quarta-feira, 20 de julho de 2011

LANÇAMENTO DA COLETÂNEA SANGUE NOVO



SANGUE NOVO: 21 POETAS BAIANOS DO SÉCULO XXI

A Escrituras Editora tem o prazer de lançar o livro Sangue Novo: 21 Poetas Baianos do Século XXI, organizado pelo poeta José Inácio Vieira de Melo.
O lançamento vai acontecer na LDM Livraria Multicampi, na Rua Direita da Piedade, em Salvador, no dia 23 de julho (sábado), das 10 às 14 horas.
Nesta coletânea, foram selecionados 21 poetas nascidos a partir de 1980, baianos ou radicados na Bahia. Dez residem em Salvador: Alexandre Coutinho, André Guerra, Bernardo Almeida, Fabrício de Queiroz Venâncio, Gabriela Lopes, Gibran Sousa, Priscila Fernandes, Saulo Moreira, Vânia Melo e Vanny Araújo. Caio Rudá Oliveira, Georgio Rios e Ricardo Thadeu são de Riachão do Jacuípe. Clarissa Macedo e Lidiane Nunes residem em Feira de Santana. Edson Oliveira e Érica Azevedo moram em Santo Estevão. Gildeone dos Santos Oliveira é de Retirolândia. Janara Soares é de Barreiras. Vitor Nascimento Sá é de Maracás. Daniel Farias reside na cidade de São Paulo.
A coletânea conta com a apresentação do escritor e ensaísta Mayrant Gallo, que afirma “Cada poeta se aferra ao seu método de criação e à sua técnica, baseados ambos em suas escolhas pessoais, mas, em geral, o objetivo é o mesmo: acender uma luz no nevoeiro e ascender da obscuridade para a vitrine das relações com o mundo”.
Nas palavras de José Inácio “Sangue Novo muito tem do sangue poético que ora circula pela Bahia e pelos brasis, assim como do velho e bom sangue dos mestres do século XX, que deixaram uma obra que quanto mais o tempo passa, mais se pereniza”. A maior parte destes jovens poetas não tem livro publicado, divulgam seus versos em blogs. São poetas cheios de potencialidades, interessados em se organizar, em promover debates e em mostrar suas produções.
José Inácio Vieira de Melo é poeta, jornalista e produtor cultural. Tem cinco livros de poemas publicados, sendo Roseiral (Escrituras Editora, 2010) o mais recente. Já organizou outras importantes antologias, como é o caso de Concerto lírico a quinze vozes – Uma coletânea de novos poetas da Bahia (Aboio Livre Edições, 2004) e a agenda Retratos Poéticos do Brasil 2010 (Escrituras Editora, 2009). Coordenador e curador de vários eventos literários, como o Porto da Poesia, na VII Bienal do Livro da Bahia (2005) e a Praça de Cordel e Poesia, na 9ª Bienal do Livro da Bahia (2009).
Durante o lançamento irá acontecer um recital com poemas dos 21 poetas do Sangue Novo, recitados por alguns dos integrantes.

Livro: Sangue Novo: 21 Poetas Baianos do Século XXI
Organizador: José Inácio Vieira de Melo 
Apresentador: Mayrant Gallo
Ilustrador: Fernando Aguiar
Autores: Alexandre Coutinho, André Guerra, Bernardo Almeida, Caio Rudá Oliveira, Clarissa Macedo, Daniel Farias, Edson Oliveira, Érica Azevedo, Fabrício de Queiroz Venâncio, Gabriela Lopes, Georgio Rios, Gibran Sousa, Gildeone dos Santos Oliveira, Janara Soares, Lidiane Nunes, Priscila Fernandes, Ricardo Thadeu, Saulo Moreira, Vânia Melo, Vanny Araújo e Vitor Nascimento Sá.
Editora: Escrituras Editora
Páginas: 248
Preço: 
R$ 30,00

sexta-feira, 15 de julho de 2011

PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS RECEBERÁ O POETA MINEIRO ALEXANDRE BONAFIM




Hoje tem poesia na cidade de Maracás. O projeto Uma Prosa Sobre Versos vai receber o poeta mineiro Alexandre Bonafim, para uma integração com a comunidade maracaense.
O projeto já está no quarto ano, o que faz de Maracás a cidade pioneira da poesia no Vale do Jiquiriçá e uma referência no estado da Bahia e no Brasil.
Observando os resultados positivos, os municípios de Iramaia, Nova Itarana e Planaltino estão desenvolvendo projetos similares. No dia seguinte, sábado, 16 de julho, o poeta Bonafim participará de um evento da mesma natureza na cidade de Nova Itarana, onde também será homenageado.
Mais uma vez o poeta convidado e todos os que se fizerem presentes ouvirão um recitais do Grupo Concriz, da cidade de Maracás, e do Grupo Renascer, da cidade de Planaltino. O Grupo Concriz recitará poemas do livro Arqueologia dos acasos. Já o Grupo Renascer preferiu selecionar poemas de vários livros de Alexandre Bonafim. O poeta que se prepare para sentir a força dos seus próprios versos. Haverá um momento musical com o grupo Versão Beta.
Em seguida, O poeta José Inácio Vieira de Melo, curador do projeto, fará um bate papo sobre literatura e assuntos afins com Alexandre Bonafim, que também responderá perguntas da plateia. Aberto às comunidades de Maracás, de Nova Itarana e cidades vizinhas, os dois eventos são gratuitos, e começam às 19 hs 30 min. Em Maracás, acontecerá no Auditório Municipal. Em Nova Itarana, na Câmara Municipal de Vereadores. Vá e leve seus amigos.

