quarta-feira, 11 de novembro de 2009

CELEBRAÇÃO DO ENCONTRO

José Inácio Vieira de Melo

Sagração das despedidas, quarto livro de poemas de Alexandre Bonafim, é, em verdade, a celebração do mais humano dos sentimentos, aquele que é causado pela ausência e que por muitas vezes adquire feições de lugar – uma espécie de salão memorial – em cada pessoa que o sente. E todos o sentem: a saudade.
Bonafim consegue insculpir as lembranças mais ternas e longínquas, trazendo-as para o templo da memória. Sua poesia é uma exibição das existências imagináveis. Não o que ele próprio tenha vivido, mas o que qualquer um pode vir a experimentar. O mais fantástico é que essas experiências, mesmo que sejam as mais difíceis, mesmo que sejam as mais angustiantes, são apresentadas com tal leveza, que deixam sempre uma chance de sorriso, um sentimento de que foi preciso andar por aqueles vales, atravessar vazios. Só assim será possível olhar para traz e contemplar o que se viveu, só assim será possível, ao menos, escrever a Biografia do deserto.
Jovem das montanhas das Minas Gerais, o mar exerce um encanto sobre sua pessoa e é um traço marcante em sua poética, fazendo-se sempre presente com suas ondas, seus veleiros e maresias. Bonafim é um poeta de epifanias. Todo percurso de seus versos conduzem-nos para o espaço do sublime. Do alto do meu delírio, vejo-o sentado em um pequeno barco emborcado a contemplar a vastidão das plagas marítimas, a ouvir o concerto das ondas e dos ventos. Do seu lado esquerdo, o menino que foi um dia estampa um sorriso na sua lembrança e corre para o mar, a banhar-se nas águas da imensidão. É o instante em que Bonafim alcança A outra margem do tempo.
Sagração das despedidas traz relampejos da beleza. Uma beleza que está presente em devaneios, mas que só se realiza quando cada verso vibra dentro da sua individualidade, conferindo a cada poema cintilação singular. Essa inscrição instaura momentos que provocam arrepios. É a conformação estética da beleza, é a realização de uma experiência íntegra. Bonafim sabe o quanto custa essa alquimia, sabe que para fitar a beleza é necessário “estar de mãos dadas/ com todos os desastres/ com todas as febres”. A sua lira está afinada com a de Rilke que, nas Elegias de Duíno, apregoa: “Pois que é o Belo/ senão o grau do Terrível que ainda suportamos”.
Alexandre é da estirpe dos poetas que elevam a condição humana, tal qual o Jorge de Lima de A túnica inconsútil, tal qual o Gerardo Mello Mourão de Algumas partituras. De seu manancial jorram versos luzidios nos quais podemos contemplar os deuses que habitam nossos eus, pois “nessa caminhada, sem paradeiro, sem itinerário/ as surpresas tatuam em nossos ombros/ a fulguração das galáxias mais altas”.
Quando Alexandre Bonafim tange sua lira, “as constelações batizam o silêncio”. E, do cântico de suas veias, “os que morreram renascem, todos os dias”, e renascem para inaugurar a aurora da vida, para celebrar esse encontro que, em seu íntimo, traz a Sagração das despedidas.

Posfácio do livro de poemas Sagração das despedidas (Biblioteca 24x7, 2009).

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

FÓRUM DAS LETRAS DE OURO PRETO

Estive em Ouro Preto. Mas parece que ainda estou em Ouro Preto. Ouro Preto é um lugar do qual a gente não sai mais nunca. A energia barroca de suas igrejas, edificações e monumentos têm uma força que conduz cada pessoa para dentro da beleza. Sua geografia cheia de ladeiras e montanhas faz com que o caminhante valorize cada passo que dá. Mas como vale a pena andar pelas ruas íngremes de Ouro Preto, e reparar para sua gente hospitaleira e sentir pulsarem uníssono os mais de 27 mil corações de estudantes. Agora, mais do que nunca, entendo as palavras do menestrel do cancioneiro popular Milton Nascimento – entidade que canta com a boca de Deus.
Mas fui para Ouro Preto para participar do Fórum das Letras. Para mediar uma mesa composta por célebres jornalistas brasileiros, que também são escritores renomados: Edney Silvestre, apresentador do programa Espaço Aberto Literatura, na Globo News; Leda Nagle, apresentadora do programa Sem Censura, na TV Brasil; e Carlos Herculano, repórter do EM Cultura, do jornal Estado de Minas. O tema do colóquio foi A arte de entrevistar um escritor. O evento, que aconteceu no primeiro teatro brasileiro, a Casa da Ópera, no dia 31 de outubro, às 11 horas, foi um sucesso. O teatro estava lotado por um público formado predominantemente por estudantes universitários. Comecei recitando o poema “Epígrafe” do poeta Ruy Espinheira Filho. Mal terminei de ler o poema, o Edney foi logo pedindo a folha com o poema para ele. A Leda Nagle foi ovacionada pela platéia. Infelizmente, o transporte do Carlos Herculano Lopes atrasou bastante, quando ele chegou o evento estava próximo de terminar, então ele não quis subir ao palco. Mas depois saímos para almoçar e parecia que já nos conhecíamos há muito tempo, parecia, mesmo, que éramos irmãos. E de fato a fraternidade ficou selada, jurada e sacramentada.
Não posso deixar de lembrar do carinho de João Luiz, reitor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), e de sua esposa Sílvia, que me recepcionaram tão gentilmente, com um jantar na noite de minha chegada, na sexta feira, dia 30. Assim como o prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo, uma figura sempre presente. De Guiomar de Grammont, organizadora do Fórum, uma pessoa que se dividiu em mil para asseverar o sucesso da sua empreitada literária. Tive a alegria também de conhecer escritores maravilhosos, pessoas do meu tempo que dedicam suas vidas à arte das letras, gente como Wilmar Silva, Ronaldo Werneck, Rodrigo Garcia Lopes e Guilherme Fiúza. Na noite do dia 1º de novembro, véspera de minha partida, chegou o casal Aleilton Fonseca e Rosana Patrício Ribeiro, queridos amigos. Estivemos juntos no jantar de confraternização que contou com a presença da maioria dos convidados do Fórum das Letras, onde conheci o poeta Guilherme Mansur, José Miguel Wisnik, Mary Del Priore e tantas outras pessoas. Confesso que foi um regozijo ter ido a Ouro Preto e ter participado do Fórum das Letras.
JIVM

Fórum das Letras – ano 5 – de 29 de outubro a 2 de novembro de 2009

JIVM, Edney Silvestre e Leda Nagle. Foto: Carol Reis

JIVM e Edney Silvestre. Foto: Dany Starling

Leda Nagle e JIVM

Carlos Herculano Lopes, JIVM e Ronaldo Werneck

JIVM e Edney Silvestre – Pré-lançamento do primeiro romance
de Edney Silvestre,
Se eu fechar os olhos agora

José Inácio Vieira de Melo fotografado por Carol Reis,
do jornal Estado de Minas


Paulo Brant (secretário de cultura do estado de Minas Gerais), JIVM
e Guiomar de Grammont (Organizadora do Fórum das Letras)

Angelo Oswaldo (prefeito de Ouro Preto) e JIVM

Carlos Herculano Lopes, Wilmar Silva, Rodrigo Garcia Lopes e JIVM

domingo, 1 de novembro de 2009

ENTREVISTA - EMMANUEL MIRDAD



SANGUE NO OLHO – Filho de pai poeta e mãe musicista, EMMANUEL MIRDAD é um soteropolitano libriano espinhento de 1980. Formado em Jornalismo pela Facom - UFBA, trabalha no Núcleo de Produção Musical da Educadora FM, produzindo os programas Especial das Seis e Especial de Sábado, além de outras atividades. É produtor cultural desde 2004, e trabalha na elaboração e execução de projetos. É o criador do Prêmio Bahia de Todos os Rocks. Compõe desde 1997 e já produziu seis álbuns, com suas canções e experimentações, mas atualmente está afastado da música. Mantém o blog El Mirdad - Farpas e Psicodelia (www.elmirdad.blogspot.com), onde divulga sua produção e trabalhos de outros artistas. Possui dois livros ainda não publicados, Deserto Poema, disponível em posts no blog, e Abrupta Sede. Mirdad é um poeta sangue no olho. Atua em vários ramos das artes, como já podemos ver, e acredita que para essa atuação a internet é indispensável, visto ser um espaço que democratiza a informação, assim como proporciona uma rápida e eficiente divulgação de qualquer produto. Mirdad afirma que “Pra um autor iniciante, a ausência de um blog ativo é quase uma implacável rota às gavetas.” Vamos, então, à entrevista com Emmanuel Mirdad, o poeta que quer “tacar fogo nos elogios vazios que abestalham os blogs literários”

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Você é envolvido com a cena rock de Salvador e escreve prosa e poesia, além de ser filho de um poeta inédito. Dentro dessa sua movimentação, qual o espaço que a poesia ocupa? Ela é algo indispensável para você?

