
AO SOL
KÁTIA BORGES


"Gabriel traz os segredos da poeira em suas mãos"
" A mim ensinou-me tudo/ Ensinou-me a olhar para as coisas"
"A Criança Eterna acompanha-me sempre."


"Meu cavalo e eu - Centauro do Sertão" - JIVM
O lirismo de José Inácio Vieira de Melo atinge-nos em nosso âmago, justamente por ser uma lírica atenta ao que o homem tem de mais fundo, mais intenso. Pungente, sem deixar de ser leve; existencial, sem abandonar a alegria viva, a poesia de José Inácio é bíblica, sacra, pois revela em nosso cotidiano um pergaminho de epifanias. Com efeito, há nesse lirismo, preciso e cortante, feito apenas de palavras necessárias, aquele vislumbrar em perpétuo encanto, tão característico das crianças e dos loucos. E é por comungar com esse olhar “auroral” da infância, dos delirantes, que a sua palavra desvela o mágico, o mítico, no chão batido do cotidiano. Há versos do poeta que são verdadeiro choque elétrico e nos cativa, emociona, com a precisão dos prestidigitadores; versos lapidares, nascidos já perfeitos, pois irrompem daquele “coração selvagem” joyciano, do inconsciente coletivo a nos desvelar no eterno mesmo, no velho a se renovar infinitamente, para sempre: “Para quem está no breu/ qualquer lampejo é alumbramento”, “Somente os olhos dizem/ o que as palavras sonham”, “a despedida é a véspera do encontro”, “os mitos vestem o meu nome”. Versos que já nascem como epígrafes da própria vida.
O encantamento da linguagem, a flamejante “alquimia do verbo” de Rimbaud, seduz-nos já no título do livro (e que título belo!) e em poemas dignos de serem antologiados entre os melhores feitos em nosso atual cenário literário. Esse é o caso do poema que recebe o mesmo título do livro:
Eu venho do caos primordial.
Percorri as searas da escuridão
(caminhos que não sei).
Desse tempo sem memória
nasce a consciência dos dias
(como não sei, invento).
Fantasma de barro,
preciso de um amálgama
e que teus olhos me afirmem.
Sou um centauro escarlate
e galopar na infância
é a minha metafísica.


RUY Alberto d'Assis ESPINHEIRA FILHO nasceu em Salvador, Bahia, no dia 12 de dezembro de 1942, filho de Ruy Alberto de Assis Espinheira, advogado, e Iracema D’Andréa Espinheira, de ascendência italiana. Passou a infância em Poções e a adolescência em Jequié, cidades do Sudoeste baiano. De volta a Salvador, em 1961, estudou no Colégio Central da Bahia e, levado pelo poeta Affonso Manta, que conhecia desde Poções, ingressou no grupo boêmio capitaneado por Carlos Anísio Melhor. Ainda nos anos 60, começou a publicar na revista Serial, criada por Antonio Brasileiro, e se iniciou no jornalismo — como cronista da Tribuna da Bahia (1969-1981), onde também trabalhou como copidesque e editor (1974-1980). Colaborou ainda com o Pasquim, como correspondente na Bahia (1976-1981), e foi contratado como cronista diário do Jornal da Bahia (1983-1993). Atualmente assina artigos quinzenas em A Tarde. Graduado em Jornalismo (1973), mestre em Ciências Sociais (1978) e doutor em Letras (1999) pela Universidade Federal da Bahia, UFBA, e doutor honoris causa pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, UESB (1999), é professor associado do Departamento de Letras Vernáculas do Instituto de Letras da UFBA, membro da Academia de Letras de Jequié e da Academia de Letras da Bahia. Publicou 11 livros de poemas: Heléboro (1974), Julgado do Vento (1979), As Sombras Luminosas (1981 — Prêmio Nacional de Poesia Cruz e Sousa), Morte Secreta e Poesia Anterior (1984), A Guerra do Gato (infantil — 1987), A Canção de Beatriz e outros poemas (1990), Antologia Breve (1995), Antologia Poética (1996), Memória da Chuva (1996 — Prêmio Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores), Livro de Sonetos (1998; 2. ed. revista, ampl. e il., 2000), Poesia Reunida e Inéditos (1998), A Cidade e os Sonhos (2003), Elegia de agosto e outros poemas (2005; em 2006 – Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, Prêmio Jabuti – 2º lugar –, da Câmara Brasileira do Livro; Menção Especial do Prêmio Cassiano Ricardo, da UBE-RJ). Tem ainda publicados vários livros em prosa: Sob o Último Sol de Fevereiro (crônicas, 1975), O Vento no Tamarindeiro (contos, 1981); as novelas O Rei Artur Vai à Guerra (1987, finalista do Prêmio Nestlé), O Fantasma da Delegacia (1988), Os Quatro Mosqueteiros Eram Três (1989); os romances Ângelo Sobral Desce aos Infernos (1986 — Prêmio Rio de Literatura [2º lugar], 1985), Últimos Tempos Heróicos em Manacá da Serra (1991); Um Rio Corre na Lua (2007) e os ensaios O Nordeste e o Negro na Poesia de Jorge de Lima, dissertação de Mestrado em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia(1990), Tumulto de Amor e Outros Tumultos – Criação e Arte em Mário de Andrade, tese de Doutorado em Letras, também pela UFBA (2001), Forma e alumbramento — poética e poesia em Manuel Bandeira (2004). Lançou ainda o CD Poemas, gravado pelo próprio autor, com 48 textos extraídos de seus livros, além de alguns inéditos (2001). Contos e poemas seus foram incluídos em diversas antologias, no Brasil e no exterior (Portugal, Itália, França, Espanha e Estados Unidos).


