quinta-feira, 26 de novembro de 2009

JIVM - JARDIM DOS MANDACARUS

foto Ricardo Prado Edmar Vieira recitando o poema Jardim dos mandacarus


JARDIM DOS MANDACARUS


Em verdade conheço o cheiro de Sol desse lugar,
uma agreste paragem de chão rachado – solo sagrado.
De noite, o vento corre pelo jardim trazendo algum frescor,
somente um olor-semente exala dessa flor,
vida da pouca vida, mas forte mais.

Além da sombra da cumeeira donde estou e sou,
assunto o que sobrou: uma ode à própria vida.
E nos tortos caminhos desse jardim de mandacarus
espicharei os secos sentimentos para apurar as emoções...

Arreneguei a flor e o fruto por aquela calunga faceira
que tirou o assossego do balanço de rede,
que causou esta sede de vários açudes.

Amarga malunga! Arrepare não...
Somos tantos travaliando pelos obeliscos cactáceos;
aproveitei a aragem para dispor a miragem:
– Jardim dos Mandacarus –
aceso facheiro de espinhos, de sentimentos despenados.

E o que mais dizer, o que mais desse árido ser,
dessa fúria inclemente; são tantas vidas secas
e mesmo assim clorofiladas, mesmo assim aladas...
conheço bem esse lugar, esses mandacarus ardentes,
– esses totens do Sertão.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

JIVM - JARDIM DAS ALGAROBEIRAS

foto Ricardo Prado Carla Visi lendo o poema Jardim das algarobeiras


JARDIM DAS ALGAROBEIRAS


Tenho estado em contato com a Natureza.
Neste lugar – Jardim das Algarobeiras –
tudo apela aos sentidos e tudo é Natureza.
Os pássaros cantam, e o seu vôo é mais que o canto;
a vaca muge, o cavalo relincha, a rã coaxa,
a cartilha estava certa; a cartilha só não
ensinou que o galo inaugura o dia,
e que as árvores (aqui, as algarobeiras,
mais que quaisquer outras – a não ser
aquele solitário pau-ferro) dançam,
dançam envolvidas por um louco dançarino.

Os pássaros cantam, mas é o vento
– o dançarino – que sussurra em seus ouvidos
juras de amor que somente quem corre mundo
pode dizer, e, naquele momento,
na eternidade da canção, tudo é verdade.

Mas além disso há algo mais forte:
os caminhos... O vento é andarilho errante
que se apaixona pela flor de agora
e daqui a pouco pela flor seguinte
e a outra e a outra e,
é aquele capaz de uma noite de volúpia
com quem lhe abrir o coração,
porém seu coração jamais pertencerá a alguém,
porque já nasceu possuído pela estrada.

Como bailam as algarobeiras,
como exibem suas cabeleiras frondosas
de um verde que não há como dizer.
A beleza é simples e é verde.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

JIVM - ROMARIA

foto Ricardo Prado Jackson Costa lendo o poema Romaria


ROMARIA


Oh que caminho tão longe
Cheio de pedra e areia
Domínio popular

Oh que estrada mais comprida
Oh que légua tão tirana
H. Teixeira e Luiz Gonzaga


Dentro de mim, nas lonjuras,
bem dentro do meu juízo,
um romeiro caminhando
em busca do que preciso.

Oh que caminho tão longo
cheio de pedra e de areia,
tenho que firmar o passo
e romper essas cadeias.

Pergunto, em meu desatino,
aonde ir? Que lugar?
Por que a sina de cigarra
esparramando o cantar?

Certo, sou aquele que parte
numa eterna romaria,
faça sol ou faça chuva,
seja de noite ou de dia.

O caminho que percorro
não é o da Rosa dos Ventos,
pois ele surge do nada,
de acordo com o momento.

Oh que estrada mais comprida,
tanto azul, tanta poeira,
em que plaga do Universo
estará o meu Juazeiro?

Cada qual tem seu destino:
Pedro Vaqueiro tangia
gado pelo mundo afora;
seu Fortunato fazia

forno pra queimar tijolo;
Manezim Tetê, meu tio,
caçava tatu e onça
com o luzeiro dos pavios.

Lá me vou com minha cruz,
são poucos beiços de açude
e tantas léguas tiranas.
Maior e vária é esta sede

que vale cada passada
desta minha romaria.
Peregrino de mim mesmo
no meio da travessia.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

JIVM - GÊNESE

foto Ricardo PradoTamanho da fonte Carlos Barbosa lendo o poema Gênese


GÊNESE


Sabe, moça da encruzilhada,
quando te encontrei foi um assombro.
Tu trazias estampada no semblante
a indagação que me acompanha.
O mais espantoso é que também
eras a resposta que sempre busquei.

Não aquela resposta exata, matemática.
A verdade que tua chegada me trouxe
foi a das abelhas zunindo no romper da aurora
em busca do mel das flores das algarobeiras,
foi a dos cavalos galopando na boca da noite
sonhando com touceiras de capim e éguas luzidias.

Ah, moça, tu estás no centro da Rosa dos Ventos,
pra onde deres o passo é caminho o que há.
A gente olha pra cima e não vê limite:
é tudo um azulão que não acaba mais.
Mas basta dar meio-dia, o limite aparece,
e não é longe não: bem na boca do estômago.

Sabe, vou te dar um chapéu do tamanho do céu,
que é pra te proteger dos devaneios solares
e pra que todos te percebam e apontem para ti:
“olha lá a moça que sombreia o mundo”.
E todos vão te olhar e todos vão te aplaudir
e o arco-íris vai ficar preto-e-branco de inveja.

Aí, um passarinho, desses bem miudinhos
que trazem uma sanfona de cento e vinte no peito,
vai aparecer e assobiar uma cantiga doce:
e a gente, espiando bem dentro dos olhos,
começa a sentir um monte de estrelas pipocar.
É isso, quando te encontrei, nasci.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

terça-feira, 24 de novembro de 2009

VERÔNICA DE VATE - ALEILTON FONSECA



ALEILTON Santana da FONSECA nasceu em Itamirim, hoje Firmino Alves - Bahia, em 21/07/1959. É poeta, ficcionista, ensaísta e professor universitário. Em 1977, começa a publicar contos e poemas no Jornal da Bahia, de Salvador, tendo vencido 3 vezes o seu Concurso Permanente de Contos. Publica também no suplemento A Tarde/Novela, do jornal A Tarde. Em Ilhéus passa a assinar a coluna "Entre Aspas", no Jornal da Manhã. Em 1979, ingressa no curso de Letras da UFBA. Organiza seu primeiro livro de poemas, que recebe Menção Honrosa no concurso Prêmios Literários Universidade Federal da Bahia.Em 1984 ingressa, como professor, no curso de Letras da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, transferindo-se para a cidade de Vitória da Conquista. Publica o livro de poemas, O espelho da consciência. Em 1988, especializa-se em Literatura brasileira, ao ingressar no Mestrado em Letras, na Universidade Federal da Paraíba. Em 1992 defende tese de mestrado, sobre música e literatura romântica. Em 1997, defende a tese de doutorado intitulada: “A poesia da cidade: Imagens urbanas em Mário de Andrade”, que sairá em livro proximamente. Ainda em 1996 retorna a Salvador, onde fixa residência. Concorre ao "Prêmios Culturais de Literatura" da Fundação Cultural do Estado da Bahia, com o livro Jaú dos Bois, que fica entre os vencedores (3o Lugar) e é publicado pela Relume Dumará, em 1997. Em 1998, funda, em parceria com Carlos Ribeiro e outros escritores, Iararana – Revista de arte, crítica e literatura, periódico de divulgação da geração 80. Em 1999, transfere-se para a Universidade Estadual de Feira de Santana, integrando-se ao grupo fundador do curso de Pós-Graduação em Literatura e Diversidade Cultural (PPgLDC), tendo já orientado várias dissertações concluídas. Em 2003 leciona, como professor convidado, na Universidade de Artois (França). Neste ano e nos seguintes faz palestras nas Universidades: Sorbonne Nouvelle, Nanterre, Artois, Rennes, Toulouse Le Mirail (França) e ELTE (Budapeste). Tem participado de diversos eventos universitários e culturais em vários estados do país. Em 2001 publica o livro de contos O desterro dos mortos. Nesse ano recebeu o Prêmio Nacional Herberto Sales – Contos, da academia de Letras da Bahia, com o livro O canto de Alvorada, publicado em 2003,com 2ª edição em 2004, pela Editora José Olympio. Em 2005 co-organiza (com o escritor Cyro de Mattos), o livro O triunfo de Sosígenes Costa: estudos, depoimentos, antologia (Ilhéus: Editus; Feira de Santana, UEFS Editora, 2005.), que recebeu o Prêmio Marcos Almir Madeira 2005, da União Brasileira de Escritores-RJ.Em 2009 completou 50 anos e foi homenageado pelo Lycée des Arènes, em Toulouse-França, com uma exposição de trabalhos de alunos sobre seu livro Les marques du feu. Na Bahia foi homenageado pelo IL-UFBA. Neste mesmo ano, seu romance Nhô Guimarães foi adaptado para o teatro e encenado em Salvador e outras cidades. É correspondente da revista francesa Latitudes: cahiers lusophones. Desde 2005, pertence à Academia de Letras da Bahia, ocupando a cadeira nº 20. É membro da UBE-São Paulo e do PEN Clube do Brasil.

LIVROS DE POESIA, ENSAIO, CONTOS E ROMANCE:
1.Movimento de Sondagem. Salvador; Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1981. “Coleção dos Novos, vol. 2 – série Poesia”.
2. O espelho da consciência. Salvador: Gráfica da UFBA, 1984.
3. Teoria particular (mas nem tanto) do poema — ou poética feita em casa. São Paulo: Edições D’Kaza, 1994.
4. Enredo romântico, música ao fundo. (ensaio) Rio de Janeiro: 7 Letras, 1996.
5. Oitenta: poesia e prosa. Coletânea comemorativa dos 15 anos da “Coleção dos Novos”. Salvador: BDA-Bahia, 1996. (org. Aleilton Fonseca e Carlos Ribeiro)
6. Jaú dos bois e outros contos. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1997.
7. Rotas e imagens: literatura e outras viagens. Feira de Santana: UEFS/PPGLDC, 2000. (Org. Aleilton Fonseca e Rubens Alves Pereira)
8. O desterro dos mortos (contos) Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001
9. O canto de Alvorada (contos). Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.
10. O triunfo de Sosígenes Costa. Ilhéus: Editus, 2004. (Org. Cyro de Mattos e Aleilton Fonseca).
11. As formas do barro & outros poemas. Salvador: EPP. 2006.
12. Nhô Guimarães (romance). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.
13. Todas as casas (contos, livro coletivo). Salvador: EPP, 2007.
14. Les marques du feu et autres nouvelles de Bahia. Paris: Lanore, 2008. (Tradução de Dominique Stoenesco).
15. Guimarães Rosa, écrivain brésilien centenaire. Bruxelas, Librairie Orfeu, 2008.
16. O olhar de Castro Alves. (org.). Salvador: ALB/ALBA, 2008.
17. O pêndulo de Euclides (romance). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.
*
Aleilton Fonseca vai participar, no próximo sábado, dia 28 de novembro, do projeto Travessia das Palavras, na cidade de Jequié, Bahia, que conta com a coordenação de Leonam Oliveira e de José Inácio Vieira de Melo. O Projeto vai contar também com a participação especial do Grupo Concriz - uma turma da boa da cidade de Maracás, composta por 25 jovens recitadores, dirigida pelo trio de poetas Edmar Vieira, Marcelo Nascimento e Vitor Nascimento Sá. Com esse evento, o projeto Travessia das Palavras chega ao final da sua programação para 2009.


ANTI(TESTAMENTO)


Os pais, os avós
cumpriram os caminhos;
já não têm a bênção do futuro:
caminhemos sozinhos.

Os pais, os avós
inventaram ofícios;
mas agora é difícil:
aprendamos sozinhos.

Os pais, os avós,
remoemos seus versos;
os nossos poemas
são pós diversos.

Os pais, os avós,
os sinais da estrada,
seus contras, seus prós,
somos nós,
entre o Sol
e o nada.


ALEILTON FONSECA

ALEILTON FONSECA - AS FORMAS DO BARRO


Escultura: Filipe Dâmaso Saraiva


AS FORMAS DO BARRO


Eu trago as formas do barro
esculpidas em minhas mãos:
o cheiro molhado de argila
umedece as minhas palavras
e o sol que vem do passado
revela um segredo guardado.

A mão cumpre o risco no ar
e os dedos beneficiam a argila,
mergulhando no gesto vertical.
A esquerda recebe a dádiva
e juntas compartilham o corpo
medido em areia, argila e água.

O verbo nas mãos se enconcha,
se eleva, beija o ar em curva,
e sobre o vazio da forma passa
contra a madeira sem reclame.
A direita alça o arco de arame
e as aparas se despem da massa.

Assim se repete a procura
em novo bolo que se enforma:
vira-se a forma sobre a mesa
de trabalho do artesão,
e feito o asseio de areia,
dois poemas brotam no chão.

De dois em dois, em soma de pares
os montes de argila se multiplicam.
E o oleiro, sem que se repare,
contempla as paredes do futuro,
que hoje, por certo, ainda abrigam
os seus sonhos riscados num muro.


ALEILTON FONSECA

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

ENTREVISTA – ALEXANDRE BONAFIM: BRASIL É ARQUIPÉLAGO DE POETAS

Por Kátia Borges


Em passagem rápida por Salvador, o poeta Alexandre Bonafim, considerado um dos melhores autores contemporâneos no gênero, foi entrevistado na seção Orelha. Leia trechos inéditos da entrevista. (Entrevista concedida à jornalista e escritora Kátia Borges. Publicada parcialmente na revista semanal Muito #78, do jornal A Tarde, em 27 de setembro de 2009, em Salvador, Bahia. - Foto: João Alvarez).

KÁTIA BORGES – Qual a avaliação que você faz do panorama literário atual, especialmente na área de poesia?

ALEXANDRE BONAFIM – O Brasil é um arquipélago de poetas. Temos um panorama rico e múltiplo. Ainda sinto que a divulgação espoca, infelizmente, com maior força no eixo Rio-São Paulo. Mas a boa poesia, a despeito de qualquer empecilho, prospera mesmo contra as maiores adversidades. Do Amazonas ao Rio Grande do sul, há uma constelação de grandes escritores. Nesse sentido, sites como Estante Virtual nos ajudam a conseguir as obras raras, divulgadas apenas regionalmente. Faltam ainda iniciativas editorias capazes de difundir a poesia do nosso país. Como leitor, sou um combatente, um pesquisador incansável. Tento ler a poesia de todos os rincões de nossa pátria.

KB – Li um conto seu numa revista eletrônica, a prosa é algo que o atrai?

AB – A minha prosa nasce da poesia. Talvez eu tenha buscado a narrativa como um instrumento capaz de transbordar em mim a palavra. Sou amante da prosa de Proust. Daí a nostalgia de muitos dos meus contos, nos quais tento buscar as epifanias perdidas na infância. Tenho um livro pronto, ainda não publicado, de contos, chamado O Cavalo Azul. Essa imagem do Cavalo Azul extraí da famosa revista publicada pela poeta Dora Ferreira da Silva. Esse animal solar, da cor do céu, é um símbolo etrusco. Tais animais levavam os mortos ao reino das alturas. Enfim, a poesia é para mim um cavalo azul, ser encantado capaz de nos guiar para uma dimensão maior da vida.

KB – Como vê a movimentação de autores na internet?

AB – A internet é um importante meio de divulgação da poesia atual. Como se tornou quase impossível publicar livros, devido ao alto custo, a internet surgiu como excelente oportunidade. Eu mesmo sou um blogueiro apaixonado pelo mundo virtual. Quando criei meu blog, Arquipélago do silêncio, minha escrita, inclusive, amadureceu. O fato de você ver seu livro on-line, em um blog, torna-o concreto e isso ajuda o escritor a burilar seu texto, a perceber-se melhor enquanto escritor. Enfim, a internet permitiu democratizar a poesia.

KB – Como constrói seus poemas, que sentimentos o fazem escrever?

AB – O querido amigo, o poeta José Inácio Vieira de Melo, disse certa feita que eu era um poeta de epifanias. Creio que ele tinha razão. A poesia, para mim, nasce de um mistério íntimo, lugar em que nos irmanamos com o transcendente. Eu precisei ler um importante livro do Rudolf Otto, intitulado O sagrado, para descobrir que a poesia nasce do “Tremendum”, ou seja, nasce de um sentimento visceral, feito corte de relâmpago a vergastar nossos sentidos, presença enfim do sagrado terrível. Eu sinto que a poesia insurge desse fascínio, dessa força motriz da vida, incompreensível, mas belíssima. O lirismo é um mergulho na noite do silêncio, essa noite de onde irrompemos e para onde seremos levados pela morte. Rilke, poeta imprescindível para mim, escreveu suas famosas Elegias de Duíno a partir de um chamado transcendente. Eu procuro essa voz escondia nos resquícios do cotidiano, nos pormenores da vida. Essa é a grande aventura da escrita: estar sempre a mercê de um arroubo, de um estertor pulsante.


Eu sempre fui o pastor do teu riso,
a infância de tua morte,
a eternidade de tua voz.
Eu sempre fui o grito de tua nudez,
as vestes de teu pensamento,
a música de tua carne.
Em ti dissolvi o mar,
as constelações,
as mais ásperas paisagens.
Em ti respirei os abismos,
as interditas palavras,
as horas mais efêmeras.

Fomos dois punhais surdos
a cortarem o silêncio das pedras.


ALEXANDRE BONAFIM

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

ALEXANDRE BONAFIM - SAGRAÇÃO DAS DESPEDIDAS

SAGRAÇÃO DAS DESPEDIDAS XVII


Para enfrentar a tua beleza,
era necessário amparar-me
na luz dos relâmpagos,
no frêmito dos rios profundos,
na queda dos pássaros;
era preciso agarrar-me
a tudo o que era frágil,
a tudo o que se findava
num leve palpitar de asas.
Não poderia estar só
ante a tua beleza...
Para fitá-la necessitaria
estar de mãos dadas
com todos os desastres,
com todas as febres.
Se livremente olhasse
o teu semblante,
sem me iniciar no rito
de tua delicadeza,
a carne dos meus olhos secaria,
meus ossos como vidro quebrariam,
toda sede e toda fome
devastariam meus dias.
Porque tua beleza
é toda simplicidade,
toda leveza, toda dádiva;
é a sombra de um vôo
que passou pela minha vida
e fez ninho onde nunca existirei.


ALEXANDRE BONAFIM

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

CELEBRAÇÃO DO ENCONTRO

José Inácio Vieira de Melo

Sagração das despedidas, quarto livro de poemas de Alexandre Bonafim, é, em verdade, a celebração do mais humano dos sentimentos, aquele que é causado pela ausência e que por muitas vezes adquire feições de lugar – uma espécie de salão memorial – em cada pessoa que o sente. E todos o sentem: a saudade.
Bonafim consegue insculpir as lembranças mais ternas e longínquas, trazendo-as para o templo da memória. Sua poesia é uma exibição das existências imagináveis. Não o que ele próprio tenha vivido, mas o que qualquer um pode vir a experimentar. O mais fantástico é que essas experiências, mesmo que sejam as mais difíceis, mesmo que sejam as mais angustiantes, são apresentadas com tal leveza, que deixam sempre uma chance de sorriso, um sentimento de que foi preciso andar por aqueles vales, atravessar vazios. Só assim será possível olhar para traz e contemplar o que se viveu, só assim será possível, ao menos, escrever a Biografia do deserto.
Jovem das montanhas das Minas Gerais, o mar exerce um encanto sobre sua pessoa e é um traço marcante em sua poética, fazendo-se sempre presente com suas ondas, seus veleiros e maresias. Bonafim é um poeta de epifanias. Todo percurso de seus versos conduzem-nos para o espaço do sublime. Do alto do meu delírio, vejo-o sentado em um pequeno barco emborcado a contemplar a vastidão das plagas marítimas, a ouvir o concerto das ondas e dos ventos. Do seu lado esquerdo, o menino que foi um dia estampa um sorriso na sua lembrança e corre para o mar, a banhar-se nas águas da imensidão. É o instante em que Bonafim alcança A outra margem do tempo.
Sagração das despedidas traz relampejos da beleza. Uma beleza que está presente em devaneios, mas que só se realiza quando cada verso vibra dentro da sua individualidade, conferindo a cada poema cintilação singular. Essa inscrição instaura momentos que provocam arrepios. É a conformação estética da beleza, é a realização de uma experiência íntegra. Bonafim sabe o quanto custa essa alquimia, sabe que para fitar a beleza é necessário “estar de mãos dadas/ com todos os desastres/ com todas as febres”. A sua lira está afinada com a de Rilke que, nas Elegias de Duíno, apregoa: “Pois que é o Belo/ senão o grau do Terrível que ainda suportamos”.
Alexandre é da estirpe dos poetas que elevam a condição humana, tal qual o Jorge de Lima de A túnica inconsútil, tal qual o Gerardo Mello Mourão de Algumas partituras. De seu manancial jorram versos luzidios nos quais podemos contemplar os deuses que habitam nossos eus, pois “nessa caminhada, sem paradeiro, sem itinerário/ as surpresas tatuam em nossos ombros/ a fulguração das galáxias mais altas”.
Quando Alexandre Bonafim tange sua lira, “as constelações batizam o silêncio”. E, do cântico de suas veias, “os que morreram renascem, todos os dias”, e renascem para inaugurar a aurora da vida, para celebrar esse encontro que, em seu íntimo, traz a Sagração das despedidas.

Posfácio do livro de poemas Sagração das despedidas (Biblioteca 24x7, 2009).

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

FÓRUM DAS LETRAS DE OURO PRETO

Estive em Ouro Preto. Mas parece que ainda estou em Ouro Preto. Ouro Preto é um lugar do qual a gente não sai mais nunca. A energia barroca de suas igrejas, edificações e monumentos têm uma força que conduz cada pessoa para dentro da beleza. Sua geografia cheia de ladeiras e montanhas faz com que o caminhante valorize cada passo que dá. Mas como vale a pena andar pelas ruas íngremes de Ouro Preto, e reparar para sua gente hospitaleira e sentir pulsarem uníssono os mais de 27 mil corações de estudantes. Agora, mais do que nunca, entendo as palavras do menestrel do cancioneiro popular Milton Nascimento – entidade que canta com a boca de Deus.
Mas fui para Ouro Preto para participar do Fórum das Letras. Para mediar uma mesa composta por célebres jornalistas brasileiros, que também são escritores renomados: Edney Silvestre, apresentador do programa Espaço Aberto Literatura, na Globo News; Leda Nagle, apresentadora do programa Sem Censura, na TV Brasil; e Carlos Herculano, repórter do EM Cultura, do jornal Estado de Minas. O tema do colóquio foi A arte de entrevistar um escritor. O evento, que aconteceu no primeiro teatro brasileiro, a Casa da Ópera, no dia 31 de outubro, às 11 horas, foi um sucesso. O teatro estava lotado por um público formado predominantemente por estudantes universitários. Comecei recitando o poema “Epígrafe” do poeta Ruy Espinheira Filho. Mal terminei de ler o poema, o Edney foi logo pedindo a folha com o poema para ele. A Leda Nagle foi ovacionada pela platéia. Infelizmente, o transporte do Carlos Herculano Lopes atrasou bastante, quando ele chegou o evento estava próximo de terminar, então ele não quis subir ao palco. Mas depois saímos para almoçar e parecia que já nos conhecíamos há muito tempo, parecia, mesmo, que éramos irmãos. E de fato a fraternidade ficou selada, jurada e sacramentada.
Não posso deixar de lembrar do carinho de João Luiz, reitor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), e de sua esposa Sílvia, que me recepcionaram tão gentilmente, com um jantar na noite de minha chegada, na sexta feira, dia 30. Assim como o prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo, uma figura sempre presente. De Guiomar de Grammont, organizadora do Fórum, uma pessoa que se dividiu em mil para asseverar o sucesso da sua empreitada literária. Tive a alegria também de conhecer escritores maravilhosos, pessoas do meu tempo que dedicam suas vidas à arte das letras, gente como Wilmar Silva, Ronaldo Werneck, Rodrigo Garcia Lopes e Guilherme Fiúza. Na noite do dia 1º de novembro, véspera de minha partida, chegou o casal Aleilton Fonseca e Rosana Patrício Ribeiro, queridos amigos. Estivemos juntos no jantar de confraternização que contou com a presença da maioria dos convidados do Fórum das Letras, onde conheci o poeta Guilherme Mansur, José Miguel Wisnik, Mary Del Priore e tantas outras pessoas. Confesso que foi um regozijo ter ido a Ouro Preto e ter participado do Fórum das Letras.
JIVM

Fórum das Letras – ano 5 – de 29 de outubro a 2 de novembro de 2009

JIVM, Edney Silvestre e Leda Nagle. Foto: Carol Reis

JIVM e Edney Silvestre. Foto: Dany Starling

Leda Nagle e JIVM

Carlos Herculano Lopes, JIVM e Ronaldo Werneck

JIVM e Edney Silvestre – Pré-lançamento do primeiro romance
de Edney Silvestre,
Se eu fechar os olhos agora

José Inácio Vieira de Melo fotografado por Carol Reis,
do jornal Estado de Minas


Paulo Brant (secretário de cultura do estado de Minas Gerais), JIVM
e Guiomar de Grammont (Organizadora do Fórum das Letras)

Angelo Oswaldo (prefeito de Ouro Preto) e JIVM

Carlos Herculano Lopes, Wilmar Silva, Rodrigo Garcia Lopes e JIVM

domingo, 1 de novembro de 2009

ENTREVISTA - EMMANUEL MIRDAD



SANGUE NO OLHO – Filho de pai poeta e mãe musicista, EMMANUEL MIRDAD é um soteropolitano libriano espinhento de 1980. Formado em Jornalismo pela Facom - UFBA, trabalha no Núcleo de Produção Musical da Educadora FM, produzindo os programas Especial das Seis e Especial de Sábado, além de outras atividades. É produtor cultural desde 2004, e trabalha na elaboração e execução de projetos. É o criador do Prêmio Bahia de Todos os Rocks. Compõe desde 1997 e já produziu seis álbuns, com suas canções e experimentações, mas atualmente está afastado da música. Mantém o blog El Mirdad - Farpas e Psicodelia (www.elmirdad.blogspot.com), onde divulga sua produção e trabalhos de outros artistas. Possui dois livros ainda não publicados, Deserto Poema, disponível em posts no blog, e Abrupta Sede. Mirdad é um poeta sangue no olho. Atua em vários ramos das artes, como já podemos ver, e acredita que para essa atuação a internet é indispensável, visto ser um espaço que democratiza a informação, assim como proporciona uma rápida e eficiente divulgação de qualquer produto. Mirdad afirma que “Pra um autor iniciante, a ausência de um blog ativo é quase uma implacável rota às gavetas.” Vamos, então, à entrevista com Emmanuel Mirdad, o poeta que quer “tacar fogo nos elogios vazios que abestalham os blogs literários”

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Você é envolvido com a cena rock de Salvador e escreve prosa e poesia, além de ser filho de um poeta inédito. Dentro dessa sua movimentação, qual o espaço que a poesia ocupa? Ela é algo indispensável para você?

EMMANUEL MIRDAD – Como produtor cultural e articulador, cada vez mais estou envolvido em diversos projetos e trabalhos, e isso tem um reflexo improdutivo na rotina do meu fazer artístico. Hoje confesso que a poesia ocupa o espaço de uma caixa de sapato chique, mas já gasto, entulhada no quarto dos fundos; não há o uso rotineiro, só nos grandes eventos, esporádicos. Mas a caixa continua lá, guardando o bem a postos pra ser usado, e você sabe e conta com isso. Então, a poesia continua aqui, como sempre estará, prestes a ser concretada no computador, nas brechas dessa correria violenta de hoje; eu sei e conto com isso. E essa preciosa e rara pausa para poetar é o grande evento! Indispensável! Antes de toda e qualquer configuração, eu sou poeta.

JIVM – E seu pai, qual a influência que exerce nessas suas práticas, sobretudo na de poeta. E quais as suas leituras referenciais? E o que está lendo no momento?

EM – Meu pai tem 78 anos e é uma figuraça ímpar, filósofo, poeta de gaveta e desmistificador das ‘bilhares’ ilusões humanas. Cataloguei sua obra e compus um CD Poema com um fragmento micro desta, chamado Ilusionador, que apresentei como TCC no curso de Jornalismo da UFBA em 2006. Esse contato próximo com seus ‘filopoemas’ atiçou minha acidez consideravelmente. O deboche presente em suas risadas fartas do dia a dia, aliado a um laço de quase 30 anos de amizade fraternal e intenso aprendizado, enraizaram-me conceitos e valores que são hoje o pilar base de meu olhar facão.
Tenho uma dívida enorme com a literatura; há muito que ler ainda. Faltam-me obras referenciais, e você, caro Inácio, sabe muito bem que comecei há pouco a desanuviar minha ignorância imbecil, graças ao Pés Quentes nas Noites Frias, de Mayrant Gallo, que você me deu de presente quando éramos colegas na Facom. Portanto, diante minha humilde coleção, cito Clarice Lispector, Nelson Rodrigues e Mayrant Gallo. No momento, acabei de ler o interessante A Dama do Velho Chico, de Carlos Barbosa (recomendo!), e estou a decifrar Dostoievski e o tomo Memórias da Casa dos Mortos.

JIVM – Você tem um blog, onde disponibiliza seus CDs e seus livros. A publicação desse material não é algo que lhe interessa? Se há interesse, quais são os empecilhos?

EM – Criei o blog El Mirdad - Farpas e Psicodelia essencialmente pra disponibilizar minha obra artística. Algum tempo depois, passei a criar e publicar várias seções, sempre divulgando a obra de outros artistas, focado na música e literatura, além de expor minhas opiniões e memórias. Ainda bem que mudei o intento! Reconheci meu limite de talento e abandonei a música como artista e compositor, mas uma parte da obra está disponível pra download no blog, meramente como um ilustrativo de peças que compõem o mosaico de mim.
Agora em relação à literatura, publiquei na íntegra, em 88 posts, o livro Deserto Poema, ainda inédito em papel e arquivo digital, e alguns fragmentos dos 25 contos que compõem o livro Abrupta Sede, também inédito. Tenho total interesse em publicá-los, e tento fazer isso desde o início deste ano de 2009. E hoje, em que pé está o processo? Continuo aguardando a colaboração de um amigo, que ficou de revisar os livros e até hoje não terminou. A verba que tenho, do meu bolso, só vai dar pra pagar, apertado, a impressão de 500 exemplares cada.

JIVM – Falemos dos diálogos. Qual o diálogo da sua poesia com a tecnologia? Em que medida se dá o diálogo da sua poesia com a música que você faz? E com a sua prosa? Como distingue a poesia dessas outras formas, dentro da sua criação?

EM – Para minha poesia, a tecnologia é questão de suporte. Hoje já consigo escrever, e acho até melhor, do onírico diretamente ao digital. Antes, só no papel e caneta, pra depois transcrever e arquivar; trabalho extra e entulho. Agora é muito mais prático e limpo, sem as canetadas e borrões inevitáveis da edição. Além disso, há o blog, espaço democrático em que experimento minhas criaturas ao crivo gratuito de qualquer um; interajo, divulgo e expando as possibilidades de fruição da obra. Pra um autor iniciante, a ausência de um blog ativo é quase uma implacável rota às gavetas.
Em dez anos, compus várias canções (a maioria descartável), com o cuidado (ou a pretensão) constante de não criar uma letra 'xibunga' só pra ressaltar o ritmo. Por muitas vezes, poemas se tornaram letras de canções e vice-versa (no livro Deserto Poema há exemplos). De fato foi um diálogo íntimo e constante, exemplificado no nome da banda que toquei por seis anos: The Orange Poem. Era som e poema. Uma interação que, de certo modo, se assemelha à prosa; há contos no Abrupta que foram desenvolvidos a partir de poemas ferrões do Deserto. E esse murro no estômago é o que une as duas formas que, em mim, brotam do universo árido de um areal de navalhas. A música é anseio. A prosa é laboratório. A poesia sou eu.

JIVM – Você é um poeta incendiário ou um poeta das águas?

EM – Incendiário. Sangue no olho.

JIVM – O que é que renasce das cinzas de seus versos queimados?

EM – Espero que não renasça nada quando botarem ou eu botar fogo em tudo; temos que escapar, mesmo que o relógio advirta que não.

JIVM – E depois o que pretende aquecer com seus versos de fogo? E o que mais?

EM – Eu não quero aquecer nada. Quero é machucar, tacar fogo, fustigar, maltratar os elogios vazios que tanto abestalham os blogs ‘literários’ por aí.
E mais: você, que por acaso leu esta baboseira aqui, pare, por algo que ainda seja sagrado, de sair comentando nos blogs badalados por aí a praga do ‘lindo!’ à toa. É medíocre, imbecil, carente e vaidoso. E o autor vai ‘cagar e andar’ pra você.

sábado, 31 de outubro de 2009

TRÊS POEMAS DE EMMANUEL MIRDAD


Ilustrações: Txhelo Castilho
















EVOLUÇÃO



primeiro foi a rebeldia
depois o cansaço
por último a fuga
e agora os cacos



GADO BOM É NO MEU PRATO


para essa poesia
dos homens de barro
ordeno que chova
derreta e desfigure
todos os encatamentos baratos
de uma atmosfera farsante

o urbano impera
e há tempos digeriu a inércia
de quem saúda o passado transposto

já era, já foi, acabou
e que as mãos cerrem as páginas inúteis
que emporcalham as prateleiras quase ausentes

eu escrevo pra mim
e enterro você, que nunca me lerá



MARIA CEGUETA


É difícil explicar a alguém
Como chegar a um determinado lugar
Se a pessoa estiver pilotando
Um animal assombroso
Aspirador de pó
Cão que rói tudo

Mesmo assim
Não faça confidências aos filhos
Nem lhes peça um apoio
Que nunca serão capazes de dar

Estão na mesma barca aportada
Entupidos do ópio comum
Às frustrações acumuladas
De todas as fracassadas gerações

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

RUY ESPINHEIRA FILHO FAZ A TRAVESSIA DAS PALAVRAS SOB O CÉU DE JEQUIÉ

No próximo sábado, 31 de outubro, derradeiro dia do mês, o poeta Ruy Espinheira Filho retorna a Jequié para participar do projeto Travessia das Palavras. Ruy vai trazer os ares de sua boa poesia e notícias do novo livro Sob o céu de Samarcanda, a ser publicado ainda este ano pela Bertrand Brasil em parceria com a Fundação Biblioteca Nacional, do qual enviou-nos um poema: Canção do efêmero com passarinho e brisa.


Além da presença e poesia de Ruy, a noite vai contar contar com a participação especial do grupo musical de Salvador, Caboco Capiroba, formado pelos músicos Clara, Moisés, Mário, filho de Ruy, e João, filho do saudoso sociólogo Gey Espinheira, irmão do poeta. O grupo Caboco Capiroba, se vale dos ritmos da música nordestina, com destaque para o Baião, o Xote e o Coco. Naturalmente influenciado por Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Xangai e Elomar, derrama em suas letras a temática tradicional do sertão e da condição humana. Os temas são enriquecidos com a força da cultura do recôncavo.
O evento vai acontecer no Palácio das Artes, às 19 h 30 min, entrada franca. Como estarei participando de outro evento (Fórum das Letras de Ouro Preto), em outro estado (Minas Gerais), no mesmo dia, não poderei estar presente para acompanhar e apreciar essa noite, que sei será de alta poesia e de encanto. Mas Leonam Oliveira, presidente da Academia de Letras de Jequié, estará ciceroneando o poeta e os convidados, com a sua costumeira elegância.
Fiquemos, por enquanto, com um pouquinho da paisagem de Sob o céu de Samarcanda:


CANÇÃO DO EFÊMERO
COM PASSARINHO E BRISA



É tudo mesmo bem pouco,
pois só há pouco me vi
chegando aqui e encontrando
o que nunca compreendi
— tanto que, perplexo, tanto
duvidei de estar aqui.
E nunca acreditaria
se não fosse um passarinho
afirmando: bem-te-vi!

Ainda escuto o seu trinado
garantindo-me o existir.
Mas precária garantia,
como aprendi com a brisa
de que se compõe o dia:
se o tempo passar um pouco,
nada mais que um pouco, logo
não estarei mais aqui.


RUY ESPINHEIRA FILHO

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

TRÊS POEMAS DE CARLOS MOISÉS SOGLIA DE MELO


Hoje, meu filho mais velho, Carlos Moisés, está completando nove anos. Uma grande alegria para nós que o amamos. Moisés é uma figura radiante, ao mesmo tempo disperso e introspectivo. Adora cavalgar pelos campos de tardezinha, viajando com seus heróis, os deuses das mitologias: Hades e Zeus, Odin e Thor, Osíris e Anúbis, Cronos e Urano. Apenas Aquiles, entre os mortais. De suas viagens mitológicas retorna, quase sempre, com um poema, como os três abaixo.

Foto: Ricardo Prado


IDADE GREGA


Os minotauros têm machados
de pés de cavalos.
Quando eles colocam
os machados diante do Sol
nascem fogueiras
nas mãos dos centauros.



IDADE MILITAR


Os militares
com armas estranhas,
roupas estranhas.

Nem a pele é conhecida.



MITO DE SÍSIFO


O homem pelado segurando a pedra
com sua incrível força de pedra.

A sua força é tão inútil
quanto a pedra que carrega.

JIVM - BARCO, PARA CARLOS MOISÉS



Parabéns, Moisés. 9 x 10 para você. E mais uns 10 anos de lucro. Saúde e Sucesso. Paz e Poesia. Com amor,
JIVM

terça-feira, 20 de outubro de 2009

RETRATOS POÉTICOS DO BRASIL 2010


Organizei, recentemente, para a Escrituras Editora, de São Paulo, a agenda Retratos Poéticos do Brasil 2010, cuja temática é a poesia da Bahia. Para tanto, selecionei 46 poetas da Bahia, desde Gregório de Mattos e Castro Alves, passando por Myriam Fraga e Florisvaldo Mattos, até os jovens Cleberton Santos e Nívia Maria Vasconcellos. Para mim foi uma grande responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma maior satisfação. A agenda ficou muito bonita. É um belo presente de fim de ano. Está disponível nas livrarias, nos sites e portais. Logo abaixo está o texto que fiz para a apresentação da agenda.


A POESIA PRIMORDIAL DA BAHIA

A poesia da Bahia está ligada às raízes da poesia brasileira. No século XVII, quando ainda vigorava o Barroco na Europa, surgem os primeiros poetas brasileiros, os baianos Manuel Botelho de Oliveira, primeiro brasileiro a editar um livro em versos, e Gregório de Matos e Guerra, com sua poesia lírico-satírico-religiosa. Gregório era um espírito irrequieto que a todos fustigava. Sua verve satírica e sua língua afiada conferiram-lhe a alcunha de O Boca do Inferno.
Não menos importante para o universo poético brasileiro foi Castro Alves, jovem poeta de versos fulgurantes que até hoje são recitados nas praças de Salvador e arrebatam multidões. Situado historicamente no Romantismo, no século XIX, Castro Alves dá nova dimensão a esse estilo de época ao enfatizar a poesia de temática social. Por conta do combate que empreendeu contra a escravidão, ficou conhecido como Poeta dos Escravos.
Do final do século XIX à primeira metade do século XX, simbolistas e parnasianos fizeram a feição poética da província. O Modernismo chegou à Bahia ao menos uma década depois do rebuliço de 1922, tendo em Godofredo Filho um dos seus precursores.
Ultrapassada a primeira metade do século XX, a poesia baiana passou a respirar novos ares com a Geração Mapa, da qual fazem parte poetas como Adelmo Oliveira, Affonso Manta, Fernando da Rocha Peres, Florisvaldo Mattos, João Carlos Teixeira Gomes e Myriam Fraga, sob a liderança do cineasta Glauber Rocha. A Geração Mapa foi englobada pela Geração 60, que até hoje exerce uma influência sobre a produção artística baiana. A segunda leva de poetas da Geração 60 traz nomes como Antonio Brasileiro, Ildásio Tavares, Maria da Conceição Paranhos e Ruy Espinheira Filho.
Em seguida, configura-se a Geração 80, a partir da Coleção dos Novos, que revelou autores como Aleilton Fonseca e Roberval Pereyr. Simultaneamente, surge o movimento Poetas na Praça, que cultivava a tradição da oralidade. Seus representantes recitavam pelas praças e becos da velha São Salvador, entre os quais se destacaram Antonio Short, Douglas de Almeida, Geraldo Maia e Walter César.
A década de 1990 trouxe para o cenário outras vozes: Elizeu Moreira Paranaguá, do Círculo de Estudo Pensamento e Ação (CEPA); Goulart Gomes, do Grupo Pórtico e do Movimento Poetrix; assim como Luís Antonio Cajazeira Ramos e Mayrant Gallo que traçaram, cada qual à sua maneira, um caminho poético bem particular.
E a poesia que se faz hoje na Bahia? É a mais diversificada possível e busca alcançar vários espaços. Está presente nas praças, com os continuadores do movimento Poetas na Praça; nos grupos que saíram das universidades, como o Grupo Hera, de Feira de Santana; está presente nos prêmios da Fundação Casa de Jorge Amado e da Academia de Letras da Bahia; no Concurso Público de Poesia Falada da Câmara Municipal de Salvador – Troféu Castro Alves; nas páginas das revistas Iararana e Hera; está no Pouso da Palavra, em Cachoeira, no Recôncavo; nos projetos que se espraiam por todo o Estado – nas bibliotecas, auditórios e bares – como Com a Palavra o Escritor e Poesia na Boca da Noite, em Salvador; Uma Prosa Sobre Versos, em Maracás, no Vale do Jiquiriçá; ou ainda no Travessia das Palavras, em Jequié.
A poesia contemporânea da Bahia é pulsante e vivaz. Surge em cada rincão que compõe sua geografia e busca levar sua voz primordial, que conjuga tradição e vanguarda, para todas as partes.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
Poeta, jornalista e produtor cultural

terça-feira, 13 de outubro de 2009

OS 60 ANOS DO RAIMUNDO FAGNER


Hoje, o cantor e compositor cearense Raimundo Fagner completa 60 anos. O Fagner trouxe a poesia para a minha vida. Isso já faz tempo, em 1980, quando eu tinha apenas 12 anos. Estava acampando em um lugar chamado Serra das Mãos, em Alagoas. Era um mês de dezembro, eu tomava chá a beira de uma fogueira com mais uns quatro amigos. De repente, o mais velho do grupo, que devia ter uns 18 anos, ligou um radinho, sintonizou-o na rádio Novo Nordeste, de Arapiraca, e a voz argêntea do Fagner bailou nos ares agrestes, entoando um poema do Patativa do Assaré, depois cantou uma canção de John Lennon, depois uma do Zé Ramalho. Fui envolvido de tal maneira, que um novo mundo se descortinava para mim. O canto do Raimundo despertava em mim o sentido da poesia. Melhor dizendo, despertava todos os meus sentidos para a poesia.
Agradeço-lhe, profundamente, por tudo isso. Por sua música ter marcado minha adolescência e por se fazer presente até os dias de hoje, cantando versos de Cecília Meireles, Patativa do Assaré, Ferreira Gullar, Florbela Espanca, Federico Garcia Lorca, Rafael Alberti, Antonio Brandão, Mário de Andrade, Francisco Carvalho e tantos outros.
Presto minha homenagem com um poema de meu segundo livro, Decifração de abismos (2002), que é dedicado ao Fagner. O poema chama-se Saudação e foi escolhido por Marco Lucchesi para a antologia Roteiro da Poesia Brasileira – Anos 2000, recém-lançada pela editora Global. Para o Fagner, os meus parabéns!
JIVM



SAUDAÇÃO
Para Raimundo Fagner


Cândido, o tempo não alisa,
os sulcos são deixados por seu arado.
No meu solo já senti o sabor da lavoura,
sabor que, por vezes, é dissabor.

Uma coisa é certa, Cândido, a poesia é salvação.
Tu foste o pastor do cântico do despertar,
foste o muezim que, do alto da mesquita,
anunciou a graça maior da poesia.

Imagine, Cândido, este poeta dos Sertões
só percebeu o escancarar da boca da estrada,
nos caminhos, da Estrada de Santana,
escancarados de tua boca.

Cândido, tange a tua voz,
sem delírio, viver não vale a pena.
Ah Cândido, pássaro extravagante,
berra o epigrama da minha adolescência:

“O vento voa,
a noite toda se atordoa,
a folha cai.”


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

VERÔNICA DE VATE - ADRIANO EYSEN


foto Ricardo Prado

ADRIANO EYSEN Rego (1976), poeta, contista e crítico literário, é natural de Salvador. Licenciado em Letras Vernáculas pela UEFS, Especialista em Estudos Literários pela UNEB, professor de Literatura Portuguesa e Brasileira da UNEB – Campus XXII – Euclides da Cunha, Mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS e membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. O autor publicou os livros: Suspiros das existências (1999 – poemas); Crepúsculo das Almas (2000 – poemas pelo MAC – Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana); Diário de um Louco (2001 – contos - MAC); Sopros (2002 – poemas - MAC) e Imagens do Sertão na poética de Castro Alves (2005/06 – ensaio - UESB). Tem artigos publicados em revistas, a exemplo de Outros Sertões e Iararana, e jornais como A Tarde Cultural e Tribuna Feirense. Participou dos projetos Malungos (Salvador - 2005); Porto da Poesia na Bienal do Livro (Salvador – 2005); Poesia na Boca da Noite (Salvador); Caruru dos Sete Poetas (Cachoeira - 2006) e coordenou Café Literário no Congresso de Educação de Vitória da Conquista-BA (2005 – 2006).
*
Adriano Eysen vai se apresentar, depois de amanhã, 10 de outubro, no projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, Bahia. Edmar Vieira, diretor de cultura do município é o coordenador do evento. O projeto vai contar também com a participação especial do Grupo Concriz - uma turma da boa da cidade de Maracás, composta por 25 jovens recitadores, dirigida pelo trio de poetas Edmar Vieira, Marcelo Nascimento e Vitor Nascimento Sá que vão recitar todos os poemas do livro Cicatrizes do silêncio.


INFÂNCIA


As borboletas trazem o hálito da manhã
e nas suas asas repousa
a leveza da minha infância.

No menino de ontem
só a antiga fotografia
das bolas de gude no quintal

e num sossego, os olhos de minha mãe
carregam o azul do céu
único como as borboletas

que dormem no sono
do menino
habitante desses versos.


ADRIANO EYSEN

ADRIANO EYSEN - ELEGIA ÀS MENINAS MEIGAS



ELEGIA ÀS MENINAS MEIGAS


Cantemos as mulheres
que trazem na noite
o aroma do sexo
e uma tristeza que a habita a lua.

São elas fidalgas
que guardam o pecado
por trás dos vestidos
envelhecidos na memória.

Cantemos suas tramas
que se findam nas camas
numa réstia de madrugada.

Lá vão elas, meninas meigas
carregando em seus corpos
a lucidez dos deuses
que as amam.


ADRIANO EYSEN

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

BABEL


Ilustração: Ana Neves Guerreiro


BABEL


Distantes do passado tetrassílabo,
jônicos e gaélicos guerreiros
passaram por aqui – passaram pássaros.

O passo temperado desse sonho
traz nas mãos cartas celtas de Babel
a convidar à noite dos diálogos.

(Todo canto termina-aproxima:
imagem indagada entre símbolos).


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


Poema do livro inédito Roseiral, um dos vencedores do edital da Fundação Pedro Calmon, da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

ENTREVISTA - RAIÇA BOMFIM



A POESIA É O RASTO E O LASTRO – RAIÇA BOMFIM nasceu no dia 19 de março de 1986, dia de São José, em Vitória da Conquista, Bahia, cidade de minha saudade e afeto. Com menos de um ano foi morar em Salvador. Passou quatro anos e meio da infância morando com os pais em Barcelona, onde nasceu seu irmão caçula. Foi na Espanha que primeiro se alfabetizou e ficou para sempre encantada com as formas de Picasso e as cores de Miró. Seu primeiro curso de graduação foi em Produção Cultural na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Acabou por abandonar o curso ao meio para fazer Faculdade de Teatro, também UFBA. Hoje cursa o último semestre de Interpretação Teatral, com o espetáculo Pinóquio e participa de um grupo de teatro chamado Alvenaria de Teatro que estréia agora em outubro com o espetáculo As Bacantes. Raiça afirma que sua profissão é a de atriz e que a poesia e o canto são sua yoga. Vamos, então, fazer uma caminhada, como quem faz uma meditação, pelo mundo da jovem e bela Raiça Bomfim. Vamos seguir seus passos para percebermos sua poética, pois para ela a poesia é o rasto e o lastro.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Você acha que vale a pena ser poeta, tendo em vista que “a poesia é uma ribalta entregue às moscas”, como lucidamente afirma o poeta cearense Francisco Carvalho?

RAIÇA BOMFIM – Acho que vale a pena, o papel e o verso. Nossa sociedade dá pouco valor ao que lhe é essencial: a arte, a natureza, o amor... Nem por isso, o que é essencial deixa de sê-lo. A poesia é um ofício humilde, de auscultar destroços e inutilidades (viva Barros!). Ninguém precisa dela pra viver e pouca gente consegue viver dela. No entanto, para os atentos e vivos, a poesia é inevitável.

JIVM – “Não sou alegre nem sou triste/ sou poeta”, dizem os versos da grande poeta Cecília Meireles. A sua poesia é mais alegre ou mais triste? Você é poeta ou poetisa?

RB – Acho que minha poesia não é nem alegre nem triste. Assim como eu também não sou nem uma coisa nem outra. Descrevo com vigor e curiosidade meu trajeto de vivência. A poesia é o rasto e o lastro. É o que é visto, sentido e dito: fato. É inteira, necessária e sem partido. Nem alegre nem triste, poesia.
Quanto a mim, se algo disto eu for, sou poeta. E sem frescuras.

JIVM – Você acredita na existência de uma poesia feminina e, por extensão, de uma literatura feminina? O que você acha das escritoras feministas? É mais difícil para uma mulher ser reconhecida como escritora ou a tranqueira é comum para todos?

RB – Acredito sim que há poesias que notadamente se referem mais ao universo feminino, à mulher. Nossa sociedade é patriarcal e os temas ligados ao masculino predominam e se impõem como parâmetro. Os temas ligados ao feminino aparecem como contraste, ganham contorno e definição por serem marginais, não vigentes. Vira um sub-campo: poesia feminina. Isso é muito reducionista, em minha opinião. Acho que há a literatura.
Sobre as escritoras feministas, acho que esse “feministas” é uma designação, um título que se assume para dar mais visibilidade a um grupo que trata de temas marginalizados; para trazer à luz a histórica subordinação desses temas e assegurar seu espaço na oficialidade, no discurso vigorante. É uma estratégia necessária, positiva. Mas a classificação é posterior ao fazer poético. O momento da poesia não tem categoria nem preceito. Já a circulação da poesia é política, está inserida numa ordem que tem poderes, hierarquia, patriarcado.
Não sei se é mais difícil para uma mulher ser reconhecida como escritora. Mas sei que, de uma maneira geral, é mais difícil pra uma mulher ser reconhecida. Com a poesia não deve ser diferente.

JIVM – De uma década para cá, a proliferação de blogs é algo alucinante, o que permite que cada pessoa possa criar sua página e enviar suas dores, alegrias, recados e mensagens para o mundo. Você, que tem um blog e faz desse suporte a residência de sua criação, o que acha dessa nova possibilidade? Você acha que é suficiente para um escritor publicar no seu blog ou no seu site, ou é preciso publicar um livro impresso para se realizar efetivamente.

RB – A internet abre muitas possibilidades e, muitas vezes, é a possibilidade que faz o ladrão, ou o poeta. Mas há também muito lixo, é um meio que traz em si um discurso, um ritmo, um modo. É perigoso. Não sei bem o que acho de um blog. Para mim, veio a calhar. Eu gostava de escrever, mas não era escritora e nem sonhava em ter um livro. Apenas gostava de escrever e tinha empenho e cuidado na confecção de minha poesia. Achei justo exibir pra quem se dispusesse a ler. Por isso o blog. Só depois de um tempo, é que passaram a me ver como poeta, e a possibilidade de lançar um livro se fez tangível. Porém, nunca parei para investir mais a fundo nessa perspectiva. Talvez por preguiça e desleixo, ou por prudência, sei lá. Não sei ao certo o que acho disso tudo. Passo.

JIVM – E pra acabar, fale um pouco da sua ligação com as outras manifestações artísticas e em que medida essas outras linguagens interferem na sua criação. E fale, também, das suas influências e de seus projetos.

