segunda-feira, 23 de junho de 2008

A JUVENTUDE DO CENTAURO

Izacyl Guimarães Ferreira

Fazedor do próprio caminho, José Inácio Vieira de Melo
é também um dialogador nato e cultivado

O nome do livro é A infância do centauro, do jovem ainda (pois não está na faixa dos quarenta, que se costuma chamar de “meia idade”) poeta José Inácio Vieira de Melo.
Um livro que tem na contra-capa as palavras de Gerardo Mello Mourão e nas orelhas saudações de nomes como Lêdo Ivo e Ruy Espinheira Filho, entre outros ilustres leitores escritores (essa raça perigosa dos que estão em ambos os lados dos espelhos), não requer mais recomendações, que todas serão supérfluas.
E veja-se ainda a lista de sua fortuna crítica, com dezenas de entradas, entre as quais me descubro entre celebridades.
Centauro. Homem e cavalo. Figura mítica. Mas o poeta, que é do sertão, cavalga o animal com a segurança de quem pisa a terra do sertão em que nasceu e olha o céu da Bahia onde vive, céu em que as estrelas parecem brilhar mais, não fosse ela terra de santos de dois mares, poetas de mil vozes, todos aqueles cheiros de bem comer, bem dançar, bem lutar, bem viver.
Com tudo isso dialoga este poeta, um dialogador nato e cultivado, leitor atento dos mestres e fazedor de seu próprio caminho.
Algo que muito me agrada em seus poemas é que neles nada se esconde. A realidade que vê e vive está inteira, sem máscaras além das permitidas pela poesia, esta realidade superior dada a tão poucos. Além do real que se vê nos seus versos, está a clareza de água limpa de quem tem o que dizer e sabe como dizer.
Dou exemplos:
O primeiro, abre o livro neste quarteto e diz:

Teu centauro te espera,
monta em seu dorso
e vê o mundo pelos olhos da esfinge:
és o enigma, não o decifrador.

Eis, de pronto, o clima criado para a fruição do mistério maior da poesia. O poema termina assim:

Há de existir um lugar
onde os teus mistérios possam descansar.

Adiante nos dirá, confessando por todos nós:

não há deus que me comunique por inteiro.

ILUMINAÇÃO – Mas, dizia eu, este poeta está pisando um chão real e fala a língua geral dos homens, poetas ou leitores, cantadores de feira (que conhece bem...) e sua audiência, e nos comove com esta quase trova doméstica (que, me perdoem, me ecoa de longe eu ter dito em similar celebração “dona de si” num poema de título “Dona Sylvia”):

Dona-de-casa

Os sentimentos areados,
o cristal dos olhos polidos,
o terreiro tão bem varrido.
Minha mãe – senhora de si.

Continuando neste ver e dizer:

Morder o infinito
e sentir o gosto da criação.

// Não sei ser quase.

Acima falei de diálogos. Nem sempre dialogar é raciocinar, i.e. trocar idéias. Pode ser, e por certo será mais diálogo, quando transcende a razão e penetra na área da iluminação, como neste poema para Cecília Meireles

Cecília não é nome para se colocar em filha.
Cecília é única. Uma deusa que conheço.
..................................................................
Cecília é um templo dentro do poeta que sou.

Outra qualidade deste poeta do real da vida e da magia da palavra é, forte, a mescla destas duas faces da existência: o dia-a-dia, que sabe celebrar com naturalidade e ternura, e a noturnidade que nos cerca, aquela esfinge pronta a devorar os famintos de verdades ocultas. Entre o dia claro do real e a noite nem sempre estrelada de destinos, por onde andamos todos, José Inácio não parece perder-se além do suportável – mistério de bicho homem/centauro? – e em romaria, palavra de seu primeiro livro e peregrinação de sua poesia, celebra. Celebrar é o que nos cabe, já ensinava Rilke, poeta de ombros que anjos, Orfeu e mulheres souberam tocar, que um deus (qual?) soube tocar.
Fico a pensar, diante de uma poesia tão segura de si, se esta é a infância ou a juventude do centauro, como cavalgará o poeta décadas adiante?


