sexta-feira, 30 de julho de 2010

JIVM - VINGANÇA


Ilustração: Daniel Biléu

V I N G A N Ç A


Eu vou pegar o machado de meu avô para te partir ao meio.
Tu me abandonaste no meio do tempo
e eu ainda estou perdido no meio da mata da tua ignorância.
Eu sou fraco, muito fraco. Eu corri para todos os lados
com os olhos esbugalhados sem saber para onde ir,
porque eu tinha medo, eu tinha muito medo, eu morria de medo.

Aí eu olhei pros quatro cantos e não enxerguei nada.
Eu não conseguia ver a imensidão,
apenas sentia um imenso abandono.

Eu vou me vestir de índio para tirar teu escalpo,
e vou dançar ao redor da fogueira dos tempos,
e no caldeirão dos meus prazeres cozinharei tua carne morena,
e, na brasa das tempestades que gritam o meu desespero,
assarei tuas carnes e banquetearei os que alimentaram tua ambição.

Já podes sentir a justiça do machado do meu avô:
o teu sangue lava os focinhos dos porcos.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

domingo, 25 de julho de 2010

MARIANA IANELLI - FLOR DO OFÍCIO


Foto: Petronio Cinque


FLOR DO OFÍCIO


Emboscada no silêncio
Eu preparo a rosa inútil
Com as horas que salvei
Do desperdício.

Feito um verme
Decompondo ceticismo
Em força indômita,
Preparo e deito essa flor
No teu caminho
Para quando o teu corpo
(Tão quebrantável quanto o meu)
For sozinho pastorear
Seus demônios no vazio.

Quase dois mil anos
Guardado no deserto
Um salmo esperou
Para recobrar sua melodia –
E eu não te esperaria?


MARIANA IANELLI


Kátia Borges entrevista Mariana Ianelli:
A FEBRE MÁGICA – “Sinto falta de poemas que emocionem”
Clique no link abaixo, leia e comente a entrevista,
publicado em 25/07/2010, na revista Muito, do jornal A Tarde, em Salvador:
http://revistamuito.atarde.com.br/?p=5300

segunda-feira, 19 de julho de 2010

SANGUE NOVO - DANIEL FARIAS



REGISTRO DE MOMENTOS – DANIEL FARIAS nasceu em Recife, Pernambuco, em 1985, no dia da árvore. No verão, sua família mudou-se para Salvador, quando tinha quatro meses. Não mudou mais de bairro nem de sotaque: pernambaiano, de pitubalina. Aos sete anos aprendeu a ler. Aos 14, entrou para o teatro. Aos 21, fez cirurgia para correção de três graus de miopia e astigmatismo: passou a ver o mundo com mais brilho e a publicar poemas em seu primeiro blog. Formou-se em Direito pela UFBA. Sua carteira de trabalho, no entanto, indica apenas uma profissão: artista, ator. Para isso muito contribuíram os quatro anos que passou no grupo Vilavox, então residente do Teatro Vila Velha. Há seis anos trabalho como professor de teatro e como monitor de colônias de férias com crianças e adolescentes, que o alimentam muito com as visões que têm do mundo. Escreveu quatro textos infanto-juvenis. Edita o blog http://www.seeufosseumlivro.blogspot.com/. Dedica-se de maneira integral ao teatro, nada pelas manhãs e procura executar as mil idéias e projetos.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Por que ser poeta? Como foi o despertar da poesia em você?

DANIEL FARIAS – A pergunta que me levou a ser poeta foi “por que não sê-lo?”. Antes dela houve um processo de autodescoberta, um caderno/coleção de frases, poemas e citações (que me levaram a criar as minhas) e uma mudança no caminho de casa numa noite: encontrei um amigo, por acaso, num ponto de ônibus. No papo de atualização das vidas (que durou hora) me disse ser poeta e ter um blog. Depois de lê-lo, cheio de comentários, descobri outro universo: de poetas vivos, de leitores atentos e de muito a ser dito. Então passei a publicar e não parei de escrever. No início era apenas prosa, um pouco distante em terceira pessoa. Mas foi inevitável aproximar-me de mim mesmo para continuar. E então veio: por que não? Já que estamos vivos, como a poesia.

JIVM – A poesia exerce algum papel na sociedade? E o que você pretende com sua poesia?

DF – A poesia, como toda arte, é alimento. Não conheço quem viva sem. Ela é a pausa necessária e urgente a todos os membros da sociedade. Ela é multifacetada, etérea e se adapta facilmente. Podemos vê-la em diversos momentos de nossa vida, ela ultrapassa os versos e os papéis, esses são apenas meios de registrá-la. Daí porque às vezes talvez passe despercebida e é justamente por isso que precisamos lembrar de sua existência. E de sua importância na sensibilização dos homens: de seus olhares, de suas relações, de suas percepções de mundo e dos outros. Se, de alguma forma, meus versos puderem, minimamente, contribuir com isso, estarei satisfeito.

JIVM – Quais são os seus poetas referenciais? O que você está lendo atualmente? E prosa você lê também? Mais conto ou romance?

DF – Comecei com Drummond. Converso com Vinícius e Pessoa. Waly me intensifica. Arnaldo me expande. E é sempre bom passear por Leminski, Bandeira e João Cabral. Ultimamente tenho lido e me admirado com poetas que tive a honra de conhecer pessoalmente: Cajazeira, José Inácio, Kátia Borges e Eliana Mara. Com Damário não dei essa sorte, mas sinto-me próximo pela amizade que tenho com seu sobrinho. Minhas amigas Emília Nuñez, Fernanda Veiga e Raiça Bomfim também são simplesmente maravilhosas. Leio muitos livros em prosa, a grande maioria são romances. Meu melhor amigo nesse estilo morreu recentemente, ocasião em que soube que Saramago é um tipo de árvore que nasce nos escombros. Calvino, Cortázar e Dostoiévski também foram grandes acontecimentos.

JIVM – Heidegger definiu a poesia como “fundação do ser mediante a palavra”. O que você acha dessa definição? E você como define a poesia? E mais, como você define a sua poesia?

DF – Gosto muito da definição de Damário: “Para que serve a poesia? Para fazer o homem. Para que serve o homem? Para fazer poesia.” Talvez seja onde o homem é mais humano. Sendo esse o manancial da fundação, ótimo. Um local para onde voltarmos para lembrar quem somos. Gosto de pensar minha poesia como o registro de momentos sob meu olhar, a paralisação do tempo, o recorte de algo essencial e sua reverberação em mim. A poesia é um sinal amarelo (http://seeufosseumlivro.blogspot.com/2009/06/sinal-amarelo.html). A única maneira que conheço de compartilhar tudo isso é o poema, já que não desenho.

JIVM – Algum livro em andamento? Quando o poeta Daniel Farias pretende sair da gaveta, melhor dizendo, do blog para o livro? Tem algum outro projeto que tenha ligação com a sua poesia? E o que mais?

DF – Acho fundamental ultrapassar a virtualidade. Concordo com Caetano quando diz que “os livros são objetos transcendentes, mas podemos amá-los do amor táctil”. É uma honra integrar essa iniciativa perspicaz do Sangue Novo. Tenho um projeto com alguns amigos em fase de seleção no edital estadual de criação literária (estamos habilitados, pelo menos - risos). Chama-se Segundos Instantes, e é voltado para esse segundo olhar sobre os intervalos. A proposta inclui palestras de fomento à escrita e à captação poética, para que outros jovens sintam-se legitimados a tanto. Acho importantíssimo vencer a inércia e propor essas coisas, é uma vitória contra nós mesmos. O próprio título de meu blog aponta para isso. Talvez mude o seu tempo verbal, inclusive. Outra idéia é reunir alguns poemas em um livro chamado Quandos. Outro projeto é o espetáculo Há Mar, poético e itinerante, também com amigos e também no aguardo. Além disso pretendo colocar poesia no rádio. Precisamos fazer com que ela chegue desmistificada ao encontro do maior número de pessoas. A percepção poética também é mote para um experimento audiovisual, também em pré-produção, intitulado Paissagem. Alguns escritos foram recentemente inseridos no espetáculo A Canoa, do Groove Estúdio Teatral. No mais? Sigo priorizando minha maior paixão: o teatro! E brincando de fazer música no violão, uma hora apresento alguma coisa, sempre com amigos, sempre com prazer.

TRÊS POEMAS DE DANIEL FARIAS
















durma de janela aberta


um dia desses
opte pelo caminho
mais bonito

seja turista
em sua própria casa
e fotografe
ainda que na retina
a cor e a inclinação
do sol visto
daquela esquina

se apaixone de novo
pelo mesmo sorriso
não há de ser sem motivo

lembre-se daquela praia
ou daquele café
e vá

ainda que chova
ou que seja terça
sem pressa

se parar nas luzes vermelhas
ouça das músicas as letras
baixe o volume para escutar
sua cabeça mas aumente se ela quiser
gritar

sorria
seja gentil
olhe olho
abraçe com braço

um dia desses
e são tantos



da gravidade do acaso


se isso que eu sou
de fato te importasse
decerto que abria essa porta
e se impunha

me arrebatava na hora
e me transportava agora
pra fora da força da sorte

pra perto
pro aperto
pra dentro



ressonância


cada eco
tem o tamanho
exato
de seu abismo

com calma
o tempo
te transforma
em silêncio

sábado, 17 de julho de 2010

WILMAR SILVA E JIVM PELOS VAREDOS DA PEDRA SÓ


O poeta mineiro Wilmar Silva passou uma semana aqui na Bahia, em nossa companhia. Participou de eventos em diferentes cidades do estado e, além de ter encantado e de ter causado espanto com sua arte conceitual e terral, fez várias amizades. Para mim, um dos momentos mais marcantes desse nosso encontro foi a ida para a Pedra Só – a minha roça. Chegamos ao fim do entardecer, quando já estava escurecendo: Wilmar Silva, Vitor Nascimento Sá, Ivana Karoline e eu. Acendemos uma fogueira e ficamos a contemplar as estrelas, a ouvir música e poesia. Ouvimos, silenciosamente, o cd de poesia biosonora Neo Não – Wilmar Silva acompanhado pela guitarra do Francesco Napoli. Depois, ouvimos alguns poemas meus recitados por Chico de Assis e por Rita Santana. E lá para uma hora da madrugada, fomos dormir. De manhã, pegamos os cavalos e cavalgamos mundo afora, caatinga adentro. À tarde, seguimos rumo a Salvador. Abaixo, deixo o registro da nossa caminhada pelos varedos do Grande Sertão. Wilmar Silva e José Inácio Vieira de Melo – dois poetamigos.
JIVM

