terça-feira, 30 de setembro de 2008

O LIRISMO DE UMA POESIA SEM TEMPO

Marcos Uzel

Fotógrafo: Ricardo Prado
Livro de José Inácio Vieira de Melo une memória e contemporaneidade:
"Parto da memória para abordar os elementos do universo".


A poesia de José Inácio Vieira de Melo, 37 anos, agrega o passado e o presente em um mesmo lugar, como se não existisse o tempo. Um olho é pura memória. O outro mira os primeiros anos deste início de século, impregnados de fragmentações e crises de identidade. É como se a contemporaneidade o encontrasse "em cima do telhado da infância". Assim é A terceira romaria, terceiro livro do poeta alagoano, publicado pelo selo independente Aboio Livre Edições, com lançamento amanhã, às 18h, na Academia de Letras da Bahia (Nazaré).
Elogiado por nomes expressivos da literatura brasileira, como Lêdo Ivo, Moacyr Scliar, Olga Savary, Ruy Espinheira Filho e Gerardo Mello Mourão, o também jornalista José Inácio chega à terceira obra ampliando poeticamente a sua visão das coisas da vida e revisitando versos que publicou em trabalhos anteriores. Estão em A terceira romaria dez poemas do livro inaugural Códigos do silêncio (de 2000, reunidos, agora, numa seção intitulada Jardim dos mandacarus) e 30 da obra Decifração de abismos (de 2002, compondo o Jardim das algarobeiras).
"Sou um poeta que contempla a memória, mas não se prende a isso. Minha arte é a palavra. Através dela, tento mostrar o que me causa estranhamento e encantamento em minha caminhada", define José Inácio, que enveredou pela literatura trilhando uma estrada lírica e carregada de humanidade. Nela, também deixou-se mover pela delícia de reinventar o que já foi dito: "Não há mais poesia em dizer a uma mulher que ela é uma rosa. Mas a poesia logo ressurge se dissermos que ela é uma tempestade", ilustra.
Logo no poema de abertura, Louvação, ele anuncia: "Eu, poeta dos Sertões, passarinho do Vento Nordeste,/ venho perante tu, que habitas nos jardins,/ louvar a graça maior da poesia". E vai sublinhando página adentro a sua genuína preocupação com o homem, como destaca bem o escritor Mayrant Gallo na orelha de A terceira romaria. Nos versos de Cântico, por exemplo, José Inácio capricha: "Eu, que venho de secas, que escrevi versos de dor,/ ao ver meu irmão sedento agarrar-se em esperança,/ manter-se sustentado pelo mínimo orvalho, /agora me deleito com o sorriso abundante que a chuva trouxe".
Especulações sobre a existência, infância, descobertas, erotismo, louvação ao amor e à amizade são abordagens que o acompanham nesse percurso fortemente grafado pelo lirismo da vida campestre. Por vezes marcadamente delicado, como em Cerca de Pedra (Aqui, na Cerca de Pedra,/ nesta noite caatingueira,/ estou em silêncio, ouvindo/ o silêncio das estrelas). Em outros momentos, doloroso, como nos versos de Seca (Olhos esbugalhados - fome/ beiços ressequidos - sede/ e a vida some... Tudo vermelho de todo Sol).
"Dou uma grande atenção à pesquisa de linguagem, mas não esqueço minha origem. Digo isso, não no sentido geográfico. Parto dela para abordar os elementos do universo", enfatiza o alagoano nascido em Olho d''Água do Pai Mané, povoado do município de Dois Riachos, e radicado na Bahia desde 1988. "Muito apreciei o seu lirismo cortante como o fio de uma navalha, uma poesia que, embora seca, esconde e guarda uma chuva secreta", saúda, na contracapa da publicação, o também alagoano Lêdo Ivo, uma das expressões de maior destaque na moderna literatura brasileira, sobretudo pela contribuição poética.
José Inácio tem se inserido ativamente na produção cultural da capital baiana, através de iniciativas como a revista de arte, crítica e literatura Iararana, da qual é co-editor, e o projeto Poesia na Boca da Noite, sob sua coordenação. Em 2003, ele lançou o livrete Luzeiro, composto de três poemas e definido pelo autor como um tributo ao cordel, uma de suas referências literárias, além de ter sido uma prévia do então inédito A terceira romaria.
Foi também de José Inácio a organização do livro Concerto lírico a quinze vozes - Uma coletânea de novos poetas da Bahia, lançado no ano passado. Sua obra mais recente traz ilustrações do artista plástico Ramiro Bernabó e prefácio do poeta e ensaísta paraibano Hildeberto Barbosa Filho. E muitos outros trechos sensíveis, de belo conteúdo metafórico, como esses versos de Dois momentos: "Entro no poema como quem come cuscuz/ e sai dia afora para encarar a existência./ A poesia lava os pés e as lágrimas".


Marcos Uzel é jornalista.

Texto publicado no jornal Correio da Bahia, em Salvador, em 5 de junho de 2005.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

JIVM - MEMÓRIA

Ilustração: Juraci Dórea


M E M Ó R I A


Gosto de subir no telhado da casa
e olhar para dentro do quintal,
é lá que estão o menino e a arte.

A incompreensão vestiu o menino.
Ele se exibiu para o azul do dia
e para os olhos daquelas línguas.

O infante, dentro da sua solidão,
encontrou a estrada e caminhou
e enveredou por tantos descaminhos.

Quantas vezes dormiu ao relento?
Quantas vezes tombou e caiu?
Quantas vezes seguiu por miragens?

Ah essas cicatrizes, esses calos
pelo corpo e pela alma do menino,
ah, esse deserto de ilusão.

Mas assim como existe a sede,
existe a imensidão do mar,
e as coisas vão à balança.

E o que é viver cada dia
senão beber da água
e entender os merecimentos?

Ouço vozes – muitas vozes –
dentro de mim mesmo,
todas dizem que é preciso prosseguir.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

terça-feira, 23 de setembro de 2008

PROJETO LITERATURA COMENTADA - A CASA DOS MEUS QUARENTA ANOS EM JEQUIÉ

Sábado, dia 27, participarei do projeto Literatura Comentada, em Jequié. O evento é coordenado por André Bomfim e Lucas Caetano Ribeiro. Na ocasião, lançarei o CD de poemas A casa dos meus quarenta anos e falarei do meu percurso poético. Mais uma vez vou ter a satisfação de contar com a participação especialíssima do Grupo Concriz, da cidade de Maracás, que vai apresentar um recital com 35 poemas meus, inéditos. O Grupo Concriz é composto por 11 jovens (Caroline Brito, Danilo Spínola, Esther Maria, Gina Alves, Hermann Henrique, Ivana Karoline, Marcelo Nascimento, Matheus Machado, Pablo Sá, Robson Nascimento e Vanessa Vitória), e conta com a direção magistral do poeta e professor Vitor Nascimento Sá.
JIVM

JIVM - ZOADA

Ilustração: Ramiro Bernabó


Z O A D A


Os livros foram lidos e tudo já foi dito:
resta o silêncio – este corvo doido,
resta a folha de papel em branco
urubuzando minhas dores,
buscando os meus anagramas.

Podem rir sem pesar,
o poeta está bêbado e não sai da linha torta.
Não aguardem a última risada,
pois nem o ruído da morte
arrepiará as pétalas deste silêncio,
nem os estrondos de todas as bombas
farão frente à zoada que me aflige.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