Artigo publicado no A Tarde Cultural, em 14 de julho de 2007, em Salvador, Bahia. Fotógrafo: Ricardo Prado

Izacyl Guimarães Ferreira escreve, traduz e comenta poesia. Edita a revista “O Escritor” e o portal
www.ube.org.br, da União Brasileira de Escritores, em São Paulo, entidade da qual é Presidente do Conselho. Tem 15 livros publicados, entre eles "Discurso urbano" (2007), vencedor do Prêmio de Literatura 2008 da Academia Brasileira de Letras , categoria poesia.

JIVM - TEMPLO



T E M P L O
Para Cecília Meireles


Cecília não é nome para se colocar em filha.
Cecília é única. Uma deusa que conheço.

Ela habita nas esferas do delírio.
Seus versos são de veludo e acariciam os meus sentidos.
O olor que exala de suas estrofes é um bálsamo para o meu ser.

Cecília é um templo de muitas faces.
As canções que estão na sua poética são luminosas.
Cecília é um templo dentro do poeta que sou.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

ANTÔNIO TORRES RUMO À ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

O escritor Antônio Torres é um dos candidatos à cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, vaga desde a morte da memorialista Zélia Gattai. É importante lembrar que a cadeira 23 vem sendo ocupada por escritores baianos há 78 anos, passando por Otávio Mangabeira, Jorge Amado e Zélia Gattai. Acredito ser importante para a literatura brasileira que Antônio Torres ocupe essa vaga, não apenas para manter uma tradição que perdura a 78 anos, mas pela valiosa contribuição que vem dando à nossa cultura com a publicação de seus livros, como podemos constatar em sua biografia, logo abaixo.
JIVM

ANTÔNIO TORRES nasceu na pequena cidade de Junco (hoje Sátiro Dias), no interior da Bahia, no dia 13 de setembro de 1940. Ainda menino, mudou-se para Alagoinhas para fazer o Ginásio, mais tarde foi parar em Salvador, capital baiana, onde se tornou repórter do Jornal da Bahia. Aos 20 anos transferiu-se para São Paulo, empregando-se no diário Última Hora. Lá, mudou de ramo e passou a trabalhar em publicidade. Viveu por três anos em Portugal e atualmente mora no Rio de Janeiro, onde passou a se dedicar exclusivamente à atividade literária. É casado com Sonia Torres, doutora em literatura comparada, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), e tem dois filhos,Gabriel e Tiago.
Aos 32 anos, Antônio Torres lançou seu primeiro romance, Um cão uivando para a Lua, que causou grande impacto, sendo considerado pela crítica “a revelação do ano”. O segundo Os Homens dos Pés Redondos, confirmou as qualidades do primeiro livro. O grande sucesso, porém, veio em 1976, quando publicou Essa terra, narrativa de fortes pinceladas autobiográficas que aborda a questão do êxodo rural de nordestinos em busca de uma vida melhor nas grandes metrópoles do Sul, principalmente São Paulo.
Hoje considerada uma obra-prima, Essa terra ganhou uma edição francesa em 1984, abrindo o caminho para a carreira internacional do escritor baiano, que hoje tem seus livros publicados em Cuba, na Argentina, França, Alemanha, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, Israel, Holanda, , Espanha e Portugal. Em 2001 a Editora Record lançou uma reedição comemorativa (25 anos) de Essa Terra. Torres, porém, não restringiu seu universo ao interior do Brasil. Passeia com a mesma desenvoltura por cenários rurais e urbanos, como em Um cão uivando para a Lua, Os homens dos pés redondos, Balada da infância perdida e Um táxi para Viena d’Áustria.
Em 1997, Torres decidiu retornar ao tema e aos personagens do consagrado Essa terra. Vinte anos depois, narrador e protagonista voltam à pequena Junco em O cachorro e o lobo, para encontrar uma cidade já transformada pela chegada do progresso. É um romance de fina carpintaria literária que foi saudado pela crítica, tanto no Brasil como na França, onde foi publicado em 2001.
Foi condecorado pelo governo francês, em 1998, como “Chevalier des Arts et des Lettres”, por seus romances publicados na França até então (Essa terra e Um táxi para Viena d'Áustria). Em 2000, ganhou o Prêmio Machado de Assis 2000, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da sua obra. Em 2001, foi o vencedor (junto com Salim Miguel por Nu na escuridão) do Prêmio Zaffari & Bourbon, da 9a. Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, RS, por seu romance Meu querido canibal, no qual Torres se debruça sobre a vida do líder tupinambá Cunhambebe, o mais temido e adorado guerreiro indígena, para traçar um painel das primeiras décadas de história brasileira. Dando seqüência às suas pesquisas históricas, ele escreveu o romance O nobre seqüestrador, que trata da invasão francesa ao Rio de Janeiro em 1711, comandada por René Duguay-Trouin, o corsário de Luis XIV, que sequestrou a cidade durante 50 dias, até que lhe fosse pago um alto resgate para que ela fosse devolvida a seus habitantes. O nobre seqüestardor foi finalista no Prêmio Zaffari & Bourbon de 2003. Em 2006, Antônio Torres publicou o romance Pelo fundo da agulha, com o que fechou uma trilogia iniciada com Essa terra e prosseguida com O cachorro e o lobo. Este livro foi um dos vencedores do Prêmio Jabuti e finalista do Prêmio Zaffari & Bourbon, da Jornada Literária Nacional de Passo Fundo. Em resumo: autor premiado, com várias edições no Brasil e traduções em muitos países, Antônio Torres é um dos nomes mais importantes da sua geração, com um obra expressiva que abrange 11 romances, 1 livro de contos, 1 livro para crianças, 1 livro de crônicas, perfis e memórias. além de dois projetos especiais (O centro das nossas desatenções, sobre o centro do Rio de Janeiro - e que rendeu um documentário para a TV Cultura, São Paulo -, e O circo no Brasil, da série História Visual, da Funarte, Fundação Nacional de Arte). Para outras informações: www.record.com.br