RB – Minha profissão é a de atriz. Foi o teatro que escolhi como ofício, como meio de sustento, de troca social. As outras artes me nutrem igualmente o espírito, mas não têm o mesmo peso que o teatro exerce no meu cotidiano. É outro tempo, outra responsabilidade. Cantar e escrever são minha yoga, é o que faço para estar mais em paz, “co’alma calma”. E tudo isso é pra mim indispensável, necessário.
Por desenho e pintura eu sempre fui fascinada. Quando vi os primeiros desenhos de Vânia Medeiros, grande amiga e parceira, fiquei tão fascinada que nunca mais me desatrelei deles. Eu acho o que Vânia desenha muito íntimo e, portanto, do mundo; meu.
Cada criação minha, seja no teatro, na poesia ou na música, reflete um mesmo impulso, mas manifesto de diferentes formas. E forma é conteúdo. A criação em cada meio é muito diferente. No fundo, porém, “todos os poemas são de amor”. E todas as artes. Amor e mistério. E é ao deus-mistério que rendo graças e suor.
E já que citei Quintana, quero apontá-lo com uma de minhas ternas referências. Junto dele estão Adélia Prado, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Manoel de Barros, Paulo Leminski, Pablo Neruda e Fernando Pessoa. Estes são nomes que predominaram em minhas leituras desde a adolescência e continuam imperando em minha cabeceira.

TRÊS POEMAS DE RAIÇA BOMFIM


Ilustrações: Vânia Medeiros




















OFICIAL


especializar-me quero
é no ofício de vivente,
cumprir o expediente
com alegria e viço,
fazer o que tem que
ser feito...
carpintar
e só.



PONTE
a Seu Pitico


abismo, amor, poço fundo é risco
não é sina, é sangue, coisa viva à vista
derrame o que seja, veja o que veja
me alcance a vertigem, o medo, e inflame
que o nosso destino, amor, é ponte
e estamos no meio, no veio, ao meio.

abismo, amor, diante do abismo
todo medo é o mesmo, a morte, a queda
no entanto o destino, amor, é ponte
infinita ponte de pau e ferro,
não é sina, é sangue, coisa viva à vista
me alcance a vertigem e inflame

seja pleno o passo, presente, pungente
estados em tempo, derrame o que seja,
veja o que veja, não é romantismo,
é método, emenda, é sobrevivência;
liturgia mister, não é sina, é sangue,
coisa viva à vista

abismo e sigo, angústia e alegria
que o que em mim não é amor, é covardia



ESQUINA


Sentada
com as pernas em cruz,
largou-se a sorrir feito louca
jurando que era santa
e provava o milagre
a quem lhe pagasse pra ver:
tirava leite de pedra,
água de pau, melaço de carne
e prometia o paraíso
a quem lhe alcançasse
o céu

da boca.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A PASSAGEM DO POETA ROBERVAL PEREYR POR JEQUIÉ - A CIDADE SOL



O poeta Roberval Pereyr esteve conosco em Jequié, na noite de 26 de setembro. Veio na companhia de sua esposa Bárbara. Sua participação no projeto Travessia das Palavras foi singular. Roberval é um poeta singular. Claro que o evento contou com a participação especialíssima do Grupo Concriz, da cidade de Maracás, que deu um brilho especial para a nossa noite de poesia. A foto acima é da participação do Roberval no projeto Uma Prosa Sobre Versos, em Maracás, no dia 11 de julho de 2008. Como podemos ver, Roberval está cercado de crianças e jovens, portanto está guarnecido pela mais pura poesia das crianças e pela imortalidade dos jovens. Vamos terminar esse bate-papo postando um dos belos poemas de Roberval Pereyr. Abraços.

JIVM


HERANÇA


Não trago mais que esta sede
de combinar erro e sonho
no mesmo triste compasso
no mesmo canto difuso

não trago mais que a saudade
do meu último (des)encontro
comigo e contigo (elo
selando a nossa desdita)

não trago mais que remorsos
de ter ferido ferido
meu mais íntimo reduto
em que o meu deus (santo e urso)
habitava (já não habita):

agora estou só: meu peito
é templo roto, ruído
e não sou mais que um soluço
sussurrado no deserto

(num deserto de sussurros)

e o medo com seus fantasmas
e o vento com seus enigmas
já me invadem, já me alarmam

e não trago mais que o estigma
dos que na vida perderam
a briga, os irmãos, a casa
e hoje perdidos vagam
por entre sombras e abismos.


ROBERVAL PEREYR

terça-feira, 22 de setembro de 2009

I SEMINÁRIO DA POESIA BAIANA NO OESTE DA BAHIA

Universidade do Estado da Bahia – UNEB
Departamento de Ciências Humanas / Campus IX
Barreiras – 2009

I Seminário da poesia baiana no Oeste da Bahia


PROGRAMAÇÃO

23 / 09 / 2009

7:30 hs – Credenciamento

8:00 hs – Palestra de abertura: Nomes e temas da poesia baiana pelo Prof. Dr. Aleilton Fonseca, membro da Academia de Letras da Bahia e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana

9:30 hs – Lançamento do livro O Pêndulo de Euclides, de Aleilton Fonseca

10:00 hs – Bate papo com o autor: Aleilton Fonseca

14:00 hs – Oficinas:
– A poesia de Godofredo Filho;
– A poesia de Carvalho Filho;
– A poesia de Ruy Espinheira Filho;
– A poesia de Sosígenes Costa;
– Samba de roda: uma poética do recôncavo, de Fred Souza Castro

16:00 hs – Mesa Redonda: Painel da Poesia Baiana Contemporânea, com o poeta e jornalista José Inácio Vieira de Melo. Mediador: Aleilton Fonseca

17:00 hs – Lançamento do livro A infância do centauro, de José Inácio Vieira de Melo

24 / 09 / 2009

8:00 hs – Oficinas:
– A poesia de Godofredo Filho;
– A poesia de Carvalho Filho;
– A poesia de Ruy Espinheira Filho;
– A poesia de Sosígenes Costa;
– Samba de roda: uma poética do recôncavo, de Fred Souza Castro

10:00 hs Mesa Redonda: Uma rede poética: lirismo amoroso e criação verbal em Eurico Alves, com o prof., mestre e poeta Cleberton Santos. Mediador: José Inácio Vieira de Melo

14:00 hs – Oficinas:
– A poesia José Carlos Capinan;
– A poesia de Carlos Anísio Melhor;
– A poesia simbolista na Bahia;
– O Movimento Poetas na Praça;
– A poesia de Antonio Brasileiro
– A poesia feminina baiana: Miryam Fraga e Maria da Conceição Paranhos;
– A poesia de Aleilton Fonseca

15:30 hs – Lançamento do livro Lucidez Silenciosa, de Cleberton Santos

16:00 hs – Mesa Redonda: Encontro com poetas locais. Mediação: Cleberton Santos

19:00 hs – Conferência: O fazer poético, com Geraldo Maia


25 / 09 / 2009

8:00 hs – Oficinas:
– A poesia José Carlos Capinan;
– A poesia de Carlos Anísio Melhor;
– A poesia simbolista na Bahia;
– O Movimento Poetas na Praça;
– A poesia de Antonio Brasileiro
– A poesia feminina baiana: Miryam Fraga e Maria da Conceição Paranhos;
– A poesia de Aleilton Fonseca

9:30 hs – Comunicações com a participação dos poetas Ametista Nunes, Geraldo Maia e o Prof. Msc. Antonio de Pádua de Souza e Silva

10:00 hs – MPP: uma poética de ruptura e resistência, com os poetas Geraldo Maia, Ametista Nunes e o Prof. Msc. Antonio de Pádua de Souza e Silva

14:00 hs – Comunicações

16:00 hs – Lançamento de livros e recital de poesia com os poetas Geraldo Maia, Ametista Nunes, Prof. Msc. Antonio de Pádua de Souza e Silva e convidados

17: 00 hs - Encerramento