sábado, 20 de setembro de 2008

VERÔNICA DE VATE: CLEBERTON SANTOS

CLEBERTON dos SANTOS
1979 – Nasce em Propriá – Sergipe, em 14 de maio, na Rua do América, filho de Helena dos Santos Feitosa e José Francisco dos Santos (Maria Zuleide Nunes dos Santos e Juraci Barbosa Nascimento).
1987 - Ingressa na 1ª série da Escola de 1º Grau Graccho Cardoso, em Propriá.
1991 – Transfere-se na 5ª série para a Escola de 1º e 2º Graus Joana de Freitas Barbosa (Polivalente), em Propriá.
1993 – Transfere-se na 7ª série para a Escola de 1º e 2º Graus Fundação Bradesco, em Propriá.
1995 – Transfere-se para o Colégio Diocesano de Propriá, onde cursa o Magistério.
1997 – Forma-se em Magistério de 1º Grau da 1ª a 4ª série. Participa, pela primeira vez, do Concurso de Poesia Falada de Propriá. Publica três poemas na Antologia Literária “Analecto”, lançada em Aracaju-SE.
1998 – Em 1º de junho, falece sua mãe Helena dos Santos Feitosa. Muda-se para Candeias – Bahia. Participa do Concurso de Poesia Falada de Propriá (a poesia “O Poeta” recebe o prêmio de segundo lugar, no valor de 150,00).
1999 – Ingressa na Universidade Estadual de Feira de Santana – Bahia, onde cursa Licenciatura em Letras Vernáculas. Participa do Concurso de Poesia Falada de Propriá.
2000 – Participa do Concurso de Poesia Falada de Propriá. Publica o livro de poemas “Ópera Urbana”, pelas edições MAC – Feira de Santana / BA. Participa da “Antologia de Contos do Prêmio Literário TAP – Redescobrindo o Brasil aos 500 anos”, publicada no Rio de Janeiro pela Record. Participa do espetáculo teatral “A vida de Aluisio Resende”, em Feira de Santana (representando o poeta Aluisio Resende).
2002 – Casa-se com Lílian Almeida de Oliveira Lima e passa a morar em Feira de Santana. Vencedor do Prêmio Escritor Universitário Alceu Amoroso Lima – Academia Brasileira de Letras / Rio de Janeiro. Passa a colaborar com cadernos culturais e revistas literárias.
2003 – Forma-se no curso de Letras Vernáculas - UEFS.
2004 – Ingressa no Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural – UEFS.
Participa do recital Caruru dos 7 poetas, Salvador, coordenado pelo poeta João de Moraes Filho e Luisa Mahin.
Publica na revista iararana 9, de Salvador.
Convidado do Projeto Malungos, realizado em Salvador e coordenado pela poeta Vanessa Buffone.
2005 – Convidado do Projeto Poesia na Boca da Noite, realizado em Salvador e coordenado pelo poeta José Inácio Vieira de Melo.
Convidado do Porto da Poesia, na VII Bienal do Livro da Bahia, setembro, Salvador, coordenado pelos editores da revista iararana.
Vencedor do Projeto de Arte e Cultura Banco Capital, ano IV, na categoria Literatura (poesia).
Convidado do Café Literário do III Congresso de Educação de Vitória da Conquista, outubro, coordenado pelo poeta Adriano Eysen.
Convidado do Caruru dos 7 Poetas, Cachoeira, outubro, coordenado pelo poeta João de Moraes Filho.
Convidado para palestrar na Escola Fundação Bradesco, em Propriá – SE, 27 e 28 de outubro.
Convidado do Projeto Imagem do Verso, 23 de outubro, Salvador, coordenado pelo poeta Elizeu Moreira Paranaguá.
Lança o livro Lucidez Silenciosa (poesia), em Salvador, 30/10/2005.
Lança o livro Lucidez Silenciosa (poesia), em Feira de Santana, 10/12/2005.
O poema “Infância” recebe MENÇÃO HONROSA no Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná.
2006 – Defesa da Dissertação de Mestrado intitulada “Nas entranhas da cidade (estudo da lírica urbana de Reynaldo Valinho Alvarez)” no Programa de Literatura e Diversidade Cultural da Universidade Estadual de Feira de Santana.
19/04/2006 – Lançamento do livro Lucidez Silenciosa, em Aracaju, na Assembléia Legislativa de Sergipe. Evento organizado pela poeta e jornalista Ilma Fontes.
02/05/2006 – Toma posse no cargo de Professor Substituto de Língua Portuguesa de 1º e 2º Graus no CEFET – Valença, Bahia.
23/09/2006 – Participa do Caruru dos 7 Poetas (3 edição), em Cachoeira - BA.
29/09/2006 – Lançamento do livro Lucidez Silenciosa, em Valença, durante a II Semana do Turismo Valença. O evento foi realizado pelo CEFET – Valença.
25/10/2006 – Lançamento do livro Lucidez Silenciosa, na UESC – Ihéus/BA, durante o VII Seminário Internacional de Literaturas Luso-Afro-Brasileiras, a convite da Prof. Daniela Galdino. 09/11/2006 - Lançamento do livro Lucidez Silenciosa, no Café Literário, durante o IV Congresso de Educação de Vitória da Conquista / BA. Coordenação do poeta Adriano Eysen.
10/11/2006 - Lançamento do livro Lucidez Silenciosa, no projeto Papo Lírico, durante a Semana de Letras da UESB, Campus de Jequié / BA. Coordenação da Profª Valéria Mota.
10/04/2007 – Toma posse no cargo de Professor de Língua Portuguesa de 1º e 2º Graus no Colégio Estadual Governador Luis Viana Filho, lotado na Secretaria de Educação do Estado da Bahia.
14/05/2007 – Recebe o Prêmio WALY SALOMÃO da Academia de Letras de Jequié.
2008 – Publica três poemas na Revista Poesia Sempre (Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional).


AMANHÃ
Para José Inácio Vieira de Melo


Contemplar o amanhã sem vê-lo
apascentar memórias de um mundo antigo
enquanto ossos e sombras insones
repousam submersas em solo marítimo.

Contemplar o amanhã sem detê-lo
em sua voracidade de amanhecer.


CLEBERTON SANTOS

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

CLEBERTON SANTOS - CALÇADA RIBEIRINHA



CALÇADA RIBEIRINHA


Queria sentar nesta calçada antiga
repousar meus gritos e teoremas
jogar castanhas no buraco d’água.

Queria sentar nesta calçada antiga
sem a pressa dos vendavais urbanos
contar estrelas em esteiras amarelas.

Queria sentar nesta calçada antiga
sem a poesia que me atormenta
sentir a lua fria sobre as pernas.

Queria sentar nesta calçada antiga
e ver surgir do batente liso
a velha sombra da manhã vivida.


CLEBERTON SANTOS

BELEZA NECESSÁRIA

José Inácio Vieira de Melo

Nos 40 poemas que compõem Lucidez Silenciosa, Cleberton Santos apresenta uma lira cheia de vigor. Não é uma poesia de fáceis arroubos, mas contida, disciplinada, que preza pela linguagem e que mostra que seu autor sabe os rumos que deseja trilhar – passos semelhantes aos de um Baudelaire: “ir ao fundo do desconhecido para encontrar o novo”.
Nesse seu livro de estréia, Cleberton não está preocupado em seguir vertentes literárias, não desperdiça tempo com este ou aquele grupo de vanguarda, desse ou daquele lugar. O seu compromisso é com a arte poética, é com a estética da palavra.
O livro está dividido em quatro partes. Em todas elas, é perceptível a busca da síntese no dizer, do condensar as palavras, no que resulta uma poesia substantiva e substancial.
Em Bestiário Inútil, primeira parte, há uma paisagem e um calango que espreita o mundo. Cleberton Santos é um poeta ofuscado pelos delírios, um cego – um Homero, um Patativa, um Borges – que enxerga o mundo pelos olhos desse calango e confere existência à paisagem. Sente cravado no peito o silêncio. Não um silêncio qualquer, mas aquele que executa, a todo instante, um “Concerto para ninar calangos” e despertar matizes:

Silêncio tecido de dor e violinos
crava em meu peito
concerto estapafúrdio
para ninar calangos opalinos.

Além dos calangos, são invocados escorpiões, pardais, galos e ossos de um antigo Minotauro. O poeta retorna ao tempo dos pardais e o chão é céu, onde nuvens de carambolas e de goiabas maduras despertam os primeiros desejos e o fazem ruborizar (“Sonhos e pardais”).
Em Mitos e Formas, segundo capítulo deste opúsculo do poeta sergipano da Bahia, tudo é metamorfose. O “Minotauro” ressuscita do Bestiário Inútil. Teseu, personificação do poeta, embora agonizante, sabe que o alimento dos galos que cria, em sua morada, são os mitos e as formas – grãos imprescindíveis para os cantores da aurora. Teseu, esfaqueado e lúcido, renasce na aurora, seu sangue é o arrebol, é o novo. A manhã traz no âmago o germe da tarde e a tarde é conseqüência do dia, a tarde é noite que se aproxima a anunciar o “Amanhã”:

Contemplar o amanhã sem detê-lo
em sua voracidade de amanhecer.

Lucidez Silenciosa é a matriz do livro de Cleberton. Nesta terceira seção, o poeta homenageia Florbela Espanca e Pablo Neruda, dialoga com outras referências, como em “Poema ocasional”, em que estão justapostas as vozes aveludadas de Alphonsus Guimaraens e de Cruz e Souza, baluartes do Simbolismo no Brasil.
Mas o momento culminante deste capítulo é o poema “Amor”. Dos recônditos lugares do silêncio, das alturas da lucidez, Cleberton Santos erige – em arquitetura exata – o templo do amor. Em sua partitura, não há arrodeios nem floreios. É o que é, seja qual for a circunstância:

O vestido preto
está dançando na esquina.
O amor é uma festa
mesmo em dia de luto.

O Canto Quase Memória, derradeira parte de Lucidez Silenciosa, começa com um poema que despeja nas retinas do leitor o Sísifo que todo ser humano é. E assim, condenado pelo destino, o poeta segue a empurrar, montanha acima, “a pedra infinitamente pedra”. Mas, aprendiz do velho Vicente, amola suas facas na pedra, que é seu fardo e sina, para, em seguida, esgrimir seus versos e compor a sua lira.
Cleberton demonstra ser um poeta que dedilha a chuva dos versos na flauta dos dias. Ciente do caminho que tem a percorrer, olha para frente e – com olhos de calango na “Paisagem em movimento” – enxerga nos longes, lá em 2050, e sabe o que o espera. E tranqüilamente toca a sua “Composição para flauta”:

Faço versos com retalhos de vida
fios de cabelos que apascento nos dedos.

Lucidez Silenciosa anuncia os vastos horizontes que aguardam pelo seu criador. Em outra época, outro jovem poeta, Castro Alves, sintetizou em um verso a sua ânsia em alçar vôo: “Eu sou pequeno, mas só fito os Andes”. Como o poeta condoreiro, Cleberton Santos sabe da sua condição efêmera, mas mira o infinito e brada para o Cosmo a sua necessidade de Beleza.


Prefácio do livro Lucidez Silenciosa, de Cleberton Santos, publicado, também, no jornal A Tarde Cultural, em 26 de novembro de 2005, em Salvador.

domingo, 7 de setembro de 2008

LANÇAMENTO - A CASA DOS MEUS QUARENTA ANOS EM SALVADOR


MONTANDO NO BICHO MÍTICO PELAS TRILHAS DA IMAGINAÇÃO: UMA BREVE CAVALGADA EM A INFÂNCIA DO CENTAURO, DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Luciano Rodrigues Lima

PROÊMIO

Era uma tarde-noite quente. Eu e Lúcia perambulávamos pelas ruas cansadas e sofridas de Cachoeira, quando alguém me chama. Viro-me e vejo: Café Literário! Penso: duas boas coisas juntas. Muito mais. Entro e encontro pessoas recitando poesias na boquinha da noite. O poeta José Inácio Vieira de Melo, o fotógrafo e poeta Damário Dacruz e diversos jovens poetas lançando sementes no ar. Quando saímos de lá, meio inebriados, as ruas tortuosas de Cachoeira, antes apenas um cenário indecifrável, passaram a fazer sentido para nós.

