sexta-feira, 7 de setembro de 2012

LABIRINTOS DO EU


Por Vilma Costa



O livro 50 poemas escolhidos pelo autor, de José Inácio Vieira de Melo, oferece múltiplas possibilidades de leitura. Neles encontramos mãos de trabalhador do verso, que cultiva uma terra árida, mas firme de se pisar. Na invenção dessa poética, algumas imagens se insinuam e buscam cúmplices ou simples interlocutores em leitores e amantes. O tom dos poemas tem um cunho clássico no que tange ao cuidado com a composição. Há certa cerimônia nas dedicatórias a amores, a amigos e na utilização das figuras míticas, tanto as greco-latinas quanto as cristãs. Por outro lado, utiliza-se como matéria-prima a simplicidade de um espaço cercado de signos de naturezas física e humana que dialogam entre si. O fazer poético é, como no poema Ciço Cerqueiro, uma tarefa clara e bem definida de alguém que persevera e faz desse trabalho uma profissão de fé: “O meu é fazer cerca:/ cavar buraco, aprumar mourão,/ esticar arame com pé-de-cabra,/ apregar grampo nas estacas”.
O processo se dá na tensão permanente de reunir elementos de uma natureza concreta, como as pedras do caminho, a rosa e seus símbolos de beleza, e a carne viva de um coração que pulsa, de um sangue que corre e se derrama sobre os espinhos que ferem. As cercas que se fincam tentam definir limites entre esse exterior, “lá longe”, em contrapartida com as “plagas interiores” do sujeito. São fronteiras porosas como a teia de uma aranha, como o tecido do texto que se tece. Nessa porosidade é que os dois lados se atravessam, permutam posições e se fundem, na maioria das vezes. Elementos concretos da natureza se entrelaçam, numa rede paradoxal, com a interioridade do eu lírico: “Meu coração é mesmo a rosa viva./ Por isso, cuidado ao pegar/ suas pétalas — pedras tão aflitas”. Ou seja, tanto as rosas quanto as pedras têm uma funcionalidade nessa teia que se constrói com cada verso. Não são, portanto, apenas adornos ou acasos. São fios de silêncios e zoadas internas, em labirinto, que inscrevem esse sujeito num universo de outra natureza: nem pedra nem sangue, a linguagem. É esta e as escolhas do poeta nesse campo que servem de mediadores entre este mundão e a “zoada” que o aflige. “Os livros já foram lidos e tudo já foi dito:/ resta o silêncio — este corvo doido, resta a folha de papel em branco/ urubuzando minhas dores,/ buscando meus anagramas”.
A linguagem, esse “registro da fala do silêncio”, de “um silêncio plural e de fogo”, é que desafia a folha em branco. Cada poema se basta pelo que foi fincado em seus buracos, pelos arames esticados em suas cercas, pelo que foi dito ou que ficou por dizer em palavras queimadas pelo silêncio “antes de serem”.

 Fotógrafo: Ricardo Prado

As imagens construídas nessa natureza de papel em branco, palavras e letras podem se confundir com a natureza concreta de um ambiente rural no qual se insere o poeta. E mesmo este poeta, pessoa física, com nome, sobrenome e identidade, pode se confundir com o sujeito inventado que se diz e se define na folha de papel com seus versos. Mas não são os mesmos. Possuem diferentes naturezas, um é feito de carne e osso, o outro, de signos, sonhos e palavras. Dialogam entre si, encontram-se, escondem-se um do outro, um no outro, perdem-se, inventam-se. A invenção do eu múltiplo se desdobra em um tu que não promete nada, mas se afirma como veículo de interlocução e esperança de encontro, quase comunhão. No poema Estrangeiro, por exemplo, o “tu” chega com seus espelhos, com sua bússola indicando o norte, mas o eu narcísico não se reconhece: “Agora, ao me olhar no espelho, não vejo/ nem o vulto do meu rio liberto.// Perambulo sem ter rumo certo:/ estrangeiro, de mim tão disperso”. A dispersão e o sentimento de estar perdido, ou se perdendo, são correlatos à escrita em labirinto que percorre muitos dos poemas. Um sujeito que se define como filho do sol e cavaleiro de fogo se reparte em chamas, mergulha em seus vazios e busca o amor em seres vestidos de água.
Natureza rural e o Cosmo são modelados pelas mãos que pintam nessa folha: “Escuto o alarido dos pássaros do Sertão./ Debruço-me no ninho do Cosmo. Minhas mãos trabalham no vazio./… Dos meus dedos explodem labirintos”. O corpo talvez seja o elemento unificador dessas naturezas tão diversas. As mãos que compõem os versos são de um corpo que borda o corpo do texto, na concretude das palavras e na incorporalidade de seus signos e sentidos. O corpo do sujeito inventado se desdobra na interlocução com o outro, pela linguagem verbal, pela linguagem gestual e sensual. As amadas e o próprio amor (muitas vezes ama-se mais o ato de amar do que o próprio ser amado) são elementos líricos que povoam essa poética. O encontro se dá através do impulso erótico do mito, que é mais amplo que a busca sexual, apesar de incluí-la como natural e importante. Trata-se de uma busca de completude que nunca se realiza, ou seja, quando se realiza anuncia a única completude plenamente possível e definitiva: a morte. “Esse teu brilho de agora,/ são cacos — rastros errantes/ que persistem na busca inútil/ da tua primeira semente”. Busca inútil, mas persistente da semente de uma origem que se desloca no tempo e no espaço. Um tempo que engole os dias e dispensa calendário, pois se constitui da fé na circularidade mítica. Um espaço físico concreto de um sertão nordestino que deságua no Cosmo indefinido e generalizado de um universo simbólico.

