quinta-feira, 2 de agosto de 2012
segunda-feira, 30 de julho de 2012
VERÔNICA DE VATE - JOSÉ GERALDO NERES
José
Geraldo Neres, morador de Santo André, nasceu em Garça, SP,
Brasil, em 1966. Poeta, roteirista, dramaturgo (com formação em oficinas e
cursos de criação textual) e produtor cultural. Publicou os livros de poesia Outros Silêncios, Prêmio ProAC da Secretaria
de Estado da Cultura de São Paulo 2008, realizado através do prêmio “Bolsa para
autores com obra em fase de conclusão” da Fundação Biblioteca Nacional em
2007/2008, (Escrituras Editora, 2009); Pássaros de papel (Dulcinéia Catadora,
edição artesanal, SP, 2007) e Olhos de Barro “Menção Especial” no 3º Prêmio
Governo de Minas Gerais de Literatura – ficção – 2010 (Editora Patuá, 2012). É
co-fundador do Palavreiros. Integrante do Grupo Gestor e Conselho Editorial do
Ponto de Cultura Laboratório de Poéticas, e da revista homônima, na cidade de
Diadema, região metropolitana de São Paulo. (projeto do Programa Cultura Viva,
do MinC – Ministério da Cultura). Ministra oficinas literárias, com ênfase em
criação literária e estímulo à leitura. Atual curador do projeto Quinta poética encontros multilinguagens
promovidos pela Escrituras Editora e Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos.
Publicações em suplementos, revistas literárias no Brasil e exterior, com traduções
para Castelhano e Francês. Em 2012, publicou no México (com apoio da
UNAM - Universidad Nacional Autónoma de México, Colegio de Ciencias y
Humanidades, e Ediciones Libera) a antologia En la otra orilla del silencio - Poesía Contemporánea Brasileña.
José Geraldo Neres e
Lívia Natália, poeta soteropolitana, participarão do projeto Palavra de Poeta,
na cidade de Planaltino, no Vale do Jiquiriçá. O evento acontecerá no dia 3 de
agosto, às 19 h 30 min, no Clube Social Planaltinense, com entrada gratuita. Os
dois poetas serão homenageados pelo Grupo Renascer, da cidade de Planaltino, e
pelo Grupo Concriz, da cidade de Maracás, que recitarão seus poemas. Após os
recitais, Neres e Lívia serão entrevistados pelo apresentador e curador do
projeto, o poeta José Inácio Vieira de Melo e responderão também as perguntas
do plateia.
No dia seguinte, 4
de agosto, os dois poetas participarão do projeto Uma Prosa Sobre Versos, na
cidade de Maracás, no Auditório Municipal de Maracás, onde serão homenageados,
mais uma vez, pelos grupos Concriz e Renascer. O projeto Uma Prosa Sobre
Versos, conta com coordenação de Edmar Vieira, diretor de cultura do município
de Maracás. O projeto Palavra de Poeta é coordenado por Edivaldo Costa, diretor
de cultura da cidade de Planaltino.
AS LÍNGUAS HABITAM O SAL
DA ÁRVORE PRIMEIRA
o ritmo do cálice de palavras
no cântico das águas
na barranca
pintura de medo
perfume de lua
nas tranças da árvore
um balanço na ciranda dos sonhos
n’aquarela
gritos a dilacerar girassóis
o sexo e as dores do arco-íris
lágrimas
a misturar outras faces
o mar a se curvar
um punhal onírico
a tatuar sete pedras
e uma canoa no tempo
o corpo suado
bebe a natureza
a moldurar um aquário
versos em cardumes a rasgar caminhos
delírio prateado
protesto calado de uma orquídea
o oitavo dia
a banhar-se no útero da mãe-terra
fantasmas a se entregarem à noite
peixe e fogo
flechas a umedecer
o ventre de dezembro
na órbita azul
tambores e labirintos
o silêncio a caçar na água
esfinge a semear relógios
o líquido do poema
a desenhar seu dorso
círculos a brincar de espelho
a roçar arco-íris
com dedos cristalinos
o sussurrar das lâminas
a modelar os olhos da estrela marinha
a contornar o aquário do sol
lábios místicos a navegar cavalgar alimentar
na porta retalhos de palavras carnívoras
a morder a música do seu ventre
o tempo de sombras
a revelar as portas da morte
a abraçar a melodia do corpo
a seiva a melodia
a seiva a estrela
sangue
JOSÉ GERALDO NERES
domingo, 29 de julho de 2012
VERÔNICA DE VATE - LÍVIA NATÁLIA
Lívia Natália é baiana de Salvador
(1979) e, como boa filha de Osun, se criou nas dunas no Abaeté e, alimentada
por Iemanjá, muito se banhou na poética praia de Itapuã. Talvez pó risto as
águas sejam seu grande tema em Água Negra, livro de estreia, ganhador do
Concurso Literário do Banco Capital(2011) – Categoria Poesia, e de
Correntezas, seu próximo livro de poemas. Consagrada a Osun e Odé no Terreiro
Ilê Asé Obanan, a vivência no Candomblé de fundamento Ketu é um dos temas mais
fortes de sua escrita, na qual comparecem também temáticas relativas à vivência
da mulher negra com seu corpo, cabelos e todos os signos etnicorraciais que atravessam,
buscando subverter conceitos e reinventar modos de ser.
