terça-feira, 3 de julho de 2012

VERÔNICA DE VATE - IOLANDA COSTA


Iolanda Costa (1967) nasceu em Itabuna-Ba, é professora licenciada em Filosofia pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) , arte-educadora e especialista em História Regional. Iniciou a divulgação de seus poemas no “Diário de Itabuna” e “Tribuna do Cacau”, no início da  década de 80. Participou da antologia “Poetas Novos da Região Cacaueira” (PACCE), em 1987. É autora de “Cinema: Sedução, Lazer e Entretenimento no Cotidiano Itabunense”, ainda no prelo. Em 2004, lançou seu primeiro livro de poesia, “Poemas Sem Nenhum Cuidado” (FICC) e, em 2009, de maneira independente, “Amarelo Por Dentro”. Ainda em 2009, participa das coletâneas “Poetas Brasileiros Contemporâneos” (CBJE), “Poesia de Corpo e Alma” (CBJE) e “O Que é Que a Bahia Tem” (Litteris). Como poetisa,  é convidada, em 2010, para a Praça de Cordel e Poesia na 10ª Bienal do Livro da Bahia. Em 2011, integra a antologia “ENEBI (Encontro de Escritores Baianos Independentes) de Poesia & Prosa”. Atualmente prepara seu próximo livro, provisoriamente intitulado “Poemas de Filosofia Líquida”.

Iolanda Costa e Júlio Lucas participarão do projeto Palavra de Poeta, na cidade de Planaltino, no Vale do Jiquiriçá. O evento acontecerá no dia 6 de julho, às 19 h 30 min, no Clube Social Planaltinense, com entrada gratuita. Os dois poetas serão homenageados pelo Grupo Renascer, da cidade de Planaltino, e pelo Grupo Concriz, da cidade de Maracás, que recitarão seus poemas. Após os recitais, Iolanda e Júlio baterão um papo com José Inácio Vieira de Melo e responderão as perguntas do público presente.

No dia seguinte, 7 de julho, os dois poetas participarão do projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, no Auditório Municipal de Maracás, onde serão homenageados, mais uma vez, pelos grupos Concriz e Renascer. O projeto Uma Prosa Sobre Versos, conta com coordenação de Edmar Vieira, diretor de cultura do município de Maracás. O projeto Palavra de Poeta é coordenado por Edivaldo Costa, diretor de cultura da cidade de Planaltino. Os dois gestores culturais estão de parabéns por desenvolverem trabalhos como estes, de grande relevância para suas comunidades.


PRESENÇA


Não desperdices tantas
                                   frases.
Oculta o feno, inverna
                                   as magnólias
restringe a sala
                  a visitantes ilustres.
Sê apenas o amado da minha canção
e eu estarei atenta;
miragem de luz inefável
e eu estarei contigo.
Sem cochilos.
Sem o desdobrar dos sinos.
Sombra no olho do peixe.
          

AMARELO POR DENTRO

A tua letra é amarela
como a nêspera, a gema
o fruto em véspera e ocre
saltando da árvore, da página
da costura no dobrado do paletó.
Devolveu-me a vida enquanto escrevias
e sublinhavas o termo, a epígrafe
a semântica clara de cuidados.
Trouxeste o castiçal, o sol
                                        a lâmpada
a última literatura.
O teu amarelo a escorrer-me, por dentro.

IOLANDA COSTA

domingo, 1 de julho de 2012

JIVM - ESCRITURAS

Ilustração: Gilvan Samico

ESCRITURAS


Eu chego no silêncio que acende
as quatro ferraduras do tempo
e encontro a inesgotável jazida,
catedral do rubi que me habita.

Na madrugada, sonho com os rumos,
gesto que inventa o cristal das palavras,
surpreendendo as pedras com a chuva
a derramar a escritura sagrada.

Agora, apenas ando com os pássaros
a escutar as belezas desta terra
e sustento as parábolas salvíficas
com esta medula que me carrega.

Escuta, dos confins do longo dia,
a noite a chegar – cortina de versos
que revelam as estrelas de abril
aos meus olhos pasmos de tanto ver.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Poema do livro inédito Pedra Só que será publicado
pela Escrituras Editora, em setembro deste ano

segunda-feira, 25 de junho de 2012

JIVM - CANTIGA PARA MARIANA

Ilustração: Angela Felipe


CANTIGA PARA MARIANA


Sou teu irmão.
Da nossa raiz
nasceram todos os poetas.

Sou o que passa as noites
contemplando a beleza do Universo
no firmamento da menina dos teus olhos.

Sou teu irmão.
O que semeou em teu ventre
as sementes que esperaram milênios
para serem salmos.

O pastor em vigília,
que apascenta tua verônica
e suspira estrelas.