VERA LÚCIA DE OLIVEIRA nasceu em Cândido Mota e cresceu em Assis, no Estado de São Paulo. Desde 1983, vive na Itália, onde ensina Literatura Portuguesa e Brasileira na Università degli Studi di Lecce. Formou-se em Letras pela Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), em 1981, e em Línguas e Literaturas Estrangeiras, em 1991, pela Università degli Studi di Perugia, na Itália. Neste mesmo país, obteve o doutorado, em 1997, pela Università degili Studi di Palermo. Recebeu em 2005, o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras com o livro A Chuva nos Ruídos, publicado pela Escrituras, uma antologia que reúne poemas de cinco livros, quatro dos quais publicados em edição bilíngüe, na Itália. A autora, que escreve tanto em português como em italiano, recebeu também outros prêmios nacionais de poesia e seus poemas foram traduzidos e publicados em várias antologias no Brasil, Itália, Estados Unidos, Espanha e Portugal. Tradutora e divulgadora da literatura brasileira na Itália, organizou antologias de vários poetas, entre os quais Lêdo Ivo e Carlos Nejar.


Gerardo Mello Mourão chega aos 90 anos – completados no dia 8 de janeiro – como uma das vozes mais representativas da Literatura Brasileira contemporânea. Um poeta de expressão singular, considerado por vários críticos e muitos escritores – entre eles Carlos Drummond de Andrade, Wilson Martins, José Cândido de Carvalho e Octavio de Faria – como o poeta maior do Brasil.
Nascido em 1917, no pé da serra do Ibiapaba, em Ipueiras, sertão do Ceará, Gerardo teve uma vida bastante acidentada e cheia de aventuras. Sua obra tem merecido, ao longo de mais de meio século, a atenção de grandes nomes da Literatura Ocidental, como Ezra Pound, Octavio Paz, Jorge Luis Borges e Robert Graves.
Aos 11 anos foi para o Seminário São Clemente, em Congonhas do Campo, Minas Gerais, onde permaneceu até os dezoito, período em que aprendeu nove idiomas e traduziu, num exercício diário, textos do grego e do latim, de Homero e Píndaro, Virgílio e Horácio, Ovídio e Propércio.
Abandonou o convento em 1935, poucos meses antes de proferir os votos de pobreza, castidade e obediência. Começou a estudar direito, mas abandonou. Logo em seguida, aderiu ao Integralismo, assim como Câmara Cascudo e Adonias Filho, conduzido para o movimento pelo crítico Tristão de Athayde.
Foi preso 18 vezes durante as ditaduras do Estado Novo e Militar. Numa delas, ficou no cárcere cinco anos e dez meses (1942 – 1948), quando escreveu o célebre romance O Valete de Espadas e dez elegias de perdição reunidas no livro Cabo das Tormentas. Viajou por toda a Europa, América e Brasil.
O país em que viveu mais tempo, no exterior, foi o Chile, onde deu aulas na Universidade Católica de Valparaíso. Na década de 1980 morou em Pequim, na China, onde foi correspondente do jornal Folha de São Paulo. Mais precisamente, foi o primeiro correspondente brasileiro e sul-americano na China. Escreveu, até pouco tempo, crônicas diárias para os principais jornais do Brasil.
SIBILA
(Último oráculo)
Perdido nas veredas das palavras
tapa os ouvidos - canto sibilino
não se escuta: olha apenas estes olhos
apaga teus sentidos - só nos olhos
acharás o caminho; sem meus olhos,
