
domingo, 7 de setembro de 2008
MONTANDO NO BICHO MÍTICO PELAS TRILHAS DA IMAGINAÇÃO: UMA BREVE CAVALGADA EM A INFÂNCIA DO CENTAURO, DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
PROÊMIOEra uma tarde-noite quente. Eu e Lúcia perambulávamos pelas ruas cansadas e sofridas de Cachoeira, quando alguém me chama. Viro-me e vejo: Café Literário! Penso: duas boas coisas juntas. Muito mais. Entro e encontro pessoas recitando poesias na boquinha da noite. O poeta José Inácio Vieira de Melo, o fotógrafo e poeta Damário Dacruz e diversos jovens poetas lançando sementes no ar. Quando saímos de lá, meio inebriados, as ruas tortuosas de Cachoeira, antes apenas um cenário indecifrável, passaram a fazer sentido para nós.
POESIA PARA MONTAR E VIAJAR
Montar no centauro e sair por aí, ou ser o próprio centauro? Se o bicho mítico já é estranho e misterioso, imagine quando pequenininho, quem não gostaria de ver ou imaginar um? Tudo isso é possível dentro desse título, que, de si, já é um poema inteiro, pois poemas são gatilhos da imaginação; “A infância do centauro”, é um verso, é rítmico. Vamos montar no bicho e sair por aí.
José Inácio pratica poesia de diversos tipos - em primeira pessoa (“A sagração do mito”), falando de si mesmo e do próprio poeta que o habita, a partir de um mirante bem alto dentro dele mesmo, em segunda pessoa (“Epitáfio para um vaqueiro”, “Adorno”), quando o tu parece um faca cortando, aparando retilínea as palavras, em terceira pessoa (“Nascimento do poema”), como quem fala de fora de si mesmo, no infinitivo (“Metamorfose”), convidando o leitor à ação.
A poesia de José Inácio Vieira de Melo, a cada instante, perde a inocência das palavras e a recupera adiante. Explico. Um poeta pode tentar falar do mundo diretamente. Olhar ou sentir o mundo em torno e devolvê-lo em palavras diretas. Seria um diálogo poeta-mundo, sem mediação. Às vezes, porém, isto não é mais possível, devido à “floresta de símbolos” sobre a qual nos adverte Charles Baudelaire, no seu poema “Correspondences”.
Exemplifico. Em “Adeus”, José Inácio (o poeta dentro dele, é claro) parece falar diretamente com o seu passarim, lidando com a inocência das palavras, sem acordar as feras dentro delas, como se pudesse esquecer da carga semântica histórica que cada simples palavrinha traz. Ele reinaugura as palavras. Mas em “Quintanar” e “Epitáfio para um vaqueiro” e “Pedras amoladas, facas atiradas”, José Inácio é o poeta metalingüístico, algo modernista, praticando um intertexto com Mário Quintana, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto.
O LIVRO
Ao crítico não cabe elogiar ou detratar. Cabe-lhe apenas imiscuir-se no espaço entre a obra e o leitor, mediando-os tão pedagogicamente quanto possível. Descrevo, então, a obra. O livro se compõe de partes, com nomes sugestivos: Centauro, Testamento, Chave, Herança, Harém, Jardim, Romaria, mas não há restrição temática em cada uma das partes. Então, as páginas com os nomes podem soar como poemas de uma só palavra, ou palavras-poemas. A edição, pela Escrituras Editora, ilustrada pelo artista Juraci Dórea, é muito bem cuidada, possui prefácio de Ronaldo Correia de Brito, o qual demonstra conhecer segredos de poesia, e contra-capa de Gerardo Mello Mourão.
Ao ler o livro inteiro, tive sensações diversas: senti cheiro do mato do sertão (do sertão com gado, que é um tipo específico de sertão), pressenti o tom cavalheiresco medieval ainda presente na nossa cultura, reportei-me aos mitos bíblicos (“Jardim das algarobeiras”) e senti a atmosfera do cristianismo rústico em meio às pedras e espinhos do sertão nordestino, lembrando mesmo a própria Palestina (os sertanejos não são exilados em sua própria terra, como os palestinos?), entrevi o amor com o erotismo mitigado simbolicamente nas “touceiras de capim e éguas luzidias”, em “Gênese”, ou “no ritmo de vossas ancas”, em “Harém”, vi um poeta citadino intoxicado de palavras em “Zoada”. Encontrei o regional e o universal, o pessoal e o coletivo, imanência e transcendência, a linguagem e a metalinguagem, e diversos ritmos e métricas, ou melhor, formatações, termo mais apropriado para a poesia escrita em computador. O poeta contemporâneo é como o cantor que canta reggae, samba, bossa, baião e até rock. Mas não aconselho ninguém a ler A infância do centauro de uma só sentada. Penso que é melhor aproveitar um ou alguns poemas de cada vez, ou ler separadamente cada uma das partes a que me referi.
A infância do centauro é, na sua inteireza, uma busca: pelo “quem sou eu”, por “onde estou”, por “o que são as coisas” e pelo “o que significam as palavras”, enfim, pela impossível resposta para “o que é a poesia?”. È um passo em uma caminhada, um meio de caminho, um entre-lugar. Não chega ao destino, mas não volta atrás. Mas, nesse percurso, o leitor pode pegar carona no centauro, ou mesmo ser o próprio centauro, metáfora da poesia em movimento.
“CERCA DE PEDRA”: UM POEMA DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
Quando leio criticamente um livro de poesia, gosto de comentar um poema, isoladamente. Acho que, lembrando mais detidamente de um poema, passo a incorporar melhor a poética daquele autor, e, assim, poder melhor exemplificá-la. Como escolher um poema? Ao acaso, pois o gosto pessoal pode ser arriscado. Não existem poemas melhores ou piores, em A infância do centauro. Existem diferentes poemas. Abri o livro sem olhar e, no cara ou coroa, entre os dois poemas do livro aberto deu “Cerca de pedra”.
Reproduzo-o:
CERCA DE PEDRA
Aqui, na Cerca de Pedra,
nesta noite caatingueira,
estou em silêncio, ouvindo
o silêncio das estrelas.
Li o poema auditiva e visualmente. Aos ouvidos soa como um hai-kai duplo. Visualmente é uma cena de noite escura (ou não) no sertão. No sertão, não! Na caatinga. Esta sim, embora menos pomposa, é bem nordestina. Aliás, vejo um vulto solitário sentado em uma cerca de pedra e a noite é de luar. Agora já não vejo mais a cena. Sou eu que estou lá, encostado na cerca de pedra, pois essas cerquinhas de pedra da caatinga não são lá tão boas para sentar. Pode doer nos fundilhos e prejudicar a meditação. Olho para cima e penso em Bilac, inevitavelmente, pois minha mente está povoada de outros poemas. Por instantes a noite silenciosa me envolve. A sensação é muito intensa e fugaz. Não se deve prolongar muito a estesia de um poema, para não desgastá-la. Às vezes a emoção é muito forte e é até perigoso mantê-la por muito tempo.
“Cerca de Pedra” é coisa de minutos, ou segundos. Você vai lá naquela noite silenciosa e volta logo. Senão, você pode se perder na caatinga, para sempre. Ou, mais provável, na caatinga escura e perigosa que já existe dentro de você.
REFERÊNCIAS
Melo, José Inácio Vieira de. A infância do centauro. São Paulo: Escrituras, 2007. 135 p.
Luciano Rodrigues Lima é natural de Salvador, Bahia. É doutor em Letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), professor (UNEB e UNIFACS) e ensaísta. Ilustração: Gilvan Samico
domingo, 31 de agosto de 2008
PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS - A CASA DOS MEUS QUARENTA ANOS EM MARACÁS
Quinta-feira, 4 de setembro, participarei do projeto Uma Prosa Sobre Versos, em Maracás, a cidade das flores, lugar maravilhoso onde vivi por 10 anos. Na ocasião, encerramento da temporada de 2008, lançarei meu cd de poemas A casa dos meus quarenta anos. Dentro da programação do evento, o Grupo Concriz, composto por 12 jovens, dirigido pelo poeta Vitor Nascimento Sá, vai apresentar um recital com 35 poemas meus inéditos. Além do Grupo Concriz, Antonio Carlos de Oliveira Barreto, Carlos Barbosa, Edmar Vieira e Elizeu Moreira Paranaguá, poetas amigos meus, recitarão poemas do cd. O projeto Uma Prosa Sobre Versos conta com a coordenação do poeta e professor Edmar Vieira, diretor de cultura do município de Maracás. Após os recitais, falarei sobre meu percurso literário e responderei as perguntas da platéia.domingo, 24 de agosto de 2008
UM ATIVISTA DA POESIA
Foto/Divulgação/Ricardo Prado
LANÇAMENTO - José Inácio Vieira de Melo lança poemas em CD para festejar seus 40 anos de idade.
O poeta nasceu no povoado alagoano Olho d'Água do Pai Mané e veio para a Bahia aos 20 anos, em 1988.
Ao completar 40 anos e festejá-los com a edição do cd "A casa dos meus quarenta anos", José Inácio Vieira de Melo pode olhar para trás (e nós também olhamos) e ver que tem uma carreira construída.
Tão jovem ainda, apenas 40 anos, muito pouco para se mensurar a carreira de um poeta. Talvez seja uma temeridade fazê-lo, uma vez que muitos estréiam, publicam poemas em uma ou outra antologia, mas, porque o público escasseia ou porque perdem o ímpeto, vão fazer outra coisa. Não é o caso de JIVM, porque ele não escolheu ser poeta. Foi escolhido pelo anjo torto, talvez num sopro de vento mais forte, talvez com a primeira flor de algorobeira, quando se viu diferente dos outros. Surpreendeu-se, talvez, quando menino, algumas vezes não entendeu, por muito jovem, até que o tempo ensinou-o a decifrar alguns enigmas e ele aceitou a missão de menestrel contemporâneo.