Lívia Natália é Mestre (2005) e
Doutora (2008) em Teorias e Crítica da Literatura e da Cultura pela
Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atualmente é Professora Adjunta do setor
de Teoria da Literatura da UFBA, onde coordena os grupos de pesquisa Derivas da Subjetividade na Escrita
Contemporânea, no qual pesquisa literatura contemporânea escrita em Blogues, e Corpus Dissidente: Poéticas da
Subalternidade em escritas e estéticas da diferença, no qual se dedica a
estudar a Literatura Negra escrita por mulheres no Brasil e nos PALOP, com
recorte em gênero, raça e sexualidades.
Além de ensinar disciplinas
ligadas ao campo da Teoria da Literatura na UFBA, também coordena e ministra
Oficinas de Criação Literária nesta Universidade e em projetos, para crianças
em situação de risco. Atualmente, faz formação em Psicanálise Clínica. Mantém o blog: www.outrasaguas.blogspot.com
Lívia Natália e José Geraldo
Neres, poeta paulista, participarão do projeto Palavra de Poeta, na cidade de Planaltino, no
Vale do Jiquiriçá. O evento acontecerá no dia 3 de agosto, às 19 h 30 min, no
Clube Social Planaltinense, com entrada gratuita. Os dois poetas serão
homenageados pelo Grupo Renascer, da cidade de Planaltino, e pelo Grupo
Concriz, da cidade de Maracás, que recitarão seus poemas. Após os recitais,
Lívia e Neres serão entrevistados pelo apresentador e curador do projeto, o
poeta José Inácio Vieira de Melo e responderão também as perguntas do plateia.
No dia seguinte, 4 de agosto, os
dois poetas participarão do projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de
Maracás, no Auditório Municipal de Maracás, onde serão homenageados, mais uma
vez, pelos grupos Concriz e Renascer. O projeto Uma Prosa Sobre Versos, conta
com coordenação de Edmar Vieira, diretor de cultura do município de Maracás. O
projeto Palavra de Poeta é coordenado por Edivaldo Costa, diretor de cultura da
cidade de Planaltino.
ÁGUA NEGRA
Chove muito na cidade.
No asfalto betumoso um sangue
transparente,
ora de um rubro desencarnado,
ora encardido de um cinza
nebuloso,
é vomitado em cólicas
por toda a parte.
Das paredes duras vaza um mais
escuro que,
imagino,
seja a água mordendo as
estruturas.
A água é assim:
atiçada do céu,
infinita no mar,
nômade no chão pedregoso,
presa no fundo de um poço
imenso:
a água devora tudo
com seus dentes intangíveis.
VOTO
As senhas do
meu corpo
Falo nenhum
devassa.
Algo da
borboleta que trago
Voa
transmutada em asas.
Não há
alçapão confuso
ou isca de
odores mudos
que arrebate
esta minha alma
de ave-fêmea
delicada.
Sem
santidades
me anuncio
em boas-novas:
mordo com
dentes brutos
o fruto que
era meu,
bendito,
e esfarelo
seu sumo.
LÍVIA NATÁLIA
sexta-feira, 20 de julho de 2012
CABARÉ LITERÁRIO
Cabaré Literário
Bate-papos com escritores sobre a obra
de Jorge Amado e literatura contemporânea
de Jorge Amado e literatura contemporânea
Feira do Livro Ler Amado
– Centro de convenções – Ilhéus – BA
De 05 a 10 de agosto de
2012, às 20 horas – entrada gratuita
Coordenação e curadoria:
José Inácio Vieira de Melo
Programação
5 de agosto
Tema: Dioniso & Cia na moqueca de dendê: as
delicias de ler Jorge Amado
Jorge de Souza Araújo –
BA
Ronaldo Correia de Brito
– PE
Mediador: José Inácio
Vieira de Melo – BA
6 de agosto
Tema: Os coronéis na obra de Jorge Amado
e a Poesia
Reunida de Florisvaldo Mattos
Maria Luiza Heine – BA
Florisvaldo Mattos – BA
Mediadora: Adélia
Pinheiro – BA
7 de agosto
Tema: De leitor a turista na obra de Jorge Amado
e
os Mirantes de Roberval Pereyr
Tica Simões – BA
Roberval Pereyr – BA
Mediador: Maurício Corso – BA
8 de agosto
Temas: Jorge Amado: ficcionista, ogã e obá /
Maria do Monte, o romance inédito de Jorge Amado
Ruy Póvoas – BA
Carlos Emílio Corrêa
Lima – CE
Mediador: André Rosa – BA
9 de agosto
Temas: Imagens de mulheres, Corpos sutis e O amor da Rússia por Jorge Amado
Elena Beliakova - RÚSSIA
Aleilton Fonseca – BA
Aleilton Fonseca – BA
Rosana Patrício Ribeiro
– BA
Mediador: Cleberton
Santos – SE
10 de agosto
Tema: A cor da palavra no Cancioneiro do cacau:
música e poesia em Jorge Amado
Cyro de Mattos – BA
Salgado Maranhão – MA
Mediador: José Inácio
Vieira de Melo – AL
terça-feira, 10 de julho de 2012
DIVERSOS AFINS FAZ PEQUENA SABATINA AO ARTISTA JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
Por Fabrício Brandão
Foto: Ricardo Prado
Navegar é preciso, viver não é
preciso, apregoavam sabiamente os versos de Fernando Pessoa. E
pedindo a devida licença ao poeta lusitano, eis que nos é possível manipular a
frase para indicar algo que parece ser imperativo em nossa contemporânea idade:
realizar é preciso. No entanto, é mister de qualquer autor que se preze a
perspectiva da ação acompanhada por critérios que signifiquem um compromisso
consistente com a qualidade. Indo mais além, é possível um subverter do
arremate “viver não é preciso”, transformando-o numa apreensão ampla do existir,
fazendo com que cada palavra expelida em texto seja a necessária afirmação do
sopro vital. Qual motivo perene de se estar no mundo, o exercício da criação
mostra-se assim, envolto na percepção de que o todo circundante, com toda a sua
sorte de abstrações possíveis, é instrumento inalienável nas mãos de um
escritor.
