quarta-feira, 21 de setembro de 2011

FLIMAR - A PRIMAVERA COMEÇOU MAIS CEDO EM MARECHAL DEODORO

Hoje, 21 de setembro, é o dia da árvore e o início da primavera. Sem dúvida uma bela data. Só que a minha primavera iniciou mais cedo neste ano – teve seu início em 7 de setembro, na cidade de Marechal Deodoro, na abertura da 2ª Festa Literária de Marechal Deodoro, a maravilhosa Flimar. Pois bem, tudo começou com uma palestra do poeta carioca Alexei Bueno sobre o grande homenageado da Flimar, o alagoano poeta Lêdo Ivo. Depois tive a honra de conhecer os poetas moçambicanos Calane da Silva e Ungulani Ba Ka Khosa e o escritor boliviano Edmundo Torrejon Jurado. O encanto de ouvir o mestre Nelson da Rabeca e, por fim, o canto do mamulengo querubim Alceu Valença. E que maravilha escutar Alceu cantar “Na primeira manhã”, toada sua que me acompanha e me encanta ao longo de minha vida – desde 1980, precisamente, quando eu tinha 12 anos.
E desfrutar da companhia doce do poeta Salgado Maranhão, do carinho e da ternura de Maria Luiza Russo. A satisfação de encontrar o poeta pernambucano Marcus Accioly com sua poderosa verve épica. E mais o prazer do reencontro com Antonio Torres, Affonso Romano de Sant’Anna, Maurício Melo Júnior, Homero Fonseca, Tom Torres, Edna e tantos outros. Assim como a satisfação de conhecer pessoas tão agradáveis como Lucia Bittencourt, Luís Pimentel, Luciane Trevejo, Ricardo Cravo Albin, Janaína Rico e seu esposo Samuel Rocha.
E o que dizer do privilégio de dividir o palco com o grande ator e declamador Chico de Assis. Nossa que emoção quando Chico recitou meu poema “Gênese” e me chamou para o palco. Parecia que nem estava acontecendo de fato. Mas assim sucedeu. E na noite seguinte estava eu apresentando meu recital “Cavaleiro de Fogo” para uma platéia atenta e um Alexei Bueno mais atento ainda, a aproximar-se de meus versos.
E a emoção de reencontrar Aliane Ribeiro Moraes. Essa, não há palavras que expresse. E minha mãe, Inácia Rodrigues de Santana, assistindo, entre admirada e assustada, o seu filho aboiar e dizer poemas mesclados por palavras suaves e por palavrões. E meu irmão Junior, atento e silencioso com sua mulher. Meu sobrinho De Melo, esperto que só um preá. Tudo foi uma PRIMAVERA.
Sem contar, a maravilha que foi ficar hospedado na praia do Francês, gozando dos bons tratos do pessoal da pousada Mahonmar. De manhãzinha, por volta das seis, lá ia eu para o mar: correr, correr, correr, como um cavalo a galopar, galopar, galopar e transcender a mim e as minhas explicações. ..
Mas e as árvores? Pois é. Esse início de primavera, em 7 de setembro, dia da independência do Brasil, só foi possível graças a um mago das letras, um louco de Deus: o Carlito Lima, cavaleiro errante – mistura de Quixote com Sancho Pança – que descobriu a botija e inventou a Flimar. Esse trabalhador incansável, que todo dia fazia um milagre para reunir naquela cidade paradisíaca tantos semeadores de palavras. E quantas e quantas árvores de conhecimento foram plantadas naquela comunidade? E quantas descobertas nas páginas de Ignácio de Loyla Brandão e de Lêdo Ivo e de Salgado Maranhão? Parabéns prefeito Cristiano Matheus por sua sensibilidade e por acreditar e investir na cultura. São poucos os administradores que tem a sua competência e a sua visão de mundo, qualidades que o tornam um administrador admirável.
Certamente, Graciliano Ramos e Jorge de Lima, baluartes das letras alagoanas e da literatura de língua portuguesa, estão a brilhar com mais intensidade na imensidão do firmamento. Certamente, todos os escritores e demais artistas, que participaram e realizaram este projeto singular, saíram com mais vontade de viver e de escrever mais e mais livros. Certamente, a parcela da comunidade que se fez presente pode sentir o quanto é importante o contato com o livro e também perceber que a leitura amplia os horizontes de cada pessoa e traz desdobramentos para a sua existência.
Agradeço a todos que estiveram comigo nos cinco dias de Flimar. Agradeço, sobremaneira, ao Carlito Lima e à Maria Luiza Russo que tanto se dedicaram para que eu pudesse fazer parte do time de escritores dessa festa tão agradável. E que venha a 3ª Flimar!
Abaixo, deixo algumas imagens que mostram um pouco do muito que houve de bom na Flimar.
José Inácio Vieira de Melo
Poeta alagoano da Bahia


 Cristiano Matheus (prefeito de Marechal Deodoro), Ricardo Cravo Albin, Salgado Maranhão, José Inácio Vieira de Melo, Maria Luíza Russo, Lêdo Ivo, Edmundo Torrejon Jurado e Carlito Lima (idealizador e coordenador da Flimar)

 José Inácio Vieira de Melo, Lêdo Ivo (grande
homenageado da 2ª Flimar) e Salgado Maranhão

 José Inácio Vieira de Melo com os poetas moçambicanos
Calane da Silva e Ungulani Ba Ka Khosa

 Nelson da Rabeca e José Inácio Vieira de Melo. Ao fundo,
 a intérprete de Cajueiro pequenino, esposa do grande rabequeiro 

 Alceu Valença cantando Na primeira manhã

 Maurício Melo Júnior (curador da 2ª Flimar), Janaína Rico,
Carlito Lima, Salgado Maranhão e José Inácio Vieira de Melo

 JIVM recitando seu poema Sete irmãs. Com Chico de Assis ao lado

  Palestra de JIVM: A poesia contemporânea do Nordeste

 JIVM com professores da cidade de Palmeira dos Índios, após a palestra

 José Inácio Vieira de Melo recitando
A terra é naturá, poema de Patativa do Assaré

 O ator Chico de Assis e o poeta José Inácio Vieira de Melo

 Recital de JIVM: Cavaleiro de Fogo

 Alexei Bueno e José Inácio Vieira de Melo

 Nazaré (esposa de Chico de Assis), Vânia (esposa de Carlito Lima),
Inácia (minha mãe), JIVM e Carlito Lima 

Inácia Rodrigues de Santana, JIVM e Aliane Ribeiro de Moraes

domingo, 11 de setembro de 2011

OS POEMAS E AS LEITURAS DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Por Cláudio Portella
Foto: Ricardo Prado

Na resenha anterior, publicada aqui no 2+, sobre a coletânea dos novos poetas baianos, Sangue Novo, organizada por José Inácio Vieira de Melo, falei de poetas que nasciam. Nessa resenha falo de um poeta pronto: José Inácio Vieira de Melo. Seu novo livro comprova o percurso de sua caminhada poética após cinco livros de poesia publicados. O poeta mostra agora seus 50 melhores poemas.
Sendo um poeta pronto, é interessante irmos atrás de sua formação de poeta. Digo: quais suas leituras quanto leitor de poesia? O poema que o poeta escolheu para abrir seu novo livro é dedicado ao poeta cearense Gerardo Mello Mourão. O poema se chama “Invenção da Poesia”, e versa, em estilo clássico característico ao poeta para quem o poema é dedicado, no nascer da poesia. Quando se faz um poema sobre a metalinguagem da poesia: está se falando da poesia ou do poeta? Poesia e poeta é a mesma coisa? Reflexões à parte.
O primeiro poema do livro nos revela duas coisas: a primeira que o poeta cearense é uma de suas leituras e a segunda a influência demarcada da poesia clássica em sua formação de poeta. Vemos isso com mais clareza no poema “Sonata das musas escarlates”, selecionado no livro.

INFLUÊNCIAS

Gerardo Mello Mourão, Francisco Carvalho, Patativa do Assaré e Raimundo Fagner

Coincidência ou não, alguns poetas cearenses tenham muita culpa na formação do poeta José Inácio Vieira de Melo. São eles: o já citado Gerardo Mello Mourão, Francisco Carvalho e Patativa do Assaré. Muitos poemas do livro trazem uma ressonância do poeta Francisco Carvalho. Poeta que, por sua vez, traz uma ressonância do poeta Carlos Drummond de Andrade. Um poeta influencia o outro. José Inácio recita de cor poemas de Patativa do Assaré.
O poeta Patativa do Assaré, apesar de ter o mesmo sentido épico do seu conterrâneo Gerardo Mello Mourão, talvez seja a antinomia, no que se refere a cantar o mundo, do poeta Gerardo Mourão. Patativa transita na escola regionalista, enquanto Mourão no classicismo. José Inácio Vieira de Melo nos dois mundos. Selecionou também para o livro o poema “Romaria”, onde as ressonâncias nos lembram Patativa.
Claro que há muitas outras leituras de poetas que formaram o poeta José Inácio Vieira de Melo. Muitas só perguntando para ele. E certamente nem caberiam nesse espaço. O poema “Pedras amoladas, facas atiradas”, dedicado ao poeta pernambucano João Cabral de Melo neto (muitos “Melo”: Gerardo Mello Mourão, João Cabral de Melo Neto e José Inácio Vieira de Melo), onde dialoga com o poeta pernambucano, talvez seja mais uma indicação de suas leituras.
A característica mais forte de sua poesia é a de cantar o sertão nordestino. Apesar de todas as suas leituras e descaminhos, não abre mão da sua própria dicção poética e do seu caminho. Um caminho próximo do canto, do canto do poeta, mais um cearense, Cego Aderaldo, do canto do compositor cearense Raimundo Fagner.
Acredito que haja uma singularidade entre o canto de José Inácio e o do cantor Fagner. Ambos, apesar de todas as reentrâncias, retomam o caminho do aboio. Não de uma poesia feita para recrutar gado, mas para celebrar a vida.

Este artigo foi publicado originalmente no caderno +2 do jornal A Tarde, na página 4, em 7 de setembro de 2011

terça-feira, 6 de setembro de 2011

PARTICIPAÇÃO DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO NA II FLIMAR - FESTA LITERÁRIA DE MARECHAL DEODORO

Foto: Ricardo Prado


QUINTA-FEIRA – 08 de setembro de 2011
Na Tenda da Livraria Café & Cultura
17:00 horas – LANÇAMENTO
“50 poemas escolhidos pelo autor”, 
livro de José Inácio Vieira de Melo

SEXTA-FEIRA – 09 de setembro de 2011
Na Escola Técnica Federal – IFAL
10:00 horas – PALESTRA:
“A nova poesia da Bahia e do Nordeste”
Por José Inácio Vieira de Melo

SÁBADO – 10 de setembro de 2011
No Auditório Cultural Santa Maria
Magdalena da Alagoa do Sul
18:30 horas – RECITAL:
“Navio Negreiro” (Castro Alves),
com Chico de Assis
19:00 horas – RECITAL:
“Cavaleiro de Fogo”,
com José Inácio Vieira de Melo

Veja a programação completa no blog da FLIMAR:
http://flimar.blogspot.com/

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

LANÇAMENTO DA ANTOLOGIA 50 POEMAS ESCOLHIDOS PELO AUTOR - JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO




José Inácio Vieira de Melo é convidado
a escolher os seus 50 melhores poemas

A Edições Galo Branco lança, na próxima quinta-feira, 1º de setembro, a antologia 50 poemas escolhidos pelo autor, de José Inácio Vieira de Melo. O evento acontecerá no Restaurante Grande Sertão, na Rua Adelaide Fernandes, 122, em frente ao Parque Costa Azul, das 19h30 às 22 horas.
O livro é uma seleção dos mais representativos poemas deste poeta que, com cinco livros publicados, tem merecido a atenção dos grandes nomes da crítica, e já alcançou considerável reconhecimento de público.
A antologia faz parte da coleção homônima 50 poemas escolhidos pelo autor, organizada pelo editor e escritor carioca Waldir Ribeiro do Val. Na coleção, já foram publicados poetas como Lêdo Ivo, Astrid Cabral, Antonio Carlos Secchin, Gilberto Mendonça Teles e o baiano Ildásio Tavares. O poeta alagoano da Bahia, como é conhecido José Inácio, é um dos mais jovens a constar na coleção, que chega agora ao 62º volume.
O evento contará com a presença de Igor Fagundes, poeta e crítico literário carioca, estudioso da obra de José Inácio. No lançamento, Igor fará uma breve apresentação do livro com o tema A imensidão imediata: JIVM e a poesia no céu da raiz.
A antologia de José Inácio conta com prefácio do escritor Affonso Romano de Sant’Anna, que salienta: “José Inácio não tem medo da emoção, mas controla o discurso. Não está preocupado em ser de hoje, de amanhã ou de ontem. Tem um acordo secreto com o verbo que nele é exigência, urgência. Nele as rosas são como as palavras – “brasas”. E abre-se à memória, contempla o quintal, a casa, as cicatrizes. Tem sua própria mitologia, além daquele furor erótico telúrico com suas éguas e suas amadas escarlates que esplendem no labirinto”.
Na contracapa, estão depoimentos do escritor, ensaísta e tradutor Marco Lucchesi e do crítico literário André Seffrin. Para Lucchesi “José Inácio Vieira de Melo é um poeta que emociona. Ele vai ao cerne das coisas. Com uma leveza na pronúncia, com uma forma delicada nos versos e com uma brisa fresca que atravessa o sertão das palavras”. Já para Seffrin, é “Surpreendente a mobilidade desta poesia, acelerada e cantante como água de rio montanhoso. Evidente sua força telúrica, de observação e conversão da paisagem humana em lirismo amoroso ou erótico e por vezes em quadros rurais de calendário imemorial”.
José Inácio Vieira de Melo é poeta, jornalista e produtor cultural. Tem cinco livros de poemas publicados: Códigos do silêncio (2000), Decifração de abismos (2002), A terceira romaria (2005), A infância do Centauro (2007) e Roseiral (2010). Publicou também o livrete Luzeiro (2003) e o CD de poemas A casa dos meus quarenta anos (2008).
Organizou Concerto lírico a quinze vozes – Uma coletânea de novos poetas da Bahia (2004), a agenda Retratos Poéticos do Brasil 2010 (2009) e a coletânea Sangue Novo – 21 poetas baianos do século XXI (2011). Participa das antologias Pórtico Antologia Poética I (2003), Sete Cantares de Amigos (2003), Voix croisées: Brésil-France (2006), Roteiro da poesia brasileira – Anos 2000 (2009) e Poesia Brasileira em Paris (2011).
Coordenador e curador de vários eventos literários, como o Porto da Poesia, na VII Bienal do Livro da Bahia (2005) e a Praça de Cordel e Poesia, na 9ª Bienal do Livro da Bahia (2009), assim como dos projetos A Voz do Poeta (2001) e Poesia na Boca da Noite (2004 a 2007), ambos em Salvador. Foi co-editor da revista de arte, crítica e literatura Iararana, de 2004 a 2008. Sua poesia tem sido publicada em vários jornais, revistas, sites e blogs do Brasil e do exterior. Tem poemas traduzidos para os seguintes idiomas: espanhol, francês, inglês e finlandês.

Livro: 50 poemas escolhidos pelo autor
Autor: José Inácio Vieira de Melo
Editora: Edições Galo Branco
Páginas: 100
Preço: 
R$ 25,00

Contatos:
José Inácio Vieira de Melo
(73) 8845 5399 / (73) 3526 1936

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

VERÔNICA DE VATE - IGOR FAGUNDES



IGOR FAGUNDES nasceu no Rio de Janeiro no dia 5 de dezembro de 1981. Poeta, jornalista, ator, ensaísta, crítico literário, professor universitário, doutorando e mestre em Poética pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde lecionou Teoria Literária e Fundamentos da Cultura Literária Brasileira. Realiza interdisciplinar de poesia, arte, mito, religião e filosofia. Autor de outros cinco livros (quatro de poesia e um de ensaio): Transversais (2000), Sete mil tijolos e uma parede inacabada (2004), por uma gênese do horizonte (2006), Os poetas estão vivos – pensamento poético e poesia brasileira no século XXI (2008) e zero ponto zero (2010). Organizador e co-autor do livro de ensaios VIDA: a vocação da arte e o silêncio do pensador (2011). Participa também diversas antologias poéticas, entre elas Roteiro da poesia brasileira – Anos 2000 (2009) e de outras obras ensaísticas, como Quem conta um conto – estudos sobre contistas femininas estreantes nas décadas de 90 e 2000 (2008); Um olhar para os detalhes – Ensaio fotográfico poético sobre as formas (2010); Violência simbólica nas assimetrias de gênero. Modalidades de coação em produções literárias femininas em dois tempos (2011); e Antonio Carlos Secchin: escritos e escutas (2011). Publica com frequência em diversos periódicos de literatura. Colaborador da Academia Brasileira de Letras e Jornal Literário Rascunho. É um dos fundadores da Feira Poética da Escola de Dança da UFRJ, sob coordenação da Profa. Maria Ignez Calfa e realizado pelo Laboratório de Arte e Educação. Membro do Núcleo Interdisciplinar dos Estudos de Poética (NIEP) da UFRJ. Detentor de cerca de 60 prêmios em concursos de literatura. Seu livro por uma gênese do horizonte foi o vencedor IV Prêmio Literário Livraria Asabeça. Os poetas estão vivos – pensamento poético e poesia brasileira no século XXI recebeu o Prêmio Manuais de Literatura na categoria Ensaio de Letras. Em 2010, zero ponto zero esteve entre os livros selecionados para o Programa Mais Cultura da Biblioteca Nacional.


vidência


pelo oráculo dos búzios
iemanjá me sopra um verso
de água salgada

ainda úmida
a folha se dobra
torna-se um barco
nele embarcam
a mãe oxum das águas doces
o pai ogum de cada luta
rumo a cascatas
rios que correm
além do horizonte
a litorais
onde alguém a cavalo
há de enfrentar
novos dragões

com o atabaque
da palavra
celebro os dias
nas giras
de um mundo em metáfora



o fim da palavra


o infinito começa onde termina
a palavra, onde escapa algum sentido
que, à distância, não deixa de ser íntimo
jamais além dos corpos, estes cosmos
cujo caos em tensão lhes dá o princípio

o infinito não sabe o longe e o perto
os contém e até nós, os contornados
extraviamos a pele e nele imersos
nos perdemos em mar sem tempo e espaço
como aquele onde singra todo afeto

o infinito alcançamos pelo abraço
e por ele se encorpa em nós um gesto
e mais outro, e mais tantos, feito as águas
que do atlântico tangem cada estômago
de fluido ácido e agora em sal completo

o infinito precede a linha reta
nela inscrito, surpreende o sucessivo
– vige no antes e no entre dois pontilhos:
simultâneo ao caminho, nunca a meta
 se ele mora aqui mesmo, no interstício

o infinito termina onde começa
a palavra, e mais esta que lhe oferta
o batismo: a palavra que o limita
com seu som e sentido – o de infinito – 
apesar de infinitas todas elas

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

JIVM - GÊNESE

Ilustração: Juraci Dórea


GÊNESE


Sabe, moça da encruzilhada,
quando te encontrei foi um assombro.
Tu trazias estampada no semblante
a indagação que me acompanha.
O mais espantoso é que também
eras a resposta que sempre busquei.

Não aquela resposta exata, matemática.
A verdade que tua chegada me trouxe
foi a das abelhas zunindo no romper da aurora
em busca do mel das flores das algarobeiras,
foi a dos cavalos galopando na boca da noite
sonhando com touceiras de capim e éguas luzidias.

Ah, moça, tu estás no centro da Rosa dos Ventos,
pra onde deres o passo é caminho o que há.
A gente olha pra cima e não vê limite:
é tudo um azulão que não acaba mais.
Mas basta dar meio-dia, o limite aparece,
e não é longe não: bem na boca do estômago.

Sabe, vou te dar um chapéu do tamanho do céu,
que é pra te proteger dos devaneios solares
e pra que todos te percebam e apontem para ti:
“olha lá a moça que sombreia o mundo”.
E todos vão te olhar e todos vão te aplaudir
e o arco-íris vai ficar preto-e-branco de inveja.

Aí, um passarinho, desses bem miudinhos
que trazem uma sanfona de cento e vinte no peito,
vai aparecer e assobiar uma cantiga doce:
e a gente, espiando bem dentro dos olhos,
começa a sentir um monte de estrelas pipocar.
É isso, quando te encontrei, nasci.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO



GÉNESIS


Sabes, muchacha de la encrucijada,
cuando te encontré fue un asombro.
Tu traías estampada en el semblante
la indagación que me acompaña.
Lo más espantoso es que tambien
eras la respuesta que siempre busqué.

No aquella respuesta exata, matemática.
La verdad que tu llegada me trajo
fue la de las abejas zumbando alromper de la aurora
en busca de la miel de las flores del algarrobo,
fue la de los caballos galopando en boca de la noche
soñando com matas de hierba y yeguas resplandecientes.

Ah, muchacha, tu estás en el centro de la Rosa de los Vientos,
hacia donde dieres el paso es camino lo que hay.
Miramos hacia arriba y no vemos limite:
es todo un azular que no acaba nunca.
Mas basta que llegue el medio día, el límite aparece,
y no es lejos, no: bien en la boca del estómago.

Sabes, te voy a dar un sombrero del tamaño del cielo,
que es para protegerte de los devaneos solares
y para que todos te perciban y apunten hacia ti:
“miren allá la muchacha que sombrea el mundo”.
Y todos te van a mirar y todos te van a aplaudir
y el arcoíris va a quedar en blanco y negro de envidia.

Entonces un pajarito, de esos bien menuditos
que traen un acordeón de ciento veinte en el pecho,
aparecerá silbando una dulce canción:
y espiando bien adentro de los ojos,
comenzaremos a sentir una explosión de estrellas.
Eso es, cuando te encontré, nací.