Sou teu irmão.
Sigo apenas os preceitos sagrados:
é em nós que o amor cresce
e se multiplica.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Poema do livro inédito Pedra Só que será publicado
pela Escrituras Editora, em setembro deste ano

quarta-feira, 20 de junho de 2012

CANTINHO DO CONTO - QUANDO EU ESTAVA A CAVALO SOBRE MIM MESMO

Por Bruno Gaudêncio


QUANDO EU ESTAVA A CAVALO SOBRE MIM MESMO
        Para Nelson de Oliveira

“(...) som de tudo que é um som de silêncio,
mais que ruído ou voz, que se distinga a solidão.”
Ricardo Guilherme Dicke

Quando eu estava a cavalo sobre mim mesmo, montado na sela das penumbras existenciais, procurei lançar no jogo dos espelhos luzes na escuridão de Etílio, visto que fui deveras invadido pelo terror da presença enigmática de sua finitude cruel. Trôpego, ganhei as pedras assustado com o sangue da vítima, molhando cada detalhe nos cheiros das alucinações. As escuridões das esquinas nas serras aos quatro pés ardiam no poço escuro das amarguras e lamentações. Fitei as linhas dos ouvidos, das bocas, escutando o manobrar dos trilhos da voz clamorosa, exigindo na bruma um ventre límpido, cuja faca formaria um arrepio em dentes de pavorosas sombras. Reconheci vibrante, apesar de cadáver, o ser que estava trajado nas súplicas cadeiras de terra e cal. Alto, Etílio atinava as subidas serras do ar berrante, beijando o canivete rubro nas impróprias castanheiras. Meu pescoço sentia a navalhada vibrante desposando as fibras no sangue quente e ardente da faísca. Etílio clamava retratos dignos na voz dos ossos. Olhares nas coxas tornadas dos bichos observavam as vargens do sítio. Pavorosas testemunhas do assalto que em mim indiscretas desviavam lâmpadas de impaciência, atropelando a noite na rigidez da memória. Vento a sussurrar desafios nas bordas do queixo. A luz e o rigor da condenação invadindo a cada minuto. A poeira nas sonoras crostas da alma. Calcava a chuva imóvel quando o íntimo bruto gritou saliva e sangue aos meus ouvidos, respigando agruras nas cinzas dos pés da algaroba. O cavalo ao mesmo tempo suspirou negramente as vergonhas.  A penumbra exaltada clamou em uma breve história do espírito, um perdão que não havia, em meio aos espantalhos habitados de pássaros. Voltei correndo, deixando a vista buliçosa na praça da minha pele, larga e fugida, em meio aos pêlos do cavalo que se confundiam com os meus. Etílio continuava alto na voz dos espantos. Canhão de dores ardia nas gramas das pernas. As penugens queimavam ao som das peles púrpuras. Quando cheguei ao conforto da casa, cobri os olhos com o desinteresse dos meus cabelos e nas crinas cravou-se um aço. Meus medos desviavam atônitos os ovos apunhalados da tradição. Dedos galgavam heróicas explicações sombrias sobre a solidão eterna do temor, nos pés das calçadas. E eu continuava vivo no abrangido suspiro de Etilio no ar da janela.


Bruno Gaudêncio é escritor, jornalista e historiador. Nasceu em Campina Grande, Paraíba, em 02 de dezembro de 1985. Mestre em História pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Graduado em Jornalismo e História pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Publicou os livros O ofício de engordar as sombras (poesia, 2009) e Cântico voraz do precipício (conto, 2011). Edita a revista eletrônica de literatura Blecaute (http://revistablecaute.blogspot.com/)

segunda-feira, 11 de junho de 2012

FRANCISCO CARVALHO - O BICHO HOMEM



Hoje, 11de junho de 2012, o poeta cearense Francisco Carvalho, completa 85 anos. Para comemorar, acabei de editar um singelo vídeo com belo poema seu, "O bicho homem", musicado e cantado por seu conterrâneo Raimundo Fagner, cantor, compositor e instrumentista renomado. A poesia brasileira está em festa! Meu querido poeta Francisco Carvalho, receba esta homenagem com amizade e com admiração. Abraços.
JIVM

O BICHO HOMEM


Que bicho é o homem
de onde ele veio
para onde vai?
Onde é que entra
de onde é que sai?

Que raio lhe acende
a chama da fúria?
O que é que sobra
da cesta básica
de sua penúria?

Que bicho é o homem
do que se enfeita?
Que mão o ampara
no chão de enigmas
em que se deita?

Que bicho é o homem
que mama no seio
da reminiscência?
E que embala a morte
em seu devaneio?

Que bicho é esse
que carrega o fardo
de uma dor medonha?
Que sucumbe ao charco
mas ainda sonha?

Que bicho vagueia
na treva hedionda?
Que pantera esguia
será mais veloz
do que a própria sombra?

O homem que tece
as malhas da lei.
Que bicho é o homem
que transforma em pêssegos
as fezes do rei?

Que bicho é o homem
que ama e desama
que afaga e magoa?
E que às vezes lembra
um anjo em pessoa?

O homem que vai
para a eternidade
num saco de lixo.
Que bicho é o homem
de salário fixo?

Que bicho é o homem
que trapaceia?
Que às vezes pensa
Que é mais brilhante
do que a papa-ceia?

Que bicho é esse
que escreve as vogais
das cinzas do pai?
- De onde ele veio
e para onde vai?

Que bicho é o homem
que se interroga?
léguas de volúpia
sonhos e utopias
tudo se evapora?

Que bicho é o homem
de argila e colostro
que lavra e semeia?
mas só colhe insônias
em lavoura alheia?

Os rastros do homem
no vento ou na água
são rastros de fera.
Mas que bicho é esse
que se dilacera?

O homem suplica
os deuses concedem.
Que bicho é o homem
que sempre regressa
às praias do Éden?

Que bicho é o homem
que escreve poemas
na aurora agônica
e depois acende
a fogueira atômica?

Que bicho te oferta
um ramo de rimas
e à sombra dos mortos
semeia gemidos
por sete Hiroximas?

Que bicho te espreita
aos olhos dos becos
onde os cães insones
mastigam as sombras
dos antigos donos?