domingo, 22 de junho de 2008

ALUVIÃO POÉTICO

Ronaldo Cagiano

Embora longe do grande público, em razão das dificuldades de divulgação de suas edições independentes e sem distribuição, e conseqüentemente, à margem do processo editorial por residirem fora do hegemônico eixo Rio-São Paulo, há uma geração de escritores em diversas regiões do País produzindo poesia e ficção de qualidade. Principalmente no Nordeste, cada dia temos notícias de autores que publicam, ora com parcos recursos pessoais, ora revelados por algum concurso literário, que vêm despontando em sua região com um trabalho bem recebido pela crítica local, apesar de inalcançáveis pela mídia do Sudeste-Sul.
Entre esses autores, José Inácio Vieira de Melo, alagoano radicado em Salvador, autor de Códigos do Silêncio (2000) e Decifração de Abismos (2002) se destaca tanto como agente cultural, dirigindo o projeto “Poesia na Boca da Noite”, como divulgando sua produção individual. Seu novo livro, A Terceira Romaria (Aboio Livre Edições, 2005, 126 pgs., R$ 20), mostra toda a força lírica e metafórica de uma poesia que traz na sua concepção o coloquial e o erudito, o apelo à intertextualidade e alguns influxos metalingüísticos e paródicos.
A versatilidade desse poeta sintonizado com suas raízes e marcado pelas dores de seu povo, constata-se tanto nos versos de “Bodas de sangue” (Ah Cristina Hoyos, deusa de Espanha,/ vem bailando em nuvens e em versos de Garcia Lorca,/ vem com teus punhais para a minha peixeira de 12 polegadas,/ pois as nossas bodas só podem ser de sangue.) e “Dois momentos” (Entro no poema como quem come cuscuz/ e sai dia afora para encarar a existência) como em “Epitáfio para Guinevere” (Para tu, que trazias os céus dentro dos olhos,/ o relinchar da paixão pagã/ dos cavalos que trago dentro de mim) e “Do pensamento” (O mistério me leva à estrada/ e a estrada revela/ a poeira que sou.// O espanto me conduz à reflexão/ e a reflexão revela/ a peneira que sou.). A sua linguagem incorpora o conhecimento da literatura clássica e os valores de uma poética polissêmica, assimilados no contato com a tradição oral do sertão, marcadamente os mitos religiosos e os signos profanos e no trânsito com outros autores e vertentes.
Nesse aluvião poético, extrai da memória, da infância e do tempo elementos para estabelecer um diálogo com a realidade e a compreensão da natureza de todas as coisas, além de um lirismo que traz candentes abordagens de amores e frustrações. Uma poesia que extravasa o grito interior do homem sufocado por valores anacrônicos, cioso por extrapolar seus limites rurais, inscrevendo um certo questionamento existencial. O autor acaba por instaurar uma catarse espiritual e psicológica a partir de universos lúdicos, de um retorno às suas experiências de vida e uma visita ao homem e à terra castigados do sertão, explorando toda sua carga rítmica e seu potencial mi(s)tico, sem artificialismo ou exageros, porque fruto de rigorosa cuidado e pesquisa da linguagem. E em momentos de profunda confissão, como nestes “Exercícios crísticos” (Trago comigo todos os pecados do mundo/ e sou o cordeiro imolado que alimenta o delírio,/ por isso a glória e a humilhação do vinho:/ não é nada fácil ser juiz da própria loucura.), José Inácio desabafa, expondo seu sentimento do mundo e trazendo fôlego novo à poesia brasileira.