terça-feira, 12 de julho de 2011

VERÔNICA DE VATE - ALEXANDRE BONAFIM




ALEXANDRE BONAFIM nasceu em Belo Horizonte em 1976. Viveu na capital mineira até os 8 anos de idade. Em seguida, passou a residir em Franca, interior de São Paulo. Morou também em Assis, Alemanha e, agora, reside em Goiânia. É poeta, ficcionista e crítico literário. Publicou os seguintes livros de poesia: Biografia do deserto (2006), A outra margem do tempo (2008), Sagração das despedidas (2009), Sob o silêncio do anjo (2009), Arqueologia dos acasos (2010) e Arquipélago do silêncio (2011). Teve seu conto "O cavalo azul" publicado na antologia portuguesa "Um rio de contos", livro no qual autores de Portugal e Brasil foram reunidos, em importante antologia. Participa da antologia Roteiro da poesia brasileira, da editora Global, organizada por Marco Lucchesi. É mestre em Estudos literários pela UNESP, defendendo a seguinte dissertação: A graça poética do instante: poesia e Memória em Rubem Braga. Tal trabalho foi publicado em livro com o mesmo título. Atualmente é doutorando em Literatura Portuguesa pela USP, desenvolvendo pesquisa sobre a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen.


Eu sempre fui o pastor do teu riso,
a infância de tua morte,
a eternidade de tua voz.
Eu sempre fui o grito de tua nudez,
as vestes de teu pensamento,
a música de tua carne.
Em ti dissolvi o mar,
as constelações,
as mais ásperas paisagens.
Em ti respirei os abismos,
as interditas palavras,
as horas mais efêmeras.

Fomos dois punhais surdos
a cortarem o silêncio das pedras.



XVII

Para enfrentar a tua beleza,
era necessário amparar-me
na luz dos relâmpagos,
no frêmito dos rios profundos,
na queda dos pássaros;
era preciso agarrar-me
a tudo o que era frágil,
a tudo o que se findava
num leve palpitar de asas.
Não poderia estar só
ante a tua beleza...
Para fitá-la necessitaria
estar de mãos dadas
com todos os desastres,
com todas as febres.
Se livremente olhasse
o teu semblante,
sem me iniciar no rito
de tua delicadeza,
a carne dos meus olhos secaria,
meus ossos como vidro quebrariam,
toda sede e toda fome
devastariam meus dias.
Porque tua beleza
é toda simplicidade,
toda leveza, toda dádiva;
é a sombra de um vôo
que passou pela minha vida
e fez ninho onde nunca existirei.

domingo, 26 de junho de 2011

DOIS POETAS

Por Fernando Py

Roseiral: o mundo encarnado pela seiva das rosas escarlates, de José Inácio Vieira de Melo (São Paulo: Escrituras Editora, 2010; prefácio de Astrid Cabral e posfácio de Eliana Mara Chiossi). Roseiral é o quinto livro do poeta, alagoano radicado na Bahia. Compõe-se de 42 poemas divididos em cinco partes. Em sua poesia, o Nordeste sempre desempenhou papel fundamental, e o mesmo sucede neste livro. Porém, aqui o poeta resolve dar uma guinada em relação aos livros anteriores. O Nordeste continua a ser visto e revivido. No entanto, de maneira mais amadurecida, com todo o seu arsenal de visão telúrica e de suas vivências rurais do sertão, e ainda que mantenha a sua fidelidade às raízes primordiais da nossa terra, José Inácio mostra um erotismo desataviado, sem quaisquer disfarces. Seu erotismo está na base de sua ânsia de libertação dos padrões arcaicos da sociedade provinciana, da revolta contra preconceitos e abusos que perseguem e destroem o ser humano. Assim, em muitos poemas do livro, como “Vingança” (p. 62) e “Canibal” (p. 66) p. ex., nos defrontamos com a violência da linguagem que, de certo modo, indica uma nova atitude dentro de seu lirismo costumeiro. Por outro lado, o poeta se engrandece neste livro, com certeza o mais bem articulado em todas as suas partes e elaborado com toda a consciência da técnica do verso e da expressão da linguagem. É certo que, agora na casa dos quarenta anos, José Inácio Vieira de Melo alcança aqui o seu momento mais significativo, onde se ressaltam os poemas (sobretudos os sonetos brancos) das séries ‘A idade da pedra’ e ‘Roseiral’. Vale a pena uma leitura cuidadosa.

Verso para outro sentido, de Felipe Stefani (São Paulo: Escrituras Editora, 2010). Até agora, desconhecíamos inteiramente o poeta. Mas este livro nos chamou a atenção para o seu nome, principalmente pela inesperada floração de imagens naturalmente poéticas. É como se o poeta tratasse a sua linguagem, o seu vocabulário de modo a oferecer ao leitor um conjunto de termos de um simbolismo expressivo e vibrante (como acentua Nélson de Oliveira nas “orelhas” do volume). E esse simbolismo, se paga seu tributo a poetas como os franceses Corbière e Laforgue, ou o nosso Murilo Mendes, p. ex., nem por isso deixa de exibir notável cunho pessoal. Felipe Stefani poderá vir a ser um dos grandes poetas brasileiros dos anos 2020.