EMMANUEL MIRDAD – Como produtor cultural e articulador, cada vez mais estou envolvido em diversos projetos e trabalhos, e isso tem um reflexo improdutivo na rotina do meu fazer artístico. Hoje confesso que a poesia ocupa o espaço de uma caixa de sapato chique, mas já gasto, entulhada no quarto dos fundos; não há o uso rotineiro, só nos grandes eventos, esporádicos. Mas a caixa continua lá, guardando o bem a postos pra ser usado, e você sabe e conta com isso. Então, a poesia continua aqui, como sempre estará, prestes a ser concretada no computador, nas brechas dessa correria violenta de hoje; eu sei e conto com isso. E essa preciosa e rara pausa para poetar é o grande evento! Indispensável! Antes de toda e qualquer configuração, eu sou poeta.

JIVM – E seu pai, qual a influência que exerce nessas suas práticas, sobretudo na de poeta. E quais as suas leituras referenciais? E o que está lendo no momento?

EM – Meu pai tem 78 anos e é uma figuraça ímpar, filósofo, poeta de gaveta e desmistificador das ‘bilhares’ ilusões humanas. Cataloguei sua obra e compus um CD Poema com um fragmento micro desta, chamado Ilusionador, que apresentei como TCC no curso de Jornalismo da UFBA em 2006. Esse contato próximo com seus ‘filopoemas’ atiçou minha acidez consideravelmente. O deboche presente em suas risadas fartas do dia a dia, aliado a um laço de quase 30 anos de amizade fraternal e intenso aprendizado, enraizaram-me conceitos e valores que são hoje o pilar base de meu olhar facão.
Tenho uma dívida enorme com a literatura; há muito que ler ainda. Faltam-me obras referenciais, e você, caro Inácio, sabe muito bem que comecei há pouco a desanuviar minha ignorância imbecil, graças ao Pés Quentes nas Noites Frias, de Mayrant Gallo, que você me deu de presente quando éramos colegas na Facom. Portanto, diante minha humilde coleção, cito Clarice Lispector, Nelson Rodrigues e Mayrant Gallo. No momento, acabei de ler o interessante A Dama do Velho Chico, de Carlos Barbosa (recomendo!), e estou a decifrar Dostoievski e o tomo Memórias da Casa dos Mortos.

JIVM – Você tem um blog, onde disponibiliza seus CDs e seus livros. A publicação desse material não é algo que lhe interessa? Se há interesse, quais são os empecilhos?

EM – Criei o blog El Mirdad - Farpas e Psicodelia essencialmente pra disponibilizar minha obra artística. Algum tempo depois, passei a criar e publicar várias seções, sempre divulgando a obra de outros artistas, focado na música e literatura, além de expor minhas opiniões e memórias. Ainda bem que mudei o intento! Reconheci meu limite de talento e abandonei a música como artista e compositor, mas uma parte da obra está disponível pra download no blog, meramente como um ilustrativo de peças que compõem o mosaico de mim.
Agora em relação à literatura, publiquei na íntegra, em 88 posts, o livro Deserto Poema, ainda inédito em papel e arquivo digital, e alguns fragmentos dos 25 contos que compõem o livro Abrupta Sede, também inédito. Tenho total interesse em publicá-los, e tento fazer isso desde o início deste ano de 2009. E hoje, em que pé está o processo? Continuo aguardando a colaboração de um amigo, que ficou de revisar os livros e até hoje não terminou. A verba que tenho, do meu bolso, só vai dar pra pagar, apertado, a impressão de 500 exemplares cada.

JIVM – Falemos dos diálogos. Qual o diálogo da sua poesia com a tecnologia? Em que medida se dá o diálogo da sua poesia com a música que você faz? E com a sua prosa? Como distingue a poesia dessas outras formas, dentro da sua criação?

EM – Para minha poesia, a tecnologia é questão de suporte. Hoje já consigo escrever, e acho até melhor, do onírico diretamente ao digital. Antes, só no papel e caneta, pra depois transcrever e arquivar; trabalho extra e entulho. Agora é muito mais prático e limpo, sem as canetadas e borrões inevitáveis da edição. Além disso, há o blog, espaço democrático em que experimento minhas criaturas ao crivo gratuito de qualquer um; interajo, divulgo e expando as possibilidades de fruição da obra. Pra um autor iniciante, a ausência de um blog ativo é quase uma implacável rota às gavetas.
Em dez anos, compus várias canções (a maioria descartável), com o cuidado (ou a pretensão) constante de não criar uma letra 'xibunga' só pra ressaltar o ritmo. Por muitas vezes, poemas se tornaram letras de canções e vice-versa (no livro Deserto Poema há exemplos). De fato foi um diálogo íntimo e constante, exemplificado no nome da banda que toquei por seis anos: The Orange Poem. Era som e poema. Uma interação que, de certo modo, se assemelha à prosa; há contos no Abrupta que foram desenvolvidos a partir de poemas ferrões do Deserto. E esse murro no estômago é o que une as duas formas que, em mim, brotam do universo árido de um areal de navalhas. A música é anseio. A prosa é laboratório. A poesia sou eu.

JIVM – Você é um poeta incendiário ou um poeta das águas?

EM – Incendiário. Sangue no olho.

JIVM – O que é que renasce das cinzas de seus versos queimados?

EM – Espero que não renasça nada quando botarem ou eu botar fogo em tudo; temos que escapar, mesmo que o relógio advirta que não.

JIVM – E depois o que pretende aquecer com seus versos de fogo? E o que mais?

EM – Eu não quero aquecer nada. Quero é machucar, tacar fogo, fustigar, maltratar os elogios vazios que tanto abestalham os blogs ‘literários’ por aí.
E mais: você, que por acaso leu esta baboseira aqui, pare, por algo que ainda seja sagrado, de sair comentando nos blogs badalados por aí a praga do ‘lindo!’ à toa. É medíocre, imbecil, carente e vaidoso. E o autor vai ‘cagar e andar’ pra você.

sábado, 31 de outubro de 2009

TRÊS POEMAS DE EMMANUEL MIRDAD


Ilustrações: Txhelo Castilho
















EVOLUÇÃO



primeiro foi a rebeldia
depois o cansaço
por último a fuga
e agora os cacos



GADO BOM É NO MEU PRATO


para essa poesia
dos homens de barro
ordeno que chova
derreta e desfigure
todos os encatamentos baratos
de uma atmosfera farsante

o urbano impera
e há tempos digeriu a inércia
de quem saúda o passado transposto

já era, já foi, acabou
e que as mãos cerrem as páginas inúteis
que emporcalham as prateleiras quase ausentes

eu escrevo pra mim
e enterro você, que nunca me lerá



MARIA CEGUETA


É difícil explicar a alguém
Como chegar a um determinado lugar
Se a pessoa estiver pilotando
Um animal assombroso
Aspirador de pó
Cão que rói tudo

Mesmo assim
Não faça confidências aos filhos
Nem lhes peça um apoio
Que nunca serão capazes de dar

Estão na mesma barca aportada
Entupidos do ópio comum
Às frustrações acumuladas
De todas as fracassadas gerações

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

RUY ESPINHEIRA FILHO FAZ A TRAVESSIA DAS PALAVRAS SOB O CÉU DE JEQUIÉ

No próximo sábado, 31 de outubro, derradeiro dia do mês, o poeta Ruy Espinheira Filho retorna a Jequié para participar do projeto Travessia das Palavras. Ruy vai trazer os ares de sua boa poesia e notícias do novo livro Sob o céu de Samarcanda, a ser publicado ainda este ano pela Bertrand Brasil em parceria com a Fundação Biblioteca Nacional, do qual enviou-nos um poema: Canção do efêmero com passarinho e brisa.


Além da presença e poesia de Ruy, a noite vai contar contar com a participação especial do grupo musical de Salvador, Caboco Capiroba, formado pelos músicos Clara, Moisés, Mário, filho de Ruy, e João, filho do saudoso sociólogo Gey Espinheira, irmão do poeta. O grupo Caboco Capiroba, se vale dos ritmos da música nordestina, com destaque para o Baião, o Xote e o Coco. Naturalmente influenciado por Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Xangai e Elomar, derrama em suas letras a temática tradicional do sertão e da condição humana. Os temas são enriquecidos com a força da cultura do recôncavo.
O evento vai acontecer no Palácio das Artes, às 19 h 30 min, entrada franca. Como estarei participando de outro evento (Fórum das Letras de Ouro Preto), em outro estado (Minas Gerais), no mesmo dia, não poderei estar presente para acompanhar e apreciar essa noite, que sei será de alta poesia e de encanto. Mas Leonam Oliveira, presidente da Academia de Letras de Jequié, estará ciceroneando o poeta e os convidados, com a sua costumeira elegância.
Fiquemos, por enquanto, com um pouquinho da paisagem de Sob o céu de Samarcanda:


CANÇÃO DO EFÊMERO
COM PASSARINHO E BRISA



É tudo mesmo bem pouco,
pois só há pouco me vi
chegando aqui e encontrando
o que nunca compreendi
— tanto que, perplexo, tanto
duvidei de estar aqui.
E nunca acreditaria
se não fosse um passarinho
afirmando: bem-te-vi!