TRADUÇÃO PARA O ESPANHOL: VERÓNICA NIETO


O poema “Gênese”, da antologia 50 poemas escolhidos pelo autor, foi publicado na revista literária argentina Magda, em agosto de 2011. A tradução é da escritora Verónica Nieto. A editora da revista é Adriana Ruiz.

domingo, 7 de agosto de 2011

JIVM - AURORA

Foto: Ricardo Prado


AURORA


A liberdade do crepúsculo tremula.
Escuto o alarido dos pássaros do Sertão.

Debruço-me no ninho do Cosmo.
Minhas mãos trabalham no vazio.

Minhas mãos trabalham na imensidão.
Longa batalha em busca da beleza.

Da boca dos pássaros, os violões do Sol.
Rezo benditos e grito os nomes da Terra.

Contemplo a mansidão do silêncio que voa.
As minhas sandálias são feitas de aurora.

De meus dedos esplendem labirintos.
Meu caminho é o strip-tease da solidão.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


Aurora é um dos três poemas inéditos que fazem parte da antologia 50 poemas escolhidos pelo autor, de José Inácio Vieira de Melo, a ser publicada pela Edições Galo Branco, com lançamento marcado para o dia 1 de setembro de 2011 (quinta-feira), no Restaurante Grande Sertão (em frente ao Parque Costa Azul), na cidade de Salvador, das 19:30 às 22 horas. Todos estão convidados!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

LANÇAMENTO DA COLETÂNEA SANGUE NOVO



SANGUE NOVO: 21 POETAS BAIANOS DO SÉCULO XXI

A Escrituras Editora tem o prazer de lançar o livro Sangue Novo: 21 Poetas Baianos do Século XXI, organizado pelo poeta José Inácio Vieira de Melo.
O lançamento vai acontecer na LDM Livraria Multicampi, na Rua Direita da Piedade, em Salvador, no dia 23 de julho (sábado), das 10 às 14 horas.
Nesta coletânea, foram selecionados 21 poetas nascidos a partir de 1980, baianos ou radicados na Bahia. Dez residem em Salvador: Alexandre Coutinho, André Guerra, Bernardo Almeida, Fabrício de Queiroz Venâncio, Gabriela Lopes, Gibran Sousa, Priscila Fernandes, Saulo Moreira, Vânia Melo e Vanny Araújo. Caio Rudá Oliveira, Georgio Rios e Ricardo Thadeu são de Riachão do Jacuípe. Clarissa Macedo e Lidiane Nunes residem em Feira de Santana. Edson Oliveira e Érica Azevedo moram em Santo Estevão. Gildeone dos Santos Oliveira é de Retirolândia. Janara Soares é de Barreiras. Vitor Nascimento Sá é de Maracás. Daniel Farias reside na cidade de São Paulo.
A coletânea conta com a apresentação do escritor e ensaísta Mayrant Gallo, que afirma “Cada poeta se aferra ao seu método de criação e à sua técnica, baseados ambos em suas escolhas pessoais, mas, em geral, o objetivo é o mesmo: acender uma luz no nevoeiro e ascender da obscuridade para a vitrine das relações com o mundo”.
Nas palavras de José Inácio “Sangue Novo muito tem do sangue poético que ora circula pela Bahia e pelos brasis, assim como do velho e bom sangue dos mestres do século XX, que deixaram uma obra que quanto mais o tempo passa, mais se pereniza”. A maior parte destes jovens poetas não tem livro publicado, divulgam seus versos em blogs. São poetas cheios de potencialidades, interessados em se organizar, em promover debates e em mostrar suas produções.
José Inácio Vieira de Melo é poeta, jornalista e produtor cultural. Tem cinco livros de poemas publicados, sendo Roseiral (Escrituras Editora, 2010) o mais recente. Já organizou outras importantes antologias, como é o caso de Concerto lírico a quinze vozes – Uma coletânea de novos poetas da Bahia (Aboio Livre Edições, 2004) e a agenda Retratos Poéticos do Brasil 2010 (Escrituras Editora, 2009). Coordenador e curador de vários eventos literários, como o Porto da Poesia, na VII Bienal do Livro da Bahia (2005) e a Praça de Cordel e Poesia, na 9ª Bienal do Livro da Bahia (2009).
Durante o lançamento irá acontecer um recital com poemas dos 21 poetas do Sangue Novo, recitados por alguns dos integrantes.

Livro: Sangue Novo: 21 Poetas Baianos do Século XXI
Organizador: José Inácio Vieira de Melo 
Apresentador: Mayrant Gallo
Ilustrador: Fernando Aguiar
Autores: Alexandre Coutinho, André Guerra, Bernardo Almeida, Caio Rudá Oliveira, Clarissa Macedo, Daniel Farias, Edson Oliveira, Érica Azevedo, Fabrício de Queiroz Venâncio, Gabriela Lopes, Georgio Rios, Gibran Sousa, Gildeone dos Santos Oliveira, Janara Soares, Lidiane Nunes, Priscila Fernandes, Ricardo Thadeu, Saulo Moreira, Vânia Melo, Vanny Araújo e Vitor Nascimento Sá.
Editora: Escrituras Editora
Páginas: 248
Preço: 
R$ 30,00

sexta-feira, 15 de julho de 2011

PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS RECEBERÁ O POETA MINEIRO ALEXANDRE BONAFIM




Hoje tem poesia na cidade de Maracás. O projeto Uma Prosa Sobre Versos vai receber o poeta mineiro Alexandre Bonafim, para uma integração com a comunidade maracaense.
O projeto já está no quarto ano, o que faz de Maracás a cidade pioneira da poesia no Vale do Jiquiriçá e uma referência no estado da Bahia e no Brasil.
Observando os resultados positivos, os municípios de Iramaia, Nova Itarana e Planaltino estão desenvolvendo projetos similares. No dia seguinte, sábado, 16 de julho, o poeta Bonafim participará de um evento da mesma natureza na cidade de Nova Itarana, onde também será homenageado.
Mais uma vez o poeta convidado e todos os que se fizerem presentes ouvirão um recitais do Grupo Concriz, da cidade de Maracás, e do Grupo Renascer, da cidade de Planaltino. O Grupo Concriz recitará poemas do livro Arqueologia dos acasos. Já o Grupo Renascer preferiu selecionar poemas de vários livros de Alexandre Bonafim. O poeta que se prepare para sentir a força dos seus próprios versos. Haverá um momento musical com o grupo Versão Beta.
Em seguida, O poeta José Inácio Vieira de Melo, curador do projeto, fará um bate papo sobre literatura e assuntos afins com Alexandre Bonafim, que também responderá perguntas da plateia. Aberto às comunidades de Maracás, de Nova Itarana e cidades vizinhas, os dois eventos são gratuitos, e começam às 19 hs 30 min. Em Maracás, acontecerá no Auditório Municipal. Em Nova Itarana, na Câmara Municipal de Vereadores. Vá e leve seus amigos.

terça-feira, 12 de julho de 2011

VERÔNICA DE VATE - ALEXANDRE BONAFIM




ALEXANDRE BONAFIM nasceu em Belo Horizonte em 1976. Viveu na capital mineira até os 8 anos de idade. Em seguida, passou a residir em Franca, interior de São Paulo. Morou também em Assis, Alemanha e, agora, reside em Goiânia. É poeta, ficcionista e crítico literário. Publicou os seguintes livros de poesia: Biografia do deserto (2006), A outra margem do tempo (2008), Sagração das despedidas (2009), Sob o silêncio do anjo (2009), Arqueologia dos acasos (2010) e Arquipélago do silêncio (2011). Teve seu conto "O cavalo azul" publicado na antologia portuguesa "Um rio de contos", livro no qual autores de Portugal e Brasil foram reunidos, em importante antologia. Participa da antologia Roteiro da poesia brasileira, da editora Global, organizada por Marco Lucchesi. É mestre em Estudos literários pela UNESP, defendendo a seguinte dissertação: A graça poética do instante: poesia e Memória em Rubem Braga. Tal trabalho foi publicado em livro com o mesmo título. Atualmente é doutorando em Literatura Portuguesa pela USP, desenvolvendo pesquisa sobre a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen.


Eu sempre fui o pastor do teu riso,
a infância de tua morte,
a eternidade de tua voz.
Eu sempre fui o grito de tua nudez,
as vestes de teu pensamento,
a música de tua carne.
Em ti dissolvi o mar,
as constelações,
as mais ásperas paisagens.
Em ti respirei os abismos,
as interditas palavras,
as horas mais efêmeras.

Fomos dois punhais surdos
a cortarem o silêncio das pedras.