Que bicho é o homem
que rasteja e voa
que se ergue e cai?
- De onde ele veio
e para onde vai?

Que bicho é o homem
de onde ele veio
e para onde vai?
Onde é que entra
de onde é que sai?


FRANCISCO CARVALHO

domingo, 10 de junho de 2012

JIVM - CALIGRAFIAS


Foto: Ricardo Prado


C A L I G R A F I A S


I

Na poeira de um tempo impreciso,
as histórias do silêncio,
ninhadas de signos sem tradução.

Silêncio na carne.
Silêncio que sente a areia passar.
Tempo para a solidão do poema.

Cultivamos os nomes.
Criamos semblante para cada nome.
Para mostrar nossos nós – a palavra.

Com os olhos marejados
a vertigem cresce:
suas roupas são de luz e de som.

O pasmo nos sobressalta
e gozamos de tudo.


II

A poesia de um tempo sem siso
e sua estranha ninhada de histórias
das entranhas do silêncio.

Nosso heroísmo é trágico
e as parcas são infinitas.

Temos apenas a ilusão das coisas
e o caminho é irreversível.

Retornar – apenas para o Nome,
para o ser que não tem nome.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


OBS: poema do livro Pedra Só, a ser publicado pela Escrituras Editora, em setembro de 2012

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A LÍRICA ERÓTICA DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


(Comunicação apresentada no I CONALI – Congresso Nacional de Literatura, UFPB, João Pessoa, 05/06/2012)
Ano do Centenário de publicação do livro EU de Augusto dos Anjos
Cleberton dos Santos (Professor do IFBA) 

José Inácio Vieira de Melo
Quem é o poeta?

Estou falando de um “poeta matuto sem eira nem beira, que vive labutando com palavras, vaquejando boiadas de signos por caatingas labirínticas numa peleja sem fim.” Estou falando de um poeta que “invoca o gado invisível numa toada aflita, e grafa com pena e tinta aquilo que a poesia marca, a ferro e fogo, em sua alma” de um verdadeiro “Cavaleiro de Fogo”.
Estou falando do poeta José Inácio Vieira de Melo, nascido em Olho d’Água do Pai Mané, povoado do município de Dois Riachos, Alagoas, em 16 de abril de 1968. Publicou os livros Códigos do silêncio (2000), Decifração de abismos (2002), Luzeiro (2003), A terceira romaria (2005), A infância do centauro (2007), Roseiral (2010), 50 poemas escolhidos pelo autor (2011) e tem no prelo para sair em 2012 o livro Pedra Só (Editora Escrituras). Atualmente vive na cidade de Jequié, Bahia, de onde emana toda sua atividade literária e cultural pelos quatro cantos do país.

Por que esse poeta?

Estou falando do poeta José Inácio Vieira de Melo, nascido em Olho d’Água do Pai Mané, povoado do município de Dois Riachos, Alagoas, em 16 de abril de 1968. Publicou os livros Códigos do silêncio (2000), Decifração de abismos (2002), Luzeiro (2003), A terceira romaria (2005), A infância do centauro (2007), Roseiral (2010), 50 poemas escolhidos pelo autor (2011) e tem no prelo para sair em 2012 o livro Pedra Só (Editora Escrituras). Atualmente vive na cidade de Jequié, Bahia, de onde emana toda sua atividade literária e cultural pelos quatro cantos do país.
Por isso, no universo infinito da literatura brasileira sempre encontrei novos ou velhos caminhos para percorrer. Nesta comunicação vou explorar justamente um dos temas mais ricos na história da literatura universal: o erotismo.
E o erotismo em JIVM é apontado por vários de seus leitores, como afirma na orelha do seu quinto livro Roseiral, a poeta carioca Astrid Cabral falando de um “erotismo caloroso”, enquanto a professora Eliana Mara Chiossi destaca que o poeta tem uma “língua de fogo”.
Entre as várias flores temáticas que florescem no vasto jardim da poesia de JIVM, fui seduzido pelos aromas que exalam da flor do erotismo.
Ler e ouvir a poesia de José Inácio Vieira de Melo é vivenciar o erotismo em suas múltiplas possibilidades. Nesta breve comunicação apresento um roteiro de leitura, aponto o início de uma romaria teórica que se inicia pelas estradas que perfazem a obra poética deste “Centauro Escarlate”. Pois como afirma o crítico carioca André Seffrin:

“Surpreendente a mobilidade desta poesia, acelerada e cantante como água de rio montanhoso. Evidente sua força telúrica, de observação e conversão da paisagem humana em lirismo amoroso ou erótico e por vezes em quadros rurais de calendário imemorial.” (In: Melo, 2011)

Ilustração: Daniel Biléu
Um poema: duas leituras

Mikel Dufrenne aconselha que “Ao examinar a linguagem poética, não podemos esquecer de que ela se destina à fala.” (1969, p. 12) Por isso, além dos aspectos poéticos da eroticidade inerente aos textos escritos, detenho minha reflexão também sobre a expressão corporal, a leitura expressiva, o momento do recital, da peformance declamativa feita pelo próprio autor ou das leituras de outras vozes que através de recursos que ultrapassam a imobilidade da letra impressa, também contribuem para uma valorização ou espetacularização do erotismo inaciano.
Apresento o poema “Harém”:

Vinde, minhas éguas, vosso faraó vos espera!
Puxem meu carro de fogo pelos céus dos êxtases,
harmonizem vossas forças e me conduzam,
em galope soberano, pelos reinos dos encantos.