Ainda escuto o seu trinado
garantindo-me o existir.
Mas precária garantia,
como aprendi com a brisa
de que se compõe o dia:
se o tempo passar um pouco,
nada mais que um pouco, logo
não estarei mais aqui.


RUY ESPINHEIRA FILHO

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

TRÊS POEMAS DE CARLOS MOISÉS SOGLIA DE MELO


Hoje, meu filho mais velho, Carlos Moisés, está completando nove anos. Uma grande alegria para nós que o amamos. Moisés é uma figura radiante, ao mesmo tempo disperso e introspectivo. Adora cavalgar pelos campos de tardezinha, viajando com seus heróis, os deuses das mitologias: Hades e Zeus, Odin e Thor, Osíris e Anúbis, Cronos e Urano. Apenas Aquiles, entre os mortais. De suas viagens mitológicas retorna, quase sempre, com um poema, como os três abaixo.

Foto: Ricardo Prado


IDADE GREGA


Os minotauros têm machados
de pés de cavalos.
Quando eles colocam
os machados diante do Sol
nascem fogueiras
nas mãos dos centauros.



IDADE MILITAR


Os militares
com armas estranhas,
roupas estranhas.

Nem a pele é conhecida.



MITO DE SÍSIFO


O homem pelado segurando a pedra
com sua incrível força de pedra.

A sua força é tão inútil
quanto a pedra que carrega.

JIVM - BARCO, PARA CARLOS MOISÉS



Parabéns, Moisés. 9 x 10 para você. E mais uns 10 anos de lucro. Saúde e Sucesso. Paz e Poesia. Com amor,
JIVM

terça-feira, 20 de outubro de 2009

RETRATOS POÉTICOS DO BRASIL 2010


Organizei, recentemente, para a Escrituras Editora, de São Paulo, a agenda Retratos Poéticos do Brasil 2010, cuja temática é a poesia da Bahia. Para tanto, selecionei 46 poetas da Bahia, desde Gregório de Mattos e Castro Alves, passando por Myriam Fraga e Florisvaldo Mattos, até os jovens Cleberton Santos e Nívia Maria Vasconcellos. Para mim foi uma grande responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma maior satisfação. A agenda ficou muito bonita. É um belo presente de fim de ano. Está disponível nas livrarias, nos sites e portais. Logo abaixo está o texto que fiz para a apresentação da agenda.


A POESIA PRIMORDIAL DA BAHIA

A poesia da Bahia está ligada às raízes da poesia brasileira. No século XVII, quando ainda vigorava o Barroco na Europa, surgem os primeiros poetas brasileiros, os baianos Manuel Botelho de Oliveira, primeiro brasileiro a editar um livro em versos, e Gregório de Matos e Guerra, com sua poesia lírico-satírico-religiosa. Gregório era um espírito irrequieto que a todos fustigava. Sua verve satírica e sua língua afiada conferiram-lhe a alcunha de O Boca do Inferno.
Não menos importante para o universo poético brasileiro foi Castro Alves, jovem poeta de versos fulgurantes que até hoje são recitados nas praças de Salvador e arrebatam multidões. Situado historicamente no Romantismo, no século XIX, Castro Alves dá nova dimensão a esse estilo de época ao enfatizar a poesia de temática social. Por conta do combate que empreendeu contra a escravidão, ficou conhecido como Poeta dos Escravos.
Do final do século XIX à primeira metade do século XX, simbolistas e parnasianos fizeram a feição poética da província. O Modernismo chegou à Bahia ao menos uma década depois do rebuliço de 1922, tendo em Godofredo Filho um dos seus precursores.
Ultrapassada a primeira metade do século XX, a poesia baiana passou a respirar novos ares com a Geração Mapa, da qual fazem parte poetas como Adelmo Oliveira, Affonso Manta, Fernando da Rocha Peres, Florisvaldo Mattos, João Carlos Teixeira Gomes e Myriam Fraga, sob a liderança do cineasta Glauber Rocha. A Geração Mapa foi englobada pela Geração 60, que até hoje exerce uma influência sobre a produção artística baiana. A segunda leva de poetas da Geração 60 traz nomes como Antonio Brasileiro, Ildásio Tavares, Maria da Conceição Paranhos e Ruy Espinheira Filho.
Em seguida, configura-se a Geração 80, a partir da Coleção dos Novos, que revelou autores como Aleilton Fonseca e Roberval Pereyr. Simultaneamente, surge o movimento Poetas na Praça, que cultivava a tradição da oralidade. Seus representantes recitavam pelas praças e becos da velha São Salvador, entre os quais se destacaram Antonio Short, Douglas de Almeida, Geraldo Maia e Walter César.
A década de 1990 trouxe para o cenário outras vozes: Elizeu Moreira Paranaguá, do Círculo de Estudo Pensamento e Ação (CEPA); Goulart Gomes, do Grupo Pórtico e do Movimento Poetrix; assim como Luís Antonio Cajazeira Ramos e Mayrant Gallo que traçaram, cada qual à sua maneira, um caminho poético bem particular.
E a poesia que se faz hoje na Bahia? É a mais diversificada possível e busca alcançar vários espaços. Está presente nas praças, com os continuadores do movimento Poetas na Praça; nos grupos que saíram das universidades, como o Grupo Hera, de Feira de Santana; está presente nos prêmios da Fundação Casa de Jorge Amado e da Academia de Letras da Bahia; no Concurso Público de Poesia Falada da Câmara Municipal de Salvador – Troféu Castro Alves; nas páginas das revistas Iararana e Hera; está no Pouso da Palavra, em Cachoeira, no Recôncavo; nos projetos que se espraiam por todo o Estado – nas bibliotecas, auditórios e bares – como Com a Palavra o Escritor e Poesia na Boca da Noite, em Salvador; Uma Prosa Sobre Versos, em Maracás, no Vale do Jiquiriçá; ou ainda no Travessia das Palavras, em Jequié.
A poesia contemporânea da Bahia é pulsante e vivaz. Surge em cada rincão que compõe sua geografia e busca levar sua voz primordial, que conjuga tradição e vanguarda, para todas as partes.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
Poeta, jornalista e produtor cultural

terça-feira, 13 de outubro de 2009

OS 60 ANOS DO RAIMUNDO FAGNER


Hoje, o cantor e compositor cearense Raimundo Fagner completa 60 anos. O Fagner trouxe a poesia para a minha vida. Isso já faz tempo, em 1980, quando eu tinha apenas 12 anos. Estava acampando em um lugar chamado Serra das Mãos, em Alagoas. Era um mês de dezembro, eu tomava chá a beira de uma fogueira com mais uns quatro amigos. De repente, o mais velho do grupo, que devia ter uns 18 anos, ligou um radinho, sintonizou-o na rádio Novo Nordeste, de Arapiraca, e a voz argêntea do Fagner bailou nos ares agrestes, entoando um poema do Patativa do Assaré, depois cantou uma canção de John Lennon, depois uma do Zé Ramalho. Fui envolvido de tal maneira, que um novo mundo se descortinava para mim. O canto do Raimundo despertava em mim o sentido da poesia. Melhor dizendo, despertava todos os meus sentidos para a poesia.
Agradeço-lhe, profundamente, por tudo isso. Por sua música ter marcado minha adolescência e por se fazer presente até os dias de hoje, cantando versos de Cecília Meireles, Patativa do Assaré, Ferreira Gullar, Florbela Espanca, Federico Garcia Lorca, Rafael Alberti, Antonio Brandão, Mário de Andrade, Francisco Carvalho e tantos outros.
Presto minha homenagem com um poema de meu segundo livro, Decifração de abismos (2002), que é dedicado ao Fagner. O poema chama-se Saudação e foi escolhido por Marco Lucchesi para a antologia Roteiro da Poesia Brasileira – Anos 2000, recém-lançada pela editora Global. Para o Fagner, os meus parabéns!
JIVM



SAUDAÇÃO
Para Raimundo Fagner


Cândido, o tempo não alisa,
os sulcos são deixados por seu arado.
No meu solo já senti o sabor da lavoura,
sabor que, por vezes, é dissabor.

