sábado, 19 de julho de 2008

VERÔNICA DE VATE: IGOR FAGUNDES

IGOR FAGUNDES, carioca, 26 anos, é poeta, jornalista, ator, ensaísta, Mestre em Poética pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor de Teoria Literária na mesma universidade. Autor dos livros de poemas por uma gênese do horizonte (2006, vencedor IV Prêmio Literário Livraria Asabeça), Sete mil tijolos e uma parede inacabada (2004) e Transversais (2000, 1º lugar no I Concurso Literário Estudantes do Brasil), bem como do livro de ensaios (no prelo) Os poetas estão vivos - pensamento poético e poesia brasileira no século XXI (Prêmio Literário Cidade de Manaus 2007). É co-autor da coletânea de artigos Quem conta um conto: estudos sobre escritoras contistas estreantes nas décadas de 90 e 2000 e integra a coleção Roteiro da Poesia Brasileira - Poetas da década de 2000. Atualmente, é colaborador do Jornal Literário Rascunho e nas publicações da Academia Brasileira de Letras (ABL).


chamado


como se já te conhecesse, espero-te:
mãos abertas, juntas, a equilibrar
o mar outrora preso na linha da vida
e que agora sobre as palmas se apóia.

como se não te conhecesse, aviso-te:
nele singra este homem com olhos de céu
refletido no corpo-água que a ti oferta
o sal da pele antes muralha.

como se te escrevesse, enfim, em versos
navego-te no ardor de uma palavra
em mar que ontem pensei ser meu apenas
e hoje te inunda para ser a nossa lavra.


Igor Fagundes

IGOR FAGUNDES - POR UMA GÊNESE DO HORIZONTE



por uma gênese do horizonte


hoje quero amanhecer com os afogados
implorar que voltem a caminhar comigo
penteá-los como se evocasse filhos
abraçá-los como quem pede um chamado

hoje à tarde vou morrer com os afogados
engolir a água que invadiu suas sebes
me arder no sal que arranhou suas malhas
e arranhar as minhas com o que partiu suas pedras

hoje à noite vou salvar-me entre afogados
ler em seus olhos alguma paz em riste
embora nas pupilas ouça ainda
uma voz rouca para sempre dilatada

amanhã estaremos todos acordados
em mar profundo poderemos ser crustáceos
cavaremos até chegar ao mais escuro
ninho de pérolas e tudo será claro

para amanhã iluminar outro afogado
que na voragem de salvar-nos será salvo
e se unirá ao nosso fio interminável
de corpos sob o pôr/nascer do sol

e amanhã saberemos de que é feita
esta linha vista ao longe:
de um pouco de mágoa e muito de água
lavando por dentro o peito dos mortos


Igor Fagundes

A SAGRAÇÃO DO CAOS

Igor Fagundes


No oracular A infância do centauro, poemário do alagoano-baiano José Inácio Vieira de Melo, um certo Delfos nascido em Olho d'água do Pai Mané adivinha-me no único verso de Quarto da bagunça: "Eu não sei nem por onde começar". Porque todo começo (cosmo) parte sempre de uma "bagunça" (caos) e a ela retorna na intermitência poética da vida, não-saber é o próprio iniciar caótico do verbo que não sabe "ser quase" e jamais se sacia, jamais nos sacia, sedentos incuráveis que somos. Não obstante, as algaravias deste livro-quarto-das-balbúrdias consistem, ao revés, no "registro da fala do silêncio" e levam-me, desde já, ao fracasso de dizê-lo e "dizê-las por inteiro". Afinal, ninguém consegue falar ou escrever sobre o silêncio, uma vez que só é possível falar ou escrever violando-o. Por isso não se sabe nunca, em poesia, "por onde começar": começa-se. E recomeça-se a cada vez, sem chance alguma de chegança. O ansiado "onde" é justamente este "não sei" a partir do qual emerge e imerge todo - poético - saber; todo sabor que intenta saturar-se de palavras quando "um silêncio de lá, de longe - das plagas interiores" as "abrasa" e "as queima antes de serem".
À semelhança de um "escarlate" que viaja "por todo o Cosmo em busca de uma resposta" e transita "em todas as partes que estão além das partes todas", adentro este quarto da bagunça "como quem entra num bar" e "sai bêbado caindo pela falta de chão". Confessar que "em minha mão pulsa o nó do espanto" é reconhecer, na desordem, o que nela se verte em seu próprio elogio: os minuciosos "segredos da poeira" a "andar para cima e para baixo"; o desejo de "beijar minha sombra", de assumir "todas as formas" para "amanhã ser informe" e especular que "somente os olhos dizem/ o que as palavras sonham" no instante em que o poeta, o leitor, um poeta-leitor se reconhece (ou se desconhece) perdido entre papéis misturados, canetas sem tinta, bilhetes rasgados, gavetas e armários abertos, vestes sem cabides, sapatos sem cadarços, cigarros sem cinzeiros, janelas emperradas, chaves sem baús, cofres violados e outros órfãos de senhas. Vem "do caos primordial" a poesia e, em Vieira de Melo, tal mitofania se faz tema ao percorrer "as searas da escuridão" e ver "o mundo pelos olhos da esfinge". Não lhe cabe decifrar - arrumar o "quarto" - e, sim, perpetuar-se "enigma", "um lugar/ onde os nossos mistérios possam descansar". Onde possamos transgredir o que outrora afirmamos, já que nem os olhos são capazes de dizer o sonhado pelos nomes. Silenciosas, as retinas talvez só gritem o que nelas se impronuncia: nunca acham o que procuram e o que nos procura se diz tão-somente em oráculo sob vendas: "Eu só acredito nas coisas que não vejo".
Esta, a crença da flecha erguida pelo centauro: ver o invisível, tanger o intangível, na certeza de que o azul do céu se tinge do fato de que ele não é céu nem azul; de que, indiscernível das patas, jamais segue longe, acima, mas como o imanente incolor que doa todas as possibilidades de cor e as converge na aquarela alquímica da vida: "vento, fogo, terra e água/ tudo uma coisa só". Com um quê de Empédocles e outro de Moisés, a página de José Inácio Vieira de Melo prossegue qual um Mar Vermelho em pleno Egeu, e por onde também deságuam os rios áridos ou a seca lacrimosa de um nordestino - humano - sertão.
A infância do centauro não se anuncia na condição de etapa existencial ora ultrapassada. Na medida em que não cessamos de aprender a falar, a pensar, a descobrir, amanhecemos, a cada amanhã, infantes na "sagração dos mitos". Bíblicos ou pré-socráticos em Vieira de Melo, ou nem isso, para além disso, pós-inácios, posto que "não medem o tempo" e se apossam, como "herança" e "testamento", do "buraco, o vazio" exímio no "meio do caminho" de nosso presente. E é buscando, de dentro desse abismo, aquilo que será, paradoxalmente, sua ponte, que os desígnios de um Delfos Vieira de Melo fazem-nos sentir tamanha saudade dos lugares em que nunca (mas sempre) estivemos.


Resenha publicada no jornal Rascunho, em julho de 2008, na cidade de Curitiba, Paraná.

Igor Fagundes é poeta, jornalista, ator e dramaturgo. Mestre em Poética pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), publicou os livros Transversais (2000), Sete mil tijolos e uma parde inacabada (2004) e Por uma gênese do horizonte (2006).

JIVM - QUARTO DA BAGUNÇA


sábado, 12 de julho de 2008

VERÔNICA DE VATE: AFFONSO MANTA

O POETA ENCANTADO
Por José Inácio Vieira de Melo

AFFONSO MANTA Alves Dias nasceu em Salvador, Bahia, a 23 de agosto de 1939. Faleceu em 3 de dezembro de 2003 em Poções, Bahia. Com três meses de idade, passou a residir em Iguaí, onde permaneceu até janeiro de 1950, quando a família se transferiu para Poções, cidade do Sudoeste Baiano.
De volta a Salvador, o poeta freqüentou o curso de Ciências Sociais na Universidade Federal da Bahia (UFBA), mas acabou por abandoná-lo. Trabalhou, em seguida, como guia do Museu de Arte Sacra e repórter do Diário de Notícias. Trabalhou na Diretoria Regional da Guanabara como inspetor da Seção de Reclamações da Empresa de Correios e Telégrafos, no Rio de Janeiro. Enfermo, retornou a Poções, onde voltou a viver desde novembro de 1974, aposentado da ECT.
Por parte de pai, o poeta é primo em quarto grau de Castro Alves, devido à sua descendência, por linha direta, de João José Alves, o alferes, irmão do médico Antonio José Alves, pai do Poeta dos Escravos.
Publicou os seguintes livros de poemas: A Cidade Mística (1971), O Colibri, a Cidade Mística e outros Poemas (1980), O Retrato de um Poeta (1983), No Meio da Estrada (1991) Canção da Rua da Poeira e outros Poemas (1994), e O Falso Crente, A Princesa Nua, O Pássaro e o Poeta e O Estranho na Terra (1995). Participou das antologias A Poesia Baiana no Século XX (org. Assis Brasil, 1999), A Paixão Premeditada (org. Simone Lopes Pontes Tavares, 2000) e Sete Cantares de Amigos (org. Miguel Antônio Carneiro, 2003).
Integrante da Geração Sessenta, Affonso Manta tinha sua poesia marcada pelo lirismo e pela construção de uma realidade particular, na qual assumia a postura de um rei andarilho, que desfilava pelas ruas e praças “Adornado de estrelas e de luas (...)/ à procura da forma da beleza”. Pois era “O campeão da originalidade/ o peregrino astral”.
A poeta e ensaísta Maria da Conceição Paranhos, na apresentação da antologia Sete Cantares de Amigos, atenta para as múltiplas vozes do poeta: “Seu banquete – assim podemos denominar seu modo de apropriação da realidade – é servido por outros eus que dele desabrocham e vão guiando seu passo célere, a desvendar essências” e conclui “apenas um eu não o poderia”. Assim, em um mesmo ser, habitam o louco: “Enlouqueci, um girassol nasceu em minha boca.”; o rei: “Aqui, o Rei Affonso, o Derradeiro”; o menino: “Eu sou feliz porque já sou menino”; o anjo: “Anjo de luz do sacrossanto empíreo” e o andarilho: “Vou sair por aí de cambulhada”.
Outra face da poesia de Manta é a refinada ironia. Simone Lopes Pontes Tavares, em A Paixão premeditada, afirma que nos poemas de Manta “O debique é constante, inclusive do eu poético, numa linguagem cinematográfica a transformar o cidadão comum em clown, misto de Quixote e Chaplin”, como se pode perceber no poema “Lá vai Affonso Manta”: “(...) lá vai Affonso Manta (...)/ Coroa de alumínio sobre o crânio,/ Lapelas enfeitadas de gerânio/ E flechas no carcás”.
Deste poeta lírico da “Terra das Cacimbas”, que nas palavras do poeta Ruy Espinheira Filho, seu amigo, foi um encantado a vida inteira, ficam a beleza de seus versos, a leveza de sua técnica e, sobretudo, a lição da simplicidade com que encarava a vida, como no poema “As Luzes do Amanhã”, em que nos ensina: “Fazer da brisa um traje sem medida/ E do arco-íris fazer um tobogã./ Amar as mínimas coisas da vida/ E ter no olhar as luzes do amanhã.”