NA BOCA DA NOITE - Desde seu livro de estréia, Códigos do Silêncio, em 2000, José Inácio não parou mais. Seria excessivo que eu escrevesse sobre a sua poesia e os livros que vieram depois, Decifração de abismos e A terceira romaria, até A infância do Centauro, porque sobre ela (e eles) já escreveram nomes honrados e prestigiados do nosso pródigo cenário literário: Astrid Cabral, Marco Lucchesi, Francisco Carvalho, Lêdo Ivo, Izacyl Guimarães Ferreira, Igor Fagundes e seu admirado Gerardo Mello Mourão, hoje em outras paragens e sobre quem versa a tese de mestrado de José Inácio. Ao lado de tais nomes, o meu apareceria apagado, por poucos saberes acadêmicos. Mas há uma face que posso destacar, que me interessa muito, e me reporta a Lucchesi quando fala em "atitude de poeta". Falo do José Inácio ativista, coisa mais rara no ofício.
Uma outra força lhe foi legada: a capacidade de inventar oportunidades. E trabalha com isso na área mais difícil das artes. É o que se chama hoje de agitador cultural, aquele que idealiza, aglutina, organiza, sai a campo e realiza.
Durante quatro anos JIVM esteve à frente do Poesia na Boca da Noite, no restaurante Grande Sertão, em Salvador. Isso significa dizer que convidou, agendou (a agenda era feita no início do ano) fez contatos, juntou material, entrevistou e divulgou uma quantidade de poetas, fazendo com que aparecessem, conhecessem seus pares e tivessem espaço para mostrar o próprio trabalho; editou, junto com Aleiton Fonseca e Carlos Ribeiro cinco números da revista Iararana, além de organizar o concurso de poesia da revista; selecionou, organizou e editou a antologia Concerto lírico a quinze vozes, capa de Almandrade, novamente abrindo espaço para os novos poetas, um belo trabalho a que dedicamos as páginas centrais do panorama, com texto que tive o prazer de assinar.
Quando vi a revista pela primeira vez, e as outras, ou quando recebi a antologia era sempre uma alegria e eu pensava: José Inácio estava ali, organizando o movimento, segurando a bandeira dos predestinados, engolindo sapos e ouvindo mais não do que sim. Mas José Inácio é mais sim do que não, e quando menos se esperava, ali estava o trabalho concluído.
Em época de Olimpíadas, não seria ele uma das nossas maiores vitórias? Algum dia daremos a necessária atenção à mens sana, ou pelo menos a igual atenção que se dá ao corpore sano?
José Inácio esteve muitas vezes nas páginas do panorama: por ocasião dos lançamentos dos seus livros, porque foi finalista do Concurso Astrid Cabral, porque realizava. Sobre ele escreveram no jornal Marcus Vinicius, Mayrant Gallo, Ronaldo Correia de Brito, Hélio Pólvora e Izacyl Guimarães Ferreira. Também esteve no Rio para a comemoração dos seis anos do panorama – uma festa da escrita que terminava para dar vez ao jornal virtual – uma pena!
No período, muitas coisas aconteceram, boas e más, como são as coisas.
Amigos que se distanciaram, outros que se aproximaram, a chegada de mais um filho, a correria da vida, de carro ou a galope, sempre a poesia pulsando.
O centauro deixa a infância. José Inácio, aos 40 anos, voa. E lê, continua lendo, recitando ou cantando, graças a uma prodigiosa memória, os poetas de sua vida. Os poetas de todas as vidas, que só existem se os poetas de hoje não deixarem de cantá-los.
DIVULGADOR DE POESIA - Eu diria que por seu temperamento, José Inácio está mais para Castro Alves do que para Jorge de Lima, mas bem que podiam ser seus os versos: "um cavalo todo feito em chamas / alastrado de insânias esbraseadas / pelas tardes sem tempo ele surgiu / e lia a mesma página que eu lia".
Por tudo isso podem comemorar todos aqueles que sabem o quanto é importante (e difícil) dar a conhecer, sem parar, a produção poética brasileira, a despeito dos que dizem que não se produz nada de novo no Brasil. A cultura é feita pela mediania, e não nos é dado decidir hoje quem será importante amanhã. É temeroso fazê-lo. Muitas promessas se tornaram cinzas e alguns nomes, aparentemente apagados, fizeram-se grandes com o tempo.
O artista é o profeta do seu tempo e só o futuro lhe fará justiça. O que é preciso, hoje, é trabalhar, e disso, José Inácio é exemplo.
Helena Ortiz é poeta, contista e editora do jornal Panorama da Palavra e da Editora da Palavra. Publicou os livros Em par (2001) e Sol sobre o dilúvio (2005), entre outros.
Resenha publicada no A Tarde Cultural, em Salvador, Bahia, em 23 de agosto de 2008
Lançamento do cd de poemas "A casa dos meus quarenta anos",
de José Inácio Vieira de Melo
LDM Livraria Multicampi, Rua Direita da Piedade, Salvador - BA
13 de setembro de 2008 (sábado), das 10 às 14 horas
JIVM - A CASA DOS MEUS QUARENTA ANOS
A CASA DOS MEUS QUARENTA ANOS
Assim é a casa dos meus quarenta anos,
assombrada e sóbria como um bacurau.
Em seus largos cômodos,
habitam uma enorme solidão
e muitas vontades de vida.
É noite e estou em meu quarto
urdindo meus infinitos à eternidade.
Eu – apenas eu – eu.
Lá fora, uma sinfonia de questionamentos:
grilos, sapos, rãs na sua intermitente litania
enlouquecem meus fantasmas.
A minha casa, às três horas da madrugada,
tem os olhos bem abertos – esbugalhados sertões –
e os seus fantasmas, somatórios do eu,
vão se arrumando do jeito que podem.
Um, no quarto ao lado,
implora para que desatem o nó da forca.
Não suporta mais as folhas da algarobeira
chorando o seu destino.
No quarto do outro lado,
outro choraminga suas dores, suas pernas quebradas,
o sangue escorrendo para o nada
(esse espectro dói demais e a sua grande
novidade é saber que vai morrer).
No quarto derradeiro,
os morcegos dormem sossegadamente
e seu mundo não é de cabeça para baixo.
No quarto derradeiro da casa dos meus quarenta anos,
os morcegos adubam o terreno e aguardam a chegada
de mais um dia, de mais um ano.
E assim, no bater das asas do galo pedrês,
o choro do recém-nascido.
E de dia a casa dos meus quarenta anos
é cheia de janelas azuis abertas para o azul.
E uma multidão de ventos vem assobiar dentro dela,
vem renovar os ares, sacudir os quadros nas paredes,
jogar meus retratos pelo chão.
Ventos dadaístas
a remexer nos meus poemas, mudar seus versos,
rearrumar suas estrofes.
E o dia vai crescendo com uma claridade medonha,
e as telhas da minha casa abrem os olhos
e olham para o alto e se benzem e dizem amém
(cada telha da casa dos meus quarenta anos
é um olho aceso espiando dentro de suas cores).
E há momentos em que tudo que é bicho se cala
e a casa mais parece um cemitério.
A casa dos meus quarenta anos é caiada de branco
e tem janelas azuis abertas para o azul.
A casa dos meus quarenta anos – cemitério de ilusões.
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
PAINEL DA LITERATURA BAIANA CONTEMPORÂNEA
Na próxima sexta-feira, dia 29, estarei na cidade de Amargosa, para falar da poesia contemporânea da Bahia e para lançar meu livro A infância do Centauro (2007), a convite do professor André Galvão, meu colega de mestrado na Uefs.Para fazer minha explanação usarei como base duas antologias: A paixão premeditada (2000), organizada por Simone Lopes Tavares e Concerto lírico a quinze vozes (2004), organizada por mim.
A primeira, apresenta 16 poetas da geração sessenta, dos quais destacarei cinco: Antonio Brasileiro, Ildásio Tavares, Maria da Conceição Paranhos, Myriam Fraga e Ruy Espinheira Filho.
A segunda, traz 15 poetas que começaram a publicar a partir de 1995, chamados por alguns de geração noventa e por outros de geração 2000, da qual também destacarei cinco nomes: Ângela Vilma, Edmar Vieira, Elizeu Moreira Paranaguá, Goulart Gomes e Kátia Borges.
Encerrarei, falando de meu livro A infância do Centauro.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
JOSÉ INÁCIO E A POESIA QUE CHOVE
Ronaldo Correia de Brito, José Inácio Vieira de Melo e Mayrant Gallo
Feira do Livro da Bahia – Salvador, 22 de agosto de 2003
Penso nos artistas que vivem o ofício da poesia e lembro de José Inácio. O escritor argentino Jorge Luis Borges afirma no seu Evangelho Apócrifo: A porta é a que escolhe e não o homem. José Inácio escolheu ser poeta.
Quebrar todo e qualquer cabresto,
romper a barreira da forma,
caminhar para além da palavra.
Tentando a impossível façanha de nos proteger debaixo de um único guarda-chuva, Mayrant, José Inácio e eu caminhávamos pelas ruas alagadas. As portas não se abriam, não passavam táxis, as roupas e os sapatos molhados aumentavam nosso desconforto. José Inácio falou-me da sua atração pela poesia popular e do chamado de uma outra poesia mais metafísica e moderna. Reconheci nele, em pleno século vinte e um, as mesmas contradições de vários poetas brasileiros: a mistura de um mundo arcaico com os anseios de progresso; um sentimento pastoral que se esvai e se mantém como recordação.