Fazendo uso apurado de recursos que derivam de um olhar
sensível da existência, o poeta José Inácio Vieira de Melo reúne muitos dos atributos relatados até aqui. Alagoano de nascimento, o autor
elegeu a Bahia como morada e muito de sua obra está impregnado daquilo que
podemos chamar de memória dos lugares. Em sua expressão poética, José Inácio
deixa coabitarem pacificamente paisagens físicas e humanas, fazendo com que a
reafirmação da vida pontue de modo bastante especial a trajetória de seus
versos. Vestido com a armadura de suas letras, eis que o poeta busca, na
simplicidade bucólica de suas imagens, um caminho sublime para a criação. O
autor de livros como Decifração
de Abismos, A Terceira Romaria, A
Infância do Centauro e Roseiral agora está prestes a nos abrir as cancelas
poéticas de Pedra
Só, seu mais recente fruto literário, e que será lançado em
setembro próximo pela Escrituras Editora. E foi para falar um pouco sobre sua
nova criação e outros tantos assuntos intimamente ligados ao ofício das
palavras que o poeta gentilmente acolheu a Diversos Afins para uma valiosa
conversa. Adentrando a soleira dos seus domínios feitos de versos, o cavaleiro
de fogo José Inácio Vieira de Melo, como também é conhecido, desfila suas
ideias tendo nos olhos o brilho necessário do encantamento pela vida.
Foto: Ricardo Prado
![]() |
| JIVM: "A minha poesia é feita fundamentalmente a partir do que vivi e do que vivo." |
FABRÍCIO BRANDÃO – O traço essencial de sua
poesia é marcado por um universo feito de imagens, atravessando paisagens
humanas e estabelecendo uma íntima relação com um sertão de memórias. O que
dizer dessa gênese de palavras?
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – O que dizer? As palavras me escolheram
ou eu as escolhi? A paisagem poética da minha poesia tanto é uma paisagem que
observo como também é a paisagem na qual estou inserido. O meu Sertão é o Tao
do Ser de um ser tão perplexo e deslumbrado com a existência. Sinto que a minha
criação está intrinsecamente ligada às minhas origens geográficas e humanas,
embora saiba que esses fatores não são determinantes. A minha poesia é feita
fundamentalmente a partir do que vivi e do que vivo. Vivencio a poesia de cada
momento. Como diz a minha poeta de cabeceira, Cecília Meireles: “Eu canto
porque o instante existe”.
FB
– A porção existencialista de seus versos ganha uma dimensão toda especial num
livro como Roseiral,
obra que exala o vigor de mistérios humanos. Em que medida as palavras
denunciam o espanto de se estar vivo?
JIVM
– As palavras,
dentro da poesia que faço, não buscam outra coisa que não seja dar expressão ao
meu sentimento. E o meu sentimento de perplexidade é enorme, é absurdo e não
suporta amarras. No livro Roseiral fui tomado por uma revolta que
desconhecia. Agi com uma carnalidade instintiva, portanto os impulsos da minha
escrita sobrepuseram, muitas vezes, qualquer tentativa de contenção de
linguagem e ou de um formalismo comportado. Então, as palavras buscam
denunciar, em sua potencialidade, todo espanto do meu ser diante da imensidão
do Cosmo. É como está lá no Roseiral,
no poema “Rosa viva”: “Minhas palavras ardem a forjar/ estas flores que canto
por prazer/ e que dão febre e fazem delirar”.
FB – A capacidade de transcendência é o grande
trunfo de um poeta?
JIVM – Há muitos poetas que nem sequer acreditam em
transcendência, como é o caso do meu amigo Luis Antonio Cajazeira Ramos. Para o
grande poeta, autor do magnífico livro Mais
que sempre, essa conversa de transcendência é papo furado. Agora, é
impossível de se imaginar o poeta Jorge de Lima sem os delírios de fé, sem o
fervor da transcendência poética e sem as epifanias. Pois bem, sou da estirpe
de Jorge de Lima. A transcendência é a minha glória. Por conta do sentimento do
sagrado e do sublime é que me afino tanto com poetas como Gerardo Mello Mourão,
Santo Souza e Francisco Carvalho, assim como com outros bem mais jovens, como a
Mariana Ianelli e o Alexandre Bonafim.