Texto publicado na Tribuna de Petrópolis, em 17 de junho de 2011

sexta-feira, 17 de junho de 2011

SANGUE NOVO - 21 POETAS BAIANOS DO SÉCULO XXI - EM BREVE!


A coletânea Sangue novo – 21 poetas baianos do século XXI, publicada pela Escrituras Editora, de São Paulo, terá lançamento em Salvador, no dia 23 de julho de 2011, das 10 às 14 horas, na livraria LDM Multicampi, na Rua Direita da Piedade. Sangue novo conta com organização do poeta José Inácio Vieira de Melo e com apresentação do escritor Mayrant Gallo. A ilustração da capa é de Fernando Aguiar, artista plástico e poeta português.

Relação dos 21 poetas:

Alexandre Coutinho
André Guerra
Bernardo Almeida
Caio Rudá de Oliveira
Clarissa Macedo
Daniel Farias
Edson Oliveira
Érica Azevedo
Fabrício de Queiroz
Gabriela Lopes
Georgio Rios
Gibran Sousa
Gildeone dos Santos Oliveira
Janara Soares
Lidiane Nunes
Priscila Fernandes
Ricardo Thadeu
Saulo Moreira
Vânia Melo
Vanny Araújo
Vitor Nascimento Sá 

terça-feira, 14 de junho de 2011

JIVM - FUGA



FUGA


As crianças galopam goiabeiras,
sentem o gosto da paisagem de êxtase.
As crianças são deuses, mas não trazem
o germe do sofrimento, só brilham.

Quando o homem chega dentro da criança,
o infinito cai e a casa começa
a ter entranhas, a criar paredes.
Quem mais sofre com isso são as pedras:

sem sangue, sem respiração, sem ritmo,
seus escombros preenchem toda terra;
seus sonhos – fuzilados no horizonte.

Eu ainda saio dessa ciranda,
entro no primeiro buraco negro
e vou me inventar em outra galáxia.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

terça-feira, 7 de junho de 2011

RESULTADO DO SORTEIO DO LIVRO A TERCEIRA ROMARIA

O sorteio teve 24 participantes.

Os três contemplados foram:

Antonio Carlos Ribeiro Jr.

Cynthia Lopes

Sérgio Bernardo

domingo, 5 de junho de 2011

ROSEIRAL NA JOVEM PAN



A obra Roseiral é um belo livro de poesia do poeta José Inácio Vieira de Melo, que sabe bem como lidar com as palavras. Publicado pela Editora Escrituras de São Paulo, o livro tem apresentação das poetas Astrid Cabral e Myrian Fraga.

É bom que surjam obras como esta, já que a poesia brasileira vive uma crise de credibilidade, tais as facilidades e modismos que se repetem em edições inúteis de poesia que não diz nada.

Quer saber mais sobre o poeta José Inácio Vieira de Melo? Clique no link abaixo e confira com o poeta da Jovem Pan, Álvaro Alves de Faria.


quarta-feira, 1 de junho de 2011

SORTEIO DE TRÊS EXEMPLARES DO LIVRO A TERCEIRA ROMARIA (2ª EDIÇÃO)




Caro leitor, serão sorteados três exemplares do livro A terceira romaria, do poeta José Inácio Vieira de Melo.

Para participar do sorteio é preciso ser seguidor do blog Cavaleiro de Fogo.
Caso ainda não seja um seguidor, aproveite para se tornar um (à direita, em SEGUIDORES - logo após a capa do CD A casa dos meus quarenta anos).
Em seguida, basta colocar seu nome completo e seu e-mail no espaço dos comentários desta postagem e responder a seguinte pergunta: Qual o título do texto escrito pelo poeta Salgado Maranhão para a contracapa da segunda edição do livro A terceira romaria?

COMO SERÁ FEITO O SORTEIO:
Os nomes dos participantes serão escritos em pequenos pedaços de papel, que serão dobrados e depois serão colocados dentro de um copo. O copo será sacudido várias vezes e depois serão retirados – um de cada vez – os três pedaços de papel com os nomes dos sorteados.
O resultado será divulgado aqui no blog. Após a divulgação os vencedores deverão mandar seus endereços para o e-mail jivmpoeta@gmail.com

***A promoção é válida até o dia 6 de junho de 2011***

Os comentários desta postagem só serão liberados no dia 7 de junho *

A resposta para a pergunta do sorteio, você encontrará aqui no blog *

segunda-feira, 23 de maio de 2011

JIVM - MEMÓRIA

Remedios Varo

MEMÓRIA


Gosto de subir no telhado da casa
e olhar para dentro do quintal,
é lá que estão o menino e a arte.

A incompreensão vestiu o menino.
Ele se exibiu para o azul do dia
e para os olhos daquelas línguas.

O infante, dentro da sua solidão,
encontrou a estrada e caminhou
e enveredou por tantos descaminhos.

Quantas vezes dormiu ao relento?
Quantas vezes tombou e caiu?
Quantas vezes seguiu por miragens?

Ah essas cicatrizes, esses calos
pelo corpo e pela alma do menino.
Ah, esse deserto de ilusão.

Mas, assim como existe a sede,
existe a imensidão do mar,
e as coisas vão à balança.

E o que é viver cada dia
senão beber da água
e entender os merecimentos?

Ouço vozes – muitas vozes –
dentro de mim mesmo,
todas dizem que é preciso prosseguir.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO



MUISTO


Pidän talon katolle nousemisesta
ja tilalle katsomisesta
- siellä ovat poika ja taide.