Vinde, minhas éguas, luzindo na imensidão!
No ritmo de vossas ancas é que se inaugura
a saga do meu império e os nomes do meu nome:
Cavaleiro de Fogo, Centauro Escarlate.

(50 poemas escolhidos pelo autor, p. 35)

Em dicção vibrátil o eu lírico assume uma postura faraônica para inaugurar uma poética sensual e de forte caráter zoomórfico. A imagem “Minhas éguas” poderá significar minhas mulheres ou quem sabe minhas musas? Aqui aparecem duas possibilidades de leitura, duas largas estradas no caminho da interpretação.
Na primeira, vendo mulheres metaforizadas em éguas, imagem tão comum ao repertório sexual do universo masculino brasileiro, temos um canto de profunda sensualidade amorosa e de visível rendição do ser masculino aos seres femininos. Numa primeira e ligeiríssima leitura, alguns poderão ver uma submissão feminina já inscrita na tradição dos “poetas machos”. Aqui, porém, após algumas releituras, vejo uma inversão na ordem dos estabelecidos valores. É o ser masculino, macho, faraônico que está submisso à vontade e às ordens das éguas-mulheres. O eu lírico faraó, imperador por natureza divina e status social, encontra-se imóvel, a espera daquelas que o conduzirão “pelos reinos dos encantos”.  O desejo sexual do eu lírico masculino será regido pelo ritmo das ancas dessas éguas portentosas. Aqui, paradoxalmente, o faraó se faz escravo da volúpia, dos encantos e dos êxtases proporcionados por essas éguas-mulheres tão poderosas que conseguem luzir na imensidão.
Na segunda estrada interpretativa, vendo éguas como metáfora de musas, temos um canto metapoético de rara beleza. Numa espécie de erotismo criacional, o poeta fala sobre as forças criadoras do seu ser e do seu verso.  O poeta faraó necessita de inspiração, aquela inspiração mítica de que nos fala Mikel Dufrene em seu livro O poético (1969), e por isso clama para que suas éguas-musas puxem seu carro de fogo, sua poesia, pelos céus dos êxtases, território potencial da arte poética. “Galope soberano” e “ritmo de vossas ancas” são expressões clarividentes desta metapoesia que cristaliza o ser mítico do faraó que se faz Cavaleiro de Fogo pelas forças encantatórias de suas éguas-musas.

Ilustração: Daniel Biléu
Erotismo corporal

Quem já teve a oportunidade de ver, de presenciar o próprio poeta recitando seus versos, ou seja, o homem de carne e osso impostando sua voz para dizer, traduzir em tons, gestos faciais e expressões corporais suas palavras, seus códigos de silêncio, poderá projetar melhor o jogo do erótico que se estabelece em suas criações verbais. O poeta declamador também transpira esse erotismo escarlate que emana da imensidão de seus poemas. Quase como se existisse uma correspondência entre o eu lírico de seus poemas e sua voz humana, o poeta José Inacio Vieira de Melo encarna seus próprios eus poéticos, como uma espécie de ator de si mesmo não sendo ele próprio, o poeta erotiza sua aparição pública através de seus erotismos poéticos. Exemplo peculiar deste amálgama entre sua voz lírica e sua voz humana é vê-lo recitando os poemas “Epitáfio para Guinevere” e “Bodas de sangue”.

Vejamos o poema “Cântico dos Cânticos”:

Que as tuas nádegas aventureiras estejam abertas
Para o poema em linha reta que te ofereço,
Que a minha escrita torta e avessa
Chegue linheira na olaria de tua carne
E ardas e ardo neste morno forno
Das tuas nádegas tão abundantes.

Das tuas nádegas tão montanhosas
O horizonte é mais macio e a minha linguagem
Saboreia o mel do fel que trazes
E de teus olhos gemem os arco-íris
E teu corpo todo é um esplendor, uma assombração
E quanta delícia anunciam teus arrepios
E tuas nádegas aventureiras tão venturosas
São uma tempestade de emoções.

Que idioma mágico que tu inventas
Quando me aventuro por tuas nádegas
E me perco profundamente e profundamente
Me encontro na plenitude cega que tudo exerga
E profundamente me encanto cantando uníssono
Neste nosso idioma o novo cântico dos cânticos.

(50 poemas escolhidos pelo autor, p. 46)

Mais uma vez sensualidade amorosa, erotismo corporal e erotismo criacional se misturam nesta composição.
Várias são as formas de amar. O sexo cristão é transgredido nestes versos ousados e ao mesmo tempo contidos através de uma linguagem de grande exuberância metafórica. O sexo anal, ou a hipótese deste sexo, é explicitamente cantado com grande singeleza. A escolha lexical do poeta, sua operação linguística demonstra o zelo pelo corpo da amada, pois nádegas é menos vulgar e mais sugestivo do que seu sinônimo popular “bunda”. Mas todo poeta tem seus truques e sabe operar seus milagres verbais. E deste modo o poeta constrói a imagem “nádegas tão abundantes” que nos remete à palavra “bunda”, configurada dentro do corpo e da sonoridade do adjetivo empregado.
Sobre a relação entre erotismo e poesia, Octavio Paz afirma:

“A relação entre erotismo e poesia é tal que se poder dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poética corporal e a segunda uma erótica verbal. Ambos são feitos de uma oposição complementar. A linguagem – som que emite sentido, traço material que denota ideias corpóreas – é capaz de dar nome ao mais fugaz e evanescente: a sensação; por sua vez, o erotismo não é mera sexualidade animal – é cerimônia, representação. O erotismo é sexualidade transfigurada: metáfora. A imaginação é o agente que move o ato erótico e o poético.” (Paz, p. 12)

Assim, podemos dizer que é a imaginação criadora que propicia a elaboração da erótica verbal do poeta JIVM, ao mesmo tempo em que é a força do próprio erotismo corporal que impulsiona a criação da linguagem poética como prática de ato erótico, pois para o poeta JIVM fazer poesia é

ir no cerne dos desejos
e perceber cada célula
como frenesi que sinto
na agulha do peitoral.