POESIA PARA MONTAR E VIAJAR

Montar no centauro e sair por aí, ou ser o próprio centauro? Se o bicho mítico já é estranho e misterioso, imagine quando pequenininho, quem não gostaria de ver ou imaginar um? Tudo isso é possível dentro desse título, que, de si, já é um poema inteiro, pois poemas são gatilhos da imaginação; “A infância do centauro”, é um verso, é rítmico. Vamos montar no bicho e sair por aí.
José Inácio pratica poesia de diversos tipos - em primeira pessoa (“A sagração do mito”), falando de si mesmo e do próprio poeta que o habita, a partir de um mirante bem alto dentro dele mesmo, em segunda pessoa (“Epitáfio para um vaqueiro”, “Adorno”), quando o tu parece um faca cortando, aparando retilínea as palavras, em terceira pessoa (“Nascimento do poema”), como quem fala de fora de si mesmo, no infinitivo (“Metamorfose”), convidando o leitor à ação.
A poesia de José Inácio Vieira de Melo, a cada instante, perde a inocência das palavras e a recupera adiante. Explico. Um poeta pode tentar falar do mundo diretamente. Olhar ou sentir o mundo em torno e devolvê-lo em palavras diretas. Seria um diálogo poeta-mundo, sem mediação. Às vezes, porém, isto não é mais possível, devido à “floresta de símbolos” sobre a qual nos adverte Charles Baudelaire, no seu poema “Correspondences”.
Exemplifico. Em “Adeus”, José Inácio (o poeta dentro dele, é claro) parece falar diretamente com o seu passarim, lidando com a inocência das palavras, sem acordar as feras dentro delas, como se pudesse esquecer da carga semântica histórica que cada simples palavrinha traz. Ele reinaugura as palavras. Mas em “Quintanar” e “Epitáfio para um vaqueiro” e “Pedras amoladas, facas atiradas”, José Inácio é o poeta metalingüístico, algo modernista, praticando um intertexto com Mário Quintana, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto.

O LIVRO

Ao crítico não cabe elogiar ou detratar. Cabe-lhe apenas imiscuir-se no espaço entre a obra e o leitor, mediando-os tão pedagogicamente quanto possível. Descrevo, então, a obra. O livro se compõe de partes, com nomes sugestivos: Centauro, Testamento, Chave, Herança, Harém, Jardim, Romaria, mas não há restrição temática em cada uma das partes. Então, as páginas com os nomes podem soar como poemas de uma só palavra, ou palavras-poemas. A edição, pela Escrituras Editora, ilustrada pelo artista Juraci Dórea, é muito bem cuidada, possui prefácio de Ronaldo Correia de Brito, o qual demonstra conhecer segredos de poesia, e contra-capa de Gerardo Mello Mourão.
Ao ler o livro inteiro, tive sensações diversas: senti cheiro do mato do sertão (do sertão com gado, que é um tipo específico de sertão), pressenti o tom cavalheiresco medieval ainda presente na nossa cultura, reportei-me aos mitos bíblicos (“Jardim das algarobeiras”) e senti a atmosfera do cristianismo rústico em meio às pedras e espinhos do sertão nordestino, lembrando mesmo a própria Palestina (os sertanejos não são exilados em sua própria terra, como os palestinos?), entrevi o amor com o erotismo mitigado simbolicamente nas “touceiras de capim e éguas luzidias”, em “Gênese”, ou “no ritmo de vossas ancas”, em “Harém”, vi um poeta citadino intoxicado de palavras em “Zoada”. Encontrei o regional e o universal, o pessoal e o coletivo, imanência e transcendência, a linguagem e a metalinguagem, e diversos ritmos e métricas, ou melhor, formatações, termo mais apropriado para a poesia escrita em computador. O poeta contemporâneo é como o cantor que canta reggae, samba, bossa, baião e até rock. Mas não aconselho ninguém a ler A infância do centauro de uma só sentada. Penso que é melhor aproveitar um ou alguns poemas de cada vez, ou ler separadamente cada uma das partes a que me referi.
A infância do centauro é, na sua inteireza, uma busca: pelo “quem sou eu”, por “onde estou”, por “o que são as coisas” e pelo “o que significam as palavras”, enfim, pela impossível resposta para “o que é a poesia?”. È um passo em uma caminhada, um meio de caminho, um entre-lugar. Não chega ao destino, mas não volta atrás. Mas, nesse percurso, o leitor pode pegar carona no centauro, ou mesmo ser o próprio centauro, metáfora da poesia em movimento.

“CERCA DE PEDRA”: UM POEMA DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

Quando leio criticamente um livro de poesia, gosto de comentar um poema, isoladamente. Acho que, lembrando mais detidamente de um poema, passo a incorporar melhor a poética daquele autor, e, assim, poder melhor exemplificá-la. Como escolher um poema? Ao acaso, pois o gosto pessoal pode ser arriscado. Não existem poemas melhores ou piores, em A infância do centauro. Existem diferentes poemas. Abri o livro sem olhar e, no cara ou coroa, entre os dois poemas do livro aberto deu “Cerca de pedra”.
Reproduzo-o:

CERCA DE PEDRA

Aqui, na Cerca de Pedra,
nesta noite caatingueira,
estou em silêncio, ouvindo
o silêncio das estrelas.

Li o poema auditiva e visualmente. Aos ouvidos soa como um hai-kai duplo. Visualmente é uma cena de noite escura (ou não) no sertão. No sertão, não! Na caatinga. Esta sim, embora menos pomposa, é bem nordestina. Aliás, vejo um vulto solitário sentado em uma cerca de pedra e a noite é de luar. Agora já não vejo mais a cena. Sou eu que estou lá, encostado na cerca de pedra, pois essas cerquinhas de pedra da caatinga não são lá tão boas para sentar. Pode doer nos fundilhos e prejudicar a meditação. Olho para cima e penso em Bilac, inevitavelmente, pois minha mente está povoada de outros poemas. Por instantes a noite silenciosa me envolve. A sensação é muito intensa e fugaz. Não se deve prolongar muito a estesia de um poema, para não desgastá-la. Às vezes a emoção é muito forte e é até perigoso mantê-la por muito tempo.
“Cerca de Pedra” é coisa de minutos, ou segundos. Você vai lá naquela noite silenciosa e volta logo. Senão, você pode se perder na caatinga, para sempre. Ou, mais provável, na caatinga escura e perigosa que já existe dentro de você.

REFERÊNCIAS

Melo, José Inácio Vieira de. A infância do centauro. São Paulo: Escrituras, 2007. 135 p.


Luciano Rodrigues Lima é natural de Salvador, Bahia. É doutor em Letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), professor (UNEB e UNIFACS) e ensaísta. Ilustração: Gilvan Samico

domingo, 31 de agosto de 2008

PROJETO UMA PROSA SOBRE VERSOS - A CASA DOS MEUS QUARENTA ANOS EM MARACÁS

Quinta-feira, 4 de setembro, participarei do projeto Uma Prosa Sobre Versos, em Maracás, a cidade das flores, lugar maravilhoso onde vivi por 10 anos. Na ocasião, encerramento da temporada de 2008, lançarei meu cd de poemas A casa dos meus quarenta anos. Dentro da programação do evento, o Grupo Concriz, composto por 12 jovens, dirigido pelo poeta Vitor Nascimento Sá, vai apresentar um recital com 35 poemas meus inéditos. Além do Grupo Concriz, Antonio Carlos de Oliveira Barreto, Carlos Barbosa, Edmar Vieira e Elizeu Moreira Paranaguá, poetas amigos meus, recitarão poemas do cd. O projeto Uma Prosa Sobre Versos conta com a coordenação do poeta e professor Edmar Vieira, diretor de cultura do município de Maracás. Após os recitais, falarei sobre meu percurso literário e responderei as perguntas da platéia.

JIVM

domingo, 24 de agosto de 2008

UM ATIVISTA DA POESIA

Helena Ortiz

Foto/Divulgação/Ricardo Prado

LANÇAMENTO - José Inácio Vieira de Melo lança poemas em CD para festejar seus 40 anos de idade.
O poeta nasceu no povoado alagoano Olho d'Água do Pai Mané e veio para a Bahia aos 20 anos, em 1988.


Ao completar 40 anos e festejá-los com a edição do cd "A casa dos meus quarenta anos", José Inácio Vieira de Melo pode olhar para trás (e nós também olhamos) e ver que tem uma carreira construída.
Tão jovem ainda, apenas 40 anos, muito pouco para se mensurar a carreira de um poeta. Talvez seja uma temeridade fazê-lo, uma vez que muitos estréiam, publicam poemas em uma ou outra antologia, mas, porque o público escasseia ou porque perdem o ímpeto, vão fazer outra coisa. Não é o caso de JIVM, porque ele não escolheu ser poeta. Foi escolhido pelo anjo torto, talvez num sopro de vento mais forte, talvez com a primeira flor de algorobeira, quando se viu diferente dos outros. Surpreendeu-se, talvez, quando menino, algumas vezes não entendeu, por muito jovem, até que o tempo ensinou-o a decifrar alguns enigmas e ele aceitou a missão de menestrel contemporâneo.

NA BOCA DA NOITE - Desde seu livro de estréia, Códigos do Silêncio, em 2000, José Inácio não parou mais. Seria excessivo que eu escrevesse sobre a sua poesia e os livros que vieram depois, Decifração de abismos e A terceira romaria, até A infância do Centauro, porque sobre ela (e eles) já escreveram nomes honrados e prestigiados do nosso pródigo cenário literário: Astrid Cabral, Marco Lucchesi, Francisco Carvalho, Lêdo Ivo, Izacyl Guimarães Ferreira, Igor Fagundes e seu admirado Gerardo Mello Mourão, hoje em outras paragens e sobre quem versa a tese de mestrado de José Inácio. Ao lado de tais nomes, o meu apareceria apagado, por poucos saberes acadêmicos. Mas há uma face que posso destacar, que me interessa muito, e me reporta a Lucchesi quando fala em "atitude de poeta". Falo do José Inácio ativista, coisa mais rara no ofício.
Uma outra força lhe foi legada: a capacidade de inventar oportunidades. E trabalha com isso na área mais difícil das artes. É o que se chama hoje de agitador cultural, aquele que idealiza, aglutina, organiza, sai a campo e realiza.
Durante quatro anos JIVM esteve à frente do Poesia na Boca da Noite, no restaurante Grande Sertão, em Salvador. Isso significa dizer que convidou, agendou (a agenda era feita no início do ano) fez contatos, juntou material, entrevistou e divulgou uma quantidade de poetas, fazendo com que aparecessem, conhecessem seus pares e tivessem espaço para mostrar o próprio trabalho; editou, junto com Aleiton Fonseca e Carlos Ribeiro cinco números da revista Iararana, além de organizar o concurso de poesia da revista; selecionou, organizou e editou a antologia Concerto lírico a quinze vozes, capa de Almandrade, novamente abrindo espaço para os novos poetas, um belo trabalho a que dedicamos as páginas centrais do panorama, com texto que tive o prazer de assinar.
Quando vi a revista pela primeira vez, e as outras, ou quando recebi a antologia era sempre uma alegria e eu pensava: José Inácio estava ali, organizando o movimento, segurando a bandeira dos predestinados, engolindo sapos e ouvindo mais não do que sim. Mas José Inácio é mais sim do que não, e quando menos se esperava, ali estava o trabalho concluído.
Em época de Olimpíadas, não seria ele uma das nossas maiores vitórias? Algum dia daremos a necessária atenção à mens sana, ou pelo menos a igual atenção que se dá ao corpore sano?
José Inácio esteve muitas vezes nas páginas do panorama: por ocasião dos lançamentos dos seus livros, porque foi finalista do Concurso Astrid Cabral, porque realizava. Sobre ele escreveram no jornal Marcus Vinicius, Mayrant Gallo, Ronaldo Correia de Brito, Hélio Pólvora e Izacyl Guimarães Ferreira. Também esteve no Rio para a comemoração dos seis anos do panorama – uma festa da escrita que terminava para dar vez ao jornal virtual – uma pena!
No período, muitas coisas aconteceram, boas e más, como são as coisas.
Amigos que se distanciaram, outros que se aproximaram, a chegada de mais um filho, a correria da vida, de carro ou a galope, sempre a poesia pulsando.
O centauro deixa a infância. José Inácio, aos 40 anos, voa. E lê, continua lendo, recitando ou cantando, graças a uma prodigiosa memória, os poetas de sua vida. Os poetas de todas as vidas, que só existem se os poetas de hoje não deixarem de cantá-los.

DIVULGADOR DE POESIA - Eu diria que por seu temperamento, José Inácio está mais para Castro Alves do que para Jorge de Lima, mas bem que podiam ser seus os versos: "um cavalo todo feito em chamas / alastrado de insânias esbraseadas / pelas tardes sem tempo ele surgiu / e lia a mesma página que eu lia".
Por tudo isso podem comemorar todos aqueles que sabem o quanto é importante (e difícil) dar a conhecer, sem parar, a produção poética brasileira, a despeito dos que dizem que não se produz nada de novo no Brasil. A cultura é feita pela mediania, e não nos é dado decidir hoje quem será importante amanhã. É temeroso fazê-lo. Muitas promessas se tornaram cinzas e alguns nomes, aparentemente apagados, fizeram-se grandes com o tempo.
O artista é o profeta do seu tempo e só o futuro lhe fará justiça. O que é preciso, hoje, é trabalhar, e disso, José Inácio é exemplo.


Helena Ortiz é poeta, contista e editora do jornal Panorama da Palavra e da Editora da Palavra. Publicou os livros Em par (2001) e Sol sobre o dilúvio (2005), entre outros.

Resenha publicada no A Tarde Cultural, em Salvador, Bahia, em 23 de agosto de 2008

Lançamento do cd de poemas "A casa dos meus quarenta anos",
de José Inácio Vieira de Melo
LDM Livraria Multicampi, Rua Direita da Piedade, Salvador - BA
13 de setembro de 2008 (sábado), das 10 às 14 horas

JIVM - A CASA DOS MEUS QUARENTA ANOS

Ilustração: Conceição

















A CASA DOS MEUS QUARENTA ANOS

Assim é a casa dos meus quarenta anos,
assombrada e sóbria como um bacurau.

Em seus largos cômodos,
habitam uma enorme solidão
e muitas vontades de vida.

É noite e estou em meu quarto
urdindo meus infinitos à eternidade.
Eu – apenas eu – eu.

Lá fora, uma sinfonia de questionamentos:
grilos, sapos, rãs na sua intermitente litania
enlouquecem meus fantasmas.

A minha casa, às três horas da madrugada,
tem os olhos bem abertos – esbugalhados sertões –
e os seus fantasmas, somatórios do eu,
vão se arrumando do jeito que podem.

Um, no quarto ao lado,
implora para que desatem o nó da forca.
Não suporta mais as folhas da algarobeira
chorando o seu destino.

No quarto do outro lado,
outro choraminga suas dores, suas pernas quebradas,
o sangue escorrendo para o nada
(esse espectro dói demais e a sua grande
novidade é saber que vai morrer).

No quarto derradeiro,
os morcegos dormem sossegadamente
e seu mundo não é de cabeça para baixo.
No quarto derradeiro da casa dos meus quarenta anos,
os morcegos adubam o terreno e aguardam a chegada
de mais um dia, de mais um ano.

E assim, no bater das asas do galo pedrês,
o choro do recém-nascido.

E de dia a casa dos meus quarenta anos
é cheia de janelas azuis abertas para o azul.
E uma multidão de ventos vem assobiar dentro dela,
vem renovar os ares, sacudir os quadros nas paredes,
jogar meus retratos pelo chão.
Ventos dadaístas
a remexer nos meus poemas, mudar seus versos,
rearrumar suas estrofes.

E o dia vai crescendo com uma claridade medonha,
e as telhas da minha casa abrem os olhos
e olham para o alto e se benzem e dizem amém
(cada telha da casa dos meus quarenta anos
é um olho aceso espiando dentro de suas cores).

E há momentos em que tudo que é bicho se cala
e a casa mais parece um cemitério.

A casa dos meus quarenta anos é caiada de branco
e tem janelas azuis abertas para o azul.

A casa dos meus quarenta anos – cemitério de ilusões.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

PAINEL DA LITERATURA BAIANA CONTEMPORÂNEA

Na próxima sexta-feira, dia 29, estarei na cidade de Amargosa, para falar da poesia contemporânea da Bahia e para lançar meu livro A infância do Centauro (2007), a convite do professor André Galvão, meu colega de mestrado na Uefs.
Para fazer minha explanação usarei como base duas antologias: A paixão premeditada (2000), organizada por Simone Lopes Tavares e Concerto lírico a quinze vozes (2004), organizada por mim.
A primeira, apresenta 16 poetas da geração sessenta, dos quais destacarei cinco: Antonio Brasileiro, Ildásio Tavares, Maria da Conceição Paranhos, Myriam Fraga e Ruy Espinheira Filho.
A segunda, traz 15 poetas que começaram a publicar a partir de 1995, chamados por alguns de geração noventa e por outros de geração 2000, da qual também destacarei cinco nomes: Ângela Vilma, Edmar Vieira, Elizeu Moreira Paranaguá, Goulart Gomes e Kátia Borges.
Encerrarei, falando de meu livro A infância do Centauro.
JIVM

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

JOSÉ INÁCIO E A POESIA QUE CHOVE

Ronaldo Correia de Brito

Ronaldo Correia de Brito, José Inácio Vieira de Melo e Mayrant Gallo
Feira do Livro da Bahia – Salvador, 22 de agosto de 2003

José Inácio Vieira de Melo me apareceu ao lado do escritor Mayrant Gallo, numa feira de livros em Salvador. Nesse tempo, ele já havia escrito Códigos do Silêncio e Decifração de Abismos, mas revelava-se inquieto com o feitio de sua poesia. Foi o que me confessou enquanto andávamos em meio a um aguaceiro, procurando um lugar onde se abrigar.
Penso nos artistas que vivem o ofício da poesia e lembro de José Inácio. O escritor argentino Jorge Luis Borges afirma no seu Evangelho Apócrifo: A porta é a que escolhe e não o homem. José Inácio escolheu ser poeta.

Quebrar todo e qualquer cabresto,
romper a barreira da forma,
caminhar para além da palavra.

Tentando a impossível façanha de nos proteger debaixo de um único guarda-chuva, Mayrant, José Inácio e eu caminhávamos pelas ruas alagadas. As portas não se abriam, não passavam táxis, as roupas e os sapatos molhados aumentavam nosso desconforto. José Inácio falou-me da sua atração pela poesia popular e do chamado de uma outra poesia mais metafísica e moderna. Reconheci nele, em pleno século vinte e um, as mesmas contradições de vários poetas brasileiros: a mistura de um mundo arcaico com os anseios de progresso; um sentimento pastoral que se esvai e se mantém como recordação.

O chocalho, no pescoço
da vaca, anuncia:
– Eu estou aqui!

O relógio, na parede
da cozinha, adverte:
– Não escaparás!

Uma porta aberta. Entramos e sentamos. Os três não bebemos álcool, José Inácio por conta da permanente embriaguez com a poesia.

Já não quero saber do amargor do vinho,
sei que sou um bicho espalhafatoso.

– Quais são os principais elementos de sua poética? – pergunto a José Inácio, como se o entrevistasse.
Ele não me responde, mas sei que circula pelas cidades carregando o sertão em meio às roupas da mala. Que sua poesia evoca tempos remotos, enquanto celebra mundos em transformação. Que não se desfez dos instrumentos de velhos versejadores, homens comuns que faziam da poesia a sobrevivência.

Vai, poeta
com tuas facas
destrincha a carne
e nela passa o sal
e estende-a ao sol

A chuva continua caindo. É provável que eu me resfrie. Olhamos a cidade de Salvador, quase a nordeste, quase a sul, e rimos de nosso estranhamento no mundo. Onde nos situamos? José Inácio nunca sabe se mora numa fazenda de criação de gado ou se está perdido em periferias. Em qualquer latitude que se mova é o mesmo poeta com sua bagagem de pastoral e modernidade. Alguém que busca se aproximar de um imaginário de poeta, onde se misturam Jorge de Lima, João Cabral, Francisco Carvalho, Cecília Meireles, Gerardo Mello Mourão, Vinícius de Moraes, cantadores populares e profetas bíblicos. Incansável, insone e vagante, não para de cavar em busca do veio de ouro da poesia.

Os livros foram lidos e tudo já foi dito:
resta o silêncio – este corvo doido,
resta a folha de papel em branco
urubuzando minhas dores,
buscando os meus anagramas.


Ronaldo Correia de Brito nasceu em 1950, na cidade de Saboeiro, no sertão dos Inhamuns, no Ceará. Formou-se em Medicina no Recife, onde reside. Além de atuar como crítico e jornalista, escreveu em parceria com Antonio Madureira e Assis Lima as peças teatrais Baile do Menino Deus (1983), O pavão misterioso (1985), Bandeira de São João (1987) e Arlequim (1990), todas lançadas em cd pelo selo Eldorado. Pela Cosac Naify publicou os livros de contos Faca (2003) e Livro dos homens (2005).

Essa crônica é o prefácio do livro A infância do Centauro (2007), de JIVM.

domingo, 17 de agosto de 2008

CRÔNICA - A BÊNÇÃO DO PAI

Ronaldo Correia de Brito

Ilustração: Zenival

No dia em que vim embora para o Recife senti um aperto no coração, a garganta travou, e os olhos encheram-se de lágrimas. Era lei na nossa casa que os filhos homens não podiam chorar. Eu tinha razões de sobra para abrir o berreiro: vinha para uma cidade grande e desconhecida, não tinha onde morar, nem matrícula eu havia feito no colégio. Tudo incerto para um menino de 17 anos que deixava a casa paterna, o paraíso verdejante do Cariri e sua gente acolhedora. Como na canção de Torquato Neto, minha mãe e meus sete irmãos me acompanharam até a porta. Abracei-os sem dizer uma única palavra, os dentes trancados. Se pronunciasse um singelo adeus, o açude represado de lágrimas romperia. Meu pai olhava-me firme, vigilante. Com ele planejara largar a vidinha feliz, conhecer outro mundo, arriscar a sorte. Tínhamos um projeto em comum: eu me formaria em medicina, traria os irmãos mais novos para estudar no Recife e ajudaria a educá-los.
Desde o ciclo migratório da década de 50, quando as fazendas sertanejas se esvaziaram dos seus moradores, meus pais compreenderam que não existia mais futuro no campo. Largaram o plantio de algodão, os criatórios de gado, as lavouras, e tomaram para si a tarefa de iniciar os filhos numa outra realidade. No que dependesse deles, todos nós freqüentaríamos a universidade. Sábia escolha do nosso pai, um homem que aprendeu a ler sozinho, e atravessou noites acordado, brigando com os enigmas do português e da aritmética. Por algum mistério que nunca desvendei, os livros eram objetos de fetiche na família, prestando-se verdadeiro culto aos tios letrados, homens sábios e faladores.
Foi meu pai quem me acompanhou até a garagem do ônibus, pois não existia rodoviária nesse tempo. Caminhava ao meu lado, solene e silencioso. Um carregador transportava na cabeça minha parca mudança, uma mala de couro e uma caixa de papelão amarrada com cordas de barbante. A mais franciscana pobreza. Não enxergava nada à minha frente, os olhos cegos de lágrimas. Lembrava a história que minha avó contava, dos três irmãos que abandonam o lar em busca de fortuna. A todos eles o pai perguntou na hora da despedida: – Você prefere muito dinheiro e minha maldição ou pouco dinheiro e minha bênção? Apenas o mais novo escolheu a bênção e pouco dinheiro, alcançando sucesso.
Eu não podia despedir-me do meu pai sem balbuciar o adeus, e sem pedir a bênção. Precisava ouvir de seus lábios a fórmula protetora do “Deus te abençoe”. Atravessava a cidade a pé, com a sensação de que me empurravam para o desterro. Nunca um trajeto me pareceu tão longo. Chegamos, o carregador instalou as bagagens no ônibus, recebeu o pagamento e deixou-nos sozinhos com meia hora de espera e constrangimento. Foi uma eternidade. Meu pai apertou minha mão, o máximo de afeto permitido entre nós, não me olhou, de modo que nunca soube o que sentiu naquela tarde. Na família, não existiam trocas de afagos e confidências, apesar dos fortes vínculos que nos uniam. Apertei a mão dele, e consegui pedir a bênção sem chorar. Ele me abençoou e parti sozinho. Sozinho, eu chorei horas seguidas e tive a primeira de muitas consciências, uma delas a de que era senhor do meu pranto.
As velhas fórmulas caíram em desuso, já não se pede a bênção a ninguém. Ah!, o poder mágico dessa invocação. Todas as noites, antes de dormir, escutava os irmãos gritarem dos seus quartos, para o quarto dos pais: “A bênção!”. Só calavam depois que ouviam o “Deus te abençoe”. As três palavras pareciam com o pano que nossa mãe estendia sobre as redes, nos protegendo dos respingos das chuvas, na casa de telhado alto. A fórmula não se referia ao Deus de nenhuma instituição religiosa, era apenas uma graça pacificadora, um sonífero sem droga. Todos te aplacavam ao ouvir um “Deus te abençoe”.
Chegaram os dias em que desprezei os costumes da família, virei o rosto para os velhos que cobravam o pedido de bênção, senti nojo das mãos descarnadas das tias, estendidas para que eu as beijasse. Morreu a geração de bisavós, depois caíram os avós, e já começaram as baixas nos tios paternos. Quando não restarem mais vivos na fileira dos pais, assumirei a linha de frente. Ninguém mais protegerá a minha retaguarda. Todos estarão depois de mim, ninguém mais antes de mim para abençoar-me. Agora, sou eu a abençoar.
Por esses dias, meu filho mais novo viajou para estudar na Inglaterra. Achei que a minha história se repetia em condições diferentes e por uma estrada bem mais comprida. Conversei com ele sobre seus projetos para o futuro. Ajudei-o a comprar as passagens, o curso, o seguro-saúde, a arrumar a mala. Levei-o ao aeroporto na companhia festiva dos amigos, da namorada, e de dos irmãos. Eu e minha mulher éramos as únicas pessoas graves na comitiva.
Meu filho transpôs o portão de embarque, tudo estava certo, não faltava mais nada. De repente, ele voltou até junto de mim, me estendeu a mão e pediu: “A bênção, pai!” Pronunciei o “Deus te abençoe” e a ordem do mundo se refez, uma ordem em que se recompõem os elos com o passado, sem nenhuma culpa pelas formas que o presente assume. Não sei o que meu filho sentia, nem em que pensava quando me pediu a bênção. Talvez tenha lembrado a história dos três irmãos, a que minha avó me contava, e contei para ele. Todas as experiências do homem são de algum modo análogas, está escrito no Eclesiastes, o livro em que aprendi a ler, ajudado por meu pai.


Ronaldo Correia de Brito nasceu em 1950, no Ceará. Formou-se em Medicina no Recife, onde reside. Além de atuar como crítico e jornalista, é autor de várias peças de teatro, inspiradas no teatro popular nordestino. Pela Cosac Naify publicou a história infanto-juvenil O pavão misteryozo (2004) e os livros de contos Faca (2003) e Livro dos homens (2005).

Crônica publicada na revista Continente Multicultural nº66, em junho de 2006, em Recife, Pernambuco.

domingo, 10 de agosto de 2008

JIVM - BÊNÇÃO


B Ê N Ç Ã O

Para Aloísio Vieira de Melo


Meu pai,
beijo suas mãos,
não como um homem
pretende beijar as de Deus,
mas como uma árvore
beija suas raízes.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

sábado, 2 de agosto de 2008

VERÔNICA DE VATE: RITA SANTANA

RITA Verônica Franco de SANTANA, nasceu em 22 agosto de 1969, na cidade de Ilhéus, na Bahia.
A ESCRITORA: Publicou seus contos no Diário da Tarde, de Ilhéus e no suplemento cultural do jornal A Tarde, de Salvador, no período em que era editado pelo poeta Florisvaldo Mattos; foi uma das coordenadoras do projeto Universidade em Verso, na UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz). Em 2004 publicou o livro de contos Tramela através da Fundação Casa de Jorge Amado, com o prêmio Braskem de Cultura e Arte Literatura – 2004, para autores inéditos. Em 2005 participa da antologia Mão Cheia. Em 2006 publica o livro de poesia Tratado das Veias, através de seleção feita pelo selo As Letras da Bahia, Fundação Cultural do Estado da Bahia. Em 2005 participa da Bienal do Livro da Bahia no projeto Porto da Poesia, organizado pelos editores da revista Iararana. Em 2007, participa da Bienal do Livro da Bahia no Café Literário.
A ATRIZ: Atuou em algumas peças infantis, com destaque para PLUFT, O FANTASMINHA, de Maria Clara Machado, com direção de Pedro Mattos (Ilhéus - 1987/89), interpretando a Mãe de Pluft. Participou de recitais de poesia e feiras culturais no interior da Bahia, explorando o teatro de rua, ao ser uma das fundadoras do grupo “Caras e Máscaras” (Ilhéus - 1990/95). Integrou o elenco de DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS, adaptação do romance homônimo de Jorge Amado, com direção de Fernando Guerreiro (Ilhéus/Salvador - 1992), interpretando Dionísia de Oxóssi. Integrou o elenco da primeira fase da novela RENASCER, produzida pela Rede Globo de Televisão (1993), interpretando a personagem “Flor”. Pequena participação no filme TIETA DO AGRESTE, de Cacá Diegues (1995), interpretando a personagem Tonha (jovem). Integrou o elenco de ERA UMA VEZ UMA MATA, espetáculo infantil de Rita Brito, com direção de Jorge Borges (1998), vivendo a Caipora. Integrou o elenco da montagem FAUSTO ZERO, clássico de Goethe, no Teatro Vila Velha, com direção de Marcio Meirelles (1999), representando Margarida, a amada de Fausto. Integrou o elenco do curta PIXAIM, sob a direção de Fernando Belens (2000), interpretando Adalice. Participou do longa ESSES MOÇOS (2002), dirigido por José Araripe, interpretando Marli. Participou do longa EU ME LEMBRO (2002), dirigido por Edgard Navarro, onde interpretou Lene. Integrou o elenco do episódio “O VESTIDO DE OTÁLIA”, produzido pela TV Globo e dirigido por Sérgio Machado, interpretando a mulher de Cravo na Lapela, em 2002. Em 2006 atuou no filme “JARDIM DAS FOLHAS SAGRADAS” de Póla Ribeiro.


AI DE MIM!


Deu de abrir comissuras na minha pele,
Porque ele partiu.
E nunca mais voltou pra minha alcova,
Pro meu convento de moça,
Pra minhas paúras,
Pra minhas pioras de noiva,
Pros meus pincéis de Almodóvar,
Pra minha cova roxa.
Eu fico esperando volta.
Ai de nós, mulheres feias!
Ai de nós, mulheres tortas!

Deu de abrir fissuras na minha boca,
Porque ele partiu.
E eu fiquei oca,
Fiquei seca,
Virei louça,
Vivi morta.
Ai de nós, mulheres feias!
Ai de nós, mulheres tortas!

Deu de abrir fendas no amor,
Porque ele partiu,
E nunca mais voltou.
Eu sucumbi ao sol:
Comi calêndulas,
Girassóis feridos,
Flores de abóboras,
Serpentes de vidro.
Abri a porta e gritei:
Ai de nós, mulheres feias!
Ai de nós, mulheres tortas!


RITA SANTANA

RITA SANTANA - AZUL


AZUL


Sou de uma tristeza surda, funda.
Ando cansada das pernas,
Pois o meu amor brincou de picula,
E o sonho gargalhou migalhas nas toalhas de rosto,
Nas marcas pintadas do meu rosto,
Nas tralhas velhas da minha fotografia.

Ando azul porque não me reconheço gente.
Sou o próprio azul, simples, etéreo, incorpóreo,
Dos maios, dos setembros foscos de tanto sol,
De tanta ardência, dos poetas mais plácidos.
Azul dos palácios encantados, azul das moscas azuis,
Das estrias recobertas por cremes de milagres,
Azul da minha saudade-não-sei, de tanta coisa ida.
Tantas promessas me prometi,
Foram tantos os protestos advérbios,
Tantos esticamentos de veias,
Numa garganta de cobre fundido em ouro dos mais puros.

Estou em apuros porque sobrevivi até mais tarde,
Mas carrego mortes que desconheço porque sou pobre:
Deixei de estudar filosofia,
Deixei de fazer poesia,
Deixei de ir ao encontro do sol.
Perdi a maria-fumaça da minha infância,
Pra uma indústria de cacau.
Perdi os leões de mármore da minha infância,
Pras chácaras dos coronéis.
Perdi minha alegria
Pra essa incompetência diante da vida.

Não sei tratar dos amigos.
Sei tratar alguns peixes, mas dos homens não sei.
Suas escamas crespas,
Vísceras rubras demais pra minha paciência dilatada.
São flamas demais entre nós, os amigos.
Perdi e encontrei terezas, jorges, tonhos, miguéis, primos,
Aluguéis, janelas, gudes, bordados, assovios, cartas de amor,
Fraudes descartáveis, autorias duvidosas, alarmes, amores...

Perdi também palavras raras, livros,
Sonetos, versos de adolescer,
Pus, espúrios párias, pipas, chances,
Galhos secos ofertados à ilusão,
Sangue, suores, caldos de gozos raros,
Disparos de olhares que não vi,
Envelopes, vozes, madrinha, ruas, pessoas,
Esperanças, alianças, presentes,
Crianças, avós - todos os avós já perdidos - analices e luzias.
Faço qualquer coisa pra resolver
A inapetência diante da praticidade dos futurosos,
Dos que já deram certo, dos corretos, dos sem dores,
Dos bem-sucedidos, dos resolvidos, simplórios,
Dos que têm dor de dente
Mas não sabem o que é dor de alma.

Pois tenho urgência é de alegria, mansidão.
Sou um azul, azulzinho escuro, claro,
Azul céu, azul serpente, azul maçã,
Azul molho-de-tomate-elefante,
Azul clarinho, quase branco, azul amianto, azul-ami,
Azul trinta, azul balzaquiana louca, azul mulher, azul negra,
Azul esquisita, azul Rita, azul Dione, azul sul-da-Bahia,
Azul alegria, azul saudade,
Azul idade de envelhecer vez por todas,
Azul sem roupa, azul peruca, azucrinada, que nada!
Azul Ferreira Gullar, azul minha boceta cor-de-rosa,
Azul cerveja, azulilás, aliás, azul pirraça.


RITA SANTANA

OS VEIOS POÉTICOS DA MULHER DE HOJE

José Inácio Vieira de Melo

Dois anos depois da publicação de seu primeiro livro de contos, Tramela, um dos vencedores do Prêmio Braskem de Cultura e Arte – Literatura – 2004, para autores inéditos, da Fundação Casa de Jorge Amado, chegou o momento de Rita Santana estrear na poesia com Tratado das Veias, uma publicação do Selo Editorial Letras da Bahia.
O livro, que vem referendado por Hélio Pólvora e por Aninha Franco, é composto de setenta poemas, nos quais Rita exterioriza o seu potencial lírico. Mas o lirismo de Rita Santana nada tem de doce, ameno, nada tem de contenção. A poeta imprime em seus versos uma força transbordante, um intenso jorrar de sensações, e é erótica e é política e é debochada.
Em um dos poemas iniciais, “Abandono”, Rita dá o tom que perpassa todo o livro. Faz um inventário dos cacarecos de sua caminhada, como quem faz uma revisão da vida, uma limpeza. Essa atitude de desprendimento, esse ajuste de contas, proporciona uma catarse, uma abertura para o novo, para o que vier: “Deixo aqui minhas vontades. (...)/ Precipito-me em deixar-me aqui também,/ e seguir sem mim, pois que fico. (...)/ Deixo-me vestida de ausência.”
Mais adiante, no poema “Azul”, Rita começa tratando peixes, à maneira de Adélia Prado, e termina fazendo uma embolada com Ferreira Gullar. E em tom de sarcasmo, o céu azul maranhense da infância do poeta vai emprestar sua cor para a “boceta cor-de-rosa” do eu-lírico da musa grapiúna. E a poeta abre o baú, e mais uma vez se expõe, ao enfileirar seus encontros e desencontros: “Perdi e encontrei terezas, jorges, tonhos, miguéis, primos,/ Aluguéis, janelas, gudes, bordados, assovios, cartas de amor,/ Fraudes descartáveis, autorias duvidosas, alarmes, amores...”
O veio erótico de Rita predomina no seu tratado, mas no bojo do erotismo ressoa um desejo de reconhecimento de seus prazeres. Uma poesia que grita – berra mesmo – a emancipação dos pudores, seja na ladainha “Ai de mim!” (“Abri a porta e gritei:/ Ai de nós, mulheres feias!/ Ai de nós, mulheres tortas!”) ou mesmo em “Bênção” (“Sou mulher de agora, de hoje,/ Tenho hábito de galo e caprichos de galinha.”).
Em Tratado das Veias encontramos uma jovem poeta delirante, que homenageia, ao decorrer dos poemas, as influências que lhe são caras. Então, Hilda Hilst, Orides Fontela, Cora Coralina e Adélia Prado pairam nos ares poéticos de Rita Santana. Outra voz que se assemelha à de Rita é a de Elisa Lucinda. Nas duas poetas, é perceptível a entonação teatral, a disposição para a oralidade de seus versos. Essa característica, muito provavelmente, se dá pelo fato de ambas serem atrizes.
Quanto ao aspecto formal, a própria autora é quem esclarece o seu “Mosaico” poético: “Sou uma fulana doida,/ de palavras grossas e versos malacabados.” E mais, em “Brechó”: “Rasgo-me em palavras, xingamentos, palavrórios, orações,/ Abuso do vocabulário:”. Ou, ainda, em “Violino”: “Sou dos excessos!”. Essa estranha poética confere a Rita Santana um largo espaço para a criação – palco de muitas possibilidades e de muitos riscos, que podem trazer algo de novo. E o novo é quase sempre estranho.
Com Tratado das Veias, Rita Santana passa a fazer parte do mais novo time de poetas baianas, poetas que publicaram seus livros de estréia, tiveram boa acolhida entre seus pares e deixaram uma grande expectativa em relação às suas obras vindouras. Dentre elas, estão Kátia Borges, com De volta à caixa de abelhas (2002), e Fabrícia Miranda, com Ritos de espelho (2002).
Em Reflexões sobre poesia e ética, o poeta grego Konstantinos Kaváfis, fala sobre o receio que alguns escritores têm em abordar determinados assuntos “porque temem ofender os preconceitos”. Rita Santana não tem medo dos preconceitos, é uma poeta de voz firme e traço pungente, está armada de verbos que rondam seu chão como estrelas. Seu compromisso é consigo, com as coisas em que acredita e com a arte. Rita Santana é constante em sua busca, por isso cativa a todos aqueles que insistem em perseguir acreditando em um sonho: “Quando chega a primavera, eu viro chuva/ e saio a te buscar por toda a terra”.