LÁ VAI AFFONSO MANTA


Com estrelas na testa de rapaz,
Com uma sede enorme na garganta,
Lá vai, lá vai, lá vai Affonso Manta
Pela rua lilás.

Coroa de alumínio sobre o crânio,
Lapelas enfeitadas de gerânios
E flechas no carcaz.

Manto florido de madapolão,
Bengala marchetada de latão,
Desfila o marechal,

O rei da extravagância, o sem maldade,
O campeão da originalidade,
O peregrino astral.


AFFONSO MANTA


Texto publicado na revista Iararana n°9, em Salvador, em agosto de 2004.

AFFONSO MANTA, O POETA ENCANTADO

ENCONTRO COM O POETA

Conheci a poesia de Affonso Manta por intermédio do poeta Ruy Espinheira Filho, quando fui seu aluno em uma disciplina do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia. Fiquei fascinado pelo lirismo do autor de “O louco”. Pedi a Ruy o seu endereço e falei que, em breve, faria uma visita ao poeta da Terra das Cacimbas.

***

Chegamos a Poções, às 10 horas da manhã, era um dia luminoso de novembro de 2002. Estavam comigo o poeta Edmar Vieira e os amigos Flávio Vieira e Jaider Saraiva, companheiros da cidade de Maracás. Fomos à Rua Coronel Maneca Moreira, 154, na Praça da Velha Matriz, e lá estava o poeta, em frente à casa, a nossa espera. Altivo, convidou-nos para adentrarmos em seu lar e saiu mostrando todos os cômodos da ampla casa até chegar ao quintal, onde havia alguns pés de goiaba, manga e carambola. De volta à sala, pegou o livro da poesia completa de Manuel Bandeira e falou: “Este é o maior poeta brasileiro. Estou sempre relendo sua poesia”. Edmar pediu para que recitasse o poema “Lá vai Affonso Manta”, o que fez de bom grado.
Feitas as apresentações iniciais, fomos para o Bar do Beto, na Praça Principal, lugar onde Affonso Passava boa parte de seu tempo, conversando com os amigos, entre um cafezinho e um cigarro. Informou-nos de que o poeta Elder Oliveira, que mora em Vitória da Conquista, estava em Poções, então fomos à sua procura. Elder, além de bom poeta é cantador de categoria. Daí pra frente foi só música e poesia. A alegria estava presente, podia-se perceber a felicidade estampada na face do velho bardo de Poções. Despedimo-nos na boca da noite, por volta das 18 horas. Felizes pelo encontro, pelo dia de encantamento que a poesia havia nos proporcionado.

***
Um ano depois, novembro de 2003, recebo e-mail de Ruy informando-me de que Affonso estava internado no Hospital das Clínicas, e que a situação inspirava cuidados. No dia seguinte fui visitá-lo. A principio fiquei chocado com o estado do amigo, estava muito magro, vomitava constantemente, mas apesar de tudo mantinha o brilho no olhar e, ao me ver, fez um sorriso e exclamou: “Zé Inácio, que bom vê-lo. Como vê, estou comendo o pão que o diabo amassou!”
Passei a visitá-lo quase todos os dias, levava sempre algum amigo. Depois, surgiu a oportunidade de convidá-lo para participar da antologia Sete Cantares de Amigos, organizada pelo poeta Miguel Antônio Carneiro, de cuja seleção de poemas fiquei encarregado. Mostrei para Manta seus poemas que havia escolhido para a antologia, dentre eles constava o poema “Anjo de Fogo”. Pediu-me que mudasse o título desse poema para “Anjo de Luz”. Observei que se mudasse o título teria que mudar um dos versos iniciais que era: “Anjo de fogo do celeste empíreo”, para “Anjo de luz do celeste empíreo”, e aí o verso ficaria quebrado. Affonso, então, fechou os olhos e disse: coloque aí: “Anjo de luz do sacrossanto empíreo”. O problema está resolvido”. Perguntei qual era o motivo da mudança, ao que ele respondeu: “Eu estou morrendo. Fogo é coisa do Inferno e Luz é coisa do Céu.” Não questionei mais nada, apenas fiz a mudança. Poucos dias depois, 03 de dezembro, o poeta viria a falecer. No dia 11 de dezembro aconteceu o lançamento da antologia Sete Cantares de Amigos, ocasião em que Affonso foi homenageado com jogral de seus poemas, dirigido por mim, e depoimentos de Maria da Conceição Paranhos e Ruy Espinheira Filho.

***
Em uma das cartas que me enviou, datada de 18 de dezembro de 2002, ele diz:
"O Livro de Celeste, meu mais recente trabalho, empacou por inteiro. Tem me faltado inspiração para continuá-lo. É pena. Do que já está escrito há coisas engraçadas como este poemeto:

A PISCIANA

Celeste é meio indócil, mas serena.
De gênio calmo. Mas de amor fogoso.
Ela me dá felicidade plena
E surra de cipó de fedegoso.

É o que me consola, a poesia. Povoa minha solidão e estabelece um elo com os meus semelhantes, eu que sou meio caladão.”

***

Que alegria a minha. Poder ter tido a amizade e a atenção de poeta tão singular, de um homem que vivia em estado de poesia e que, com seus versos, deixava e ainda deixa a todos nós encantados. Está mais do que na hora de sua obra ser reeditada. Não é nenhum favor que vai se prestar ao poeta, ao contrário, é um beneficio que se fará às letras da Bahia e do Brasil, enriquecendo-as, ampliando o seu lirismo.


José Inácio Vieira de Melo



ANJO DE LUZ



E como um ser de forte claridade,
Anjo de luz do sacrossanto empíreo,
Eu sentia nas asas do delírio
A dimensão da grande liberdade.

Passava nos lugares rotineiros
Colhendo todo mundo em meu abraço,
Confundindo noções de tempo e espaço,
Embaralhando fatos verdadeiros.

Ia nos quatro pontos cardeais.
Andava sobre a linha do equador.
Via o céu de manhã mudar de cor.
Percorria os espaços siderais.

Ia mais longe do que qualquer nave.
Voava mais depressa do que a luz.
Entendia as palavras de Jesus
Como uma criancinha entende uma ave.

Achincalhava todas as mentiras.
Todos os fariseus desmascarava.
Os ídolos do hipócrita quebrava.
A roupa do impostor deixava em tiras.

E como um ser de etérea realeza,
Adornado de estrelas e de luas,
Saía a percorrer todas as ruas
À procura da forma da beleza.

E encerrava meu curso luminoso
Num lugar pelos homens habitado,
Onde era pelos guardas algemado
E preso como um louco furioso.


AFFONSO MANTA


Texto publicado na revista Iararana n°9, em Salvador, em agosto de 2004.

AFFONSO MANTA - O LOUCO

Profeta Gentileza
O LOUCO
Para Altamirando Camacam

Enlouqueci, um girassol nasceu na minha boca.
Os pássaros já estão fazendo ninho
Atrás da minha orelha.
Enlouqueci, o azul explodiu em fevereiro.
Vou conhecer Londres no meu bergantim de pirata.
As ruas são-me passarela para bailar.
Não me conheceis, transeuntes?
Não me conheceis, moça de olhos calmos
Do último andar do edifício?
Sou o Louco.
Prometi as chuvas do mês passado.
Prometi as árvores.
Prometi os vinhos.
Prometi este intenso azul de fevereiro.
Faço promessas maravilhosas.
E vede que se cumprem.
Abram as portas.
Chamem vossos filhos.
Chamem vossas noivas.
Os garotos vão rir de mim.
Por acaso, não quereis que as vossas noivas se divirtam?
Não há quem não ache graça
Do meu aspecto excessivo de profeta.
Convidem todo mundo.
Trago uma flor no bolso de dentro do paletó
Para ofertar ao sorriso mais inocente da cidade.
Não tenham medo.
Não faço mal a ninguém.
Sou o Louco.

AFFONSO MANTA

domingo, 6 de julho de 2008

VERÔNICA DE VATE: ROBERVAL PEREYR

ROBERVAL PEREYR natural de Antônio Cardoso-Bahia (1953), em 1964, radicou-se em Feira de Santana. Doutor em Letras (Unicamp), é poeta, ensaísta e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana e um dos fundadores da revista de poesia Hera (Feira de Santana, 1973). Fundou também, ao lado do poeta Pablo Simpson, a revista de poesia Duas Águas. Vencedor de vários concursos literários. Entre os livros publicados, encontram-se As roupas do nu (1981); Ocidentais (1987); O súbito cenário (1996); Concerto de ilhas (1998); Saguão de mitos (1998) e Amálgama – Nas praias do avesso e poesia anterior (2004). Participou em várias antologias, entre as quais A poesia baiana no século XX, organizada por Assis Brasil. Tem inéditos em romance e novela. Pereyr atua também como compositor e arranjador musical. Possui vários poemas musicados pelo cantor Márcio Pazin, como “Galope”, que conta com bela interpretação da dupla Márcio Pazin e Carol Pereyr, cantora filha do poeta. Roberval Pereyr vai apresentar-se, no próximo dia 11 de julho, no projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, Bahia, coordenado por Edmar Vieira.


OFÍCIO


A minha luta é banir-me
a partir mesmo dos ossos
da ossatura dos sonhos
com seus remorsos, rebanhos
de feras subtonadas.

Banir-me a partir do corpo
onde o ego se ampara
com o porte de um porco
obeso, de banha farta.

Pois havia o destino cego
e uma carta lacrada: o ego
com que me fiz e me nego
porque não rasguei a carta.