(A sagração do mito In: A infância do centauro, 2007)


Bibliografia:

CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. Trad. Ivo Barroso. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
DUFRENNE, Mikel. O poético. Trad. Luiz Arthur Nunes e Reasylvia Kroeff de Souza. Porto Alegre: Editora Globo, 1969.
MELO, José Inácio Vieira de. 50 poemas escolhidos pelo autor. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2011.
MELO, José Inácio Vieira de. A infância do centauro. São Paulo: Escritura Editora, 2007.
MELO, José Inácio Vieira de. A terceira romaria. Salvador: Aboio Livre Edições, 2005.
MELO, José Inácio Vieira de. Decifração de abismos. Salvador: Aboio Livre Edições, 2002.
MELO, José Inácio Vieira de. Luzeiro. Salvador: Aboio Livre Edições, 2003.
MELO, José Inácio Vieira de. Roseiral. São Paulo: Escritura Editora, 2010.
PAZ, Octavio. A dupla chama: amor e erotismo. Trad. Wladyr Dupont. São Paulo: Siciliano, 1995.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

JIVM - JOKERMAN




JOKERMAN
Para Bob Dylan


O tempo está passando e continua o mesmo,
as minhas dores é que são cada vez mais reais.
O tempo está passando e eu continuo a esmo.
Já estou cansado de olhar para a mulher
que não me quer, já estou ficando vesgo
de olhar para o firmamento  e ver a linha
que nada indica – nem início nem fim nem meio.
Já olhei bem no centro de tudo que alcanço,
para os lados e para os cantos e para os recantos,
já até me perdi dentro do olhar buscando encontrar,
mas eu nunca vi o olho de deus na palma da minha mão.

Os profetas estão roucos e seus vaticínios caem dos céus.
Sinto uma saudade enorme dos urubus, tão higiênicos,
tão sinceros, tão amigos dos vaqueiros. Sim, o azul do céu
não existe nem faz diferença para quem pensa no senado,
porque para quem pensa no senado a gaita não toca,
e, se toca, o senador liga suas células e as cédulas brilham
e a gaita deixa de existir. Eu sou um índio perdido.
A velocidade embebedou meu sonho de primaveras primevas.
Repare, se eu estiver uivando, não repare,
mas é só o que posso fazer diante do abandono.

Minhas asas de anjo pesam mais do que as do albatroz,
e, no circo, o picadeiro me assusta. Só me resta ser o palhaço
de um humor negro – tão sem graça quanto a beleza
dos meus ganidos, dos meus vagidos, da minha rouquidão
desesperada que prega as verdades no deserto
das mentes mundanas, humanas, sacanas, perversas.
Eu sou o símbolo de minhas taras agonizantes.
Estou morrendo, mas o meu chapéu de cowboy
está radiante. Pois para um índio da Judeia
brincar de deus e rir da sua própria desgraça
é o que há de mais sublime e glorioso.

Ah a glória – o panteon da fama, dos deuses transitórios.
Ah esse tempo que mostra que o meu futuro é não ter futuro,
que a cinza é apenas cinza e que a fênix não existe
nem na sombra do urubu. Mas tudo continua azul
porque o azul é o nosso teto, porque o azul não existe,
porque no azul a gente pode mergulhar e esquecer o peso,
porque o azul é o azulão que assobia a última canção,
o último gemido agônico que vem na hora derradeira.
O gran finale dessa nossa saga atroz e bestial
 há de sair do bico de um passarinho. Pelo menos isso,
meu Deus! Não da boca escancarada de um trombone 
ou do bocal de palheta de uma clarineta. Não, isso não!


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

terça-feira, 22 de maio de 2012

A INCORPORAÇÃO: POÉTICA NA ENCRUZILHADA - DEFESA DE TESE DE DOUTORAMENTO DE IGOR FAGUNDES



Dioniso, Hermes, Jesus, Exu, Pomba-gira
e as musas todas convidam
para a defesa da tese

A INCORPORAÇÃO
Poética na encruzilhada

de
Igor Fagundes
(Doutorado em Poética – UFRJ)

Com
Maria Bethânia
José Inácio Vieira de Melo
e Lagriminha de Ouro como “O Erê”

Participação especial
Sophia de Mello Breyner Andresen – Guimarães Rosa
Homero – Mamãe Oxum

Banca examinadora
Alberto Pucheu – Manuel Antônio de Castro
Antonio Jardim – Carlinda Nuñez
Roberto Corrêa dos Santos – Antonio Carlos Secchin
Martha Alkimin

DIA 25 DE MAIO DE 2012, SEXTA-FEIRA, ÀS 14H
Auditório Guimarães Rosa – Faculdade de Letras/UFRJ
Cidade Universitária – Ilha do Fundão


INSTRUÇÕES SOBRE COMO CHEGAR AO FUNDÃO PARA ASSISTIR À DEFESA:

- Para quem vem de ônibus do centro ou zona sul, o 485 (Gal Osório-Penha) é uma boa opção. No caso da opção do metrô, descendo na estação Cidade Nova, em frente à Prefeitura, o mesmo ônibus passa pela pista do canto (de quem vai pegar a Ponte Rio-Niterói). 