 Fotógrafo: Ricardo Prado

Apesar da predominância do eu lírico como elemento aglutinador de tantos sentidos, sua construção acontece em alguns momentos através de vozes que se multiplicam recolhendo fragmentos da memória e da vivência presentificada. “Ouço vozes — muitas vozes —/ dentro de mim mesmo,/ todas dizem que é preciso prosseguir”. Não é propriamente o que se poderia chamar da polifonia definida por Mikhail Bakhtin, já que todas parecem depender desse sujeito, e dentro dele se aglutinam. Com todas as suas contradições, impulsionam-no a prosseguir num eterno retorno. Como leitores, somos convidados a participar da teimosia do poeta. Como diria João Cabral de Melo Neto, em sua Psicologia da composição: “Cultivar o deserto/ como um pomar as avessas”. Eis a tarefa.
“Parto para o princípio do labirinto”, num princípio que não é, necessariamente, um começo, mas um caminho sinuoso a percorrer ou ainda, muitos deles, para se perder na lógica de labirintos. Não há início, meio e fim. Cantar o “ciclo da origem” ao “som do coro das sereias” é um convite sedutor e cheio de perigos, mas que o poeta, através de um sujeito lírico audacioso, aventura-se e corre todos os riscos. O ciclo da origem, pelo princípio do labirinto, não é fixo, ou seja, não oferece certezas. Se há um partir, não há exatamente um chegar. A busca é um “parto”, renascer a cada tentativa é o desafio.


Vilma Costa é professora de literatura. Vive no Rio de Janeiro (RJ).
Artigo publicado originalmente no Rascunho, o jornal de literatura do Brasil, edição 149, setembro de 2012, em Curitiba, no Paraná.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

SOLO FIRME E IMAGINAÇÃO

Por Gonçalo M. Tavares

Fotógrafo: Ricardo Prado


Eis o evidente: da queda olha-se para cima, e da montanha olha-se para baixo. E a poesia é um assunto de olhar para as palavras de um outro monte e depois de uma outra forma de cair. Há, em particular na poesia de José Inácio Vieira de Melo, esta obrigação do movimento do pescoço, que ora olha para o chão, ora olha para o céu.
No poema “Vozes secas” – e é só um exemplo – a linguagem olha para cima, para o céu, para as nuvens: “A seca bebeu todas as águas, a sede é grande./ A seca tomou conta de tudo.// O pão da minha terra está nas nuvens./ E eu tenho medo – o meu boi morreu.”
A solução para a seca vem de cima, tal como a solução para certos poemas.  “Seguraste o Sol nas costas” escreve JIVM num outro poema. Não há melhor forma de não deixar cair o sol no chão.
Porém, outras vezes é o chão e a forma como este suporta quem está a crescer que acode aos versos. Como no poema “Os meninos”: “Ainda bem que têm esses meninos sorrindo, / andando de bicicleta e reinventando a mitologia”.
E aqui temos a forte síntese: andar de bicicleta reinventando mitologias – eis o solo firme e a imaginação – uma das características essenciais desta Pedra Só de José Inácio Vieira de Melo.