Ymmärtämättömyys puki pojan.
Hän paljasti itsensä päivän siniselle
ja noiden kielten silmille.

Poika kohtasi yksinäisyydessään
tien ja käveli
kääntyen monille harhapoluille.

Monta kertaa nukkui kasteessa?
Monta kertaa kaatui ja putosi?
Monta kertaa seurasi kangastuksia?

Voi noita heinäsirkkoja, noita känsiä 
pojan ruumiissa ja sielussa.
Voi tätä kuvitelman autiomaata.

Kuten on olemassa jano,
on meren valtavuus
ja asiat tasapainottuvat.

Ja miten elää joka päivä
juomatta vettä
ja kuulematta ylistystä?

Kuulen ääniä – monia ääniä –
sisälläni,
kaikki sanovat, että täytyy kulkea eteenpäin.


TRADUÇÃO PARA O FINLANDÊS:RITA DAHL


Cinco poemas da segunda edição de A terceira romaria foram traduzidos para o finlandês pela escritora Rita Dahl para publicação em revista de literatura de seu país.
Rita Dahl nasceu em 1971, em Vantaa, na Finlândia. Publicou os livros de poemas Kun luulet olevasi yksin (Loki-Kirjat, 2004), Aforismien aika (PoEsia, 2007), Elämää Lagoksessa (ntamo 2008), Aiheita van Goghin korvasta (Ankkuri 2009). Publicou também um livro de viagem sobre Portugal, O Encantador de Milles Escadas (Avain 2007) e mais recentemente o livro A liberdade da palavra finlandizada (Multikustannus 2009), entre outros títulos. Foi responsável pela revista de poesia Tuli & Savu, em 2001, e também pela revista cultural Neliö (www.page.to/nelio). Rita Dahl foi vice-presidente do PEN Clube da Finlândia durante 2006-2009, e lá realizou um trabalho com escritoras da Ásia Central, que resultou em um encontro internacional e duas antologias.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS RECEBERÁ OS POETAS ELDER OLIVEIRA E JOÃO DE MORAES FILHO




Amanhã, sexta-feira, 13 de maio, o projeto Uma Prosa Sobre Versos, da cidade de Maracás, receberá os poetas baianos Elder Oliveira e João de Moraes Filho.
O projeto já está no quarto ano, o que faz de Maracás a cidade pioneira da poesia no Vale do Jiquiriçá e uma referência no estado da Bahia e no Brasil.
Observando os resultados positivos, os municípios de Iramaia, Nova Itarana e Planaltino estão desenvolvendo projetos similares. No dia seguinte, sábado, 14 de maio, Os dois poetas participarão de um evento da mesma natureza na cidade de Iramaia, onde também serão homenageados.
Nas duas cidades os poetas serão recebidos com um recital de suas obras por dois grupos de recitadores, o Grupo Concriz, da cidade de Maracás, e o Grupo Renascer, da cidade de Planaltino. O Grupo Concriz recitará poemas de Elder Oliveira. Já o Grupo Renascer recitará poemas de João de Moraes Filho. Haverá um momento musical com Elder Oliveira, que além de ser um poeta valoroso é um violeiro de boa cepa.
Em seguida, O poeta José Inácio Vieira de Melo, curador do projeto, apresentará para o público os dois poetas convidados, com quem fará um bate papo sobre literatura e assuntos afins. Aberto às comunidades maracaense, iramaiense e cidades vizinhas.
Os dois eventos são gratuitos, e começam às 19 hs 30 min. Em Maracás, acontecerá no Auditório Municipal. Em Iramaia, na Câmara Municipal de Vereadores. Vá e leve seus amigos.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

VERÔNICA DE VATE - ELDER OLIVEIRA



ELDER OLIVEIRA nasceu aos 5 de dezembro de 1968 em Poções, Bahia, cidade localizada a 444 km de Salvador. Viveu a infância em Nova Canaã, cidade banhada pelos rios Gongogi e Vigário, situada a 45 km de Poções. Publicou seus primeiros versos em livretos e tablóides impressos na Tipografia Poções Ltda, de propriedade de seu tio Eurycles Macedo, poeta e jornalista autodidata. Reside atualmente em Vitória da Conquista, cidade pólo cultural e econômico da Região Sudoeste de Bahia. Participou de diversas antologias, dentre elas Antologia e Memória do VII Festival de Inverno da Bahia (Corec – 1997); O Pescador de Sonhos (da Academia de Letras de Jequié – 1998); Grandes Escritores da Bahia Vol. III (Litteris Editora – RJ, 2001); Anuário de Escritores 2001 (Litteris Editora – RJ, 2001); Concerto Lírico a Quinze Vozes (Aboio Livre Edições – Salvador – BA, 2004). Publicou os livros Malungos e Vapores & Outros Poemas (Edições UESB – Prêmio Zélia Saldanha, categoria Poesia, 2001) e O Curumim Espião (2008). Além de poeta, Elder Oliveira é músico, com canções em parcerias com importantes nomes do cenário musical do Sudoeste da Bahia.


