NOITE
A noite hoje veio mais cedo. Nem as galinhas recolhiam-se aos poleiros, nem os sapos coaxavam na floresta, nem os pássaros repousavam do vôo diurno e o mundo cobriu-se de sombras.
No meu quarto sumiram, como por encanto, as derradeiras réstias de luz. Não sei se perceberam-nas os lavradores no campo, as lavadeiras do rio Paraguaçu, as inocentes criancinhas a tocarem burricos nesta terra sem fim e sem começo. A noite é como lembranças de amigos que não voltam mais.
A noite veio mais cedo hoje, e antes mesmo que viesse já a antecipara num crepúsculo de cores derramadas no vasto céu, fonte de tudo que há. O gado pastava no campo, indiferente. Nem o cavaleiro freava o cavalo, nem as luzes se acendiam nas cidades, nenhuma porta se abria ao viajante.
Assim, rapidamente, como num assalto, apossaram-se as sombras do mundo, e ante a indiferença dos demais, uniram-se numa só, gigantesca, a projetar-se na imensidão.
Desde então, recolhido em sombra, laboro em sonho formas singelas de luz.
CARLOS RIBEIRO
































