terça-feira, 10 de julho de 2012

DIVERSOS AFINS FAZ PEQUENA SABATINA AO ARTISTA JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Por Fabrício Brandão

Navegar é preciso, viver não é preciso, apregoavam sabiamente os versos de Fernando Pessoa. E pedindo a devida licença ao poeta lusitano, eis que nos é possível manipular a frase para indicar algo que parece ser imperativo em nossa contemporânea idade: realizar é preciso. No entanto, é mister de qualquer autor que se preze a perspectiva da ação acompanhada por critérios que signifiquem um compromisso consistente com a qualidade. Indo mais além, é possível um subverter do arremate “viver não é preciso”, transformando-o numa apreensão ampla do existir, fazendo com que cada palavra expelida em texto seja a necessária afirmação do sopro vital. Qual motivo perene de se estar no mundo, o exercício da criação mostra-se assim, envolto na percepção de que o todo circundante, com toda a sua sorte de abstrações possíveis, é instrumento inalienável nas mãos de um escritor.
Fazendo uso apurado de recursos que derivam de um olhar sensível da existência, o poeta José Inácio Vieira de Melo reúne muitos dos atributos relatados até aqui. Alagoano de nascimento, o autor elegeu a Bahia como morada e muito de sua obra está impregnado daquilo que podemos chamar de memória dos lugares. Em sua expressão poética, José Inácio deixa coabitarem pacificamente paisagens físicas e humanas, fazendo com que a reafirmação da vida pontue de modo bastante especial a trajetória de seus versos. Vestido com a armadura de suas letras, eis que o poeta busca, na simplicidade bucólica de suas imagens, um caminho sublime para a criação. O autor de livros como Decifração de Abismos, A Terceira Romaria, A Infância do Centauro e Roseiral agora está prestes a nos abrir as cancelas poéticas de Pedra Só, seu mais recente fruto literário, e que será lançado em setembro próximo pela Escrituras Editora. E foi para falar um pouco sobre sua nova criação e outros tantos assuntos intimamente ligados ao ofício das palavras que o poeta gentilmente acolheu a Diversos Afins para uma valiosa conversa. Adentrando a soleira dos seus domínios feitos de versos, o cavaleiro de fogo José Inácio Vieira de Melo, como também é conhecido, desfila suas ideias tendo nos olhos o brilho necessário do encantamento pela vida.

 Foto: Ricardo Prado
JIVM: "A minha poesia é feita fundamentalmente a partir do que vivi e do que vivo."

FABRÍCIO BRANDÃO – O traço essencial de sua poesia é marcado por um universo feito de imagens, atravessando paisagens humanas e estabelecendo uma íntima relação com um sertão de memórias. O que dizer dessa gênese de palavras?

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – O que dizer? As palavras me escolheram ou eu as escolhi? A paisagem poética da minha poesia tanto é uma paisagem que observo como também é a paisagem na qual estou inserido. O meu Sertão é o Tao do Ser de um ser tão perplexo e deslumbrado com a existência. Sinto que a minha criação está intrinsecamente ligada às minhas origens geográficas e humanas, embora saiba que esses fatores não são determinantes. A minha poesia é feita fundamentalmente a partir do que vivi e do que vivo. Vivencio a poesia de cada momento. Como diz a minha poeta de cabeceira, Cecília Meireles: “Eu canto porque o instante existe”.

FB – A porção existencialista de seus versos ganha uma dimensão toda especial num livro como Roseiral, obra que exala o vigor de mistérios humanos. Em que medida as palavras denunciam o espanto de se estar vivo?

JIVM – As palavras, dentro da poesia que faço, não buscam outra coisa que não seja dar expressão ao meu sentimento. E o meu sentimento de perplexidade é enorme, é absurdo e não suporta amarras. No livro Roseiral fui tomado por uma revolta que desconhecia. Agi com uma carnalidade instintiva, portanto os impulsos da minha escrita sobrepuseram, muitas vezes, qualquer tentativa de contenção de linguagem e ou de um formalismo comportado. Então, as palavras buscam denunciar, em sua potencialidade, todo espanto do meu ser diante da imensidão do Cosmo. É como está lá no Roseiral, no poema “Rosa viva”: “Minhas palavras ardem a forjar/ estas flores que canto por prazer/ e que dão febre e fazem delirar”.

FB – A capacidade de transcendência é o grande trunfo de um poeta?

JIVM – Há muitos poetas que nem sequer acreditam em transcendência, como é o caso do meu amigo Luis Antonio Cajazeira Ramos. Para o grande poeta, autor do magnífico livro Mais que sempre, essa conversa de transcendência é papo furado. Agora, é impossível de se imaginar o poeta Jorge de Lima sem os delírios de fé, sem o fervor da transcendência poética e sem as epifanias. Pois bem, sou da estirpe de Jorge de Lima. A transcendência é a minha glória. Por conta do sentimento do sagrado e do sublime é que me afino tanto com poetas como Gerardo Mello Mourão, Santo Souza e Francisco Carvalho, assim como com outros bem mais jovens, como a Mariana Ianelli e o Alexandre Bonafim.

FB – Mesmo aguçadas doses de lucidez e racionalidade poderiam não ser suficientes para afastar os efeitos, se é que seja possível considerar assim, místicos das palavras. Você crê numa perspectiva de transformação humana através da literatura?

JIVM – A palavra tem efeito místico para quem é místico, para quem tem espiritualidade. Como Novalis, acredito que “a poesia é a religião original da humanidade”. Todos nós estamos em constante processo de transformação, portanto tudo contribui para a nova conformação do ser em processo. A literatura amplia os horizontes, traz novas possibilidades, é uma fonte de conhecimento. E o conhecimento é caminho de transformação.

FB – Que aspectos você considera como sendo os mais importantes na construção de um debate sobre a poesia contemporânea?

JIVM – A poesia contemporânea é a que está sendo feita a todo instante, portanto é algo que está em constante processo de transformação e não adquire uma conformação com limites bem delineados, visto que a cada dia surgem novos poetas. Se a intenção do debate é fazer uma análise crítica atribuindo valoração, há de se fazer um recorte, pegando a produção de um determinado período, na qual já seja possível identificar alguns aspectos estéticos consolidados. A partir da constatação, levantar questões, fazer comparações e aproximações com o que veio antes, com o que já está estabelecido, ou seja, com os cânones. Confesso que estou muito mais propenso a criar circunstâncias para a divulgação da produção dos poetas que estão surgindo, através da publicação de livros e da participação dos poetas em projetos que promovam a leitura dessa produção. O tempo é o grande definidor daquilo que terá uma permanência maior.