ÁLBUM CÓSMICO


Pessoas geografitam
No gelo espesso da inconsciência

Noites gravitam instantâneas luas
Sobre vagalumes automáticos

Pássaros desovam os incandescentes
Pigmentos da aurora
Onde

A lírica tristeza da manhã
Nos contempla com seus grandes olhos



UM POEMA RASO PARA UMA
MOCINHA LINDA LÁ DO CONDADO
SERTÃO DA PARAÍBA


De todos os lados da coisa
Brota um desejo louco
De andar descalço
De comer as frutas
Bodocar as casas
Enfrentar a onça
Lambuzar o corpo
Ver chegar o trem
Malinar no sino
Junto com Clarissa

Mesmo sabendo que sou
Menos importante que a missa

sábado, 7 de maio de 2011

VERÔNICA DE VATE - JOÃO DE MORAES FILHO



João Vanderlei de Moraes Júnior / JOÃO DE MORAES FILHO (nascido em Salvador e filho de Cachoeira, recôncavo baiano - 21/03/1977), ex-Secretário de Cultura e Turismo de Cachoeira, professor, poeta e gestor cultural, graduado em letras pelo ILUFBA e mestrando em Cultura e Sociedade/Instituto de Humanidade Artes e Ciências/Centro de Estudos Multidisciplinar em Cultura/UFBA, onde desenvolve pesquisa no campo das políticas culturais para o acesso ao livro e promoção leitura na América Latina. Fundou em 2005, na cidade de Cachoeira, a Casa de Barro Cultura Arte Educação, onde coordenou o Programa Oju Aiye de Promoção da Leitura, no qual se inseriam os projetos Caruru dos Sete Poetas: recital com gostinho de dendê, as Oficinas de Investigação e Criação Literária Poesia Ouvida, Dedinho de prosa e cadinho de memória, além das Edições Oju Aiye e o Projeto de Intercâmbio Lítero-cultural Bahia Caribe Colombiano em parceria com o Taller Siembra que realiza o Festival Internacional de Poesia de Cartagena, na Colômbia, do qual foi representante no Brasil entre os anos de 2006 a 2010.
 Publicou Pedra Retorcida: Fundação Casa de Jorge Amado /  Prêmio Braskem de Cultura e Arte  2004; Portuário: Casa de Barro Edições, 2006 e  Em nome dos raios: Expressão Editora, 2009; UNO – Tríade para encantamentos (PRELO).
 Participa das antologias Murilizai-vos: 100 anos do poeta Murilo Mendes, Edufba 2001; Concerto Lírico a Quinze Vozes, Aboio Livre 2004, e XXI poetas de hoje em diante, Letras Contemporâneas 2009.  


PROJEÇÃO CACHOEIRANA EM 16 MM

I

Por baixo dos tapetes
escorrem versos cadenciados
de rotina concreta,
enquanto o ano encerra quatro estações.

II

Lá fora, a procissão carregava um corpo nu
sem códigos de barras nem etiquetas azuis.

III

Exilado,
fujo em barquinhos de papel
jogados em dias de chuva
no filete de uma lágrima.

IV

Olhando em janelas
lembro das felicidades,
Baudelaire, Narlan,
aquele homem no bar do horizonte
com braços abertos e a felicidade do mundo,
num milagre antecipado.

V

Todos os sóis nascem pontualmente
em portos de margens estreitas
no exprimido das cidades.

VI

... fujo fingindo-te amor
para não morrer dizendo não.



VIAGEM À ORDEM DE HORIZ
Ao confrade Cleberton Santos


Uma casa esturricada
enfeita caminhos erguidos
na secura da terra, mãe
da vida quando socorrida
da sede que racha sertão
e toda pedra atirada.

Aquela casa ia sozinha,
vitoriosa; tangia-nos
vestindo o caminho do sol
arrancado de nós. Estrada,
assim ia, nas tardes, nas tardes.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO: ODORES E CORES DE SEU "ROSEIRAL"

Por Wender Montenegro

Foto: Carol Reis


A poesia está viva e ainda conserva seu cheiro de flores! Digo isso a propósito do livro Roseiral, do poeta alagoano, radicado na Bahia, José Inácio Vieira de Melo, publicado pela Escrituras Editora - SP, em 2010.
Roseiral é um grito. Um grito de brasa, um acerto de contas com um tempo passado e opressor, uma “intensa rebelião contra os valores arcaicos do mundo patriarcal que massacram o indivíduo”, conforme as palavras de Astrid Cabral na orelha do livro.
A obra está dividida em cinco seções. Na primeira delas, A idade da pedra, vemos contido um símbolo para a infância do mundo, do homem e do poeta. E já no poema de abertura, Transmutação, JIVM lança sua pedra fundamental na cabeça de Deus, tornado aqui metáfora para um patriarcalismo exacerbado; este sim, alvo exato das pedras do poeta.
Quando o autor de A terceira romaria nos leva à infância, é com mestria que o faz. Assim, os versos iniciais do poema Fuga nos dão a medida do seu manejo com as palavras. Ele diz “As crianças galopam goiabeiras, / sentem o gosto da paisagem de êxtase.”
Da seção Roseiral pode-se ver “a beleza vermelha do sangue na flor”. A rosa passa a ser, então, o símbolo desse conjunto de poemas: a rosa flor, a rosa cor, a rosa mulher, a rosa mística; embora no poema A rosa viva, que transcrevemos aqui, por seu elevado lirismo, ainda continue incrustado o símbolo da pedra:

Estas rosas que vês em mim são brasas.
Por isso, muito cuidado ao tocar
em suas pedras – pétalas sagradas.

Minhas palavras ardem a forjar
estas flores que canto por prazer
e que dão febre e fazem delirar.

Meu coração é mesmo a rosa viva.
Por isso, muito carinho ao pegar
suas pétalas – pedras tão aflitas.