Uma coisa é certa, Cândido, a poesia é salvação.
Tu foste o pastor do cântico do despertar,
foste o muezim que, do alto da mesquita,
anunciou a graça maior da poesia.

Imagine, Cândido, este poeta dos Sertões
só percebeu o escancarar da boca da estrada,
nos caminhos, da Estrada de Santana,
escancarados de tua boca.

Cândido, tange a tua voz,
sem delírio, viver não vale a pena.
Ah Cândido, pássaro extravagante,
berra o epigrama da minha adolescência:

“O vento voa,
a noite toda se atordoa,
a folha cai.”


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

VERÔNICA DE VATE - ADRIANO EYSEN


foto Ricardo Prado

ADRIANO EYSEN Rego (1976), poeta, contista e crítico literário, é natural de Salvador. Licenciado em Letras Vernáculas pela UEFS, Especialista em Estudos Literários pela UNEB, professor de Literatura Portuguesa e Brasileira da UNEB – Campus XXII – Euclides da Cunha, Mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS e membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. O autor publicou os livros: Suspiros das existências (1999 – poemas); Crepúsculo das Almas (2000 – poemas pelo MAC – Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana); Diário de um Louco (2001 – contos - MAC); Sopros (2002 – poemas - MAC) e Imagens do Sertão na poética de Castro Alves (2005/06 – ensaio - UESB). Tem artigos publicados em revistas, a exemplo de Outros Sertões e Iararana, e jornais como A Tarde Cultural e Tribuna Feirense. Participou dos projetos Malungos (Salvador - 2005); Porto da Poesia na Bienal do Livro (Salvador – 2005); Poesia na Boca da Noite (Salvador); Caruru dos Sete Poetas (Cachoeira - 2006) e coordenou Café Literário no Congresso de Educação de Vitória da Conquista-BA (2005 – 2006).
*
Adriano Eysen vai se apresentar, depois de amanhã, 10 de outubro, no projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, Bahia. Edmar Vieira, diretor de cultura do município é o coordenador do evento. O projeto vai contar também com a participação especial do Grupo Concriz - uma turma da boa da cidade de Maracás, composta por 25 jovens recitadores, dirigida pelo trio de poetas Edmar Vieira, Marcelo Nascimento e Vitor Nascimento Sá que vão recitar todos os poemas do livro Cicatrizes do silêncio.


INFÂNCIA


As borboletas trazem o hálito da manhã
e nas suas asas repousa
a leveza da minha infância.

No menino de ontem
só a antiga fotografia
das bolas de gude no quintal

e num sossego, os olhos de minha mãe
carregam o azul do céu
único como as borboletas

que dormem no sono
do menino
habitante desses versos.


ADRIANO EYSEN

ADRIANO EYSEN - ELEGIA ÀS MENINAS MEIGAS



ELEGIA ÀS MENINAS MEIGAS


Cantemos as mulheres
que trazem na noite
o aroma do sexo
e uma tristeza que a habita a lua.

São elas fidalgas
que guardam o pecado
por trás dos vestidos
envelhecidos na memória.

Cantemos suas tramas
que se findam nas camas
numa réstia de madrugada.

Lá vão elas, meninas meigas
carregando em seus corpos
a lucidez dos deuses
que as amam.


ADRIANO EYSEN

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

BABEL


Ilustração: Ana Neves Guerreiro


BABEL


Distantes do passado tetrassílabo,
jônicos e gaélicos guerreiros
passaram por aqui – passaram pássaros.

O passo temperado desse sonho
traz nas mãos cartas celtas de Babel
a convidar à noite dos diálogos.

(Todo canto termina-aproxima:
imagem indagada entre símbolos).


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


Poema do livro inédito Roseiral, um dos vencedores do edital da Fundação Pedro Calmon, da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

ENTREVISTA - RAIÇA BOMFIM



A POESIA É O RASTO E O LASTRO – RAIÇA BOMFIM nasceu no dia 19 de março de 1986, dia de São José, em Vitória da Conquista, Bahia, cidade de minha saudade e afeto. Com menos de um ano foi morar em Salvador. Passou quatro anos e meio da infância morando com os pais em Barcelona, onde nasceu seu irmão caçula. Foi na Espanha que primeiro se alfabetizou e ficou para sempre encantada com as formas de Picasso e as cores de Miró. Seu primeiro curso de graduação foi em Produção Cultural na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Acabou por abandonar o curso ao meio para fazer Faculdade de Teatro, também UFBA. Hoje cursa o último semestre de Interpretação Teatral, com o espetáculo Pinóquio e participa de um grupo de teatro chamado Alvenaria de Teatro que estréia agora em outubro com o espetáculo As Bacantes. Raiça afirma que sua profissão é a de atriz e que a poesia e o canto são sua yoga. Vamos, então, fazer uma caminhada, como quem faz uma meditação, pelo mundo da jovem e bela Raiça Bomfim. Vamos seguir seus passos para percebermos sua poética, pois para ela a poesia é o rasto e o lastro.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Você acha que vale a pena ser poeta, tendo em vista que “a poesia é uma ribalta entregue às moscas”, como lucidamente afirma o poeta cearense Francisco Carvalho?

RAIÇA BOMFIM – Acho que vale a pena, o papel e o verso. Nossa sociedade dá pouco valor ao que lhe é essencial: a arte, a natureza, o amor... Nem por isso, o que é essencial deixa de sê-lo. A poesia é um ofício humilde, de auscultar destroços e inutilidades (viva Barros!). Ninguém precisa dela pra viver e pouca gente consegue viver dela. No entanto, para os atentos e vivos, a poesia é inevitável.

JIVM – “Não sou alegre nem sou triste/ sou poeta”, dizem os versos da grande poeta Cecília Meireles. A sua poesia é mais alegre ou mais triste? Você é poeta ou poetisa?

RB – Acho que minha poesia não é nem alegre nem triste. Assim como eu também não sou nem uma coisa nem outra. Descrevo com vigor e curiosidade meu trajeto de vivência. A poesia é o rasto e o lastro. É o que é visto, sentido e dito: fato. É inteira, necessária e sem partido. Nem alegre nem triste, poesia.
Quanto a mim, se algo disto eu for, sou poeta. E sem frescuras.

JIVM – Você acredita na existência de uma poesia feminina e, por extensão, de uma literatura feminina? O que você acha das escritoras feministas? É mais difícil para uma mulher ser reconhecida como escritora ou a tranqueira é comum para todos?

RB – Acredito sim que há poesias que notadamente se referem mais ao universo feminino, à mulher. Nossa sociedade é patriarcal e os temas ligados ao masculino predominam e se impõem como parâmetro. Os temas ligados ao feminino aparecem como contraste, ganham contorno e definição por serem marginais, não vigentes. Vira um sub-campo: poesia feminina. Isso é muito reducionista, em minha opinião. Acho que há a literatura.
Sobre as escritoras feministas, acho que esse “feministas” é uma designação, um título que se assume para dar mais visibilidade a um grupo que trata de temas marginalizados; para trazer à luz a histórica subordinação desses temas e assegurar seu espaço na oficialidade, no discurso vigorante. É uma estratégia necessária, positiva. Mas a classificação é posterior ao fazer poético. O momento da poesia não tem categoria nem preceito. Já a circulação da poesia é política, está inserida numa ordem que tem poderes, hierarquia, patriarcado.
Não sei se é mais difícil para uma mulher ser reconhecida como escritora. Mas sei que, de uma maneira geral, é mais difícil pra uma mulher ser reconhecida. Com a poesia não deve ser diferente.

JIVM – De uma década para cá, a proliferação de blogs é algo alucinante, o que permite que cada pessoa possa criar sua página e enviar suas dores, alegrias, recados e mensagens para o mundo. Você, que tem um blog e faz desse suporte a residência de sua criação, o que acha dessa nova possibilidade? Você acha que é suficiente para um escritor publicar no seu blog ou no seu site, ou é preciso publicar um livro impresso para se realizar efetivamente.

RB – A internet abre muitas possibilidades e, muitas vezes, é a possibilidade que faz o ladrão, ou o poeta. Mas há também muito lixo, é um meio que traz em si um discurso, um ritmo, um modo. É perigoso. Não sei bem o que acho de um blog. Para mim, veio a calhar. Eu gostava de escrever, mas não era escritora e nem sonhava em ter um livro. Apenas gostava de escrever e tinha empenho e cuidado na confecção de minha poesia. Achei justo exibir pra quem se dispusesse a ler. Por isso o blog. Só depois de um tempo, é que passaram a me ver como poeta, e a possibilidade de lançar um livro se fez tangível. Porém, nunca parei para investir mais a fundo nessa perspectiva. Talvez por preguiça e desleixo, ou por prudência, sei lá. Não sei ao certo o que acho disso tudo. Passo.