Foto: Ricardo Prado
JIVM: "Quem faz poesia pensando em ter um grande reconhecimento
está fadado a sofrer decepções por toda a vida"


FB – Atualmente, a múltipla apropriação do verso livre parece causar uma falsa sensação de que fazer poesia é algo fácil. Nesse sentido, a criação poética não anda um tanto banalizada?

JIVM – Não me alio aos puristas. Quanto mais pessoas existirem praticando seus versos, melhor. Não estou defendendo quantidade, prezo pela qualidade. Mas fico muito contente quando vejo alguém alçar voo no seu delírio e escrever um poema, por mais ingênuo que seja. Na verdade, o que me desagrada mesmo são os pretensiosos – aqueles que se arvoram de grandes poetas e que passam a ditar seus conceitos minúsculos e a determinar o que é bom e o que é ruim, a partir de seu gosto pessoal.
O verso livre é o mais acessível, pois qualquer um pode escrever uma estrofe composta de linhas irregulares e dizer que é um poema. Que maravilha! Sabemos, porém, que fazer poesia com versos livres é bastante complicado, pois requer muita habilidade por parte do poeta, visto que cada verso tem sua medida e que, ainda assim, é preciso construir um ritmo que reja a peça como um todo. De vez em quando, leio alguns poetas que se vangloriam de só fazer e apreciar poesia medida e rimada. E ainda têm a petulância de afirmar que se não tiver esses atributos técnicos, não é poesia. Uma afirmação dessa natureza, para mim demonstra uma grande limitação.
Que bom que as pessoas estejam cada vez mais escrevendo versos, publicando-os em seus blogs ou em coletâneas. Agora, se o sujeito, realmente, está interessado em seguir pelo pedregoso caminho da arte, e, como diria Jorge de Lima, for um assinalado, ou ainda no dizer de Ruy Espinheira Filho, for um fatalizado, perceberá que a coisa não é fácil não! E investirá a maior parte de sua vida em leituras e no exercício constante da escrita. Ou então, os que buscam facilidades, logo desistirão ou continuarão, por algum tempo, escrevendo algo que não repercutirá.
Quem leva a poesia a sério, está sempre a ler poesia, está sempre a buscar seu caminho, na tentativa de encontrar e de aperfeiçoar sua dicção poética, seu ritmo, seu verso. Sabe que é um compromisso para toda a existência. E também tem consciência de que pouco, ou nada, terá de recompensa. Quem faz poesia pensando em ter um grande reconhecimento está fadado a sofrer decepções por toda a vida.

FB – Talvez seja muito cedo ainda para se falar na consolidação de uma nova geração de poetas, mas, na sua opinião, o que será fundamentalmente necessário para que isso ocorra?

JIVM – Realmente, é muito cedo. O que será fundamentalmente necessário? Que os poetas continuem fazendo poemas, publicando seus livros e que o tempo passe… Com o passar da peneira do tempo, inevitavelmente, essa nova geração que você menciona se configurará.

FB – Você tem um engajamento muito intenso no que se refere à articulação de eventos, nos quais estão envolvidos, sobretudo, novos autores. Como é que se dá essa aproximação com tais escritores e quais são as características que, a seu ver, pontuam com mais ênfase as letras destes criadores?

JIVM – É que vejo muita gente reclamando, lamuriando-se, choramingando. No entanto, são poucas as pessoas que têm a coragem de fazer alguma coisa. E aqueles tantos que choramingam e reclamam são os primeiros a encontrar defeito nas atividades que são realizadas. Eu sempre me coloquei no lugar de fazer as coisas. De buscar alternativas. Os projetos que realizo não contemplam, sobretudo, jovens. Dão oportunidades a poetas de todas as faixas e vertentes. Desde 2001 que venho coordenando eventos e, na medida do possível, tento contemplar a diversidade da poesia baiana. É claro que sempre há os insatisfeitos, que são aqueles que acham que deveriam ser sempre convocados, por se atribuir um valor que efetivamente não têm. Outros nunca serão sequer mencionados, porque não vou me envolver com delinquentes nem muito menos com canalhas, elementos que com certeza vivem apenas em função da destruição. Esses, para mim, não existem. E pronto! E ponto! Que façam seus eventos, que arrebanhem multidões para a sua pretensa alta poesia. Eu não dou a mínima. Há meia dúzia de desesperados que vivem tentando achincalhar as coisas que faço. Berram, ciscam, bufam, gemem, ganem e eu continuo na minha caminhada. O engraçado é que toda vez que esses pobres diabos tentam me prejudicar, imediatamente acontece algo muito bom para mim. É sintomático. De modo que me dão sorte. São um amuleto.
Mas voltando a responder a sua pergunta, os projetos que coordeno, na sua maioria são voltados para a poesia brasileira contemporânea, com destaque para a poesia baiana. E repito, não são voltados principalmente para novos autores, mas para os poetas em geral. Já coordenei projetos em Salvador, Maracás, Planaltino e Jequié. Levei poetas baianos da geração sessenta, como Florisvaldo Mattos, Myriam Fraga, Antonio Brasileiro, Maria da Conceição Paranhos, Ildásio Tavares, Ruy Espinheira Filho, e da geração oitenta, como Roberval Pereyr, Luis Antonio Cajazeira Ramos, Aleilton Fonseca, Douglas de Almeida e Walter Cesar. E vários poetas de outros estados, apenas para citar alguns: Mariana Ianelli (SP), Salgado Maranhão (MA), Marize Castro (RN), Alexandre Bonafim (MG), Astrid Cabral (AM), Antonio-Mariano Lima (PB), Neide Archanjo (SP), Raimundo Gadelha (PB), Helena Ortiz (RS), Wilmar Silva (MG), Igor Fagundes (RJ), etc… Como vê, são muitos e, dos que citei, apenas três podem ser considerados jovens poetas, a Mariana Ianelli, o Igor Fagundes e o Alexandre Bonafim, mas cada qual tem ao menos quatro livros publicados. Citei esses nomes apenas para comprovar que também destaquei os poetas já reconhecidos e com uma obra já sedimentada. Com isso não quero passar a imagem de que não valorizo a produção dos jovens. Sempre busquei dar o mesmo espaço para todos. Claro que alguns se destacam mais. Isso vai da força da poesia de cada um e da sua desenvoltura com o público. Mas se abri espaço para autores que já têm um certo reconhecimento e que já obtiveram importantes premiações, tentei e tento mostrar ainda mais os poetas mais jovens. A diferença é que em relação aos mais jovens, além de projetos, organizei coletâneas envolvendo-os. Em 2004 organizei uma coletânea com 15 poetas da minha geração, que hoje já não são mais tão jovens, refiro-me ao Concerto lírico a quinze vozes. E hoje, parece-me que a maioria já está bem situada na literatura baiana, alguns até com certa repercussão em nível nacional. Creio que, de modo geral, acertei nas minhas escolhas. Mais recentemente, em 2011, organizei a coletânea Sangue Novo, que reúne 21 jovens poetas – esses sim, bem jovens – todos nascidos a partir de 1980. Nesses trabalhos busquei apenas promover o encontro de vozes que andavam muito dispersas, na tentativa de promover um diálogo da poesia que anda sendo feita na Bahia. Repare, não me refiro a um diálogo sobre a poesia, mas da poesia propriamente dita. Alguns poetas, já conhecia pessoalmente, outros mandaram seus primeiros livros para mim. Boa parte, encontrei em blogs e nas redes sociais. A meu ver, o que mais aproxima esses jovens poetas, em geral, é um acentuado lirismo e o diálogo com outras linguagens artísticas, sobretudo com a música pop e com o cinema. Na maioria, são estudantes ou professores de Letras ou de outros cursos das ciências humanas. Poucos cultivam o verso medido, embora alguns tenham pleno domínio das técnicas de metrificação. Enfim, são poetas de uma época de fragmentação de identidade, em que se fala de uma aldeia global, onde os encontros são virtuais e os grandes acontecimentos mundiais são assistidos em tempo real. Sem dúvida, esses adventos tecnológicos interferem na criação de qualquer artista, não apenas desses novos autores.

