Apalpa, meu amor, meu rosto apalpa,
não tombei:
sou eu.
Como venho dos mortos nem eu sei,
mas sei que na partilha me tocou
a herança de sobreviver;
vou devorando a terra com meus olhos
que a terra não comeu, a terra
que comeu tantos olhos e da qual
os meus hoje se nutrem.

Apalpa, meu amor, meu corpo inteiro,
sou macho e forte e em meus ombros de touro
porque não te levar na madrugada
e atravessar contigo as ruas desertas e as ruínas e as cidades
cobertas de hera onde
à esquerda e à direita eles tombaram e à beira
de um riacho ver teu ventre
crescer e irem surgindo
já de mãos dadas, já de pés em dança
rapazes e raparigas e a cantiga
de roda e a flauta de Mársyas e o ritmo
de tornozelos e ancas que Sextus Propertius foi o primeiro a introduzir na Itália e trouxe da Grécia para a Itália e Ezra para Idaho e das ruínas das cidades ver surgirem os pastos e os pastores da pedra das palavras?

Teu poeta e teu macho te carrega nos ombros
e à esquerda e à direita onde tombavam antes,
como um mágico de uma cartola irei tirando
de teu ventre inesgotável
os que não mais cairão, os que se irão
à esquerda e à direita incorporando. Pois
apenas esperavas a chegada de teu macho;
diz agora: era assim que o querias,
o vencedor da morte, o que enrijou os músculos
almoçando e jantando
a medula dos homens e das fêmeas
que à sua esquerda e à sua direita iam caindo,
era assim que o querias o que venceu a Dor?

Sou eu, amor, apalpa agora
minha boca pronta ao riso alegre,
minhas bochechas, apalpa-me
o sexo frondoso e fértil
e escancha as tuas pernas sobre o meu pescoço:
é tempo.

"Aos oito dias do mês de Janeiro do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil e novecentos e dezessete, eu, Manuel Guilhermino Moreira, recebi em meu cartório o Senhor Capitão José Ribeiro Mello que, acompanhado das testemunhas abaixo, declarou o nascimento hoje, a uma hora da madrugada, em sua casa, à Rua Padre Feitosa, nesta Vila de Ipueiras, de seu neto, o Inocente Gerardo Majella, do sexo masculino", etc.

E aqui restei: não venho
introduzir a dança na Itália,
trazer a dança da Grécia para a Itália
ou para qualquer outra terra de Europa:
sou o inocente do sexo masculino e venho
do país dos Mourões
comunicar-te a inocência e o pênis
erguido em lírio
vertical e puro sob os céus da Etrúria,
sob os céus da Toscana, às margens do Arno e junto
de Fiesole e San Minniato, sobre
os campos de Florença como o lírio
que deu nome à cidade e com que o rei de França agraciou
as armas da cidade.

Ao pênis de ouro que se erguer do lírio,
a rosa de teu ventre se abrirá,
e onde o touro pisar no chão dorido,
a rosa de teu ventre se abrirá,
e onde o lombo do touro se reclinar contigo,
a rosa de teu ventre se abrirá
ao pênis de ouro que se erguer do lírio
e der nome às cidades e agraciar
as armas das cidades.

Wovon kommen Sie?
Jawohl, Fräulein,
na noite em que eu chegar
hás de ver tua aldeia renana
acender nas alcovas a alfazema antiga.
Wovon kommen Sie?
Mas da alfazema e tua aldeia
me suspeita há séculos:
esperava por mim a rapariga
que acendia os olhos e a lanterna de ferro
sobre o portal da Hospedaria
"Ao Cavaleiro de Koenigswinter":
eu era sugerido às raparigas
esperando a noite e quanta vez
sonharam distinguir-me na lonjura
entre as tulipas e o trigo e as espumas do Reno e luar dele
sugerido
o süddeutsche Nacht!
o Heidelberge Nacht!
quem sabe eu chegaria a bordo de urna brisa,
de uma folha de outono, moreno
e torneado ao sopro
daquele tocador de flauta de louça
à porta do castelo de Brühl.

É certo que outros tentaram chegar antes de mim,
mas não me confundiste com eles;
de outros — nem os conheceste nem te conheceram,
o velho gangster não montava um cavalo do Texas:
na garupa da cadeira de rodas grunhiu:
"nossa fronteira está no Reno";
Beethoven surdo em sua casa de Bonngasse
ergueu-se e ergueu
ao ouvido sagrado o corno acústico
e o uivo do bárbaro não era
nem seu nome será em nosso idílio.
O nome dele, sim;
veio de Hailey, Idaho, U.S.A.,
a 30 de outubro de 1885
e em seus ombros, amada, partirias:
era belo demais e foste tu
que rendida a seus pés deste a garupa
e o raptado raptor — ó delícias de Cápua —
divino gigolô lambendo os seios
da deusa ao fim do outono,
nas mãos do Pan de Idaho
reencontra o verão ao céu toscano,
Rapallo azul e a primavera à voz
do Pan de Idaho:
e o que te pudera arrastar às ilhas puras
embala-se contigo en los Cantares
dolci canti pisani in blood and blue
e a minha rede, a rede
do filho dos Mourões
entre a torre de Pisa e a de Giotto
sopro de campanile se balança
il nostro Cavazere fú:
e ali virás para a última sesta latina e onde
o lombo do touro galopar contigo
a rosa de teu ventre se abrirá
ao pênis de ouro que se erguer do lírio
e der nome às cidades e agraciar
as armas das cidades.

O Abendland, Abendländische
Elegie!
Velho profeta alemão, vidente de olhos cinzentas,
teus olhos cinza em cinza desmanchados,
toldam de cinza a paisagem:
olha a nua banhista, esverdeadas peras,
olho a dança, olha
o elegíaco nada, o nada
de elegias e à madrugada
entre as virilhas olha
amanhecer o macho:
sou eu e em meu louvor
maduram-se laranjas e ananazes,
em meu louvor
as ondas bailam no oceano e sob
a verde umbrela dos coqueiros
Passo de Carnaragibe,
os cocos se arredondam
em meu louvor
e os cantadores na feira de São Gonçalo dos Mourões,
da Canabrava dos Mourões
e os cegos e os videntes e o gitano andaluz
entre o Atlântico e a montanha
empreendem na viola
a minha louvação:
e Hans Carossa, na aldeia hamburguesa,
o último hálito sopra dos olhos a última cinza,
compõe no próprio rosto a própria morte
em meu louvor.

E meus olhos
assíduos a defuntos como a vivos
começam a apalpar-vos:
quem será testemunha senão vós
de partida e chegada?
E que sou eu senão
a celebração de meu rosto
e que é meu rosto senão
a beleza que o amor talhara nalguns olhos?

Sempre os deuses precisam de um lugar e de uma companhia:
assim eu sou:
é sobre a terra de meu pai que me levanto agora
e a tantos
que à esquerda e à direita lhe caíram,
eu os chamo e suplico:
e altar e coro se incorporem
e assim
eu sou:
celebrado celebro dia e noite
a terra e as águas e as pessoas
e assim
E U S O U.


GERARDO MELLO MOURÃO