Gonçalo M. Tavares é um escritor português nascido em Luanda, 1970. Considerado um dos mais importantes da sua geração. Autor do romance Jerusalém (2004) e da epopeia Uma viagem à Índia (2010), dentre vários outros.

sábado, 1 de setembro de 2012

JIVM - PEDRA SÓ XII e XIII


Foto: Linda Soglia


PEDRA SÓ – XII


Sertão, cartilha e dicionário
que recupera o fôlego do ser
e laça as águas do momento
que escorregavam da memória.

Sertão, coisa de espírito mesmo:
o nome incrustado no âmago.

No Sertão, o princípio do enigma,
o galope para dentro do redemoinho,
e na garupa alforjes de couro
bordados com a chama do amor.

O Sertão encourando os primeiros saberes...


Foto: Ricardo Prado


PEDRA SÓ – XIII


Na Pedra Só, a fonte deste poema
e as delícias do pirão de farinha.

Na Pedra Só, a canção sombreada
pelas algarobeiras e pelos pés de juá,
liras verdes que testemunham
a paz dos lajedos e das serras.

As rezas nas solas dos atabaques,
chamamentos para o abrigo das serras.
Os atabaques anunciam as boas novas
e as mulheres principiam a eucaristia
distribuindo a paçoca fresca do pilão.

O Sertão depurando os primeiros sabores...


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


Poemas do livro Pedra Só (Escrituras Editora, 2012),
nova obra poética de José Inácio Vieira de Melo

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

CABARÉ LITERÁRIO - FEIRA DO LIVRO LER AMADO - 2012

José Inácio Vieira de Melo, Ronaldo Correia de Brito, Florisvaldo Mattos
 e Jorge de Souza Araujo pelas ruas de Ilhéus - 05 de agosto de 2012

José Inácio Vieira de Melo, Márcia Tude, André Guimarães e Maurício Corso
Abertura da Feira do Livro Ler Amado - 05 de agosto de 2012

José Inácio Vieira de Melo, Ronaldo Correia de Brito e Jorge de Souza Araujo
Cabaré Literário - 5 de agosto de 2012
Tema: Dioniso e Cia na moqueca de dendê: as delicias de ler Jorge Amado

Florisvaldo Mattos, José Inácio Vieira de Melo e Ronaldo Correia de Brito
Capela do Engenho Santana (Capela de Nossa Senhora de Santana)
Ilhéus - BA, 06 de agosto de 2012

Florisvaldo Mattos, Adélia Pinheiro e Maria Luiza Heine
Iolanda Costa lendo o poema "Ferroviaura" de Florisvaldo Mattos
Cabaré Literário - 6 de agosto de 2012
Tema: Os coronéis na obra de Jorge Amado e a Poesia Reunida de Florisvaldo Mattos

José Inácio V. de Melo, Florisvaldo Mattos, Maria Luiza Heine e Adélia Pinheiro
Cabaré Literário - 6 de agosto de 2012
Tema: Os coronéis na obra de Jorge Amado e a Poesia Reunida de Florisvaldo Mattos

José Inácio Vieira de Melo, Florisvaldo Mattos e Roberval Pereyr
Bar Vesúvio - Ilhéus - BA, 07 de agosto de 2012

Mauricio Corso e Tica Simões lendo carta de Jorge Amado
Cabaré Literário - 7 de agosto de 2012
Tema: De leitor a turista na obra de Jorge Amado e os Mirantes de Roberval Pereyr

Roberval Pereyr - Cabaré Literário - 7 de agosto de 2012
Tema: De leitor a turista na obra de Jorge Amado e os Mirantes de Roberval Pereyr

José Inácio Vieira de Melo lendo o poema "Duo" de Roberval Pereyr
Roberval Pereyr, Maurício Corso e Tica Simões - Cabaré Literário - 7 de agosto de 2012
Tema: De leitor a turista na obra de Jorge Amado e os Mirantes de Roberval Pereyr

Carlos Emílio Corrêa Lima, José Inácio Vieira de Melo e Roberval Pereyr
Feira do Livro Ler Amado - Ilhéus - BA, 08 de agosto de 2012

Maria Luiza Nora, Ruy Póvoas, José Inácio V. de Melo, Clarissa Macedo e Carlos Emílio C. Lima
Cabaré Literário - 8 de agosto de 2012 – Temas:
Jorge Amado: ficcionista, ogã e obá / Maria do Monte, o romance inédito de Jorge Amado