FB – O que definitivamente você não endossa na dita pós-modernidade?

JIVM – Não endosso essa nomenclatura “pós-modernidade”. Agrada-me o termo “contemporaneidade”. Mas, no fim das contas, não muda nada. No mais, quem sou para endossar ou não alguma coisa nesses tempos pós-modernos? Vivo muito à margem de tudo, embora esteja quase sempre conectado. As minhas atividades, boa parte delas, acontecem em casa mesmo, digitando nas teclas de um PC ou de um notebook. Quando não estou em casa, vou para a minha roça, a Pedra Só, um lugar onde não tem sequer energia elétrica nem água encanada, onde fico completamente isolado de toda essa parafernália tecnológica. E como é bom, depois de um dia no campo, lidando com gado, andando a cavalo, poder chegar em casa, deitar numa rede e ler um bom livro, tendo a certeza de que nenhum telefone vai tocar nem ninguém vai aparecer para atrapalhar. Nada de televisão, nada de rádio, apenas o canto dos pássaros. Sem contar que a brisa do Sertão traz um sentimento tão profundo e mágico que a gente fica sem saber o que diabo é pós-modernidade. E quando chega a noite, ah meu irmão, aparece uma roça de estrelas no céu que não há conceito que possa abranger a sua imensidão… E se é noite de lua cheia, a epifania é certa. Pois bem, a pós-modernidade tende a desmistificar todo esse meu discurso arcaico por um processo de desconstrução e bla bla blá. A única coisa que pretendo sempre endossar é o rumo dos meus passos e os matizes de minha poesia. O que sei eu da pós-modernidade?

Foto: Ricardo Prado

FB – Pedra Só, seu mais recente livro, está prestes a ser lançado. Quais percursos demarcam de modo especial esse seu novo rebento literário?

JIVM – O Pedra Só é o meu livro mais autobiográfico. Revestido de tons épicos, flertando com a linguagem bíblica, traz um longo poema dividido em 27 partes, que está no capítulo de abertura e que nomeia o livro. Como já ficou claro na resposta anterior, Pedra Só é o nome de uma fazenda, onde tenho o privilégio de passar uma parte de meu tempo. É a partir desse lugar, a Fazenda Pedra Só, no Sertão da Bahia, que invento um entrelugar, de mesmo nome, para dar evasão aos meus delírios poéticos. Então, frequento os lugares mais recônditos e inóspitos da minha memória, buscando o barro fundamental – a poesia primeva – para fazer a ligação do meu ser com a arte e criar meus poemas. Quem leu meus livros sabe que a temática campesina sempre esteve presente na minha produção. A crítica também tem dado muita ênfase neste aspecto. No livro anterior, Roseiral, é que dei uma acentuada no erotismo e nos matizes surreais. Pois bem, agora faço um movimento de retorno às origens sertânicas com uma intensidade que até então não havia experimentado, é assim no “Pedra Só” e também no segundo capítulo, intitulado “Aboio Livre”. O terceiro capítulo é o “Toada do Tempo”, em que uso com mais frequência o verso medido e que situa o poeta dentro do tempo, medindo sua finitude e, paradoxalmente, percebendo-se atemporal. A quarta seção, chamada “Partituras”, é onde aparecem as cantigas e os cânticos de louvor. E, por derradeiro, o capítulo “Parábolas”, em que acentuo o surrealismo, tentando criar uma esfera fantástica, impregnada de misticismo, que encerra o livro. Esses são, em linhas gerais, os caminhos da Pedra Só.

FB – Para além do poeta, o que busca o homem José Inácio Vieira de Melo em sua teima com as palavras?

JIVM – Não há, em mim, uma separação entre o homem e o poeta. Não estou poeta. Eu sou poeta 25 horas por dia. O bom da jornada é caminhar… Não sei se para o bem ou se para o mal, não sou um ser pragmático. E sinto que as finalidades limitam muito as experiências. A minha teima com as palavras é, em todas instâncias, por necessidade de expressão. Se não estiver em contato com os signos, reordenando-os para encontrar novos significados, para despertar emoções, a existência fica sem sentido. Então o que busco são os caminhos… E eles sempre surgem. E a minha teima é caminhar – um passo depois do outro, sempre, sempre –, contemplando a paisagem, inventando paisagens, sendo a paisagem.


Entrevista publicada na revista virtual Diversos Afins (www.diversosafins.com.br), 68ª Leva, em junho de 2012

sábado, 7 de julho de 2012

IMPRESSIONE D'ITALIA - CANTIGA PER LEONARDO


Poema do meu livro Pedra Só, publicado na antologia Impressioni d’Italia. Piccola antologia di poesia in portoghese con traduzione a fronte (Napoli: U.N.O. 2011, ISBN 978-88-6719-002-7), que acaba de ser lançada em Napoli, na Itália. A antologia é bilíngue (português/italiano) e publicou poetas contemporâneos de língua portuguesa.


CANTIGA PER LEONARDO


Leonardo,
il sorriso della tua musa mi indaga
come una daga que colpisce la cicatrice.
Ho cercato di decifrare quella donna
nelle figlie delle figlie delle tue figlie,
italie che diventarono brasili
e dettero un volto al nuovo mondo.

E in loro tutte,
da ogni angolo,
in ogni abbozzo di sorriso,
nell’esplosione della risata
o nei gemiti del piacere,
era onnipresente
l’enigma di Monna Lisa.

E con i loro stendardi ho cucito
la coperta che mi avvolge,
che mi commuove e mi strappa
e sfilano tutte
sulla passerella di questa poesia
inaugurando le forme del bello:

Soglia, Bompard, Buffone,
Mariniello, Degino, Michelli,
Morbeck, Ranieri, Pizanni,
ecco gli stemmi indicati
dal mio pugnale di Alagoas.

Leonardo, uomo vitruviano,
son rinato sugli accordi della tua lira d’argento,
mi nutrii alle mammelle della lupa
per poter respirare la Via Lattea:

Romolo e Remo sono figli miei
che galoppano insieme a me e aspettano
altre grazie, altri nomi
che suonano sempre il primordiale
Romolo e Remo – miei ancestrali.

Leonardo, genio della razza,
in quale costellazione sei?
Dove brilla la tua lampada meravigliosa?
Mostra le cinque punte della tua stella!
Inventa subito, col tuo ingegno,
un pavão mysteriozo,
una macchina che mi porti via
verso il regno degli incanti:

una Sicilia dove la regina
sia Cecília Meireles,
discendente di Monna Lisa,
che cammina sulle acque
dello Stretto di Messina
offrendo la grazia maggiore
della poesia.

L’altro nome di Mosè
è Michelangelo,
ma fu il tuo pennello, Leonardo,
che aprì il Mare Mediterraneo
e con esso scrivesti
le forme di una dea
che nel suo viso
porta tutti i nomi.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
Traduzione: Maria da Graça Gomes de Pina


Ilustração: Anderson Thives

CANTIGA PARA LEONARDO


Leonardo,
o sorriso da tua musa me indaga
como uma adaga que fere a cicatriz.
Busquei decifrar essa mulher
nas filhas das filhas das tuas filhas,
itálias que se fizeram brasis
e deram face ao novo mundo.

E em todas elas,
de todos os ângulos,
em cada esboço de sorriso,
no estardalhaço da gargalhada
ou nos gemidos do gozo,
estava onipresente
o enigma da Mona Lisa.

E com seus estandartes costurei
a colcha que me envolve,
que me comove e me retalha
e desfilam todas
na passarela deste poema
a inaugurar as formas do belo:

Soglia, Bompard, Buffone,
Mariniello, Degino, Michelli,
Morbeck, Ranieri, Pizanni,
eis os brasões assinalados
por meu punhal alagoano.

Leonardo, homem vitruviano,
renasci nos acordes da tua lira de prata,
mamei nas tetas da loba
para poder respirar a Via Láctea:

Rômulo e Remo são meus filhos
que galopam comigo e atendem
por outras graças, por outros nomes
que soam sempre o primordial
Rômulo e Remo – meus ancestrais.

Leonardo, gênio da raça,
em que constelação estás?
Onde brilha a tua lâmpada maravilhosa?
Mostra as cinco pontas da tua estrela!
Inventa logo, com teu engenho,
um pavão mysteriozo,
uma máquina que me leve daqui
para o reino dos encantos:

uma Sicília onde a rainha
seja Cecília Meireles,
tataraneta da Mona Lisa,
que anda sobre as águas
do Estreito de Messina
oferecendo a graça maior
da poesia.

O outro nome de Moisés
é Michelangelo,
mas foi o teu pincel, Leonardo,
que abriu o Mar Mediterrâneo
e com ele escreveste
as formas de uma deusa
que em sua face
traz todos os nomes.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

quarta-feira, 4 de julho de 2012

VERÔNICA DE VATE - JÚLIO LUCAS


Júlio Lucas é baiano, filho de pernambucanos, Júlio Lucas, nascido em Paulo Afonso, também costuma se definir soteropolitano por conta do destino, jequieense pela hospitalidade e cosmopolita por ideologia. Tem dois filhos, Caíque e Caio. Escreve desde menino: das letras de rock dos anos 80 para as bandas Sinal Vermelho, Regicídio e Olhos de Poeta (Salvador) às composições do Bando Batida Seca (Paulo Afonso), na década de 90. Mais recentemente participou de parcerias com o cantor e violonista Manno di sousa (radicado em Vitória da Conquista).
Idealista e idealizador de fanzines xerocados em Salvador a jornais no sudoeste baiano, ao mudar-se para Jequié, assumiu a direção do Jornal Actual (2000), a convite do jornalista Wilson Novaes Jr. Em seguida criou o Correio do Interior, primeiro da região em tamanho standard, capa colorida, caderno de cultura e versão online. Também colaborou com os impressos Café com Leite, Novos Tempos e Revista Cidades em Foco. Teve haicais quadrinizados pelo cartunista Edu Santana na revista Come-Comix. Atualmente possui o blog cultural Miscelânea, por Júlio Lucas e é coordenador editorial da revista Muito Mais.
Na TV, foi roteirista e produtor do programa Muito Prazer, Álvaro Guimarães (CNT-Aratu). Desde então dirigiu clipes, documentários e vários vídeos institucionais para prefeituras. Na agência Rush Produções e Publicidades, com Rogério Xavier e Sérgio Guerra, criou diversas campanhas para rádio, TV, impressos e principalmente para veiculação em outdoor, em Paulo Afonso. Na publicidade, trabalhou ainda na agência Moura Marketing e Propaganda.
Radicado em Jequié há mais de uma década, onde é servidor público, exerceu o cargo de diretor de Comunicação Social do Município (2009/2010). Multimídia autodidata, apresenta nas noites de sábado o Tribos do Rock, na 105 FM. Elaborou capas para coletâneas da Academia de Letras de Jequié, a saber, III e IV Concursos Literários da ALJ: Prêmio Eusínio Soares de Literatura Brasileira (da qual faz parte como poeta convidado) e Prêmio Waly Salomão. Também foi capista de Jequié - Síntese Histórica e Informativa (2011), de autoria do lexicógrafo Dermival Rios. Obra em que assina as orelhas.  Ainda em Jequié coordenou e apresentou o projeto Feira da Poesia para a Secretaria de Educação e Cultura e foi jurado do I Concurso de Poesia da Casa da Cultura Pacífico Ribeiro - Prêmio Ruy Espinheira Filho.
Além da Poesia, trabalho artístico ao qual mais se dedica, possui contos, romances e uma peça teatral a serem publicados. Atendendo ao convite de José Inácio Vieira de Melo, curador e coordenador da Praça de Cordel e Poesia, participou das duas últimas bienais do Livro da Bahia (2009/2011). Não obstante, nesta última edição, lançou Novamente Poesia, seu esperado livro de estreia. É membro da Academia de Letras de Jequié.

Júlio Lucas e Iolanda Costa participarão do projeto Palavra de Poeta, na cidade de Planaltino, no Vale do Jiquiriçá. O evento acontecerá no dia 6 de julho, às 19 h 30 min, no Clube Social Planaltinense, com entrada gratuita. Os dois poetas serão homenageados pelo Grupo Renascer, da cidade de Planaltino, e pelo Grupo Concriz, da cidade de Maracás, que recitarão seus poemas. Após os recitais, Júlio e Iolanda serão entrevistados pelo apresentador e curador do projeto, o poeta José Inácio Vieira de Melo e responderão também as perguntas do plateia.

No dia seguinte, 7 de julho, os dois poetas participarão do projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, no Auditório Municipal de Maracás, onde serão homenageados, mais uma vez, pelos grupos Concriz e Renascer. O projeto Uma Prosa Sobre Versos, conta com coordenação de Edmar Vieira, diretor de cultura do município de Maracás. O projeto Palavra de Poeta é coordenado por Edivaldo Costa, diretor de cultura da cidade de Planaltino.


MUITO PRAZER


Este herói de faroeste caboclo
A galope menino
Em cavalo-de-pau
Pelos Galpões do Balneário
(Minha ilha original)
Com uma pistola na cintura
Que pesa mais que
Esta caneta em coldre do Novo Cangaço Cult
Sou eu

Também estanque no instante inter(minável)
Estou lá:
Sem voz, sem grito
Sem braços e ouvidos
Sem portos vivos
Estatelado
Com este gosto azedo
Do estalar de galho seco
Deste umbu(zeiro)
Entre os dedos

Sou aquele
Paraíso militado
Paraíso limitado
Comportas e janelas abertas
Pro rio revolto do meu quintal
Por todo lado muros de pedras
Na porta, Guarita Principal
Entrada e saída
Chegada e partida:
Da vida, pra lida
Da lida pra ida
Dali pro aquém
Pra cá, antes do além

E lá fui eu
Pela estrada afora
Pelo mundo a dentro
Pela vida a forra

Na tabuada
No tablado
No tabloide
Na vida e no vídeo
No proscênio pro lado errado

No batente
No olho por olho
No dente por dente

Neste ensaio diário
De tanta gente que eu seria
Se não fosse eu

Sou aquele, sou Waly
aqui, Gullar
Pairo com as páginas desbotadas ao vento
Navego com as garrafas decoradas
Náufragas aos teus olhos sorridentes
De mar e sol

Respiro, logo insisto
Ainda que Arlequim sem guizo
Não me reconheça nesta opacidade
Do outro de mim

Mantenho-me eu mesmo
Mesmo que sem musa
Seja esboço do que já fui noutra estação
Que peregrino sem fim
Padeça em gozo a esmo
Neste paraíso sem pouso
De ninfas e lobas amigas e amantes

Que eu já não seja o que fui
Que esqueça o que serei
Que lembre ser o que não sei

Ainda que acorde morto-vivo
Com a pele em carne viva
Nas mãos enrugadas dos amanheceres
Dos vendavais de segredos
Dos maremotos de sorrisos e lágrimas
Do ranger de dentes contrafeito
Segregado em versos
Renasço todo dia ao sussurrar
Dos anjos das tragédias
Anunciadas

E inocente-bandido
Com a porta de casa entreaberta
Ofegante em pedaços
Pulo a janela de sempre
E fogueiras de estilhaços
Pra conhecer novos estranhos no ninho
Da estrada da minha cara

Muito prazer:
Sou todos estes faróis e banidos que vos falam.


JÚLIO LUCAS

terça-feira, 3 de julho de 2012

VERÔNICA DE VATE - IOLANDA COSTA


Iolanda Costa (1967) nasceu em Itabuna-Ba, é professora licenciada em Filosofia pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) , arte-educadora e especialista em História Regional. Iniciou a divulgação de seus poemas no “Diário de Itabuna” e “Tribuna do Cacau”, no início da  década de 80. Participou da antologia “Poetas Novos da Região Cacaueira” (PACCE), em 1987. É autora de “Cinema: Sedução, Lazer e Entretenimento no Cotidiano Itabunense”, ainda no prelo. Em 2004, lançou seu primeiro livro de poesia, “Poemas Sem Nenhum Cuidado” (FICC) e, em 2009, de maneira independente, “Amarelo Por Dentro”. Ainda em 2009, participa das coletâneas “Poetas Brasileiros Contemporâneos” (CBJE), “Poesia de Corpo e Alma” (CBJE) e “O Que é Que a Bahia Tem” (Litteris). Como poetisa,  é convidada, em 2010, para a Praça de Cordel e Poesia na 10ª Bienal do Livro da Bahia. Em 2011, integra a antologia “ENEBI (Encontro de Escritores Baianos Independentes) de Poesia & Prosa”. Atualmente prepara seu próximo livro, provisoriamente intitulado “Poemas de Filosofia Líquida”.

Iolanda Costa e Júlio Lucas participarão do projeto Palavra de Poeta, na cidade de Planaltino, no Vale do Jiquiriçá. O evento acontecerá no dia 6 de julho, às 19 h 30 min, no Clube Social Planaltinense, com entrada gratuita. Os dois poetas serão homenageados pelo Grupo Renascer, da cidade de Planaltino, e pelo Grupo Concriz, da cidade de Maracás, que recitarão seus poemas. Após os recitais, Iolanda e Júlio baterão um papo com José Inácio Vieira de Melo e responderão as perguntas do público presente.

No dia seguinte, 7 de julho, os dois poetas participarão do projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, no Auditório Municipal de Maracás, onde serão homenageados, mais uma vez, pelos grupos Concriz e Renascer. O projeto Uma Prosa Sobre Versos, conta com coordenação de Edmar Vieira, diretor de cultura do município de Maracás. O projeto Palavra de Poeta é coordenado por Edivaldo Costa, diretor de cultura da cidade de Planaltino. Os dois gestores culturais estão de parabéns por desenvolverem trabalhos como estes, de grande relevância para suas comunidades.


PRESENÇA


Não desperdices tantas
                                   frases.
Oculta o feno, inverna
                                   as magnólias
restringe a sala
                  a visitantes ilustres.
Sê apenas o amado da minha canção
e eu estarei atenta;
miragem de luz inefável
e eu estarei contigo.
Sem cochilos.
Sem o desdobrar dos sinos.
Sombra no olho do peixe.
          

AMARELO POR DENTRO

A tua letra é amarela
como a nêspera, a gema
o fruto em véspera e ocre
saltando da árvore, da página
da costura no dobrado do paletó.
Devolveu-me a vida enquanto escrevias
e sublinhavas o termo, a epígrafe
a semântica clara de cuidados.
Trouxeste o castiçal, o sol
                                        a lâmpada
a última literatura.
O teu amarelo a escorrer-me, por dentro.

IOLANDA COSTA

domingo, 1 de julho de 2012

JIVM - ESCRITURAS

Ilustração: Gilvan Samico

ESCRITURAS


Eu chego no silêncio que acende
as quatro ferraduras do tempo
e encontro a inesgotável jazida,
catedral do rubi que me habita.

Na madrugada, sonho com os rumos,
gesto que inventa o cristal das palavras,
surpreendendo as pedras com a chuva
a derramar a escritura sagrada.

Agora, apenas ando com os pássaros
a escutar as belezas desta terra
e sustento as parábolas salvíficas
com esta medula que me carrega.

Escuta, dos confins do longo dia,
a noite a chegar – cortina de versos
que revelam as estrelas de abril
aos meus olhos pasmos de tanto ver.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Poema do livro inédito Pedra Só que será publicado
pela Escrituras Editora, em setembro deste ano

segunda-feira, 25 de junho de 2012

JIVM - CANTIGA PARA MARIANA

Ilustração: Angela Felipe


CANTIGA PARA MARIANA


Sou teu irmão.
Da nossa raiz
nasceram todos os poetas.

Sou o que passa as noites
contemplando a beleza do Universo
no firmamento da menina dos teus olhos.

Sou teu irmão.
O que semeou em teu ventre
as sementes que esperaram milênios
para serem salmos.

O pastor em vigília,
que apascenta tua verônica
e suspira estrelas.

Sou teu irmão.
Sigo apenas os preceitos sagrados:
é em nós que o amor cresce
e se multiplica.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Poema do livro inédito Pedra Só que será publicado
pela Escrituras Editora, em setembro deste ano

quarta-feira, 20 de junho de 2012

CANTINHO DO CONTO - QUANDO EU ESTAVA A CAVALO SOBRE MIM MESMO

Por Bruno Gaudêncio


QUANDO EU ESTAVA A CAVALO SOBRE MIM MESMO
        Para Nelson de Oliveira

“(...) som de tudo que é um som de silêncio,
mais que ruído ou voz, que se distinga a solidão.”
Ricardo Guilherme Dicke

Quando eu estava a cavalo sobre mim mesmo, montado na sela das penumbras existenciais, procurei lançar no jogo dos espelhos luzes na escuridão de Etílio, visto que fui deveras invadido pelo terror da presença enigmática de sua finitude cruel. Trôpego, ganhei as pedras assustado com o sangue da vítima, molhando cada detalhe nos cheiros das alucinações. As escuridões das esquinas nas serras aos quatro pés ardiam no poço escuro das amarguras e lamentações. Fitei as linhas dos ouvidos, das bocas, escutando o manobrar dos trilhos da voz clamorosa, exigindo na bruma um ventre límpido, cuja faca formaria um arrepio em dentes de pavorosas sombras. Reconheci vibrante, apesar de cadáver, o ser que estava trajado nas súplicas cadeiras de terra e cal. Alto, Etílio atinava as subidas serras do ar berrante, beijando o canivete rubro nas impróprias castanheiras. Meu pescoço sentia a navalhada vibrante desposando as fibras no sangue quente e ardente da faísca. Etílio clamava retratos dignos na voz dos ossos. Olhares nas coxas tornadas dos bichos observavam as vargens do sítio. Pavorosas testemunhas do assalto que em mim indiscretas desviavam lâmpadas de impaciência, atropelando a noite na rigidez da memória. Vento a sussurrar desafios nas bordas do queixo. A luz e o rigor da condenação invadindo a cada minuto. A poeira nas sonoras crostas da alma. Calcava a chuva imóvel quando o íntimo bruto gritou saliva e sangue aos meus ouvidos, respigando agruras nas cinzas dos pés da algaroba. O cavalo ao mesmo tempo suspirou negramente as vergonhas.  A penumbra exaltada clamou em uma breve história do espírito, um perdão que não havia, em meio aos espantalhos habitados de pássaros. Voltei correndo, deixando a vista buliçosa na praça da minha pele, larga e fugida, em meio aos pêlos do cavalo que se confundiam com os meus. Etílio continuava alto na voz dos espantos. Canhão de dores ardia nas gramas das pernas. As penugens queimavam ao som das peles púrpuras. Quando cheguei ao conforto da casa, cobri os olhos com o desinteresse dos meus cabelos e nas crinas cravou-se um aço. Meus medos desviavam atônitos os ovos apunhalados da tradição. Dedos galgavam heróicas explicações sombrias sobre a solidão eterna do temor, nos pés das calçadas. E eu continuava vivo no abrangido suspiro de Etilio no ar da janela.


Bruno Gaudêncio é escritor, jornalista e historiador. Nasceu em Campina Grande, Paraíba, em 02 de dezembro de 1985. Mestre em História pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Graduado em Jornalismo e História pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Publicou os livros O ofício de engordar as sombras (poesia, 2009) e Cântico voraz do precipício (conto, 2011). Edita a revista eletrônica de literatura Blecaute (http://revistablecaute.blogspot.com/)

segunda-feira, 11 de junho de 2012

FRANCISCO CARVALHO - O BICHO HOMEM



Hoje, 11de junho de 2012, o poeta cearense Francisco Carvalho, completa 85 anos. Para comemorar, acabei de editar um singelo vídeo com belo poema seu, "O bicho homem", musicado e cantado por seu conterrâneo Raimundo Fagner, cantor, compositor e instrumentista renomado. A poesia brasileira está em festa! Meu querido poeta Francisco Carvalho, receba esta homenagem com amizade e com admiração. Abraços.
JIVM

O BICHO HOMEM


Que bicho é o homem
de onde ele veio
para onde vai?
Onde é que entra
de onde é que sai?

Que raio lhe acende
a chama da fúria?
O que é que sobra
da cesta básica
de sua penúria?

Que bicho é o homem
do que se enfeita?
Que mão o ampara
no chão de enigmas
em que se deita?

Que bicho é o homem
que mama no seio
da reminiscência?
E que embala a morte
em seu devaneio?

Que bicho é esse
que carrega o fardo
de uma dor medonha?
Que sucumbe ao charco
mas ainda sonha?

Que bicho vagueia
na treva hedionda?
Que pantera esguia
será mais veloz
do que a própria sombra?

O homem que tece
as malhas da lei.
Que bicho é o homem
que transforma em pêssegos
as fezes do rei?

Que bicho é o homem
que ama e desama
que afaga e magoa?
E que às vezes lembra
um anjo em pessoa?

O homem que vai
para a eternidade
num saco de lixo.
Que bicho é o homem
de salário fixo?

Que bicho é o homem
que trapaceia?
Que às vezes pensa
Que é mais brilhante
do que a papa-ceia?

Que bicho é esse
que escreve as vogais
das cinzas do pai?
- De onde ele veio
e para onde vai?

Que bicho é o homem
que se interroga?
léguas de volúpia
sonhos e utopias
tudo se evapora?

Que bicho é o homem
de argila e colostro
que lavra e semeia?
mas só colhe insônias
em lavoura alheia?

Os rastros do homem
no vento ou na água
são rastros de fera.
Mas que bicho é esse
que se dilacera?

O homem suplica
os deuses concedem.
Que bicho é o homem
que sempre regressa
às praias do Éden?

Que bicho é o homem
que escreve poemas
na aurora agônica
e depois acende
a fogueira atômica?

Que bicho te oferta
um ramo de rimas
e à sombra dos mortos
semeia gemidos
por sete Hiroximas?

Que bicho te espreita
aos olhos dos becos
onde os cães insones
mastigam as sombras
dos antigos donos?

Que bicho é o homem
que rasteja e voa
que se ergue e cai?
- De onde ele veio
e para onde vai?

Que bicho é o homem
de onde ele veio
e para onde vai?
Onde é que entra
de onde é que sai?


FRANCISCO CARVALHO

domingo, 10 de junho de 2012

JIVM - CALIGRAFIAS


Foto: Ricardo Prado


C A L I G R A F I A S


I

Na poeira de um tempo impreciso,
as histórias do silêncio,
ninhadas de signos sem tradução.

Silêncio na carne.
Silêncio que sente a areia passar.
Tempo para a solidão do poema.

Cultivamos os nomes.
Criamos semblante para cada nome.
Para mostrar nossos nós – a palavra.

Com os olhos marejados
a vertigem cresce:
suas roupas são de luz e de som.

O pasmo nos sobressalta
e gozamos de tudo.


II

A poesia de um tempo sem siso
e sua estranha ninhada de histórias
das entranhas do silêncio.

Nosso heroísmo é trágico
e as parcas são infinitas.

Temos apenas a ilusão das coisas
e o caminho é irreversível.

Retornar – apenas para o Nome,
para o ser que não tem nome.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


OBS: poema do livro Pedra Só, a ser publicado pela Escrituras Editora, em setembro de 2012

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A LÍRICA ERÓTICA DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


(Comunicação apresentada no I CONALI – Congresso Nacional de Literatura, UFPB, João Pessoa, 05/06/2012)
Ano do Centenário de publicação do livro EU de Augusto dos Anjos
Cleberton dos Santos (Professor do IFBA) 

José Inácio Vieira de Melo
Quem é o poeta?

Estou falando de um “poeta matuto sem eira nem beira, que vive labutando com palavras, vaquejando boiadas de signos por caatingas labirínticas numa peleja sem fim.” Estou falando de um poeta que “invoca o gado invisível numa toada aflita, e grafa com pena e tinta aquilo que a poesia marca, a ferro e fogo, em sua alma” de um verdadeiro “Cavaleiro de Fogo”.
Estou falando do poeta José Inácio Vieira de Melo, nascido em Olho d’Água do Pai Mané, povoado do município de Dois Riachos, Alagoas, em 16 de abril de 1968. Publicou os livros Códigos do silêncio (2000), Decifração de abismos (2002), Luzeiro (2003), A terceira romaria (2005), A infância do centauro (2007), Roseiral (2010), 50 poemas escolhidos pelo autor (2011) e tem no prelo para sair em 2012 o livro Pedra Só (Editora Escrituras). Atualmente vive na cidade de Jequié, Bahia, de onde emana toda sua atividade literária e cultural pelos quatro cantos do país.

Por que esse poeta?

Estou falando do poeta José Inácio Vieira de Melo, nascido em Olho d’Água do Pai Mané, povoado do município de Dois Riachos, Alagoas, em 16 de abril de 1968. Publicou os livros Códigos do silêncio (2000), Decifração de abismos (2002), Luzeiro (2003), A terceira romaria (2005), A infância do centauro (2007), Roseiral (2010), 50 poemas escolhidos pelo autor (2011) e tem no prelo para sair em 2012 o livro Pedra Só (Editora Escrituras). Atualmente vive na cidade de Jequié, Bahia, de onde emana toda sua atividade literária e cultural pelos quatro cantos do país.
Por isso, no universo infinito da literatura brasileira sempre encontrei novos ou velhos caminhos para percorrer. Nesta comunicação vou explorar justamente um dos temas mais ricos na história da literatura universal: o erotismo.
E o erotismo em JIVM é apontado por vários de seus leitores, como afirma na orelha do seu quinto livro Roseiral, a poeta carioca Astrid Cabral falando de um “erotismo caloroso”, enquanto a professora Eliana Mara Chiossi destaca que o poeta tem uma “língua de fogo”.
Entre as várias flores temáticas que florescem no vasto jardim da poesia de JIVM, fui seduzido pelos aromas que exalam da flor do erotismo.
Ler e ouvir a poesia de José Inácio Vieira de Melo é vivenciar o erotismo em suas múltiplas possibilidades. Nesta breve comunicação apresento um roteiro de leitura, aponto o início de uma romaria teórica que se inicia pelas estradas que perfazem a obra poética deste “Centauro Escarlate”. Pois como afirma o crítico carioca André Seffrin:

“Surpreendente a mobilidade desta poesia, acelerada e cantante como água de rio montanhoso. Evidente sua força telúrica, de observação e conversão da paisagem humana em lirismo amoroso ou erótico e por vezes em quadros rurais de calendário imemorial.” (In: Melo, 2011)

Ilustração: Daniel Biléu
Um poema: duas leituras

Mikel Dufrenne aconselha que “Ao examinar a linguagem poética, não podemos esquecer de que ela se destina à fala.” (1969, p. 12) Por isso, além dos aspectos poéticos da eroticidade inerente aos textos escritos, detenho minha reflexão também sobre a expressão corporal, a leitura expressiva, o momento do recital, da peformance declamativa feita pelo próprio autor ou das leituras de outras vozes que através de recursos que ultrapassam a imobilidade da letra impressa, também contribuem para uma valorização ou espetacularização do erotismo inaciano.
Apresento o poema “Harém”:

Vinde, minhas éguas, vosso faraó vos espera!
Puxem meu carro de fogo pelos céus dos êxtases,
harmonizem vossas forças e me conduzam,
em galope soberano, pelos reinos dos encantos.

Vinde, minhas éguas, luzindo na imensidão!
No ritmo de vossas ancas é que se inaugura
a saga do meu império e os nomes do meu nome:
Cavaleiro de Fogo, Centauro Escarlate.