“Meu cavalo e eu – Centauro do Sertão”

“eu/ cavaleiro, invisível é meu galope”

“Centauros morenos brotados de seus couros
de seus cascos famosos de cavalos inteiros”

segunda-feira, 5 de julho de 2010

VERÔNICA DE VATE - WILMAR SILVA


Foto: Paulo Lacerda

WILMAR SILVA, Rio Paranaíba, Minas Gerais, Brasil, 30 de abril de 1965. Poeta, performer, editor, artista visual e sonoro, pesquisador com formação em artes cênicas, letras e psicologia. Autor dos livros de poesia: Çeiva (Brasil, 1997), ANU (Brasil, 2001), Arranjos de Pássaros e Flores (Brasil, 2002), Cachaprego (Brasil, 2004), Yguarani (Portugal, 2009), Lágrimas en el Lago de Púrpura (Argentina, 2009), Silvaredo (Brasil, 2010), Astillas en el Lago Púrpura (República Dominicana, 2010). Performances: Afrorimbaudelia, Subida ao Paraíso, O sétimo Corpo, Ee Tu Mao, Eusmaranhados, NeoNão. Antologias: Antologia da Nova Poesia Brasileira (Brasil), A Poesia Mineira no Século XX (Brasil), Oiro de Minas a nova poesia das Gerais (Portugal), Máscaras de Orfeo (República Dominicana). Organizou as antologias: O achamento de Portugal (2005), Terças Poéticas: jardins internos (2006). E a contraantologia: Portuguesia (2009), livrodvd com 101 poetas de Portugal, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Brasil (Minas Gerais). Fundador e editor da Anome Livros, prêmio Jabuti 2009. Curador do projeto de leitura, vivência e memória de poesia Terças Poéticas, Fundação Clóvis Salgado, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Desenvolve pesquisa de poesia de língua portuguesa Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética (http://www.portuguesia.com.br/). Editor e apresentador do programa Tropofonia (http://www.tropofonia.com.ar/), rádio educativa 104,5 UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Artista convidado: Fórum das Letras (Ouro Preto, MG, Brasil), Psiu Poético (Montes Claros, MG, Brasil), Bienal do Livro de Minas (Belo Horizonte, MG, Brasil), Feira do Livro de Santo Domingo (República Dominicana), Bienal do Livro de Fortaleza (Ceará, Brasil), Congresso Brasileiro de Poesia (Bento Gonçalves, RS, Brasil), Festival Tropofonia (Rosario, Argentina), Encontro Internacional de Poetas de Coimbra (Portugal), Bienal de Poesia de Brasília (Distrito Federal, Brasil), Otono Cultural Ibero-americano (Huelva, Espanha). Blog: http://www.cachaprego.blogspot.com/

*
Wilmar Silva chegará em Salvador na próxima quinta-feira, 8 de julho. Vai participar do projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, no dia 9, às 19:30 hs, no Auditório Municipal. no dia seguinte, 10 de julho, estará em Jequié, onde participará do projeto Travessia das Palavras, na Biblioteca Central, às 19:30 hs. Os dois eventos contarão com a participação especial do Grupo Concriz. No dia 14, Wilmar Silva estará na Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho, como escritor convidado do projeto Com a Palavra o Escritor, que vai começar às 17 horas. A escritora Rita Santana é quem vai fazer a apresentação do poeta mineiro.


ARRANJOS DE PÁSSAROS E FLORES


Arranjo de melro e dálias

eu/ cavaleiro, invisível é meu galope
atrás do perfume que exala no breu/
nessa praia de cascalhos e penhasco
onde apenas eu, influência de vento,
lavo teu corpo com a própria lima e
enxugo o suor de virilha à língua/
rubi chicote, carmim espora, eu síncope
costas quase ícones meio cones eu-dreno
melros de cetim eu, de sede te sedo
foz de orgasmo no festim floral


Arranjo de gaivotas e pampulha

eu-menino-do-campo, te faço conviva
e digo que a palavra que escrevo é
origem, invento gaivotas no sertão
ilha é meu corpo de encontro ao teu
aqui, longe, após o inverno da tempestade
verto o amálgama da pampulha veleiro
arco-íris que choram de solidão, eu
agora impávido e celeste, anjo de fogo
eu-espelho d’água, narciso e orfeu
flautas e flores, eu-pássaro cais e flora –


WILMAR SILVA

quinta-feira, 1 de julho de 2010

JIVM - ROSA MÍSTICA

Foto: Joel Gonzalez


ROSA MÍSTICA


Além do sino de bronze, navego
os enlevos internos do poeta,
viajo entre jardins de algarobeiras
e de mandacarus, buscando a Rosa

Mística. Codifico meus silêncios,
aparição de vozes e de luzes,
como paixões centrípetas e avulsas
que arremessam suas bocas à vida.

Porém, ao longo surgem as tormentas.
E a voz segura do poeta rompe
a cera dos ouvidos, leva o mel

ou a pimenta às vísceras abertas
do sentimento. E vejo a Rosa Mística:
origem, infinita criação.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

domingo, 27 de junho de 2010

PROJETO TRAVESSIA DAS PALAVRAS - ANO II



O projeto Travessia das Palavras é uma iniciativa da Academia de Letras de Jequié (ALJ) e tem como base o encontro de um poeta brasileiro de renome com o público jequieense, com o intuito de proporcionar a aproximação da platéia com os autores e o conhecimento de suas obras.
Esses encontros acontecem uma vez por mês. O escritor convidado fala de sua obra e da sua trajetória. O público participa fazendo perguntas. O projeto conta ainda com a participação especial do Grupo Concriz, uma turma de 30 jovens recitadores da cidade de Maracás, que fazem performances recitativas das obras dos convidados.
O projeto começou em 2009, ano em que teve a participação de oito escritores baianos, desde o poeta Florisvaldo Mattos até o escritor Aleilton Fonseca. Também estiveram presentes Roberval Pereyr, Kátia Borges, Carlos Ribeiro, Antonio Brasileiro, Ruy Espinheira Filho e Renata. Em 2010 o evento toma proporção nacional e traz escritores de várias regiões do país: José Inácio Vieira de Melo, alagoano radicado na Bahia; Wilmar Silva, de Minas Gerais; Helena Ortiz, gaúcha radicado no Rio de Janeiro; Astrid Cabral, amazonense também radicado no Rio; e a baiana Myriam Fraga.
Como já foi supracitado, os eventos são mensais, sempre aos sábados, a partir das 19h 30min, na Biblioteca Central de Jequié, teve início em 11 de junho e vai até o dia 9 de outubro.
Travessia das Palavras é coordenado por Leonam Oliveira, escritor e presidente da Academia de Letras de Jequié, e por José Inácio Vieira de Melo, poeta, jornalista e produtor cultural. Conta com o apoio da Secretaria de Cultura e Turismo de Jequié.

PROGRAMAÇÃO:
11/06/2010 – José Inácio V. de Melo (AL/BA)
10 / 07 / 2010 – Wilmar Silva (MG)
14/ 08 / 2010 – Helena Ortiz (RS / RJ)
11 / 09 / 2010 – Astrid Cabral (AM / RJ)
09 / 10 / 2010 – Myriam Fraga (BA)

sábado, 19 de junho de 2010

SANGUE NOVO - GIBRAN SOUSA



O DIVERSITAL DE GIBRAN SOUSA – Para GIBRAN SOUSA, o concretismo foi a maior invenção brasileira do século XX. E é com entusiasmo que ele fala dos seus expoentes e da influência que exercem em sua produção. Gibran, intitula-se um artista vário, apesar de ser conhecido como poeta. Gibran é firme em seus propósitos e criou uma maneira de fazer recitais que ele chama de Diversital, que consiste em performances poéticas nas quais ele aparece acompanhado de outros artistas das mais diversas linguagens. Gibran Sousa Evangelista é baiano, nascido em 1983. Formou-se em Farmácia pela UFBA, estuda Letras na UNEB, e abandonou Direito na UniJorge. Vamos conhecer um pouco desse jovem poeta que “Prefere o palco ao eterno, assim como o instante à estante”.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Como descobriu a poesia? E por que ser poeta?

GIBRAN SOUSA – Escrevo por que as mulheres existem. Todo o resto é somente uma resultante dessa existência, uma digressão anunciada. Através delas eu descobri a poesia me descobrindo. Pois enquanto sempre – e desde ainda – eu li compulsivamente. De modo a passar intermináveis períodos em bibliotecas e outros locais disseminantes de doenças respiratórias. Onde invariavelmente, pelo meu interesse na palavra, eu mirava as pernas - fingindo as páginas - nos rodapés da minha retina, retinta.
Naquela altura, numa dessas milhares-mulheres-páginas, li: Ezra Pound. E toda a poesia que eu supunha então existir: desistiu; deusistiu. Fiquei preocupadamente impressionado com aquilo, naquele. Pound niilizou todo o meu entendimento de poesia. Seu Vorticismo me apontou para Hulme, Yeats, e, sobretudo Joyce. Ele tornou-se - contraditoriamente - meu herói e minha heroína; meu porto seguro e meu portu-guês. Seus Cantos já preconizavam profeticamente os nossos Campos. E assim – depois dele: depois de tanto tudo: mudo - só me cabia acender a TV, vestir um par de chuteiras, ou mesmo fazer coisas sem nenhuma importância, como viver.

JIVM – você dialoga com a poesia visual? Artistas como Arnaldo Antunes parecem exercer uma forte influência em sua criação? Se eu estiver certo, fale como se deu essa aproximação e o que o fascina nessa maneira de se conceber a poesia?

GS – A meu ver toda poesia é visual, pois toda e qualquer e cada poesia é composta por signos, ideogramas, caracteres, loci-rupestres, imagens-origens, e (/ou) outros. Ou seja, representações multimídias e transmídias de foco-visagem.
Eu dialogo mnemônica e afetivamente com a poesia sonora, apesar de discordar criteriosamente dessa nomenclatura depreciativa. No entanto, utilizo sobremaneira elementos da poesia concreta, assim como da poesia impressionista e imagista.
O Arnaldo exerce pouca influência em minha criação. E isso não é bom, muito menos o contrário, nem chega a ser ruim. Quis sua influência, mas ela não me kiss. Desde então percebo em sua poesia um viés pelo qual a minha também pretende se lançar, porém, por v(e)ias dissonantes. Deixa eu me fazer entender: O concretismo concebe a estrutura-partícula-célula-poema mais comunicável da palavra. Pela síntese, lógica e caráter holístico proporcionado (desculpem-me os poetas tradicionais, subjetivos e cristãos). Entretanto, essa mesma poesia que veio se construindo da década de cinquenta pra já, é extremamente segmentária, ensimesmada e cabotina, apesar de imensamente midiática. Tanto que existem – inclusive - poetas se esforçando para entendê-la, sem, no entanto atingir o famigerado nirvana concreto. Basta assistir a um recital do Augusto de Campos, por exemplo - um dos poetas a quem mais admiro – e pode-se perceber que muitíssimos por cento do público compreendeu pouquíssimo da apresentação. E isso é fato (desculpem-me os poetas concretos, objetivos e pagãos). No entanto, aqueles que compreendem o seu rizoma-trânsito-mórfico ficam num alumbramento inefável. E onde eu caibo nisso? Na comunicabilidade. That is the answer. O Arnaldo faz – e eu também (suponho) - com que a estética da poesia mais comunicável do mundo, seja realmente, comunicável. Tornando a poesia concreta + AXÉssível.

JIVM – O que representa a poesia concreta par você? E a poesia contemporânea da Bahia, desperta a sua atenção? Autores como Florisvaldo Mattos, Myriam Fraga, Ruy Espinheira Filho e Luís Antonio Cajazeira Ramos lhe causam interesse?

GS – A poesia concreta - junto com a velha bossa nova - foi a maior invenção brasileira do século vinte. Ela está em toda a cultura de propaganda desse nosso planeta-vício, desde o craque até o crack. Suas ferramentas, inferências e aplicações recodificaram todo o universo midiático: TV, rádio, internet, fanzine, bula, bunda, HQ, batina, tatuagem etc. Porém, apenas a imensa minoria das pessoas entende de fato essa poesia e suas implicações, embora cientes (creio) dos seus artifícios utilizados no marketing, cinema, artes plásticas, mal como na música. Mas o que a pequena maioria não sabe, é que essa poesia – ainda tão jovem e fotogênica - tem parentes senis, em preto e branco, como o E. E. Cummings e o Mallarmé.
Existem alguns poetas fazendo coisas interessantes na Bahia, são pouquíssimos, mas existem. Principalmente no que tange à poesia performática e à poesia dramática. Existem também bons escritores, e eu acompanho seus poemas com curiosidade e atenção, nas bocas, books e blogs. No entanto, num corte quantitativo, grande parte dos nossos poetas somente alimenta o tempo.
Eu conheço as obras dos autores Florisvaldo Mattos, Myriam Fraga, Luís Antonio Cajazeira Ramos, e principalmente do Ruy Espinheira Filho, pois assim como você eu também não acredito em poeta que não lê poesia, sobretudo poesia contemporânea. Mas o interesse que tenho por eles está na mesma medida do interesse que eles têm por mim.

JIVM – Quais os livros de poesia que mais lhe fascinaram e quais seus poetas preferidos? E por quê?

GS – Os livros de poesia que + me fascinaram (e também me “faxinaram”) foram: Alcools – Apollinaire, The house of fame – Geoffrey Chaucer, Poemóbiles - Augusto de Campos, Algaravias - Waly Salomão, Cantos - Ezra Pound, Memórias Inventadas – Barros, Pedra do Sono – João Cabral, Òboe sommerso – Salvatore Quasimodo, entre outros.
Meus poetas preferidos são John Donne, Amy Lowell, Paul Valéry, Cummings, Mautner, F. S. Flint, Percy Shelley e Keats. Todos eles tiveram, têm e terão em mim uma coisa delicadamente comum: o interesse pelo novo. O não deixar se convencer pelas estruturas. Pois sou eutanasiamente atraído pelo risco estético. E é justamente isso que procuro a cada poema. Corromper silêncios, pausas, sons, sotaques, dicções, concatenações, perspectivas, imagens, timbres, intenções, sugestões, expressões, incorrespondências, texturas, delays, medos, verdades e demônios.
Não sou, entretanto, um tolo defensor de vanguardas ou hermetismos separatistas, pois sei desde Patativa e Schiller que essa compreensão de esquinas é necessária para a construção do novo de novo, pela tradição vigente. Até por que a tradição é isso: tudo aquilo o que nos espera; A invenção; É o “de onde vimos” e o “para onde vamos”. E toda a vanguarda é apenas o trans, a transa, o trânsito...

JIVM – Você tem um grupo que se apresenta fazendo performance poética, fale como é a sua movimentação e de seu grupo. E mais, algum livro para publicar? Algum projeto em via de realização? E o que mais?

GS – Criei um conceito estético chamado Diversital, que também é o nome do recital e do grupo. Mas não é um grupo, especificamente. Pois esse recital tende a acontecer com pessoas diferentes, exceto por mim. Explico: não existem componentes fixos. De modo que posso trabalhar com quem tenho vontade, sem obrigações. E através desse esteio ou suporte (sem suporte) pude trabalhar a palavra com inúmeras representações, tais como: teatro, cinema, fotografia e dança. Dessa forma realizei recitais com o músico Barná Cardoso, com a artista plástica Leilane Cedraz, com o cantor e escritor Jorge Mautner, com o grupo de teatro a Trupe dos Trupícios, com o sapateador Wilson Tavares, com a museóloga Mona Ribeiro, com o diretor Railson Oliveira, com o baixista Clécio Terêncio entre outros.
Tenho cinco livros escritos, nenhum publicado. Na verdade eu nunca fiz um esforço para que isso acontecesse, já houve até tentativa de acordo, ou lançamento em cooperativa, ou ainda uma proposta de uma pequena editora local, mas nunca me interessei suficientemente. Porém, pretendo e vou publicá-los Acredito que um verso meu resume bem a questão: “Prefiro o palco ao eterno, assim como instante à estante”. Mas sempre gostei mesmo foi de luz, de gente, de microfone. Gostei tanto que ainda gosto. E gosto de gostar. Gosto da vaia, do salto, e também gosto do chão. Gosto de você que me lê agora. Mas gosto mesmo é do não!

DOIS POEMAS DE GIBRAN SOUSA


SEX SHOP SHOW


sandras simones sheilas suzanas sílvios
soprando sonoros sustenidos silvos
suspiram surdas sinfonias servis

sob suvenirs
sob suecoss
sob saraus
sob sífilis
sob sites
sob $im

salivando sentando
sumindo sugando surgindo supondo
subindo sangrando sambando saudando

ser sem sul sem sutiã sem sempre
swing silepse serpente
síncope sã
silente
ser
-mão: sob sol
suspenso: sobre sub-
missas santidades sodomizadas
sem sal sem salmo sem salmão só senão

sorrindo suando satisfazendo saciando sujos
sádicos secretos sinceros sujeitos
"suicidas sêmen suspeitos"

sem s
sem se
sem ser
sem sem
sem sede
sem sentir

sequestram-se subornam-se senzalam-se
simulando superlativos sustentam seus sonhos:
servindo sua sugestão seu sexo seus seios sua solidão



A QUEDA CAÍA EM MIM


VÍDEO-POEMA DE GIBRAN SOUSA

terça-feira, 15 de junho de 2010

JIVM - TRANSMUTAÇÃO


Escultura: David, de Gian Lorenzo Bernini


TRANSMUTAÇÃO


Eu jogo uma pedra em tua cabeça para que ela cresça em dor.
Para que, plantada em tua cabeça, a pedra frequente a tua existência
e desperte em ti a vontade de plantar pedras em outras cabeças.

Eu tenho uma vontade enorme de que um dia toda a humanidade
jogue pedras e que Deus receba a pedrada certeira, exata.



JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

segunda-feira, 14 de junho de 2010

ROSEIRAL EM JEQUIÉ



Depois de ter lançado o Roseiral na Academia Sergipana de Letras, em Aracaju, no dia 7, chegou a vez de Jequié, cidade onde moro. Foi um evento muito legal, que aconteceu na Biblioteca Central da cidade, no dia 11 de junho, e contou com a presença de pessoas queridas, como Narlan Matos, Maurício Bastos Almeida, Leonam Oliveira, Bené Batera, Nuno Menezes, Glauce Souza, Márcia Auad, Dermival Rios, Vitor Nascimento Sá e os integrantes do Grupo Concriz, e muitos outros. O lançamento fez parte do projeto Travessia das Palavras, que coordeno juntamente ao Leonam Oliveira, presidente da Academia de Letras de Jequié. No início, Narlan Matos, poeta de Itaquara que desenvolve pesquisas na América do Norte, falou da minha poética, aproximando-me de Jorge de Lima e destacando os aspectos pastoral e telúrico da minha produção. Segundo Narlan, O Roseiral traz a pedrada necessária para que lembremos que moramos no planeta Terra, e que a água que sai na torneira vem da Natureza. Depois, o Grupo Concriz fez um belíssimo recital com poemas do Roseiral. Em seguida, fui chamado para falar um pouco. Na sequência teve a apresentação musical do Trio Arguidá, grupo de jazz, e do cantor e compositor Nuno Menezes, que interpretou quatro parcerias nossas – músicas de Nuno sobre poemas meus. Narlan Matos não se conteve e tocou várias canções com o Trio Arguidá, enquanto eu fazia dedicatórias para as pessoas que adquiriram o livro. Como disse antes, um evento muito legal.
JIVM

Leonam Oliveira

Narlan Matos

Grupo Concriz (Vitor, Aleandro, Ailana, Ivana e Marcelo)

Grupo Concriz (Ailana, Flávia e Larissa)

Público do Roseiral

Grupo Concriz

Grupo Concriz


JIVM

Trio Arguidá

JIVM e Márcia Auad

JIVM e Maurício Bastos Almeida

JIVM e Linda Soglia

quinta-feira, 3 de junho de 2010

SANGUE NOVO - ALEXANDRE COUTINHO



POESIA SEMPRE FOI FOME – Para ALEXANDRE COUTINHO “poesia sempre foi fome” e “só responde àquilo que é do desejo”. E foi com essa fome que alimentou seu desejo, quiçá insaciável, e escreveu seu primeiro livro, Estudos do corpo, no qual pôde “experimentar simetrias, compor e decompor o corpo masculino do poema”, e que tem publicação prevista para o mês de agosto. Alexandre tem 27 anos, nasceu em Iraquara, interior da Bahia, é mestrando pela UFBA e formou-se em Letras pela mesma universidade. Além de poeta, desenvolve trabalhos com música e performance. Edita o blog Infinitas Cortinas (http://infinitascortinas.blogspot.com/). Vamos, então, conhecer um pouco mais das texturas desse jovem poeta.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – como descobriu a poesia? E por que ser poeta?

ALEXANDRE COUTINHO – Quando vi já estava escrevendo. Desde meu 12 anos, trago comigo cadernos desorganizados e cheios de orelhas. Daí a publicação como conseqüência. Acho que acabei me tornando poeta (se assim posso me chamar) pelo desejo de minimizar minha estupidez enquanto homem da ordem prática, a poesia acabou sendo arma contra a ignorância, minha e do mundo.

JIVM – A poesia exerce algum papel na sociedade? A poesia tem alguma utilidade? Pessoa é tão necessário quanto um pedaço de pão? Nem só de pão vive o homem, mas é possível viver de poesia?

AC – A poesia é por si só um posicionamento político ante a ordem da linguagem, dos homens e das coisas.
A partir do momento em que começo a pensar utilidade em poesia, tiro dela todo acontecimento; a poesia só responde àquilo que é do desejo.
Pessoa é um farto pedaço de pão, o resto é farelo. Poesia sempre foi fome, e temo que seja insaciável. Se não é possível viver de poesia, é possível viver com poesia?

JIVM – Quais os livros de poesia que mais lhe fascinaram e quais seus poetas preferidos?

AC – Sempre fui um leitor de poesia, muitos livros me fascinaram, entre eles : Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão, da Hilda Hilst; Ou o Poema Contínuo, do Herberto Helder e Barulhos, do Ferreira Gullar. Poetas são muitos, Álvaro de Campos, Ana Cristina César, Borges, Quintana, Manoel de Barros, Baudelaire... por aí vai.

JIVM – Você acaba de ter um livro de poemas, Estudos do corpo, selecionado para publicação pela Fundação Pedro Calmon / Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Fale desse livro, de como foi gerado e o que representa essa seleção/premiação? Qual a previsão para a publicação?

AC – Passei quatro anos com Estudos do Corpo, ele já foi tanta coisa... ali pude experimentar simetrias, compor e decompor o corpo masculino do poema. Meu caderno mais maduro, minha doença mais sadia. Ele ter sido selecionado me mostrou que a coisa mais importante é realmente navegar, pois que a publicação é mero resultado do experimento. Se não fosse por uma amiga, que insistiu em escrever o projeto, o livro estaria até hoje na gaveta. Fiz algumas ilustrações pra ele também. Estou muito feliz com a seleção, ver os Estudos do Corpo ganhar autonomia só me excita mais e me liberta pra outras tentativas. O livro sairá pela 7letras, uma editora carioca, e tem previsão de lançamento para o mês de agosto.

JIVM – Algum novo livro em processo? Algum projeto em vias de realização? E o que mais?

AC – Sim, sim. As coisas estão se criando, acontecendo junto comigo. Além dos poemas, das músicas, que são regulares, porque são respirações de minha natureza sensível, venho experimentando a prosa numa tentativa de vencer uma inabilidade que tenho com histórias. Mas nem sei o que são ou quando se completarão, se é que isso é possível. Além de escrever, também me meto na música e ando desenvolvendo um projeto com minhas composições. Vamos ver no que dá.

TRÊS POEMAS DE ALEXANDRE COUTINHO

















JAZZ nº 19


eu provoco, invoco e me coloco
no meio do redemoinho
reteatralizo o desejo
invento mil máscaras
mesmo que esfaceladas
para forçar um diálogo
com teu corpo
ou com teus líquidos.
Invento um efeito qualquer
metamorfoses em cena. sujeito
e espectador. luzes no centro
que contorno. abalos na linguagem
dramas da imagem. sistemas lógicos
da ficção que invento:
uma história das fissuras
um caderno de tuas ausências
ou de meu feitiços. ou das doenças
do desejo. terreno que não se esvazia.
ritual da noite. chamamentos do dia.



JAZZ n°20


Eu já fui mais que esta sombra,
Tão noite como quem esquece
Luzes debaixo d´água. Sorriso de mil vias
Ondulações de umidade sobre a terra:
Contrários da mesma ordem
ou da linguagem das gentes;
Estudiosos da pintura
que nem sabem das velocidades,
fabricando paredes ou fundos
no côncavo das coisas:

- nos desconhecemos



NA FEBRE.


outras texturas. no delírio
a casa em chamas. quando te imagino

terça-feira, 1 de junho de 2010

PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS - JORGE DE SOUZA ARAUJO



Jorge de Souza Araujo, um dos intelectuais mais admirados da literatura baiana contemporânea, é o escritor que vai abrilhantar o projeto Uma Prosa Sobre Versos, no dia 4 de junho. Transita com propriedade pela poesia, pela ficção e pelo ensaio, sendo que neste último gênero é um dos mais respeitados, tendo recebido prêmios importantes em vários estados do Brasil. O projeto Uma Prosa Sobre Versos vai explorar mais o poeta Jorge, qe vai receber homenagens de dois grupos de recitadores, o Grupo Concriz, da cidade de Maracás, e o Grupo Renascer, da cidade de Planaltino. O evento vai contar também com a presença do Coral Fascinação. O Grupo Concriz recitará poemas dos livros Os becos do homem e Auto do Descobrimento: o romanceiro de vagas descobertas. Já o Grupo Renascer vai apresentar poemas do livro Tear de aracnideos. Após o recital, Jorge de Souza Araujo será entrevistado por Edmar Vieira, coordenador do projeto, e responderá as perguntas do público. Uma noite de encanto, de poesia e de conhecimento. Imperdível!
JIVM

VERÔNICA DE VATE - JORGE DE SOUZA ARAUJO



JORGE DE SOUZA ARAUJO é baiano de Baixa grande (7/01/1947). Transferindo-se em fins de 1960 para o sul da Bahia, cumpriu o ginasial em Itabuna e o colegial em Ilhéus e Salvador. Licenciou-se em Letras pela Faculdade de Filosofia de Itabuna (1972), unidade hoje integrada à Universidade Estadual de Santa Cruz. É mestre (1980) e doutor (1988) em Letras pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, defendendo a dissertação “ O idioma poético afro-nordestino de Jorge de Lima” e a tese “Perfil do Leitor colonial”, respectivamente. Militou em rádio e teatro e no jornalismo impresso. Fez críticas literárias para o Jornal de Brasil, Correio do Povo, Revista Nacional, Revista Tempo Brasileiro, suplemento Literário de Minas Gerais, Arte & Palavra, Revista Quinto Império, Revista de Cultura Vozes, A Tarde Cultural e outras publicações. Participou de antologias de conto, poesias e ensaios, com destaque para O moderno conto da região do cacau (Rio de Janeiro: Ed. Antares, 1978), Doze poetas grapiúnas (Rio de Janeiro: Ed. Antares, 1979) e Estudos de literatura brasileira - 1(Rio de Janeiro: Faculdade de Letras UFRJ, 1985). Como estudioso de literatura, pronunciou conferências por todo país, em cursos, oficinas, seminários e congressos. Declara-se ainda professor universitário de Teoria da Literatura, Literatura Comparada e Literatura Brasileira. É Professor Adjunto da Universidade Estadual de Feira de Santana.


ALGUNS LIVROS PUBLICADOS

Os becos do homem (poesia. Rio de Janeiro: Antares, 1982).
Auto do Descobrimento: o romanceiro de vagas descobertas (Ilhéus-BA: Editus, 1997).
Perfil do leitor colonial (IlhéusBA: Editus, 1999).
Profecias morenas: discurso do eu e da pátria em Antônio Vieira (Salvador: Assembléia Legislativa/Academia de Letras da Bahia, 1999).
Essa esquiva e dilacerada fauna: contos (Ilhéus-BA Letra Impresa, 2002).
Pegadas na praia: a obra de Anchieta em suas relações intertextuais (Ilhéus-Ba: Editus, 2003).
Dioniso & Cia. na moqueca de dendê: desejo, revolução e prazer na obra de Jorge Amado (Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003).
Ainda que nos precipitem (Ilhéus-BA: Letra Impressa, 2005).
Letra, leitor, leituras: reflexões (Itabuna-BA: Via Literarum, 2006).
Graciliano Ramos e o desgosto de ser criatura (Maceió: Edufal, 2008).
Floração de imaginários - o romance baiano no século 20 (Itabuna: BA, Via Litterarum, 2008).


EXCERTOS DE POEMAS DE JORGE DE SOUZA ARAUJO:


A linguagem é um asno roto
no caminho das metamorfoses
o suor no rosto do texto
metáforas soluçando abortos
e seqüestrando formosuras


Caiar o coração é uma certeza tesa.
Minha alma, como um carro de bois
e sua cunha de imburana, geme, penada.
Meu sangue, por canais, transporta afetos
e potros galopam em meu peito estúpida e boçal
melancolia



A angústia humana
moeda do real vincada em símbolos
imagens de cacimbas e de nuvens
ora pó ora água profunda e intestina
habita o interior do homem
nele presença sem resguardo


O amor pra ser gostoso
nunca deve ser pamonha
tem de ser escandaloso
cego surdo e sem vergonha

sábado, 22 de maio de 2010

A PASSAGEM DE DAMÁRIO DACRUZ



Em 5 de junho de 2009, Damário Dacruz esteve em Maracás para participar do projeto Uma Prosa Sobre Versos. Foi um momento muito bonito. Damário sabia cativar platéias e seus versos curtos surtem um forte efeito em quem ouve. O Grupo Concriz fez um belo recital e tirou lágrimas do poeta do Pouso da Palavra.
Terminado o evento, fomos para uma pizzaria, onde conversamos bastante. Percebi que o poeta tossia sem parar e fumava sem parar. Confesso que não tive bons pressentimentos e, na qualidade de uma pessoa amiga e sincera, falei para ele que deixasse aquele diabo, como é que podia um poeta como ele, com uma namorada tão elegante, com dois belos filhos, se entregar para uma porcaria como o cigarro. A namorada concordou. Damário também. Mas puxou logo outro assunto. Fui insistente e pedi para que fizesse um esforço no sentido de largar o cigarro. Ficou em silêncio. Continuamos nossa noite de confraternização. No dia seguinte o poeta de “Todo risco” partiu com sua namorada para Salvador, no ônibus das seis da manhã.
Uns dez dias depois, recebi um e-mail de Damário, informando-me que na viagem de volta sentira-se muito mal, que, apesar do frio, suara muito. E que procurara um médico que fez um diagnóstico muito grave, mas que só poderia ser comprovado após uma série de exames. Passou uma semana. Passou um mês e nada de receber notícias do Damário. E foi através de terceiros que soube que ele estava com câncer no pulmão. Não tive coragem de ligar para ele. Tentava e não conseguia. Algo me travava.

Linda, mãe de Rosa e João Cleber (no colo), Lis, Rosa, Gabriel Gomes, Damário Dacruz, JIVM e Gabrielzinho (no colo) e Cleberton Santos. Não estão na foto: Ricardo Prado, o fotógrafo, e Moisés, que brincava com outras crianças.

Passou um mês. E mais outro. Até que chegou outubro. Foi então que liguei para Damário, que me atendeu efusivo, bastante animado. Desculpei-me por não ter ligado antes, fui sincero, disse-lhe que não estava conseguindo, mas queria ir a Cachoeira, no Pouso da Palavra, para lhe fazer uma visita. O poeta falou que não havia necessidade, mas insisti e combinamos. No dia seguinte nos encontraríamos no Pouso da Palavra.
Então liguei para João de Moraes Filho, em Salvador; para Cleberton Santos, em Feira de Santana; e para Gabriel Gomes e Ricardo Prado, em Salvador, convidando-os para ir a Cachoeira visitar o poeta Damário Dacruz. João não pôde ir, mas os outros todos toparam.
No dia seguinte, 4 de outubro de 2009, saí de Jequié com Linda e nossos dois filhos, Moisés e Gabriel; Cleberton saiu de Feira de Santana com Rosa, o bebê João Cleber e a mãe de Rosa (sogra de Cleberton); e Ricardo, Gabriel e Lis, saíram de Salvador.
Almoçamos em Cachoeira e passamos a tarde com Damário, que nos recebeu com a sua costumeira hospitalidade. Falou-nos de como estava lidando com a doença, de como o médico estava impressionado com sua reação à quimioterapia, passando as mãos nos cabelos, mostrando-nos que os seus cachos estavam todos ali, coroando sua cabeça de querubim. Passeamos por todo sobrado. Recitou para nós alguns poemas seus. Deu um carrinho para meu filho Gabriel. Pegou o João Cleber nos braços. E encerramos o nosso encontro ouvindo o Damário ler poemas de Manoel de Barros. Assim foi o meu derradeiro encontro com o poeta Damário Dacruz. Um homem que amava a poesia e que lutou pela vida até não mais lhe restar força.

JIVM, Damário Dacruz e Cleberton Santos

Pois é, poeta, cheguei da Pedra Só e recebi a notícia de sua passagem. O poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos, o fotógrafo Ricardo Prado e meu compadre Gabriel Gomes haviam ligado durante o dia, mas eu estava na roça. Mais adiante a gente se encontra, quiçá “nos favos de mel das europas/ ou no estrume das vacas leiteiras”. Parabéns por ter deixado esse planeta mais bonito, parabéns por ter cumprido as quadras de sua vida com poesia.

JIVM
21/05/2010

DAMÁRIO DACRUZ - GRAN FINALE


Foto: Ricardo Prado

GRAN FINALE


Avise aos amigos
que preparo o último verso

A vida
dura menos que um poema

E no alvorecer mais próximo
saio de cena.


DAMÁRIO DACRUZ
(27/07/1953 - 21/05/2010)

quarta-feira, 12 de maio de 2010

JIVM - A ROSA VIVA


Ilustração: Daniel Biléu

A ROSA VIVA


Estas rosas que vês em mim são brasas.
Por isso, muito cuidado ao tocar
em suas pedras – pétalas sagradas.

Minhas palavras ardem a forjar
estas flores que canto por prazer
e que dão febre e fazem delirar.

Meu coração é mesmo a rosa viva.
Por isso, muito carinho ao pegar
suas pétalas – pedras tão aflitas.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

ANIMAL EM FLOR

Por Antonio Nahud Júnior


Um dos deveres dos amantes da literatura – particularmente dos que estão interessados em escrever - é ler autores contemporâneos. Se o clássico é vital, o contemporâneo não deixa de ser essencial: assim como não se escreve com profundidade ignorando a tradição, tampouco se escreve com interesse para o leitor de hoje sem que o mesmo reconheça, ali, o seu mundo particular, o seu oráculo, a sua revanche de vida. A quem possa interessar, “Roseiral – O Mundo Encarnado pela Seiva das Rosas Escarlates” (Escrituras Editora, 2010) é uma excelente pedida de leitura, uma aurora particular e abrasadora. Poesia densa, visceral, viril, erudita e de íntima vivência rural. Seguramente, um dos poetas-chave da moderna poesia nordestina, a voz singular de José Inácio Vieira de Melo oferece neste seu quinto livro um panorama bastante completo de sua essência telúrica, num diálogo entre o moderno e a tradição. À procura do tempo perdido, sua oralidade lírica experimenta, explora vertigens. São versos aflitos e agressivos (e, principalmente, o subtexto deles) que cavam fundo os conflitos humanos, sangrando as entranhas, entre o amor e a dor, vencendo a difícil batalha-confissão da tirania patriarcal. O poeta-lâmina, guerreiro de luz, animal em flor, corre riscos, renova-se, enfrenta os seus demônios e labirintos, abre o coração, coeso e despudorado, violento e erótico, resultando na sua criação mais autoral e imprimindo o tônus poético de filho de um sertão único, de dentro – um “sertão do mundo”, como traduzia o mestre Guimarães Rosa. Como bônus, assombradas ilustrações de Daniel Biléu e comentários vitais de Myriam Fraga e Eliana Mara Chiossi que revelam sensivelmente o cântico distinto do autor.


Antonio Nahud Júnior é escritor, poeta e jornalista. Publicou os livros
O aprendiz do amor (1993), Retratos em preto e branco – contos góticos de Madri (1996), Ficar aqui sem ser ouvido por ninguém / Caprichos (1998), Se um viajante numa Espanha de Lorca (2005), Suave é o coração enamorado (2006) e Livros de Imagens (2008) Edita o blog Cinzas e Diamantes (
www.cinzasdiamantes.blogspot.com), onde foi publicada esta resenha.

domingo, 9 de maio de 2010

UMA POESIA NASCIDA DO CHÃO

Por Maurício Melo Júnior


O poeta José Inácio Vieira de Melo molda sua poética com os elementos mais íntimos de sua formação: a terra, os cactos, os bois. Naturalmente que nesta linha segue as trilhas abertas por poetas tão longínquos quanto esquecidos – Inácio da Catingueira, Severino Pinto, Zé da Luz. A diferença é que sua poesia se projeta para além do chão, sai da base e ganha outras transcendências ao resvalar em cantares mais formalmente elaborados, ao adicionar novas inquietações culturais, ao se surpreender pelos novos choques da vida, ao incorporar outras tantas dimensões humanas.
Em seu mais recente livro, Roseiral, lançado pela Escrituras, o poeta parte de um choque: a vida que chega aos quarenta anos. Depois do choque vêm as imagens – rosas abertas, mandacarus floridos, feridos em suas asperezas. E só daí brotam os poemas que em absoluto são filhos de ingênuas inspirações. Há o ritmo natural e aparentemente espontâneo dos improvisadores primitivos, dos cantores de gestas, mas há também um formalismo latente, vivo, trabalhado com minúcia, pois do contrário seria impossível escrever com tamanha força: “E a voz do poeta rompe / a cera dos ouvidos, leva o mel // ou a pimenta às vísceras abertas / do sentimento.”
Filho de movimentos paradoxais, como a Geração 45 e a literatura de cordel – das cantorias de viola mais ainda –, enfim, José Inácio careceu romper as amarras do lugar comum, afinal não deve ser fácil remar em mares já fartamente navegados por épicos cantores, como Marcus Accioly. O poeta pernambucano, também um sôfrego beberrão dos veios populares e eruditos, constrói uma poética cavada do chão das usinas e ganha dimensões homéricas, vadiando por vagas culturais profundas, desaguando em protestos e louvores de Américas oníricas. Inácio, por seu turno, amolega a terra agreste das Alagoas, toma impulso para entender o mundo e se volta para a intimidade do sentimento. E isto não se traduz como retrocesso.
Por vias contrárias, seu Roseiral dá um passo a mais na direção do infinito exatamente por se fazer introspectivo e buscar a universalidade que todo homem carrega na alma. E daí o balanço necessário, o inventário de uma vivência preenchida por medos e certezas: “Assim é a casa dos meus quarenta anos, / assombrada e sóbria como um bacurau.” O largo poema segue falando de fantasmas que estão longe do espectro paterno que assombrou Hamlet. Não há sentimentos de culpa, mas uma vontade de prestar contas e rever as lições do passado, e nisso os versos ganham consistência e necessidade, perdem inutilidade ao dizerem que as dores do autor são comuns aos outros homens.
O humano é um bicho que deita suas ilusões ao longo do caminho para abrir espaço para outras tantas que logo também serão desilusões domadas ao ponto de não se transformarem em frustrações. É o que nos diz o verso final: “A casa dos meus quarenta anos – cemitério de ilusões.”
Este jogo de contraluz das ilusões, não podia ser diferente, desaba nos cantares de amor, um gesto que atentou até mesmo o lirismo pessimista de Augusto dos Anjos. No caso de Inácio a temática torna-se a mais cara ao livro. As gestas de amor permeiam todos os pontos do Roseiral, vai de “A idade da pedra” ao “A casa dos meus quarenta anos”. Embora assuma uma nova condição em cada nova fase, clama sempre por uma indissolúvel paixão: “Musa, teu vestido tem os novelos / da formosura!”, ou seja, a própria poesia.
Daí nascem a terra, o cacto, o boi. “E, guardador de rebanhos, vou debulhando o meu rosário / encostado no mourão da cancela, contando minhas reses / todos os dias, muitas vezes, com a cabeça no meio do planeta.”, única maneira que o poeta encontra para mirar enfim o homem e todas as suas possibilidades.
Jose Inácio Vieira de Melo renova-se ao mirar o passado com olhos futuristas.


MAURÍCIO MELO JÚNIOR é escritor, crítico literário e jornalista. Apresenta o programa Leituras na TV Senado. Escreve para o jornal literário O Rascunho. Autor de vários livros, entre eles No país dos Caralâmpios (história, 2006) e Andarilhos (novelas, 2007).

Resenha publicada na revista virtual Verbo21 número 129, abril 2010 (
http://www.verbo21.com.br/v3/)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS - LEONAM OLIVEIRA E MAURÍCIO BASTOS ALMEIDA



Na sexta-feira, dia 7 de maio, às 19h 30min, vai ter Uma Prosa Sobre Versos na cidade de Maracás. Dessa vez o projeto vai apresentar dois poetas de Jequié, a Cidade Sol: Maurício Bastos Almeida e Leonam Oliveira, ambos membros da Academia de Letras de Jequié. E, claro, o evento contará com a participação especialíssima do Grupo Concriz. A abertura do evento ficará por conta da Filarmônica Malasés. Imperdível!

quarta-feira, 28 de abril de 2010

ENTREVISTA - JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO: UM POETA NO JARDIM DA IMENSIDÃO

Por Maurício Melo Júnior, Lima Trindade,
Vitor Nascimento Sá, Mariana Ianelli e Igor Fagundes

Foto: Ricardo Prado

José Inácio Vieira de Melo acaba de lançar seu quinto livro de poesia:
Roseiral. Cantado por Myriam Fraga, Astrid Cabral, Maria da Conceição Paranhos e Eliana Mara Chiossi nos textos da contracapa, orelha e posfácio, o poeta faz de seu universo um imenso jardim. Vermelho. E lança pedras como se fossem pétalas. Com a mesma disposição de Davi frente ao gigante, alça sua voz singular sobre os telhados do mundo. Nesta entrevista, ele nos fala de suas influências, processo criativo, sonhos, sertões, inveja e muitos outros assuntos ligados à arte de escrever e viver. Paremos para ouvi-lo.

MAURÍCIO MELO JÚNIOR – Seu novo livro, Roseiral, seguindo a trilha de sua obra, é um diálogo entre o moderno e o arcaico. O que esperar de novo nesta conversa já tão antiga?

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Embora compreenda “que o novo sempre vem”, os anseios por novidades a qualquer custo não me atraem. Ainda mais quando me lembro dos versos de Sierguei Iessiênin, que dizem “Se morrer, nesta vida, não é novo,/ Tampouco há novidade em estar vivo”. O que me faz recordar também de um velho adágio popular: “Abaixo do céu e acima da terra, não há nada de novo”.
O que busco é dizer as coisas de uma forma que ao menos soe pessoal. Busco expressar meus sentimentos de uma maneira que possam despertar emoções no outro, mas quando o faço, não penso no outro. Faço poesia por uma necessidade vital. Claro que existe uma preocupação estética. E nesse aspecto, como você já observou, dialogo com a tradição. Penso que ninguém cria uma obra do nada. Por mais inovadora que ela seja, sempre apresentará pontos de convergências com outras preexistentes. Acredito mesmo que as referências sejam salutares para que se possa criar algo valoroso. Quanta ‘obra de vanguarda’ não perdura mais que uma semana? A cada esquina aparece um poeta que se intitula ‘inventor’. Isso só acontece porque esses vanguardosos, que buscam a novidade desesperadamente, não leem. Uns porque não gostam de ler, outros para não verem suas ‘obras’ serem influenciadas. E, por conta dessa ignorância, apresentam pastiches de quinta categoria do que já foi feito a cem ou duzentos anos.
Eu, particularmente, não acredito em escritor que não lê literatura. Vanguarda para mim tem que ser como Dom Quixote. E foi dessa conversa tão antiga entre Cervantes e José Lins do Rêgo que surgiu o Capitão Vitorino. Foi da conversa antiga de Lima Barreto com Cervantes que surgiu Policarpo Quaresma. E foi assim, sem querer inventar a rosa, que surgiu o meu Roseiral. Em um diálogo com os poetas que admiro e com os que vou conhecendo na minha caminhada pela existência. Ah, nada como uma prosa boa para despertar a poesia da vida!

LIMA TRINDADE – Você não inventa a rosa, mas anuncia, desde a epígrafe de Gertrude Stein, que a rosa vive e respira independente de nossas vontades, e que podemos, sim, olhar a rosa, sentir o seu odor e colher, por meio de nossos sentidos, seus múltiplos significados. Poderíamos afirmar, então, que você re-inventa a rosa? Que sua rosa é uma e nenhuma mulher, é começo e fim, amor e morte, matéria e sonho, paraíso e danação?

JIVM – Embora tudo – nos tempos e pelos tempos – seja tão semelhante, cada momento é singular. A cada instante construímos relações que vão compondo o que somos. Somos uma invenção que está constantemente a se reinventar. Nesse sentido, o Roseiral é invenção e re-invenção. A epígrafe inicial do livro, como você bem observa, aponta para isso, que uma rosa é tão-somente uma rosa, mas é também toda a possibilidade de criação. É o Jardim do Éden, do qual nos fala a Bíblia, é o Jardim das Delícias, de Bosch, o Jardim das Acácias, do Zé Ramalho, são meus jardins dos Mandacarus e das Algarobeiras e, finalmente, é Roseiral – o jardim da imensidão. Eu me invento dentro desse Roseiral. Suas rosas são brasas. Suas pétalas, pedras que jogo na cabeça de Deus e de quem estiver pela frente, para que jorre a seiva escarlate e assim eu possa ver o mundo encarnado. Para além de uma elegância asséptica, busco colocar em meus versos a força do animal humano, persigo os aromas e os matizes do barro em que foi moldado.
Há um poema no livro, intitulado “Invenção da poesia”, que explicita bem as proporções do Roseiral, a partir da estrofe inicial, que diz “Pele vestida, distribuída e refeita,/ parto para o princípio do labirinto”. Mas, logo em seguida, afirma: “Parto e principio o labirinto”. O Roseiral é um jardim, porém o seu elemento ordenador não é a plenitude, é a inquietação. É a busca da origem, da Rosa Mística, que inicia quando partimos à procura do princípio do labirinto. Acontece que, quando partimos, damos início ao nosso labirinto. O meu Roseiral é um labirinto. E, como não preciso de justificativa, “parto,/ que a peripécia não é chegar,/ que o coração só tem um fim:/ ao som do coro das sereias/ cantar o ciclo da origem”.

Astrid Cabral e Eliana Mara Chiossi avaliam
esteticamente o mais novo livro de Vieira de Melo
VITOR NASCIMENTO SÁ – A leitura de Roseiral deixa evidente uma preocupação em concatenar os poemas de um modo que a obra se torne uma espécie de organismo coeso, ou pelo menos se assemelhe a isso. Essa impressão nos é transmitida tanto no campo formal como no temático. Certamente, é luta árdua – e vã – ter controle exato sobre o que se escreve e impor-lhe uma linha coerente, uma espinha dorsal, por assim dizer. Coube a você decidir que rumo a escritura tomaria durante todo o processo ou os poemas se impuseram, um a um, ordenando-se acidentalmente? Até que ponto, essa seleção e ordenamento foram intencionais e conscientes?

JIVM – Sua pergunta é curiosa, porque o Roseiral surgiu de um sonho, de um lance de pétalas. Os ventos dadaístas, anunciados no poema “A casa dos meus quarenta anos”, visitaram-me numa certa noite, lá na Pedra Só, minha roça, e me vi como um condenado a fazer versos bem diferentes dos que estão presentes na minha produção anterior. E, logo de cara, o nome se impôs: Roseiral (Ah, quantas críticas sofri por causa desse título!). E os poemas só falavam em rosas, em mulheres, em sangue, em pedras. Logo em seguida, soube que um amigo, dos tempos de adolescência, havia cometido suicídio com um tiro, de revólver calibre 38, na cabeça. Na hora veio a imagem de uma rosa de sangue brotando violentamente da sua face. E pensava num belo roseiral escarlate nascendo em cima de um lajedo. Era uma loucura e eu não sabia que rumo daria para essa produção. O engraçado é que boa parte desses poemas foi feita com versos medidos, visitando desde as redondilhas até o alexandrino e, principalmente, o decassílabo.
No capítulo “Roseiral” há seis sonetos brancos. Mas, se algum purista – defensor rigoroso da predominância do decassílabo heróico e perseguidor das rimas raras – pegar esses poemas para ler, vai ficar apavorado, porque, além de colocar simultaneamente no mesmo soneto o decassílabo heróico, o decassílabo de gaita galega, o de arte maior, o sáfico e o de inclinação provençal, evito os preciosismos professorais. Dialogo com a tradição, mas não pretendo ser Olavo Bilac. Ao invés de ficar queimando as pestanas para fazer pastiche de quinta categoria dos poetas que me antecederam, estou explorando e experimentando. Estou fazendo meu caminho.
Paralelo a esse acontecimento das rosas, surgiram uns poemas extremamente agressivos, despudorados e violentos, que tinham endereço certo: o patriarcalismo que sempre esteve de sentinela, a massacrar as diferenças e moldá-las à sua imagem e semelhança. Na mesma linha do despudor, surgiram uns poemas eróticos que eu jamais imaginei que teria coragem de publicar.
Como pode perceber, no começo não houve nenhuma possibilidade de ordenação, pois os poemas surgiram em grupos e aos borbotões. Com o passar do tempo – meses e meses – é que fui percebendo que determinado poema não cabia naquele conjunto, mas se adequava ao outro. E a arrumação ficou de tal maneira que os capítulos desenvolvem um andamento, como se estivesse fazendo um percurso, que começa no terreiro de pedras e que leva ao jardim, labirinto escarlate por onde se faz a travessia para alcançar a calçada da juventude e, finalmente, chegar à casa da maturidade. Mas acho também que cada capítulo, ou mesmo cada poema, pode ser lido separadamente, sem que haja necessidade de traçar um roteiro.

MARIANA IANELLI – Vejo que o poeta que anunciava a calmaria, em A infância do Centauro, agora se descobre, em Roseiral, no centro de uma vertigem. Nesse magma de criação, destruição, recriação, o poema, ainda que muitas vezes assuma o tom imprecatório, ainda assim, é uma rosa, uma revanche da vida. Não será este o grande desafio do poeta, hoje, transmudar pedras em pétalas, fazendo prevalecer o amor e a beleza sobre o golpe de violência?

JIVM – O segredo que a rosa preserva alimenta a minha fome de descoberta, a minha sede de beleza. Há algum tempo, afirmei em uma entrevista que poesia para mim é salvação. É nisso que acredito. Além de uma questão de fé, é também uma constatação, pois sem a poesia eu não conseguiria sobreviver. Também professo a beleza, mas nem sempre os aspectos positivos de um determinado assunto, sejam a grandeza, a novidade e a beleza, conseguem emoldurar a expressão que se originou no eu poético. O que me leva a pensar que não existem assuntos poéticos e assuntos não poéticos. Tudo cabe na poesia, do preço do feijão até as tragédias que assolam a humanidade. O triste fim de Heitor, dedicado pai de família e guerreiro ideal, pelas mãos do implacável e furioso Aquiles, não tira a beleza dessa passagem da epopéia de Homero.
Por falar em beleza, lembrei-me de Rainer Maria Rilke, quando diz nas Elegias de Duíno: “Pois o belo não é/ Senão o início do terrível”. E quantas vezes nos deparamos perplexos e assustados diante de uma situação, ou mesmo depois de ler um poema ou depois de ver um filme, e dizemos: Que coisa terrível! E é como se disséssemos: Que beleza! O Raimundo Fagner cantava para a minha adolescência uns versos de Antonio Brandão que me marcaram muito: “Beleza só depois de uma sangria desatada”. Não que seja masoquista, mas o sofrimento chega e entra sem pedir licença. Mesmo assim, é preciso reagir e abraçar a tarefa de transformar pedras em pétalas. Só que os olhares estão presos na vitrine, as pernas correndo atrás do carro novo, o pensamento está se especializando em conhecer cada vez mais sobre cada vez menos. E aí não há espaço para essa discussão. Então, só uma pedrada certeira para despertar a aurora das ideias.

IGOR FAGUNDES – Tanto em seus poemas quanto na entrevista, nestas suas respostas que jamais deixam de trazer o calor e o sol de um poema, como se também o fossem, ouvimos a voz dos deuses a saltar de sua boca. Em geral, quando um poeta dialoga vigorosamente com os mitos gregos, e assumindo que seria o seu caso, de imediato a crítica apressada o qualificaria (depreciativa ou elogiosamente) como erudito – poeta para poetas e não para o povo. Mas, de repente, temos um José Inácio Vieira de Melo entre algarobeiras da roça, entre o sertão e o agreste brasileiros, a chamar palavras como quem chama a seus bois, tão capaz de abraçar e comover um não-letrado quanto uma fazenda de gado o é. Um José Inácio Vieira de Melo a lembrar-nos que falar em gregos nada tem de impopular e letrado, se ali, entre os rapsodos e cantores da Grécia, tudo é corpo e oralidade, palpitando entre os homens comuns, ou melhor, incomuns. Já lhe perguntaram, aqui, acerca da convergência entre o moderno e o arcaico; contudo, penso que toda esta mitologia não apenas desfaça tal dicotomia ao derrubar a linearidade do tempo na revelação do que permanece contemporâneo, isto é, um presente jamais ultrapassável. Para além dessa dimensão temporal, imagino que, em seus versos, punge também a dimensão espacial desta mítica que entrevê na terra particular e brasileira, a terra universal. No lugar específico, o sem-lugar que abisma todas as terras. Quero, com tudo isso, chegar a uma questão: à sua habilidade de tornar o José Inácio particular e distinto em um Vieira de Melo universal, indistinto, abismal, de maneira que a história de vida do indivíduo que escreve se apresente em seus poemas com tal força, que ela mesma se torna um mito, uma mitologia para nós e em nós, seus leitores. O homem que escreve não se transforma apenas em um eu lírico que o transfigura ou dele diverge. O eu lírico também transforma este homem em certa divindade – no sentido grego e, portanto, originário. Afinal, tanto “A casa de meus quarenta anos” quanto “A calçada dos meus quinze anos” parece valer como oráculo para todos os que com seu Delfos se consultam. Diante disso, gostaria de saber se acredita que, em toda arte, o biográfico, para ser poesia, precisa deixar de sê-lo e, a partir daí, que discutisse até que ponto a potencialização, ou a superlativação, ou a transmutação de uma biografia contribuem para a mitificação da figura não do poeta, mas do homem que se lhe antecipa e nele se eleva.

JIVM – Rapaz, você foi longe... Mas eu estou aqui bem pertinho de uma algarobeira, sentido a brisa do sertão. Confesso que para mim é um tanto difícil explicar por qual mecanismo minha vida se apresenta na minha poesia. Mas, por outro lado, fica bem fácil quando sei que, para mim, não existe um José Inácio das obrigações cotidianas e, em separado, um Vieira de Melo poeta. Eu sou José Inácio Vieira de Melo por inteiro. Sou completamente poeta, embora saiba que não seja um poeta completo, pois sempre há searas a conhecer. Sinto que sou poeta 25 horas por dia. Não consigo dissociar minha vida da minha poesia. Sei que existem poetas bem mais competentes que eu, com uma obra mais consolidada que a minha, que não fazem o estardalhaço que eu faço. Ficam ali, recolhidos na tranquilidade, para lembrar de Wordsworth, e poucos sabem do seu ofício de poeta. Eu não. Por onde passo, deixo o rastro do poeta. E mesmo os que não entendem bem do que se trata dizem logo: “ele é poeta”, sem que haja nenhuma intenção de valoração.
Vivo pensando a poesia que me é possível o tempo inteiro. Mas, por mais intensa que seja essa relação, por mais próxima que seja do que sou, ainda assim, não é o que sou. Esse sujeito que está o tempo todo dentro da minha poesia, que se parece tanto comigo, sou eu mesmo tentando me autenticar dentro do poema, dentro da arte. Mas, ainda assim é uma representação. É um eu lírico idealizado, que vai pedir bênção aos mitos, sobretudo os gregos e hebraicos, para se perpetuar dentro de uma tradição. Não que o biográfico não esteja presente, mas há um somatório de referências, há enxertos de ficção que superlativizam o biográfico e potencializam o mito. A partir daí, a figura humana é investida por uma couraça do imaginário, pelo poder da criação, que pode lhe conferir heroísmo e até mesmo o deificar. O homem que sou, e que se diz poeta o tempo inteiro, não consegue acompanhar o eu poeta na escalada rumo às esferas do delírio, por maior que seja a sua vigília. No entanto, as pedras que são atiradas no poeta, essas recebo todas. Em dobro, até.
No que se refere aos mitos, sempre achei que são coisas do povo. De um lugar para outro, de uma época para outra, mudam-se os nomes, mas são as mesmas figuras mágicas que vêm atender as necessidades de milagres e de punições das tribos, dos povos. Apesar do diálogo com os mitos gregos, sinto-me um poeta de inclinação bíblica, um pastor de nuvens e de versos. Os meus livros anteriores devem tributo ao poeta Davi, o salmista. Já neste Roseiral, os Cânticos dos Cânticos de Salomão são uma referência mais próxima. A seiva das rosas escarlates do Roseiral trouxe um novo tônus para minha poesia.

MAURÍCIO MELO JÚNIOR – Tenho uma visão até óbvia de sua poesia: a forte presença da terra, do semear. E isso é um jeito meio esquecido pelos poetas contemporâneos, tão urbanos e violentos. Você é sertão, só que se conhece uma infinidade de sertões metafóricos – Zé Limeira, João Rosa, Zé de Alencar, Rachel, Mestre Graça, Cabral –, enfim, onde se localiza sua geografia íntima?

JIVM – Pois é, o sertão é o mundo, como nos ensina o Mestre Rosa. Por outro lado, o bardo cantador Elomar traz notícias de um sertão profundo, de dentro. A minha geolírica situa-se nessas plagas das quais falam João Guimarães Rosa e Elomar Figueira Mello. Um sertão íntimo, de dentro, tão intenso, que faz com que para onde eu olhe vislumbre o sertão planetário do poeta Gerardo Mello Mourão, a roça de estrelas de José Chagas e de Jorge de Lima. O sertão cósmico de Roberval Pereyr e de Antonio Brasileiro.
A minha geografia íntima é abismal e localiza-se no terreiro do meu ser – bem longe da balbúrdia dos modismos. Deitado nas relvas de Whitman, de dia pastoreio nuvens – de Pessoa e de Davi – no curral da imensidão azul. À noite, do balanço da rede, cultivo as estrelas nos labirintos de Borges, que trazem brilho, inquietação, suspiro, inspiração. O sopro lírico de Drummond e de Ruy Espinheira Filho. Cada estrela tem nome de poeta – Bandeira, Lorca, Kaváfis, Rilke, Murilo – e faz parte de uma constelação. Misturam-se e renovam-se. Morrem e renascem. E continuam. Tantas e tantas. Os que citamos e mais Herberto Helder, Cecília Meireles, Alberto da Cunha Melo, Maria da Conceição Paranhos, Francisco Carvalho, Myriam Fraga, Wilmar Silva, Mariana Ianelli, José Alcides Pinto, Astrid Cabral, Alexandre Bonafim e vários outros.

LIMA TRINDADE – Sinto que a ocupação desses diversos topos – como no caso do sertão (interior e exterior) e do urbano, da mistura de matizes eruditas e populares, da influência da cultura de massa em todas as esferas, do surgimento de novas configurações políticas e comportamentais – marca a literatura contemporânea e também a sua poética, que não escolhe um único ponto de vista, mas múltiplos. Você concorda com essa afirmação? Enxerga singularidade na produção dos poetas desse início de século?

Nietzsche: “Somente quem tiver o caos dentro de si
Poderá dar luz à grande estrela bailarina”.
JIVM – A contemporaneidade jogou o ser no cerne do caos. Vivemos num globalitarismo que coloca todos em um suposto pé de igualdade, que relativiza as culturas em nome de uma cultura global. Mas sabemos que isso tudo é uma falácia. O que se percebe mesmo é a imposição de uma cultura dominante que determina comportamentos e estabelece padrões.
A poesia, como toda arte, questiona, subverte, mostra possibilidades para novos caminhos. E não é de se estranhar que, nesses tempos de indagação, o paradoxo seja a melhor afirmação a se oferecer. Não há muito que filosofar. Ninguém vai ficar se perguntando “quem sou eu?” no momento em que perde um braço. Mas o pior de tudo é que a maioria dos poetas – tão intrincados nos estudos culturais – está sem caminhos. Então, esses poetas, preferem ficar usando palavras soltas, mecânicas. Assemelham-se tanto aos robôs que os computadores parecem mais sensíveis. Seria preferível que se jogassem no abismo e bradassem humanamente. Talvez aí houvesse algum indício de liberdade para criar uma poesia que desperte emoção no leitor.
Mas nem tudo está perdido. Apesar de achar que é muito cedo para se falar em singularidade, existem poetas aflorando no alvorecer desse novo milênio que são avatares (para usar uma palavra que está em circulação). Poetas que não mataram a criança e que preservam suas humanidades. Não pense que sou apocalíptico. Apesar do momento caótico em que vivemos, comungo com Nietzsche quando afirma que “somente quem tiver o caos dentro de si, poderá dar luz a grande estrela bailarina”.

VITOR NASCIMENTO SÁ
– Entre as pedras que são atiradas no poeta, obviamente, há a crítica negativa daqueles que resolveram se colocar na vida como seus adversários poéticos, se é que isso faz algum sentido. Quem acompanha de perto sua produção – seja a publicação dos cinco livros (incluindo Roseiral), seja a realização dos eventos literários e culturais ou a sua atuação na internet – sabe que há aqueles que vivem espreitando seus passos e fazendo um esforço tremendo para negar tudo, infamar ao máximo. Por outro lado, se levarmos em conta a idade de sua poética (aproximadamente uma década) sua fortuna crítica é imensa e chove comentários elogiosos de nomes consolidados. Como é viver, poeticamente, assim, entre a simpatia de tantos e a extrema ojeriza de alguns? O que você aguarda desses opostos com o lançamento de Roseiral?

JIVM – Olha, não tenho do que me queixar. Minha poesia tem merecido a atenção de nomes significativos da literatura brasileira, das mais diversas vertentes e de diferentes gerações, como você bem observou. Vai longe o tempo em que eu tinha uma preocupação em conseguir uma editora para publicar meus livros. Hoje em dia, os convites são vários. Na verdade, tenho aberto portas para outros poetas publicarem seus livros por editoras que garantem, ao menos, uma boa distribuição. E é bom lembrar que estamos falando de poesia, gênero que não desperta o interesse da grande maioria das editoras, por conta da falta de leitores e, consequentemente, pela falta de consumidores.
Existe, no estado da Bahia, meia dúzia de pobres diabos que, movidos por uma inveja corrosiva, estão empenhados em difamar a minha pessoa e de desmerecer a minha produção poética. Esquecem de trabalhar (e passam a roubar), esquecem de suas famílias (que, por sua vez, procuram alento em outros braços), esquecem de si próprios (alguns têm até o álibi de serem loucos) e se dedicam completamente ao José Inácio Vieira de Melo. Não sabem, coitados, o quanto contribuem para que, cada vez mais, meus versos ganhem espaço.
Para o Roseiral não aguardo nada. Não sou de esperar. Gosto do movimento, do ritmo, de andar, de fazer as coisas acontecerem. Por enquanto, há oito lançamentos marcados: Aracaju, Belo Horizonte, Salvador e cinco cidades do Vale do Jiquiriçá. De modo que não tenho tempo para desperdiçar com as bobagens dessa meia dúzia de delinquentes.
Rainer Maria Rilke: uma referência para o autor de Roseiral
MARIANA IANELLI – No poema "Fuga", um dos primeiros do livro, você fala do momento em que "o homem chega dentro da criança" e aparecem os "sonhos - fuzilados no horizonte". O poeta, aí, não apenas antecipa sua fuga, mas anuncia, creio eu, todo um processo de enfrentamento e assimilação de forças contrárias que viremos a acompanhar ao longo de todo o livro. Esse conflito com um "patriarcalismo", como você mesmo disse, poderia ser compreendido, a meu ver, como uma batalha que se passa internamente, uma batalha que, por ser sanguínea, abrasadora, desperta também seu correlato subversivo de erotismo e paixão. Sob esse ponto de vista, pode ser que nesta "odisseia", título, aliás, de uma das seções do volume, o poeta se transmude não em Ulisses mas em Telêmaco, em busca do pai, para enfrentá-lo, numa viagem poética rumo às origens que põe a salvo a criança dentro do homem. Na seção "A calçada dos meus quinze anos", que concentra os poemas talvez mais significativos dessa batalha, a representação do banquete ocorre em três poemas, um deles intitulado "Canibal", o que me faz pensar novamente em um processo de assimilação poética, e por que não dizer, de transubstanciação, como indicam os versos do poema "Vampiro": "Sim, beberei teu sangue / quão saboroso é o vinho / que corre em tuas veias". Isto me lembra o que dizia Nikos Kazantzakis, em Carta a El Greco, sobre o dever de "reconciliar os irreconciliáveis" e arrancar do fundo de si mesmo "as espessas trevas ancestrais para delas fazer luz". Kazantzakis se referia aos antepassados que combatiam dentro dele, a terra e o fogo: "bons camponeses" por parte de mãe, "corsários sanguinários" por parte de pai. Gostaria, na verdade, que você comentasse um pouco sobre esse conflito interno, se ele existe, e como você o reavalia, agora, tendo cumprido mais este "ciclo da origem" que sua voz, já desde os primeiros poemas de Roseiral, profetizava.

JIVM – Eu cresci marcado pelo signo da diferença. Somos cinco irmãos. Todos homens. Sou o terceiro. Na verdade, sou o sétimo, visto que minha mãe teve nove filhos. Cinco vingaram. Pois bem, a partir de meus sete anos, o refrão que mais escutei, e que perdurou até os 20 anos, quando vim morar na Bahia, foi: “– Esse menino é todo diferente dos outros!” E foi com sete anos que tive de descer do fusca e ficar sozinho na entrada da fazenda, que distava uns três quilômetros da sede. Eu até hoje me lembro do meu pasmo e do imenso abandono que senti. Meu avô Moisés, quando soube, saiu correndo ao meu encontro...
Na adolescência, quando estudava em Maceió e passava os finais de semana e as férias no interior, o fato de gostar de usar cabelos grandes – ah, como sinto saudades dos caracóis dos meus cabelos – distanciou-me ainda mais de meu pai, uma vez que fiquei impossibilitado de sentar à mesa na sua presença durante alguns anos. É aquela coisa lá do poema “Banquete”. Não é muito fácil falar dessas coisas. Pois é! Mas, para tentar limpar o sentimento, só enfrentando tudo isso. E o Roseiral veio na medida, passando o passado na lâmina.
Quero deixar bem claro que meu pai é um referencial de inteligência e de conquistas. O que ele queria era que eu o acompanhasse na sua luta desenfreada para vencer na vida. Se a minha história parece difícil, a sua é muito mais: criado por uma tia desde os dois anos, começou a trabalhar na infância, frequentou escola por menos de um ano em sua vida, casou aos 18 com uma menina de 14 que, desde os 11, era órfã de mãe. E me ofereceram do que tiveram – o abandono – e muito mais do que não tiveram: a possibilidade de estudar e muito afeto também. Esclareço que, nesse ínterim, comecei a ter problemas com bebidas alcoólicas. E durante duas décadas (dos 13 aos 33 anos) a barra foi pesadíssima, e causei muitos problemas.
Você, Mariana, além de poeta brilhante, é uma leitora extraordinária. Mostra o compasso certo desse Roseiral: "reconciliar os irreconciliáveis". Eu, revestido por você do mito de Telêmaco, combato a tirania patriarcal que subjuga as diferenças, que massacra suas crias e, tal qual Procusto, molda o outro às suas medidas. Desse modo, a figura do Pai – que pode ser entendida como o deus, como o pai, o patrão, o governante – recebe de volta a coroa de espinhos que impõe ao filho. Depois de cumprir a travessia das rosas escarlates e de suas inúmeras pedras, sinto-me aceitando cada vez mais a minha condição de poeta. Em relação à família, pais e irmãos, estou muito distante. Parece-me que é a melhor maneira de sentir saudade e de ser tratado com respeito. No mais, tenho dois filhos – Moisés e Gabriel – que são luz em minha vida. Que alegria despertam em meu ser! E com que facilidade alimentam a criança que existe em mim!
JIVM: "Há algo de perdição nessa busca, porque sei que nunca vou estar satisfeito, sei que o que procuro estará sempre se escondendo detrás da árvore seguinte, do prédio seguinte e até mesmo na minha sombra"

IGOR FAGUNDES
– Disseste que, para o Roseiral, não aguarda nada, que não é de esperar. No entanto, muitos leitores esperavam um novo livro seu. Para além do que o inspirou a escrever e das elucubrações críticas que aqui fizemos, o que, em suma, afinal, podemos todos – os que já o leram e os que ainda não o leram – esperar de sua poesia? E será que José Inácio não espera nem por mais poesia em sua vida? Será que já não está chocando outros livros antes mesmo de este novo circular pelo Brasil? Tu nos deixa querendo mais poemas, mais livros, José Inácio...

JIVM – Quando falei que não aguardo nada para o Roseiral, quis dizer que não sou de ficar criando expectativas. Gosto de sair por aí, espalhando minha poesia. Não publico um livro e fico com ele dentro de casa, velando-o, esperando que algum crítico extraordinário venha descobrir o gênio que sou. Não acredito nisso. Nem tampouco fico na esperança de ganhar aquele prêmio tão desejado pela maioria. Eu corro atrás. Mesmo parado, dentro de casa, estou sempre pensando numa maneira de levar meus versos ao outro, através do mundo virtual.
Quanto aos que apreciam minha poesia, só posso dar garantia de que estarei sempre buscando... Buscando o verso que esteja afinado com meu sentimento, buscando a poesia de cada momento. Há algo de perdição nessa busca, porque sei que nunca vou estar satisfeito, sei que o que procuro estará sempre se escondendo detrás da árvore seguinte, do prédio da esquina e até mesmo na minha sombra. Eu vivo a poesia. Sinto que, a cada momento, ela apresenta-me uma nova face, ela inventa uma nova paisagem, ela me tira do chão e me conduz pelas esferas do delírio. Sinto que tenho um sorriso triste, mas a poesia me tira do sério, me deixa bobo, me deixa desse jeito que estou agora, fora do tempo, fora de mim. Completamente eu. E isto é o que há de melhor.
Escrevo pouco, uma média de 25 poemas por ano. O Roseiral saiu e já tenho no meu matulão umas três dezenas de poemas inéditos. Claro que outros livros virão. E vai ser assim até o último dia de minha existência. Sinto que a poesia é minha vida.


MAURÍCIO MELO JÚNIOR é escritor, crítico literário e jornalista. Apresenta o programa Leituras na TV Senado. Escreve para o jornal literário O Rascunho. Autor de vários livros, entre eles No país dos Caralâmpios (história, 2006) e Andarilhos (novelas, 2007).


LIMA TRINDADE é editor da revista eletrônica Verbo21 (www.verbo21.com.br) e escritor. Publicou os livros Supermercado da Solidão (novela, 2005), Todo Sol mais o Espírito Santo (contos, 2005) e Corações Blues e Serpentinas (contos, 2007). É mestre em Teoria da Literatura pela UFBA.


VITOR NASCIMENTO SÁ é poeta e professor de Literatura. É um dos criadores e dirigentes do Grupo Concriz (http://www.grupoconcriz.blogspot.com/), equipe de poetas e recitadores da cidade de Maracás, na Bahia.



MARIANA IANELLI é formada em Jornalismo e mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP. Publicou os livros de poemas Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005) e Almádena (2007), todos pela editora Iluminuras.


IGOR FAGUNDES é poeta, jornalista, ensaísta e ator. É mestre em Poética pela UFRJ. Escreve para o jornal literário O Rascunho. Publicou Os poetas estão vivos (ensaios, 2008) e os livros de poemas Transversais (2000), Sete mil tijolos e uma parede inacabada (2004), Por uma gênese do horizonte (2006) e Zero ponto zero (2010)

Esta entrevista foi publicada na revista Correio das Artes, Abril/2010, Ano LXI, na cidade de João Pessoa, na Paraíba. Foi distribuída nas bancas de revista como encarte do jornal A União, no dia 25 de abril de 2010.