O chocalho, no pescoço
da vaca, anuncia:
– Eu estou aqui!
O relógio, na parede
da cozinha, adverte:
– Não escaparás!
Uma porta aberta. Entramos e sentamos. Os três não bebemos álcool, José Inácio por conta da permanente embriaguez com a poesia.
Já não quero saber do amargor do vinho,
sei que sou um bicho espalhafatoso.
– Quais são os principais elementos de sua poética? – pergunto a José Inácio, como se o entrevistasse.
Ele não me responde, mas sei que circula pelas cidades carregando o sertão em meio às roupas da mala. Que sua poesia evoca tempos remotos, enquanto celebra mundos em transformação. Que não se desfez dos instrumentos de velhos versejadores, homens comuns que faziam da poesia a sobrevivência.
Vai, poeta
com tuas facas
destrincha a carne
e nela passa o sal
e estende-a ao sol
A chuva continua caindo. É provável que eu me resfrie. Olhamos a cidade de Salvador, quase a nordeste, quase a sul, e rimos de nosso estranhamento no mundo. Onde nos situamos? José Inácio nunca sabe se mora numa fazenda de criação de gado ou se está perdido em periferias. Em qualquer latitude que se mova é o mesmo poeta com sua bagagem de pastoral e modernidade. Alguém que busca se aproximar de um imaginário de poeta, onde se misturam Jorge de Lima, João Cabral, Francisco Carvalho, Cecília Meireles, Gerardo Mello Mourão, Vinícius de Moraes, cantadores populares e profetas bíblicos. Incansável, insone e vagante, não para de cavar em busca do veio de ouro da poesia.
Os livros foram lidos e tudo já foi dito:
resta o silêncio – este corvo doido,
resta a folha de papel em branco
urubuzando minhas dores,
buscando os meus anagramas.
Ronaldo Correia de Brito nasceu em 1950, na cidade de Saboeiro, no sertão dos Inhamuns, no Ceará. Formou-se em Medicina no Recife, onde reside. Além de atuar como crítico e jornalista, escreveu em parceria com Antonio Madureira e Assis Lima as peças teatrais Baile do Menino Deus (1983), O pavão misterioso (1985), Bandeira de São João (1987) e Arlequim (1990), todas lançadas em cd pelo selo Eldorado. Pela Cosac Naify publicou os livros de contos Faca (2003) e Livro dos homens (2005).Essa crônica é o prefácio do livro A infância do Centauro (2007), de JIVM.
domingo, 17 de agosto de 2008
CRÔNICA - A BÊNÇÃO DO PAI

No dia em que vim embora para o Recife senti um aperto no coração, a garganta travou, e os olhos encheram-se de lágrimas. Era lei na nossa casa que os filhos homens não podiam chorar. Eu tinha razões de sobra para abrir o berreiro: vinha para uma cidade grande e desconhecida, não tinha onde morar, nem matrícula eu havia feito no colégio. Tudo incerto para um menino de 17 anos que deixava a casa paterna, o paraíso verdejante do Cariri e sua gente acolhedora. Como na canção de Torquato Neto, minha mãe e meus sete irmãos me acompanharam até a porta. Abracei-os sem dizer uma única palavra, os dentes trancados. Se pronunciasse um singelo adeus, o açude represado de lágrimas romperia. Meu pai olhava-me firme, vigilante. Com ele planejara largar a vidinha feliz, conhecer outro mundo, arriscar a sorte. Tínhamos um projeto em comum: eu me formaria em medicina, traria os irmãos mais novos para estudar no Recife e ajudaria a educá-los.
Desde o ciclo migratório da década de 50, quando as fazendas sertanejas se esvaziaram dos seus moradores, meus pais compreenderam que não existia mais futuro no campo. Largaram o plantio de algodão, os criatórios de gado, as lavouras, e tomaram para si a tarefa de iniciar os filhos numa outra realidade. No que dependesse deles, todos nós freqüentaríamos a universidade. Sábia escolha do nosso pai, um homem que aprendeu a ler sozinho, e atravessou noites acordado, brigando com os enigmas do português e da aritmética. Por algum mistério que nunca desvendei, os livros eram objetos de fetiche na família, prestando-se verdadeiro culto aos tios letrados, homens sábios e faladores.
Foi meu pai quem me acompanhou até a garagem do ônibus, pois não existia rodoviária nesse tempo. Caminhava ao meu lado, solene e silencioso. Um carregador transportava na cabeça minha parca mudança, uma mala de couro e uma caixa de papelão amarrada com cordas de barbante. A mais franciscana pobreza. Não enxergava nada à minha frente, os olhos cegos de lágrimas. Lembrava a história que minha avó contava, dos três irmãos que abandonam o lar em busca de fortuna. A todos eles o pai perguntou na hora da despedida: – Você prefere muito dinheiro e minha maldição ou pouco dinheiro e minha bênção? Apenas o mais novo escolheu a bênção e pouco dinheiro, alcançando sucesso.
Eu não podia despedir-me do meu pai sem balbuciar o adeus, e sem pedir a bênção. Precisava ouvir de seus lábios a fórmula protetora do “Deus te abençoe”. Atravessava a cidade a pé, com a sensação de que me empurravam para o desterro. Nunca um trajeto me pareceu tão longo. Chegamos, o carregador instalou as bagagens no ônibus, recebeu o pagamento e deixou-nos sozinhos com meia hora de espera e constrangimento. Foi uma eternidade. Meu pai apertou minha mão, o máximo de afeto permitido entre nós, não me olhou, de modo que nunca soube o que sentiu naquela tarde. Na família, não existiam trocas de afagos e confidências, apesar dos fortes vínculos que nos uniam. Apertei a mão dele, e consegui pedir a bênção sem chorar. Ele me abençoou e parti sozinho. Sozinho, eu chorei horas seguidas e tive a primeira de muitas consciências, uma delas a de que era senhor do meu pranto.
As velhas fórmulas caíram em desuso, já não se pede a bênção a ninguém. Ah!, o poder mágico dessa invocação. Todas as noites, antes de dormir, escutava os irmãos gritarem dos seus quartos, para o quarto dos pais: “A bênção!”. Só calavam depois que ouviam o “Deus te abençoe”. As três palavras pareciam com o pano que nossa mãe estendia sobre as redes, nos protegendo dos respingos das chuvas, na casa de telhado alto. A fórmula não se referia ao Deus de nenhuma instituição religiosa, era apenas uma graça pacificadora, um sonífero sem droga. Todos te aplacavam ao ouvir um “Deus te abençoe”.
Chegaram os dias em que desprezei os costumes da família, virei o rosto para os velhos que cobravam o pedido de bênção, senti nojo das mãos descarnadas das tias, estendidas para que eu as beijasse. Morreu a geração de bisavós, depois caíram os avós, e já começaram as baixas nos tios paternos. Quando não restarem mais vivos na fileira dos pais, assumirei a linha de frente. Ninguém mais protegerá a minha retaguarda. Todos estarão depois de mim, ninguém mais antes de mim para abençoar-me. Agora, sou eu a abençoar.
Por esses dias, meu filho mais novo viajou para estudar na Inglaterra. Achei que a minha história se repetia em condições diferentes e por uma estrada bem mais comprida. Conversei com ele sobre seus projetos para o futuro. Ajudei-o a comprar as passagens, o curso, o seguro-saúde, a arrumar a mala. Levei-o ao aeroporto na companhia festiva dos amigos, da namorada, e de dos irmãos. Eu e minha mulher éramos as únicas pessoas graves na comitiva.
Meu filho transpôs o portão de embarque, tudo estava certo, não faltava mais nada. De repente, ele voltou até junto de mim, me estendeu a mão e pediu: “A bênção, pai!” Pronunciei o “Deus te abençoe” e a ordem do mundo se refez, uma ordem em que se recompõem os elos com o passado, sem nenhuma culpa pelas formas que o presente assume. Não sei o que meu filho sentia, nem em que pensava quando me pediu a bênção. Talvez tenha lembrado a história dos três irmãos, a que minha avó me contava, e contei para ele. Todas as experiências do homem são de algum modo análogas, está escrito no Eclesiastes, o livro em que aprendi a ler, ajudado por meu pai.
Ronaldo Correia de Brito nasceu em 1950, no Ceará. Formou-se em Medicina no Recife, onde reside. Além de atuar como crítico e jornalista, é autor de várias peças de teatro, inspiradas no teatro popular nordestino. Pela Cosac Naify publicou a história infanto-juvenil O pavão misteryozo (2004) e os livros de contos Faca (2003) e Livro dos homens (2005).Crônica publicada na revista Continente Multicultural nº66, em junho de 2006, em Recife, Pernambuco.
domingo, 10 de agosto de 2008
sábado, 2 de agosto de 2008
VERÔNICA DE VATE: RITA SANTANA
RITA Verônica Franco de SANTANA, nasceu em 22 agosto de 1969, na cidade de Ilhéus, na Bahia.A ESCRITORA: Publicou seus contos no Diário da Tarde, de Ilhéus e no suplemento cultural do jornal A Tarde, de Salvador, no período em que era editado pelo poeta Florisvaldo Mattos; foi uma das coordenadoras do projeto Universidade em Verso, na UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz). Em 2004 publicou o livro de contos Tramela através da Fundação Casa de Jorge Amado, com o prêmio Braskem de Cultura e Arte Literatura – 2004, para autores inéditos. Em 2005 participa da antologia Mão Cheia. Em 2006 publica o livro de poesia Tratado das Veias, através de seleção feita pelo selo As Letras da Bahia, Fundação Cultural do Estado da Bahia. Em 2005 participa da Bienal do Livro da Bahia no projeto Porto da Poesia, organizado pelos editores da revista Iararana. Em 2007, participa da Bienal do Livro da Bahia no Café Literário.