Resenha publicada no jornal A Tarde Cultural, em Salvador-BA, em 11 de novembro de 2006

sábado, 19 de julho de 2008

VERÔNICA DE VATE: IGOR FAGUNDES

IGOR FAGUNDES, carioca, 26 anos, é poeta, jornalista, ator, ensaísta, Mestre em Poética pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor de Teoria Literária na mesma universidade. Autor dos livros de poemas por uma gênese do horizonte (2006, vencedor IV Prêmio Literário Livraria Asabeça), Sete mil tijolos e uma parede inacabada (2004) e Transversais (2000, 1º lugar no I Concurso Literário Estudantes do Brasil), bem como do livro de ensaios (no prelo) Os poetas estão vivos - pensamento poético e poesia brasileira no século XXI (Prêmio Literário Cidade de Manaus 2007). É co-autor da coletânea de artigos Quem conta um conto: estudos sobre escritoras contistas estreantes nas décadas de 90 e 2000 e integra a coleção Roteiro da Poesia Brasileira - Poetas da década de 2000. Atualmente, é colaborador do Jornal Literário Rascunho e nas publicações da Academia Brasileira de Letras (ABL).


chamado


como se já te conhecesse, espero-te:
mãos abertas, juntas, a equilibrar
o mar outrora preso na linha da vida
e que agora sobre as palmas se apóia.

como se não te conhecesse, aviso-te:
nele singra este homem com olhos de céu
refletido no corpo-água que a ti oferta
o sal da pele antes muralha.

como se te escrevesse, enfim, em versos
navego-te no ardor de uma palavra
em mar que ontem pensei ser meu apenas
e hoje te inunda para ser a nossa lavra.


Igor Fagundes

IGOR FAGUNDES - POR UMA GÊNESE DO HORIZONTE



por uma gênese do horizonte


hoje quero amanhecer com os afogados
implorar que voltem a caminhar comigo
penteá-los como se evocasse filhos
abraçá-los como quem pede um chamado

hoje à tarde vou morrer com os afogados
engolir a água que invadiu suas sebes
me arder no sal que arranhou suas malhas
e arranhar as minhas com o que partiu suas pedras

hoje à noite vou salvar-me entre afogados
ler em seus olhos alguma paz em riste
embora nas pupilas ouça ainda
uma voz rouca para sempre dilatada

amanhã estaremos todos acordados
em mar profundo poderemos ser crustáceos
cavaremos até chegar ao mais escuro
ninho de pérolas e tudo será claro

para amanhã iluminar outro afogado
que na voragem de salvar-nos será salvo
e se unirá ao nosso fio interminável
de corpos sob o pôr/nascer do sol

e amanhã saberemos de que é feita
esta linha vista ao longe:
de um pouco de mágoa e muito de água
lavando por dentro o peito dos mortos


Igor Fagundes

A SAGRAÇÃO DO CAOS

Igor Fagundes


No oracular A infância do centauro, poemário do alagoano-baiano José Inácio Vieira de Melo, um certo Delfos nascido em Olho d'água do Pai Mané adivinha-me no único verso de Quarto da bagunça: "Eu não sei nem por onde começar". Porque todo começo (cosmo) parte sempre de uma "bagunça" (caos) e a ela retorna na intermitência poética da vida, não-saber é o próprio iniciar caótico do verbo que não sabe "ser quase" e jamais se sacia, jamais nos sacia, sedentos incuráveis que somos. Não obstante, as algaravias deste livro-quarto-das-balbúrdias consistem, ao revés, no "registro da fala do silêncio" e levam-me, desde já, ao fracasso de dizê-lo e "dizê-las por inteiro". Afinal, ninguém consegue falar ou escrever sobre o silêncio, uma vez que só é possível falar ou escrever violando-o. Por isso não se sabe nunca, em poesia, "por onde começar": começa-se. E recomeça-se a cada vez, sem chance alguma de chegança. O ansiado "onde" é justamente este "não sei" a partir do qual emerge e imerge todo - poético - saber; todo sabor que intenta saturar-se de palavras quando "um silêncio de lá, de longe - das plagas interiores" as "abrasa" e "as queima antes de serem".
À semelhança de um "escarlate" que viaja "por todo o Cosmo em busca de uma resposta" e transita "em todas as partes que estão além das partes todas", adentro este quarto da bagunça "como quem entra num bar" e "sai bêbado caindo pela falta de chão". Confessar que "em minha mão pulsa o nó do espanto" é reconhecer, na desordem, o que nela se verte em seu próprio elogio: os minuciosos "segredos da poeira" a "andar para cima e para baixo"; o desejo de "beijar minha sombra", de assumir "todas as formas" para "amanhã ser informe" e especular que "somente os olhos dizem/ o que as palavras sonham" no instante em que o poeta, o leitor, um poeta-leitor se reconhece (ou se desconhece) perdido entre papéis misturados, canetas sem tinta, bilhetes rasgados, gavetas e armários abertos, vestes sem cabides, sapatos sem cadarços, cigarros sem cinzeiros, janelas emperradas, chaves sem baús, cofres violados e outros órfãos de senhas. Vem "do caos primordial" a poesia e, em Vieira de Melo, tal mitofania se faz tema ao percorrer "as searas da escuridão" e ver "o mundo pelos olhos da esfinge". Não lhe cabe decifrar - arrumar o "quarto" - e, sim, perpetuar-se "enigma", "um lugar/ onde os nossos mistérios possam descansar". Onde possamos transgredir o que outrora afirmamos, já que nem os olhos são capazes de dizer o sonhado pelos nomes. Silenciosas, as retinas talvez só gritem o que nelas se impronuncia: nunca acham o que procuram e o que nos procura se diz tão-somente em oráculo sob vendas: "Eu só acredito nas coisas que não vejo".
Esta, a crença da flecha erguida pelo centauro: ver o invisível, tanger o intangível, na certeza de que o azul do céu se tinge do fato de que ele não é céu nem azul; de que, indiscernível das patas, jamais segue longe, acima, mas como o imanente incolor que doa todas as possibilidades de cor e as converge na aquarela alquímica da vida: "vento, fogo, terra e água/ tudo uma coisa só". Com um quê de Empédocles e outro de Moisés, a página de José Inácio Vieira de Melo prossegue qual um Mar Vermelho em pleno Egeu, e por onde também deságuam os rios áridos ou a seca lacrimosa de um nordestino - humano - sertão.
A infância do centauro não se anuncia na condição de etapa existencial ora ultrapassada. Na medida em que não cessamos de aprender a falar, a pensar, a descobrir, amanhecemos, a cada amanhã, infantes na "sagração dos mitos". Bíblicos ou pré-socráticos em Vieira de Melo, ou nem isso, para além disso, pós-inácios, posto que "não medem o tempo" e se apossam, como "herança" e "testamento", do "buraco, o vazio" exímio no "meio do caminho" de nosso presente. E é buscando, de dentro desse abismo, aquilo que será, paradoxalmente, sua ponte, que os desígnios de um Delfos Vieira de Melo fazem-nos sentir tamanha saudade dos lugares em que nunca (mas sempre) estivemos.


Resenha publicada no jornal Rascunho, em julho de 2008, na cidade de Curitiba, Paraná.

Igor Fagundes é poeta, jornalista, ator e dramaturgo. Mestre em Poética pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), publicou os livros Transversais (2000), Sete mil tijolos e uma parde inacabada (2004) e Por uma gênese do horizonte (2006).

