sábado, 31 de janeiro de 2009

CANTINHO DO CONTO: A PROVA FINAL

Carlos Ribeiro




Roberto tinha um defeito. Melhor dizendo: Roberto, segundo sua mulher, Marli, tinha um grande e único defeito. Era uma peculiaridade, um traço do caráter que, no início do relacionamento, há distantes 20 anos, parecera a ela uma virtude, mas que, com o passar do tempo, tornara-se algo exasperante. Para não dizer: algo verdadeiramente insuportável.
O grande problema, dizia Marli, era que Roberto, em nenhuma circunstância, se irritava. Nunca perdia a paciência. Jamais respondia às reclamações que ela, freqüentemente, lançava-lhe à cara. Em nenhum momento dirigia-lhe sequer uma palavra um pouco mais dura, com o mínimo tom de rispidez.
No início, Marli considerava isto uma vantagem especial, um presente dos céus. Principalmente naquele tempo em que viviam a fase dourada de descobertas e encantamentos. Não havia, ainda, grandes dívidas a saldar, problemas com filhos. Não havia a convivência diuturna, o dormir e acordar juntos, o esperar na porta do banheiro, as idiossincrasias mútuas, os desentendimentos cotidianos.
Marli considerava-se uma privilegiada. Roberto era uma recompensa à sua persistência. Fora a única filha dos Andrades, a casar, segundo achava-se na época, tardiamente, aos 28 anos. Mas valera a pena esperar. Ele era o exemplo mais bem acabado, que se possa imaginar, de um gentleman. Nunca esquecia de abrir a porta do carro, de puxar a cadeira no restaurante, de enviar-lhe flores e tantas outras delicadezas cotidianas, geralmente esquecidas no correr da vida em comum.
Assim procedeu, ano após ano, sem dar-se conta de que se acumulava, em Marli, como camadas de pó, nas paredes de uma caverna, uma certa apreensão, que, pouco a pouco, evoluía para uma impaciência, e daí para uma intolerância, manifestada nas mínimas coisas: no atraso, para ela insuportável, de alguns segundos, para um encontro; num sorriso, que considerava ridículo; numa frase, que achava inconveniente; numa palavra ou gesto qualquer, que precipitava, subitamente, para a surpresa dos que conviviam com o casal, um inferno de xingamentos, gritos e admoestações. E, finalmente, na conclusão fatal de que ela sabia, sim, o que ele queria. Suas verdadeiras intenções...
A revelação viera de chofre: Roberto queria fazê-la perder a razão. Percebera, finalmente, que havia algo mais por trás daqueles sorrisos, daquelas atitudes gentis – como um pântano oculto por trás de perfumados jardins. Lembrava-se sempre do que lhe dizia a avó: “Minha filha, não existem homens perfeitos”. Por isso, quanto mais perfeitos lhes parecessem, mais cuidado deveria ter. Mais necessário seria vigiar cada um dos seus passos. E assim procedeu. A partir daquele momento, cada gesto de Roberto passava a ser um sinal, vestígio de alguma coisa repulsiva, que se gestava, no silêncio das tardes, entre as sombras dos móveis na sala; mas que, mais cedo ou mais tarde, viria à tona, em toda a sua assombrosa monstruosidade. O perigo era iminente. Ela não podia perder o controle. Não podia ficar esperando que o pior finalmente acontecesse. Tinha que fazer alguma coisa. Se ele ainda reagisse às suas agressões! Se ainda mostrasse sua verdadeira face... poderia haver, quem sabe, uma chance de entendimento. Cabia a ela, num último e desesperado gesto de amor, mostrar quem ele realmente era.
E o fez. Foi numa morna sexta-feira, que ela o recebeu, carinhosamente, à porta da casa, quando ele chegou, à noite, do trabalho. Havia anos que não o beijava. Que não sorria o riso encantador, aquele que tanto o fascinara nos primeiros anos do relacionamento. Que não lhe preparava um jantar, na varanda, com a vista para o mar, da sua bela casa, em Ondina.
Roberto custou a acreditar. Então, acontecera o milagre? Comeu, sorridente, a macarronada, e a sobremesa de figos em calda, que ela mesma preparou. Falou das dificuldades no trabalho, mas também das chances que despontavam. Chegou a desenterrar os velhos planos. Quem sabe, no próximo ano, fariam, juntos, aquela viagem ao Oriente? – aquela que ele sempre dissera que faria, um dia, antes de morrer?
Roberto falou, contou casos, riu e fez-lhe seguidas declarações de amor, até perceber que havia algo estranho em Marli – na forma como ela sorria, no jeito fixo de olhar para ele, na maneira distante como reagiu, quando ele falou sobre a sensação desagradável que, subitamente, lhe acometia; a dor no estômago, as palpitações, o suor frio, os pedidos para que chamasse a empregada (mas ela estava de folga, naquela noite), o médico...
Mas, já não havia tempo. Ao compreender, finalmente, o que se passava, Roberto pensou, pela primeira vez, em dizer uma palavra ríspida à sua linda e querida mulher. Chegou a sentir o impulso, tantos anos reprimido, de agredi-la, de fazê-la ver o seu desespero. Mas conteve-se a tempo. Sentiu apenas uma dor aguda, no coração, ao perceber que não poderia mais protegê-la de si mesma.
Marli permaneceu, silenciosa, diante dele, testemunhando a agonia lenta do homem que um dia amou – esperando, inutilmente, a prova final de que ele ainda a amava, a palavra dura, o gesto violento que enfim o redimisse.


Carlos Ribeiro (Salvador – 1958). Jornalista, ficcionista e doutorando em literatura pela Universidade Federal da Bahia, é autor de sete livros, dentre os quais O Chamado da Noite, O Visitante Noturno, Abismo e Lunaris. Participa das antologias e coletâneas Geração 90: Manuscritos de computador, Contos cruéis, Antologia panorâmica do conto baiano - século XX, Quartas histórias, Capitu mandou flores: Contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte e Travessias singulares: pais e filhos. Co-edita a revista de arte, crítica e literatura Iararana. É membro da Academia de Letras da Bahia e professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB/Cachoeira. O conto "A prova final" faz parte do livro inédito Contos de sexta-feira, que tem publicação prevista para este ano.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

JIVM - DISRITMIA


DISRITMIA
Para Linda Soglia


Pandeiro, triângulo, zabumba
e a sanfona de Gonzaga;

o fungado do vento
nas asas das palmeiras;

a premonição, a fidalguia,
a singularidade do uirapuru;

(e porque não a mudez
do urubu e o gralhar da arara?).

Tudo é (alguma
forma de) canto.

Mas a disritmia,
o estrondar dos meus tambores

só quando vislumbro o silêncio
na menina dos teus olhos.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

domingo, 11 de janeiro de 2009

VERÔNICA DE VATE - GERARDO MELLO MOURÃO

SINGULARIDADE DE UM POETA MARCADO PELO HUMANISMO
Por José Inácio Vieira de Melo

Escrevi este texto quando o poeta Gerardo Mello Mourão completou 90 anos, mais especificamente, em 8 de janeiro de 2007, atendendo a um pedido do poeta Florisvaldo Mattos, editor-chefe do jornal A Tarde, de Salvador. A essa altura, Gerardo já estava em coma. O texto só foi publicado no dia 10 de fevereiro e teve uma grande repercussão, sendo reproduzido em vários outros jornais, sites e blogs, do Brasil e de outros países. No dia 9 de março de 2007, praticamente um mês depois, o Vate de Ipueiras viria a falecer, vítima de falência múltipla de órgãos.


AS PERIPÉCIAS


Gerardo Mello Mourão chega aos 90 anos – completados no dia 8 de janeiro – como uma das vozes mais representativas da Literatura Brasileira contemporânea. Um poeta de expressão singular, considerado por vários críticos e muitos escritores – entre eles Carlos Drummond de Andrade, Wilson Martins, José Cândido de Carvalho e Octavio de Faria – como o poeta maior do Brasil.
Nascido em 1917, no pé da serra do Ibiapaba, em Ipueiras, sertão do Ceará, Gerardo teve uma vida bastante acidentada e cheia de aventuras. Sua obra tem merecido, ao longo de mais de meio século, a atenção de grandes nomes da Literatura Ocidental, como Ezra Pound, Octavio Paz, Jorge Luis Borges e Robert Graves.
Aos 11 anos foi para o Seminário São Clemente, em Congonhas do Campo, Minas Gerais, onde permaneceu até os dezoito, período em que aprendeu nove idiomas e traduziu, num exercício diário, textos do grego e do latim, de Homero e Píndaro, Virgílio e Horácio, Ovídio e Propércio.
Abandonou o convento em 1935, poucos meses antes de proferir os votos de pobreza, castidade e obediência. Começou a estudar direito, mas abandonou. Logo em seguida, aderiu ao Integralismo, assim como Câmara Cascudo e Adonias Filho, conduzido para o movimento pelo crítico Tristão de Athayde.

Foi preso 18 vezes durante as ditaduras do Estado Novo e Militar. Numa delas, ficou no cárcere cinco anos e dez meses (1942 – 1948), quando escreveu o célebre romance O Valete de Espadas e dez elegias de perdição reunidas no livro Cabo das Tormentas. Viajou por toda a Europa, América e Brasil.
O país em que viveu mais tempo, no exterior, foi o Chile, onde deu aulas na Universidade Católica de Valparaíso. Na década de 1980 morou em Pequim, na China, onde foi correspondente do jornal Folha de São Paulo. Mais precisamente, foi o primeiro correspondente brasileiro e sul-americano na China. Escreveu, até pouco tempo, crônicas diárias para os principais jornais do Brasil.


SIBILA
(Último oráculo)


Perdido nas veredas das palavras
tapa os ouvidos - canto sibilino
não se escuta: olha apenas estes olhos
apaga teus sentidos - só nos olhos
acharás o caminho; sem meus olhos,
somente os meus - redondos neste rosto -
morrerás entre os ínvios labirintos.