FB – Mesmo aguçadas doses de lucidez e
racionalidade poderiam não ser suficientes para afastar os efeitos, se é que
seja possível considerar assim, místicos das palavras. Você crê numa
perspectiva de transformação humana através da literatura?
JIVM – A palavra tem efeito místico para quem é
místico, para quem tem espiritualidade. Como Novalis, acredito que “a poesia é
a religião original da humanidade”. Todos nós estamos em constante processo de
transformação, portanto tudo contribui para a nova conformação do ser em
processo. A literatura amplia os horizontes, traz novas possibilidades, é uma
fonte de conhecimento. E o conhecimento é caminho de transformação.
FB
– Que aspectos você considera como sendo os mais importantes na construção de
um debate sobre a poesia contemporânea?
JIVM – A poesia contemporânea é a que está sendo
feita a todo instante, portanto é algo que está em constante processo de
transformação e não adquire uma conformação com limites bem delineados, visto
que a cada dia surgem novos poetas. Se a intenção do debate é fazer uma análise
crítica atribuindo valoração, há de se fazer um recorte, pegando a produção de
um determinado período, na qual já seja possível identificar alguns aspectos
estéticos consolidados. A partir da constatação, levantar questões, fazer
comparações e aproximações com o que veio antes, com o que já está estabelecido,
ou seja, com os cânones. Confesso que estou muito mais propenso a criar
circunstâncias para a divulgação da produção dos poetas que estão surgindo,
através da publicação de livros e da participação dos poetas em projetos que
promovam a leitura dessa produção. O tempo é o grande definidor daquilo que
terá uma permanência maior.
Foto: Ricardo Prado
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| JIVM: "Quem faz poesia pensando em ter um grande reconhecimento está fadado a sofrer decepções por toda a vida" |
FB
– Atualmente, a múltipla apropriação do verso livre parece causar uma falsa
sensação de que fazer poesia é algo fácil. Nesse sentido, a criação poética não
anda um tanto banalizada?
JIVM – Não me alio aos puristas. Quanto mais pessoas
existirem praticando seus versos, melhor. Não estou defendendo quantidade,
prezo pela qualidade. Mas fico muito contente quando vejo alguém alçar voo no
seu delírio e escrever um poema, por mais ingênuo que seja. Na verdade, o que
me desagrada mesmo são os pretensiosos – aqueles que se arvoram de grandes
poetas e que passam a ditar seus conceitos minúsculos e a determinar o que é
bom e o que é ruim, a partir de seu gosto pessoal.
O verso livre é o mais acessível, pois qualquer um pode
escrever uma estrofe composta de linhas irregulares e dizer que é um poema. Que
maravilha! Sabemos, porém, que fazer poesia com versos livres é bastante
complicado, pois requer muita habilidade por parte do poeta, visto que cada
verso tem sua medida e que, ainda assim, é preciso construir um ritmo que reja
a peça como um todo. De vez em quando, leio alguns poetas que se vangloriam de
só fazer e apreciar poesia medida e rimada. E ainda têm a petulância de afirmar
que se não tiver esses atributos técnicos, não é poesia. Uma afirmação dessa
natureza, para mim demonstra uma grande limitação.
Que bom que as pessoas estejam cada vez mais escrevendo
versos, publicando-os em seus blogs ou em coletâneas. Agora, se o sujeito, realmente,
está interessado em seguir pelo pedregoso caminho da arte, e, como diria Jorge
de Lima, for um assinalado, ou ainda no dizer de Ruy Espinheira Filho, for um
fatalizado, perceberá que a coisa não é fácil não! E investirá a maior parte de
sua vida em leituras e no exercício constante da escrita. Ou então, os que
buscam facilidades, logo desistirão ou continuarão, por algum tempo, escrevendo
algo que não repercutirá.
Quem leva a poesia a sério, está sempre a ler poesia, está
sempre a buscar seu caminho, na tentativa de encontrar e de aperfeiçoar sua
dicção poética, seu ritmo, seu verso. Sabe que é um compromisso para toda a
existência. E também tem consciência de que pouco, ou nada, terá de recompensa.
Quem faz poesia pensando em ter um grande reconhecimento está fadado a sofrer
decepções por toda a vida.
FB – Talvez seja muito cedo ainda para se
falar na consolidação de uma nova geração de poetas, mas, na sua opinião, o que
será fundamentalmente necessário para que isso ocorra?
JIVM – Realmente, é muito cedo. O que será
fundamentalmente necessário? Que os poetas continuem fazendo poemas, publicando
seus livros e que o tempo passe… Com o passar da peneira do tempo,
inevitavelmente, essa nova geração que você menciona se configurará.
FB – Você tem um engajamento muito intenso no
que se refere à articulação de eventos, nos quais estão envolvidos, sobretudo,
novos autores. Como é que se dá essa aproximação com tais escritores e quais
são as características que, a seu ver, pontuam com mais ênfase as letras destes
criadores?