AI DE MIM!
Deu de abrir comissuras na minha pele,
Porque ele partiu.
E nunca mais voltou pra minha alcova,
Pro meu convento de moça,
Pra minhas paúras,
Pra minhas pioras de noiva,
Pros meus pincéis de Almodóvar,
Pra minha cova roxa.
Eu fico esperando volta.
Ai de nós, mulheres feias!
Ai de nós, mulheres tortas!
Deu de abrir fissuras na minha boca,
Porque ele partiu.
E eu fiquei oca,
Fiquei seca,
Virei louça,
Vivi morta.
Ai de nós, mulheres feias!
Ai de nós, mulheres tortas!
Deu de abrir fendas no amor,
Porque ele partiu,
E nunca mais voltou.
Eu sucumbi ao sol:
Comi calêndulas,
Girassóis feridos,
Flores de abóboras,
Serpentes de vidro.
Abri a porta e gritei:
Ai de nós, mulheres feias!
Ai de nós, mulheres tortas!
RITA SANTANA
RITA SANTANA - AZUL

Sou de uma tristeza surda, funda.
Ando cansada das pernas,
Pois o meu amor brincou de picula,
E o sonho gargalhou migalhas nas toalhas de rosto,
Nas marcas pintadas do meu rosto,
Nas tralhas velhas da minha fotografia.
Ando azul porque não me reconheço gente.
Sou o próprio azul, simples, etéreo, incorpóreo,
Dos maios, dos setembros foscos de tanto sol,
De tanta ardência, dos poetas mais plácidos.
Azul dos palácios encantados, azul das moscas azuis,
Das estrias recobertas por cremes de milagres,
Azul da minha saudade-não-sei, de tanta coisa ida.
Tantas promessas me prometi,
Foram tantos os protestos advérbios,
Tantos esticamentos de veias,
Numa garganta de cobre fundido em ouro dos mais puros.
Estou em apuros porque sobrevivi até mais tarde,
Mas carrego mortes que desconheço porque sou pobre:
Deixei de estudar filosofia,
Deixei de fazer poesia,
Deixei de ir ao encontro do sol.
Perdi a maria-fumaça da minha infância,
Pra uma indústria de cacau.
Perdi os leões de mármore da minha infância,
Pras chácaras dos coronéis.
Perdi minha alegria
Pra essa incompetência diante da vida.
Não sei tratar dos amigos.
Sei tratar alguns peixes, mas dos homens não sei.
Suas escamas crespas,
Vísceras rubras demais pra minha paciência dilatada.
São flamas demais entre nós, os amigos.
Perdi e encontrei terezas, jorges, tonhos, miguéis, primos,
Aluguéis, janelas, gudes, bordados, assovios, cartas de amor,
Fraudes descartáveis, autorias duvidosas, alarmes, amores...
Perdi também palavras raras, livros,
Sonetos, versos de adolescer,
Pus, espúrios párias, pipas, chances,
Galhos secos ofertados à ilusão,
Sangue, suores, caldos de gozos raros,
Disparos de olhares que não vi,
Envelopes, vozes, madrinha, ruas, pessoas,
Esperanças, alianças, presentes,
Crianças, avós - todos os avós já perdidos - analices e luzias.
Faço qualquer coisa pra resolver
A inapetência diante da praticidade dos futurosos,
Dos que já deram certo, dos corretos, dos sem dores,
Dos bem-sucedidos, dos resolvidos, simplórios,
Dos que têm dor de dente
Mas não sabem o que é dor de alma.
Pois tenho urgência é de alegria, mansidão.
Sou um azul, azulzinho escuro, claro,
Azul céu, azul serpente, azul maçã,
Azul molho-de-tomate-elefante,
Azul clarinho, quase branco, azul amianto, azul-ami,
Azul trinta, azul balzaquiana louca, azul mulher, azul negra,
Azul esquisita, azul Rita, azul Dione, azul sul-da-Bahia,
Azul alegria, azul saudade,
Azul idade de envelhecer vez por todas,
Azul sem roupa, azul peruca, azucrinada, que nada!
Azul Ferreira Gullar, azul minha boceta cor-de-rosa,
Azul cerveja, azulilás, aliás, azul pirraça.
RITA SANTANA
OS VEIOS POÉTICOS DA MULHER DE HOJE
Dois anos depois da publicação de seu primeiro livro de contos, Tramela, um dos vencedores do Prêmio Braskem de Cultura e Arte – Literatura – 2004, para autores inéditos, da Fundação Casa de Jorge Amado, chegou o momento de Rita Santana estrear na poesia com Tratado das Veias, uma publicação do Selo Editorial Letras da Bahia.O livro, que vem referendado por Hélio Pólvora e por Aninha Franco, é composto de setenta poemas, nos quais Rita exterioriza o seu potencial lírico. Mas o lirismo de Rita Santana nada tem de doce, ameno, nada tem de contenção. A poeta imprime em seus versos uma força transbordante, um intenso jorrar de sensações, e é erótica e é política e é debochada.
Em um dos poemas iniciais, “Abandono”, Rita dá o tom que perpassa todo o livro. Faz um inventário dos cacarecos de sua caminhada, como quem faz uma revisão da vida, uma limpeza. Essa atitude de desprendimento, esse ajuste de contas, proporciona uma catarse, uma abertura para o novo, para o que vier: “Deixo aqui minhas vontades. (...)/ Precipito-me em deixar-me aqui também,/ e seguir sem mim, pois que fico. (...)/ Deixo-me vestida de ausência.”
Mais adiante, no poema “Azul”, Rita começa tratando peixes, à maneira de Adélia Prado, e termina fazendo uma embolada com Ferreira Gullar. E em tom de sarcasmo, o céu azul maranhense da infância do poeta vai emprestar sua cor para a “boceta cor-de-rosa” do eu-lírico da musa grapiúna. E a poeta abre o baú, e mais uma vez se expõe, ao enfileirar seus encontros e desencontros: “Perdi e encontrei terezas, jorges, tonhos, miguéis, primos,/ Aluguéis, janelas, gudes, bordados, assovios, cartas de amor,/ Fraudes descartáveis, autorias duvidosas, alarmes, amores...”
O veio erótico de Rita predomina no seu tratado, mas no bojo do erotismo ressoa um desejo de reconhecimento de seus prazeres. Uma poesia que grita – berra mesmo – a emancipação dos pudores, seja na ladainha “Ai de mim!” (“Abri a porta e gritei:/ Ai de nós, mulheres feias!/ Ai de nós, mulheres tortas!”) ou mesmo em “Bênção” (“Sou mulher de agora, de hoje,/ Tenho hábito de galo e caprichos de galinha.”).
Em Tratado das Veias encontramos uma jovem poeta delirante, que homenageia, ao decorrer dos poemas, as influências que lhe são caras. Então, Hilda Hilst, Orides Fontela, Cora Coralina e Adélia Prado pairam nos ares poéticos de Rita Santana. Outra voz que se assemelha à de Rita é a de Elisa Lucinda. Nas duas poetas, é perceptível a entonação teatral, a disposição para a oralidade de seus versos. Essa característica, muito provavelmente, se dá pelo fato de ambas serem atrizes.
Quanto ao aspecto formal, a própria autora é quem esclarece o seu “Mosaico” poético: “Sou uma fulana doida,/ de palavras grossas e versos malacabados.” E mais, em “Brechó”: “Rasgo-me em palavras, xingamentos, palavrórios, orações,/ Abuso do vocabulário:”. Ou, ainda, em “Violino”: “Sou dos excessos!”. Essa estranha poética confere a Rita Santana um largo espaço para a criação – palco de muitas possibilidades e de muitos riscos, que podem trazer algo de novo. E o novo é quase sempre estranho.
Com Tratado das Veias, Rita Santana passa a fazer parte do mais novo time de poetas baianas, poetas que publicaram seus livros de estréia, tiveram boa acolhida entre seus pares e deixaram uma grande expectativa em relação às suas obras vindouras. Dentre elas, estão Kátia Borges, com De volta à caixa de abelhas (2002), e Fabrícia Miranda, com Ritos de espelho (2002).
Em Reflexões sobre poesia e ética, o poeta grego Konstantinos Kaváfis, fala sobre o receio que alguns escritores têm em abordar determinados assuntos “porque temem ofender os preconceitos”. Rita Santana não tem medo dos preconceitos, é uma poeta de voz firme e traço pungente, está armada de verbos que rondam seu chão como estrelas. Seu compromisso é consigo, com as coisas em que acredita e com a arte. Rita Santana é constante em sua busca, por isso cativa a todos aqueles que insistem em perseguir acreditando em um sonho: “Quando chega a primavera, eu viro chuva/ e saio a te buscar por toda a terra”.
Resenha publicada no jornal A Tarde Cultural, em Salvador-BA, em 11 de novembro de 2006
sábado, 19 de julho de 2008
VERÔNICA DE VATE: IGOR FAGUNDES
chamado
como se já te conhecesse, espero-te:
mãos abertas, juntas, a equilibrar
o mar outrora preso na linha da vida
e que agora sobre as palmas se apóia.
como se não te conhecesse, aviso-te:
nele singra este homem com olhos de céu
refletido no corpo-água que a ti oferta
o sal da pele antes muralha.
como se te escrevesse, enfim, em versos
navego-te no ardor de uma palavra
em mar que ontem pensei ser meu apenas
e hoje te inunda para ser a nossa lavra.
