Por Ronaldo Correia de Brito
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| "O espinho e a folha como símbolos da poesia de José Inácio: lirismo e sobrevivência, beleza e alimento " |
José Inácio Vieira de Melo me
deu seu livro Pedra Só com duas lembranças da fazenda onde ele se esconde: um
espinho de mandacaru e uma folha de algarobeira. Servindo de marcadores entre
as páginas e os poemas, interpretei o espinho e a folha como símbolos da poesia
de José Inácio: lirismo e sobrevivência, beleza e alimento.
Uma vez por ano, na paisagem
nordestina, o mandacaru se cobre de flores brancas, que exalam perfume embriagador
e duram apenas uma noite. Abrem quando o sol se põe e mal o dia começa a
clarear elas murcham. Parece a representação do fugaz. As longas pétalas e
sépalas expõem a sexualidade floral do androceu e gineceu, celebram núpcias de
algumas horas e depois se fecham e morrem. Uma floração passageira, diferente
do mandacaru que teima em sobreviver ao estio, por anos e anos.
O cardeiro plantado na fazenda
Pedra Só lembra a poesia de José Inácio. Mas os versos se espraiam bem além das
antíteses entre espinho e flor, acutilada e afago, devassidão e ascese.
“Na Pedra Só,
as formigas tecem as
escrituras
no abismo da noite tão
enorme
e o espantalho veste a seda
do orvalho
para receber de braços
abertos,
o sabor das auroras, o
sagrado”.
Zé Inácio não traçou meu roteiro
de leitura. O livro abundante em memórias de gregos não possui um fio de
Ariadne. O poeta não me revelou nada além da poesia e seus signos, de um
espinho e uma folha, plantados como enigmas em meio às páginas.
Ao acaso descubro na página 21
a folha da árvore mágica sertaneja, a algarobeira, “sempre verde ao chão
vermelho, floreando mel sobre o voo das abelhas, poleiro das galinhas e das
estrelas, maná de vagens amarelas, santa, santa, santa...”. Zé Inácio compôs para a árvore santificada uma
litania de ecos, sons nutrizes como os frutos da algaroba, poesia alimento,
concreta, antítese do efêmero representado pela flor do cardeiro.
À sombra da árvore onde
descansam cavalos, e cabras mitigam a fome, e agrônomos se queixam das raízes
que chupam a água do solo e o empobrecem, e professores distribuem rações de
sementes como se fossem chocolates aos alunos, e cães cochilam esquecidos, ali,
resguardado à sombra, o poeta pensa em mulheres e sexo.
“Incrustadas por brasas
aflitas
as fêmeas se enlaçam aos
machos
e afloram gerações e
gerações
para desfolhar as pedras de Deus”.
E chegam para visitá-lo os
poetas que o acompanham no exercício de sentir o mundo, a corporação de ofício
de que fazem parte Ruy Espinheira Filho, Francisco Carvalho, Gerardo Mello
Mourão, Florisvaldo Mattos, Mariana Ianelli, Bob Dylan e tantos outros danados,
porque Zé Inácio nunca fica sozinho, o exercício da poesia é para ele o
encontro com pessoas e música, para ouvi-las e pedir que escutem seus aboios.
Também chegam os filhos Carlos Moisés e Gabriel Inácio, os compadres Gabriel
Gomes e Ricardo Prado, o pai mandando por fogo na mata, o vento da Ribeira do
Traipu e a madrugada sertaneja, vozes secas, aboio livre, outono e chuva de
Páscoa. Chegam excitados e solenes e sentam enquanto esperam o banquete de
poesia que será servido nas páginas de Pedra Só.
“Só tua boca pode receber
este mel
e conhecer as liturgias das
areias
e saborear o sangue das
origens
no cálice que transborda nesta mesa”.
Ronaldo Correia de Brito é dramaturgo, contista, romancista,
documentarista, médico e psicanalista. É autor dos livros de contos Faca, Livro
dos homens e Retratos imorais, além dos romances Galileia e Estive lá fora.
Artigo publicado no Jornal A Tarde, no Caderno +2, na página 3, em Salvador-BA, em 2/3/2013