Ruy Póvoas, André Rosa e Carlos Emílio Corrêa Lima
Cabaré Literário - 8 de agosto de 2012 – Temas:
Jorge Amado: ficcionista, ogã e obá / Maria do Monte, o romance inédito de Jorge Amado

Tina Tude lendo excerto do romance "Maria do Monte" de Carlos Emílio Corrêa Lima
Cabaré Literário - 8 de agosto de 2012 – Temas:
Jorge Amado: ficcionista, ogã e obá / Maria do Monte, o romance inédito de Jorge Amado

José Inácio Vieira de Melo, Ruy Póvoas, André Rosa e Carlos Emílio Corrêa Lima
Cabaré Literário - 8 de agosto de 2012 – Temas:
Jorge Amado: ficcionista, ogã e obá / Maria do Monte, o romance inédito de Jorge Amado

Carlos Emílio C. Lima, Aleilton Fonseca, Jorge Amado, Rosana Ribeiro Patrício,
José Inácio Vieira de Melo, Tina Tude e Salgado Maranhão
Bar Vesúvio - Ilhéus - BA, 09 de agosto de 2012

Elena Beliakova, tradutora russa de Jorge Amado em palestra emocionante.
Cleberton Santos mostrando livro de Jorge Amado traduzido por Beliakova
Cabaré Literário - 9 de agosto de 2012 - Temas:
Imagens de mulheres, Corpos sutis e O amor da Rússia por Jorge Amado

Elena Beliakova, Rosana Patrício, Aleilton Fonseca e Cleberton Santos
Tina Tude lendo trecho do romance "Nhô Guimarães" de Aleilton Fonseca
Cabaré Literário - 9 de agosto de 2012 - Temas:
Imagens de mulheres, Corpos sutis e O amor da Rússia por Jorge Amado

Maurício Corso, Elena Beliakova e José Inácio Vieira de Melo
Cabaré Literário - 9 de agosto de 2012 - Temas:
Imagens de mulheres, Corpos sutis e O amor da Rússia por Jorge Amado

José Inácio Vieira de Melo e José Delmo lendo o poema "Sete irmãs" de JIVM
Fundação Cultual de Ilhéus, 10 de agosto de 2012

Da janela do quarto de Jorge Amado, na Fundação Cultural de Ilhéus,
a vista da igreja Matriz e os poetas José Inácio Vieira de Melo,
Clarissa Macedo e José Delmo - 10 de agosto de 2012

Salgado Maranhão, Cyro de Mattos, José Inácio Vieira de Melo
e Iolanda Costa a recitar poema de Cyro de Mattos
Cabaré Literário - 10 de agosto de 2012
Tema: A cor da palavra no Cancioneiro do cacau: música e poesia em Jorge Amado

Salgado Maranhão - Cabaré Literário - 10 de agosto de 2012
Tema: A cor da palavra no Cancioneiro do cacau: música e poesia em Jorge Amado

Clarissa Macedo lendo o poema "O poeta e as coisas" de Salgado Maranhão
 Cabaré Literário - 10 de agosto de 2012
Tema: A cor da palavra no Cancioneiro do cacau: música e poesia em Jorge Amado

Em pé: Salgado Maranhão, Cyro de Mattos, Aleilton Fonseca e Rosana Ribeiro.
Sentados: Heitor Brasileiro, Carlos Emílio Corrêa Lima, Cleberton Santos,
José Inácio V. de Melo, Mariza Mattos e Clarissa Macedo - Cabaré Literário - 10 de agosto de 2012
Tema: A cor da palavra no Cancioneiro do cacau: música e poesia em Jorge Amado

Cabaré Literário
Coordenação e curadoria: José Inácio Vieira de Melo

Feira do Livro Ler Amado - Festival Amar Amado
Ilhéus - Bahia - Brasil - 2012

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

JIVM - PEDRA SÓ - XXV


Fotógrafa: Maureen Bisilliat


PEDRA SÓ - XXV


O sapateiro celeste costura
um labirinto no couro do touro,
onde se misturam e se perdem
      e se encontram
Damião Alagoano e Pedro Vaqueiro,
Sérvulo Duarte e Linduarte,
Vavá Machado e Marcolino,
e Moisés, o meu avô.

A legião de vaqueiros
que me acompanha e me protege
com as sete peles do gibão de couro.

A legião de argonautas
que me acompanha
em busca do velo de ouro.

A legião de vaqueiros
que me acompanha e que entoa,
na origem do sentimento,
o que a palavra não diz
mas a voz aboia.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO