domingo, 30 de janeiro de 2011

JIVM - NERO



NERO


Botei fogo no mundo, botei sim!
Um vento forte soprava do norte,
peguei o facho em chamas e ateei fogo
nas coivaras ao meio-dia em ponto.

A caatinga é uma fogueira só:
que coisa mais linda a língua do fogo
lambendo tudo que é garrancho e pau,
estalando e chiando no imo verde

dos espinhos dos pés de quiabento!
Oh, bom pastor, somente a luz do fogo
para purificar os quiabentos.

Agora, meu pastor, que as sarças ardem,
que estou na brasa do meu sentimento,
toco minha lira em louvor de Nero.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

SANGUE NOVO - VANNY ARAÚJO



PARTILHA DE DEVANEIOS – VANNY ARAÚJO nasceu em 19 de março de 1991, em Aracaju, Sergipe, e mudou-se para a capital baiana aos 10 meses. Sempre teve inclinação para as artes e desenvolveu uma paixão específica pela literatura, por ter vivido cercada de livros. Mantém desde 2007 o blog A vida é beijo doce em boca amarga (http://www.sophianonima.blogspot.com/), o que a permite compartilhar os seus devaneios e atenuar as suas angustias, através dos personagens que cria. Ingressou em 2009 no curso de Letras Vernáculas da Universidade Federal da Bahia. Tem como projeto de vida uma carreira voltada para publicações literárias. Vamos ouvir o que tem a dizer a mais nova Sangue Novo, a caçula do grupo.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Vanny, por que inventar de ser poeta? Ou já se nasce poeta? E o que é ser poeta? E o que é a poesia?

VANNY ARAÚJO – Acho que a gente já nasce sendo poeta. Com aquela marca característica de quem nasce assim, cabeça das nuvens, mania de pensar demais, de amar demais todas as coisas. Mas isso não significa que uma pessoa não possa se descobrir poeta ao longo da vida. Um analfabeto pode ser um poeta fantástico. Poesia não é só meia dúzia de palavras numa folha. Poesia pode ser até uma folha em branco. Poesia é sentimento. E ser poeta é compreender esse sentimento e enxergá-lo nas pequenas coisas.

JIVM – Quais são os poetas que lhe fazem delirar e que lhe acompanham nos seus sonhos? O que lhe inspira? Que autores são referenciais? O que anda lendo no momento?

VA – Ah, não saberia viver sem eles! Paulo Leminski, Alice Ruiz, Mário Quintana, Florbela Espanca, Elisa Lucinda. Gosto muito de poesia feita por mulheres. O que me inspira? Acho que o mundo me inspira. A tristeza do mundo. A angústia. Gosto de escrever prosa sobre seres humanos em situações limites. Porém, paradoxalmente, gosto de poesias doces, felizes, amáveis. Me identifico muito com o fantástico Caio Fernando Abreu. Acho que fomos parentes numa outra dimensão...
Ando lendo um livro que ganhei do namorado, A Casa da Mãe Joana, de Reinaldo Pimenta. Curiosidades sobre a origem das palavras. Gosto muito de etimologia e ele é super gostoso de ler.

JIVM – Você escreve prosa, poesia e prosa poética. O que diferencia cada uma dessas linguagens?

VA – Adoro histórias. Adoro escrever sobre pessoas que eu nunca poderei ser. Por isso gosto muito de escrever contos. Histórias curtas, na medida certa, sobre personagens às vezes não tão interessantes assim. Mas não consigo me dissociar da poesia enquanto escrevo em prosa. Por isso a maioria dos meus escritos se tratam de prosa poética. Com muitas imagens, ritmo, e metáforas fáceis de se visualizar. Acho que a diferença está mais no ler do que no escrever. Conseguiríamos versar qualquer texto se quiséssemos. E como eu falei anteriormente, poesia está em tudo que se vê...

JIVM – Como é fazer poesia em um tempo que privilegia a velocidade e especialização constantes, em um tempo de parafernálias tecnológicas que nos aproximam virtualmente e, muitas vezes, enfraquecem os encontros, os contatos físicos?

VA – Não acho que a tecnologia atrapalhe em nada, acho até que aproxima. Se nascesse no século passado, provavelmente morreria sem que uma só alma lesse meus textos. O blog me proporcionou uma vontade maior de mostrar o que eu mais gosto de fazer. O problema todo está na cabeça das pessoas. Uma tela não substitui um rosto, um teclado não substitui um aperto de mão, uma caixa de som não é a mesma coisa que a voz. Mas pode parecer tão mais fácil se esconder atrás de uma máquina!

JIVM – E você, moça de 19 anos, o que pretende com a sua escrita? Algum livro no prelo? Qual a novidade em estar vivo? E o que mais?

VA – Seria audácia minha dizer que pretendo viver disso. Mas, quem sabe? Sinceramente não me vejo fazendo outra coisa. Que o universo e todas as estrelas do céu conspirem a favor disso!
Não tenho nenhum outro projeto literário em vista, até o presente momento. Mas novamente, quem sabe? O que pintar, eu faço. Termino com uma frase de Caetano: "Se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria, isto pra mim é viver".

TRÊS POEMAS DE VANNY ARAÚJO

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AMARÁS


Meu coração outonou, meu destino soprou: amarás, amarás, amarás.
Até o último ato; até o último pranto.
É que eu nasci para amar.
E tenho como destino o triste, como sina, me entregar demais, me entregar total. Eu nasci para amar, e cada pedacinho de mim é amor; cada poro, cada pêlo.
Eu nasci pra ver o amor no espelho, amor diário, amor nas quinas e esquinas dos meus olhos, num suspiro sincero de alma.
Desde então, vou vivendo e vendo o desgastar das cordas do meu coração, amando mais, e sempre, e pronto, e só, e fim.
E no meu peito vibra tenso o aviso, a sorte: amarás, amarás, amarás.



EPOPEIA DRAMÁTICA DE UMA DONZELA BURLESCA


Minha vida sendo um romance
Seria daqueles bem mamão-com-açúcar
Daqueles que vendem em banca, sabe?
Eu a mocinha indecisa
Ele o rapaz ansiado
A gente passaria a maior parte separado
Eu vivendo com outros, ele distraindo outras
Se batendo e se desencontrando

Ou pior:

A gente poderia se amar, e não conseguir ficar juntos
Sabe-se lá por quê!
Eu seria bem sofrida, minha vida sendo um romance
E veria complicação em tudo
Seria tudo muito complicado
- Oh, meu amado! Eu te amo, mas não podemos ficar juntos!
Frescura, frescura, frescura...
Sabe do que mais?
Minha vida sendo um romance
Eu pularia logo pras últimas páginas
Pra me ver ficando pra sempre com você
Sem complicações
Sem desencontros
Sem controvérsias

Mas pensando bem, que graça teria?
Objetividade é pós-moderno demais
Eu sou romântica

- Até demais, até demais...



QUIMERA


Minha vida é procurar incansavelmente por uma metade.
Cada rosto que eu vejo, cada olhar que eu fito, o faço na vã esperança de reconhecer aquele que um dia chamarei de meu.
Um par.
Mas espero em vão... espero, e esperar tornou-se minha metade temporária.
É triste perceber isso, perceber que perco meu tempo ansiando por algo que não sei ao certo o que é. Ou se existe.
Mas é essa ânsia que me sustenta, que me afaga, que me consola. A ânsia de chamá-lo de meu bem, a ânsia de reconhecer nele a parte que faltava em mim.
Enquanto espero, e ah, como eu espero, vou contando os passos, os dias e as horas. Vou contando as nuvens eternas que me observam no azul do céu.
Invento amores platônicos, escrevo rimas insensatas, canto melodias inexistentes.
E guardo as histórias que lerei pra ele um dia, e ele rirá delas, ele rirá de mim enquanto diz que eu pareço um esquilo.
Eu serei o esquilo dele e ele meu menino-sol. E nós caminharemos nas calçadas de mãos dadas, enquanto chove fininho, ele recitando Neruda e eu bebendo coca-cola.
E seremos assim, dois-em-um, pra sempre. Minha vida sendo colorida pelos seus lápis, cada dia de uma cor.
"Serei...serás...seremos"
E meus poemas terão, enfim, sentido.
E minha vida terá, enfim, sentido.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

SANGUE NOVO - EDSON OLIVEIRA



CAPTAR O MUNDO ATRAVÉS DA PALAVRA – EDSON OLIVEIRA nasceu em Feira de Santana (BA) em 28 de julho de 1982. Vive e sempre viveu na pequena cidade de Santo Estevão, no interior da Bahia. É formado em Letras, especialista em Estudos Literários e Mestre em Literatura e Diversidade Cultural, e atualmente é professor língua espanhola e literaturas hispânicas da Universidade Estadual de Feira de Santana. Edson Oliveira é um poeta intuitivo, que embora jamais tenha publicado entende a poesia como a forma mais plena e espinhosa de existir. Indagado sobre a função da poesia, Edson acredita que seja “mexer os ponteiros de nossas vidas e desfazer à noite as verdades que construímos durante o dia”. Conheçamos um pouco mais suas idéias.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Qual a importância que a poesia tem na sua vida? Por que ser poeta? Onde você pretende chegar com a sua poesia? Enfim, para que serve a poesia?

EDSON OLIVEIRA – Penso que a poesia nos conduz a outra órbita, não ordinária, incomum, mas ao mesmo tempo vulgar e cotidiana. E se é possível falar em alguma função atribuída à poesia, imagino que seja mexer os ponteiros de nossas vidas e desfazer à noite as verdades que construímos durante o dia. Há quem diga que não tem função alguma a poesia, mas talvez esteja ai sua “funcionalidade”; não servir a nada nem para nada e perturbar aquele que a põe em movimento. E nesses movimentos que vão de um ponto a outro do hemisfério, sonho com uma poesia que um dia me leve sorrateiramente a mim.

JIVM – Que tempo de sua vida você dedica à poesia? Você é um leitor assíduo de poesia? Para você, é importante ter uma leitura de poesia? E o que anda lendo, atualmente? Tem recordação do primeiro livro de poemas que leu? E quais escritores são suas principais referências?

EO – Não sou um leitor assíduo de poesia, e nem tão pouco um poeta de ofício que tem escrivaninha, caneta e papel a seu serviço. Sou poeta intuitivo, que vê, sente, rumina, pára e escreve. Não sonho com os melhores versos do mundo, nem com um Prêmio Nobel de Literatura em minha estante; quero apenas captar o mundo, o meu mundo, através desse filtro imperfeito que é a palavra. E nessa busca me são úteis todos os poemas que já foram escritos ou aqueles que passeiam pelas ruas à espera de um sopro de vida. Leio Drummond, Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Gerardo Mello Mourão, Fernando Pessoa, Adélia Prado, Florbela Espanca, José Inácio Vieira de Melo, Sandro Ornellas, Lupeu Lacerda, Eliana Mara Chiossi, mas também me comove a poesia das cenas vulgares. E isso aprendi com o mestre Quintana, primeiro poeta dos meus olhos, cujos versos jamais esquecerei.

JIVM – Você é mestre em Literatura e Diversidade Cultural. Qual foi a contribuição que a academia trouxe para a sua criação? Como é que a poesia é tratada na academia? Há, realmente, poesia e prosa de ficção na Faculdade de Letras?

EO – Ainda luto contra esse título de mestre e todo o peso que sua liturgia acadêmica demanda. Meu avô está vivo há 101 anos, e este, sim, é que julgo mestre, de fato. Os outros são colecionadores de papéis e de diplomas, inclusive eu. Diante disso, embora o academicismo das letras tenha importância e materialidade para a formação de professores de literatura imagino que ele nos prive de acompanhar sem vícios o nascedouro efervescente das artes, neste caso a poesia; sem falar na blindagem que os grandes centros de pesquisa em letras apresentam quanto à chegada de nomes estranhos ao grande cânone literário.

JIVM – Qual a influência das outras linguagens artísticas – artes plásticas, cinema, música, dança, teatro, prosa, etc – na sua criação poética? Você também escreve prosa? Pratica alguma dessas manifestações artísticas citadas?

EO – Entendo que todas as artes estão conectadas. Elas dialogam entre si, se alicerçam mutuamente e ganham forma, cada qual, nos contornos de outra linguagem artística. Também é assim com a poesia, e ainda que eu não transite enquanto autor por outros campos da arte imagino que todos eles são evocados quando escrevo meus poucos versos.

JIVM – E o que anda aprontando o jovem Edson Oliveira? Quais projetos o movem? O primeiro livro já está esboçado? Algum projeto de publicação? E que mais?

EO – Não tinha maiores planos quanto à publicação de meu primeiro livro. Mas agora me chegou às mãos a oportunidade de integrar o projeto Sangue Novo - 21 poetas baianos do século XXI. Sem dúvidas, essa será uma grande vitrine, e eu espero saber aproveitá-la da melhor maneira possível. Tenho aprontado poemas pra essa coletânea (rs...).

TRÊS POEMAS DE EDSON OLIVERIA
















À MUSA


Minha musa
é uma égua de dentes largos
a romper-me os bagos em noites girassóis

Com cabelos de ferrugem e olhos cor de anum
a filha da puta
sussurra verso seco
em meus ouvidos

Sinto arder a pena
se a ninfa preta
cruza
e geme palavras turvas

Quando canta,
vejo tremer a carne da cadela
Na sua cauda, escuto o fogo que escorre de mim.

Ah! Como é bom morrer...

Mas depois do gozo, a mariposa encolhe as asas
guardo minhas pernas no armário
e fico triste de tanto vomitar.

Dói-me o peito perder-te, musa.



ODE AO POETA


Tua língua
dança sobre a lâmina
teu sangue sujo
passeia pelas curvas
de teu corpo
e inunda as ruas da cidade.

Vejo o mundo explodir
de tuas veias, e

as pedras
os bancos
os pássaros e
as bicicletas

são da cor
do teu verso, e
o teu verso
é da cor do mendigo
que enfeita as esquinas.



QUANDO EU MORRER


Quando eu morrer
não quero flores brancas e amarelas
ou verso doce em meus ouvidos
não quero sinos e estrelinhas
nem o pranto de um amor sofrido

Quero a risada insana
quando eu morrer
e a dança leve
dos lírios antigos

Quero mãos livres do peito aberto
e a terra pesada
sobre meu jazigo

Quando eu morrer
quero morrer devagarzinho
pra lembrar dos sonhos das noites frias
e da paixão de ter vivido.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

SANGUE NOVO - BERNARDO ALMEIDA



UM CAMINHO NATURAL – BERNARDO ALMEIDA nasceu em Salvador (BA), no ano de 1981. Passou a infância em Recife, mudando-se para São Paulo na década de 1990. Em 2001, retornou à cidade natal, onde vive até o momento. É poeta, fotógrafo digital [desenvolve imagens artísticas sob o conceito da hibridez], escritor de contos, roteiros e tiras, compositor e livre pensador. Mantém o site http://www.bernardoalmeida.jor.br/, no qual expõe poesias, reflexões e imagens híbridas. Estreou em 2005 com dois livros, Achados e Perdidos/Crimes Noturnos (poesia) e Acorde Violento (contos). Participou das antologias poéticas Labirinto de espelhos (2007), Caderno Literário Impresso (2008), O Imaginário do Mar e do Navegador (2009), entre outros. Quando criança Bernardo Almeida escrevia seu nome em versos, portanto ser poeta foi um caminho natural. Vamos ver o que pensa o escritor fluido que sente a poesia como uma fratura exposta.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Para o poeta Schiller “a poesia é uma força divina e misteriosa, que age de maneira incompreendida”. E para você, o que é a poesia? E por que ser poeta? É algo imprescindível em sua vida?

BERNARDO ALMEIDA – Eu sinto a poesia como uma fratura exposta. É quando a pele rompe, o osso brota e o sangue jorra que enxergamos, de fato, o que há dentro de nós. É uma forma de autoconhecimento bastante impiedosa, apesar de eu não acreditar que a dor seja necessariamente a única fonte de inspiração de um poeta. É uma experiência sublime, bastante íntima, e, ao mesmo tempo, comum a todos – seja como criador, seja como leitor. No entanto, também acredito que a poesia possa ser o momento anterior a essa fratura, quando ainda não sabemos o que se esconde sob a pele e ficamos a imaginar.
Sobre ser poeta, acho que foi um caminho natural. Simplesmente, segui o fluxo e desemboquei nisso. Não consigo me enxergar apartado da poesia. Ser poeta muitas vezes incorre em baixas no campo de batalha da vida, mas isso não me intimida. Ao contrário, traz mais lenha à fogueira.

JIVM – Como a poesia chegou na sua vida? Lembra do primeiro livro de poesia que leu? E agora, qual livro está lendo? E quais são seus autores referenciais?

BA – Acredito que o meu primeiro contato com os versos aconteceu quando estava aprendendo a escrever o meu nome completo. Eu insistia em escrevê-lo versificado. Agora, livro de poesia, lembro-me de um, quando morava em Recife ainda na década de 1980, que trazia poesias de Manuel Bandeira, Drummond e Cecília Meireles. Mas, não recordo o título da obra.
No momento, estou lendo Poemas e Ensaios, de Edgard Allan Poe, Outono Transfigurado, de Georg Trakl, Ode ao Vento Oeste e Outros Poemas, de P. B. Shelley, além de alguns poemas de Nietzsche, em A Gaia Ciência. Estou terminando também a leitura de um livro do Marquês de Sade chamado “Escritos filosóficos e políticos” no qual achei uma poesia bastante interessante dele. Fora esses que citei, sempre mantenho no meu criado-mudo alguns autores, que são como companheiros de bar. No entanto, ficam ao lado da cama em forma de livro, e o máximo que chegam perto do álcool é através dos respingos da minha saliva ao ler em voz alta seus textos. São eles: Baudelaire, Bukowski, Pablo Neruda, Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Augusto dos Anjos, Genaro de Vasconcelos, Castro Alves, Antero de Quental... Ficam divididos em duas pilhas ao lado da cama junto com outros títulos em prosa. Tenho mania de ler vários livros ao mesmo tempo... Meus autores preferidos, para não cometer injustiças, são aqueles cujas obras ainda estão na minha biblioteca – seja física ou virtual (Rimbaud, Dylan Thomas, Maiakóvski, Leminski, Vinícius de Moraes, Walt Whitman, Fernando Pessoa, Sylvia Plath, Ediane do Monte, Leonard Cohen, Elizeu Moreira Paranaguá e mais uma galera).

JIVM – Como você analisa o cenário literário da Bahia? Principalmente de Salvador, que é a cidade em que você vive? E a população de Salvador tem conhecimento dos seus autores contemporâneos? Em caso negativo, o que poderia ser feito para que os poetas, e os escritores em geral, fossem mais lidos e, consequentemente, mais conhecidos e seus livros vendessem mais?

BA – Na Bahia, o cenário literário é bastante plural. Percebo que há muita gente escrevendo, mas não há estrutura editorial aqui. Então, boa parte do que se publica tem interferência do Estado, através dos editais. Acho importante a existência desse tipo de auxílio, mas o artista perde muito com essa vinculação, que representa um modelo bastante ultrapassado. A arte, para mim, teve um papel libertador. De acordo com esse ponto-de-vista, não compreendo como a associação de um escritor e sua obra com as estruturas governamentais de poder de uma sociedade possam contribuir para a manutenção desse caráter intrínseco à arte. Os artistas sempre estiveram do outro lado quando governos de direita e esquerda tentaram oprimir e desrespeitar ainda mais os direitos humanos.
A população de Salvador conhece pouco sobre quem são seus autores contemporâneos. De uma forma geral, para um número significativo de pessoas, tivemos apenas Castro Alves, Gregório de Matos, Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro. Talvez eu esteja exagerando. No entanto, isso não reflete o grau de interesse das pessoas daqui pela literatura, que é razoável para um País como o nosso - repleto de analfabetos.
Acredito que se os educadores tivessem mais interesse pela literatura, sobretudo pela poesia, teríamos um número maior de apreciadores. Acho também que o formato dos eventos literários precisa mudar. Infelizmente, tudo o que não tem cara de shopping center, tudo o que não envolve espetacularização, atrai menos público nos dias atuais. No final de dezembro, fui a um evento de literatura no Teatro Castro Alves que fazia dó. A platéia era composta basicamente pelos expositores.

JIVM – Qual a contribuição que as novas tecnologias trouxeram para literatura? E o livro, está com seus dias contados? Um novo suporte mais prático poderá aumentar o número de leitores?

BA – As novas tecnologias facilitaram a disseminação de obras e autores de uma maneira fantástica. É um canal de comunicação poderoso, sobretudo para escritores independentes. Quando liberei gratuitamente no meu site (www.bernardoalmeida.jor.br) dois arquivos de poesia, Achados e Perdidos e Crimes Noturnos, não imaginava que chegaria em 2010 com mais de 20 mil downloads. A internet nos tornou menos reféns de editoras. Penso que os leitores de e-books têm tudo para se popularizarem no Brasil, e isso vai espelhar o interesse dessa nova geração pela leitura. No entanto, não acredito que o livro esteja com os dias contados. Talvez, o formato livro, em alguns casos, sim. Vejo muitas pessoas baixando e-books, gratuitos ou pagos, e imprimindo eles depois. Por outro lado, eu mesmo tenho muitos e-books no computador os quais comprei, posteriormente, uma cópia em papel. Dá para conviver sem que o autor sofra com isso. Na verdade, ele só tem a ganhar porque cada formato está ligado a um tipo de público. Então, o que acontece é uma adequação para que mais pessoas possam ter acesso a obras literárias.

JIVM – E o que mais? Quais projetos? Já pensa em publicar o primeiro livro?

BA – Na verdade, eu já publiquei um primeiro livro, mas foi de maneira independente. Depois, quando vendi os exemplares em papel, distribui os arquivos gratuitamente na web. Penso em publicar outro livro em papel, sim. Ainda em 2011. O que não falta é poesia, mas vida de sagitariano não é muito ordenada – são as paixões, antes dos planos, que nos guiam.

TRÊS POEMAS DE BERNARDO ALMEIDA
















PALAVRA


Uma palavra pode ser proferida
E esquecida com o tempo
Outra pode ser aquecida e sentida
Além da eternidade
Uma palavra pode ser mantida
Pode ser vencida
Pode ser transformada
Pode ser omitida
Pode ser deturpada
Pode ser lembrada
Uma palavra
Afasta o homem da ignorância
Aponta a saída do labirinto
Fantasiosa ou realista
Carrega vida em seu sentido
Uma palavra
Quando lançada
Não tem rumo
Não tem caminho certo
Trilha ao impulso do vento
E na velocidade do pensamento
Segue firme, vaga e veloz
Como uma flecha
Pode destronar uma certeza
E como uma chama
Pode transformar corações em brasa
Uma palavra
Simples e inútil
Pode mudar o mundo
Pode ultrapassar uma crença
Pode desatar nós e preconceitos
Pode vencer uma guerra
Aquela mesma palavra
Esquecida em meio a tantas outras
Na página amarelada de um livro qualquer
Pode ser a salvação
Ou a perdição
Na vida de alguém
Uma simples e imperfeita
Palavra



MOLHO REQUENTADO


Um brinde à morte
Esta idônea rapariga
Que de tão especial que é
Restringe-se a aparecer
Uma única vez em cada e toda vida



DE TODOS OS DECANOS INSANOS E PROFANOS


Na minha casa destampada
Baratas surgem das panelas
Rugem nas madrugadas
Têm tamanho de ratos
Na sala, morcegos rondam
Cadeiras aleijadas e abajures sem luz
Tateiam, bêbados, os prantos do escuro
Em círculos incompletos – devoram o absurdo
Os pisos não participam do festim
Pedem apenas para ser trocados
Súplica negada!
No prédio, não há janelas
Mas televisões
Cujas telas são auditórios
Em que o palestrante profere
Um discurso pornô
Em sincronia
Com os reais ruídos
Do amor
Aqui, nas madrugadas
Da Bahia, em Salvador
Não existem santos
Talvez cheguem como tais
Mas morrem sempre mundanos
Nada a expiar, somos todos perdidos
Processo de canonização interrompido
Pelos eflúvios sexuais
Pela efusão da libido
Embebidos em êxtase
Peristálticos excessos
Na cidade que é mãe
E amante do poeta
Que é tia e mãe
Das minhas netas
Devotos do prazer
Todos os santos amuados
Converteram-se em vivazes peregrinos
Em busca do deus humano do orgasmo
Que redime o pecado
Sem tentar curar ou glorificar
Aquilo que já está salvo e satisfeito
Ceifado, deglutido, envenenado e celebrado
Pela carne nua da hóstia
Banhada nos mares hostis
Relutantes e resolutos
Da pia batismal oceânica
Na qual deitou a cabeça
Do nome de nascença
Dessa terra lúbrica
Que se fez povoar
Pela indiferença

domingo, 9 de janeiro de 2011

JIVM - EXERCÍCIOS CRÍSTICOS



Poema de José Inácio Vieira de Melo, recitado pelo próprio autor, na Fliporto 2010, em Olinda, para o Portal de Poesia Íbero-americana, site criado por Antonio Miranda, escritor e diretor da Biblioteca Nacional de Brasília.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

JIVM - ROSEIRAL


Foto: Ricardo Prado

ROSEIRAL


Este roseiral vem pelos ares.
Suas cores, nas tintas da chuva
e no canto dos raios solares.

Matizes da terra batizada
surgem nas rosas em carne viva,
como sangue, seiva, sêmen, lágrimas.

É, sim, o jardim da imensidão.
São tão magníficas suas flores
que o vermelho coroa a visão.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

JIVM - NOTURNO


Um Natal cheio de Paz para todos nós.
Saúde e sorrisos no Ano Novo.
Poesia e pássaros por toda a existência.

Abraços.

JIVM


NOTURNO



A minha noite é imensa dentro da sua largura,
e de um canto a outro é cheia de grilos –
deuses do Oriente que cantam para as estrelas
que se deleitam e dançam seu brilho para mim.

A minha noite é silente e calma – uma tempestade
que avança na imensidão dos meus abismos
como vermes a roer minha carne e meu prazer.

Dentro da minha noite tem uma vaca
que é sagrada e é um templo, uma igreja:
o seu chocalho é o sino que a todo instante
anuncia a vida e me convida para o agora.

A minha noite é enorme e dentro dela cabem
as mil e uma noites, bilhões de estrelas
e toda a poesia.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

SANGUE NOVO - ANDRÉ GUERRA



O ENCONTRO CONSIGO, A CONTEMPLAÇÃO DA ETERNIDADE – ANDRÉ GUERRA Nasceu em 1982, em Salvador, onde reside. É formado em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia. É professor de Literatura brasileira voltada para o vestibular e, como tal, afirma que na sala de aula, apesar do direcionamento ao vestibular, sempre há espaço para explorar as belezas que vão muito além de uma mera prova. André Guerra é um poeta da essência, que faz poesia em busca de si mesmo. Vamos, então, conhecer um pouco desse poeta que alça vôo à eternidade.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – André, o que lhe move a fazer um poema? Onde você pretende chegar com a sua poesia?

ANDRÉ GUERRA – Um poema é a minha maneira de estar no mundo, de quebrar amarras, de mergulhar na vida pela arte. E a arte é a prova concreta e irrefutável da essência positiva do homem. Com a poesia pretendo chegar a mim mesmo e contemplar a eternidade.

JIVM – Você é professor de Literatura. De que maneira a poesia entra na sala de aula? Como os alunos a recebem? A poesia contemporânea da Bahia é apresentada para esses jovens?

AG – A sala de aula é um campo aberto para o contato com a poesia, em sua grande parte voltada para o vestibular, é verdade, mas sempre há espaço para explorar as belezas que vão muito além de uma mera prova. Assim, desde Camões, Augusto dos Anjos, os tantos Andrades, da poesia, Manuel Bandeira, Cecília, Vinícius, João Cabral, Ferreira Gullar, Ruy Espinheira Filho, Myriam Fraga, Paulo Leminski, Arnaldo Antunes, José Inácio Vieira de Melo ganham vida eterna nas conversas com os alunos.
Vez por outra ainda tenho a grata recompensa de encontrar jovens amantes e fazedores de poemas.

JIVM – Como a poesia chegou em sua vida? Qual o primeiro livro de poemas que leu? Quais as suas grandes influências?

AG – Pelo que me lembro, meu primeiro contato com a poesia se deu aos oito anos, quando minha mãe disse para mim o famoso poema de Casimiro de Abreu. Nunca esqueci. Lembro também de sentir um fascínio muito grande pelo filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. Desde então venho aprendendo a escrever. Nesse processo, algumas pessoas me indicaram caminhos da poesia. Professores, como Paulo Monteiro e Antônia Herrera, e amigos como o querido José Inácio, de cuja poesia sou admirador.
Quanto às influências, destaco Carlos Drummond, Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto.

JIVM – Nestes tempos de fragmentação da identidade e do elogio à especialização, à velocidade, ao tecnicismo, fazer e ler poesia é perder tempo?

AG – É como diz Paulinho da Viola: “mas é preciso viver, e viver não é brincadeira não...” Com as atribulações e demandas contemporâneas, ler e fazer poesia requer um momento de escolha, de entrega. Eu particularmente sinto falta de mais momentos para dedicar-me a essa prática. Se não tomarmos cuidado, a maquinização é capaz de ofuscar uma manifestação vital para que haja algum colorido em meio à “selva” em que vivemos.

JIVM – Qual a relevância de participar de uma coletânea de poetas como é o caso desse projeto Sangue Novo? E no mais, o que anda fazendo no reino das artes? Algum livro pronto?

AG – Para mim é uma grata oportunidade participar desse projeto. Admiro, além da sua poética, Inácio, sua dedicação ao universo da poesia. É preciso fibra para desempenhar um papel como o seu no cenário atual.
Tenho, sim, um livro pronto. Quem sabe esse projeto me inspira a levá-lo às vias de fato.

TRÊS POEMAS DE ANDRÉ GUERRA

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LUZES DA CIDADE


As luzes da cidade dizem tanto...
Que é natal nos comércios e avenidas,
que há fome no fogo dos malabares
e desejos em letras coloridas

Há rezas e comércio nos altares
luminosos de impérios catedrais.
Nesta ribalta de sonhos vendidos
as luzes da cidade dizem tanto

com suas neuróticas sinaleiras:
param a vida, param automóveis.
O homem multiplica sua sombra,

se parte, se reparte, se divide.
Colorido pelos letreiros frios
vive na sombra, morre em preto e branco.



“OFF-ROAD”


Sou um bicho da cidade.
Da luz só me disseram postes e semáforos
e me agrada a sombra dos toldos.

O cheiro do asfalto quente,
ao meio-dia,
sufoca e empana meus olhos.

Às vezes a saudade aperta
e quero voltar a caminhar sob o sol
numa lembrança de ser.

Todo fim de tarde namoro as flores que sobraram na feira.

Eu quero tanto enxergar por trás daqueles muros...



METONÍMICO


Diz-me o que me transborda
O bordado que não cessa
Porque não cabe num copo
A linha que me atravessa

E na fazenda marcada
Sua virgem tez derramada
Desnuda o ponto na sobra
Desdobra o copo nas águas.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

ANTONIO MIRANDA ENTREVISTA O POETA JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO - VI FLIPORTO - 2010



O escritor Antonio Miranda, Diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, entrevista o poeta José Inácio Vieira de Melo durante a FLIPORTO 2010 em Olinda, Pernambuco, em 14 de novembro de 2010. O poeta baiano nascido em Alagoas fala sobre seu último livro Roseiral e de sua trajetória poética a Antonio Miranda, para o Portal de Poesia Iberoamericana.
Videomaker: Nildo Barbosa Moreira
Site: http://www.antoniomiranda.com.br/

terça-feira, 30 de novembro de 2010

OLINDA, IPIAÚ E JEQUIÉ


Em novembro fui convidado para participar de três eventos: a VI Festa Literária Internacional de Pernambuco – Fliporto, que aconteceu em Olinda, de 12 a 15 de novembro; a V Semana de Letras de Ipiaú – SELETI, no Campus XXI da Universidade Estadual da Bahia - Uneb, na cidade de Ipiaú, no dia 19, o evento contou com a participação do Grupo Concriz, da cidade de Maracás, que fez um recital com poemas de meu livro Roseiral; e a V edição do projeto literário O Poeta Vai à Escola do Colégio Municipal Alíria Argolo, em Jequié, que me prestou uma bela homenagem. Um mês de muitas alegrias. Compartilho aqui algumas imagens desses momentos tão especiais.
JIVM

Selma Vasconcelos, JIVM, Luciana Lyra e Alessandra Leão - VI Fliporto - Olinda

José Inácio Vieira de Melo e Ronaldo Correia de Brito - VI Fliporto - Olinda

José Inácio Vieira de Melo e Marcus Accioly - VI Fliporto - Olinda

José Inácio Vieira de Melo e Grupo Concriz - V SELETI - Ipiaú

sábado, 27 de novembro de 2010

JIVM - EU QUERIA SER ELIZEU MOREIRA PARANAGUÁ



EU QUERIA SER ELIZEU MOREIRA PARANAGUÁ


Eu não queria ser John Malkovich
nem muito menos Ruy Espinheira.
Queria mesmo era ser Elizeu Moreira Paranaguá,
o Conde dos Lajedos, o Pássaro de Pedra.

E, então, sairia por aí catando pedras,Adicionar imagem alimentando-me da sua energia
e jogando-as na cabeça dos ignaros
para despertar a aurora das ideias.

Eu não queria ser John Malkovich,
não, definitivamente,de nenhuma maneira,
não queria ser Luis Antonio Cajazeira
que não cabe em si nem em todo o Cosmo.

Eu queria ser Elizeu Moreira Paranaguá,
que não é nada e, por isso mesmo,
cada passo seu é cheio de possibilidades.
Não tem rumo certo – é rota em aberto.

Eu queria mesmo ser esse ser
que vive a bater pedras – uma na outra –
a extrair delas o fogo do invisível:
a chama sagrada da poesia.

E depois eu falaria de Nietzsche,
seria seu profeta mais alucinado,
o super-homem, o superpateta,
a cravar a flecha na Maçã.

Nesses tempos de indagação,
eu, sendo Elizeu, filho da orfandade,
mataria meu pai e proclamaria
a Pós-Idade da Pedra Sagrada.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

O FOGO SAGRADO DA POESIA

José Inácio Vieira de Melo

Aparentemente marcada por um discurso filosófico disparatado, a poesia de Elizeu Moreira Paranaguá é uma das mais peculiares do cenário poético contemporâneo da Bahia.
A impressão que se instaura ao começar a leitura de O Fogo do Invisível (Salvador: Selo Letras da Bahia, 2006) é de desordenamento. Isso se dá, talvez, por conta do uso incessante de anáfora, figura de linguagem da repetição, no percurso de todo o livro, a exemplo do poema de abertura “A forma da unidade”: "Somos nós a sombra/ da Unidade para a Unidade/ de todas as coisas/ e de todos os sentidos/ como todas as coisas/ e todos os sentidos/ não têm forma nem peso,/ como todas as coisas/ e todos os sentidos/ têm algo que se dá nome,/ como todas as coisas/ têm princípio e fim (...)".
Em um poema que afirma que "todas as coisas/ e todos os sentidos/ não têm forma nem peso", o desenvolvimento não poderia ser de outra maneira, se não um jogo que provocasse uma desconexão. Assim, a aparente desordem já começa a se justificar, e é essa desordem que confere uma aura à poética de Paranaguá, pois, na verdade, é regida por uma ordem tão fora do eixo do ordinário que conduz o leitor para uma esfera de estranhamento, criando um clima de descoberta, uma vez que pisando em sendas desconhecidas: "Eu sempre fico/ nu para Deus,/ mas ele nunca/ ficou nu para/ o sentido terrível/ do meu ser".
O poder imagético sugerido por seus versos faz com que o leitor esqueça as repetições, que logo são transmudadas em ritmo e conferem andamento às partituras líricas do bardo de Curralinho, plagas onde nasceu também Castro Alves, o poeta da liberdade. O Fogo do Invisível nasce da energia das pedras. Paranaguá, tal qual um deus, bate as pedras do caos e acende as faíscas do fogo do invisível e convida o leitor a fazer parte da fogueira dos tempos. Mas, para isso, é preciso desarmar-se dos conceitos e preconceitos para arder na linguagem pura que Paranaguá oferece: "Chegar à luz/ cega de Deus".
Como bem observa Foed Castro Chamma, poeta paranaense de Pedra da transmutação, Elizeu Moreira Paranaguá é o Ladrão do Fogo. Ele extrai o fogo das pedras – gado que cria em seu lajedo poético – e, à maneira de Prometeu, compartilha as chamas da criação com seus semelhantes.
Em Os passos em volta, livro de prosa do poeta português Herberto Helder, está presente a seguinte afirmação: "O amor e o desespero e a desordem – isso é a nossa parte do jogo". Essa assertiva define bem o processo de criação de Elizeu, porque o que fica na superfície da sua proposta estética é uma enorme força intuitiva a expressar o desespero: "Desejo violento/ vontade sangrenta/ de abraçar/ e colorir/ as asas/ da borboleta".
Ao aproximar-se do final do livro, o sentimento inicial de estranheza diante da desordenação ainda se faz presente. E é esse porte esquisito que dá consistência à linguagem de Paranaguá, pois é a ‘desordem’ que nos arrebata e nos conduz para algo extra-ordinário, para algo que está para além da ordem do dia.
Agora, ao fim desse concerto de experimentações vivenciadas pelo poeta, as impressões não perdem o tom, mas adquirem outros coloridos, e a sensação é de estar-se a freqüentar um novo sentimento que transcende a razão e que, por isso, não há como explicá-lo, nem mesmo através da metafísica, pois "Não há metafísica/ para quem guarda pedras/ a espantar o mundo". O curioso é que Elizeu Moreira Paranaguá busca os fundamentos para a sua poética na razão, no discurso filosófico, seara que tenta entender tudo e tudo explicar.
Mas o que acontece, efetivamente, em sua poesia, é um mergulho nos abismos do delírio. Paranaguá é, sem sombra de dúvidas, o Quixote baiano: o Conde dos Lajedos, que vive a bater pedra contra pedra, a extrair o fogo sagrado da poesia.

Resenha sobre o livro O Fogo do Invisível, publicada no site Cronopios em 9 de dezembro de 2008

sábado, 20 de novembro de 2010

CENTAURO: A NATUREZA DO HOMEM

Por Raquel Naveira


Não há melhor imagem para o conflito da natureza masculina do que o centauro: homem e cavalo, razão e instinto, delicadeza e brutalidade. Amor imoderado pelo vinho, pela carne e pelas mulheres. Virilidade contida. Sabedoria incompreendida. Natureza monstruosa e selvagem que não se pode reprimir.
Moacyr Scliar escreveu um romance com esse título lindo: Centauro no Jardim. O livro conta a história do centauro Guedali, nascido no interior do Rio Grande do Sul, filho de uma pacata família de imigrantes judeus russos. Guedali cresce solitário, excluído e o isolamento o leva ao hábito da leitura. Inteligente, sensível e culto, é ele quem conduz a narrativa de realismo fantástico eita a partir do dia de seu 38º aniversário, comemorado entre amigos. A figura do centauro ilustra a divisão étnica e religiosa dos judeus, um povo perseguido por sua singularidade. Ouso dizer que o centauro é um alter-ego de Moacyr Scliar, ele mesmo judeu, ávido leitor, que galopa por paisagens de mistério e magia.
No poema “Amor Mitológico”, imaginei o amor entre uma ninfa e um centauro:

Sou uma ninfa menina,
Dessas que habitam o oco das árvores
E enfeitam os cabelos com boninas,
Sou simples e delicada,
Quase não falo,
Prefiro tocar flauta
E sentir paz quando me calo,
Mas qual não foi a minha sina,
Apaixonar-me por um centauro
Que corria disparado na ravina!
Era linda a sua crina dourada,
O seu torso de homem claro
E seu faro logo me descobriu
Como se eu fosse uma égua na baia,
Por mais que eu deseje que esta paixão saia,
Ela me domina:
Fogo que veio no vento,
No sopro de suas narinas,
Quando eu o quero manso e angélico,
Ele é bruto
E me bate com os cascos;
Quando eu o quero viril e bélico,
Ele larga o arco
E me afaga com palavras doces
E desde então
Vivo vagando pela campina
Com o corpo doído
E a alma machucada
Pois nunca pensei que fosse tão difícil
Amar ou ser amada.


Lendo A Arte da Poesia, de Ezra Pound, encontro uma definição incrível de poesia: “A poesia é um centauro. A faculdade intelectiva e aclaradora que articula palavras deve movimentar-se e saltar juntamente com as faculdades energéticas, sensitivas e musicais.” Penso,

O poeta é um centauro:
A mente de homem
Aclara ideias,
Articula palavras
E as pernas de cavalo,
Cheias de energia,
Saltam no ímpeto da emoção.

O poeta é um centauro:
Alimenta-se de carne crua,
Bebe vinho,
Embriaga-se
E depois chora
Arrependido
Fazendo brotar fontes
Com a pancada de seus cascos

O poeta é um centauro:
Uma força bruta,
Que rapta,
Violenta,
Cega
E depois se põe a serviço
Do bom combate.


Dante Milano, poeta carioca, que sabe como expressar a dor da existência, escreveu um poema chamado “Fuga do Centauro”. O “centauro” surpreende a mulher, mistura de santa e prostituta, com um embate impiedoso, cheio de luta e prazer. Terminado o ato sexual, ela, carente, com lágrimas na face, implora que ele fique, que não a abandone, mas ele foge. Transcrevo trecho:

Fui beijá-la e dei dentadas.
Havia sangue em seu gosto.
Espanquei-a com carícias,
Massacrei-a de delícias.
Arrastei-lhe o corpo exposto,
Nua, o gesto descomposto,
E pus-lhe as patas no rosto.
Ela dava gargalhadas.


A Infância do Centauro é um livro de poemas emocionantes do jornalista José Inácio Vieira de Melo. Quantas surpresas. Quantos “ninhos de centauros”.Como o poeta é um centauro: galopa, galopa, galopa, transcendendo a ele mesmo e às suas explicações. O poeta galopa o território de sua infância, a sua principal metafísica. Caminha pelas ruas da Bahia, conduzindo seu filho Moisés, reconhecendo seu próprio pai na memória da íris de seu filho. E oferece a ele a sua herança de centauro.
Em outro ponto, o sensual centauro declara:

Vinde, minhas éguas, luzindo na imensidão!
No ritmo de vossas ancas é que se inaugura
A saga do meu império e os nomes do meu nome:
Cavaleiro de Fogo, Centauro Escarlate.

Poesia pura, feita de músculos, pegada, coração e melancolia de centauro. Centauros e poetas são mesmo temíveis aos mortais.


Artigo publicado no livro Caminhos de bicicleta (Miró Editorial, 2010), de Raquel Naveira, nas páginas 21 a 25.

Raquel Naveira é poeta, professora e Mestre em Comunicação e Letras. Dentre vários livros, escreveu
Abadia (1996) e Casa de Tecla (1999), ambos finalistas do Prêmio Jabuti de Poesia.

domingo, 14 de novembro de 2010

SANGUE NOVO - JANARA SOARES


A POESIA COMO FÉ
– JANARA Laíza de Almeida SOARES nasceu em Barreiras, em 1989. Morou por 19 anos no município de São Desidério. Cursa Letras Vernáculas no campus IX da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, em Barreiras, onde reside.
Para Janara a poesia é uma profissão de fé e ela mantém essa chama bem acesa para compartilhar com aqueles que têm fome de encantos. Mantém o blog Minutos de Silêncio e Outras Fantasias (http://minutosefantasias.blogspot.com/). Vamos ler as palavras de Janara, musa do Oeste, que extrai sua poesia da essência das coisas.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Janara, o que é poesia? Para que serve a poesia? O que lhe leva a fazer poesia? Onde pretende chegar com sua poesia?

JANARA SOARES – Não sei o que é poesia e tenho uma preguiça enorme de tentar definí-la. Engraçado fazer algo que não conseguimos definir. Eu vejo a poesia como fé: você não sabe o que é Deus, mas acredita e ora e prega. Sei, no entanto, para quê ela serve. A poesia serve pra uma infinidade de coisas, ao contrário do que os estudiosos falam sobre a arte, pois tudo o que o ser humano faz serve para algo. Em primeiro lugar, a poesia serve para a intenção do poeta, podendo ser íntima (externar angústias, anseios, tristezas e felicidades) ou coletiva (poesia com cunho social, como força de transformação). É uma forma especial de comunicar aquilo que ninguém vê. Em segundo lugar, a poesia serve para o leitor. Todas as pessoas têm sentimentos intensos, mas nem todas conseguem falar ou escrever sobre eles; aí entra a poesia. Não sei o que me leva a fazer poesia e essa pergunta me inquieta, fazendo com que eu me sinta meio irresponsável... Normalmente os poetas têm uma idéia definida sobre seu “ser poeta”. Eu ainda estou construindo isso. Eu ainda me sinto muito surpresa quando alguém afirma que leu algo que escrevi, e mais surpresa ainda quando gostam. Agora me chega a possibilidade de ser lida, talvez reconhecida. É meu período de amadurecimento.

JIVM – Você lê muito? Qual o primeiro livro que leu? O que está lendo? Quais são seus escritores referenciais? Quais os seus poetas preferidos?

JS – Sempre li muito, exageradamente, quase compulsivamente. Não sei se isso foi bom ou ruim para mim, já que a leitura era algo solitário e eu nunca tinha com quem compartilhar minhas experiências. Demorou um pouco para que eu criasse um círculo social. Não lembro do primeiro livro que li, mas lembro do que tenho como mais antigo em minha memória. É um livro infantil chamado “O Diabo na Noite de Natal”. Não me recordo o autor, mas lembro que misturava o folclore brasileiro com personagens que conhecia do cinema (o Capitão Gancho, Superman, Carlitos). Acho que gostei mesmo do livro por causa da última frase: “E em algum lugar, um relógio batia meia-noite”. Hoje em dia minhas leituras são mais acadêmicas, o que me enche de raiva. Tenho medo de perder a habilidade e a alegria que eu tinha para leituras voltadas para o prazer. Na prosa, sempre li os clássicos brasileiros, principalmente o Machado de Assis, que me proporcionou muitas risadas na minha adolescência. Um dia descobri o Gabriel Garcia Marquez e me apaixonei totalmente. Os contemporâneos eu só encontrei na universidade. Quanto aos poetas, comecei a ler e fazer poesia por volta dos dez, onze anos. Amava Álvares de Azevedo, e ainda amo. Fiquei sabendo que existia um tal de Vinícius de Moraes quando encontrei um livro velho e surrado lá em casa, sem capa e sem nome. Lia sempre e adorava. Fui descobrir que era ele, anos depois, quando vi o Soneto de Separação em um livro didático. Conheci Baudelaire, Rimbaud, Oscar Wilde, e vários outros estrangeiros em quem eu me espelhei naquela época. Hoje tenho Ferreira Gullar como um dos meus preferidos.

JIVM – Para uma garota que escreve versos e mora no Oeste, a mais de mil quilômetros da capital, qual o papel que a internet desempenha? E na sua criação poética, como é que ela participa?

JS – A internet foi uma válvula de escape. Nunca tive vontade de mostrar meus poemas para pessoas conhecidas. Um dia, há alguns anos, fiz um blog e comecei a postar. Foi um alívio, como se eu estivesse tirando um peso das costas. O divertido é que sempre que via alguém escrevendo, sem querer mostrar, eu incentivava ao máximo para que espalhasse pelos quatro cantos sua obra. Hipócrita, não? Essa história de internet lavou minha consciência, pois eu podia publicar sem que pessoas conhecidas vissem meus poemas. Não foi bem isso o que aconteceu, mas tudo bem. Sendo um veículo rápido de informações, pude entrar em contato com novos poetas e perceber novas estéticas, o que renovou totalmente a minha forma de criar. Deus, eu tenho sonetos metrificados! Ainda não sei como eu conseguia fazer isso. Antes eu trabalhava mais; hoje é mais rápido, mais intuitivo. E antes eu não trabalhava, tendo, portanto, tempo para ficar horas num único poema.

JIVM – O fato de ser estudante do curso de Letras tem proporcionado a você um conhecimento mais profundo da literatura brasileira, sobretudo da contemporânea, ou esses assuntos são vistos apenas de passagem? Quais benefícios o curso de letras trouxe para a poeta Janara Soares?

JS – Eu caí no curso de Letras por acaso. Sempre quis fazer História e jamais tinha pensado em estudar Literatura. Para mim, Literatura era pra ser lida, e só. Entrei porque na época em que fiz o vestibular não havia curso de História e descobri que em Letras ensinavam Latim, que eu já estudava sozinha. Meu curso, na verdade, é mais rico nas disciplinas de Lingüística e de Educação. A Literatura não é estudada tão intensamente como eu esperava quando entrei no curso, mas quando acontece, é bastante gratificante. Conheci poetas que nunca teria conhecido se não estivesse na academia e, além disso, descobri as relações entre Linuguística e Literatura, o que me rendeu leituras imensamente ricas. As disciplinas relacionadas à Crítica Literária tiraram minha inocência na leitura de poemas e da Literatura em geral. Hoje tenho mais capacidade de inferir no texto, de ter uma posição quanto aquilo que eu leio. Não sei se isso é muito bom. Tenho agora mais bagagem para discernir as coisas, mas antes era mais mágico, era mais poesia.

JIVM – O que você anda fazendo? Já tem planos para publicação do primeiro livro? E o que mais?

JS – Estou terminando meu curso e planejando minha monografia. Quero fazer um trabalho sobre a relação do espaço, do território e da paisagem na criação literária, especificamente aqui, no Oeste Baiano. Quando sair daqui, pretendo fazer o mestrado imediatamente. Não quero ficar parada. Quanto à publicação de um livro, eu nunca pensei nisso, mas idéias estão começando a aparecer. Na verdade, minha primeira idéia de publicação seria uma antologia com os poetas levantados na minha monografia, com o intuito de promover a Literatura de nossa terra. Livro meu, mesmo, só estou começando a pensar agora.

TRÊS POEMAS DE JANARA SOARES

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SONHO


Sonhava que a luz não existia
e as cores eram cores por si só.
Podia tocá-las! E elas, densas,
Se desfaziam como algodão doce
lentamente lambido,
lentamente salivado.

Nesse sonho o azul royal
– antes tão aristocrata –
era liberto para amar
todos os vermelhos dos cardeais.

E a Inquisição não se importava.
Os seios não eram rosas, os seios;
eram girassóis dourados.
Cansados da delicadeza do veludo,
percorreram outros campos.
Mais ainda floridos, os seios.

Os sons tomaram formas
e meus olhos se alegraram:
como o Gato, o Dó maior me sorria.
Era vermelho intenso o Si menor
e voava feito águia.

E quando Morpheus resolveu me deixar
espantado pela chegada de Aurora
restou um cobertor no chão
e um rosto no espelho que eu quase desconhecia.
Voltei para a cama. A vida podia esperar.



MIGUEL


Ele chega trajando uma camisa parda
Caminhando com a paciência dos séculos
Cabelo caído numa face sem cor
Escondendo em seu olho os fins dos milênios.

Sem armadura, espada ou cota de malha
Sentou ao meu lado, forçando um sorriso.
Pediu uma cerveja, meio descontente.
No sereno da mesa desenhou um círculo.

– Cansei de Guerras, – me disse o arcanjo,
– muito trabalho, o pagamento é pouco.
Já vi de tudo. Só falta ser humano.

– E a glória? – Depende do ângulo.
Sorriu de novo, pediu outra cadeira...
Encheu mais um copo. Jorge vem chegando.



O GRANDE RIO


Minha porta está fechada.

Enquanto isso corre o boato
dos corpos sem coração.

Foram encontrados ontem
– às margens do grande rio –
molhados por tanto pranto
que as mulheres carpideiras
não se puseram a chorar.
Em cada peito um buraco
– como quando se planta uma árvore –
cada um, ali, perdido,
pedindo alguma semente.
Os joelhos estavam inchados,
das mãos corriam sangue e cera,
os pés calejados dormiam
o sono de toda uma vida.

Dizem nos botecos, à meia luz,
que há muito os corações já não existiam.
As pobres vítimas não eram tão pobres
se a morte sabe o que faz.

Dizem, como sempre, dizem
que os corações evaporaram,
não havia mais lugar ali
para um coração existir.

Dizem, como sempre acontece
quando aparece alguma notícia,
dizem que cada corpo trazia em si
um pouquinho do nada do inferno.
Que qualquer pedaço de vazio
é como uma maçã podre no cesto.

Minha porta está fechada.
Não quero ser encontrada
às margens do grande rio.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

ROSEIRAL DE JIVM NA FLIPORTO



Serviço
Evento: - lançamento de Roseiral
livro de poemas de José Inácio Vieira de Melo
Data: 12 de novembro de 2010
Horário:16 horas
Local: Tenda de autógrafos de Fliporto
Praça do Carmo - Olinda - PE
Entrada franca
Classificação etária: livre
Informações: (81) 3269-6134

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

SANGUE NOVO - GILDEONE DOS SANTOS OLIVEIRA



VIAGENS POR MUNDOS INFINITOS – Para GILDEONE DOS SANTOS OLIVEIRA, poeta nascido em 1986, no município de Retirolândia, na região sisaleira da Bahia, “a escrita não pode ser colocada dentro de uma camisa de força”. O escritor deve ter liberdade para expressar sua escritura e ser reconhecido por seu talento, não por predileções temáticas, como é comum na literatura brasileira contemporânea. Gildeone viveu toda a infância e parte da adolescência no campo. Atualmente mora num povoado a cinco quilômetros da sede do município. É professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira no Ensino Médio do Centro de Educação Santo Antônio (CESA). Fez graduação em Letras Vernáculas no Campus XIV da UNEB, em Conceição do Coité, e faz Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural na UEFS, onde estuda a representação do sertão e do sertanejo na obra O Romance d'A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna. Mantém o blog Curtindo Linguagens (www.gilsantoslinguagens.blogspot.com). Agora, vamos conhecer um pouco mais sobre este poeta que busca a poesia da vida em cada esquina e que entende que a Literatura proporciona viagens por mundos infinitos e traz grandiosas descobertas.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
– O que é ser poeta? Por que ser poeta? Você também acha que “o poeta é um fingidor”?

GILDEONE DOS SANTOS OLIVEIRA – Muitas vezes me pergunto o que é ser poeta, outras vezes não sei se devo ser chamado poeta, são questionamentos comuns para todos que escrevem poesia, ou pelo menos que são iniciantes nessa prática. Mas, acho que ser poeta é buscar os versos da vida em cada esquina, é ser o leitor das coisas simples, é ser uma criança prodígio, tecendo e retecendo mundos que nos conduzem a olhares mais aguçados em relação à vida quotidiana. Pela poesia a vida quotidiana se torna mais (in)completa, aí cabe afirmar que, como Pessoa já proclamara, “o poeta é um fingidor”, finge a dor sentida, reinventa a própria dor e desmascara as dores não sentidas. Para mim a poesia veio como uma forma de reencontro, de busca de mim mesmo, de busca pelo humano que existe em mim. Aos poucos o gosto pela leitura e pela escrita me tomou, aí percebi que, pela escrita, posso ser um cavaleiro andante que cavalga moinhos de vento em busca de outros horizontes. Parodiando um verso de Alberto Caeiro, com a poesia percebi que da minha aldeia vejo o que se pode ver no universo.