Desta roseira, destacamos ainda outros sonetos e poemas de igual envergadura e valor lírico-metafórico, como é o caso de Rosa Mística, Pintura Rupestre e Dança das Rosas.
Em Odisseia, terceira parte do livro, JIVM rende bela homenagem ao nosso ilustre poeta Gerardo Mello Mourão, ao dedicar ao vate cearense o poema Invenção da Poesia. Esse poema, que parece ser o grande adeus de José Inácio a um tempo conservador que lhe impungiu feridas e golpes amargos, começa com a partida do poeta: “Pele vestida, distribuída e refeita, / Parto para o princípio do labirinto”. Ao final, temos a justificativa para essa partida/mudança, quando o eu-lírico afirma “que a peripécia não é chegar, / que o coração só tem um fim: / ao som do coro das sereias / cantar o ciclo da origem.”
Percebemos aqui, uma grande busca do poeta pela origem, mesmo sem bússola, sem timoneiro a lhe guiar. Assim é que, vemos ao longo de Odisseia, trechos como esses: “Perambulo sem ter rumo certo: / Estrangeiro, de mim tão disperso”, ou quando afirma que “Antes dos nomes das coisas, / os dedos do poeta buscam / as pistas deixadas pelo eu / na viagem feroz, brusca / e sem roteiro.” Ou ainda quando diz, no poema Fronteiras: “Perdido sem lua nem uivo, / Para mim só tem um caminho: / Riscar esporas no vazio.”
Na seção A calçada dos meus quinze anos, o poeta nos faz ouvir um grito típico de rebeldia adolescente; e aí, José Inácio pede a proteção de Walt Whitman, que lhe empresta a epígrafe: “Solto meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo”.
Esse grito de Inácio está presente no poema Soluço, em que o autor de A infância do Centauro diz: “E este soluço que saiu da casa do medo / está cheio de coragem”. Importante é perceber que mesmo ao gritar sob as queimaduras de sua realidade, a voz do poeta sai cheia de lirismo, como podemos ver no poema Vingança, onde ele afirma: “Eu vou me vestir de índio para tirar teu escalpo / e vou dançar ao redor da fogueira dos tempos, / e no caldeirão dos meus prazeres / cozinharei tua carne morena.”
Desta seção, destacamos o poema Abandono, onde o poeta mais uma vez deixa o cheiro de seu lirismo peculiar: “E mais uma vez subo ao telhado da infância / e com os passarinhos vou aprendendo / a ser o voo dentro da paisagem.”
Também merece destaque o poema Cântico dos Cânticos, em que o poeta dialoga com Salomão e seus cantares, mas reforça a dose de erotismo tão vicejante ao longo deste jardim de rosas escarlates. Assim, lemos os versos: “Das tuas nádegas tão montanhosas / o horizonte é mais macio e a minha linguagem / saboreia o mel do fel que trazes.”
Saímos do Roseiral após a leitura de sua última seção, A casa dos meus quarenta anos, cujo poema de título homônimo, nos sugere a ideia de um caminho novo trilhado a partir do momento presente.
E hoje, quando o poeta descansa/ressona à sombra das quatro décadas de sua existência, nessa casa em cujos cômodos largos “habitam uma enorme solidão / e muitas vontades de vida”, ele parece dialogar com seus fantasmas, ao som da litania dos sapos e grilos e rãs e bacuraus. Um diálogo travado nos quartos da casa/vida de José Inácio, e que só pára quando “uma multidão de ventos vem assobiar dentro dela”, penetrando-a através de suas “janelas azuis abertas para o azul”. Só então, no branco caiado do dia, quando “tudo que é bicho se cala”, o poeta pode, enfim, enterrar suas ilusões e “se lançar em outros abismos, nos caminhos que o futuro guarda”, como bem escreveu Eliana Mara Chiossi, no posfácio deste Roseiral.


Wender Montenegro é poeta e ensaísta. Publicou o livro de poemas Arestas (2008). Artigo publicado no blog Poemas de Wender Montenegro, em 14 de abril de 2011. 

segunda-feira, 25 de abril de 2011

JIVM - ESTRANGEIRO


ESTRANGEIRO


 Quando chegaste por essas paragens
com tua bússola indicando o norte,
com teus espelhos pra fazer barganha,
não parei para te compreender.

Tu trazias molduras tão distantes
de tudo o que a terra me oferecia.
Foste forjando tua construção
para criar uma nova paisagem.

Tua verdade era devastadora.
Não fazias conta das minhas cores.
Agora, ao me olhar no espelho, não vejo
nem o vulto do meu rio liberto.

Perambulo sem ter rumo certo:
estrangeiro, de mim tão disperso.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

domingo, 17 de abril de 2011

ROSEIRAL DE VERTIGINOSA POESIA

Por Alexandre Bonafim


Ontem completei 43 anos. Estava no Reino da Pedra Só. Foi um dia tranquilo, frio e agradável. Passamos o dia, meus filhos e eu, andando à cavalo por dentro da caatinga. À noite, acendi uma fogueira e fiquei sentado, com Linda ao meu lado, ouvindo músicas de Raimundo Fagner, Alceu Valença, Amelinha, Geraldo Azevedo, Ednardo, Elba Ramalho, Belchior e Zé Ramalho.
Amanhã vai ser lançada, na cidade do Rio de Janeiro, a revista Poesia Viva, da editora Uapê.
Para comemorar meus 43 anos, publico, logo abaixo, o artigo que o poeta e ensaísta Alexandre Bonafim escreveu sobre o meu Roseiral e que está presente na revista Poesia Viva.