JIVM – E pra acabar, fale um pouco da sua ligação com as outras manifestações artísticas e em que medida essas outras linguagens interferem na sua criação. E fale, também, das suas influências e de seus projetos.

RB – Minha profissão é a de atriz. Foi o teatro que escolhi como ofício, como meio de sustento, de troca social. As outras artes me nutrem igualmente o espírito, mas não têm o mesmo peso que o teatro exerce no meu cotidiano. É outro tempo, outra responsabilidade. Cantar e escrever são minha yoga, é o que faço para estar mais em paz, “co’alma calma”. E tudo isso é pra mim indispensável, necessário.
Por desenho e pintura eu sempre fui fascinada. Quando vi os primeiros desenhos de Vânia Medeiros, grande amiga e parceira, fiquei tão fascinada que nunca mais me desatrelei deles. Eu acho o que Vânia desenha muito íntimo e, portanto, do mundo; meu.
Cada criação minha, seja no teatro, na poesia ou na música, reflete um mesmo impulso, mas manifesto de diferentes formas. E forma é conteúdo. A criação em cada meio é muito diferente. No fundo, porém, “todos os poemas são de amor”. E todas as artes. Amor e mistério. E é ao deus-mistério que rendo graças e suor.
E já que citei Quintana, quero apontá-lo com uma de minhas ternas referências. Junto dele estão Adélia Prado, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Manoel de Barros, Paulo Leminski, Pablo Neruda e Fernando Pessoa. Estes são nomes que predominaram em minhas leituras desde a adolescência e continuam imperando em minha cabeceira.

TRÊS POEMAS DE RAIÇA BOMFIM


Ilustrações: Vânia Medeiros




















OFICIAL


especializar-me quero
é no ofício de vivente,
cumprir o expediente
com alegria e viço,
fazer o que tem que
ser feito...
carpintar
e só.



PONTE
a Seu Pitico


abismo, amor, poço fundo é risco
não é sina, é sangue, coisa viva à vista
derrame o que seja, veja o que veja
me alcance a vertigem, o medo, e inflame
que o nosso destino, amor, é ponte
e estamos no meio, no veio, ao meio.

abismo, amor, diante do abismo
todo medo é o mesmo, a morte, a queda
no entanto o destino, amor, é ponte
infinita ponte de pau e ferro,
não é sina, é sangue, coisa viva à vista
me alcance a vertigem e inflame

seja pleno o passo, presente, pungente
estados em tempo, derrame o que seja,
veja o que veja, não é romantismo,
é método, emenda, é sobrevivência;
liturgia mister, não é sina, é sangue,
coisa viva à vista

abismo e sigo, angústia e alegria
que o que em mim não é amor, é covardia



ESQUINA


Sentada
com as pernas em cruz,
largou-se a sorrir feito louca
jurando que era santa
e provava o milagre
a quem lhe pagasse pra ver:
tirava leite de pedra,
água de pau, melaço de carne
e prometia o paraíso
a quem lhe alcançasse
o céu

da boca.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A PASSAGEM DO POETA ROBERVAL PEREYR POR JEQUIÉ - A CIDADE SOL



O poeta Roberval Pereyr esteve conosco em Jequié, na noite de 26 de setembro. Veio na companhia de sua esposa Bárbara. Sua participação no projeto Travessia das Palavras foi singular. Roberval é um poeta singular. Claro que o evento contou com a participação especialíssima do Grupo Concriz, da cidade de Maracás, que deu um brilho especial para a nossa noite de poesia. A foto acima é da participação do Roberval no projeto Uma Prosa Sobre Versos, em Maracás, no dia 11 de julho de 2008. Como podemos ver, Roberval está cercado de crianças e jovens, portanto está guarnecido pela mais pura poesia das crianças e pela imortalidade dos jovens. Vamos terminar esse bate-papo postando um dos belos poemas de Roberval Pereyr. Abraços.

JIVM


HERANÇA


Não trago mais que esta sede
de combinar erro e sonho
no mesmo triste compasso
no mesmo canto difuso

não trago mais que a saudade
do meu último (des)encontro
comigo e contigo (elo
selando a nossa desdita)

não trago mais que remorsos
de ter ferido ferido
meu mais íntimo reduto
em que o meu deus (santo e urso)
habitava (já não habita):

agora estou só: meu peito
é templo roto, ruído
e não sou mais que um soluço
sussurrado no deserto

(num deserto de sussurros)

e o medo com seus fantasmas
e o vento com seus enigmas
já me invadem, já me alarmam

e não trago mais que o estigma
dos que na vida perderam
a briga, os irmãos, a casa
e hoje perdidos vagam
por entre sombras e abismos.


ROBERVAL PEREYR

terça-feira, 22 de setembro de 2009

I SEMINÁRIO DA POESIA BAIANA NO OESTE DA BAHIA

Universidade do Estado da Bahia – UNEB
Departamento de Ciências Humanas / Campus IX
Barreiras – 2009

I Seminário da poesia baiana no Oeste da Bahia


PROGRAMAÇÃO

23 / 09 / 2009

7:30 hs – Credenciamento

8:00 hs – Palestra de abertura: Nomes e temas da poesia baiana pelo Prof. Dr. Aleilton Fonseca, membro da Academia de Letras da Bahia e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana

9:30 hs – Lançamento do livro O Pêndulo de Euclides, de Aleilton Fonseca

10:00 hs – Bate papo com o autor: Aleilton Fonseca

14:00 hs – Oficinas:
– A poesia de Godofredo Filho;
– A poesia de Carvalho Filho;
– A poesia de Ruy Espinheira Filho;
– A poesia de Sosígenes Costa;
– Samba de roda: uma poética do recôncavo, de Fred Souza Castro

16:00 hs – Mesa Redonda: Painel da Poesia Baiana Contemporânea, com o poeta e jornalista José Inácio Vieira de Melo. Mediador: Aleilton Fonseca

17:00 hs – Lançamento do livro A infância do centauro, de José Inácio Vieira de Melo

24 / 09 / 2009

8:00 hs – Oficinas:
– A poesia de Godofredo Filho;
– A poesia de Carvalho Filho;
– A poesia de Ruy Espinheira Filho;
– A poesia de Sosígenes Costa;
– Samba de roda: uma poética do recôncavo, de Fred Souza Castro

10:00 hs Mesa Redonda: Uma rede poética: lirismo amoroso e criação verbal em Eurico Alves, com o prof., mestre e poeta Cleberton Santos. Mediador: José Inácio Vieira de Melo

14:00 hs – Oficinas:
– A poesia José Carlos Capinan;
– A poesia de Carlos Anísio Melhor;
– A poesia simbolista na Bahia;
– O Movimento Poetas na Praça;
– A poesia de Antonio Brasileiro
– A poesia feminina baiana: Miryam Fraga e Maria da Conceição Paranhos;
– A poesia de Aleilton Fonseca

15:30 hs – Lançamento do livro Lucidez Silenciosa, de Cleberton Santos

16:00 hs – Mesa Redonda: Encontro com poetas locais. Mediação: Cleberton Santos

19:00 hs – Conferência: O fazer poético, com Geraldo Maia


25 / 09 / 2009

8:00 hs – Oficinas:
– A poesia José Carlos Capinan;
– A poesia de Carlos Anísio Melhor;
– A poesia simbolista na Bahia;
– O Movimento Poetas na Praça;
– A poesia de Antonio Brasileiro
– A poesia feminina baiana: Miryam Fraga e Maria da Conceição Paranhos;
– A poesia de Aleilton Fonseca

9:30 hs – Comunicações com a participação dos poetas Ametista Nunes, Geraldo Maia e o Prof. Msc. Antonio de Pádua de Souza e Silva

10:00 hs – MPP: uma poética de ruptura e resistência, com os poetas Geraldo Maia, Ametista Nunes e o Prof. Msc. Antonio de Pádua de Souza e Silva

14:00 hs – Comunicações

16:00 hs – Lançamento de livros e recital de poesia com os poetas Geraldo Maia, Ametista Nunes, Prof. Msc. Antonio de Pádua de Souza e Silva e convidados