- Estando no 485, prestar atenção para descer no ponto após o do CT (Centro de Tecnologia), que é o em frente AO COPPE (fundos do CT). o COPPE é em frente a Faculdade de Letras. Então, é só atravessar a rua. A lateral da Letras dá para o prédio da Reitoria (outra dica!). 

- Quem vem de carro deve, entrando no Fundão pela encruzilhada de linha vermelha e linha amarela, partir na direção contrária ao do Hospital Universitário; no sentido Reitoria (que fica no extremo oposto da Ilha, no extremo oposto ao do Hospital). A Faculdade de Letras dispõe de estacionamento.

COMO CHEGAR AO AUDITÓRIO DA DEFESA NA FACULDADE DE LETRAS

- Chegando a Letras: cada corredor à esquerda e à direita correspondem a um bloco, a uma letra (D, E, F...). O bloco F (onde fica o Auditório Guimarães Rosa) é o segundo corredor à direita. É só subir 2 ramos de escada e procurar, a seguir, pela sala F-324 (fim do corredor). A secretaria da Pós-Graduação (sala F-309) é um bom ponto de enco ntro para nós todos e, em geral, é em frente a ela que ficamos antes do começo da defesa. Existe a opção do elevador, mas, para usá-lo, deverá entrar no corredor D (o primeiro à direita).

IMPORTANTÍSSIMO: No caso de existir muita plateia para o evento (mais de 50 pessoas), a defesa será realizada no AUDITÓRIO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE e não mais no Auditório Guimarães Rosa. O Drummond é o antigo auditório G2, no segundo andar. 

domingo, 20 de maio de 2012

JIVM - DONA DE CASA

Foto: Ricardo Prado

DONA DE CASA
Para Inácia Rodrigues de Santana


Os sentimentos areados,
o cristal dos olhos polidos,
o terreiro tão bem varrido.
Minha mãe – senhora de si.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

terça-feira, 15 de maio de 2012

GÊNESE - COM JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO E OS CONCRIZES DANILO SPÍNOLA E FLÁVIA RIBEIRO



GÊNESE, poema de José Inácio Vieira de Melo (JIVM), recitado por Danilo Spínola, Flávia Ribeiro e José Inácio, que erra o último verso do seu poema. Gravação feita por Haroldo Abrantes, grande fotógrafo, no dia 11 de maio de 2012, na cidade de Maracás, após o projeto Uma Prosa Sobre Versos com os poetas Martha Galrão e Raimundo Gadelha.

sábado, 12 de maio de 2012

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO NO PROGRAMA DIVERSIDADE



JIVM NO PROGRAMA DIVERSIDADE - TV ITARARÉ 
CAMPINA GRANDE - PARAÍBA - 2012

O poeta José Inácio Vieira de Melo  fala da sua antologia 
50 poemas escolhidos pelo autorde suas atividades culturais
e recita dois poemas: "Exercícios crísticos" e "Gênese". Confira!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

VERÔNICA DE VATE - RAIMUNDO GADELHA

Raimundo Gadelha nasceu na Paraíba. Por formação, é publicitário e jornalista, profissões das quais se distanciou desde a década de 1980, quando começou a se dedicar mais intensamente à fotografia,  clicando e expondo o resultado de suas andanças por mais de 30 países. Sempre dedicado à literatura, em 1994 abraça seu desafio maior: a fundação da Escrituras Editora. Hoje, seguramente, a casa editorial que mais publica poesia no Brasil. Mesmo como editor, Gadelha não abdicou da sua própria produção literária. Atualmente, já são 13 títulos distribuídos dentre os gêneros poesia, conto, teatro, romance e fotografia. Em algum lugar do horizonte (romance, 2000), Vida útil do tempo (poesia, 2004), publicado na Grécia, no México e em Portugal, e Dez íntimos fragmentos do indecifrável mistério (poesia, 2012),  são seus trabalhos mais recentes

Raimundo Gadelha e Martha Galrão participarão do projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, no Vale do Jiquiriçá. O evento acontecerá no dia 11 de maio, às 19 h 30 min, no Auditório Municipal de Maracás, com entrada gratuita. Os dois poetas serão homenageados pelos grupos Concriz, da cidade de Maracás, e Grupo Renascer, da cidade de Planaltino, que recitarão seus poemas. Após os recitais, Martha e Gadelha baterão um papo com José Inácio Vieira de Melo e responderão as perguntas do público presente.

No dia seguinte, 12 de maio, os dois poetas participarão do projeto Palavra de Poeta, na cidade de Planaltino, onde serão homenageados, mais uma vez, pelos Grupos Renascer e Concriz. O projeto Uma Prosa Sobre Versos, conta com coordenação de Edmar Vieira, diretor de cultura do município de Maracás e o projeto Palavra de Poeta é coordenado por Edivaldo Costa, diretor de cultura da cidade de Planaltino. O poeta José Inácio Vieira de Melo é o curador e mediador dos dois projetos.