Rasgo-a. E quanto mais rasgo
mais ela mesma se escreve.


ROBERVAL PEREYR

ROBERVAL PEREYR - GALOPE

Ilustração: Ângelo Roberto


G A L O P E


Meus pensamentos são meus camelos
meus pensamentos são meus cavalos

(com uns cavalgo para o silêncio
com outros marcho para a saudade).

Meus pensamentos são meus cavalos
meus pensamentos são meus camelos

(sou sertanejo, nasci nos matos,
ando a cavalo para mim mesmo).

Meus sentimentos são meus desejos
em que me vejo perdido, e calo.

Meus pensamentos são meus camelos
meus pensamentos são meus cavalos


ROBERVAL PEREYR

CANTINHO DO CONTO: A ROSEIRA

Alejandro Reyes

Ilustração: Bel Borba


Hoje eu morri, e há reunião de família. É um pouco desconcertante ver tanta gente e ouvir tanto barulho dentro de casa, onde durante tanto tempo morei só e onde quase nunca recebia visitas. Mas não tenho do que me queixar; na verdade, é muito bom ter a família reunida. Família e algumas outras pessoas, conhecidos que há muitos anos não via e que eu pensei que já nem se lembravam de mim. Lá vêm eles, um a um, param em frente ao caixão e dão uma última olhada no meu rosto enrugado, elogiam minha aparência e fazem algum comentário sobre minhas supostas qualidades. Só não há lágrimas derramadas, mas isso é normal, estranho seria que as houvesse.
É curioso ser, de repente, motivo para tanto alvoroço, depois de ter vivido solitária durante tantos anos. Houve muitos preparativos antes de que chegassem os convidados. As empregadas da minha filha limparam a casa, fizeram salgados e os arrumaram na mesa da copa, e minha neta Isabel maquiou-me e colocou este laço vermelho em meu cabelo cinzento. Acho que fiquei um pouco ridícula com este laço e com estes lábios pintados e estas bochechas rosadas, mas de que serve a vaidade depois da morte? Além disso, ninguém mais achou ridículo, e todos dizem que eu estou muito bonita, mais bonita do que eu estivera nos últimos anos, embora eu desconfie que é porque querem ficar com a lembrança de uma bonequinha inofensiva e maquiada e não da velha rabugenta e solitária que eu era. Seja como for, não acho de muita importância o que as pessoas dizem ou pensam, pois, em momentos como este, as coisas que alguma vez nos preocuparam se desvanecem num nevoeiro prazeroso de indiferença. Cá estou eu, deitada no meu caixão macio e gostoso, e até uns minutos atrás sentia-me tão sossegada e contente no meu descanso modesto e pacato, que cheguei a pensar que nada na vida me aconteceu de mais agradável que a morte.
Mas nada no mundo é permanente, nem o prazer nem o desgosto, nem mesmo depois da morte, e uns minutos atrás começou a surgir em minha mente uma tênue inquietação. As pessoas passam em frente ao caixão e exclamam: “Olha como está linda, parece uma rosa!”. “Parece uma rosa, parece uma rosa…” E, de tanto falarem em rosas, lembrei-me da minha roseira e, pela primeira vez desde que morri, senti um certo desassossego e lamentei ter morrido. Quem cuidará agora da minha roseira? Olhei cuidadosamente ao meu redor: ninguém. Lá estão meus filhos, meus netos… mas ninguém, eu tive a certeza, ninguém se interessará por uma roseira.
Ganhei essa roseira da minha mãe, no dia em que eu passei no vestibular, há tantos e tantos anos. Minha mãe era uma mulher simples, humilde, que nada entendia de estudos, mas que muito sabia da vida. Estava transbordante de orgulho e de alegria, seu sonho sempre foi ver sua filha se formar, queria que eu tivesse um destino diferente do dela. E para isso eu fiz infinitos esforços, trabalhei dobrado para poder pagar o pré-vestibular, estudei obsessivamente, passei noites e noites em vela.
Mas destino é destino, e ele é regido por forças alheias à vontade do homem, por criaturas celestiais ou do céu banidas, ou simplesmente pelo acaso, pelo absurdo, ninguém sabe por quê. Minha mãe adoeceu. Minha pobre mãe, depois de uma vida inteira de abnegação e labuta, veio adoecer no momento em que o único sonho de sua vida poderia ter-se realizado. Tive que desistir da universidade. Remédios, operações, tratamentos, tinha que pagá-los de alguma forma. Ou esperar que a saúde pública a deixasse morrer lentamente. Consegui outro emprego, saía cedo de manhã e só chegava à noite, para encontrar minha mãe deitada e sem forças, mas aguardando-me acordada e com um dificultoso sorriso. Enquanto a roseira floria, minha mãe enfraquecia, desvanecia-se lentamente, e eu enlouquecia porque o dinheiro nunca alcançava para pagar os remédios.
Foi então que cedi à pressão do meu chefe. Há vários meses que ele me cercava, fazendo de tudo para que eu deitasse com ele, prometendo aumentos e regalias e ameaçando-me com a demissão. Entrei em seu escritório na hora do almoço, e disse-lhe que precisava de um empréstimo, pois minha mãe estava morrendo e não tinha dinheiro para os remédios. Sorriu. E foi ali mesmo que perdi minha virgindade, de bruços sobre a mesa onde se espalhavam os materiais de publicidade das roupas da última moda. O pobre homem. Tão pequenos prazeres para tanta perda de humanidade. É tão pedregosa a estrada da vida, que nunca entendi por que tanta gente dedica seus dias a torná-la ainda mais dolorosa. Hoje ele está morto, como eu. Afinal, somos todos iguais.
Depois disso, não tinha por que me preocupar com os escrúpulos. Fazer com um, fazer com outro, tanto faz, é tudo mais ou menos a mesma coisa. Com o tempo a gente se acostuma, o ser humano é assim, acostuma-se a tudo. Pelo menos assim eu podia comprar os remédios e não ficar desesperada cada vez que o dinheiro acabava. Quando chegava de madrugada, e não havia sabão no mundo que tirasse a sujeira do corpo e da alma, ia molhar minha roseira, e ao seu lado ficava sentada muito tempo, maravilhada ao ver que suas pétalas continuavam vermelhas, verdes suas folhas, exuberantes suas formas delineadas no resplendor da alvorada, intocadas pela poluição do mundo.
Minha mãe morreu. Coisas do destino. Com remédios ou sem remédios, lá se foi, e eu fiquei com as mãos vazias e apenas uma roseira como lembrança.
Poderia, então, ter voltado aos estudos, ter realizado o sonho da minha mãe. Mas tinha as dívidas. E, além disso, estava grávida. Minhas amigas, colegas de profissão, recomendaram o aborto. Mas eu via minha roseira, a vida que brotava luminosa a cada dia, e soube que não poderia arrancar o fruto do meu próprio ventre.
Muitas vezes me perguntei se eu fui uma boa mãe. Mas isso foi antes. Depois, deixei de pensar nisso. De qualquer forma, não se pode mudar o passado. Mas agora, com a ociosidade da morte, voltam as perguntas há tanto tempo enterradas. Não, acho que não fui uma boa mãe. É difícil ser mãe e puta ao mesmo tempo, coisas antípodas.
De qualquer forma, tentei. Tentei muito. Tive três filhos: dois homens e uma mulher, todos de pais diferentes, anônimos, desconhecidos, frutos de encontros inconseqüentes. Eles nunca souberam, nem da sua origem nem da minha profissão. Inventei todo tipo de empregos e ocupações importantíssimas para justificar minhas ausências noturnas, coisas que só uma criança acreditaria. E criei um pai mítico para eles. Era marinheiro, viajava muito. Depois morreu, numa tempestade. Morte heróica, terminou se afogando para salvar uma menina. Era bonito, forte, honesto, uma beleza. Até eu acabei me apaixonando por ele, e tão convincente foi minha fantasia, que não me surpreenderia se daqui a pouco me encontrasse com ele, em algum recanto da morte, ainda cheirando a algas e maresia.
Suportei todo tipo de humilhações e atropelos. Coisas do ofício, coisas da vida. Sem falar dos remorsos, da angústia, da solidão. Dignidade: que estranho sabor tem essa palavra, como tantas outras, deste lado da morte. Coisas sem sentido, palavras sem peso, vazias. Mas fazem parte da vida. Na vida elas pesam, são coisas imensas. Passei a maior parte da minha vida tentando não perder minha dignidade, segurando-a com todas as minhas forças no meio da tormenta. E, quando sentia que a tinha perdido, minha roseira a devolvia-me. Porque, em minha roseira, morava minha mãe, sempre otimista, sempre florida, sempre ao meu lado, me presenteando com o vermelho das suas pétalas, sem julgamentos nem acusações, e me mostrando que até no esterco podem nascer coisas belas.
Durante anos e anos economizei tudo o que pude, sem deixar de mandar os filhos para a escola e comprar livros e cadernos e lápis de cor e tudo o que eles pudessem precisar para se tornarem pessoas honestas, livres, felizes. Ingenuidade pensar que alguém pode ser realmente feliz. A infelicidade faz parte da vida tanto quanto a fome. Sacia-se durante um tempo, mas, em algum momento, há de voltar. Sempre falta alguma coisa, o homem é sempre incompleto. No caso deles, faltou o cuidado, uma intimidade mais profunda e estável. Como disse, é difícil ser puta e mãe. Mas, sobretudo, faltou um pai de verdade. O pai mítico usurpou meu lugar. Comparavam-me a ele e, ao lado do herói das mil qualidades, eu fazia uma lamentável figura: uma mãe ausente que trabalhava em horários esquisitos, levantava ao meio dia, conversava com as flores e andava triste e melancólica a maior parte do tempo.
Quando tive suficiente dinheiro para largar de vez o ofício e abrir uma pequena vendinha, sentindo que por fim minha consciência poderia descansar, meus filhos me recriminaram. Achavam espantoso e inaceitável que sua mãe se resignasse a viver das rendas de um mercadinho miserável. Não trabalhava para uma firma importante? Não virava as noites projetando campanhas publicitárias e outras coisas imprescindíveis?
Que estranha é a morte. Eu, que pensava que ela era paz e descanso, vejo agora que é tudo o contrário. Depois de tanto tempo cultivando minha solidão, aprendendo a viver sem remorsos nem rancores, deu-me agora de pensar nestas coisas. Meus filhos se foram, depois de formados, para viver suas vidas longe de mim. Realizei o sonho da minha mãe, mas os sonhos raramente são como os sonhamos. Todos terminaram a universidade e nunca pensaram em agradecer meus esforços. Ao contrário, sentiram-se alegres de poderem afastar-se de mim, livres do peso de uma mãe fracassada. Juliano foi para Brasília, Felipe para São Paulo, e tão ocupados estão com seus muitos negócios, que nunca tiveram tempo para visitar esta velha que vivia enfiada nesta casa sozinha, falando com uma roseira como uma louca. Só Teresina ficou na cidade, mas ela não gosta de sair daquela cobertura dela, e muito menos vir aqui, porque não tem garagem e não gosta de estacionar seu carro novo na rua.
Meus filhos… Aí estão eles, em pé, perto da minha cabeça, conversando. Não sabem que posso ouvi-los e por isso conversam descontraidamente de seus negócios, de suas viagens e de suas últimas compras, conservando apenas o olhar baixo e a voz taciturna, para o resguardo das aparências e benefício dos convidados.
Não quero mais estar aqui. Quero que fechem este caixão e me levem para o Campo Santo e me metam num buraco e acabem com todos os discursos e me cubram de terra, para poder dormir em silêncio e esquecer minha vida e minha morte. Esquecer sobretudo que em alguns dias minha roseira também estará morta, e então será como se eu nunca tivesse existido. Porque, agora que o penso, minha vida pode se reduzir a isso: uma roseira no meio de um deserto de fracassos e desencontros. Mas que impertinência querer que uma vida valha alguma coisa, que dela algo fique para uma suposta posteridade. E o que é a posteridade, afinal, senão um trem de esquecimento que nunca pára, ou que pára em momentos como este, para despejar os seus mortos com solenidade e seguir seu eterno caminho de indiferença?
Lá vêm eles, meus filhos e meus netos, se despedirem pela última vez. Chegou o carro da funerária, agora vão fechar o caixão. Chegou a hora. E minha roseira? Morrerá, enfim, de sede, seca e esquecida, cinza como o resto do mundo? Minha roseira, minha pobre roseira, que será do mundo sem tua beleza? Meus filhos me olham, meus netos também, mas ninguém se atreve a tocar-me, a beijar minha testa fria. Foi-se minha paz e minha alegria de morta. Um pesar doloroso esmaga-me agora.
Fecha-se o caixão e preparo-me para dormir, e tento não pensar nos pés que pisarão minha roseira. Como é escura a escuridão! As vozes da minha família se ouvem longínquas, afasta-se já o barulho do mundo. Mas, de repente, abre-se novamente o caixão e aí está Felipe, meu filho, dizendo: “Esperem um momento”. Meu Deus! Cortou minhas rosas! Matou minha roseira! E agora coloca-as no meu peito e fecha-se novamente o caixão.