17: 00 hs - Encerramento

BIENAL DO LIVRO DO RIO - AURÉLIO SCHOMMER ENTREVISTA JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Fotos: Carolina Castro





segunda-feira, 14 de setembro de 2009

JIVM NA XIV BIENAL DO LIVRO DO RIO

foto Ricardo Prado

Pois é, gente, estou na maravilhosa cidade do Rio de Janeiro. Mas que lugar bonito! Estou hospedado no hotel Othon Savoy, em Copacabana, ao lado do mar. A Bienal do Rio está acontecendo no Rio Centro. É uma viagem daqui de Copacabana para lá. Mas uma viagem muito agradável. Lancei meu livro A infância do Centauro ontem. Foi um momento muito legal. Recitei para um pequeno público alguns dos meus poemas e atraí várias pessoas para o stand dos autores baianos com a força da palavra poética. Tive o prazer de contar com as presenças do poeta carioca Cairo Trindade e do agitador cultural de Rondônia Selmo Vasconcellos, dos amigos Pedro Rivas e Marcos Siqueira, e da belíssima professora de dança Mariana Siqueira e de várias outras pessoas. Além de meu livro, foi lançada também a agenda Retratos Poéticos do Brasil, de 2010, da Escrituras Editora, que tem como tema os poetas baianos e que conta com a minha organização. Tenho motivos de sobra para estar satisfeito.
Tive também o prazer de encontrar, na bienal, com o jovem e talentoso poeta e crítico Igor Fagundes, e com o editor da revista Confraria, Márcio André.
Nos primeiros quatro dias de Bienal e de minha estadia aqui no Rio, tive a satisfação de contar com a companhia carinhosa e amiga de Elaine Hazin que me apresentou a várias pessoas interessantes, como os integrantes do grupo Moinho (Lan Lan, Emanuele Araújo e Nara Gil), Chicão (filho de Cássia Eller) e a luminosa figura de Marta, com quem tive uma afinidade espiritual. Também fiz passeios com o casal Junia Leite e Bruno Machado, pessoas ternas e de bem com a vida. Destaco também a feliz coincidência do encontro com o ator Jackson Costa na Gávea. Estávamos reunidos, um grupo de baianos formado por Sérgio Rivero, Elaine Hazin, Sérgio Hazin, Junia Leite, Bruno Machado e eu, encontramos Jackson e resolvemos assistir a peça Deus é química, de Fernanda Torres, com os atores Luís Fernando Guimarães, Francisco Cuoco, Jorge Mautner e a própria Fernanda Torres.
Outro momento de satisfação foi o reencontro com Helena Ortiz, na quinta à noite, no bairro de Santa Tereza, onde a minha amada amiga reside. Pena que no dia seguinte sua mãe tenha falecido e Helena viajou para o Rio Grande do Sul para despedir-se de seu ente querido.
Mas tem muita coisa pela frente, pois permaneço aqui no Rio até o dia 21. Já tenho encontros marcados com Astrid Cabral, Igor Fagundes e Helena Ortiz, assim como um recital para Pedro Rivas, Marcos Siqueira e um grupo de amigos seus que pretendem me apresentar. Por enquanto é só.
JIVM

ESCRITORES BAIANOS LANÇAM LIVROS NA BIENAL DO RIO

A visitação no stand dos autores baianos na Bienal do Livro do Rio tem sido bastante animadora. Os cariocas tem demonstrado interesse nas publicações dos autores da Bahia.
Uma prova disso foi o êxito dos lançamentos dos livros “Domingos Sodré, um sacerdote africano” (Companhia das Letras, 2007), do historiador João José Reis; e “A infância do centauro” (Escrituras Editora, 2007), do poeta José Inácio Vieira de Melo; nos dias 11 e 13, respectivamente.
Os autores falaram para uma platéia seleta na aconchegante sala do stand. João José Reis fez uma abordagem sobre temas como candomblé e islamismo na Bahia, apresentado ao público os conhecimentos de um pesquisador minucioso, além de falar da sua relação com o mercado editorial.
José Inácio Vieira de Melo, por sua vez, fez um animadíssimo recital que despertou a atenção do público passante. O poeta também tratou de temas como a poesia contemporânea da Bahia, a escassez de leitores de poesia e fez uma explanação sobre sua obra, que contempla a força mística e telúrica do universo campesino aliada ao conflito existencial do homem na pós-modernidade.
O próximo título a ser lançado será “Floração de Imaginários” (Via Literarum, 2008), livro de ensaios do escritor Jorge de Souza Araujo, que vai acontecer no dia 16, às 19 horas.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

ELIANA MARA CHIOSSI E SUAS FÁBULAS DELICADAS NA CIDADE DAS FLORES



P I E D A D E

Se eu amasse Hitler, seria uma santa. Ofereceria, para meu pobre ditador, todo o perdão. Em noites de frio, aguardaria sua chegada, com a sopa quente. Ofertaria o abrigo do meu colo. Se eu amasse Hitler, arranjaria um jeito de ser surda. E falaria com ele apenas de assuntos banais como a textura do morango e a beleza dos cristais. Para evitar pesadelos e higienizar minha memória, dos relatos do horror por ele praticado, eu iria me transformar, pouco a pouco. No estado de pedra dura e condensada, desejaria a morte, cada dia. Mas antes, a face de santa seria coberta pelas lágrimas de sangue. Se eu amasse Hitler, teria a vida de uma estátua. Chegaria o momento do extremo alívio, morte desejada. Na expressão do meu rosto, prévio monumento, haveria a gravação terrível da certeza: aquele homenzinho odioso era meu filho. E era humano.

ELIANA MARA CHIOSSI

*

Eliana Mara Chiossi vai se apresentar, no próximo dia 12 de setembro, no projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, Bahia, coordenado por Edmar Vieira. Na ocasião, Eliana Mara vai lançar Fábulas delicadas, que é o seu primeiro livro, mas que surge com uma maturidade que é possível apenas para quem tem ouvido absoluto e compreende os ritmos inumeráveis das polifonias dos delirantes. O evento conta sempre com a participação especial do Grupo Concriz, que faz um belo recital com poemas do convidado (a). O Grupo Concriz é composto por 25 jovens da comunidade maracaense e coordenado pelos irmãos Marcelo Nascimento e Vitor Nascimento Sá.
Eliana, minha amiga, viva intensamente esse momento de glória da sua palavra poética. Leve suas fábulas delicadas para a Cidade das Flores e semeie as pétalas do seu sentimento mágico no coração da calorosa platéia que vai apreciar seu trabalho. Gostaria muito de estar com você, mas minha poesia também vai estar se espraiando por outras paragens – estarei na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Mas, de alguma maneira, estaremos juntos, você, eu e os concrizes de Maracás. Beijos.
JIVM

terça-feira, 1 de setembro de 2009

SANGUE NOVO - VITOR NASCIMENTO SÁ



A POESIA COLOCA A VIDA EM DESORDEM – VITOR NASCIMENTO SÁ nasceu em 1982, no sudoeste da Bahia, em Maracás, também conhecida como Cidade das Flores, onde vive até hoje. Poeta e professor de literatura, formado em Letras na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) em Jequié, é co-diretor do Grupo Concriz – equipe de jovens recitadores e poetas que tem realizado diversos recitais no Estado, desde 2005. Vitor é um poeta cauteloso e fica um tanto arredio quando solicitado a mostrar seus versos. O clima frio de Maracás, que chega à temperatura de 10º entre maio e agosto, é propício para a maturação de sua poética e para que possa remoer o conflito que o perpassa: “Eu perco a paciência com a minha própria poesia e a deixo de lado na esperança de que eu seja de uma vez por todas livrado dessa praga. Em vão. Basta ler alguma coisa e novamente a poesia vem desfazer minha paz e colocar minha vida outra vez em desordem”.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – O que o motiva a ser poeta? É tão importante assim?

VITOR NASCIMENTO SÁ – Eu não me sinto motivado a ser poeta. Eu sou poeta. Acredito que há algo em minha natureza que impõe isso independentemente do destino que eu mesmo procure dar à minha vida. Então, eu sou poeta. Se eu não tivesse contato com a literatura, talvez essa força tivesse se manifestado de uma outra forma, talvez em outra modalidade artística. Mas com certeza a atitude poética seria parte de minha essência de qualquer maneira. Essa força, ou natureza, é algo que até tento sufocar às vezes, porque tenho medo de me expor demais na escrita. É por essa razão que minha produção tem lacunas de meses. Eu perco a paciência com a minha própria poesia e a deixo de lado na esperança de que eu seja de uma vez por todas livrado dessa praga. Em vão. Basta ler alguma coisa e novamente a poesia vem desfazer minha paz e colocar minha vida outra vez em desordem. Por isso, repito, Inácio, sou poeta e ponto.
Na minha infância já me sentia atraído pela prática da escrita, mas a escrita de um modo geral. Por ser tímido e, às vezes, excessivamente introspectivo, sempre tive mais facilidade de comunicar meu pensamento por essa via. A fala sempre me foi um esforço para além de minha natureza e a busca pela possibilidade de recusá-la, de optar por algo que, pelo menos aparentemente, não me expusesse tão diretamente, me levou ainda na adolescência a arriscar os primeiros versos confessionais. Mas diria que de poético nesse caso só há a minha lembrança, que talvez não corresponda ao que de fato aconteceu, porque a memória do poeta está a todo instante sendo reescrita. O texto que eu produzia naturalmente não passava de um desabafo mal alinhavado. E não podia ser diferente: não se pode escrever poesia sem ler poesia. A arte poética propriamente dita foi algo a que tive um contato mais sólido somente no curso de Letras. Acho que há ainda uma deficiência na educação básica quando a missão é introduzir o estudante na literatura, em geral, e na poesia, em particular. E não posso dizer que tenha encontrado em minha família exemplos de bons leitores. Mas depois da faculdade o meu tardio contato com a poesia foi se intensificando. Acabou que aquela fascinação pueril pela escrita e o questionamento constante de minha própria existência me empurraram para esse abismo que é a poesia em minha vida de uma forma que ela passou a ser essencial. Não sei quantas vezes tentarei novamente sufocá-la, quantas vezes fugirei desse abismo. Mas sei que não posso viver negando a minha essência o tempo inteiro. Um dia terei que assumir esse compromisso de modo mais efetivo.