Sibila sou - Sibila, a Sâmia, a Délfica
poetas e pontífices me seguem
olha meus olhos - não te perderás
olha meus olhos e estarás perdido
perdido neles morrerás de amor
e os que morrem de amor não morrem nunca
olha meus olhos - me verás inteira
em teus olhos de morto estarei viva
e minha vida espantará da tua
a morte para sempre - e para sempre
em tua vida há de viver a minha.


GERARDO MELLO MOURÃO

sábado, 10 de janeiro de 2009

SINGULARIDADE DE UM POETA MARCADO PELO HUMANISMO

AS INVENÇÕES

A vasta e variada obra de Gerardo Mello Mourão compõe uma das mais elevadas contribuições para a literatura contemporânea e consegue alcançar dimensões universais, como é de se esperar de toda alta escritura. Escreveu, com brilhantismo e erudição, em verso e em prosa (romances, contos, ensaios e biografias). Entre seus livros, destacam-se o romance O Valete de Espadas (1960), o livro de ensaios A Invenção do Saber (1983), a epopéia Invenção do Mar (1997) e a trilogia poética Os Peãs, composta pelos livros O País dos Mourões (1964), Peripécias de Gerardo (1972) e Rastro de Apolo (1977).

O Valete de Espadas, traduzido para vários idiomas, é um romance que está na pauta do surrealismo, mas em quase nada se assemelha ao realismo mágico latino. Sua profundidade, seus abismos indecifráveis, aproximam Gerardo de autores centro-europeus, como o Herman Hesse de O lobo da Estepe. O personagem principal, Gonçalo Falcão de Val-de-Cães, é um ser perplexo diante da irresidência do ser no mundo. Um dia, ao sair do hotel em que estava hospedado, percebe que está em uma cidade completamente desconhecida; no dia seguinte, acorda em um navio cujo rumo também desconhece. A epígrafe bíblica, logo no início do livro, adequa-se perfeitamente ao estado de coisas e às tensões da personagem: “Não conheço sequer o caminho”.

A Invenção do Saber, reunião de ensaios, é um convite ao pensamento. É também um libelo contra a idolatria tecnológica da atualidade e o seu culto da especialização – “o especialista é o individuo que sabe cada vez mais sobre cada vez menos”. E apresenta como contraposição uma cultura humanística, que, no momento, encontra-se desprestigiada, mesmo por aqueles a quem caberia defendê-la. Inclui, além de 30 artigos originariamente publicados na imprensa, palestras apresentadas em universidades brasileiras e estrangeiras, que abordam temas como a palavra, o poder e o saber.


A epopéia Invenção do Mar, Prêmio Jabuti de 1998, é considerada pelo crítico Wilson Martins como Os Lusíadas brasileiro, que o chama mesmo de Os Brasíliadas, em artigo publicado no jornal Gazeta de Curitiba.

De fato, Mello Mourão, por outros caminhos e de outras formas, alcança o sopro criador de um Camões, aliás, faceta essa que já havia logrado com Os Peãs. Ezra Pound percebeu na trilogia Os Peãs, iniciada com O País dos Mourões, que Gerardo tinha inaugurado o canto da genealogia da América. E esta é uma velha ambição cosmogônica: fazer, não a genealogia pessoal, mas a genealogia do seu povo, do seu mundo.
Passear pela seara da obra de Gerardo Mello Mourão é sentir o “aroma, maciez e música” de uma poesia maior. Nenhum outro poeta brasileiro recebeu, em quantidade e qualidade, número tão grande e tão respeitável de artigos sobre sua obra. Somente os literatos de ouvidos cegos, que não conseguem alcançar o ritmo da sua poética poliédrica, é que não percebem a sua grandiosidade.
O próprio Drummond declarou-se “possuído de violenta admiração pelo imenso, dramático e vigoroso painel” da poesia de Gerardo, pois sabia do opus magnífico do bardo de Ipueiras que, “atestará para sempre a grandeza singular e a intensidade universal da poesia”. Mello Mourão não cabe em moldes nem em escolas literárias. É singular. E vem construindo, solitário, a saga do povo brasileiro.

José Inácio Vieira de Melo


IAM CAINDO


Iam caindo: à esquerda e à direita iam caindo;
Alexandre e Francisco, meus bisavós tombaram,
o primeiro com sua farda de gala, seus botões de ouro e sua patente de coronel
e o outro com sua barba nunca mais alisada e sua bengala de castão de ouro.

Antes, caíam hierárquicos e cronológicos:
Manuel Martins Chaves na prisão do Limoeiro,
Ana, Eufrosina e Úrsula Mourão, da Canabrava dos Mourões, em suas camarinhas cheias de santos,
Antônio, com seus bordados de general nos campos do Paraguai,
um picado de cobra, outro sangrado a punhal, outro varado à bala, outro de maleita,
à esquerda e à direita foram todos caindo,
primeiro os que já eram lenda na memória dos velhos
depois os avós de meus avós,
porque antes tombavam hierárquicos e cronológicos.

Foi assim que tombou, ao lado de seu rifle, o Coronel José de Barros Mello, chamado "O Cascavel", meu tetravô,
e depois o Major Galdino, entre seu bacamarte e suas gaiolas de pássaros, depois,
meu outro avô, o capitão de cenho espesso sobre a tribo
ao talhe de seu tronco frondejando
a cabeça de Mellos e Mourões.

A esquerda e à direita iam tombando,
Úrsula, Francisca e tantas outras,
até cair meu pai.

Depois, começou a romper-se a ordenação da morte
e tombavam os tios e as crianças:
Etelberto, com seus negros cabelos lisos,
Raimundo prometera devolver à terra o que da terra houvera e tombou nela;
Elisa, Elvina e tu,
com teus oito anos e tua cabeça castanha;
tombaram um por um: Ignácia e Ladislau viveram cem anos e também morreram;
tombou Quintino e nunca mais
pela estrada de Águas Belas alazão levará
coronel tão galante e nunca mais na lua
da sela clavinote
tão certeiro;
tombou Quintino e antes dele porque
a morte ia deixando de ser hierárquica e cronológica
tombou no Maranhão Francisco apunhalado.

À direita e à esquerda iam caindo:
Hermenegildo, chefe político e farmacêutico no distrito do Livramento, ainda teve forças para se erguer, beber uma garrafa de aguardente, destruir a farmácia e escrever ao meu avô: "Compadre, vou morrer, os remédios não valem nada quando chega a hora; mando-lhe aquele relógio Patek que você aprecia e a corrente do mesmo, com dois patacões de ouro. Adeus, compadre, Deus o guarde com os seus,
do primo
ass, Hermenegildo".

Outros tombaram sem carta e sem notícia: meu tio e padrinho Antônio Ribeiro deu uma surra no capitão delegado de Polícia e desde a queda do Acioly
desapareceu para sempre,
como Raimundo Mourão, tombado a tiros num seringal do Amazonas: tinha sessenta contos no bolso, surrara todos os barraqueiros e ganhara
num sete de ouros
o dinheiro e as mulheres do cabaret:
pois morreu, com sua chibata na mão, com seus sessenta contos e com suas mulheres,
macho e inquebrável tombou.

À esquerda e à direita iam caindo:
Manuel
Mourão que registrara em seu nome todas as terras do cartório de Ipueiras,
dorme nelas:
Tobias
não tinha terra nenhuma
e matava bois no açougue e vivia disso,
tombou como um de seus bois;
à esquerda e à direita iam caindo
homens e mulheres: Tabajara, pai de Araci, Potiguara e Tupinambá,
fabricava aguardente e não bebia - morreu abstêmio, mas morreu;
o Major Borete Mourão, da Canabrava dos Mourões, destilava a sua no próprio fígado - morreu bêbado, mas morreu;
e Dondon e Cotinha e Missanta Mourão, senhora do Engenho Baixa Verde
e Gilberto e Toínho Mourão e as primas que morriam de parto e pariam filhos também destinados a cair um dia,
foram caindo todos, à esquerda e à direita.
E agora sei: não apenas os de meu sangue iam caindo, pois onde estão José Bento e Sinhá e o Coronel Dédo Catunda?
Onde está o caboclo Antônio Pixuna, com suas mandíbulas que varavam no dente uma cana caiana?
Foram caindo todos: à direita e à esquerda e em todas as cidades
Deolindo assassinado por Chico Monte em Sobral,
o velho Duíno em Minas Gerais, onde
também tombaram outros, Vicente
e sua mulher e Fernando no Espírito Santo e em Porto Alegre,
com a pensão que lhe dera o Governo, a filha de Antônio, general e herói da guerra do Paraguai,
comprava a sepultura, pois
sabia que ia tombar, como tombou:
e em toda parte e em todo tempo, todos,
Bela, Manrica, Sinsa, Torquato, Zezé, Nazária, Aprígio e Waldomiro,
Ignácio e Mariana e Atanagildo,
à esquerda e à direita iam caindo.

E ainda os que encontrei noutros caminhos também foram tombando:
esta é a bengala do Coronel Carvalhinho, pai do Senador e avô de Léa: tombou sem ela e Geraldino
apagou seus grandes olhos e o jovem
sacerdote barroco
Caetano
partiu-se
o grande Cristo de bronze se abatendo sobre
a jarra de porcelana azul
outrora azul do altar.

E tu mesma caíste, eu que te havia por
endereço do coração (e ainda
cantarei de ti, que agora tenho apenas o espanto da implacável derrubada
em que todos vão tombando em toda parte).

Em minha casa, em minha rua e na cidade e no país dos Mourões onde eram clavinotes
e nos outros países além dos mares,
o velho Nicolau, pai de Gofredo,
quem sabe Cuca, a tia de Raul,
e em Milão e em Berlim e na Provença
foram caindo.