Postal do livro Dez íntimos fragmentos do indecifrável mistério,
de Raimundo Gadelha. Ilustração: Sérgio Gomes

sábado, 5 de maio de 2012

VERÔNICA DE VATE - MARTHA GALRÃO


Martha Galrão fotografada por Haroldo Abrantes
Martha Galrão é mãe de Beatriz e poeta. Escreve desde pequena na vã tentativa de compreender a vida e capturar a beleza. Psicóloga, educadora e estudante de Letras, participou de três coletâneas e lançou, em 2011, seu primeiro livro individual, A Chuva de Maria, pela Editora Kalango.

Martha Galrão e Raimundo Gadelha participarão do projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, no Vale do Jiquiriçá. O evento acontecerá no dia 11 de maio, às 19 h 30 min, no Auditório Municipal de Maracás, com entrada gratuita. Os dois poetas serão homenageados pelos grupos Concriz, da cidade de Maracás, e Grupo Renascer, da cidade de Planaltino, que recitarão seus poemas. Após os recitais, Martha e Gadelha baterão um papo com José Inácio Vieira de Melo e responderão as perguntas do público presente.

No dia seguinte, 12 de maio, os dois poetas participarão do projeto Palavra de Poeta, na cidade de Planaltino, onde serão homenageados, mais uma vez, pelos Grupos Renascer e Concriz. O projeto Uma Prosa Sobre Versos, conta com coordenação de Edmar Vieira, diretor de cultura do município de Maracás. O projeto Palavra de Poeta é coordenado por Edivaldo Costa, diretor de cultura da cidade de Planaltino. Os dois gestores culturais estão de parabéns por desenvolverem trabalhos como estes, de grande relevância para suas comunidades.

 Foto: Haroldo Abrantes


Queria ser só
o que de vento se veste:
poeira, grão, semente, algodão
queria ser só o que flutua:
pena, flauta, balão.
No dia ser borboleta
na noite ser mariposa
só delicadeza eu seria:
vaga-lume, orvalho, seixo, lágrima, canção.
Mas também sou tudo
que padece:
pedra, amargura, solidão
mas também sou tudo
que afunda:
pedra, cadáver, escuridão.


Mãe,

surpreendo-me com a eternidade
quando distraída repito seu gesto,
tão parecido parece igual
nos traços do rosto
e nas traças do tempo.

Tempo que banha o seu e o meu corpo,
que fez do meu ventre, abrigo,
revolvendo o ponto de partida,
disfarçando-nos em irmãs.


MARTHA GALRÃO

quarta-feira, 2 de maio de 2012

JIVM - GLÓRIA

Foto: Ricardo Prado

GLÓRIA


Nem cerca de dez fios segura a cabra.
A cabra não aceita doma nem redoma.
Ela sobe a pedra, vai para o alto,
ela quer sempre a montanha. 

A cabra – canindé ou humana –
busca o pedestal, o pódio.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

terça-feira, 1 de maio de 2012

JURACI DÓREA E JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO: TRADUTORES DE POÉTICAS E SERTÕES

Por Andréa do Nascimento Mascarenhas Silva

Juraci Dórea e José Inácio Vieira de Melo

Dórea e JIVM¹ constroem um modo de comunicação que não se limita apenas à tradução imagética e de versos: seja quando o poeta tenta ilustrar com palavras o que a tela expressa, no trabalho de compor vídeopoemas; seja quando o artista plástico esboça em tinta o que a imagem-palavra talvez queira dizer, no trabalho de ilustrar obras literárias. 
No YouTube, desde outubro de 2009 que Inácio possui Canal denominado JIVMROSEIRAL², espaço a partir do qual disponibiliza poemas declamados, organizados em pequenos vídeos, em que som/voz/imagens formam uma tríade de signos que se ultrapassam a si próprios e são capazes de ir além de cânones e limites literários ainda vigentes. 
Por esse entrelace, outros elementos são agregados ao texto poético, como entonação, gestualidade, expressões faciais e corporais etc., além dos recursos midiáticos e tecnológicos aos quais é preciso lançar mão quando da montagem dos vídeos. Hoje as narrativas que não são feitas única e exclusivamente com as marcas da escritura, como os vídeopoemas, desenham os contornos de uma espécie de gênero que vem dinamizando o cenário das letras em meio à era do virtual³. Neste sentido, o professor Luciano Rodrigues Lima nos faz refletir tanto sobre novas estéticas quanto sobre política e economia culturais/editoriais, ao informar que: 
o videopoeta recriará seu texto com os recursos digitais do computador e será seu próprio editor e distribuidor (desempenhando os papeis de editora e distribuidora/livraria) pois lançará o seu trabalho na rede, o qual será exposto em uma grande livraria/vitrine eletrônica (LIMA, 2008, p. 5). 
As imagens de sertão que Dórea e JIVM compartilham ultrapassam o registro das feições físicas e ideológicas fortemente propagadas pelos meios de comunicação de massa (e não só) há muito tempo e que continuam a “moldar” determinadas identidades locais: do conformismo que não encontra forças para nada, além de cruzar os braços diante das adversidades (como a seca), até chegar ao extremo da representação do sertão estereotipado, como um retrato desfocado e que se molda de fora pra dentro. Vejam-se abaixo imagens e texto dos dois artistas, respectivamente: 

 (JURACI DÓREA, 2010) 

 (JURACI DÓREA, 2010) 

JARDIM DOS MANDACARUS

Em verdade conheço o sol desse lugar,
uma agreste paragem de chão rachado – solo sagrado
De noite, o vento corre pelo jardim trazendo algum frescor
somente um olor-semente exala dessa flor,
vida da pouca vida, mas forte mais.