JIVM – O poeta desempenha algum papel na sociedade? O poeta tem alguma função? A poesia serve para que?

VNS – Função, talvez sim. Incomoda-me muito o fato de alguns acadêmicos desejarem dar ao poeta uma utilidade. Ele não precisa disso. A poesia, como qualquer outra forma de arte, é arte justamente por se contrapor ao que é utilitário. Não discutirei obviamente as relações que se podem fazer entre o artístico e o utilitário em outras manifestações, como a arquitetura ou a moda. Mas a idéia que a humanidade construiu de arte ao longo dos séculos a põe do lado oposto de qualquer coisa que sirva para algo. A poesia e a literatura como um todo não servem, nem podem servir, para nada. Até porque somos nós que nos colocamos a seu serviço, não o contrário.
O papel que o escritor de literatura desempenha na sociedade, portanto, é algo muito questionável. Em primeiro lugar, porque literato de verdade não escreve para uma sociedade, não escreve pensando no que será útil, agradável ou aceitável para o público. Para fazer esse tipo de coisa já temos a turma da auto-ajuda. Em segundo lugar, porque a sociedade muda e o texto escrito não. Um poeta que nos parece idiota hoje poderá ser o gênio injustiçado do próximo século. Então quem escreve hoje pode não desempenhar nenhum papel na sociedade de hoje, mas mudará as próximas gerações. O contrário também é verdade: quem se coloca na literatura pensando desempenhar um papel importante no cenário social de seu tempo poderá ser um grande esquecido talvez daqui a cinco anos.
A poesia renova a linguagem. Mas não sei se isso é a função da poesia. Parece-me que essa renovação é apenas uma conseqüência da poesia. Porque, afinal de contas, não é a intenção do poeta (pelo menos pelo que me parece) renovar a linguagem. A intenção do poeta é a própria poesia, é a arte e a palavra. O resto é periférico, é secundário.

JIVM – Fale sobre o que é, o que faz e o que pretende o Grupo Concriz. E fale também da participação do Concriz nos projetos de poesia da Bahia.

VNS – Em Maracás há uma turma envolvida com literatura que, liderada pelo poeta Edmar Vieira, desde o ano 2000, pelo menos, fazia recitais esporádicos, principalmente para lançamentos de livro de poesia e para eventos organizados pela secretaria de educação. Mas não era um grupo fixo. Era um monte de amigos que se renovava a cada oportunidade de apresentação. Também não eram apresentações regulares, eram pontuais. Tenho notícias de diversos recitais. O primeiro que participei foi em 2005. Dois anos depois, foi realizado o recital de lançamento de A Infância do Centauro em Maracás e Edmar Vieira me convidou para dirigir com ele. Depois disso, começaram a surgir outras oportunidades de modo mais regular, como o projeto Pétalas, lançamentos de livros em outras cidades e participações em fóruns e alguns eventos da educação. Por isso é que surgiu a idéia de fazer um grupo que se consolidasse. Depois escolhemos o nome. Concriz é um pássaro muito comum no sertão que tem um canto muito belo. É conhecido também como sofrê.
Em 2008, participamos do projeto Uma Prosa Sobre Versos em Maracás e fizemos sete recitais de poetas diferentes. No mesmo ano, fizemos dois recitais em Jequié, um em Lafaiete Coutinho, um em Iramaia e outro em Santa Inês. Todas essas cidades são próximas de Maracás. Em 2009, estamos realizando o segundo ano de Uma Prosa Sobre Versos e participamos também de um projeto bem parecido em Jequié, o Travessia das Palavras. Mas, sem sombra de dúvidas, a nossa melhor participação foi na Bienal do Livro de Salvador. Fizemos um recital no stand da Secretaria da Cultura e dois recitais na Praça de Cordel e Poesia.
O grupo se renova o tempo inteiro e praticamente não tem limite de idade: Edmar Vieira, o mais velho, já passa dos trinta; o componente mais novo tem seis anos. Desde que a criança saiba ler e goste de poesia, pode fazer parte do Concriz, respeitando-se obviamente um limite máximo de participantes, porque não podemos dirigir tanta gente ao mesmo tempo. Hoje a direção do grupo é dividida entre mim, Edmar Vieira e o também poeta Marcelo Nascimento, meu irmão. E todos nós temos também outros compromissos, porque nossa atividade no Concriz não é remunerada. Agora, o grupo tem vinte e cinco recitadores. Concordamos que não dá pra aceitar mais ninguém, por enquanto.
No futuro, pretendemos elaborar um recital de vários poetas baianos, possivelmente privilegiando algum tema, e produzir esse recital em nosso território, o Vale do Jiquiriçá. Incomoda-nos o fato de produzir um recital para ser apresentado apenas uma vez. Outra ambição do grupo, que talvez se concretize ainda esse ano, é gravar um CD de poesias, também de autores baianos. Há outros projetos em estudo, principalmente em lançamento de livros de poesia no Vale do Jiquiriçá.

JIVM – Quais foram as leituras que mais lhe marcaram? Quais os autores referenciais?

VNS – A que mais me marcou foi a obra completa de João Cabral de Melo Neto. Deu-me uma visão bem diferente, muito mais madura, da literatura e me fez afastar da idéia de poesia como pura confissão e emotividade. Com Cabral, consegui aproximar-me do conceito de poesia enquanto construção. Mas considero indispensáveis a leitura de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Ferreira Gullar. Acho que isso é o básico e é o que tenho em maior estima. Não posso esquecer de outros que leio esporadicamente como Cecília Meireles, Vinícius de Moraes e Fernando Pessoa. Hoje estou lendo Federico García Lorca, com o meu espanhol sofrível. Mas, em matéria de leitura, não tenho predileção por essa ou aquela poesia, por isso é que entrei em contato também com Leminski e, posteriormente, com os Campos e Pignatari, embora não me sinta muito atraído pelo Concretismo. Enfim, sou professor de literatura; preciso conhecer um pouco de cada coisa da tradição à renovação. Mas minhas referências são, além dos autores do modernismo que já citei, os poetas do meu tempo: Ruy Espinheira Filho, Florisvaldo Mattos, Kátia Borges, Carlos Barbosa e você, José Inácio Vieira de Melo. Acho importante para o poeta de hoje, ler os poetas de seu tempo. Não dá para ficar só na tradição. Afinal de contas, a poesia só existe porque se reinventa e todos nós precisamos acompanhar essa reinvenção.

JIVM – A sua poesia caminha em que direção? Há algum livro em andamento? E o que mais?

VNS – Não sei se minha poesia tem uma direção. Também não tenho projeto de um livro. Vou escrevendo poemas, só isso. Há semanas que produzo muito e, na semana seguinte, jogo tudo fora. Depois passo meses sem escrever. E é isso. Não tenho muita disciplina e também não tenho pressa de publicar. Vou escrevendo na esperança de que o momento certo chegue, o momento em que terei certeza de que posso publicar sem arrependimentos futuros.
No mais, Inácio, resta agradecer pelo espaço, pelos conselhos, pela amizade. A poesia baiana precisa de pessoas generosas como você, pessoas que se dedicam à causa da poesia e não medem esforços para guiar os mais novos nesse caminho. O seu blog é um lugar de reuniões. Todas as pessoas da literatura da Bahia passam por aqui para dar uma olhadinha, deixar um comentário e conhecer gente nova. Sua produção poética já é em si um legado. Mas você faz mais. Você faz a diferença. Obrigado.

TRÊS POEMAS DE VITOR NASCIMENTO SÁ


Ilustração: Gilvan Samico




















CARONTE


Na primeira vez que vi Caronte,
minha vida pareceu mais acabada.

Mas passadas quase três eternidades,
mirando sua face na saída,
pareceu-me a única amiga
a que eu já tinha observado.

Na terceira vez que Caronte encontrei,
já trazia o coração despedaçado:

nem o cumprimentei, pobre barqueiro.
Paguei e ordenei que atravessasse,
eu, lamentando ter morrido de infarto
e com paixão mandando no meu peito.