Alejandro Reyes é mexicano e mora em Salvador desde 1995. pertence à nova geração de ficcionistas da Bahia. Publicou os seguintes livros de contos: Vidas de Rua (Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1997); O Lacandón (Salvador: Bureau Gráfica e Editira, 1997) e Contos Mexicanos (Salvador: A Romana, 2004). Seu romance inédito A Rainha do Cine Roma, obteve menção honrosa no Prêmio Sesc de Romance 2003. desde 2004, encontra-se em Berkeley, onde concluiu mestrado em Estudos Latino-americanos, na Universidade da Califórnia, sobre a realidade dos meninos de rua. Atualmente faz doutorado em Literatura Latino-americana, na mesma universidade, sobre literatura marginal – Brasil e México.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

A JUVENTUDE DO CENTAURO

Izacyl Guimarães Ferreira

Fazedor do próprio caminho, José Inácio Vieira de Melo
é também um dialogador nato e cultivado

O nome do livro é A infância do centauro, do jovem ainda (pois não está na faixa dos quarenta, que se costuma chamar de “meia idade”) poeta José Inácio Vieira de Melo.
Um livro que tem na contra-capa as palavras de Gerardo Mello Mourão e nas orelhas saudações de nomes como Lêdo Ivo e Ruy Espinheira Filho, entre outros ilustres leitores escritores (essa raça perigosa dos que estão em ambos os lados dos espelhos), não requer mais recomendações, que todas serão supérfluas.
E veja-se ainda a lista de sua fortuna crítica, com dezenas de entradas, entre as quais me descubro entre celebridades.
Centauro. Homem e cavalo. Figura mítica. Mas o poeta, que é do sertão, cavalga o animal com a segurança de quem pisa a terra do sertão em que nasceu e olha o céu da Bahia onde vive, céu em que as estrelas parecem brilhar mais, não fosse ela terra de santos de dois mares, poetas de mil vozes, todos aqueles cheiros de bem comer, bem dançar, bem lutar, bem viver.
Com tudo isso dialoga este poeta, um dialogador nato e cultivado, leitor atento dos mestres e fazedor de seu próprio caminho.
Algo que muito me agrada em seus poemas é que neles nada se esconde. A realidade que vê e vive está inteira, sem máscaras além das permitidas pela poesia, esta realidade superior dada a tão poucos. Além do real que se vê nos seus versos, está a clareza de água limpa de quem tem o que dizer e sabe como dizer.
Dou exemplos:
O primeiro, abre o livro neste quarteto e diz:

Teu centauro te espera,
monta em seu dorso
e vê o mundo pelos olhos da esfinge:
és o enigma, não o decifrador.

Eis, de pronto, o clima criado para a fruição do mistério maior da poesia. O poema termina assim:

Há de existir um lugar
onde os teus mistérios possam descansar.

Adiante nos dirá, confessando por todos nós:

não há deus que me comunique por inteiro.

ILUMINAÇÃO – Mas, dizia eu, este poeta está pisando um chão real e fala a língua geral dos homens, poetas ou leitores, cantadores de feira (que conhece bem...) e sua audiência, e nos comove com esta quase trova doméstica (que, me perdoem, me ecoa de longe eu ter dito em similar celebração “dona de si” num poema de título “Dona Sylvia”):

Dona-de-casa

Os sentimentos areados,
o cristal dos olhos polidos,
o terreiro tão bem varrido.
Minha mãe – senhora de si.

Continuando neste ver e dizer:

Morder o infinito
e sentir o gosto da criação.

// Não sei ser quase.

Acima falei de diálogos. Nem sempre dialogar é raciocinar, i.e. trocar idéias. Pode ser, e por certo será mais diálogo, quando transcende a razão e penetra na área da iluminação, como neste poema para Cecília Meireles

Cecília não é nome para se colocar em filha.
Cecília é única. Uma deusa que conheço.
..................................................................
Cecília é um templo dentro do poeta que sou.

Outra qualidade deste poeta do real da vida e da magia da palavra é, forte, a mescla destas duas faces da existência: o dia-a-dia, que sabe celebrar com naturalidade e ternura, e a noturnidade que nos cerca, aquela esfinge pronta a devorar os famintos de verdades ocultas. Entre o dia claro do real e a noite nem sempre estrelada de destinos, por onde andamos todos, José Inácio não parece perder-se além do suportável – mistério de bicho homem/centauro? – e em romaria, palavra de seu primeiro livro e peregrinação de sua poesia, celebra. Celebrar é o que nos cabe, já ensinava Rilke, poeta de ombros que anjos, Orfeu e mulheres souberam tocar, que um deus (qual?) soube tocar.
Fico a pensar, diante de uma poesia tão segura de si, se esta é a infância ou a juventude do centauro, como cavalgará o poeta décadas adiante?


Artigo publicado no A Tarde Cultural, em 14 de julho de 2007, em Salvador, Bahia. Fotógrafo: Ricardo Prado

Izacyl Guimarães Ferreira escreve, traduz e comenta poesia. Edita a revista “O Escritor” e o portal
www.ube.org.br, da União Brasileira de Escritores, em São Paulo, entidade da qual é Presidente do Conselho. Tem 15 livros publicados, entre eles "Discurso urbano" (2007), vencedor do Prêmio de Literatura 2008 da Academia Brasileira de Letras , categoria poesia.

JIVM - TEMPLO



T E M P L O
Para Cecília Meireles


Cecília não é nome para se colocar em filha.
Cecília é única. Uma deusa que conheço.

Ela habita nas esferas do delírio.
Seus versos são de veludo e acariciam os meus sentidos.
O olor que exala de suas estrofes é um bálsamo para o meu ser.

Cecília é um templo de muitas faces.
As canções que estão na sua poética são luminosas.
Cecília é um templo dentro do poeta que sou.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

ANTÔNIO TORRES RUMO À ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

O escritor Antônio Torres é um dos candidatos à cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, vaga desde a morte da memorialista Zélia Gattai. É importante lembrar que a cadeira 23 vem sendo ocupada por escritores baianos há 78 anos, passando por Otávio Mangabeira, Jorge Amado e Zélia Gattai. Acredito ser importante para a literatura brasileira que Antônio Torres ocupe essa vaga, não apenas para manter uma tradição que perdura a 78 anos, mas pela valiosa contribuição que vem dando à nossa cultura com a publicação de seus livros, como podemos constatar em sua biografia, logo abaixo.
JIVM