JIVM – É que vejo muita gente reclamando,
lamuriando-se, choramingando. No entanto, são poucas as pessoas que têm a
coragem de fazer alguma coisa. E aqueles tantos que choramingam e reclamam são
os primeiros a encontrar defeito nas atividades que são realizadas. Eu sempre
me coloquei no lugar de fazer as coisas. De buscar alternativas. Os projetos
que realizo não contemplam, sobretudo, jovens. Dão oportunidades a poetas de
todas as faixas e vertentes. Desde 2001 que venho coordenando eventos e, na
medida do possível, tento contemplar a diversidade da poesia baiana. É claro
que sempre há os insatisfeitos, que são aqueles que acham que deveriam ser
sempre convocados, por se atribuir um valor que efetivamente não têm. Outros
nunca serão sequer mencionados, porque não vou me envolver com delinquentes nem
muito menos com canalhas, elementos que com certeza vivem apenas em função da
destruição. Esses, para mim, não existem. E pronto! E ponto! Que façam seus
eventos, que arrebanhem multidões para a sua pretensa alta poesia. Eu não dou a
mínima. Há meia dúzia de desesperados que vivem tentando achincalhar as coisas
que faço. Berram, ciscam, bufam, gemem, ganem e eu continuo na minha caminhada.
O engraçado é que toda vez que esses pobres diabos tentam me prejudicar,
imediatamente acontece algo muito bom para mim. É sintomático. De modo que me
dão sorte. São um amuleto.
Mas voltando a responder a sua pergunta, os projetos que
coordeno, na sua maioria são voltados para a poesia brasileira contemporânea,
com destaque para a poesia baiana. E repito, não são voltados principalmente
para novos autores, mas para os poetas em geral. Já coordenei projetos em
Salvador, Maracás, Planaltino e Jequié. Levei poetas baianos da geração
sessenta, como Florisvaldo Mattos, Myriam Fraga, Antonio Brasileiro, Maria da
Conceição Paranhos, Ildásio Tavares, Ruy Espinheira Filho, e da geração
oitenta, como Roberval Pereyr, Luis Antonio Cajazeira Ramos, Aleilton Fonseca,
Douglas de Almeida e Walter Cesar. E vários poetas de outros estados, apenas
para citar alguns: Mariana Ianelli (SP), Salgado Maranhão (MA), Marize Castro
(RN), Alexandre Bonafim (MG), Astrid Cabral (AM), Antonio-Mariano Lima (PB),
Neide Archanjo (SP), Raimundo Gadelha (PB), Helena Ortiz (RS), Wilmar Silva
(MG), Igor Fagundes (RJ), etc… Como vê, são muitos e, dos que citei, apenas
três podem ser considerados jovens poetas, a Mariana Ianelli, o Igor Fagundes e
o Alexandre Bonafim, mas cada qual tem ao menos quatro livros publicados. Citei
esses nomes apenas para comprovar que também destaquei os poetas já
reconhecidos e com uma obra já sedimentada. Com isso não quero passar a imagem
de que não valorizo a produção dos jovens. Sempre busquei dar o mesmo espaço
para todos. Claro que alguns se destacam mais. Isso vai da força da poesia de
cada um e da sua desenvoltura com o público. Mas se abri espaço para autores
que já têm um certo reconhecimento e que já obtiveram importantes premiações,
tentei e tento mostrar ainda mais os poetas mais jovens. A diferença é que em
relação aos mais jovens, além de projetos, organizei coletâneas envolvendo-os.
Em 2004 organizei uma coletânea com 15 poetas da minha geração, que hoje já não
são mais tão jovens, refiro-me ao
Concerto lírico a quinze vozes. E hoje, parece-me que a maioria já
está bem situada na literatura baiana, alguns até com certa repercussão em
nível nacional. Creio que, de modo geral, acertei nas minhas escolhas. Mais
recentemente, em 2011, organizei a coletânea Sangue
Novo, que reúne 21 jovens poetas – esses sim, bem jovens – todos
nascidos a partir de 1980. Nesses trabalhos busquei apenas promover o encontro
de vozes que andavam muito dispersas, na tentativa de promover um diálogo da
poesia que anda sendo feita na Bahia. Repare, não me refiro a um diálogo sobre
a poesia, mas da poesia propriamente dita. Alguns poetas, já conhecia
pessoalmente, outros mandaram seus primeiros livros para mim. Boa parte,
encontrei em blogs e nas redes sociais. A meu ver, o que mais aproxima esses
jovens poetas, em geral, é um acentuado lirismo e o diálogo com outras linguagens
artísticas, sobretudo com a música pop e com o cinema. Na maioria, são
estudantes ou professores de Letras ou de outros cursos das ciências humanas.
Poucos cultivam o verso medido, embora alguns tenham pleno domínio das técnicas
de metrificação. Enfim, são poetas de uma época de fragmentação de identidade,
em que se fala de uma aldeia global, onde os encontros são virtuais e os
grandes acontecimentos mundiais são assistidos em tempo real. Sem dúvida, esses
adventos tecnológicos interferem na criação de qualquer artista, não apenas
desses novos autores.
FB – O que definitivamente você não endossa na
dita pós-modernidade?
JIVM – Não endosso essa nomenclatura
“pós-modernidade”. Agrada-me o termo “contemporaneidade”. Mas, no fim das
contas, não muda nada. No mais, quem sou para endossar ou não alguma coisa
nesses tempos pós-modernos? Vivo muito à margem de tudo, embora esteja quase
sempre conectado. As minhas atividades, boa parte delas, acontecem em casa
mesmo, digitando nas teclas de um PC ou de um notebook. Quando não estou em
casa, vou para a minha roça, a Pedra Só, um lugar onde não tem sequer energia
elétrica nem água encanada, onde fico completamente isolado de toda essa
parafernália tecnológica. E como é bom, depois de um dia no campo, lidando com
gado, andando a cavalo, poder chegar em casa, deitar numa rede e ler um bom
livro, tendo a certeza de que nenhum telefone vai tocar nem ninguém vai
aparecer para atrapalhar. Nada de televisão, nada de rádio, apenas o canto dos
pássaros. Sem contar que a brisa do Sertão traz um sentimento tão profundo e
mágico que a gente fica sem saber o que diabo é pós-modernidade. E quando chega
a noite, ah meu irmão, aparece uma roça de estrelas no céu que não há conceito
que possa abranger a sua imensidão… E se é noite de lua cheia, a epifania é
certa. Pois bem, a pós-modernidade tende a desmistificar todo esse meu discurso
arcaico por um processo de desconstrução e bla bla blá. A única coisa que
pretendo sempre endossar é o rumo dos meus passos e os matizes de minha poesia.
O que sei eu da pós-modernidade?
FB
– Pedra
Só, seu mais recente livro, está prestes a ser lançado. Quais
percursos demarcam de modo especial esse seu novo rebento literário?
JIVM – O Pedra
Só é o meu livro
mais autobiográfico. Revestido de tons épicos, flertando com a linguagem
bíblica, traz um longo poema dividido em 27 partes, que está no capítulo de
abertura e que nomeia o livro. Como já ficou claro na resposta anterior, Pedra
Só é o nome de uma fazenda, onde tenho o privilégio de passar uma parte de meu
tempo. É a partir desse lugar, a Fazenda Pedra Só, no Sertão da Bahia, que
invento um entrelugar, de mesmo nome, para dar evasão aos meus delírios
poéticos. Então, frequento os lugares mais recônditos e inóspitos da minha
memória, buscando o barro fundamental – a poesia primeva – para fazer a ligação
do meu ser com a arte e criar meus poemas. Quem leu meus livros sabe que a
temática campesina sempre esteve presente na minha produção. A crítica também
tem dado muita ênfase neste aspecto. No livro anterior, Roseiral, é que dei
uma acentuada no erotismo e nos matizes surreais. Pois bem, agora faço um
movimento de retorno às origens sertânicas com uma intensidade que até então
não havia experimentado, é assim no “Pedra Só” e também no segundo capítulo,
intitulado “Aboio Livre”. O terceiro capítulo é o “Toada do Tempo”, em que uso
com mais frequência o verso medido e que situa o poeta dentro do tempo, medindo
sua finitude e, paradoxalmente, percebendo-se atemporal. A quarta seção,
chamada “Partituras”, é onde aparecem as cantigas e os cânticos de louvor. E,
por derradeiro, o capítulo “Parábolas”, em que acentuo o surrealismo, tentando
criar uma esfera fantástica, impregnada de misticismo, que encerra o livro.
Esses são, em linhas gerais, os caminhos da Pedra
Só.
FB – Para além do poeta, o que busca o homem
José Inácio Vieira de Melo em sua teima com as palavras?
JIVM – Não há, em mim, uma separação entre o homem e
o poeta. Não estou poeta. Eu sou poeta 25 horas por dia. O bom da jornada é
caminhar… Não sei se para o bem ou se para o mal, não sou um ser pragmático. E
sinto que as finalidades limitam muito as experiências. A minha teima com as
palavras é, em todas instâncias, por necessidade de expressão. Se não estiver
em contato com os signos, reordenando-os para encontrar novos significados,
para despertar emoções, a existência fica sem sentido. Então o que busco são os
caminhos… E eles sempre surgem. E a minha teima é caminhar – um passo depois do
outro, sempre, sempre –, contemplando a paisagem, inventando paisagens, sendo a
paisagem.
Entrevista publicada na
revista virtual Diversos Afins (www.diversosafins.com.br), 68ª Leva,
em junho de 2012
sábado, 7 de julho de 2012
IMPRESSIONE D'ITALIA - CANTIGA PER LEONARDO
Poema do meu livro Pedra Só, publicado na antologia Impressioni
d’Italia. Piccola antologia di poesia in portoghese con traduzione a fronte
(Napoli: U.N.O. 2011, ISBN 978-88-6719-002-7), que acaba de ser lançada em
Napoli, na Itália. A antologia é bilíngue (português/italiano) e publicou
poetas contemporâneos de língua portuguesa.
CANTIGA PER LEONARDO
Leonardo,
il sorriso della tua musa mi indaga
come una daga que colpisce la cicatrice.
Ho cercato di decifrare quella donna
nelle figlie delle figlie delle tue figlie,
italie che diventarono brasili
e dettero un volto al nuovo mondo.
E in loro tutte,
da ogni angolo,
in ogni abbozzo di sorriso,
nellesplosione della risata
o nei gemiti del piacere,
era onnipresente
l’enigma di Monna Lisa.