Além da sombra da cumeeira donde estou e sou,
assunto o que sobrou: uma ode à própria vida.
E nos tortos caminhos desse jardim de mandacarus
espicharei os secos sentimentos para apurar as emoções... (...)

(JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO, 2007, p. 84) 

Pelo azul-branco-preto matizado nas imagens de Dórea se (entre)vê um sertão de pássaros e peixes, de flor e gado, luminosidade de lua e noite, de sol e candeeiro, das moradias que se formam em torno de igrejas (herança ancestral), da alegria das festas juninas, signos que figuram ao lado de tradições religiosas (cristão/pagãs) e culturais, de um povo que reza e faz promessas (ex-votos), que cultua o misticismo do boi/vaca estrela ou os poderes da cachaça feita com raízes e cobras, sem esquecer das lutas do cangaço, que tanto afastou quanto uniu os sertanejos. Na primeira imagem cabe também a morte/seca (esqueleto de boi) e a aspereza do mandacaru, em registro de outras lógicas. Na segunda imagem, além do sertão amoroso (corações), farto em cajus e plantas resistentes, há espaço ainda para o amor a Feira de Santana/BA, o que Juraci confirma em entrevista, ao dizer que: 
Retomo os temas de Feira de Santana: vaqueiros, Festa de Santana, vaqueiros no asfalto, esta canção cruzando o urbano com o rural, lendas de Feira de Santana... Este trabalho está mais definido do ponto de vista formal, já é um estilo e o tema bem consolidado, que é o tema de Feira de Santana. Essa fase vem, em 1974/1975 (...) (TODERO, 2004, p. 7). 
Já pelos versos de JIVM supracitados, a seca encontra registro no jardim possível do sertão –, um reduto de mandacarus que geram brisa junto à noite, vida em flor (apesar de frágil/rarefeita, ainda assim forte) e que ajudam a “espichar sentimentos e apurar emoções” (2007, p. 84). 
Por essas tintas/palavras há exemplos do que se pode fazer para sobreviver no sertão: de “chão rachado” a “solo sagrado”, equivalência despropositada que faz pensar na fé e esperança sertanejas. 
A mesma equivalência se observa entre “Jardim dos mandacarus” (título do poema de JIVM, imagem/símbolo de sertão que guarda beleza apesar dos espinhos) e os povos dos sertões, que aprenderam a conviver com todo tipo de escassez e que precisam ainda das armaduras feitas de couro (como os vaqueiros) para enfrentar as lides diárias. 
Vladimir Queiroz, como Juraci Dórea (e suas esculturas de couro e madeira – Projeto Terra), também investe nesta imagem da pele dos animais sendo usada para proteger os sertanejos (Apokálupsis, 2006). 
Por baixo das mil vestes de proteção a singeleza desses povos se revela: lucidez para compreender a vida avara e ainda assim continuar cultivando jardins possíveis no sertão, nem que seja com mandacarus que também dão flor. 
Eis a inversão proporcionada pelos dois artistas, ao nos dar a ver outras faces pouco conhecidas desse cenário/sertão pintado quase sempre de cores secas, arte que pinta o comum já visto com tons reveladoramente incomuns. 
Tanto JIVM –, o poeta da palavra, quanto Dórea –, o artista polivalente em muitas poéticas, oferecem exemplos distintos e ao mesmo tempo confluentes de artes que se dedicam a ouvir/registrar a voz local/ancestral para, mais uma vez, fazê-la reverberar em outras vozes/memórias dos sertões. Cid Seixas nos proporciona refletir sobre o assunto, ao tratar do poema “Rural” (In: A terceira romaria, 2005, p. 38) e afirmar que: 
Ora, o verso do catingueiro Inácio insiste: “Eu vou pra roça, lá o documento é a palavra.” Se na cidade são os documentos que valem em lugar do homem, os debêntures, as letras de câmbio, os títulos legais; no campo, podemos viver esquecidos de toda esta parafernália infernal. Na roça o homem é a sua palavra (2010, online). 
Nota-se, aqui, sobretudo na última frase de Seixas, que os versos de JIVM remetem à memória de um tempo passado, quando a palavra representava valores que foram sendo perdidos à medida que as técnicas de escrita evoluíram e se sofisticaram. 
Ir para a roça e viver esse privilégio raro de (re)ver a voz ainda valer como documento, mostra-se como um oásis, mas não em tom passadista ou de nostalgia. Talvez os versos de Melo estejam nos mostrando que ainda existem espaços assim no mundo, com outras lógicas, outros costumes e não menos importantes que quaisquer outros, onde a palavra, a voz e suas tradições valem tanto quanto qualquer outro documento. 


NOTAS:
1 - JIVM – abreviação para José Inácio Vieira de Melo. 
2 - Há também entrevistas nesse espaço virtual. 
3 - Como são exemplos áudio livros e livroclip, respectivamente nesses links: 
http://www.universidadefalada.com.br/audiolivro.html 
e http://www.livroclip.com.br/ 


Capítulo do ensaio Imagens do Sertão: diálogo entre as artes de Juraci Dórea e as literaturas de José Inácio Vieira de Melo, Adriano Eysen e Vladimir Queiroz, de Andréa do Nascimento Mascarenhas Silva, Professora Doutora da área de Letras/Literaturas (de Graduação e Especialização) – UNEB, Campi XXII e XIV, apresentado no III EBECULT – III Encontro Baiano de Estudos em Cultura, em abril de 2012.