(50 poemas escolhidos pelo autor, p. 35)

Em dicção vibrátil o eu lírico assume uma postura faraônica para inaugurar uma poética sensual e de forte caráter zoomórfico. A imagem “Minhas éguas” poderá significar minhas mulheres ou quem sabe minhas musas? Aqui aparecem duas possibilidades de leitura, duas largas estradas no caminho da interpretação.
Na primeira, vendo mulheres metaforizadas em éguas, imagem tão comum ao repertório sexual do universo masculino brasileiro, temos um canto de profunda sensualidade amorosa e de visível rendição do ser masculino aos seres femininos. Numa primeira e ligeiríssima leitura, alguns poderão ver uma submissão feminina já inscrita na tradição dos “poetas machos”. Aqui, porém, após algumas releituras, vejo uma inversão na ordem dos estabelecidos valores. É o ser masculino, macho, faraônico que está submisso à vontade e às ordens das éguas-mulheres. O eu lírico faraó, imperador por natureza divina e status social, encontra-se imóvel, a espera daquelas que o conduzirão “pelos reinos dos encantos”.  O desejo sexual do eu lírico masculino será regido pelo ritmo das ancas dessas éguas portentosas. Aqui, paradoxalmente, o faraó se faz escravo da volúpia, dos encantos e dos êxtases proporcionados por essas éguas-mulheres tão poderosas que conseguem luzir na imensidão.
Na segunda estrada interpretativa, vendo éguas como metáfora de musas, temos um canto metapoético de rara beleza. Numa espécie de erotismo criacional, o poeta fala sobre as forças criadoras do seu ser e do seu verso.  O poeta faraó necessita de inspiração, aquela inspiração mítica de que nos fala Mikel Dufrene em seu livro O poético (1969), e por isso clama para que suas éguas-musas puxem seu carro de fogo, sua poesia, pelos céus dos êxtases, território potencial da arte poética. “Galope soberano” e “ritmo de vossas ancas” são expressões clarividentes desta metapoesia que cristaliza o ser mítico do faraó que se faz Cavaleiro de Fogo pelas forças encantatórias de suas éguas-musas.

Ilustração: Daniel Biléu
Erotismo corporal

Quem já teve a oportunidade de ver, de presenciar o próprio poeta recitando seus versos, ou seja, o homem de carne e osso impostando sua voz para dizer, traduzir em tons, gestos faciais e expressões corporais suas palavras, seus códigos de silêncio, poderá projetar melhor o jogo do erótico que se estabelece em suas criações verbais. O poeta declamador também transpira esse erotismo escarlate que emana da imensidão de seus poemas. Quase como se existisse uma correspondência entre o eu lírico de seus poemas e sua voz humana, o poeta José Inacio Vieira de Melo encarna seus próprios eus poéticos, como uma espécie de ator de si mesmo não sendo ele próprio, o poeta erotiza sua aparição pública através de seus erotismos poéticos. Exemplo peculiar deste amálgama entre sua voz lírica e sua voz humana é vê-lo recitando os poemas “Epitáfio para Guinevere” e “Bodas de sangue”.

Vejamos o poema “Cântico dos Cânticos”:

Que as tuas nádegas aventureiras estejam abertas
Para o poema em linha reta que te ofereço,
Que a minha escrita torta e avessa
Chegue linheira na olaria de tua carne
E ardas e ardo neste morno forno
Das tuas nádegas tão abundantes.

Das tuas nádegas tão montanhosas
O horizonte é mais macio e a minha linguagem
Saboreia o mel do fel que trazes
E de teus olhos gemem os arco-íris
E teu corpo todo é um esplendor, uma assombração
E quanta delícia anunciam teus arrepios
E tuas nádegas aventureiras tão venturosas
São uma tempestade de emoções.

Que idioma mágico que tu inventas
Quando me aventuro por tuas nádegas
E me perco profundamente e profundamente
Me encontro na plenitude cega que tudo exerga
E profundamente me encanto cantando uníssono
Neste nosso idioma o novo cântico dos cânticos.

(50 poemas escolhidos pelo autor, p. 46)

Mais uma vez sensualidade amorosa, erotismo corporal e erotismo criacional se misturam nesta composição.
Várias são as formas de amar. O sexo cristão é transgredido nestes versos ousados e ao mesmo tempo contidos através de uma linguagem de grande exuberância metafórica. O sexo anal, ou a hipótese deste sexo, é explicitamente cantado com grande singeleza. A escolha lexical do poeta, sua operação linguística demonstra o zelo pelo corpo da amada, pois nádegas é menos vulgar e mais sugestivo do que seu sinônimo popular “bunda”. Mas todo poeta tem seus truques e sabe operar seus milagres verbais. E deste modo o poeta constrói a imagem “nádegas tão abundantes” que nos remete à palavra “bunda”, configurada dentro do corpo e da sonoridade do adjetivo empregado.
Sobre a relação entre erotismo e poesia, Octavio Paz afirma:

“A relação entre erotismo e poesia é tal que se poder dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poética corporal e a segunda uma erótica verbal. Ambos são feitos de uma oposição complementar. A linguagem – som que emite sentido, traço material que denota ideias corpóreas – é capaz de dar nome ao mais fugaz e evanescente: a sensação; por sua vez, o erotismo não é mera sexualidade animal – é cerimônia, representação. O erotismo é sexualidade transfigurada: metáfora. A imaginação é o agente que move o ato erótico e o poético.” (Paz, p. 12)

Assim, podemos dizer que é a imaginação criadora que propicia a elaboração da erótica verbal do poeta JIVM, ao mesmo tempo em que é a força do próprio erotismo corporal que impulsiona a criação da linguagem poética como prática de ato erótico, pois para o poeta JIVM fazer poesia é

ir no cerne dos desejos
e perceber cada célula
como frenesi que sinto
na agulha do peitoral.

(A sagração do mito In: A infância do centauro, 2007)


Bibliografia:

CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. Trad. Ivo Barroso. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
DUFRENNE, Mikel. O poético. Trad. Luiz Arthur Nunes e Reasylvia Kroeff de Souza. Porto Alegre: Editora Globo, 1969.
MELO, José Inácio Vieira de. 50 poemas escolhidos pelo autor. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2011.
MELO, José Inácio Vieira de. A infância do centauro. São Paulo: Escritura Editora, 2007.
MELO, José Inácio Vieira de. A terceira romaria. Salvador: Aboio Livre Edições, 2005.
MELO, José Inácio Vieira de. Decifração de abismos. Salvador: Aboio Livre Edições, 2002.
MELO, José Inácio Vieira de. Luzeiro. Salvador: Aboio Livre Edições, 2003.
MELO, José Inácio Vieira de. Roseiral. São Paulo: Escritura Editora, 2010.
PAZ, Octavio. A dupla chama: amor e erotismo. Trad. Wladyr Dupont. São Paulo: Siciliano, 1995.