Esculturas: Ramiro Bernabó.

Resenha publicada no Jornal do Brasil, no caderno B - Livros, em 25 de outubro de 2005, no Rio de Janeiro.

Ronaldo Cagiano é poeta, contista e ensaísta. Nasceu em Cataguases (MG) e vive em Brasília desde 1979. Publicou vários títulos, dentre eles “Canção dentro da noite” (poesia, 1999), “Dezembro indigesto” (contos, 2001) e “Concerto para arranha-céus” (contos, 2004).

JIVM - EPITÁFIO PARA GUINEVERE

Ilustração:Renato de almeida

EPITÁFIO PARA GUINEVERE


Cavalos já foram pombos
de asas de nuvem.
Domingos Carvalho da Silva


Meus cavalos choram por ti, égua de olhos azuis.
Não mais invadirei o vento montado no teu galope.

Que fique inscrito na tua lápide
o verso de lágrimas dos meus cavalos.

Para tu, que trazias os céus dentro dos olhos,
o relinchar da paixão pagã
dos cavalos que trago dentro de mim.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

domingo, 15 de junho de 2008

JOSÉ ALCIDES PINTO, POETA SANTO

O poeta José Alcides Pinto era um santo lá do Ceará. Ele fazia milagres por onde passava, milagres em forma de versos que entravam no sentimento das pessoas e as curavam de suas aflições imediatas. Tive o prazer de conhecer esse vate em 2006, quando fui convidado para participar da Bienal Internacional do livro do Ceará. Já conhecia a sua obra e mantínhamos uma correspondência irregular, ou seja, quando em vez trocávamos cartas, sempre enviando livros um para o outro. Mas foi em 20 de agosto de 2006 que apareci em sua casa. Fui recebido como um príncipe pelo poeta e por sua bela filha Jamaica. Conversamos muito, o poeta deu-me alguns de seus livros, leu uns poemas meus, ficou encantado com uns poemas do poeta baiano Affonso Manta, que recitei para ele. Na hora de partir, lembro bem do conselho de José Alcides: “Poeta, seja fiel à sua lira, não deixe que nada atrapalhe o seu caminho, faça sua poesia de acordo com a sua consciência poética, mesmo quando todos disserem que está errado”. Essas palavras têm sido um estímulo grande nessa minha jornada.
José Alcides Pinto deu prova maior de sua santidade ao escrever a Trilogia da Maldição ou ainda os extraordinários Poemas para Lúcifer ou ainda Fúrias do Oráculo. Seu Relicário Pornô é uma espécie de catecismo que não pode faltar aos devotos do prazer. José Alcides Pinto nasceu em São Francisco do Estreito, em Santana do Acaraú, mas nunca vi coração tão largo, tão abrangente. José Alcides Pinto é o meu São Francisco, suas orações estão gravadas no meu imaginário de poeta, no meu sentimento mais humano. José Alcides Pinto agora está encantado, aboiando seus versos na fazenda Equinócio, espraiando sua loucura sagrada no sertão do Acaraú.
JIVM