ANTÔNIO TORRES nasceu na pequena cidade de Junco (hoje Sátiro Dias), no interior da Bahia, no dia 13 de setembro de 1940. Ainda menino, mudou-se para Alagoinhas para fazer o Ginásio, mais tarde foi parar em Salvador, capital baiana, onde se tornou repórter do Jornal da Bahia. Aos 20 anos transferiu-se para São Paulo, empregando-se no diário Última Hora. Lá, mudou de ramo e passou a trabalhar em publicidade. Viveu por três anos em Portugal e atualmente mora no Rio de Janeiro, onde passou a se dedicar exclusivamente à atividade literária. É casado com Sonia Torres, doutora em literatura comparada, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), e tem dois filhos,Gabriel e Tiago.
Aos 32 anos, Antônio Torres lançou seu primeiro romance, Um cão uivando para a Lua, que causou grande impacto, sendo considerado pela crítica “a revelação do ano”. O segundo Os Homens dos Pés Redondos, confirmou as qualidades do primeiro livro. O grande sucesso, porém, veio em 1976, quando publicou Essa terra, narrativa de fortes pinceladas autobiográficas que aborda a questão do êxodo rural de nordestinos em busca de uma vida melhor nas grandes metrópoles do Sul, principalmente São Paulo.
Hoje considerada uma obra-prima, Essa terra ganhou uma edição francesa em 1984, abrindo o caminho para a carreira internacional do escritor baiano, que hoje tem seus livros publicados em Cuba, na Argentina, França, Alemanha, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, Israel, Holanda, , Espanha e Portugal. Em 2001 a Editora Record lançou uma reedição comemorativa (25 anos) de Essa Terra. Torres, porém, não restringiu seu universo ao interior do Brasil. Passeia com a mesma desenvoltura por cenários rurais e urbanos, como em Um cão uivando para a Lua, Os homens dos pés redondos, Balada da infância perdida e Um táxi para Viena d’Áustria.
Em 1997, Torres decidiu retornar ao tema e aos personagens do consagrado Essa terra. Vinte anos depois, narrador e protagonista voltam à pequena Junco em O cachorro e o lobo, para encontrar uma cidade já transformada pela chegada do progresso. É um romance de fina carpintaria literária que foi saudado pela crítica, tanto no Brasil como na França, onde foi publicado em 2001.
Foi condecorado pelo governo francês, em 1998, como “Chevalier des Arts et des Lettres”, por seus romances publicados na França até então (Essa terra e Um táxi para Viena d'Áustria). Em 2000, ganhou o Prêmio Machado de Assis 2000, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da sua obra. Em 2001, foi o vencedor (junto com Salim Miguel por Nu na escuridão) do Prêmio Zaffari & Bourbon, da 9a. Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, RS, por seu romance Meu querido canibal, no qual Torres se debruça sobre a vida do líder tupinambá Cunhambebe, o mais temido e adorado guerreiro indígena, para traçar um painel das primeiras décadas de história brasileira. Dando seqüência às suas pesquisas históricas, ele escreveu o romance O nobre seqüestrador, que trata da invasão francesa ao Rio de Janeiro em 1711, comandada por René Duguay-Trouin, o corsário de Luis XIV, que sequestrou a cidade durante 50 dias, até que lhe fosse pago um alto resgate para que ela fosse devolvida a seus habitantes. O nobre seqüestardor foi finalista no Prêmio Zaffari & Bourbon de 2003. Em 2006, Antônio Torres publicou o romance Pelo fundo da agulha, com o que fechou uma trilogia iniciada com Essa terra e prosseguida com O cachorro e o lobo. Este livro foi um dos vencedores do Prêmio Jabuti e finalista do Prêmio Zaffari & Bourbon, da Jornada Literária Nacional de Passo Fundo. Em resumo: autor premiado, com várias edições no Brasil e traduções em muitos países, Antônio Torres é um dos nomes mais importantes da sua geração, com um obra expressiva que abrange 11 romances, 1 livro de contos, 1 livro para crianças, 1 livro de crônicas, perfis e memórias. além de dois projetos especiais (O centro das nossas desatenções, sobre o centro do Rio de Janeiro - e que rendeu um documentário para a TV Cultura, São Paulo -, e O circo no Brasil, da série História Visual, da Funarte, Fundação Nacional de Arte). Para outras informações: www.record.com.br

domingo, 22 de junho de 2008

ALUVIÃO POÉTICO

Ronaldo Cagiano

Embora longe do grande público, em razão das dificuldades de divulgação de suas edições independentes e sem distribuição, e conseqüentemente, à margem do processo editorial por residirem fora do hegemônico eixo Rio-São Paulo, há uma geração de escritores em diversas regiões do País produzindo poesia e ficção de qualidade. Principalmente no Nordeste, cada dia temos notícias de autores que publicam, ora com parcos recursos pessoais, ora revelados por algum concurso literário, que vêm despontando em sua região com um trabalho bem recebido pela crítica local, apesar de inalcançáveis pela mídia do Sudeste-Sul.
Entre esses autores, José Inácio Vieira de Melo, alagoano radicado em Salvador, autor de Códigos do Silêncio (2000) e Decifração de Abismos (2002) se destaca tanto como agente cultural, dirigindo o projeto “Poesia na Boca da Noite”, como divulgando sua produção individual. Seu novo livro, A Terceira Romaria (Aboio Livre Edições, 2005, 126 pgs., R$ 20), mostra toda a força lírica e metafórica de uma poesia que traz na sua concepção o coloquial e o erudito, o apelo à intertextualidade e alguns influxos metalingüísticos e paródicos.
A versatilidade desse poeta sintonizado com suas raízes e marcado pelas dores de seu povo, constata-se tanto nos versos de “Bodas de sangue” (Ah Cristina Hoyos, deusa de Espanha,/ vem bailando em nuvens e em versos de Garcia Lorca,/ vem com teus punhais para a minha peixeira de 12 polegadas,/ pois as nossas bodas só podem ser de sangue.) e “Dois momentos” (Entro no poema como quem come cuscuz/ e sai dia afora para encarar a existência) como em “Epitáfio para Guinevere” (Para tu, que trazias os céus dentro dos olhos,/ o relinchar da paixão pagã/ dos cavalos que trago dentro de mim) e “Do pensamento” (O mistério me leva à estrada/ e a estrada revela/ a poeira que sou.// O espanto me conduz à reflexão/ e a reflexão revela/ a peneira que sou.). A sua linguagem incorpora o conhecimento da literatura clássica e os valores de uma poética polissêmica, assimilados no contato com a tradição oral do sertão, marcadamente os mitos religiosos e os signos profanos e no trânsito com outros autores e vertentes.
Nesse aluvião poético, extrai da memória, da infância e do tempo elementos para estabelecer um diálogo com a realidade e a compreensão da natureza de todas as coisas, além de um lirismo que traz candentes abordagens de amores e frustrações. Uma poesia que extravasa o grito interior do homem sufocado por valores anacrônicos, cioso por extrapolar seus limites rurais, inscrevendo um certo questionamento existencial. O autor acaba por instaurar uma catarse espiritual e psicológica a partir de universos lúdicos, de um retorno às suas experiências de vida e uma visita ao homem e à terra castigados do sertão, explorando toda sua carga rítmica e seu potencial mi(s)tico, sem artificialismo ou exageros, porque fruto de rigorosa cuidado e pesquisa da linguagem. E em momentos de profunda confissão, como nestes “Exercícios crísticos” (Trago comigo todos os pecados do mundo/ e sou o cordeiro imolado que alimenta o delírio,/ por isso a glória e a humilhação do vinho:/ não é nada fácil ser juiz da própria loucura.), José Inácio desabafa, expondo seu sentimento do mundo e trazendo fôlego novo à poesia brasileira.


Esculturas: Ramiro Bernabó.

Resenha publicada no Jornal do Brasil, no caderno B - Livros, em 25 de outubro de 2005, no Rio de Janeiro.

Ronaldo Cagiano é poeta, contista e ensaísta. Nasceu em Cataguases (MG) e vive em Brasília desde 1979. Publicou vários títulos, dentre eles “Canção dentro da noite” (poesia, 1999), “Dezembro indigesto” (contos, 2001) e “Concerto para arranha-céus” (contos, 2004).

JIVM - EPITÁFIO PARA GUINEVERE

Ilustração:Renato de almeida

EPITÁFIO PARA GUINEVERE


Cavalos já foram pombos
de asas de nuvem.
Domingos Carvalho da Silva


Meus cavalos choram por ti, égua de olhos azuis.
Não mais invadirei o vento montado no teu galope.

Que fique inscrito na tua lápide
o verso de lágrimas dos meus cavalos.

Para tu, que trazias os céus dentro dos olhos,
o relinchar da paixão pagã
dos cavalos que trago dentro de mim.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

domingo, 15 de junho de 2008

JOSÉ ALCIDES PINTO, POETA SANTO

O poeta José Alcides Pinto era um santo lá do Ceará. Ele fazia milagres por onde passava, milagres em forma de versos que entravam no sentimento das pessoas e as curavam de suas aflições imediatas. Tive o prazer de conhecer esse vate em 2006, quando fui convidado para participar da Bienal Internacional do livro do Ceará. Já conhecia a sua obra e mantínhamos uma correspondência irregular, ou seja, quando em vez trocávamos cartas, sempre enviando livros um para o outro. Mas foi em 20 de agosto de 2006 que apareci em sua casa. Fui recebido como um príncipe pelo poeta e por sua bela filha Jamaica. Conversamos muito, o poeta deu-me alguns de seus livros, leu uns poemas meus, ficou encantado com uns poemas do poeta baiano Affonso Manta, que recitei para ele. Na hora de partir, lembro bem do conselho de José Alcides: “Poeta, seja fiel à sua lira, não deixe que nada atrapalhe o seu caminho, faça sua poesia de acordo com a sua consciência poética, mesmo quando todos disserem que está errado”. Essas palavras têm sido um estímulo grande nessa minha jornada.
José Alcides Pinto deu prova maior de sua santidade ao escrever a Trilogia da Maldição ou ainda os extraordinários Poemas para Lúcifer ou ainda Fúrias do Oráculo. Seu Relicário Pornô é uma espécie de catecismo que não pode faltar aos devotos do prazer. José Alcides Pinto nasceu em São Francisco do Estreito, em Santana do Acaraú, mas nunca vi coração tão largo, tão abrangente. José Alcides Pinto é o meu São Francisco, suas orações estão gravadas no meu imaginário de poeta, no meu sentimento mais humano. José Alcides Pinto agora está encantado, aboiando seus versos na fazenda Equinócio, espraiando sua loucura sagrada no sertão do Acaraú.
JIVM