E con i loro stendardi ho cucito
la coperta che mi avvolge,
che mi commuove e mi strappa
e sfilano tutte
sulla passerella di questa poesia
inaugurando le forme del bello:
Soglia, Bompard, Buffone,
Mariniello, Degino, Michelli,
Morbeck, Ranieri, Pizanni,
ecco gli stemmi indicati
dal mio pugnale di Alagoas.
Leonardo, uomo vitruviano,
son rinato sugli accordi della tua lira d’argento,
mi nutrii alle mammelle della lupa
per poter respirare la Via Lattea:
Romolo e Remo sono figli miei
che galoppano insieme a me e aspettano
altre grazie, altri nomi
che suonano sempre il primordiale
Romolo e Remo – miei ancestrali.
Leonardo, genio della razza,
in quale costellazione sei?
Dove brilla la tua lampada meravigliosa?
Mostra le cinque punte della tua stella!
Inventa subito, col tuo ingegno,
un pavão mysteriozo,
una macchina che mi porti via
verso il regno degli incanti:
una Sicilia dove la regina
sia Cecília Meireles,
discendente di Monna Lisa,
che cammina sulle acque
dello Stretto di Messina
offrendo la grazia maggiore
della poesia.
L’altro nome di Mosè
è Michelangelo,
ma fu il tuo pennello, Leonardo,
che aprì il Mare Mediterraneo
e con esso scrivesti
le forme di una dea
che nel suo viso
porta tutti i nomi.
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
Traduzione: Maria da
Graça Gomes de Pina
Ilustração: Anderson
Thives
CANTIGA PARA LEONARDO
Leonardo,
o sorriso da tua musa me indaga
como uma adaga que fere a cicatriz.
Busquei decifrar essa mulher
nas filhas das filhas das tuas filhas,
itálias que se fizeram brasis
e deram face ao novo mundo.
E em todas elas,
de todos os ângulos,
em cada esboço de sorriso,
no estardalhaço da gargalhada
ou nos gemidos do gozo,
estava onipresente
o enigma da Mona Lisa.
E com seus estandartes costurei
a colcha que me envolve,
que me comove e me retalha
e desfilam todas
na passarela deste poema
a inaugurar as formas do belo:
Soglia, Bompard, Buffone,
Mariniello, Degino, Michelli,
Morbeck, Ranieri, Pizanni,
eis os brasões assinalados
por meu punhal alagoano.
Leonardo, homem vitruviano,
renasci nos acordes da tua lira de prata,
mamei nas tetas da loba
para poder respirar a Via Láctea:
Rômulo e Remo são meus filhos
que galopam comigo e atendem
por outras graças, por outros nomes
que soam sempre o primordial
Rômulo e Remo – meus ancestrais.
Leonardo, gênio da raça,
em que constelação estás?
Onde brilha a tua lâmpada maravilhosa?
Mostra as cinco pontas da tua estrela!
Inventa logo, com teu engenho,
um pavão
mysteriozo,
uma máquina que me leve daqui
para o reino dos encantos:
uma Sicília onde a rainha
seja Cecília Meireles,
tataraneta da Mona Lisa,
que anda sobre as águas
do Estreito de Messina
oferecendo a graça maior
da poesia.
O outro nome de Moisés
é Michelangelo,
mas foi o teu pincel, Leonardo,
que abriu o Mar Mediterrâneo
e com ele escreveste
as formas de uma deusa
que em sua face
traz todos os nomes.
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
sexta-feira, 6 de julho de 2012
quinta-feira, 5 de julho de 2012
quarta-feira, 4 de julho de 2012
VERÔNICA DE VATE - JÚLIO LUCAS
Júlio Lucas é baiano, filho de pernambucanos, Júlio Lucas,
nascido em Paulo Afonso, também costuma se definir soteropolitano por conta do
destino, jequieense pela hospitalidade e cosmopolita por ideologia. Tem dois
filhos, Caíque e Caio. Escreve desde menino: das letras de rock dos anos 80
para as bandas Sinal Vermelho, Regicídio e Olhos
de Poeta (Salvador) às composições do Bando
Batida Seca (Paulo Afonso), na década de 90. Mais
recentemente participou de parcerias com o cantor e violonista Manno di
sousa (radicado em Vitória da Conquista).
Idealista e idealizador de fanzines xerocados em Salvador
a jornais no sudoeste baiano, ao mudar-se para Jequié, assumiu a direção do Jornal
Actual (2000), a convite do jornalista Wilson Novaes Jr. Em seguida criou
o Correio do Interior, primeiro da região em tamanho
standard, capa colorida, caderno de cultura e versão online. Também colaborou
com os impressos Café com Leite, Novos
Tempos e Revista Cidades em Foco. Teve haicais
quadrinizados pelo cartunista Edu Santana na revista Come-Comix.
Atualmente possui o blog cultural Miscelânea, por Júlio Lucas e é
coordenador editorial da revista Muito Mais.
Na TV, foi roteirista e produtor do programa Muito
Prazer, Álvaro Guimarães (CNT-Aratu).
Desde então dirigiu clipes, documentários e vários vídeos institucionais para
prefeituras. Na agência Rush Produções e Publicidades, com Rogério Xavier e
Sérgio Guerra, criou diversas campanhas para rádio, TV, impressos e
principalmente para veiculação em outdoor, em Paulo Afonso. Na publicidade, trabalhou
ainda na agência Moura Marketing e Propaganda.