Apalpa, meu amor, meu rosto apalpa,
não tombei:
sou eu.
Como venho dos mortos nem eu sei,
mas sei que na partilha me tocou
a herança de sobreviver;
vou devorando a terra com meus olhos
que a terra não comeu, a terra
que comeu tantos olhos e da qual
os meus hoje se nutrem.

Apalpa, meu amor, meu corpo inteiro,
sou macho e forte e em meus ombros de touro
porque não te levar na madrugada
e atravessar contigo as ruas desertas e as ruínas e as cidades
cobertas de hera onde
à esquerda e à direita eles tombaram e à beira
de um riacho ver teu ventre
crescer e irem surgindo
já de mãos dadas, já de pés em dança
rapazes e raparigas e a cantiga
de roda e a flauta de Mársyas e o ritmo
de tornozelos e ancas que Sextus Propertius foi o primeiro a introduzir na Itália e trouxe da Grécia para a Itália e Ezra para Idaho e das ruínas das cidades ver surgirem os pastos e os pastores da pedra das palavras?

Teu poeta e teu macho te carrega nos ombros
e à esquerda e à direita onde tombavam antes,
como um mágico de uma cartola irei tirando
de teu ventre inesgotável
os que não mais cairão, os que se irão
à esquerda e à direita incorporando. Pois
apenas esperavas a chegada de teu macho;
diz agora: era assim que o querias,
o vencedor da morte, o que enrijou os músculos
almoçando e jantando
a medula dos homens e das fêmeas
que à sua esquerda e à sua direita iam caindo,
era assim que o querias o que venceu a Dor?

Sou eu, amor, apalpa agora
minha boca pronta ao riso alegre,
minhas bochechas, apalpa-me
o sexo frondoso e fértil
e escancha as tuas pernas sobre o meu pescoço:
é tempo.

"Aos oito dias do mês de Janeiro do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil e novecentos e dezessete, eu, Manuel Guilhermino Moreira, recebi em meu cartório o Senhor Capitão José Ribeiro Mello que, acompanhado das testemunhas abaixo, declarou o nascimento hoje, a uma hora da madrugada, em sua casa, à Rua Padre Feitosa, nesta Vila de Ipueiras, de seu neto, o Inocente Gerardo Majella, do sexo masculino", etc.

E aqui restei: não venho
introduzir a dança na Itália,
trazer a dança da Grécia para a Itália
ou para qualquer outra terra de Europa:
sou o inocente do sexo masculino e venho
do país dos Mourões
comunicar-te a inocência e o pênis
erguido em lírio
vertical e puro sob os céus da Etrúria,
sob os céus da Toscana, às margens do Arno e junto
de Fiesole e San Minniato, sobre
os campos de Florença como o lírio
que deu nome à cidade e com que o rei de França agraciou
as armas da cidade.

Ao pênis de ouro que se erguer do lírio,
a rosa de teu ventre se abrirá,
e onde o touro pisar no chão dorido,
a rosa de teu ventre se abrirá,
e onde o lombo do touro se reclinar contigo,
a rosa de teu ventre se abrirá
ao pênis de ouro que se erguer do lírio
e der nome às cidades e agraciar
as armas das cidades.

Wovon kommen Sie?
Jawohl, Fräulein,
na noite em que eu chegar
hás de ver tua aldeia renana
acender nas alcovas a alfazema antiga.
Wovon kommen Sie?
Mas da alfazema e tua aldeia
me suspeita há séculos:
esperava por mim a rapariga
que acendia os olhos e a lanterna de ferro
sobre o portal da Hospedaria
"Ao Cavaleiro de Koenigswinter":
eu era sugerido às raparigas
esperando a noite e quanta vez
sonharam distinguir-me na lonjura
entre as tulipas e o trigo e as espumas do Reno e luar dele
sugerido
o süddeutsche Nacht!
o Heidelberge Nacht!
quem sabe eu chegaria a bordo de urna brisa,
de uma folha de outono, moreno
e torneado ao sopro
daquele tocador de flauta de louça
à porta do castelo de Brühl.

É certo que outros tentaram chegar antes de mim,
mas não me confundiste com eles;
de outros — nem os conheceste nem te conheceram,
o velho gangster não montava um cavalo do Texas:
na garupa da cadeira de rodas grunhiu:
"nossa fronteira está no Reno";
Beethoven surdo em sua casa de Bonngasse
ergueu-se e ergueu
ao ouvido sagrado o corno acústico
e o uivo do bárbaro não era
nem seu nome será em nosso idílio.
O nome dele, sim;
veio de Hailey, Idaho, U.S.A.,
a 30 de outubro de 1885
e em seus ombros, amada, partirias:
era belo demais e foste tu
que rendida a seus pés deste a garupa
e o raptado raptor — ó delícias de Cápua —
divino gigolô lambendo os seios
da deusa ao fim do outono,
nas mãos do Pan de Idaho
reencontra o verão ao céu toscano,
Rapallo azul e a primavera à voz
do Pan de Idaho:
e o que te pudera arrastar às ilhas puras
embala-se contigo en los Cantares
dolci canti pisani in blood and blue
e a minha rede, a rede
do filho dos Mourões
entre a torre de Pisa e a de Giotto
sopro de campanile se balança
il nostro Cavazere fú:
e ali virás para a última sesta latina e onde
o lombo do touro galopar contigo
a rosa de teu ventre se abrirá
ao pênis de ouro que se erguer do lírio
e der nome às cidades e agraciar
as armas das cidades.

O Abendland, Abendländische
Elegie!
Velho profeta alemão, vidente de olhos cinzentas,
teus olhos cinza em cinza desmanchados,
toldam de cinza a paisagem:
olha a nua banhista, esverdeadas peras,
olho a dança, olha
o elegíaco nada, o nada
de elegias e à madrugada
entre as virilhas olha
amanhecer o macho:
sou eu e em meu louvor
maduram-se laranjas e ananazes,
em meu louvor
as ondas bailam no oceano e sob
a verde umbrela dos coqueiros
Passo de Carnaragibe,
os cocos se arredondam
em meu louvor
e os cantadores na feira de São Gonçalo dos Mourões,
da Canabrava dos Mourões
e os cegos e os videntes e o gitano andaluz
entre o Atlântico e a montanha
empreendem na viola
a minha louvação:
e Hans Carossa, na aldeia hamburguesa,
o último hálito sopra dos olhos a última cinza,
compõe no próprio rosto a própria morte
em meu louvor.

E meus olhos
assíduos a defuntos como a vivos
começam a apalpar-vos:
quem será testemunha senão vós
de partida e chegada?
E que sou eu senão
a celebração de meu rosto
e que é meu rosto senão
a beleza que o amor talhara nalguns olhos?

Sempre os deuses precisam de um lugar e de uma companhia:
assim eu sou:
é sobre a terra de meu pai que me levanto agora
e a tantos
que à esquerda e à direita lhe caíram,
eu os chamo e suplico:
e altar e coro se incorporem
e assim
eu sou:
celebrado celebro dia e noite
a terra e as águas e as pessoas
e assim
E U S O U.


GERARDO MELLO MOURÃO

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

GERARDO MELLO MOURÃO - O QUE AS SEREIAS DIZIAM A ULISSES NA NOITE DO MAR


O QUE AS SEREIAS DIZIAM A ULISSES NA NOITE DO MAR

Sobre a frase musical de Ivar Frounberg
"Was sagen die Sirenen als Odysseus vorbei segelte"


Ninguém jamais ouviu um canto igual
ao canto que te canto
escuta: as ondas e os ventos se calaram e a noite e o mar
só ouvem minha voz – a noite e o mar e tu
marinheiro do mar de rosas verdes:

virás: é um leito de rosas e lençóis de jasmim – e ao ritmo
do teu corpo entre a cintura e as ancas

mais o lençol de aromas de meu corpo
em monte de pétalas desfeito:

e dormirás comigo
e os que dormem com deusas
deuses serão – verás
cada arco de minhas curvas
à forma de teu corpo moldaremos – e a pele tua
aprenderá da minha
aroma e maciez e música
e entre garganta e nuca aprenderás
a noite dos que dormem a aurora dos que acordam
sobre os seios das deusas também deuses.

Vem dormir comigo
e comigo
e todas as sereias.

Todas as deusas se entregam
ao amante que um dia possuiu uma deusa
e então todas as fêmeas dos homens
Helenas, Briseidas e a Penélope tua
hão de implorar às Musas – e as Musas a Eros e Afrodite
a volúpia de uma noite contigo.
Não partas!
se partires
as velas de tua nau serão escassas
para enxugar-te as lágrimas – e nunca
nunca mais tocarás a pele das deusas
nunca mais a virilha das fêmeas dos homens
e nunca mais serás um deus

e nunca mais a melodia de uma canção de amor
dos hinos do himeneu:
abelhas mortas para sempre irão morar
na pedra do jazigo de cera
de teus ouvidos cegos.

Mas vem
e vem dormir comigo
e comigo
e minhas irmãs e todas
as sereias do mar
as sereias da terra
e as sereias dos céus.


GERARDO MELLO MOURÃO
Rio de Janeiro, 1998

UM MOMENTO DE BELEZA

Gerardo Mello Mourão

Numa breve antologia de poemas, José Inácio Vieira de Melo noz traz um momento da melhor poesia jovem que se está fazendo ali onde nasceu a poesia brasileira: na Bahia, por cujas ladeiras há de ressoar sempre o ritmo rouco, não tanto das sátiras fáceis, mas da lírica do grande Gregório, que, antes de ser o “Boca do Inferno”, foi um anjo de Deus nas praças e nos becos assombrados da cidade mais humana deste país. Ninguém anda impunemente pelo sortilégio daqueles becos e daquelas praças de pedras e sobrados. O contágio lírico da memória do Anjo Bêbado, interpelando o Deus vivo da Bahia, contamina irremediavelmente os poetas. Foi ali que Jorge de Lima abandonou seus alexandrinos parnasianos e afinou a viola dos ritmos inumeráveis com que chegaria à Invenção de Orfeu.
Alagoano como Jorge, o poeta José Inácio encontrou também nos sortilégios da Bahia o Registro da fala do silêncio, rompido desde o primeiro poema desta antologia, que parece ser, realmente, um código dos silêncios perplexos em que o ser humano traduz e decifra a linguagem misteriosa de suas invenções.
Estamos diante da poesia pura. A vera e mera poesia, que surge nos primeiros poemas deste livro e que é aquela que não se infecciona nem se deprava com teses e causas sociais ou ideológicas, que serão boas ou ruins, mas não são a coisa do poeta e da poesia. Pois a poesia, como nos adverte Croce, é inútil. Isto é: ela não serve a nada e a ninguém, senão a si mesma, à expressão dos conhecimentos memoriais e imemoriais do poeta no passado, no presente e no futuro. Não suja suas sandálias nem em nosso hedonismo nem em nossas necessidades históricas. Seus caminhos se encontram para lá da história, no território ctônico do ser. Ela não trata do conhecimento lógico e conceitual, e só existe na verdade mera e limpa do conhecimento mágico, intuitivo, que não profere conceitos, até porque todo conceito é sempre um pré-conceito.
José Inácio sabe disto. Sabe que a poesia nasce do silêncio:

O que mais tem falado em mim é o silêncio

O poeta é o habitante do silêncio, o silêncio pascaliano dos abismos e dos espaços infinitos, ao qual a consciência lógica não tem acesso e que é da sesmaria privilegiada do inconsciente e do sub-consciente:

Um silêncio de lá, de longe – das plagas interiores –
que fala o tempo todo sem dar nome ao dito.

A poesia é a clave miraculosa capaz de dar nome ao dito, capaz de dizer o indizível. Ela é o código do silêncio, decifra os hieróglifos e oferece a verdadeira face das coisas, dos lugares e das pessoas –

– semblante formidável:
tão formoso quanto pode ser um deus.

No poema Espelhomem, partitura oracular deste “opus” de José Inácio, o poeta busca o outro nome do nome, o nome que dá a plenitude da forma. Como ensinam os lingüistas, em nossa língua o sufixo “oso” – “osa” (do latim “osus” – “osa”) significa “cheio de”. Form-oso quer dizer “cheio de formas”, isto é, incorporado à plenitude de todas as suas formas possíveis e imaginárias. “Formoso como um deus” – diz o poeta num de seus versos: um deus – supõe-se – é o ser investido da absoluta totalidade de suas formas.

***

José Inácio Vieira de Melo sabe que o poeta é o fundador dos seres. Só ele pode trazer dos abismos a decifração de todas as formas do ser, para expressá-las na linguagem pura da metáfora. Deus é formoso, isto é, Deus é belo. Todas as coisas que cercam o homem sobre a terra, quando olhadas no lavor de suas formas, são formosas e, pois, são belas. Expressar essa beleza é a coisa do poeta. E a poesia é o milagre da expressão lograda e cumprida, de qualquer tempo, de qualquer espaço, de qualquer circunstância do ser – a rosa, a mulher fugidia pelas ruas de Maceió, essas próprias ruas, a angústia de nossas buscas, a alegria de nossos encontros, o longínquo sino católico de uma igreja submersa na memória ou a cumeeira carcomida. Ao criar a presença real de um rosto de mulher ou de uma chaga no peito de um transeunte imundo tombado na praça, o poeta cria a beleza. Se o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus – formoso – e se o homem é ele mesmo e sua circunstância, como na advertência de Ortega, então tudo foi criado à imagem e semelhança de Deus, inclusive os cães lunáticos do poeta nas esquinas da Bahia. Por isto, o belo é sempre formidável. Toda beleza é terrível como os anjos de Rilke.
Não há dúvida de que o livro de José Inácio anuncia e prenuncia um momento de beleza imperecível. De poesia propriamente dita.


Prefácio do livro Códigos do Silêncio (2000), também publicado no A Tarde Cultural, em 3 de junho de 2000 com o título "Decifração de abismos", em Salvador.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

JIVM - A MORTE PROMETE JARDINS


A MORTE PROMETE JARDINS
Para Luís Antonio Cajazeira Ramos


Este teu brilho de agora
são cacos – rastros errantes
que persistem na busca inútil
da tua primeira semente.

Este teu brilho de agora
é a sombra do que foste,
e se ainda és girassol celeste
é que a morte promete jardins.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


LA MUERTE PROMETE JARDINES


Este tu brillo de ahora
son trozos – rastros errantes
que persisten en la busca inútil
de tu primera semilla.

Este tu brillo de ahora
es la sombra de lo que fuiste
y si todavía eres girasol celeste
es que la muerte promete jardines.


TRADUÇÃO PARA O ESPANHOL:
CLAUDINA RAMIREZ


LA MORT PROMET DES JARDINS



Cet éclat présent qui est le tien
ce sont des brisures - des traces errantes
qui persistent dans la quête inutile
de ta semence première.

Cet éclat présent qui est le tien
c'est l'ombre de ce que tu fus,
et si tu es encore un tournesol céleste
c'est parce que la mort promet des jardins.


TRADUÇÃO PARA O FRANCÊS:
PEDRO VIANNA

domingo, 21 de dezembro de 2008

ENTREVISTA - FRANCISCO CARVALHO: POESIA É SALTO NO ESCURO

Por José Inácio Vieira de Melo


A entrevista abaixo foi feita em fevereiro de 2005, quando passei uma semana em Fortaleza, na época do carnaval. Fui até a casa do poeta Francisco Carvalho, onde fui muito bem recebido pelo poeta e por sua esposa, dona Dora, uma bela cearense de olhos verdes e palavras firmes. Conversamos bastante e o poeta deu-me de presente vários livros seus. Aproveitei a ocasião e fiz a entrevista que está reproduzida logo abaixo, e que foi publicada no suplemento de cultura do jornal A Tarde, o A Tarde Cultural, em Salvador, exatamente no dia do meu aniversário de 37 anos, 16 de abril de 2005. Então, vamos à entrevista:


Francisco Carvalho:
“Poesia é salto no escuro”


Aos 77 anos, cinqüenta dedicados ao fazer poético, o poeta cearense Francisco Carvalho lança a antologia Memórias do Espantalho, reunião de poemas escolhidos de 19 livros dos 29 publicados. Apesar de ter vencido a 1ª Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, com o livro Quadrante Solar (1982) e de obter o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, com Girassóis de Barro (1997), o poeta da cidade de Russas é praticamente um desconhecido no País. Nesta entrevista, Francisco Carvalho fala de como aconteceu sua recente parceria com o cantor Raimundo Fagner e do descaso geral para com a arte poética: “É preciso reconhecer que a poesia é hoje um teatro sem platéia. Uma ribalta às moscas.”.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Francisco Carvalho, há 50 anos deu-se a sua estréia na poesia. De 1955 para cá são 29 livros publicados. Fale um pouco de sua caminhada poética.

FRANCISCO CARVALHO – Visto que não sou uma pessoa com QI excepcional, minha estréia na poesia foi bastante ruim. Os quatro primeiros livros (Cristal da Memória, Canção Atrás da Esfinge, Do Girassol e da Nuvem, O Tempo e os Amantes), escritos numa fase de aprendizagem, são mais do que péssimos. Há muito tempo os considero excluídos da minha bibliografia. Não se pode privar o autor do direito de renegar a má literatura que produziu numa época de imaturidade, quando lhe faltavam as condições intelectuais indispensáveis ao pleno exercício da escrita literária. Só os gênios escrevem grandes livros no início da carreira. Mas os gênios não se encontram nas esquinas...

JIVM – Em 1982 você conquistou o prêmio de poesia da 1ª Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, com o livro Quadrante Solar. Em 1997, obteve o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, com Girassóis de Barro. Premiações dessa natureza consolidam a trajetória de um poeta?

FC – Prêmios literários não passam de estímulos eventuais. Seguramente não contribuem para consolidar “a trajetória de um poeta”. Até porque, como se sabe, os critérios dessas premiações não estão isentos de interferências alheias à natureza da obra literária. As comissões julgadoras, por sua vez, são bastante sensíveis a questões ligadas à hierarquia social dos concorrentes, como também à imagem por eles projetada nos espaços midiáticos. Os fatores de ordem geográfica têm igualmente peso importante na decisão final dos membros das comissões. Em artigo publicado na revista VEJA, certo poeta fez comentários desairosos à minha premiação pela Bienal Nestlé de Literatura. Criticou o desempenho da comissão julgadora e limitou-se a citar dois versos de um poema que não lhe soara bem aos ouvidos de esteta refinado. Por trás disso, todavia, estava o seu desconforto pelo fato de a comissão haver premiado um poeta nordestino completamente desconhecido, num universo de mais de sete mil candidatos.

JIVM – A literatura, sobretudo a poesia produzida nos estados do Nordeste, não sai de suas províncias. Em recente entrevista ao Jornal A Tarde, o escritor Ivan Junqueira, Presidente da Academia Brasileira de Letras, afirmou que a melhor poesia feita no Brasil está no Nordeste. Qual, então, o motivo do confinamento?

FC – O grande poeta Ivan Junqueira, também ensaísta e tradutor de renome, é uma pessoa com autoridade suficiente para dizer que no Nordeste se faz a melhor poesia do Brasil. Mas os poetas nordestinos não devem generalizar o ponto de vista desse respeitado intelectual brasileiro. Acredito que ele quis se referir a um grupo de poetas do Nordeste que, no seu entender, podem ser colocados no mesmo nível dos poetas de expressão nacional. No que se refere ao motivo do confinamento, a explicação é muito simples: os intelectuais do Centro-Sul partem da premissa de que uma região sem desenvolvimento econômico e social não tem condições de produzir literatura de boa qualidade. Repito agora o que já disse anteriormente: as elites do Sul do país, para o bem ou para o mal, continuam a ditar a moda das roupas e dos poemas.

JIVM – A antologia Memórias do Espantalho, sua mais recente produção, reúne poemas escolhidos de 19 livros. Numa obra tão volumosa e prestigiada, qual o critério para a seleção?

FC – Não existem critérios metodológicos para uma seleção dessa natureza, uma vez que no fundo de todas as avaliações prevalece a subjetividade. Tenho nítida consciência de que não escolhi necessariamente os melhores poemas dentre os que se encontram no livro Memórias do Espantalho. Isso é compreensível quando se trata de uma tarefa desse porte, realizada ao longo de seis meses de trabalho exaustivo, a podar excessos e reescrever poemas. Com todos os equívocos que possa ter cometido, penso que consegui passar a imagem exata do que tenho sido ao longo da vida: um poeta da medianidade.

JIVM – Raimundo Fagner incluiu cinco poemas seus, por ele musicados, em seu novo CD, Os Donos do Brasil (2004). Como aconteceu essa parceria e em que medida contribuiu para a divulgação de sua obra?

FC – A pedido de amigo meu, jornalista Vicente Alencar, e por intermédio deste, enviei um exemplar de Memórias do Espantalho para o cantor e compositor Raimundo Fagner, que manifestara interesse em conhecer minha poesia. Passado algum tempo, recebi copia de uma gravação do poema O Bicho Homem, do livro Raízes da Voz. Algum tempo depois, me foi entregue copia de CD do Fagner, com cinco faixas dedicadas a poemas de minha autoria. O próprio Fagner fez a escolha dos poemas, sem qualquer interferência de minha parte. A partir do lançamento do CD no mercado, o Fagner fez excelente trabalho de divulgação da minha poesia nos centros urbanos mais importantes do país. Obviamente, não espero que essa iniciativa, positiva sob todos os aspectos, me torne num poeta conhecido nacionalmente. Mas teve, inegavelmente, o mérito de expor o meu nome e meu trabalho fora dos muros da tribo.

JIVM – Muitos são os motivos da sua lírica. Do rural ao religioso, do metafísico ao surrealista, assim como você transita do verso medido ao verso livre. Como se movimentar por varias temáticas e diferentes formas e manter o estilo?

FC – A poesia lírica tende geralmente para a diversidade temática. Cada autor tem uma forma peculiar de encarar o fenômeno poético. Alguns preferem captar o poema em meio ao ritmo avassalador das sonoridades do cotidiano. Outros, pelo contrário, preferem mergulhar nos labirintos da subjetividade. Sempre escrevi poemas de modo a contemplar uma faixa temática a mais abrangente possível. O rural, o social, o religioso, o metafísico, o erótico, e até mesmo o surrealismo. Todas essas dimensões, que de alguma forma se entrelaçam ou se bifurcam na memória cósmica do ser humano, no que ele tem de mais profundo e abissal. Também sempre usei de muita liberdade nessa questão de escolha pelo verso medido ou o verso livre. Uma questão que me parece exclusivamente de ordem pessoal. Não existe verso livre quando se pretende fazer um bom trabalho. É o que nos ensina T.S. Eliot, um dos ícones da poesia norte-americana de todos os tempos. O verso branco, o verso rimado, o verso toante, o verso medido, o verso assimétrico – todas essas alternativas são válidas e eficazes se o poeta tem talento e erudição bastante, se aprendeu as lições dos grandes mestres do passado, antes de fazer sua opção pelo chamado discurso da modernidade. Também nessa matéria, “Tudo vale a pena se a alma não é pequena” (FP). Quando se tem a “alma pequena” (e como é grande o número de “almas pequenas”!), o melhor que se tem a fazer é trocar a caneta esferográfica por um desses brinquedos eletrônicos de fabricar moedas...

JIVM – Gilberto Mendonça Teles destacou sua obra poética juntamente com Jorge de Lima, Murilo Mendes e Augusto Frederico Schmidt. Esses autores são referencias em sua obra? E quais as outras?

FC – Isso realmente aconteceu. Gilberto Mendonça Teles acha que a minha poesia, sob o prisma religioso, tem pontos de referência com a poesia de Jorge de Lima, Murilo Mendes e Augusto Frederico Schmidt. Em certa época de minha vida, os dois primeiros poetas exerceram influência marcante sobre minha escritura poética. Notadamente o primeiro. Cheguei a escrever um livro de poemas (frustrado, diga-se passagem), fortemente impregnado pela estética visionária de Invenção de Orfeu, livro fundamental da literatura brasileira. Outras influências, igualmente poderosas, ofuscaram o meu horizonte de poeta embrionário. Sem formação cultural capaz de impor minha individualidade literária, fui condoreiro com Castro Alves, romântico com Alvares de Azevedo, simbolista com Cruz e Souza, parnasiano com Olavo Bilac, etc., etc. Depois foi a vez de Augusto dos Anjos, Manuel Bandeira, Camões, Fernando Pessoa, Antônio Nobre, Cesário Verde, Jorge de Lima, Drummond de Andrade, Saint-John Perse, Neruda, Garcia Lorca e vários outros... Essa questão de influência literária é uma patologia que atinge a maioria dos poetas iniciantes. Com o passar do tempo, vai-se diluindo aos poucos até que os poetas alçam vôo sem precisar das asas dos outros. De modo geral, as influências são benéficas, desde que não ultrapassem certos limites.

JIVM – Tem-se produzido muita poesia no Brasil, e poucos são os leitores. O que você acha da nova poesia? O que tem a dizer aos novos poetas?

FC – Nunca se produziu tanta poesia no Brasil como ocorreu a partir da revolução modernista de 22. Mas é bom que se diga que essa produção, deflagrada sob a égide do versilibrismo, foi em grande parte prejudicada pelos excessos e turbulências da primeira hora. Poetas acostumados à vassalagem do verso medido davam a impressão de haver descoberto o mapa da mina. O que importava, realmente, era a implosão do Monte Parnaso, esse lugar mágico onde se concentrariam, segundo os mais radicais, todos os males e deformações da poesia brasileira que se desenvolveu desde o final do Séc. XVIII até o primeiro quartel do Séc. XIX. Mas nem tudo era convincente na retórica dos modernistas. O tempo se encarregou de corrigir os excessos. É preciso reconhecer que a poesia é hoje um teatro sem platéia. Uma ribalta às moscas. Os poetas que se leiam a si mesmos. A pobreza, a fragilidade social, o desemprego, a violência urbana, a política de confiscos salariais, as desigualdades regionais – tudo nos afasta da poesia e da literatura de um modo geral. Pode-se viver sem poesia, mas não se pode viver sem proteínas. E o custo da proteína está pelos olhos da cara. Nada a dizer aos novos poetas, senão que a opção pela poesia é um salto no escuro. Em matéria de poesia, ninguém ensina nada a ninguém. A poesia é um caminho solitário que pode não chegar a lugar nenhum. A este assunto também se ajusta a sentença bíblica segundo a qual “muitos serão os chamados e poucos os escolhidos”. Os famosos conselhos de Rilke a um jovem poeta do seu tempo estão completamente fora de moda.

JIVM – Qual a sua definição de poesia? O poeta exerce algum papel na sociedade?

FC – Penso que a melhor definição de poesia é o próprio poema. De qualquer forma, respondo à pergunta da seguinte maneira: 1) poesia é a sistematização de códigos verbais por meio da qual a linguagem escrita (no caso o poema) é transformada em objeto estético para usufruto do leitor hedônico; 2) fazer poesia é ver as coisas como as coisas não são; 3) fazer um poema é estar em conflito com os dedos da mão. A estas acrescento uma definição de Lawrence Durrel, autor do Quarteto de Alexandria: “A poesia acontece quando uma ansiedade encontra uma técnica”. Esta me parece uma das melhores e mais perfeitas definições de poesia que tenho lido. Que me perdoem a franqueza nada diplomática, mas o poeta exerce o papel de besta na sociedade, que lhe nega o devido apreço nem retribui condignamente o seu trabalho. Mas os poetas continuam resistindo a todas as tentativas de expulsá-los da República, como pretendia certo filósofo da antigüidade.

JIVM – Fale um pouco mais sobre os novos poetas. Quais os seus novos projetos? Algum livro em vista?

FC – É fora de dúvida que existe atualmente uma nova geração de poetas com bastante visibilidade no terreno escorregadio da literatura nacional. Poetas de uma faixa etária que vai dos 30 aos 45 anos de idade vêm expressando, com grande determinação, um discurso lírico compatível com os padrões estilísticos da modernidade literária. Prova disso é a recente antologia organizada pelo poeta José Inácio Vieira de Melo (Concerto Lírico a Quinze Vozes), na qual figuram l5 poetas de várias tendências ideológicas, a respeito dos quais gostaria de transcrever estas palavras do prefaciador do livro, Aleilton Fonseca: “A grande maioria já demonstra o talento, a consciência e a dedicação necessários à construção de um estilo, de uma poética, de uma lírica”. Só o tempo, segundo ele, indicará os poetas “que terão a força e o espírito suficientemente fortes para se impor aos recortes da crítica e da história” (p.3l). Gostaria ainda de fazer um destaque especial sobre Vanessa Buffone, carioca radicada na Bahia. Ela participa de outra antologia (Os Outros Poemas de que Falei), juntamente com outros seis autores. Sua expressão literária manifesta-se num discurso de fortes acentos pessoais e de apreciável densidade lírica. Desconfio que na minha idade seria paradoxal falar de “novos projetos”. Todavia, como os redatores da Carta não decidiram ainda que é proibido sonhar, gostaria de publicar, antes dos oitenta, uma última coletânea de poemas. O ideal é que isso pudesse ser feito sob a chancela da Academia Brasileira de Letras, ainda que eu tivesse de arcar com os custos da edição. Mas tudo isso não passa de uma utopia de poeta marginal.


H E R Ó I


Herói não é o que vai irrigar as lavouras
da morte nos campos de batalha.
Não é o que volta das trincheiras minadas
de explosivos com medalhas no peito
mutilações no corpo e na alma.

Herói não semeia tulipas de sangue
ramalhetes de napalm e rosas de átomo.
– Não é o aventureiro que fez xixi na lua.

– Herói é o que vai todas as tardes à padaria
mais próxima buscar o pão ainda morno
para testemunhar o mistério da vida.


FRANCISCO CARVALHO

FRANCISCO CARVALHO - MITO DE SÍSIFO



MITO DE SÍSIFO


Não me queixo de Deus.
Sou o que fiz de mim.
As nuvens são negras ou azuis
porque minha ilusão as quis assim.

Não me queixo de Deus.
Seco-me aos ventos do desamparo.
Semeei caminhos e encruzilhadas.
O futuro é uma senda do homem.

Sísifo conduz uma pedra pelos declives do abismo
sem que o céu se importe com isso.
Também nós carregamos uma pedra,
acorrentados à liberdade.


FRANCISCO CARVALHO

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

JIVM - A SAGRAÇÃO DO MITO



A SAGRAÇÃO DO MITO
Para Foed Castro Chamma


Eu preciso de um espelho:
olhar no fundo dos olhos
e ver bem dentro de mim:
quero beijar minha sombra,

ir no cerne dos desejos
e perceber cada célula
com o frenesi que sinto
na agulha do peitoral.

Sou a criação de Deus:
barro que sonha odisséias.
Em minha íris o Cosmo:
os mitos vestem meu nome.

Sou a pedra, o barro, a lama.
Estrelas, soprem em mim
e assim estenderei meus
nomes nos passos do vento,

e em todo lugar o sonho
do Ser estará presente.
Sou o símbolo de tudo,
um sonho sem fim, o mito.

Estou em frente ao espelho,
e em minha íris o Cosmo:
todos os meus estilhaços,
todos os eus consagrados.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

PROJETO COM A PALAVRA O ESCRITOR

Depois de amanhã, quarta-feira, dia 26 de novembro, às 17 horas, participarei do projeto Com a Palavra o Escritor, na Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho, em Salvador, a convite da poeta Myriam Fraga, diretora executiva da instituição. Serei apresentado pela escritora Eliana Mara Chiossi, professora doutora do Instituto de Letras, da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Para a ocasião, Eliana Mara está acabando de fazer o ensaio Um cavaleiro andante pelo céu da poesia. Não posso deixar de dizer que estou muito satisfeito por poder contar com apresentação de tão talentosa professora e escritora, e confesso que estou um pouco ansioso. Para abrilhantar ainda mais o evento, a cantora Carla Visi, o ator Jackson Costa e os escritores Carlos Barbosa e Edmar Vieira farão um recital com poemas meus. O fotógrafo Ricardo Prado também estará por lá, registrando o evento e levando sua presença amiga. Além de tudo isso, falarei da minha vivência de poeta, dos meus livros e do papel que desempenho como ativista da poesia. Espero você por lá.
JIVM

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

VERÔNICA DE VATE - ELIANA MARA CHIOSSI

ELIANA MARA CHIOSSI possui graduação em Letras: Licenciatura em Português e Inglês pela Universidade Federal de Sergipe (1993), mestrado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1996) e doutorado em Letras pela Universidade Federal da Bahia (2002). Atualmente é professora adjunto da Universidade Federal da Bahia e atua como professora colaborada no Programa de Pós Graduação em Letras e Diversidade Cultural da UEFS. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Estudos Culturais, atuando principalmente nos seguintes temas: critica literaria brasileira, estudos culturais, subalternidade, identidade cultural e literatura e lingüística. É responsável pelo projeto de implantação das Oficinas de Leitura e Produção de Textos no ILUFBA, atuando como professora e tem projetos na área de Escrita Criativa. No mestrado, estudou a revisitação do regionalismo na obra do escritor sergipano, Francisco Dantas. E no doutorado, analisou as narrativas contemporâneas, com ênfase nas questões de identidade e alteridade, tendo especialmente analisado toda a produção artística e cultural do MST. Participa ativamente das jornadas literárias do SESC e de outras instituições. Em 2006, seu livro de contos, ainda não publicado, Mil folhas e uma, ficou entre os selecionados no concurso nacional Editora Record /SESC. Mantém três blogs de escrita. Em conjunto com o escritor português Nuno Miranda Ribeiro e com a participação da ilustradora Carol Kzan, O Carteiro de Atlantis e o Laboratório do Carteiro de Atlantis. Individualmente, mantém, desde 2007, o blog de escrita O Mundo tem inscrições sempre abertas.


NON SENSE (MINÚSCULOS)


Flores: quando a natureza dá gritos de êxtase

Expressão: a dor nos amarelos de Van Gogh

Músicos quando querem banho: desafinam nas serenatas

Diz o poeta: me tira da antologia e me coloca na sua vida

Separação: não sei onde você está, nas noites que dormimos juntos

Difamação: quando você falsifica minha identidade

Lua: pede carona em todas as estradas

Azul: quando o olho do homem sentiu sede

Amarelo é um curto circuito das cores

Vermelho: mancha sonora em voz alta


ELIANA MARA CHIOSSI

ELIANA MARA CHIOSSI - MILAGRES


M I L A G R E S

Quando a faca atravessou o peito havia estrelas deslumbrantes neste céu. Enquanto jorrava o sangue -trabalho da faca-, flores alegravam jardins e festas. O corpo contorcendo uma dor sem nome. O corpo todo em forma de grito. A faca brilhando no meio das carnes desorganizadas. E para fora do quadro-crime, talvez uma multidão de crentes entoando seus louvores, crianças nascendo inaugurando pais e mães, antes apenas seres atordoados de egoísmo. A faca quieta, repousando. O corpo gesticula querendo viver. E lá fora, sol. Na beira do rio, pessoas felizes assustam peixes preguiçosos. Criação de Deus o milagre. Existe uma faca e a vida não estanca.

ELIANA MARA CHIOSSI

AS LOUVAÇÕES VIAJOSAS DOS MANDACARUS ATÔNITOS DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Silas Correa Leite

Fotógrafo: Ricardo Prado

José Inácio Vieira de Melo tem currículo, tem estrada, tem estilo, tem talento potencializado pelo olhar açodado por uma extrema sensibilidade viajosa, e assim vai destrinchando o vinho-verbo (vinho-versos) das vinhas existenciais viçadas em peregrinações, mandacarus atônitos, com suas louvações muito além das hortas de covers que abundam pelaí. Códigos de romarias, retraduzidos no letral, documentos-identidades de peregrinações como cadernos de viagens...
Ele mesmo um cavaleiro com suas purgações, seus fermentos e seu olhar a sondar cactos de vícios, tipificando remorsos, como se um retratista de seu tempo e das amarguras do seu tempo. Já pensou? Poesia pura. Aliás, José Inácio Vieira de Melo tira seda das pedras, sua poesia energiza, nas criações feito um mandorová-camaleão tira tintas das andanças. O marmóreo das criações, muito além da lanterna furta-cor de seu olhar sarado. Rastros de cisternas? Poemas-toadas, aboios plangentes, poemetos, "Peregrino de si mesmo/ no meio da travessia"(pgs 118/119/120, Romaria), as léguas tiranas. Labuta uma roça de palavras. Carrega sua lavoura com páginas de andanças, aqui e ali um produto desses tempos insanos. Poemas e pés. E lácrimas. Reversos e memórias?
Já pintei José Inácio Vieira de Melo como um dos melhores poetas contemporâneos que li, até porque, o nome se faz na construção do hoje para o eventual e justo enlivramento histórico do devir. Da terra de Jorge de Lima que considero o melhor poeta do Brasil em 508 anos, a senda do José Inácio Vieira de Melo tem um tear de altíssimo nível, talento e olho crítico, signico. Galopar nas palavras é a sua metafísica?
Suas amarras íntimas e criacionais são dependuras no versejar, um pós-cordel itinerante, peneirando juízos, intenções, quireras de conflitos, trazendo as entranhas dos pensares para a poesia nossa de cada dia. Lamentos, ofícios, moendas e engenhos. Releituras. Raízes que andam. Agonias da terra. Significâncias e condições humanas. Escrevendo ele faz chover canivetes, entrecortando imagens e palavras.
Amoras de ausências? A belezura dos registros. O poeta José Inácio Vieira de Melo que foi ver o que é que a Bahia tem, nasceu em Olho d'Água do Pai Mané, povoado de Dois Riachos, Alagoas, e por onde andarilha lavra suas águas límpidas em poemas de quilate. "Ouço vozes - muitas vozes/ dentro de mim mesmo/ todas dizem que é preciso prosseguir..." (Pg 105/106, Memória). Pois é: escrever é preciso, viver não é preciso...
Lendo a poética de altíssimo nível de José Inácio Vieira de Melo, lembrei-me da música de Bjork (cantora islandesa)" Perdi minha origem/ E não quero encontrá-la/ Eu me sinto em casa/ Cada vez que o desconhecido me rodeia" (Wanderlust). Paradoxalmente, no entanto, José Inácio Vieira de Melo resgata e louva sua origem no que cria, enlivra-se dela no "fazer poético" propriamente dito, mas só se sente em casa mesmo escrevendo seu tempo, seu lugar, seu espírito aguçado, e toca o desconhecido com suas perguntações, pontuando as léguas tiranas, afinal, longe de casa, não é longe de si, mas um reconstruir o longe para lavra criaciocional vivenciada no ser de si, quase self.
A Poesia de José Inácio Vieira de Melo entoa, faz bem, aplaina momentos que resgata, como se decifrasse a sede da seda, na sua náutica louvação/peregrinação/criação (anagramas amalgamados), tudo a ver, tudo a ser, tudo a ler. "O chocalho, no pescoço/ da vaca, anuncia:/ - Eu estou aqui!// O relógio, na parede/ da cozinha, adverte:/ - Não escaparás! (pg 41, Diálogo). Bravo!
Nesses tempos pós-modernos de cincerros com grifes (i pod, celulares, mp 3,4,5), range a rede de criação - escrever é para quem se distancia da manada - e brilha quem tem asas na alma. Os mandacarus atônitos ainda que cactos vítreos dão frutos de palavreiros. O cálice transborda como seda pura em papel de arroz com imagens poéticas vibrantes.
A infância é tudo aquilo que trazemos conosco, naquilo que somos, naquilo que não cabemos em nós, naquilo que perdemos, naquilo que fermentamos entre tantas purgações existenciais? Ainda bem quando grandes poetas refazem suas íntimas trilhas fazendo versos e movendo moinhos letrais. O tecido irreversível da alma toca o fio-terra do verbo viver a self aberto: eis o livro, eis a obra, eis o poeta: A Infância do Centauro - José Inácio Vieira de Melo semeando sarças ardentes.


Silas Correa Leite é Teórico da Educação, Jornalista Comunitário, Poeta e Ficcionista. Publicou os livros Porta-Lapsos (poemas) e Campo de Trigo com Corvos (Contos).

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

RONALDO CORREIA DE BRITO LANÇA ROMANCE "GALILÉIA"

Alfaguara apresenta o primeiro romance do renomado contista, dramaturgo e roteirista de cinema
Ronaldo Correia de Brito, uma das vozes mais originais da literatura brasileira atual

“Seu modo de construção é cinematográfico. Econômico, conciso, cortante, ele reúne os fragmentos da tradição oral e ergue uma catedral literária com os cacos da ruína sertaneja e da tragédia clássica.” — O Estado de S.Paulo


Três primos atravessam o sertão cearense para visitar o avô Raimundo Caetano, patriarca de uma família numerosa e decadente que definha na sede da fazenda Galiléia. Ismael, Davi e Adonias passaram parte da infância ali, mas fizeram o possível para cortar seus laços com a terra de origem. Fazem parte de uma geração que largou o campo para nunca mais voltar. Foram viver no exterior, procuraram reconstruir a vida em Recife, em São Paulo, na Noruega.
O que espera os três primos ao final da viagem é uma volta radical a esta origem, a esta fazenda que um dia foi próspera, que oculta segredos e traições e “onde as pessoas se movem como nas tragédias”. Por mais que os protagonistas tenham se distanciado da violência que ronda a família, voltarão a senti-la de perto, descobrindo que nunca escaparam — ou escaparão — ao destino que os cerca. Terão de se reencontrar com a família e seus fantasmas, e reviver histórias de adultério, vingança e morte.
Nascido no mesmo sertão do Ceará onde está fincada a fazenda Galiléia, o contista, dramaturgo e roteirista Ronaldo Correia de Brito conhece profundamente o cenário escolhido para ambientar seu primeiro romance. “Tivemos um ciclo épico e de tragédias nesse vasto sertão cearense. Nada disso foi representado até o esgotamento, como o ciclo do faroeste americano, a conquista do Oeste. Cadê os nossos John Huston, John Ford, Roberto Leone? Glauber e os diretores do ciclo do cangaço fizeram uma leitura sobretudo do social. Os acontecimentos foram bem mais transcendentes. A nova geração de escritores prefere escrever sobre os dramas urbanos”, observa o autor em entrevista sobre sua obra.
Ronaldo Correia de Brito não teme o rótulo de regionalista e se adianta às críticas: “O meu sertão é a paisagem através da qual eu interpreto o mundo, o de hoje, o globalizado, o que rompeu com as tradições. Interessa-me a decadência, a dissolução. Meus personagens migram, sofrem o embate com as outras culturas. Sei que tenho sido vítima de preconceitos pela escolha dessa paisagem”, diz o escritor.
Para sua Galiléia, observa Ronaldo, convergem pessoas de todo o mundo. “Trato das questões do nosso tempo, os conflitos de cultura, as migrações, a dissolução da família tradicional. Jogo na mesa os conflitos insolúveis entre cidade e campo”, explica ele. “Se você elabora uma personagem complexamente neurótica, feminista, com todos os anseios urbanos, e se você senta esta mulher numa cadeira de couro, olhando uma paisagem desolada do sertão, há quem enxergue apenas o cenário e três ou quatro substantivos locais. Embora essa mulher fale da mesma dor e da mesma solidão de uma negra americana do Harlem”, compara o autor, herdeiro orgulhoso da tradição oral de sua terra.
“Acredito na supremacia da narrativa. As narrativas só perderão a função quando os homens perderem a fala, a audição e o dom de mentir. Costumo lembrar o quanto eram importantes os velhos narradores que tinham por única função na vida andar pelas casas interioranas, repassando conhecimentos que eles adquiriram e guardaram na memória. Acho que nenhum deles se perguntou algum dia sobre o valor do seu trabalho. Como também acredito que os aedos (artistas gregos que cantavam as epopéias) não se fizeram esta pergunta, enquanto fixavam o idioma, a mitologia e a épica grega”, lembra Ronaldo, que explica também sua recorrente inspiração em passagens e personagens bíblicos: “Aprendi a ler numa História Sagrada, que é uma seleta da Bíblia. Quando tinha sete anos, meu pai pediu que lesse em voz alta, para toda a família, um trecho da história de José do Egito. Foi a minha diplomação”, conta ele, “Eu sou um cara religioso, embora não freqüente nenhuma igreja. Costumo rezar, como os antigos hebreus, como Jó, aos impropérios, brigando com Deus. O mundo sertanejo lembra o da Bíblia, sendo que Deus foi desterrado dele.”

SOBRE O AUTOR: Ronaldo Correia de Brito nasceu no Ceará e mora em Recife. É médico formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Desenvolveu pesquisas e escreveu diversos textos sobre literatura oral e brinquedos de tradição popular, além de ter sido escritor residente da Universidade da Califórnia, em Berkeley, no ano de 2007.
Escreveu os livros de contos As Noites e os Dias (1997), editado pela Bagaço, Faca (2003), Livro dos Homens (2005), e a novela infanto-juvenil O Pavão Misterioso (2004), todos publicados pela Cosac Naify.
Dramaturgo, é autor das peças Baile do Menino Deus, Bandeira de São João e Arlequim. Escreveu durante sete anos para a coluna Entremez, da revista Continente Multicultural, e atualmente assina uma coluna semanal na revista Terra Magazine, do Portal Terra.

Fotógrafo: Hans von Manteuffel
DEPOIMENTO: Ronaldo Correia de Brito fala sobre escrita, memória, psicanálise e as paisagens onde suas histórias se ambientam:

Quando lancei As noites e os dias, em 1997, pela editora Bagaço, o poeta Alberto Cunha Melo escreveu que meus personagens são complexamente urbanos e habitam um sertão sem endereço certo, que pode estar em qualquer latitude. Em Galiléia, os primos Davi, Ismael e Adonias procuram reconstruir suas vidas na Noruega, no Recife e em São Paulo, longe do sertão em que nasceram. Por mais que eles tenham se distanciado da violência que ronda a família, voltarão a senti-la de perto, descobrindo que nunca escaparam ao destino que os cerca.

UMA RELEITURA DO SERTÃO – O sertão tanto pode significar um espaço mítico como um acidente geográfico. Santo Agostinho perguntava sobre o tempo: o que é o tempo? Se não me perguntam eu sei, se me perguntam, desconheço. O que é o sertão? Se não me perguntam eu sei, se me perguntam desconheço. O sertão é abstrato ou real como o tempo. E continuará sendo tema para a literatura. O sertão é um espaço de memória confundido com o urbano. É o melhor lugar do mundo para acessar a Internet, porque as Lan House cobram apenas cinqüenta centavos por hora. Galiléia trata dessas idas e vindas, mergulhos e retornos nesse mundo suburbano chamado sertão.
Sou inteiramente aberto às influências. Não estou nem aí para qualquer tipo de fidelidade. Sou marcado pela escrita de Rulfo, Borges e de vários escritores russos. O livro que marcou mais profundamente minha escrita foi a História Sagrada, que sempre li como um compêndio de narrativas e nunca como um escrito religioso. Concordo com o ponto de vista de Robert Alter de que a Bíblia é prosa de ficção.
Eu precisava escrever um romance para ter mais espaço para discussões que não cabem no conto. Mas, sou um romancista conciso. Nunca conseguiria escrever centenas de páginas como os russos e os escritores de língua inglesa. Levei a mesma tensão dos meus contos para o romance. E isso se alcança em poucas páginas.
Trabalho duas propostas de Ítalo Calvino na minha literatura: a exatidão e a rapidez. Sou obsessivo em tentar dizer o essencial com poucas palavras. A cada dia me preocupo menos com o efeito das frases. Já não tento alcançar a beleza; prefiro alcançar a verdade. Quase não crio metáforas e censuro os adjetivos. Acho que sou esquemático, o que não deixa de ser um perigo para a literatura. Mas não suporto gorduras, sempre busco chegar ao osso.
Sou um escritor psicanalisado e minha escrita reflete isso. Nunca quis exercer o papel de psicanalista, embora tenha feito formação. Não conheço boa literatura escrita por psicanalistas. O hábito profissional da escuta e da escrita psicanalítica contamina a criação literária e o resultado é sempre ruim. Freud escreveu boa literatura. Não digo o mesmo de Jacques Lacan.
Quando terminei de escrever Galiléia, tive a impressão de que havia escrito o roteiro de um filme. Escrevo sempre a partir de impressões visuais, arranjos de cena. Nunca escrevi por sugestão deste ou daquele texto literário. As imagens do cinema me sugerem muito mais profundamente do que um conto ou novela. Escrevo teatro com facilidade. Sou um homem de teatro, conheço a carpintaria teatral. Escrever para cinema e teatro é bom porque podemos acompanhar a encenação ou a filmagem, vemos a transformação do texto numa outra linguagem.
Escrever é um ofício custoso. É necessário ler muito, agüentar o tranco da solidão, ser capaz de uma viagem interior e estar sempre aberto às novas experiências da escrita. É um ofício amargo, duro, uma verdadeira ascese. Não vejo nenhum glamour em ser escritor. Só reconheço nessa profissão muito trabalho, uma busca permanente da literatura e horas contínuas de estudo.
Continuo trabalhando como médico e não pretendo me afastar da medicina, nunca. Escrever e atuar como médico são atividades sem conflito. Acho que não seria escritor sem o longo e exaustivo exercício da medicina. Todos os dias eu convivo com o sofrimento, com a doença, com a morte e a alegria da cura. Ouço histórias que anoto e que podem aparecer em algum conto ou novela. Em Livro dos Homens existem dois contos desenvolvidos a partir de minha vivência no hospital.
Só consigo viver fazendo muitas coisas. Todas elas estão harmonizadas e é como se eu me movimentasse dentro de um mesmo universo. Gostaria de escrever um livro que me deixasse satisfeito. Isso nunca acontecerá. Estou sempre esperando por esse livro. Ah, se fosse Galiléia! Mas tenho consciência da minha permanente insatisfação e já estou trabalhando em novos livros. Queria viver mais serenamente, sem a angústia da espera. Não desejar e não esperar. Isso é quase a santidade.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

VERÔNICA DE VATE: LUÍS ANTONIO CAJAZEIRA RAMOS

LUÍS ANTONIO CAJAZEIRA RAMOS nasceu em 12 de agosto de 1956 em Salvador, onde ainda reside. Cursou Engenharia Elétrica e Agronomia na Universidade Federal da Bahia, mas abandonou ambos os cursos no penúltimo semestre. Ainda na UFBA, fez dois semestres de Medicina. Formou-se em Educação Física e em Direito pela Universidade Católica do Salvador. Mantém vínculo com a UCSAL como professor. É funcionário do Banco Central do Brasil, membro da Ordem dos Advogados do Brasil, sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e componente do conselho editorial de Iararana, revista de arte, crítica e literatura.

PRODUÇÃO LITERÁRIA: Não fez versos na infância nem na adolescência, despertando para a poesia na idade adulta. Estreou com o livro Tudo muito pouco (Cruz das Almas, 1983), mas rasgou e queimou quase toda a edição, abandonando a poesia por uma década. Voltou a escrever intensamente em 1995. Re-estreou com Fiat breu (Salvador: Edições Papel em Branco, 1996). Em seguida, lançou Como se (Salvador: Letras da Bahia, 1999), menção honrosa no Prêmio Nacional Cruz e Sousa, da Fundação Catarinense de Cultura, em 1998; Temporal temporal (Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002), ganhador do Prêmio Nacional Gregório de Matos, da Academia de Letras da Bahia, em 2000; e Mais que sempre (Rio de Janeiro: 7Letras, 2007).

OUTRAS PARTICIPAÇÕES: Sua poesia está incluída em várias antologias, destacando-se as seguintes: 1) no Brasil, A poesia baiana no século XX (Org. Assis Brasil. Salvador: Funceb; Rio de Janeiro: Imago, 1999); 2) em Portugal, Vozes poéticas da lusofonia (Org. Luís Carlos Patraquim. Sintra: Instituto Camões, 1999); 3) na França, Voix croisées: Brésil-France (Dir. Gerard Blua. Paris: Éditions Autres Temps, 2006). Sua poesia também pode ser encontrada em sítios eletrônicos, como o Jornal de Poesia (www.secrel.com.br/jpoesia). Eventualmente, publica poemas, resenhas e outros artigos em revistas literárias e jornais.

PROJETO LITERATURA COMENTADA: Luís Antonio Cajazeira Ramos vai participar do projeto Litetatura Comentada, em Jequié - BA, no próximo sábado, dia 1º de novembro de 2008. O evento vai acontecer na Biblioteca Central Newton Pinto de Araújo, às 19h 30min. A abertura vai ser com os poetas recitadores Marcelo Nascimento e Vitor Nascimento Sá, membros do Grupo Concriz da cidade de Maracás. Luís Antonio vai falar de sua trajetória e lançar o livro Mais que sempre, sua última publicação. O evento é coordenado por André Bomfim e Lucas Ribeiro.


VÉSPERA DO DIA DOS MORTOS


Eu não amei meu pai como devia.
Houve o dia de amá-lo e não o amei.
Ele morreu, e não nasci ainda.
Amanhã levantei sem seu amor.

Nenhum conselho amigo soa seu.
Uma vida padrasta me acompanha.
Meu caminho não quis olhar pra trás.
Tão longe de meu pai me abandonei.

Nem meu, nem de ninguém, nunca fui seu.
Não me quis dar a quem eu estranhava.
Só teu colo, mamãe, era aconchego.

Do pai, resta-me um calo de silêncios.
Ai, arranco do peito o corpo estranho.
Coração, cava o chão, busca meu pai.


LUÍS ANTONIO CAJAZEIRA RAMOS

LUÍS ANTONIO CAJAZEIRA RAMOS - PANTOMIMA



PANTOMIMA


Os melhores cordeiros da fazenda
seguirão para o abate na cidade.
Os carneiros mais fracos do rebanho
serão sumariamente degolados.

O bode velho vai pro sacrifício,
por mais que seu olhar peça clemência.
Nem mesmo as cabritinhas inocentes
terão misericórdia ou esperança.

As carnes assarão ao sol: fogueira.
As peles secarão ao sol: curtume.
As vísceras suarão ao sol: carniça.
Os ossos sumirão ao sol: poeira.

Somente a ovelha negra fica impune,
enquanto o bom pastor toca sua flauta.


LUÍS ANTONIO CAJAZEIRA RAMOS

TERRÍVEL E DOCE LIRA

José Inácio Vieira de Melo

Completar um cinqüentenário é sempre motivo de comemoração. E é nesse clima que o poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos tem vivenciado seus 50 anos. Uma prova disso é a publicação do seu novo livro, Mais que sempre (Rio de Janeiro: 7Letras, 2007), uma edição bem cuidada que faz jus ao conteúdo que envolve.
Além de trazer 24 sonetos inéditos no capítulo de abertura, Mais que sempre faz uma viagem pela obra de Luís Antonio, reapresentando poemas de seus três livros anteriores, distribuídos em cinco capítulos, arrumação esta que exigiu do poeta o cumprimento da árdua tarefa de escolher.
Assim, os poemas do livro Temporal temporal (2002), vencedor do Prêmio Nacional Gregório de Matos, da Academia de Letras da Bahia, encontram-se nos capítulos “Temporal temporal” e “Lucidez insana”. Os elegidos de Como se (1999), nas seções “Estos do estio” e “Veia Vernal”. Na seção final, “Fiat breu”, estão os poemas do livro homônimo, de 1996.
Destacar este ou aquele poema dessa antologia coesa é querer padecer do sofrimento que o autor experimentou ao fazer a sua seleção.
É certo que sonetos como “Pantomima”, “Véspera do dia dos mortos”, “O amor de minha vida” e “Religião poética” têm-se tornado emblemáticos dentro da trajetória de Luís Antonio. Mas o seu tom é tão marcante, que, ao se ler o livro, fica a impressão de que estamos diante de um único poema.
Isso acontece porque o poeta vai cerzindo seus poemas um no outro, chegando a usar o verso final de um poema logo no início do seguinte, como numa coroa de sonetos.
Outras vezes, o título de um soneto aparece bordado no âmago de outro, como é o caso de “Na solidão do campo de narcisos”.

DIVINDADE – Luís Antonio Cajazeira Ramos é um poeta terrível, como terríveis são os anjos de Rilke. O sarcasmo que perpassa seu conjunto de sonetos é de deixar qualquer leitor espantado. Não que sua lira cause aversão, mas é que ele canta tão bem e tão profundamente a miséria humana, que nos coloca na pele do poema e, por conseguinte, da miserável condição que nos é implícita.
Ler a poesia de Cajazeira Ramos é ser o Cajazeira Ramos. Deslizar pela lama de sua métrica perfeita e sentir o cheiro da origem, uma vez que somos o barro que sonha odisséias, mas que não sai do pântano.
Luís Antonio, um demiurgo gozador, ri de tudo.
Ao contrário do que possa parecer, a sua atitude poética não é de indiferença, mas de compreensão do humano. Diante do caos que o rodeia, só pode entender o grito da criação como um “fiat breu”. E o seu clamor se estende para uma divindade – não aquela de onipotente ausência, mas a que arrasta as suas asas negras sobre nós, à maneira de um Baudelaire, quando este invoca: “Oh Satã, tu que és o rei dos anjos, tenha piedade de nossa longa miséria!” Mas estas afirmações não fazem do poeta dos temporais um cantador de aberrações e das trevas.
Pelo contrário. Luís Antonio fala, o tempo todo, do amor, da solidão, do eu e da dor. Seus poemas nada têm de lúgubres, sombrios, pesados.
A grande faceta desse poeta é dizer essas coisas claramente, atribuindo a cada verso leveza e espanto, quase tudo dentro de uma forma que elegeu (ou que o elegeu): o soneto.
Que conforto é para o apreciador de poesia se deparar com um poeta da estatura de Luís Antonio Cajazeira Ramos, que dialoga com a tradição, mas que, sobretudo, com voz própria e firme, atualiza e renova o discurso poético e inova no soneto, dando uma contribuição singular para essa forma dentro da poesia brasileira contemporânea.
Resta, então, ao leitor, experimentar a intensidade dessa poesia, caminhar “na solidão do campo de narcisos” e perceber que o seu tempo, leitor, já passou e que você nem se deu conta. Diante desse lirismo tão irônico, no entanto, não é preciso atormentar-se. A voz do poeta, que penetrou na sua ferida, agora vem e “enquanto a nuvem se exauria aflita”, “enquanto o bom pastor toca sua flauta”, “enquanto eu busco, imperfeito, a poesia”, “um novo amor convido para a dança”.


Resenha publicada no jornal A Tarde Cultural em 5 de maio de 2007, em Salvador.