VERÔNICA DE VATE: JOSÉ ALCIDES PINTO

JOSÉ ALCIDES PINTO, ficcionista e poeta, nasceu em São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú, no Ceará. Filho de José Alexandre Pinto, capitão de tropa de cigano, e de D. Maria do Carmo Pinto, descendente dos índios Tremembés, que se fixaram na povoação de Almofala, no Acaraú, no fim do século XVII.
Diplomou-se em Jornalismo pela Faculdade Nacional de Filosofia da antiga Universidade do Brasil e em Biblioteconomia pela Biblioteca Nacional. Fez o curso de especialização em Pesquisas Bibliográficas em Tecnologia no Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD) e o Curso de História da Américas ela Universidade do Brasil.
Jornalista profissional, tendo ingressado na imprensa muito jovem. Colaborou nos Suplementos Literários do "Diário Carioca",' "O Jornal", "Diário de Notícias", "Correio da Manhã", revista "Leitura" e em toda a imprensa de Fortaleza Pertence à Associação Brasileira de Imprensa (ABI), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro e Sindicato dos Jornalistas Liberais do referido Estado.
Romancista, crítico literário, teatrólogo e poeta, tem livros publicados nesses gêneros, participando de várias antologias nacionais e estrangeiras. Recebeu o Prêmio José de Alencar da Universidade Federal do Ceará referente a obras no gênero Romance e Conto (1969). Coube-lhe, ainda, o Prêmio Categoria Especial para Conto (1970), concedido pela Prefeitura Municipal de Fortaleza. É o principal responsável pela introdução do Movimento Concretista no Ceará. Em 1972 foi incluído na Enciclopédia Delta Larousse.
Participou de antologias nacionais e estran­geiras. Ganhador de vários prêmios, entre eles o Prêmio Nacional da Petrobrás, na categoria conto, 1988, e o Grande Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), 1999. Foi pro­fessor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universida­de Federal do Ceará. Tem livros publicados na área do romance, novela, conto, teatro, poesia e crítica literária. É considerado um poeta de vanguarda e experimental.
José Lemos Monteiro, escri­tor e professor da UFC, escreveu um longo estudo sobre sua obra poética, intitulado O universo mí(s)tico de José Alcides Pinto publica­do pela Imprensa Universitária, em 1979, e que se constitui a pri­meira fonte importante de pesquisa de sua poesia, ao lado do livro A voz interior em José Alcides Pinto, do psiquiatra e poeta Carlos Lopes. Fortaleza. Edição do Autor, 1989; bem como um longo ensaio de Nelly Novaes Coelho – Erotismo, satanismo, loucura, na poesia de José Alcides Pinto Fortaleza, IOCE, 1984. Em 1996, o es­critor Floriano Martins organizou uma antologia crítica da obra de José Alcides Pinto - Fúrias do oráculo, editada pela Universidade Federal do Ceará. Também o professor e escritor Paulo de Tarso (Pardal), publicou um ensaio crítico intitulado O espaço alucinante de José Alcides Pinto, Edições da Universidade Federal do Ceará, 1999. A Editora GRD, Rio, editou em 1996 Cantos de Lúcifer (Poemas Reunidos), com prefácio de Cassiano Ricardo; e a Im­prensa Oficial do Ceará (IOCE), em 1984 lançou Antologia Poé­tica, organizada pelo crítico Rogaciano Leite Filho.
BREVE MEMÓRIA:
10/9/1923 - José Alcides Pinto nasce em São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú, Ceará.
1945 - Muda-se para o Rio de Janeiro, onde trabalha como bedel de aluno. Diploma-se em Jornalismo pela Faculdade Nacional de Filosofia e em Biblioteconomia pelo Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação.
1950 - Em parceria com Ciro Colares e Raimundo Araújo, lança o livro Antologia dos Poetas da Nova Geração.
1952 - Lança seu primeiro livro individual, Noções de Poesia e Arte.
1957 - Volta para Fortaleza, onde lança o Manifesto Concretista.
1964 - Publica seu primeiro romance, O Dragão.
1974 - Publica Os Verdes Abutres da Colina e João Pinto de Maria - Biografia de um Louco, que, junto com O Dragão, formam a chamada Trilogia da Maldição.
1977 - Desliga-se da Universidade Federal do Ceará, onde dava aulas no curso de Comunicação Social. Veste um hábito franciscano e vai morar numa fazenda no sertão cearense.
1986 - Ganha o Prêmio Nacional Petrobrás de Literatura. 2000 - Ganha o Prêmio da Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte.
2003 - A Editora G.R.D publica uma coletânea de poemas de José Alcides Pinto, intitulada Poemas Escolhidos.
03/06/2008 - Morre em conseqüência de um acidente de motocicleta. Estava pronto para lançar dois livros inéditos de poesia, Diário de Berenice e O Algodão dos teus Seios Morenos com o selo Jamaica Editora, nome de uma das filhas.


R É Q U I E M


Eu sou uma capela de andorinhas mortas
um altar destruído.
Eu não escrevi Os verdes abutres da colina
(mas quem o escreveria senão eu?)
Os patrupachas chegam de parte alguma
sentam-se no chão do rancho.
Acaraú é um rio uma cidade um vale uma região?
(aqui jazo)

Os galos urinam nas manhãs
são os nossos pecados.
Meu corpo, partindo em banda, daria uma canoa
um caixão mortuário, uma guitarra.
Pe. Arteiro Antônio Tomás Araken da Frota
de que luz são feitos os meus testículos?
Eu sou mais louco do que um louco?

Por essa tarde de chuva, essa tristeza imensa,
essa agonia: por Rimbaud Baudelaire Poe Artaud
Lautréamont Fernando Pessoa Augusto dos Anjos
por todos e por mim: adeus para sempre – amém!


JOSÉ ALCIDES PINTO

JOSÉ ALCIDES PINTO - EU


E U

Eu sou eu. Íntegro e inviolável dentro
de mim mesmo.
O que não se descobre. Anônimo sob
minha própria espinha.
Atual em minha sombra incorpórea, sem
faltar um só de meus gestos físicos.
Eu sou eu. O fantasma de preto escanchado
no arame do quintal,
sob a sombra das árvores e sob a
sombra da lua
misteriosamente colhendo o silêncio com
as mãos invisíveis e
tecendo uma mortalha com o nó dos dedos
para vestir o próprio corpo.
Eu sou eu. O retrato destituído de vida.
O gesto estático.
O que está no limiar e afogado no abismo.
O que anda vestido e nu, sendo louco e poeta.
Eu sou eu e sozinho. Diverso sobre mim
e sob eu mesmo.
Oculto e visível como a lua caída no poço.
Proclamado como o homem dentro da praça,
no meeting,
sacudindo com os gestos da boca palavras
secas nos olhos da multidão.
Intocável e impossível como o que não se
conhece e não morre.

JOSÉ ALCIDES PINTO

OS ABUTRES DA LOUCURA

José Inácio Vieira de Melo

Uma das obras mais estranhas e instigantes da literatura brasileira contemporânea, Trilogia da Maldição, de José Alcides Pinto, escritor cearense multifacetado, volta ao mercado editorial depois de anos de completo silêncio. Os livros que compõem a TrilogiaO Dragão, Os Verdes Abutres da Colina e João Pinto de Maria (Biografia de um louco) – foram publicados individualmente nas décadas de 60 e 70. São variações sobre a mesma história, mas que não seguem uma seqüência linear ou mesmo cronológica, daí o leitor poder optar em ler na ordem determinada pelo autor ou não.
O que une esses três livros é o espanto, e, sobretudo, a aldeia de Alto dos Angicos de São Francisco do Estreito, uma espécie de Macondo situada nos confins do Ceará. O clima de pesadelo perpassa toda Trilogia, onde fatos disparatados acontecem a todo instante da maneira mais natural possível. Há, também, uma tensão narrativa que caminha para o delírio, para a loucura original. Lá encontramos padres irados com uma comunidade de morrinhas que vive a roubar bodes; um coronel dono de muitas terras e pai de toda aquela gente – como um patriarca bíblico –, e que deita com filhas e netas, seguindo apenas os preceitos das sagradas escrituras: “Crescei e multiplicai e enchei a terra”.
Alto dos Angicos é um lugar onde todas as pessoas, afora as que morrem de acidentes, vivem mais de um século, e só morrem aos pares; um lugar vigiado pelo diabo, os verdes abutres da colina, e que está na iminência do apocalipse. Esse é o universo de José Alcides Pinto, o poeta maldito do sertão do Acaraú.
O Dragão é a célula fundamental da saga de Alto dos Angicos, terra de origem do autor, onde se desenrola o processo romanesco que transforma o espaço histórico-geográfico da aldeia em espaço mítico, e o real passa a ser irreal e o natural, sobrenatural. Desenvolve-se em torno da figura do Padre Tibúrcio, um dos personagens principais dos três romances, que vai destrinchando a vida esquisita daquela povoação amaldiçoada.
Os Verdes Abutres da Colina conta a mesma lenda de O Dragão, perpassada por um aprofundamento que causa a inserção do leitor naquele mundo escatológico e mágico. É a história de Alto dos Angicos, fundada pelo coronel Antônio José Nunes, o garanhão luso. Embora viva um período de desenvolvimento no tempo dos aleatas e peripatas, a maldição continua a rondar o lugar. A sombra dos verdes abutres paira sobre a povoação, anunciando o inevitável: o fim dos tempos. Mas Alto dos Angicos parece fadada à eternidade, pois do nada, ou melhor, das cinzas, tal qual fênix, renasce, assim como a sua comunidade de seculares.
João Pinto de Maria, personagem titular do terceiro romance, é neto do garanhão luso. É homem que acredita no trabalho árduo e na honestidade, é um ser humano movido a trabalho. Sua religião é o trabalho. João Pinto viaja para o Amazonas. Ao voltar para Alto dos Angicos, compra todas as terras da região e passa a ser o homem mais poderoso. Mesmo com poder e prestígio continua na lida árdua. Nunca quis nada de ninguém, em contrapartida esperava que nada pedissem da sua fortuna. João Pinto de Maria vivia para juntar. E aí estava a sua loucura, mas uma loucura que caminhava para a santidade, pois pecava por desconhecer o que fosse pecado.
Autor de obra multiforme, José Alcides Pinto, poeta do escatológico e do surrealismo, comunga com Baudelaire, Lautréamont e Rimbaud. Na ficção, compartilha da forma de Gabriel Garcia Márquez, Jorge Luis Borges e Júlio Cortazar, mestres latinos da literatura fantástica. Isso diz muito pouco sobre o autor de Trilogia da Maldição, apenas a leitura de sua obra é que pode esclarecer o seu gênio criador. Trilogia da Maldição é uma bênção dentro da literatura brasileira contemporânea. Deixar de ler a saga de Alto dos Angicos de São Francisco do Estreito é que pode ser uma verdadeira maldição.


Resenha publicada no jornal Mercatto, em Salvador, em fevereiro de 2003.

JIVM - DILÚVIO


D I L Ú V I O


O olho daquele pingo de chuva que vem caindo
revela a minha convicção: acredito no dilúvio.

Não tem mais jeito, para toda árvore que olho
só vejo tábuas para construir a arca da salvação.