XVII

Para enfrentar a tua beleza,
era necessário amparar-me
na luz dos relâmpagos,
no frêmito dos rios profundos,
na queda dos pássaros;
era preciso agarrar-me
a tudo o que era frágil,
a tudo o que se findava
num leve palpitar de asas.
Não poderia estar só
ante a tua beleza...
Para fitá-la necessitaria
estar de mãos dadas
com todos os desastres,
com todas as febres.
Se livremente olhasse
o teu semblante,
sem me iniciar no rito
de tua delicadeza,
a carne dos meus olhos secaria,
meus ossos como vidro quebrariam,
toda sede e toda fome
devastariam meus dias.
Porque tua beleza
é toda simplicidade,
toda leveza, toda dádiva;
é a sombra de um vôo
que passou pela minha vida
e fez ninho onde nunca existirei.

domingo, 26 de junho de 2011

DOIS POETAS

Por Fernando Py

Roseiral: o mundo encarnado pela seiva das rosas escarlates, de José Inácio Vieira de Melo (São Paulo: Escrituras Editora, 2010; prefácio de Astrid Cabral e posfácio de Eliana Mara Chiossi). Roseiral é o quinto livro do poeta, alagoano radicado na Bahia. Compõe-se de 42 poemas divididos em cinco partes. Em sua poesia, o Nordeste sempre desempenhou papel fundamental, e o mesmo sucede neste livro. Porém, aqui o poeta resolve dar uma guinada em relação aos livros anteriores. O Nordeste continua a ser visto e revivido. No entanto, de maneira mais amadurecida, com todo o seu arsenal de visão telúrica e de suas vivências rurais do sertão, e ainda que mantenha a sua fidelidade às raízes primordiais da nossa terra, José Inácio mostra um erotismo desataviado, sem quaisquer disfarces. Seu erotismo está na base de sua ânsia de libertação dos padrões arcaicos da sociedade provinciana, da revolta contra preconceitos e abusos que perseguem e destroem o ser humano. Assim, em muitos poemas do livro, como “Vingança” (p. 62) e “Canibal” (p. 66) p. ex., nos defrontamos com a violência da linguagem que, de certo modo, indica uma nova atitude dentro de seu lirismo costumeiro. Por outro lado, o poeta se engrandece neste livro, com certeza o mais bem articulado em todas as suas partes e elaborado com toda a consciência da técnica do verso e da expressão da linguagem. É certo que, agora na casa dos quarenta anos, José Inácio Vieira de Melo alcança aqui o seu momento mais significativo, onde se ressaltam os poemas (sobretudos os sonetos brancos) das séries ‘A idade da pedra’ e ‘Roseiral’. Vale a pena uma leitura cuidadosa.

Verso para outro sentido, de Felipe Stefani (São Paulo: Escrituras Editora, 2010). Até agora, desconhecíamos inteiramente o poeta. Mas este livro nos chamou a atenção para o seu nome, principalmente pela inesperada floração de imagens naturalmente poéticas. É como se o poeta tratasse a sua linguagem, o seu vocabulário de modo a oferecer ao leitor um conjunto de termos de um simbolismo expressivo e vibrante (como acentua Nélson de Oliveira nas “orelhas” do volume). E esse simbolismo, se paga seu tributo a poetas como os franceses Corbière e Laforgue, ou o nosso Murilo Mendes, p. ex., nem por isso deixa de exibir notável cunho pessoal. Felipe Stefani poderá vir a ser um dos grandes poetas brasileiros dos anos 2020.

Texto publicado na Tribuna de Petrópolis, em 17 de junho de 2011

sexta-feira, 17 de junho de 2011

SANGUE NOVO - 21 POETAS BAIANOS DO SÉCULO XXI - EM BREVE!


A coletânea Sangue novo – 21 poetas baianos do século XXI, publicada pela Escrituras Editora, de São Paulo, terá lançamento em Salvador, no dia 23 de julho de 2011, das 10 às 14 horas, na livraria LDM Multicampi, na Rua Direita da Piedade. Sangue novo conta com organização do poeta José Inácio Vieira de Melo e com apresentação do escritor Mayrant Gallo. A ilustração da capa é de Fernando Aguiar, artista plástico e poeta português.

Relação dos 21 poetas:

Alexandre Coutinho
André Guerra
Bernardo Almeida
Caio Rudá de Oliveira
Clarissa Macedo
Daniel Farias
Edson Oliveira
Érica Azevedo
Fabrício de Queiroz
Gabriela Lopes
Georgio Rios
Gibran Sousa
Gildeone dos Santos Oliveira
Janara Soares
Lidiane Nunes
Priscila Fernandes
Ricardo Thadeu
Saulo Moreira
Vânia Melo
Vanny Araújo
Vitor Nascimento Sá