Igor Fagundes
IGOR FAGUNDES - POR UMA GÊNESE DO HORIZONTE
hoje à tarde vou morrer com os afogados
hoje à noite vou salvar-me entre afogados
amanhã estaremos todos acordados
para amanhã iluminar outro afogado
e amanhã saberemos de que é feita
Igor Fagundes
A SAGRAÇÃO DO CAOS

À semelhança de um "escarlate" que viaja "por todo o Cosmo em busca de uma resposta" e transita "em todas as partes que estão além das partes todas", adentro este quarto da bagunça "como quem entra num bar" e "sai bêbado caindo pela falta de chão". Confessar que "em minha mão pulsa o nó do espanto" é reconhecer, na desordem, o que nela se verte em seu próprio elogio: os minuciosos "segredos da poeira" a "andar para cima e para baixo"; o desejo de "beijar minha sombra", de assumir "todas as formas" para "amanhã ser informe" e especular que "somente os olhos dizem/ o que as palavras sonham" no instante em que o poeta, o leitor, um poeta-leitor se reconhece (ou se desconhece) perdido entre papéis misturados, canetas sem tinta, bilhetes rasgados, gavetas e armários abertos, vestes sem cabides, sapatos sem cadarços, cigarros sem cinzeiros, janelas emperradas, chaves sem baús, cofres violados e outros órfãos de senhas. Vem "do caos primordial" a poesia e, em Vieira de Melo, tal mitofania se faz tema ao percorrer "as searas da escuridão" e ver "o mundo pelos olhos da esfinge". Não lhe cabe decifrar - arrumar o "quarto" - e, sim, perpetuar-se "enigma", "um lugar/ onde os nossos mistérios possam descansar". Onde possamos transgredir o que outrora afirmamos, já que nem os olhos são capazes de dizer o sonhado pelos nomes. Silenciosas, as retinas talvez só gritem o que nelas se impronuncia: nunca acham o que procuram e o que nos procura se diz tão-somente em oráculo sob vendas: "Eu só acredito nas coisas que não vejo".
Esta, a crença da flecha erguida pelo centauro: ver o invisível, tanger o intangível, na certeza de que o azul do céu se tinge do fato de que ele não é céu nem azul; de que, indiscernível das patas, jamais segue longe, acima, mas como o imanente incolor que doa todas as possibilidades de cor e as converge na aquarela alquímica da vida: "vento, fogo, terra e água/ tudo uma coisa só". Com um quê de Empédocles e outro de Moisés, a página de José Inácio Vieira de Melo prossegue qual um Mar Vermelho em pleno Egeu, e por onde também deságuam os rios áridos ou a seca lacrimosa de um nordestino - humano - sertão.
A infância do centauro não se anuncia na condição de etapa existencial ora ultrapassada. Na medida em que não cessamos de aprender a falar, a pensar, a descobrir, amanhecemos, a cada amanhã, infantes na "sagração dos mitos". Bíblicos ou pré-socráticos em Vieira de Melo, ou nem isso, para além disso, pós-inácios, posto que "não medem o tempo" e se apossam, como "herança" e "testamento", do "buraco, o vazio" exímio no "meio do caminho" de nosso presente. E é buscando, de dentro desse abismo, aquilo que será, paradoxalmente, sua ponte, que os desígnios de um Delfos Vieira de Melo fazem-nos sentir tamanha saudade dos lugares em que nunca (mas sempre) estivemos.
Resenha publicada no jornal Rascunho, em julho de 2008, na cidade de Curitiba, Paraná.
Igor Fagundes é poeta, jornalista, ator e dramaturgo. Mestre em Poética pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), publicou os livros Transversais (2000), Sete mil tijolos e uma parde inacabada (2004) e Por uma gênese do horizonte (2006).
sábado, 12 de julho de 2008
VERÔNICA DE VATE: AFFONSO MANTA
AFFONSO MANTA Alves Dias nasceu em Salvador, Bahia, a 23 de agosto de 1939. Faleceu em 3 de dezembro de 2003 em Poções, Bahia. Com três meses de idade, passou a residir em Iguaí, onde permaneceu até janeiro de 1950, quando a família se transferiu para Poções, cidade do Sudoeste Baiano.De volta a Salvador, o poeta freqüentou o curso de Ciências Sociais na Universidade Federal da Bahia (UFBA), mas acabou por abandoná-lo. Trabalhou, em seguida, como guia do Museu de Arte Sacra e repórter do Diário de Notícias. Trabalhou na Diretoria Regional da Guanabara como inspetor da Seção de Reclamações da Empresa de Correios e Telégrafos, no Rio de Janeiro. Enfermo, retornou a Poções, onde voltou a viver desde novembro de 1974, aposentado da ECT.
Por parte de pai, o poeta é primo em quarto grau de Castro Alves, devido à sua descendência, por linha direta, de João José Alves, o alferes, irmão do médico Antonio José Alves, pai do Poeta dos Escravos.
Publicou os seguintes livros de poemas: A Cidade Mística (1971), O Colibri, a Cidade Mística e outros Poemas (1980), O Retrato de um Poeta (1983), No Meio da Estrada (1991) Canção da Rua da Poeira e outros Poemas (1994), e O Falso Crente, A Princesa Nua, O Pássaro e o Poeta e O Estranho na Terra (1995). Participou das antologias A Poesia Baiana no Século XX (org. Assis Brasil, 1999), A Paixão Premeditada (org. Simone Lopes Pontes Tavares, 2000) e Sete Cantares de Amigos (org. Miguel Antônio Carneiro, 2003).
Integrante da Geração Sessenta, Affonso Manta tinha sua poesia marcada pelo lirismo e pela construção de uma realidade particular, na qual assumia a postura de um rei andarilho, que desfilava pelas ruas e praças “Adornado de estrelas e de luas (...)/ à procura da forma da beleza”. Pois era “O campeão da originalidade/ o peregrino astral”.
A poeta e ensaísta Maria da Conceição Paranhos, na apresentação da antologia Sete Cantares de Amigos, atenta para as múltiplas vozes do poeta: “Seu banquete – assim podemos denominar seu modo de apropriação da realidade – é servido por outros eus que dele desabrocham e vão guiando seu passo célere, a desvendar essências” e conclui “apenas um eu não o poderia”. Assim, em um mesmo ser, habitam o louco: “Enlouqueci, um girassol nasceu em minha boca.”; o rei: “Aqui, o Rei Affonso, o Derradeiro”; o menino: “Eu sou feliz porque já sou menino”; o anjo: “Anjo de luz do sacrossanto empíreo” e o andarilho: “Vou sair por aí de cambulhada”.
Outra face da poesia de Manta é a refinada ironia. Simone Lopes Pontes Tavares, em A Paixão premeditada, afirma que nos poemas de Manta “O debique é constante, inclusive do eu poético, numa linguagem cinematográfica a transformar o cidadão comum em clown, misto de Quixote e Chaplin”, como se pode perceber no poema “Lá vai Affonso Manta”: “(...) lá vai Affonso Manta (...)/ Coroa de alumínio sobre o crânio,/ Lapelas enfeitadas de gerânio/ E flechas no carcás”.
Deste poeta lírico da “Terra das Cacimbas”, que nas palavras do poeta Ruy Espinheira Filho, seu amigo, foi um encantado a vida inteira, ficam a beleza de seus versos, a leveza de sua técnica e, sobretudo, a lição da simplicidade com que encarava a vida, como no poema “As Luzes do Amanhã”, em que nos ensina: “Fazer da brisa um traje sem medida/ E do arco-íris fazer um tobogã./ Amar as mínimas coisas da vida/ E ter no olhar as luzes do amanhã.”
Com estrelas na testa de rapaz,
Com uma sede enorme na garganta,
Lá vai, lá vai, lá vai Affonso Manta
Pela rua lilás.
Coroa de alumínio sobre o crânio,
Lapelas enfeitadas de gerânios
E flechas no carcaz.
Manto florido de madapolão,
Bengala marchetada de latão,
Desfila o marechal,
O rei da extravagância, o sem maldade,
O campeão da originalidade,
O peregrino astral.
AFFONSO MANTA
AFFONSO MANTA, O POETA ENCANTADO
Conheci a poesia de Affonso Manta por intermédio do poeta Ruy Espinheira Filho, quando fui seu aluno em uma disciplina do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia. Fiquei fascinado pelo lirismo do autor de “O louco”. Pedi a Ruy o seu endereço e falei que, em breve, faria uma visita ao poeta da Terra das Cacimbas.
***Chegamos a Poções, às 10 horas da manhã, era um dia luminoso de novembro de 2002. Estavam comigo o poeta Edmar Vieira e os amigos Flávio Vieira e Jaider Saraiva, companheiros da cidade de Maracás. Fomos à Rua Coronel Maneca Moreira, 154, na Praça da Velha Matriz, e lá estava o poeta, em frente à casa, a nossa espera. Altivo, convidou-nos para adentrarmos em seu lar e saiu mostrando todos os cômodos da ampla casa até chegar ao quintal, onde havia alguns pés de goiaba, manga e carambola. De volta à sala, pegou o livro da poesia completa de Manuel Bandeira e falou: “Este é o maior poeta brasileiro. Estou sempre relendo sua poesia”. Edmar pediu para que recitasse o poema “Lá vai Affonso Manta”, o que fez de bom grado.
Feitas as apresentações iniciais, fomos para o Bar do Beto, na Praça Principal, lugar onde Affonso Passava boa parte de seu tempo, conversando com os amigos, entre um cafezinho e um cigarro. Informou-nos de que o poeta Elder Oliveira, que mora em Vitória da Conquista, estava em Poções, então fomos à sua procura. Elder, além de bom poeta é cantador de categoria. Daí pra frente foi só música e poesia. A alegria estava presente, podia-se perceber a felicidade estampada na face do velho bardo de Poções. Despedimo-nos na boca da noite, por volta das 18 horas. Felizes pelo encontro, pelo dia de encantamento que a poesia havia nos proporcionado.