somente os meus - redondos neste rosto -
morrerás entre os ínvios labirintos.
Sibila sou - Sibila, a Sâmia, a Délfica
poetas e pontífices me seguem
olha meus olhos - não te perderás
olha meus olhos e estarás perdido
perdido neles morrerás de amor
e os que morrem de amor não morrem nunca
olha meus olhos - me verás inteira
em teus olhos de morto estarei viva
e minha vida espantará da tua
a morte para sempre - e para sempre
em tua vida há de viver a minha.
GERARDO MELLO MOURÃO
O Valete de Espadas, traduzido para vários idiomas, é um romance que está na pauta do surrealismo, mas em quase nada se assemelha ao realismo mágico latino. Sua profundidade, seus abismos indecifráveis, aproximam Gerardo de autores centro-europeus, como o Herman Hesse de O lobo da Estepe. O personagem principal, Gonçalo Falcão de Val-de-Cães, é um ser perplexo diante da irresidência do ser no mundo. Um dia, ao sair do hotel em que estava hospedado, percebe que está em uma cidade completamente desconhecida; no dia seguinte, acorda em um navio cujo rumo também desconhece. A epígrafe bíblica, logo no início do livro, adequa-se perfeitamente ao estado de coisas e às tensões da personagem: “Não conheço sequer o caminho”.
A Invenção do Saber, reunião de ensaios, é um convite ao pensamento. É também um libelo contra a idolatria tecnológica da atualidade e o seu culto da especialização – “o especialista é o individuo que sabe cada vez mais sobre cada vez menos”. E apresenta como contraposição uma cultura humanística, que, no momento, encontra-se desprestigiada, mesmo por aqueles a quem caberia defendê-la. Inclui, além de 30 artigos originariamente publicados na imprensa, palestras apresentadas em universidades brasileiras e estrangeiras, que abordam temas como a palavra, o poder e o saber.
A epopéia Invenção do Mar, Prêmio Jabuti de 1998, é considerada pelo crítico Wilson Martins como Os Lusíadas brasileiro, que o chama mesmo de Os Brasíliadas, em artigo publicado no jornal Gazeta de Curitiba.
De fato, Mello Mourão, por outros caminhos e de outras formas, alcança o sopro criador de um Camões, aliás, faceta essa que já havia logrado com Os Peãs. Ezra Pound percebeu na trilogia Os Peãs, iniciada com O País dos Mourões, que Gerardo tinha inaugurado o canto da genealogia da América. E esta é uma velha ambição cosmogônica: fazer, não a genealogia pessoal, mas a genealogia do seu povo, do seu mundo.
Passear pela seara da obra de Gerardo Mello Mourão é sentir o “aroma, maciez e música” de uma poesia maior. Nenhum outro poeta brasileiro recebeu, em quantidade e qualidade, número tão grande e tão respeitável de artigos sobre sua obra. Somente os literatos de ouvidos cegos, que não conseguem alcançar o ritmo da sua poética poliédrica, é que não percebem a sua grandiosidade.
O próprio Drummond declarou-se “possuído de violenta admiração pelo imenso, dramático e vigoroso painel” da poesia de Gerardo, pois sabia do opus magnífico do bardo de Ipueiras que, “atestará para sempre a grandeza singular e a intensidade universal da poesia”. Mello Mourão não cabe em moldes nem em escolas literárias. É singular. E vem construindo, solitário, a saga do povo brasileiro.
José Inácio Vieira de Melo