JIVM - QUARTO DA BAGUNÇA


sábado, 12 de julho de 2008

VERÔNICA DE VATE: AFFONSO MANTA

O POETA ENCANTADO
Por José Inácio Vieira de Melo

AFFONSO MANTA Alves Dias nasceu em Salvador, Bahia, a 23 de agosto de 1939. Faleceu em 3 de dezembro de 2003 em Poções, Bahia. Com três meses de idade, passou a residir em Iguaí, onde permaneceu até janeiro de 1950, quando a família se transferiu para Poções, cidade do Sudoeste Baiano.
De volta a Salvador, o poeta freqüentou o curso de Ciências Sociais na Universidade Federal da Bahia (UFBA), mas acabou por abandoná-lo. Trabalhou, em seguida, como guia do Museu de Arte Sacra e repórter do Diário de Notícias. Trabalhou na Diretoria Regional da Guanabara como inspetor da Seção de Reclamações da Empresa de Correios e Telégrafos, no Rio de Janeiro. Enfermo, retornou a Poções, onde voltou a viver desde novembro de 1974, aposentado da ECT.
Por parte de pai, o poeta é primo em quarto grau de Castro Alves, devido à sua descendência, por linha direta, de João José Alves, o alferes, irmão do médico Antonio José Alves, pai do Poeta dos Escravos.
Publicou os seguintes livros de poemas: A Cidade Mística (1971), O Colibri, a Cidade Mística e outros Poemas (1980), O Retrato de um Poeta (1983), No Meio da Estrada (1991) Canção da Rua da Poeira e outros Poemas (1994), e O Falso Crente, A Princesa Nua, O Pássaro e o Poeta e O Estranho na Terra (1995). Participou das antologias A Poesia Baiana no Século XX (org. Assis Brasil, 1999), A Paixão Premeditada (org. Simone Lopes Pontes Tavares, 2000) e Sete Cantares de Amigos (org. Miguel Antônio Carneiro, 2003).
Integrante da Geração Sessenta, Affonso Manta tinha sua poesia marcada pelo lirismo e pela construção de uma realidade particular, na qual assumia a postura de um rei andarilho, que desfilava pelas ruas e praças “Adornado de estrelas e de luas (...)/ à procura da forma da beleza”. Pois era “O campeão da originalidade/ o peregrino astral”.
A poeta e ensaísta Maria da Conceição Paranhos, na apresentação da antologia Sete Cantares de Amigos, atenta para as múltiplas vozes do poeta: “Seu banquete – assim podemos denominar seu modo de apropriação da realidade – é servido por outros eus que dele desabrocham e vão guiando seu passo célere, a desvendar essências” e conclui “apenas um eu não o poderia”. Assim, em um mesmo ser, habitam o louco: “Enlouqueci, um girassol nasceu em minha boca.”; o rei: “Aqui, o Rei Affonso, o Derradeiro”; o menino: “Eu sou feliz porque já sou menino”; o anjo: “Anjo de luz do sacrossanto empíreo” e o andarilho: “Vou sair por aí de cambulhada”.
Outra face da poesia de Manta é a refinada ironia. Simone Lopes Pontes Tavares, em A Paixão premeditada, afirma que nos poemas de Manta “O debique é constante, inclusive do eu poético, numa linguagem cinematográfica a transformar o cidadão comum em clown, misto de Quixote e Chaplin”, como se pode perceber no poema “Lá vai Affonso Manta”: “(...) lá vai Affonso Manta (...)/ Coroa de alumínio sobre o crânio,/ Lapelas enfeitadas de gerânio/ E flechas no carcás”.
Deste poeta lírico da “Terra das Cacimbas”, que nas palavras do poeta Ruy Espinheira Filho, seu amigo, foi um encantado a vida inteira, ficam a beleza de seus versos, a leveza de sua técnica e, sobretudo, a lição da simplicidade com que encarava a vida, como no poema “As Luzes do Amanhã”, em que nos ensina: “Fazer da brisa um traje sem medida/ E do arco-íris fazer um tobogã./ Amar as mínimas coisas da vida/ E ter no olhar as luzes do amanhã.”


LÁ VAI AFFONSO MANTA


Com estrelas na testa de rapaz,
Com uma sede enorme na garganta,
Lá vai, lá vai, lá vai Affonso Manta
Pela rua lilás.

Coroa de alumínio sobre o crânio,
Lapelas enfeitadas de gerânios
E flechas no carcaz.

Manto florido de madapolão,
Bengala marchetada de latão,
Desfila o marechal,

O rei da extravagância, o sem maldade,
O campeão da originalidade,
O peregrino astral.


AFFONSO MANTA


Texto publicado na revista Iararana n°9, em Salvador, em agosto de 2004.

AFFONSO MANTA, O POETA ENCANTADO

ENCONTRO COM O POETA

Conheci a poesia de Affonso Manta por intermédio do poeta Ruy Espinheira Filho, quando fui seu aluno em uma disciplina do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia. Fiquei fascinado pelo lirismo do autor de “O louco”. Pedi a Ruy o seu endereço e falei que, em breve, faria uma visita ao poeta da Terra das Cacimbas.

***

Chegamos a Poções, às 10 horas da manhã, era um dia luminoso de novembro de 2002. Estavam comigo o poeta Edmar Vieira e os amigos Flávio Vieira e Jaider Saraiva, companheiros da cidade de Maracás. Fomos à Rua Coronel Maneca Moreira, 154, na Praça da Velha Matriz, e lá estava o poeta, em frente à casa, a nossa espera. Altivo, convidou-nos para adentrarmos em seu lar e saiu mostrando todos os cômodos da ampla casa até chegar ao quintal, onde havia alguns pés de goiaba, manga e carambola. De volta à sala, pegou o livro da poesia completa de Manuel Bandeira e falou: “Este é o maior poeta brasileiro. Estou sempre relendo sua poesia”. Edmar pediu para que recitasse o poema “Lá vai Affonso Manta”, o que fez de bom grado.
Feitas as apresentações iniciais, fomos para o Bar do Beto, na Praça Principal, lugar onde Affonso Passava boa parte de seu tempo, conversando com os amigos, entre um cafezinho e um cigarro. Informou-nos de que o poeta Elder Oliveira, que mora em Vitória da Conquista, estava em Poções, então fomos à sua procura. Elder, além de bom poeta é cantador de categoria. Daí pra frente foi só música e poesia. A alegria estava presente, podia-se perceber a felicidade estampada na face do velho bardo de Poções. Despedimo-nos na boca da noite, por volta das 18 horas. Felizes pelo encontro, pelo dia de encantamento que a poesia havia nos proporcionado.

***
Um ano depois, novembro de 2003, recebo e-mail de Ruy informando-me de que Affonso estava internado no Hospital das Clínicas, e que a situação inspirava cuidados. No dia seguinte fui visitá-lo. A principio fiquei chocado com o estado do amigo, estava muito magro, vomitava constantemente, mas apesar de tudo mantinha o brilho no olhar e, ao me ver, fez um sorriso e exclamou: “Zé Inácio, que bom vê-lo. Como vê, estou comendo o pão que o diabo amassou!”
Passei a visitá-lo quase todos os dias, levava sempre algum amigo. Depois, surgiu a oportunidade de convidá-lo para participar da antologia Sete Cantares de Amigos, organizada pelo poeta Miguel Antônio Carneiro, de cuja seleção de poemas fiquei encarregado. Mostrei para Manta seus poemas que havia escolhido para a antologia, dentre eles constava o poema “Anjo de Fogo”. Pediu-me que mudasse o título desse poema para “Anjo de Luz”. Observei que se mudasse o título teria que mudar um dos versos iniciais que era: “Anjo de fogo do celeste empíreo”, para “Anjo de luz do celeste empíreo”, e aí o verso ficaria quebrado. Affonso, então, fechou os olhos e disse: coloque aí: “Anjo de luz do sacrossanto empíreo”. O problema está resolvido”. Perguntei qual era o motivo da mudança, ao que ele respondeu: “Eu estou morrendo. Fogo é coisa do Inferno e Luz é coisa do Céu.” Não questionei mais nada, apenas fiz a mudança. Poucos dias depois, 03 de dezembro, o poeta viria a falecer. No dia 11 de dezembro aconteceu o lançamento da antologia Sete Cantares de Amigos, ocasião em que Affonso foi homenageado com jogral de seus poemas, dirigido por mim, e depoimentos de Maria da Conceição Paranhos e Ruy Espinheira Filho.

***
Em uma das cartas que me enviou, datada de 18 de dezembro de 2002, ele diz:
"O Livro de Celeste, meu mais recente trabalho, empacou por inteiro. Tem me faltado inspiração para continuá-lo. É pena. Do que já está escrito há coisas engraçadas como este poemeto:

A PISCIANA

Celeste é meio indócil, mas serena.
De gênio calmo. Mas de amor fogoso.
Ela me dá felicidade plena
E surra de cipó de fedegoso.

É o que me consola, a poesia. Povoa minha solidão e estabelece um elo com os meus semelhantes, eu que sou meio caladão.”

***

Que alegria a minha. Poder ter tido a amizade e a atenção de poeta tão singular, de um homem que vivia em estado de poesia e que, com seus versos, deixava e ainda deixa a todos nós encantados. Está mais do que na hora de sua obra ser reeditada. Não é nenhum favor que vai se prestar ao poeta, ao contrário, é um beneficio que se fará às letras da Bahia e do Brasil, enriquecendo-as, ampliando o seu lirismo.


José Inácio Vieira de Melo



ANJO DE LUZ



E como um ser de forte claridade,
Anjo de luz do sacrossanto empíreo,
Eu sentia nas asas do delírio
A dimensão da grande liberdade.

Passava nos lugares rotineiros
Colhendo todo mundo em meu abraço,
Confundindo noções de tempo e espaço,
Embaralhando fatos verdadeiros.

Ia nos quatro pontos cardeais.
Andava sobre a linha do equador.
Via o céu de manhã mudar de cor.
Percorria os espaços siderais.

Ia mais longe do que qualquer nave.
Voava mais depressa do que a luz.
Entendia as palavras de Jesus
Como uma criancinha entende uma ave.

Achincalhava todas as mentiras.
Todos os fariseus desmascarava.
Os ídolos do hipócrita quebrava.
A roupa do impostor deixava em tiras.

E como um ser de etérea realeza,
Adornado de estrelas e de luas,
Saía a percorrer todas as ruas
À procura da forma da beleza.

E encerrava meu curso luminoso
Num lugar pelos homens habitado,
Onde era pelos guardas algemado
E preso como um louco furioso.


AFFONSO MANTA


Texto publicado na revista Iararana n°9, em Salvador, em agosto de 2004.