***
Um ano depois, novembro de 2003, recebo e-mail de Ruy informando-me de que Affonso estava internado no Hospital das Clínicas, e que a situação inspirava cuidados. No dia seguinte fui visitá-lo. A principio fiquei chocado com o estado do amigo, estava muito magro, vomitava constantemente, mas apesar de tudo mantinha o brilho no olhar e, ao me ver, fez um sorriso e exclamou: “Zé Inácio, que bom vê-lo. Como vê, estou comendo o pão que o diabo amassou!”
Passei a visitá-lo quase todos os dias, levava sempre algum amigo. Depois, surgiu a oportunidade de convidá-lo para participar da antologia Sete Cantares de Amigos, organizada pelo poeta Miguel Antônio Carneiro, de cuja seleção de poemas fiquei encarregado. Mostrei para Manta seus poemas que havia escolhido para a antologia, dentre eles constava o poema “Anjo de Fogo”. Pediu-me que mudasse o título desse poema para “Anjo de Luz”. Observei que se mudasse o título teria que mudar um dos versos iniciais que era: “Anjo de fogo do celeste empíreo”, para “Anjo de luz do celeste empíreo”, e aí o verso ficaria quebrado. Affonso, então, fechou os olhos e disse: coloque aí: “Anjo de luz do sacrossanto empíreo”. O problema está resolvido”. Perguntei qual era o motivo da mudança, ao que ele respondeu: “Eu estou morrendo. Fogo é coisa do Inferno e Luz é coisa do Céu.” Não questionei mais nada, apenas fiz a mudança. Poucos dias depois, 03 de dezembro, o poeta viria a falecer. No dia 11 de dezembro aconteceu o lançamento da antologia Sete Cantares de Amigos, ocasião em que Affonso foi homenageado com jogral de seus poemas, dirigido por mim, e depoimentos de Maria da Conceição Paranhos e Ruy Espinheira Filho.
***
"O Livro de Celeste, meu mais recente trabalho, empacou por inteiro. Tem me faltado inspiração para continuá-lo. É pena. Do que já está escrito há coisas engraçadas como este poemeto:
A PISCIANA
Celeste é meio indócil, mas serena.
De gênio calmo. Mas de amor fogoso.
Ela me dá felicidade plena
E surra de cipó de fedegoso.
É o que me consola, a poesia. Povoa minha solidão e estabelece um elo com os meus semelhantes, eu que sou meio caladão.”
***Que alegria a minha. Poder ter tido a amizade e a atenção de poeta tão singular, de um homem que vivia em estado de poesia e que, com seus versos, deixava e ainda deixa a todos nós encantados. Está mais do que na hora de sua obra ser reeditada. Não é nenhum favor que vai se prestar ao poeta, ao contrário, é um beneficio que se fará às letras da Bahia e do Brasil, enriquecendo-as, ampliando o seu lirismo.
José Inácio Vieira de Melo
ANJO DE LUZ
E como um ser de forte claridade,
Anjo de luz do sacrossanto empíreo,
Eu sentia nas asas do delírio
A dimensão da grande liberdade.
Passava nos lugares rotineiros
Colhendo todo mundo em meu abraço,
Confundindo noções de tempo e espaço,
Embaralhando fatos verdadeiros.
Ia nos quatro pontos cardeais.
Andava sobre a linha do equador.
Via o céu de manhã mudar de cor.
Percorria os espaços siderais.
Ia mais longe do que qualquer nave.
Voava mais depressa do que a luz.
Entendia as palavras de Jesus
Como uma criancinha entende uma ave.
Achincalhava todas as mentiras.
Todos os fariseus desmascarava.
Os ídolos do hipócrita quebrava.
A roupa do impostor deixava em tiras.
E como um ser de etérea realeza,
Adornado de estrelas e de luas,
Saía a percorrer todas as ruas
À procura da forma da beleza.
E encerrava meu curso luminoso
Num lugar pelos homens habitado,
Onde era pelos guardas algemado
E preso como um louco furioso.
AFFONSO MANTA
Texto publicado na revista Iararana n°9, em Salvador, em agosto de 2004.
AFFONSO MANTA - O LOUCO

O LOUCO
Para Altamirando Camacam
Enlouqueci, um girassol nasceu na minha boca.
Os pássaros já estão fazendo ninho
Atrás da minha orelha.
Enlouqueci, o azul explodiu em fevereiro.
Vou conhecer Londres no meu bergantim de pirata.
As ruas são-me passarela para bailar.
Não me conheceis, transeuntes?
Não me conheceis, moça de olhos calmos
Do último andar do edifício?
Sou o Louco.
Prometi as chuvas do mês passado.
Prometi as árvores.
Prometi os vinhos.
Prometi este intenso azul de fevereiro.
Faço promessas maravilhosas.
E vede que se cumprem.
Abram as portas.
Chamem vossos filhos.
Chamem vossas noivas.
Os garotos vão rir de mim.
Por acaso, não quereis que as vossas noivas se divirtam?
Não há quem não ache graça
Do meu aspecto excessivo de profeta.
Convidem todo mundo.
Trago uma flor no bolso de dentro do paletó
Para ofertar ao sorriso mais inocente da cidade.
Não tenham medo.
Não faço mal a ninguém.
Sou o Louco.
AFFONSO MANTA
domingo, 6 de julho de 2008
VERÔNICA DE VATE: ROBERVAL PEREYR
OFÍCIO
A minha luta é banir-me
a partir mesmo dos ossos
da ossatura dos sonhos
com seus remorsos, rebanhos
de feras subtonadas.
Banir-me a partir do corpo
onde o ego se ampara
com o porte de um porco
obeso, de banha farta.
Pois havia o destino cego
e uma carta lacrada: o ego
com que me fiz e me nego
porque não rasguei a carta.
Rasgo-a. E quanto mais rasgo
mais ela mesma se escreve.
ROBERVAL PEREYR
ROBERVAL PEREYR - GALOPE
Ilustração: Ângelo RobertoG A L O P E
Meus pensamentos são meus camelos
meus pensamentos são meus cavalos
(com uns cavalgo para o silêncio
com outros marcho para a saudade).
Meus pensamentos são meus cavalos
meus pensamentos são meus camelos
(sou sertanejo, nasci nos matos,
ando a cavalo para mim mesmo).
Meus sentimentos são meus desejos
em que me vejo perdido, e calo.
Meus pensamentos são meus camelos
meus pensamentos são meus cavalos
ROBERVAL PEREYR
CANTINHO DO CONTO: A ROSEIRA
Hoje eu morri, e há reunião de família. É um pouco desconcertante ver tanta gente e ouvir tanto barulho dentro de casa, onde durante tanto tempo morei só e onde quase nunca recebia visitas. Mas não tenho do que me queixar; na verdade, é muito bom ter a família reunida. Família e algumas outras pessoas, conhecidos que há muitos anos não via e que eu pensei que já nem se lembravam de mim. Lá vêm eles, um a um, param em frente ao caixão e dão uma última olhada no meu rosto enrugado, elogiam minha aparência e fazem algum comentário sobre minhas supostas qualidades. Só não há lágrimas derramadas, mas isso é normal, estranho seria que as houvesse.
É curioso ser, de repente, motivo para tanto alvoroço, depois de ter vivido solitária durante tantos anos. Houve muitos preparativos antes de que chegassem os convidados. As empregadas da minha filha limparam a casa, fizeram salgados e os arrumaram na mesa da copa, e minha neta Isabel maquiou-me e colocou este laço vermelho em meu cabelo cinzento. Acho que fiquei um pouco ridícula com este laço e com estes lábios pintados e estas bochechas rosadas, mas de que serve a vaidade depois da morte? Além disso, ninguém mais achou ridículo, e todos dizem que eu estou muito bonita, mais bonita do que eu estivera nos últimos anos, embora eu desconfie que é porque querem ficar com a lembrança de uma bonequinha inofensiva e maquiada e não da velha rabugenta e solitária que eu era. Seja como for, não acho de muita importância o que as pessoas dizem ou pensam, pois, em momentos como este, as coisas que alguma vez nos preocuparam se desvanecem num nevoeiro prazeroso de indiferença. Cá estou eu, deitada no meu caixão macio e gostoso, e até uns minutos atrás sentia-me tão sossegada e contente no meu descanso modesto e pacato, que cheguei a pensar que nada na vida me aconteceu de mais agradável que a morte.
Mas nada no mundo é permanente, nem o prazer nem o desgosto, nem mesmo depois da morte, e uns minutos atrás começou a surgir em minha mente uma tênue inquietação. As pessoas passam em frente ao caixão e exclamam: “Olha como está linda, parece uma rosa!”. “Parece uma rosa, parece uma rosa…” E, de tanto falarem em rosas, lembrei-me da minha roseira e, pela primeira vez desde que morri, senti um certo desassossego e lamentei ter morrido. Quem cuidará agora da minha roseira? Olhei cuidadosamente ao meu redor: ninguém. Lá estão meus filhos, meus netos… mas ninguém, eu tive a certeza, ninguém se interessará por uma roseira.
Ganhei essa roseira da minha mãe, no dia em que eu passei no vestibular, há tantos e tantos anos. Minha mãe era uma mulher simples, humilde, que nada entendia de estudos, mas que muito sabia da vida. Estava transbordante de orgulho e de alegria, seu sonho sempre foi ver sua filha se formar, queria que eu tivesse um destino diferente do dela. E para isso eu fiz infinitos esforços, trabalhei dobrado para poder pagar o pré-vestibular, estudei obsessivamente, passei noites e noites em vela.