JIVM

Ilustração: Daniel Biléu

ROSEIRAL DE VERTIGINOSA POESIA
Por Alexandre Bonafim


A palavra, quando desnudada pelas mãos do poeta, faz-se destino dos astros, latejar do corpo, vertigem dos gametas em plenitude, dos pulsos em estertor. A palavra torna-se a vida inteira do cosmos, a memória das marés, dos relâmpagos. O poeta é o biógrafo da humanidade de todos os tempos, o historiador dos sonhos, o escriba dos devaneios. Em seu sangue está inscrito a força atávica dos mitos, das lendas, das paixões em estado de nascimento perpétuo. O poeta é o irmão dos alumbramentos, o pai da inocência, o filho primogênito de toda sede, de toda fome.
Nesse sentido, José Inácio Vieira de Melo é poeta em essência, em integridade, pois carrega o vigor da poesia não somente na alma, mas na pele, no ritmo das veias. O autor de Roseiral não escreve apenas poesia, ele existe na poesia, por isso a sua escrita não é mero artifício da linguagem, mas vivência plena da palavra viva, da palavra que se faz pão e milagre. José é escultor de devaneios, amante das epifanias.
Sua escrita descende da estirpe dos poetas mágicos, dos poetas visionários, tal como o foram Jorge de Lima, Gerardo Mello Mourão e José Alcides Pinto. O poeta de A infância do centauro é, para lembrar uma expressão bem ao gosto de Rimbaud, um vidente do verbo. Por isso sua escrita é sinestésica, é sensitiva, pois José Inácio, tal como o poeta de Charleville, desregra todos os sentidos na busca de uma vivência plena do estar no mundo. Nesse sentido, o escritor alagoano da Bahia move-se por “um saber erótico que ama o mundo que descreve” (MAFFESOLI, 1998, p. 14). Ele faz “sobressair a riqueza, o dinamismo e a vitalidade deste mundo-aí”. Por essa percepção ultra-sensível, o eu lírico dos poemas de José Inácio está “atento à beleza do mundo, às suas expressões específicas”; ele “participa do esforço criativo” do próprio cosmos (MAFFESOLI, 1998, p. 20-21). Tal conhecimento, de natureza intuitiva, irrompe de um “nascimento com” o sensível. Saber encarnado, pulsante, vivo, tal forma de conhecimento estabelece um encontro íntegro entre o ser do homem e o real.
Toda essa força sensitiva do corpo, da alma, energia inscrita na pele e na essência do poema, podemos novamente vislumbrar no novo livro de José Inácio, obra singelamente intitulada Roseiral. Em um belíssimo poema dessa sua nova coletânea, o poeta dá-nos a dimensão exata de tudo o que afirmamos até aqui:

FUGA


As crianças galopam goiabeiras,
sentem o gosto da paisagem de êxtase.
As crianças são deuses, mas não trazem
o germe do sofrimento, só brilham.

Quando o homem chega dentro da criança,
o infinito cai e a casa começa
a ter entranhas, a criar paredes.
Quem mais sofre com isso são as pedras:

sem sangue, sem respiração, sem ritmo,
seus escombros preenchem toda terra;
seus sonhos – fuzilados no horizonte.

Eu ainda saio dessa ciranda,
entro no primeiro buraco negro
e vou me inventar em outra galáxia.
(pag. 18)

Poema de associações lexicais raras, de grande inventividade, “Fuga” é um texto tipicamente bachelardiano, no sentido em que nele o poeta acende em si a infância imortal, o devaneio mais antigo de sua memória de criança. Bachelard, em seu livro A poética do devaneio, delineia uma “topografia” do imaginário poético, na qual memória e invenção se mesclam, transfigurando os eventos do passado. De acordo com o filósofo francês, há em todo homem um “núcleo” de infância, verdadeiro arquétipo, graças ao qual o sonho e o devaneio adquirem importante atuação na existência humana. Assim, conforme explicita Bachelard, o homem só pode alcançar a sua liberdade através da imaginação. É o devaneio, portanto, que liberta o homem da fatalidade do real, permitindo-lhe uma existência nuançada pelo onirismo. Dessa forma, o passado ultrapassa o estritamente factual e objetivo, ele torna-se uma criação, uma obra de arte:

[...] o devaneio voltado para o nosso passado, o devaneio que busca a infância parece devolver vida a vidas que não aconteceram, vidas que foram imaginadas. O devaneio é uma mnemotécnica da imaginação. No devaneio retomamos contato com possibilidades que o destino não soube utilizar. Um grande paradoxo está associado aos nossos devaneios voltados para a infância: esse passado morto tem em nós um futuro, o futuro de suas imagens vivas, o futuro do devaneio que se abre diante de toda imagem redescoberta. (BACEHLARD, 1996, p.107)