Radicado em Jequié há mais de uma década, onde é servidor
público, exerceu o cargo de diretor de Comunicação Social do Município
(2009/2010). Multimídia autodidata, apresenta nas noites de sábado o Tribos
do Rock, na 105 FM. Elaborou capas para coletâneas da Academia de Letras de
Jequié, a saber, III e IV Concursos
Literários da ALJ: Prêmio Eusínio Soares de Literatura Brasileira (da qual
faz parte como poeta convidado) e Prêmio
Waly Salomão. Também foi capista de Jequié
- Síntese Histórica e Informativa (2011), de autoria do lexicógrafo Dermival Rios. Obra em que assina as
orelhas. Ainda em Jequié coordenou e
apresentou o projeto Feira da Poesia para
a Secretaria de Educação e Cultura e foi jurado do I Concurso de Poesia da Casa da Cultura
Pacífico Ribeiro - Prêmio
Ruy Espinheira Filho.
Além da Poesia, trabalho artístico ao qual mais se
dedica, possui contos, romances e uma peça teatral a serem publicados.
Atendendo ao convite de José Inácio Vieira de Melo, curador e coordenador da Praça de Cordel e Poesia, participou das
duas últimas bienais do Livro da Bahia (2009/2011). Não obstante, nesta última
edição, lançou Novamente Poesia, seu
esperado livro de estreia. É membro da Academia de Letras de Jequié.
Júlio Lucas e Iolanda Costa participarão do projeto Palavra de Poeta, na
cidade de Planaltino, no Vale do Jiquiriçá. O evento acontecerá no dia 6 de
julho, às 19 h 30 min, no Clube Social Planaltinense, com entrada gratuita. Os
dois poetas serão homenageados pelo Grupo Renascer, da cidade de Planaltino, e
pelo Grupo Concriz, da cidade de Maracás, que recitarão seus poemas. Após os
recitais, Júlio e Iolanda serão entrevistados pelo apresentador e curador do
projeto, o poeta José Inácio Vieira de Melo e responderão também as perguntas
do plateia.
No dia seguinte, 7 de julho, os dois poetas participarão do projeto Uma
Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, no Auditório Municipal de Maracás,
onde serão homenageados, mais uma vez, pelos grupos Concriz e Renascer. O
projeto Uma Prosa Sobre Versos, conta com coordenação de Edmar Vieira, diretor
de cultura do município de Maracás. O projeto Palavra de Poeta é coordenado por
Edivaldo Costa, diretor de cultura da cidade de Planaltino.
MUITO PRAZER
Este herói de
faroeste caboclo
A galope
menino
Em
cavalo-de-pau
Pelos Galpões
do Balneário
(Minha ilha
original)
Com uma
pistola na cintura
Que pesa mais
que
Esta caneta
em coldre do Novo Cangaço Cult
Sou eu
Também
estanque no instante inter(minável)
Estou lá:
Sem voz, sem
grito
Sem braços e
ouvidos
Sem portos
vivos
Estatelado
Com este
gosto azedo
Do estalar de
galho seco
Deste
umbu(zeiro)
Entre os
dedos
Sou aquele
Paraíso
militado
Paraíso
limitado
Comportas e
janelas abertas
Pro rio
revolto do meu quintal
Por todo lado
muros de pedras
Na porta,
Guarita Principal
Entrada e
saída
Chegada e
partida:
Da vida, pra
lida
Da lida pra
ida
Dali pro
aquém
Pra cá, antes
do além
E lá fui eu
Pela estrada
afora
Pelo mundo a
dentro
Pela vida a
forra
Na tabuada
No tablado
No tabloide
Na vida e no
vídeo
No proscênio
pro lado errado
No batente
No olho por
olho
No dente por
dente
Neste ensaio
diário
De tanta
gente que eu seria
Se não fosse
eu
Sou aquele,
sou Waly
aqui, Gullar
Pairo com as
páginas desbotadas ao vento
Navego com as
garrafas decoradas
Náufragas aos
teus olhos sorridentes
De mar e sol
Respiro, logo
insisto
Ainda que
Arlequim sem guizo
Não me
reconheça nesta opacidade
Do outro de
mim
Mantenho-me
eu mesmo
Mesmo que sem
musa
Seja esboço
do que já fui noutra estação
Que peregrino
sem fim
Padeça em
gozo a esmo
Neste paraíso
sem pouso
De ninfas e
lobas amigas e amantes
Que eu já não
seja o que fui
Que esqueça o
que serei
Que lembre
ser o que não sei
Ainda que
acorde morto-vivo
Com a pele em
carne viva
Nas mãos
enrugadas dos amanheceres
Dos vendavais
de segredos
Dos maremotos
de sorrisos e lágrimas
Do ranger de
dentes contrafeito
Segregado em
versos
Renasço todo
dia ao sussurrar
Dos anjos das
tragédias
Anunciadas
E
inocente-bandido
Com a porta
de casa entreaberta
Ofegante em
pedaços
Pulo a janela
de sempre
E fogueiras
de estilhaços
Pra conhecer
novos estranhos no ninho
Da estrada da
minha cara
Muito prazer:
Sou todos
estes faróis e banidos que vos falam.
JÚLIO LUCAS
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