Mas destino é destino, e ele é regido por forças alheias à vontade do homem, por criaturas celestiais ou do céu banidas, ou simplesmente pelo acaso, pelo absurdo, ninguém sabe por quê. Minha mãe adoeceu. Minha pobre mãe, depois de uma vida inteira de abnegação e labuta, veio adoecer no momento em que o único sonho de sua vida poderia ter-se realizado. Tive que desistir da universidade. Remédios, operações, tratamentos, tinha que pagá-los de alguma forma. Ou esperar que a saúde pública a deixasse morrer lentamente. Consegui outro emprego, saía cedo de manhã e só chegava à noite, para encontrar minha mãe deitada e sem forças, mas aguardando-me acordada e com um dificultoso sorriso. Enquanto a roseira floria, minha mãe enfraquecia, desvanecia-se lentamente, e eu enlouquecia porque o dinheiro nunca alcançava para pagar os remédios.
Foi então que cedi à pressão do meu chefe. Há vários meses que ele me cercava, fazendo de tudo para que eu deitasse com ele, prometendo aumentos e regalias e ameaçando-me com a demissão. Entrei em seu escritório na hora do almoço, e disse-lhe que precisava de um empréstimo, pois minha mãe estava morrendo e não tinha dinheiro para os remédios. Sorriu. E foi ali mesmo que perdi minha virgindade, de bruços sobre a mesa onde se espalhavam os materiais de publicidade das roupas da última moda. O pobre homem. Tão pequenos prazeres para tanta perda de humanidade. É tão pedregosa a estrada da vida, que nunca entendi por que tanta gente dedica seus dias a torná-la ainda mais dolorosa. Hoje ele está morto, como eu. Afinal, somos todos iguais.
Depois disso, não tinha por que me preocupar com os escrúpulos. Fazer com um, fazer com outro, tanto faz, é tudo mais ou menos a mesma coisa. Com o tempo a gente se acostuma, o ser humano é assim, acostuma-se a tudo. Pelo menos assim eu podia comprar os remédios e não ficar desesperada cada vez que o dinheiro acabava. Quando chegava de madrugada, e não havia sabão no mundo que tirasse a sujeira do corpo e da alma, ia molhar minha roseira, e ao seu lado ficava sentada muito tempo, maravilhada ao ver que suas pétalas continuavam vermelhas, verdes suas folhas, exuberantes suas formas delineadas no resplendor da alvorada, intocadas pela poluição do mundo.
Minha mãe morreu. Coisas do destino. Com remédios ou sem remédios, lá se foi, e eu fiquei com as mãos vazias e apenas uma roseira como lembrança.
Poderia, então, ter voltado aos estudos, ter realizado o sonho da minha mãe. Mas tinha as dívidas. E, além disso, estava grávida. Minhas amigas, colegas de profissão, recomendaram o aborto. Mas eu via minha roseira, a vida que brotava luminosa a cada dia, e soube que não poderia arrancar o fruto do meu próprio ventre.
Muitas vezes me perguntei se eu fui uma boa mãe. Mas isso foi antes. Depois, deixei de pensar nisso. De qualquer forma, não se pode mudar o passado. Mas agora, com a ociosidade da morte, voltam as perguntas há tanto tempo enterradas. Não, acho que não fui uma boa mãe. É difícil ser mãe e puta ao mesmo tempo, coisas antípodas.
De qualquer forma, tentei. Tentei muito. Tive três filhos: dois homens e uma mulher, todos de pais diferentes, anônimos, desconhecidos, frutos de encontros inconseqüentes. Eles nunca souberam, nem da sua origem nem da minha profissão. Inventei todo tipo de empregos e ocupações importantíssimas para justificar minhas ausências noturnas, coisas que só uma criança acreditaria. E criei um pai mítico para eles. Era marinheiro, viajava muito. Depois morreu, numa tempestade. Morte heróica, terminou se afogando para salvar uma menina. Era bonito, forte, honesto, uma beleza. Até eu acabei me apaixonando por ele, e tão convincente foi minha fantasia, que não me surpreenderia se daqui a pouco me encontrasse com ele, em algum recanto da morte, ainda cheirando a algas e maresia.
Suportei todo tipo de humilhações e atropelos. Coisas do ofício, coisas da vida. Sem falar dos remorsos, da angústia, da solidão. Dignidade: que estranho sabor tem essa palavra, como tantas outras, deste lado da morte. Coisas sem sentido, palavras sem peso, vazias. Mas fazem parte da vida. Na vida elas pesam, são coisas imensas. Passei a maior parte da minha vida tentando não perder minha dignidade, segurando-a com todas as minhas forças no meio da tormenta. E, quando sentia que a tinha perdido, minha roseira a devolvia-me. Porque, em minha roseira, morava minha mãe, sempre otimista, sempre florida, sempre ao meu lado, me presenteando com o vermelho das suas pétalas, sem julgamentos nem acusações, e me mostrando que até no esterco podem nascer coisas belas.
Durante anos e anos economizei tudo o que pude, sem deixar de mandar os filhos para a escola e comprar livros e cadernos e lápis de cor e tudo o que eles pudessem precisar para se tornarem pessoas honestas, livres, felizes. Ingenuidade pensar que alguém pode ser realmente feliz. A infelicidade faz parte da vida tanto quanto a fome. Sacia-se durante um tempo, mas, em algum momento, há de voltar. Sempre falta alguma coisa, o homem é sempre incompleto. No caso deles, faltou o cuidado, uma intimidade mais profunda e estável. Como disse, é difícil ser puta e mãe. Mas, sobretudo, faltou um pai de verdade. O pai mítico usurpou meu lugar. Comparavam-me a ele e, ao lado do herói das mil qualidades, eu fazia uma lamentável figura: uma mãe ausente que trabalhava em horários esquisitos, levantava ao meio dia, conversava com as flores e andava triste e melancólica a maior parte do tempo.
Quando tive suficiente dinheiro para largar de vez o ofício e abrir uma pequena vendinha, sentindo que por fim minha consciência poderia descansar, meus filhos me recriminaram. Achavam espantoso e inaceitável que sua mãe se resignasse a viver das rendas de um mercadinho miserável. Não trabalhava para uma firma importante? Não virava as noites projetando campanhas publicitárias e outras coisas imprescindíveis?
Que estranha é a morte. Eu, que pensava que ela era paz e descanso, vejo agora que é tudo o contrário. Depois de tanto tempo cultivando minha solidão, aprendendo a viver sem remorsos nem rancores, deu-me agora de pensar nestas coisas. Meus filhos se foram, depois de formados, para viver suas vidas longe de mim. Realizei o sonho da minha mãe, mas os sonhos raramente são como os sonhamos. Todos terminaram a universidade e nunca pensaram em agradecer meus esforços. Ao contrário, sentiram-se alegres de poderem afastar-se de mim, livres do peso de uma mãe fracassada. Juliano foi para Brasília, Felipe para São Paulo, e tão ocupados estão com seus muitos negócios, que nunca tiveram tempo para visitar esta velha que vivia enfiada nesta casa sozinha, falando com uma roseira como uma louca. Só Teresina ficou na cidade, mas ela não gosta de sair daquela cobertura dela, e muito menos vir aqui, porque não tem garagem e não gosta de estacionar seu carro novo na rua.
Meus filhos… Aí estão eles, em pé, perto da minha cabeça, conversando. Não sabem que posso ouvi-los e por isso conversam descontraidamente de seus negócios, de suas viagens e de suas últimas compras, conservando apenas o olhar baixo e a voz taciturna, para o resguardo das aparências e benefício dos convidados.
Não quero mais estar aqui. Quero que fechem este caixão e me levem para o Campo Santo e me metam num buraco e acabem com todos os discursos e me cubram de terra, para poder dormir em silêncio e esquecer minha vida e minha morte. Esquecer sobretudo que em alguns dias minha roseira também estará morta, e então será como se eu nunca tivesse existido. Porque, agora que o penso, minha vida pode se reduzir a isso: uma roseira no meio de um deserto de fracassos e desencontros. Mas que impertinência querer que uma vida valha alguma coisa, que dela algo fique para uma suposta posteridade. E o que é a posteridade, afinal, senão um trem de esquecimento que nunca pára, ou que pára em momentos como este, para despejar os seus mortos com solenidade e seguir seu eterno caminho de indiferença?
Lá vêm eles, meus filhos e meus netos, se despedirem pela última vez. Chegou o carro da funerária, agora vão fechar o caixão. Chegou a hora. E minha roseira? Morrerá, enfim, de sede, seca e esquecida, cinza como o resto do mundo? Minha roseira, minha pobre roseira, que será do mundo sem tua beleza? Meus filhos me olham, meus netos também, mas ninguém se atreve a tocar-me, a beijar minha testa fria. Foi-se minha paz e minha alegria de morta. Um pesar doloroso esmaga-me agora.
Fecha-se o caixão e preparo-me para dormir, e tento não pensar nos pés que pisarão minha roseira. Como é escura a escuridão! As vozes da minha família se ouvem longínquas, afasta-se já o barulho do mundo. Mas, de repente, abre-se novamente o caixão e aí está Felipe, meu filho, dizendo: “Esperem um momento”. Meu Deus! Cortou minhas rosas! Matou minha roseira! E agora coloca-as no meu peito e fecha-se novamente o caixão.