JIVM – O fato de você ser do sertão confere algum crédito para a sua poesia? Ou, ao contrário, cria um certo ranço regionalista que tenta reduzir os escritores que vivem no nordeste a estereótipos cristalizados?

GSO – Bom, não tenho ainda uma publicação, o que torna difícil as pessoas fazerem um julgamento mais concreto da minha poesia. Mas, quem escreve do espaço onde estou inserido sofre sim com o ranço regionalista que reduz os escritores a estereótipos. Às vezes, mais do que a redução a estereótipos há a discriminação contra as pessoas que habitam nas pequenas cidades e povoados do sertão, como é o meu caso. Mas, aos poucos esses tabus vêm sendo quebrados. Uma poesia não deve ganhar ou perder crédito pelo lugar de onde o poeta escreve, essas fronteiras não faz mais sentido no contexto do século XXI. Aqueles que preservam esses ranços ainda vivem no período jurássico. Hoje, o que vale é o texto, a poesia deve ser julgada pelo que ela pode dizer ou não para quem se debruça sobre ela. A escrita não pode ser colocada dentro de uma camisa de força.

JIVM – Você é estudioso da obra de Ariano Suassuna, o que nos leva a uma dedução do seu cânone pessoal. Imagino que escritores como João Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto devem figurar entre as suas principais referências. A minha inferência está correta? E quais outros prosadores e poetas contemporâneos você lê? Já ouviu falar do escritor Ronaldo Correia de Brito? Conhece a obra do poeta Alberto da Cunha Melo?

GSO – Correto, Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto, fazem parte do meu cânone pessoal, somando-se a tantos outros. Escrevo poesia, mas a prosa toma muito mais tempo nas minhas leituras. Dos escritores contemporâneos, além de Suassuna tenho buscado ler Francisco J. C. Dantas o próprio Ronaldo Correia de Brito e Antônio Carlos Viana, nomes que trazem para literatura o sertão, o que me atrai muito enquanto estudioso do sertão e enquanto leitor apaixonado por esse espaço que é o mundo ser-tão. Na poesia estou lendo muito os versos de Ruy Espinheira Filho, Myriam Fraga, Antônio Carlos Secchin (sempre leio Drummond e outros também), e tenho entrado em contato com a poesia de José Inácio Vieira de Melo, recentemente acabei a leitura de Roseiral, gostei do que li. Quanto ao poeta Alberto da Cunha Melo só conheci sua obra esse ano quando entrei no Mestrado, tenho uma colega que estuda a poesia dele, a partir de então tenho buscado conhecer a poesia de Cunha Melo. Uma poesia forte, marcada pela mística da pedra sertaneja, dentre outros aspectos.

JIVM – Você mantém o blog Curtindo linguagens. Qual o papel que as mídias virtuais exercem na literatura contemporânea? O que acha dessa profusão de blogs? E voltando para o seu blog, mais especificamente, um trocadilho com o título: Qual a linguagem que você mais curte? E dentro da sua preferência, com quais outras linguagens mantém um diálogo profícuo?

GSO – As mídias contemporâneas são muito positivas, têm oferecido o espaço para muitas pessoas se expressarem e transmitirem suas produções. Ao mesmo tempo em que o espaço fica mais aberto muitas coisas sem substância acabam circulando também. A multiplicação dos blogs no geral é positiva, mas, é sempre bom lembrar, na internet encontramos coisas boas e coisas ruins, cabe ao leitor fazer a sua seleção de acordo com o que mais gosta. Para a literatura as mídias fazem um papel importante de levar a muitos jovens, a muitas pessoas, o acesso a textos que nunca chegaram através da escola. É um tanto irônico, mas moro numa localidade da zona rural de uma cidade que tem mais de 40 anos de emancipação política, mas ainda tenta abrir uma biblioteca pública que seja acessível a todos, a internet chegou primeiro do que a biblioteca. Sempre tive muitas dificuldades para ter acesso ao livro, mas com a ajuda de professores consegui despertar o gosto pela leitura e pela escrita. Foi com o acesso à internet e percebendo o potencial dela que veio a ideia do blog para divulgar meus textos, devo admitir que, às vezes, tenho até receio de publicar textos no blog.
Além da literatura, a música, a pintura, as artes plásticas como um todo me atraem muito. Apesar de o acesso a essas linguagens ficar dificultado pela pouca atenção que elas ganham aqui no sertão da região sisaleira. Mas, ainda tenho muitos sonhos de poder me expressar através dessas outras linguagens, como a música, por exemplo.

JIVM – E agora? O que pretende fazer? Sair pelos quatro cantos, berrando a sua louca verdade de poeta? Quando sai o primeiro livro? E esse mestrado?

GSO – Bom, agora estou seguindo meu caminho de cavaleiro andante que monta em seu Rocim, cansado da lida no sisal, mas revigorado pelas descobertas, e prossegue pelas veredas ásperas do sertão pedregoso, seguindo os passos apontados pela poesiamundo. Espero poder berrar um pouco a minha poesia, não sei se ela terá serventia para alguém, tomara que pelo menos incomode algum vizinho que me acha um louco devorador de livros. Estou firme no mestrado, amadurecendo como estudioso e como degustador da literatura e dos sertões. Além de buscar condições necessárias para encarar o mercado de trabalho (a poesia no Brasil não alimenta ninguém né!?). Quanto ao livro, tenho um projeto para publicar em 2011, com certeza dará tudo certo.

TRÊS POEMAS DE GILDEONE DOS SANTOS OLIVEIRA


Ilustração: Juraci Dórea



















GUERNICA DE CANUDOS

“Mas eram terríveis lances, obscuros para todo sempre. Raro tornavam os que os faziam. Aprumavam-se sobre o fosso e sopeava-lhes o arrojo o horror de um quadro onde a realidade tangível de uma trincheira de mortos, argamassada de sangue e esvurmando pus, vencia todos os exageros da idealização mais ousada. E salteava-os a atonia do assombro...”
Euclides da Cunha, Os sertões.


Em ruflar de tambores
epopéicos,
versos disparam-se
de bambus encanados,
encenados
coitados.

Canudos-de-pito,
fumados em meio a ventos
de secas tardes
em sol esturricante,
assaltante.

Canudos-de-pito
em dispersão vertical
sorvem da terra
seu líquido
maternal.

A terra
faz-se homem
no seio de capuabas
acuadas do sertão.

Estilhaços de raios
solares e luminosos
queimam
constitucionalmente
a raça da favela.

Tambores ruflam pela charmosa estação
por Virgulino assaltada.

Pelos trilhos progressistas
maquinalmente exercitados,
constitucionais patriotas
pintam, furiosamente,
o sabor da fúria
de Macambira.

Em explosões de corpos
Homo humanus.
Animais.
A Matadeira
persiste
no furor mirabolante.


Do alto, o Belo Monte.
A fotografia
de pastos
secos
em cinza de sangue.
No mato,
resta a história,
loucura e glória
do titã cambaleante.

Na segunda margem,
Cocorobó
em choro flamejante,
entre rostos e restos
da derrotada história,
o açude apadrinhado
espera sua glória.

Entre conselhos,
Conselheiros,
o sertão margeia,
o mar
numa terceira sinfonia,
clama pela pedra
enterrada
na Guernica da Bahia.



MEU PLANETA


O meu planeta
é menor que um alfinete,
tem oceanos vastos,
e o continente é habitado
por belas sereias
que se banham
dentro da minha
flor vermelha.

É por isso que minhas estrelas
tocam sonatas de dor,
e a lua chora
toda noite, gozando de amor.



REVERSOS


O Sol despeja seus tentáculos
raiando sobre a terra esbraseada.
Riscos enxadescos pairam na poeira,
sobre a face do redemundo.

Destoco as fibras
nos versos encourados
que cavalgam o jumento
em reversos de Sol.

Pela caatinga branca,
asas revoam os pontos pretos
encharcados de bagaços.
No brinde das andanças,
cachaças florescem
as pegadas do curral.

Sob o cacto em espinhos,
tentáculos solares,
percorrem os pares
pelo mundo da pedra-flor.
Meus versos decantam o caminho
pisado em reversos de Sol.