Caronte, agora, encontro todo dia:
é porteiro do prédio onde trabalho.

Com bom dia o saúdo logo cedo;
vem trazer o meu jornal meio amassado.
E, ao sair, digo assim, meio com medo:
boa noite, meu barqueiro desgraçado.



ESCAPULÁRIO


Eu, o escapulário e um copo d’água.
Então me vejo caminhar de longe,
vento no cabelo encaracolado.
E a sombra cerca uma coivara e some.

Espanto-me com tiros pelas costas.
No chão, sinto a poeira pela cara.
E digo que a verdade agora é posta:
eu, o escapulário e um copo d’água.

Deus, água de coco e Azerbaijão:
um homem-bomba bufa em restaurante.
Por mais que se queira pleno futuro,

se sabe que o passado é mais que fruto,
pra forçar que nosso presente pare:
eu, o escapulário e um copo d’água.



CORTEJO DO FOGO


Ontem, o passado me visitou quase inteiro,
como uma procissão de São Roque
nas ruas de terra de Maracás.

Minha mãe sentada – a parede nua às suas costas –
me espiava baixinho e ordenava
ficar de olho no caminho pra que ela não caísse.
E balbuciava como quem grita:
menino, por que você não olha por onde anda?

Mas como poderia eu olhar,
se minha mãe nascera cega
em pleno dia de Santa Luzia
e passava a enxergar aos poucos
como na história sagrada
que parcamente lia?

Terra, cuspe e barro de Nosso Senhor
na face pequena de minha mãe
e o sorriso de minha avó
contando histórias perto do fogão a lenha.

Aí eu achei graça do pudor
com que olhei pela primeira vez
a pelagem rala na boceta jovem de minha prima
tomando banho de cuia no banheiro de palha.

Fogo!

Meu passado é brincadeira perigosa.
Mas me apareceu em formato de chapéu
e, surpreendentemente, a cabeça ainda
me servia como nos meus quatorze anos.
Mas estava à venda a preços
que, na época, não se praticavam.

E minha tia morta ordenando a todos
que saíssem como não pudessem,
que saíssem mesmo a qualquer custo.

Afinal, o meu passado será sempre
brincadeira de fogo, perigosa.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

VERÔNICA DE VATE - ANTONIO BRASILEIRO


ANTONIO BRASILEIRO (1944), escritor e artista plástico, nasceu nas Matas do Orobó, sertão baiano. Criador das Edições Cordel e das revistas de poesia Serial e Hera, tem 24 livros publicados, dentre eles Dedal de areia (poesia, 2006), Poemas reunidos (2005), Da inutilidade da poesia (ensaio, 2002), Pequenos assombros (poesia, 2001), A estética da sinceridade (ensaios), A história do gato (conto), Antologia poética (1996) e Caronte (romance, 1995).
Como artista plástico, além de uma centena de exposições (coletivas e individuais) executou painéis para museus, universidades, bibliotecas e praças públicas, e fez numerosas ilustrações para livros, revistas, jornais, cartazes etc.
Doutor em Letras e membro da Academia de Letras da Bahia. Reside na cidade de Feira de Santana.

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Antonio Brasileiro vai participar, no próximo sábado, dia 29 de agosto, do projeto Travessia das Palavras, na cidade de Jequié, Bahia. O evento é coordenado por Leonam Oliveira e por José Inácio Vieira de Melo. O Pojeto vai contar também com a participação especial do Grupo Concriz - uma turma da boa da cidade de Maracás, composta por 25 jovens recitadores, dirigida pelo trio de poetas Edmar Vieira, Marcelo Nascimento e Vitor Nascimento Sá.


ARTE POÉTICA


Meus versos são da pura essência
dos poemas inessenciais.

Nada dizem de verídico
não querem nada explicar.

Não narram o clamor dos peitos
não encaram a dor do mundo.

Se por vezes falam alto
é por puro gozo, júbilo:

humor que brota de dentro
como se movem os astros.

Eles, meus versos, são pura
floração de irresponsáveis

flores nascidas nos mangues,
por nascer – mas multicores,

lindas, não importa que os homens
as conheçam ou não conheçam.


ANTONIO BRASILEIRO

ANTONIO BRASILEIRO - ESTUDO 165

Ilustração: Antonio Brasileiro

ESTUDO 165

Compor um homem
com suas tramas, seus dramas,
teogonias, gramáticas, soluços;
compor um homem,
do orvalho matinal compor um homem,
do céu cheio de estrelas, do mistério
do homem
compor o homem;
compor um homem
da criança que há no homem, do homem
a adivinhar-se em antiquíssimas retinas;
compor um homem
com seus soluços, gramáticas, teogonias
- e recitá-lo perante os outros homens.

ANTONIO BRASILEIRO

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

NHÔ GUIMARÃES - A PEÇA

Meus caros, na semana passada assisti, no Teatro do Sesi Rio Vermelho, a peça Nhô Guimarães, com meu compadre Gabriel Gomes e sua namorada Lis. A peça é baseada no romance de um outro amigo, Aleilton Fonseca. Uma adaptação singela e singular. Fiquei muitíssimo impressionado com a performance magistral da atriz Deusi Magalhães, que traz para a cena uma mulher octogenária, uma velhinha, que mostra um pouco das suas vivências nas plagas ermas e agrestes do sertão. Tudo em dosagem certa. Nada de exageros nem de cenários entupidos de bugigangas. A casa da anciã é um retrato fiel da casa dos camponeses sertânicos. Aquela velha, na qual se transfigura a atriz Deusi, é um exemplo da fortaleza do sertão. Parabéns a Deusi e ao Edinilson pela adaptação certeira. Aos meus amigos, mais uma vez a minha recomendação. A peça é imperdível. Seus 75 minutos de duração passam em menos de meia hora. Uma beleza!

O universo do homem sertanejo é o tema de Nhô Guimarães, novo espetáculo do Núcleo Criaturas Cênicas.


Em 2008, ano em que se comemorou o centenário do escritor mineiro, João Guimarães Rosa, o Núcleo Criaturas Cênicas de Salvador/BA, realizou a adaptação do romance Nhô Guimarães (2006) para a linguagem teatral, do escritor baiano Aleilton Fonseca, escrito para homenagear os 50 anos do livro Grande Sertão: Veredas (1956) de João Guimarães Rosa. A adaptação para o teatro foi realizada por Deusi Magalhães e Edinilson Motta Pará, atriz e diretor desta montagem que teve sua pré-estréia no teatro do IRDEB em 27 de novembro de 2008.
O projeto Nhô Guimarães Pelo Sertão do Núcleo Criaturas Cênicas foi um dos vencedores do Programa BNB de Cultura/2009. Esta é a 6ª montagem deste grupo premiado em encenações como “Escoria” de Michel de Ghelderode e “A Pedra do Meio Dia ou Artur e Isadora” de Bráulio Tavares.
Cumprindo a agenda deste projeto a peça Nhô Guimarães teve sua estréia no sertão baiano percorrendo com suas apresentações, em maio de 2009, nas cidades de Senhor do Bonfim, Uauá, Canudos e participando da abertura do I Colóquio em Estudos Literários e Lingüísticos – UNEB - Campus XXII, em Euclides da Cunha. A peça segue agora para temporada de dois meses no Teatro do SESI – Rio Vermelho.
O espetáculo, em forma de monólogo, transpõe para o palco a vida, as idéias e a mítica do nosso sertão, privilegiando a linguagem falada rica em neologismos, recheadas de palavras incomuns próprias dessas regiões e tão presente nas obras do autor mineiro. Esse tratamento é mantido na encenação como forma de valorização da diversidade lingüística, existente na língua portuguesa, especialmente a encontrada no sertão brasileiro.
Essa visão é apresentada através dos causos contados por uma senhora octogenária a um visitante. Entre uma estória e outra, a velha cita a presença de um amigo do falecido marido, Nhô Guimarães, senhor de jeitos elegantes, que sempre os visitava, com "seu ouvido bom de ouvir causos e seus óculos pretos de aros redondos". Uma referência direta ao escritor mineiro João Guimarães Rosa. Enquanto relata suas lembranças, a velha desenvolve ações cotidianas, como coar um café, apertar um fumo de rolo, fazer um pirão, dar comida às galinhas etc., busca-se criar uma transposição de quem assiste para o ambiente do cotidiano interiorano.

Salvador
Local: Teatro SESI Rio Vermelho
Apresentações: de 08 de agosto a 27 de setembro/2009
Sábados e domingos, 20 horas.
Ingressos: R$14,00 inteira e R$ 7,00 meia entrada

Para mais informações:
Deusi Magalhães (071) 9137-4567 e 3011-1437 magadeusi@gmail.com
Edinilson Motta Pará (071) 8754-2769 nilsinho67@hotmail.com