Sei que todos riem de mim, fazem galhofa
e acham mesmo que estou com um chocalho no juízo.

Mas é que tive um sonho: um ser vestido de água
inundava o meu dia a minha noite a minha vida.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

segunda-feira, 2 de junho de 2008

FOTOGRAFIA: RICARDO PRADO

NOVOS OLHARES DA BAHIA
Por Adriana Jacob

Ritos, festas, pessoas e paisagens do cotidiano
inspiram a arte do fotógrafo
Ricardo Prado


Do ritual de fé das ialorixás na Festa do Bembé do Mercado, em Santo Amaro da Purificação, até o cansaço estampado no rosto dos passageiros do trem do subúrbio ferroviário de Salvador. Do brilho amarelo do sol refletido no mar, à escuridão misteriosa das águas do Dique do Tororó. As manifestações culturais e religiosas que compõem a identidade baiana inspiram o trabalho do fotógrafo Ricardo Prado.

“Tento mostrar a beleza das pessoas de maneira espontânea, para que a fotografia revele a dignidade desses homens e mulheres”, explica o artista mineiro, radicado há 18 anos em Salvador. É assim com o semblante pensativo da irmã da Boa Morte. É assim com o menino que brinca, de cabeça baixa, na areia do Rio Vermelho, no registro batizado por Prado como Abaporu Nagô.

Caçador de imagens, o artista captura cenas do cotidiano ou de rituais sagrados sempre de forma natural, sem qualquer tipo de interferência sobre o objeto ou pessoa observada. “Busco registrar um olhar com novas cores sobre a realidade. Mas são sempre cores reais, por isso prefiro não interferir no cenário, apenas mostrar um novo ângulo ou horizonte”, afirma o fotógrafo.

A cidade de Salvador é outro dos focos do olhar de Ricardo Prado. Seja através de imagens aéreas da orla da capital baiana ou do entardecer no Porto da Barra, há luzes e movimentos que povoam cada cenário do lugar escolhido pelo fotógrafo para viver. Um de seus bairros preferidos, o Rio Vermelho, foi tema da exposição Odoiá – Mãe do Rio, realizada em dezembro de 2007, no Teatro Gamboa Nova, e em fevereiro de 2008, no Bar e Restaurante Póstudo. A mostra reuniu fotografias de vestígios de Iemanjá no cotidiano do bairro boêmio.

Em busca de representações da divindade considerada a mãe da grande maioria dos orixás, Ricardo Prado mergulhou no simbolismo presente nas praças, ruas, nas areias e no mar do bairro. “Em cada canto, é possível ver a própria representação da orixá, tanto em forma de esculturas da deusa, como na atividade dos pescadores, nos peixes, nas cores e formas da água e das pessoas que passam por ali”, descreve o fotógrafo, que trabalha agora na produção de um banco de imagens da Bahia. Contato: (71) 9959 0621.


Adriana Jacob é jornalista.

Matéria publicada na revista Festa & Folia #20, Salvador, Bahia, em abril de 2008.

domingo, 1 de junho de 2008

JIVM - FOTOGRAFIA DE UM POEMA


FOTOGRAFIA DE UM POEMA

Para Ricardo Prado



De óculos escuros
o homem se aproxima
e me pede um poema.

Olho em suas lentes e indago:
– O mundo é uma cena?



JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

JIVM - REGISTRO DA FALA DO SILÊNCIO



REGISTRO DA FALA DO SILÊNCIO



O que mais tem falado em mim é o silêncio,
mas um silêncio plural – de fogo –
que com sua língua escarlate abrasa as palavras
e as queima antes de serem.

Um silêncio de lá, de longe – das plagas interiores –
que fala o tempo todo sem dar nome ao dito.

Em sonho é imagem: e vejo, inebriado,
a sua cara – semblante formidável:
tão formoso quanto pode ser um deus.

O silêncio, este que fala e de que tanto falo,
é um hieroglífico poema,
e estes versos: tradução e codificação.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

sábado, 31 de maio de 2008

A GEOLÍRICA DE JIVM

Foed Castro Chamma

Há em José Inácio Vieira de Melo ressonância tardia do Aedo na maneira de conduzir o poema visando ao ouvinte. A passagem pelo cordel identifica-o com uma tradição poética nordestina de eminente vínculo telúrico emoldurado na década de 30 pela saga imorredoura de Lampião e Maria Bonita. Ariano Suassuna, de um lado, e Carlos Newton Júnior de outro, revigoram sob a centelha armorial do Romance da Pedra do Reino e a epopéia Canudos essa tomada de posição de José Inácio em uma poesia alagoano-baiana fulgurante, marcada diria mesmo a ferro e fogo em todos os poemas de A Terceira Romaria (Aboio Livre Edições, Salvador – Bahia, 2005).
Hildeberto Barbosa Filho no prefácio à edição que traz o apoio do Governo da Bahia discorre sobre “as pulsões vitais dos vocábulos” ao apresentar A Terceira Romaria. A essas pulsões o leitor se detém seguro de que o poeta “sobe a pedra, vai para o alto”, como a cabra (p. 73), busca ali o pedestal, “onde estão o menino e a arte” a contemplar “os olhos daquelas línguas”... As vozes que ouve dizem, “preciso prosseguir”. A metáfora ou pequeno mito na acepção crítica de Franklin de Oliveira é a algaravia do poeta ao rasgar a violência com a bala que dois loucos disparam,“decifrando os segredos das cavernas”. (...), “as tranças azuis de uma poça, ou gota, ou nuvem.”. O vinho é o “sal do mar” dos olhos a inscrever a verdade. Uma pingueira precipita o poeta a lonjuras de um espelho onde a sombra lava os “pingos do sol”. As plagas dos sertões, o parir do sol, o seixo das estradas e o informe são o labirinto de “O homem da estrada”, p. 30.. “Na boca da noite (...) sou eu quem sorri.” Um cavalo montado na ventania/ o candeeiro aceso pelo homem/ a orquestra das cigarras/ são ingredientes de um “Poema obscuro” construído de madrugada por falta do que fazer, confessa JIVM. “Força verde” do Juízo Final (...) são os “Caramujos” de Manjerona, Paixão, Fachada, Meia-Noite, a ouvir o mar. Em “Tradição” p. 36, a bezerra da Paixão é ferrada por Zé Inácio. Em “Nuvem passageira” (...) um cavalo negro galopa pelos campos azuis. É um dragão cuspindo fumaça, conclui para mais adiante.o poeta confessar que sente “a chuva de leite nos olhos, tem as mãos encardidas de leite, entende-se com as beldroegas (p. 38) . “peitos brutos da brita” é melhor do que “se ordenhar” em “êxtase orgástico”. A figura de “Ciço Cerqueiro”, por outro lado, e a força da coalhada, são o resumo do “Sertão” (p. 39) em um desenho que lembra os carvões de Goya.
José Inácio Vieira de Melo, em descontraída alusão à metafísica da dualidade, díada do ser na negação, que Hegel aborda na Lógica e na Fenomenologia do espírito, ao referir-se à realidade, se confessa “Peregrino de mim mesmo/ no meio da travessia”. A centelha do azul da infância está na brasa da lembrança da tarde queimada no “meio do tempo”. A lua é um voyeur da deusa morena e dos gemidos de cantigas dos deuses. A mudez do urubu é em “forma” de canto, “Disritmia” é vislumbrar o silêncio na menina de teus olhos. Há uma tautologia em meio a tantas metáforas contundentes: “os oráculos não se enganam” (p. 52). Tâmara, sâmaras, cântaros, ancas, tetas, punhais, bodas, são termos a unir Granada de Lorca ao mundo do Sertão nordestino. O galo de sangue de fogo adivinha a beleza que o poeta decanta ao evocar o “Bailador gitano.”, p. 54.
Em “Toada de Despedida”, a certeza de atemporalidade sobrepaira na simultaneidade virtual de um registro a denotar o Acaso de Um lance de dados mallarmeano. “Brasas do Sol” é o lugar do poeta na decantação do agreste. Suspenso num suspiro, deita-se debaixo do pé de algaroba esquecido das “chaves” e das “palavras”. O fugaz é eternidade na pedra que o poeta pisa e o arvoredo brota, afirma (p.66/7), tal a palha da eterna fogueira de um “eu que és tu e tu és eu”. O mundo é o acender uma luz e revelar o lugar ao filho do Sol, Ígneo – Ignácio – Inácio.
Hildeberto Barbosa Filho escava a “metalingüística do concreto” na poesia nordestinada de JIVM, visceralmente comprometida com o Mito. O “chão rachado” é “solo sagrado”. Um silêncio de fogo fala por José Inácio, “silêncio plural a abrasar as palavras”. “Carotes de lama são as águas” da “Seca”, p. 82, “espelhos d´água e pratos fartos” são a esperança. A água canta loas, o rio acalma. O poeta agradece “ao único Deus qualquer”. No “Jardim das Algarobeiras” os pássaros cantam, a vaca muge, o cavalo relincha, a rã coaxa. (....) O galo inaugura o dia, o vento é andarilho.
Fiat lux: (p. 97.), repitamos, acrescentando-se que no brilho das metáforas de JIVM resplandece um deus. Ao mirar a roça de estrelas o sono é sereno ao pastor peregrino no “Deserto” a buscar o silêncio do corvo doido frente à “Zoada” que o aflige, p. 103. O verso tem leveza de folha. A poesia é salvação. “Um mar de vidro no espelho nos separa”, conclui o poeta. Em aromas da rosa da “Pastora”, José Inácio parodia uma antífona. “A Sagração do Pecado” é “malícia silenciosa” a investir contra Menelau, Urias, Lot, Teseu, José. Quanta lembrança bíblica sugere a doçura do Amor. Em “Decifração de Abismos” está o amortalhar do gênio, p. 117. O menino (...) reconhece-se na “Ave”. O chocalho dos deuses chama o homem à cruz da paixão rumo ao nada, “à verdade de lugar nenhum”. “A morte promete jardins” ao brilho dos cacos de agora, p. 122. “O pó da estrada é o único fim” à boca escancarada a grafar com pena e tinta as palavras. A poesia marca a ferro e fogo, repito, a alma de José Inácio Vieira de Melo.
Tal à leitura acompanhando Hildeberto Barbosa Filho no prefácio a A Terceira Romaria. No núcleo de “O Universo da terra e da origem” não se esgotam as parábolas de uma “romaria lírica entremeada do topos “sagrado”. “Nos arredores de uma geografia rural” está a “memória poética” originária de Olho d´Água, terra natal de José Inácio. Ribeira de Traipu, Maturi, Cerca de Pedra, correspondem a uma geolírica repleta de um fulgor estilístico que enriquece a poesia brasileira contemporânea.
A projeção simbólica de “Bodas de Sangue” permeia a fala concreta do amoroso do Sertão. “Filho do Sol”, José Inácio Vieira Melo é inesgotável, como o João Cabral de “Uma faca só lâmina”. O poeta da poesia identificada com a vida está na sedução dos vocábulos, afirma Hildeberto Barbosa Filho. Imagens vertiginosas, acrescento, emolduram a realidade à espreita do canto em A Terceira Romaria.