Alejandro Reyes é mexicano e mora em Salvador desde 1995. pertence à nova geração de ficcionistas da Bahia. Publicou os seguintes livros de contos: Vidas de Rua (Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1997); O Lacandón (Salvador: Bureau Gráfica e Editira, 1997) e Contos Mexicanos (Salvador: A Romana, 2004). Seu romance inédito A Rainha do Cine Roma, obteve menção honrosa no Prêmio Sesc de Romance 2003. desde 2004, encontra-se em Berkeley, onde concluiu mestrado em Estudos Latino-americanos, na Universidade da Califórnia, sobre a realidade dos meninos de rua. Atualmente faz doutorado em Literatura Latino-americana, na mesma universidade, sobre literatura marginal – Brasil e México.segunda-feira, 23 de junho de 2008
A JUVENTUDE DO CENTAURO
Um livro que tem na contra-capa as palavras de Gerardo Mello Mourão e nas orelhas saudações de nomes como Lêdo Ivo e Ruy Espinheira Filho, entre outros ilustres leitores escritores (essa raça perigosa dos que estão em ambos os lados dos espelhos), não requer mais recomendações, que todas serão supérfluas.
E veja-se ainda a lista de sua fortuna crítica, com dezenas de entradas, entre as quais me descubro entre celebridades.
Centauro. Homem e cavalo. Figura mítica. Mas o poeta, que é do sertão, cavalga o animal com a segurança de quem pisa a terra do sertão em que nasceu e olha o céu da Bahia onde vive, céu em que as estrelas parecem brilhar mais, não fosse ela terra de santos de dois mares, poetas de mil vozes, todos aqueles cheiros de bem comer, bem dançar, bem lutar, bem viver.
Com tudo isso dialoga este poeta, um dialogador nato e cultivado, leitor atento dos mestres e fazedor de seu próprio caminho.
Algo que muito me agrada em seus poemas é que neles nada se esconde. A realidade que vê e vive está inteira, sem máscaras além das permitidas pela poesia, esta realidade superior dada a tão poucos. Além do real que se vê nos seus versos, está a clareza de água limpa de quem tem o que dizer e sabe como dizer.
Dou exemplos:
O primeiro, abre o livro neste quarteto e diz:
Teu centauro te espera,
monta em seu dorso
e vê o mundo pelos olhos da esfinge:
és o enigma, não o decifrador.
Eis, de pronto, o clima criado para a fruição do mistério maior da poesia. O poema termina assim:
Há de existir um lugar
onde os teus mistérios possam descansar.
Adiante nos dirá, confessando por todos nós:
não há deus que me comunique por inteiro.
ILUMINAÇÃO – Mas, dizia eu, este poeta está pisando um chão real e fala a língua geral dos homens, poetas ou leitores, cantadores de feira (que conhece bem...) e sua audiência, e nos comove com esta quase trova doméstica (que, me perdoem, me ecoa de longe eu ter dito em similar celebração “dona de si” num poema de título “Dona Sylvia”):
Dona-de-casa
Os sentimentos areados,
o cristal dos olhos polidos,
o terreiro tão bem varrido.
Minha mãe – senhora de si.
Continuando neste ver e dizer:
Morder o infinito
e sentir o gosto da criação.
// Não sei ser quase.
Acima falei de diálogos. Nem sempre dialogar é raciocinar, i.e. trocar idéias. Pode ser, e por certo será mais diálogo, quando transcende a razão e penetra na área da iluminação, como neste poema para Cecília Meireles
Cecília não é nome para se colocar em filha.
Cecília é única. Uma deusa que conheço.
..................................................................
Cecília é um templo dentro do poeta que sou.
Outra qualidade deste poeta do real da vida e da magia da palavra é, forte, a mescla destas duas faces da existência: o dia-a-dia, que sabe celebrar com naturalidade e ternura, e a noturnidade que nos cerca, aquela esfinge pronta a devorar os famintos de verdades ocultas. Entre o dia claro do real e a noite nem sempre estrelada de destinos, por onde andamos todos, José Inácio não parece perder-se além do suportável – mistério de bicho homem/centauro? – e em romaria, palavra de seu primeiro livro e peregrinação de sua poesia, celebra. Celebrar é o que nos cabe, já ensinava Rilke, poeta de ombros que anjos, Orfeu e mulheres souberam tocar, que um deus (qual?) soube tocar.
Fico a pensar, diante de uma poesia tão segura de si, se esta é a infância ou a juventude do centauro, como cavalgará o poeta décadas adiante?
Artigo publicado no A Tarde Cultural, em 14 de julho de 2007, em Salvador, Bahia. Fotógrafo: Ricardo Prado
Izacyl Guimarães Ferreira escreve, traduz e comenta poesia. Edita a revista “O Escritor” e o portal www.ube.org.br, da União Brasileira de Escritores, em São Paulo, entidade da qual é Presidente do Conselho. Tem 15 livros publicados, entre eles "Discurso urbano" (2007), vencedor do Prêmio de Literatura 2008 da Academia Brasileira de Letras , categoria poesia.
JIVM - TEMPLO

Para Cecília Meireles
Cecília não é nome para se colocar em filha.
Cecília é única. Uma deusa que conheço.
Ela habita nas esferas do delírio.
Seus versos são de veludo e acariciam os meus sentidos.
O olor que exala de suas estrofes é um bálsamo para o meu ser.
Cecília é um templo de muitas faces.
As canções que estão na sua poética são luminosas.
Cecília é um templo dentro do poeta que sou.
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
ANTÔNIO TORRES RUMO À ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS
ANTÔNIO TORRES nasceu na pequena cidade de Junco (hoje Sátiro Dias), no interior da Bahia, no dia 13 de setembro de 1940. Ainda menino, mudou-se para Alagoinhas para fazer o Ginásio, mais tarde foi parar em Salvador, capital baiana, onde se tornou repórter do Jornal da Bahia. Aos 20 anos transferiu-se para São Paulo, empregando-se no diário Última Hora. Lá, mudou de ramo e passou a trabalhar em publicidade. Viveu por três anos em Portugal e atualmente mora no Rio de Janeiro, onde passou a se dedicar exclusivamente à atividade literária. É casado com Sonia Torres, doutora em literatura comparada, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), e tem dois filhos,Gabriel e Tiago.Aos 32 anos, Antônio Torres lançou seu primeiro romance, Um cão uivando para a Lua, que causou grande impacto, sendo considerado pela crítica “a revelação do ano”. O segundo Os Homens dos Pés Redondos, confirmou as qualidades do primeiro livro. O grande sucesso, porém, veio em 1976, quando publicou Essa terra, narrativa de fortes pinceladas autobiográficas que aborda a questão do êxodo rural de nordestinos em busca de uma vida melhor nas grandes metrópoles do Sul, principalmente São Paulo.
Hoje considerada uma obra-prima, Essa terra ganhou uma edição francesa em 1984, abrindo o caminho para a carreira internacional do escritor baiano, que hoje tem seus livros publicados em Cuba, na Argentina, França, Alemanha, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, Israel, Holanda, , Espanha e Portugal. Em 2001 a Editora Record lançou uma reedição comemorativa (25 anos) de Essa Terra. Torres, porém, não restringiu seu universo ao interior do Brasil. Passeia com a mesma desenvoltura por cenários rurais e urbanos, como em Um cão uivando para a Lua, Os homens dos pés redondos, Balada da infância perdida e Um táxi para Viena d’Áustria.
Em 1997, Torres decidiu retornar ao tema e aos personagens do consagrado Essa terra. Vinte anos depois, narrador e protagonista voltam à pequena Junco em O cachorro e o lobo, para encontrar uma cidade já transformada pela chegada do progresso. É um romance de fina carpintaria literária que foi saudado pela crítica, tanto no Brasil como na França, onde foi publicado em 2001.
Foi condecorado pelo governo francês, em 1998, como “Chevalier des Arts et des Lettres”, por seus romances publicados na França até então (Essa terra e Um táxi para Viena d'Áustria). Em 2000, ganhou o Prêmio Machado de Assis 2000, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da sua obra. Em 2001, foi o vencedor (junto com Salim Miguel por Nu na escuridão) do Prêmio Zaffari & Bourbon, da 9a. Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, RS, por seu romance Meu querido canibal, no qual Torres se debruça sobre a vida do líder tupinambá Cunhambebe, o mais temido e adorado guerreiro indígena, para traçar um painel das primeiras décadas de história brasileira. Dando seqüência às suas pesquisas históricas, ele escreveu o romance O nobre seqüestrador, que trata da invasão francesa ao Rio de Janeiro em 1711, comandada por René Duguay-Trouin, o corsário de Luis XIV, que sequestrou a cidade durante 50 dias, até que lhe fosse pago um alto resgate para que ela fosse devolvida a seus habitantes. O nobre seqüestardor foi finalista no Prêmio Zaffari & Bourbon de 2003. Em 2006, Antônio Torres publicou o romance Pelo fundo da agulha, com o que fechou uma trilogia iniciada com Essa terra e prosseguida com O cachorro e o lobo. Este livro foi um dos vencedores do Prêmio Jabuti e finalista do Prêmio Zaffari & Bourbon, da Jornada Literária Nacional de Passo Fundo. Em resumo: autor premiado, com várias edições no Brasil e traduções em muitos países, Antônio Torres é um dos nomes mais importantes da sua geração, com um obra expressiva que abrange 11 romances, 1 livro de contos, 1 livro para crianças, 1 livro de crônicas, perfis e memórias. além de dois projetos especiais (O centro das nossas desatenções, sobre o centro do Rio de Janeiro - e que rendeu um documentário para a TV Cultura, São Paulo -, e O circo no Brasil, da série História Visual, da Funarte, Fundação Nacional de Arte). Para outras informações: www.record.com.br