Tudo isso pode ser confirmado no poema “Fuga”. Nesse texto, portanto, José Inácio teatraliza a memória, busca no próprio passado o que há de universal em sua seiva, de cósmico em sua vida. Nas belas metáforas desse seu poema, antevemos a liberdade da infância, liberdade despida inclusive de morada, de paredes, de pedras (a casa só se erige com a chegada da idade adulta). Por isso o poeta conclama o existir no buraco negro, nos braços do universo, porque nesse recanto mágico sua vida guarda o gosto de tudo o que é inaugural, de tudo o que se enraíza na infância.
Tal como nas diretrizes de T. S. Eliot, José reinventa a palavra poética a partir da tradição. Essa é a sabedoria dos criadores maduros, dos que amam a poesia verdadeiramente, pois não podemos nos esquecer que o grande lirismo é Homero, é Dante, é Camões. A poesia, para ser madura, tem de nascer do que é vivido até o âmago, do que nasce do húmus mais fecundo da tradição. Por isso José Inácio é um inventor, porque sabe escrever a partir da sábia e humilde aprendizagem com os mestres. Por isso, inclusive, o poeta desvela-se grande sonetista em sua mais recente obra. Soa, nos belos sonetos do livro, o lastro vivo de Jorge de Lima, outro grande inventor, de nossa língua, nesse gênero:

ROSA MÍSTICA


Além do sino de bronze, navego
os enlevos internos do poeta,
viajo entre jardins de algarobeiras
e de mandacarus, buscando a Rosa

Mística. Codifico meus silêncios,
aparição de vozes e de luzes,
como paixões centrípetas e avulsas
que arremessam suas bocas à vida.

Porém, ao longo surgem as tormentas.
E a voz segura do poeta rompe
a cera dos ouvidos, leva o mel

ou a pimenta às vísceras abertas
do sentimento. E vejo a Rosa Mística:
origem, infinita criação.
(pag. 33)

A rosa do poeta congrega aquele lastro típico da lírica sacra, em que erotismo e religiosidade se comunicam num entrecruzamento de energias vivas, pulsantes. Aliás, o sagrado e o erótico nascem do cerne selvagem do existir, daquele ponto obscuro do ser pelo qual nos comunicamos com a nossa essência incognoscível: o inconsciente, a morte, a eternidade, o mistério da existência. Essa conjugação redunda em uma manifestação especial: o poema. A palavra torna-se a via de acesso ao âmago do corpo feminino, ao corpo em sua sagração plena e orgiástica. Verbo e corpo são o pólen dessa rosa germinada pelo alumbramento de um eu lírico encantado pelo tato, pelo sabor, pela visão, pela audição:

DANÇA DAS ROSAS


Rege a rosa impensada a duração
e, do ventre do espinho, nasce a forma
terrena da eternidade que passa.
Ah dolorosa dor que me perpassa.

Sozinha, no ar, minha vulva pensa
– rosa impensada a reger duração –
e digo aos tornozelos e aos jambos
esses incomparáveis sons que sinto.

Da régua restam passos a dançar,
os artelhos, as carnes, o infinito,
resta o canto que busca a alegria.

Com a geometria dos meus pés,
pisar na grande terra masculina
e guardar os segredos da roseira.
(pag. 37)

As rosas, metáfora do cerne do prazer, espocam em encantado erotismo: dulcíssima lascívia feminina com seus saborosos enredos de tornozelos, de braços, de âmagos sumarentos, plenos, abertos ao êxtase e ao infinito. O poeta torna-se artesão do tato, escultor de formas ondulantes, entreabertas pela acuidade visual, sensível, da palavra. O poema, como uma luneta mágica, permite-nos vislumbrar essa epifania dos corpos em arabesco, em movimento caleidoscópico, como a própria corola da rosa em festa.
Com grande sensibilidade, essa consubstanciação entre corpo e cosmos motiva poemas em que o erotismo surge como força vital, força motriz do próprio poema. Eros irrompe, na lírica de José Inácio, como energia telúrica, arrebatamento místico, resgate da sacralidade do amor. Em sua obra, através de imagens de grande beleza, o corpo baila enamorado, movido pelos fascínios do outro. Um intenso desejo manifesta-se no mundo e pelo mundo. Trata-se de um desejo cósmico, um desejo que se reflete no universo, configurando a beleza total. O erotismo transforma-se na encarnação da própria poesia, poema que se faz corpo e sangue, poema que se concretizou em carne e desejo. Octavio Paz reflete sobre a íntima relação entre o erotismo e a poesia: “A relação entre erotismo e poesia é tal que se pode dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poética corporal e a segunda uma erótica verbal” (PAZ, 2001, p.12).
José Inácio, pelas suas rosas, desvelou-nos um livro inventivo, de versos bem construídos e lapidados, em imagens poéticas de grande plasticidade e beleza. Como na poesia dos portugueses Herberto Helder e António Ramos Rosa, as combinações lexicais têm grande efeito de surpresa e suscitam um forte sentimento extasiante. Poesia a caminhar por paragens de rara sintaxe, de surpreendente conjugação de imagens, Roseiral nos surpreende por ser justamente elaborado pela palavra sensitiva, intuitiva, nascida, enfim, daquele “selvagem coração da vida”, tal como podemos vislumbrar em James Joyce e Clarice Lispector.
Por serem gestadas por palavras inaugurais, brindemos o carmim dessas rosas, pois delas ressuscitamos em êxtase!


Alexandre Bonafim é poeta, ficcionista e crítico literário. Mestre em estudos literários e doutorando em literatura portuguesa pela Universidade de São Paulo.


BIBLIOGRAFIA:
BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
MAFFESOLI, Michel. Elogio da razão sensível. Petrópolis: Vozes, 1998.
MELO, José Inácio Vieira de. Roseiral. São Paulo: Escrituras Editora, 2010.
PAZ, Octavio. A dupla chama. São Paulo: Siciliano, 2001.