Esculturas: Ramiro Bernabó

Foed Castro Chamma é poeta e ensaísta. Publicou, entre outros livros, Pedra de Transmutação (Prêmio Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, 1984), Navio fantasma (1999) e Antologia poética (2001).

Artigo escrito em junho de 2005, publicado no Jornal de Poesia, editado por Soares Feitosa.

terça-feira, 27 de maio de 2008

VERÔNICA DE VATE: ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA BARRETO

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA BARRETO – natural de Santa Bárbara-Bahia. Professor, poeta e cordelista.. Graduado em Letras Vernáculas e pós-graduado em Psicopedagogia e Literatura Brasileira.
Vários trabalhos em jornais, revistas e antologias, tendo publicado mais de 60 folhetos de cordel que abordam temas ligados à Educação, problemas sociais, futebol, humor.
Seu terceiro livro de poemas, Flores de umburana, foi publicado em dezembro de 2006 pelo Selo Letras da Bahia. Ultimamente Antonio Barreto vem se dedicando à cantoria e ministrando palestras e oficinas de cordel em escolas públicas, particulares, faculdades e outras instituições.

Trabalhos sobre Literatura de Cordel realizados durante o ano de 2008:
OFICINAS: Colégio Vila-Lobos – Avenida Paralela – 27 de março de 2008. Caravana da Leitura/Fundação Pedro Calmon/Camamu - Bahia 25/26 de março – 2008. Caravana da Leitura/Fundação Pedro Calmon/ Igrapiúna-Ba.– 29 e 30 de abril de 2008. Escola Vila Lobos – 28 de março de 2008. Escola Estadual Genny Magalhães – Itapuã – 25 de abril de 2008. Colóquio da Cultura Popular – Irará-Bahia – 19 de março de 2008.
PALESTRAS: Semana pedagógica em Saubara. Tema: Leitura – 28/02/2008. Caravava da Leitura – Camamu-Bahia. Tema: Estímulo à Leitura – 25 de março de 2008. Colóquio da Cultura Popular – Irará-Bahia – Tema: Cordel e Cultura Popular - 18 de abril de 2008.
PARTICIPAÇÃO EM EVENTOS: Participação no show de João Bá – no Restaurante Grande Sertão- 26/01/2008. Cachoeira – 10 12 de janeiro. Dia nacional da poesia na Praça da Piedade – 14/03/2008. Recital no Banco do Brasil – 14/03/2008. Recital no Centro Tecnológico da Bahia – 14/03/2008. Lançamento do cordel : A peleja de uma mulher arretada com um cabra cismado” – 23 de fevereiro de 2008. Lançamento do cordel “As Aventuras de Zé Parabala no Sertão de Santa Bárbara – 8 de março de 2008. Sindicato dos Trabalhadores. Participação no show de Tonton Flores – Varanda do Cantador – Projeto de Wilson Aragão – Salvador-BA – 10 de março de 2008. Participação no show de Cescé – Varanda do Cantador – Projeto de Wilson Aragão – Salvador-BA – 24 de março de 2008. Participação no Projeto Encontro com o Escritor – Biblioteca Central e Fundação pedro Calmon – Salvador – 11 de abril de 2008. Lançamento do folheto de cordel “ Um político exemplar chamado Franscisco Pinto”- Colóquio da Cultura Popular – Irará-Ba – 25 de abril de 2008.
Antonio Carlos de Oliveira Barreto vai apresentar-se, no próximo dia 6 de junho, no projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, Bahia, coordenado por Edmar Vieira.


CANTO LÍRICO DE UM SERTANEJO


Sou do seio das catingas
lá das bandas do sertão
carrego na veia a essência
dos acordes do azulão
do açum preto o sustenido
da cigarra o alarido
da coruja a solidão.

Sou o Pajé lá da floresta
o Xamã buscando a cura
de toda ferida aberta
da mais profunda loucura
sonho eterno de menino
eu sou o badalar do sino
e o doce da rapadura.

Bode deserto no pasto
apartado do rebanho
Asa Branca em retirada
cobra que não tem tamanho
o tatu-bola escondido
um lobisomem sofrido
assanhaço sem assanho.

Sou caipira itinerante
águas velozes do rio
bem-te-vi anunciando
que andorinha está no cio
o verão queimando a mata
um cachorro vira-lata
todas as noites de frio.

Galo da crista vermelha
no seu despertar da aurora
berro do garrote magro
que o verão então devora
canário longe do ninho
voando sempre sozinho
desde as lonjuras de outrora.

Urubu buscando a presa
papagaio falador
gavião beijando as nuvens
inocente beija-flor
sou preguiça descansando
nessa estrada passeando
sem inveja do condor.

Galope incansável sou
do meu cavalo alazão
gozando da liberdade
indiferente à razão
que vai tangendo a boiada
numa longa caminhada
nos capinzais do sertão.

Todo sol de primavera
com seus raios de esperança
colorindo a nostalgia
esturricando a lembrança
incendiando o amanhã
das aves de ‘arribaçã’
e do meu sonhar-criança.

Eu sou o arrebol primeiro
com a corneta da alegria
convocando a passarada
a mais uma sinfonia
sou também o entardecer
e o escarlate-morrer
vestido de poesia.

Sou o amor dos inocentes
o vento abrindo janela
soprando nos meus ouvidos
que vai chegar Cinderela
promessas de uma princesa:
la belle de jour surpresa
que ainda espero por ela.

Sou a sanfona do “Lua”
pondo estrelas a dançar
espada de Virgulino
querendo sangue inventar
Conselheiro na idéia
coisas do arco da “véia”
tentando me alucinar.

Sou a imensidão do açude
suas águas cristalinas
lágrimas desatinadas
escorrendo nas colinas
todo o frio das invernadas
a solidão das manadas
as serpentes assassinas.

Picula, bumba-meu-boi
dança de roda ao luar
saci-pererê no mato
sou vaga-lume a piscar
cobra cega vendo tudo
sou caipira e não me iludo
colorindo meu sonhar.

Sonhar de pombo-correio
levando cartas de amor
atravessando caatingas
no seu singelo labor
fugindo lá das montanhas
realizando façanhas
com destino a Salvador.

Umbuzeiro solitário
contando estrelas no céu
mandacaru sem espinhos
a coivara em fogaréu
um tição de fogo aceso
e este mundo todo preso
debaixo do meu chapéu.

Sou o abôio dos vaqueiros
pelos ventos da alegria
nessa estrada empoeirada
seja noite, ou luz do dia
sou o berro da manadas
as estrelas prateadas
a viola e a cantoria.

O cantar de um menestrel
a flauta de Pan chorando
a gaita com seu lamento
a primavera chegando
o canto do bacurau
o Sítio do Pica-Pau
em meus sonhos habitando.

Sou o mistério luminoso
do pequeno vaga-lume
brincadeira de cometas
das rosas todo o perfume
sou a solidão das rochas
o fogo aceso das tochas
das noites todo o negrume.

As vestes das nuvens brancas
traduzindo calmaria
derretendo-se no solo
e arejando a escadaria
de Santa Bárbara amada
a Pasárgada comparada
para me dar moradia.

Cavaleiro, anjo de luz
nesse abrir-fechar porteira
explorando meu sertão
com bravura e brincadeira
mas logo se alguém se atreve
lanço fogo, água e neve
saco da espada guerreira.

Eu sou menino-ancião
porta aberta pro mistério
magia de Salomão
matuto falando sério
um compulsivo do estudo
querendo saber de tudo
mas às vezes sem critério.

Rodas do carro-de-boi
nas estradas do sem fim
com seu gemido sem cura
acenando adeus pra mim
apagando da memória
a doce infância de glória
desse louco querubim.

Eu sou uma casinha branca
cercada pela alegria
encoberta de esperança
que o futuro já anuncia
o chegar da primavera
e também da Nova Era
na mais perfeita harmonia.

Sou o breu que banha a noite
de suspense e de mistério
segredos da madrugada
silêncio do monastério
alarido dos pardais
a dança dos bambuzais
no tablado do etéreo.

Meu avô tirando leite
na vaquinha holandesa
canarinho na cancela
com seu canto de surpresa
minha avó fazendo renda
minha mãe com sua prenda
colorindo a farta mesa.

Minhas irmãs no varal
meus irmãos lá no roçado
abraçados à enxada
e também puxando arado
semeando seu sustento
desprovidos de lamento
tendo a sorte do seu lado.

Do jacarandá eu sou
fortaleza e solidão
sonho que desaparece
na iminência da extinção
ante o corte do machado
e a ganância do mercado
dessa industrialização.

Eu sou o acre do limão
laranja que nunca acaba
o gosto do tamarindo
o mel da jabuticaba
o maracujá açu
a castanha do caju
e o gostinho da goiaba.

Do jasmim sou todo aroma
do canavial o mel
da gaiola o passarinho
o esperar Papai Noel
o pavão e sua beleza
o verde da Natureza
o Maestro e seu pincel.

Mas o tempo em disparada
não me espera lá na esquina
quando do meu sonho acordo
minha vida então declina
e noutra realidade
solitário na cidade
vou cumprindo minha sina.

O trem que me conduziu
diluiu-se na estação
não há passagem de volta
pra retornar ao sertão.
Sem asas para voar
sem sonhos para sonhar
vou seguindo essa missão.

E na selva de cimento
já não sou anjo de luz
junto aos animais falantes
eu vou carregando a cruz.
Sou mais um na multidão
perdido na contramão:
o destino me conduz.

Mas não me entrego porque
sertanejo é mais que forte
é raio rasgando o céu
muito mais que o vento-norte
semente de luz plantada
todo desafio da estrada
de quem nunca teme a morte...


ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA BARRETO