VERÔNICA DE VATE: JOSÉ ALCIDES PINTO

JOSÉ ALCIDES PINTO, ficcionista e poeta, nasceu em São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú, no Ceará. Filho de José Alexandre Pinto, capitão de tropa de cigano, e de D. Maria do Carmo Pinto, descendente dos índios Tremembés, que se fixaram na povoação de Almofala, no Acaraú, no fim do século XVII.
Diplomou-se em Jornalismo pela Faculdade Nacional de Filosofia da antiga Universidade do Brasil e em Biblioteconomia pela Biblioteca Nacional. Fez o curso de especialização em Pesquisas Bibliográficas em Tecnologia no Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD) e o Curso de História da Américas ela Universidade do Brasil.
Jornalista profissional, tendo ingressado na imprensa muito jovem. Colaborou nos Suplementos Literários do "Diário Carioca",' "O Jornal", "Diário de Notícias", "Correio da Manhã", revista "Leitura" e em toda a imprensa de Fortaleza Pertence à Associação Brasileira de Imprensa (ABI), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro e Sindicato dos Jornalistas Liberais do referido Estado.
Romancista, crítico literário, teatrólogo e poeta, tem livros publicados nesses gêneros, participando de várias antologias nacionais e estrangeiras. Recebeu o Prêmio José de Alencar da Universidade Federal do Ceará referente a obras no gênero Romance e Conto (1969). Coube-lhe, ainda, o Prêmio Categoria Especial para Conto (1970), concedido pela Prefeitura Municipal de Fortaleza. É o principal responsável pela introdução do Movimento Concretista no Ceará. Em 1972 foi incluído na Enciclopédia Delta Larousse.
Participou de antologias nacionais e estran­geiras. Ganhador de vários prêmios, entre eles o Prêmio Nacional da Petrobrás, na categoria conto, 1988, e o Grande Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), 1999. Foi pro­fessor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universida­de Federal do Ceará. Tem livros publicados na área do romance, novela, conto, teatro, poesia e crítica literária. É considerado um poeta de vanguarda e experimental.
José Lemos Monteiro, escri­tor e professor da UFC, escreveu um longo estudo sobre sua obra poética, intitulado O universo mí(s)tico de José Alcides Pinto publica­do pela Imprensa Universitária, em 1979, e que se constitui a pri­meira fonte importante de pesquisa de sua poesia, ao lado do livro A voz interior em José Alcides Pinto, do psiquiatra e poeta Carlos Lopes. Fortaleza. Edição do Autor, 1989; bem como um longo ensaio de Nelly Novaes Coelho – Erotismo, satanismo, loucura, na poesia de José Alcides Pinto Fortaleza, IOCE, 1984. Em 1996, o es­critor Floriano Martins organizou uma antologia crítica da obra de José Alcides Pinto - Fúrias do oráculo, editada pela Universidade Federal do Ceará. Também o professor e escritor Paulo de Tarso (Pardal), publicou um ensaio crítico intitulado O espaço alucinante de José Alcides Pinto, Edições da Universidade Federal do Ceará, 1999. A Editora GRD, Rio, editou em 1996 Cantos de Lúcifer (Poemas Reunidos), com prefácio de Cassiano Ricardo; e a Im­prensa Oficial do Ceará (IOCE), em 1984 lançou Antologia Poé­tica, organizada pelo crítico Rogaciano Leite Filho.
BREVE MEMÓRIA:
10/9/1923 - José Alcides Pinto nasce em São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú, Ceará.
1945 - Muda-se para o Rio de Janeiro, onde trabalha como bedel de aluno. Diploma-se em Jornalismo pela Faculdade Nacional de Filosofia e em Biblioteconomia pelo Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação.
1950 - Em parceria com Ciro Colares e Raimundo Araújo, lança o livro Antologia dos Poetas da Nova Geração.
1952 - Lança seu primeiro livro individual, Noções de Poesia e Arte.
1957 - Volta para Fortaleza, onde lança o Manifesto Concretista.
1964 - Publica seu primeiro romance, O Dragão.
1974 - Publica Os Verdes Abutres da Colina e João Pinto de Maria - Biografia de um Louco, que, junto com O Dragão, formam a chamada Trilogia da Maldição.
1977 - Desliga-se da Universidade Federal do Ceará, onde dava aulas no curso de Comunicação Social. Veste um hábito franciscano e vai morar numa fazenda no sertão cearense.
1986 - Ganha o Prêmio Nacional Petrobrás de Literatura. 2000 - Ganha o Prêmio da Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte.
2003 - A Editora G.R.D publica uma coletânea de poemas de José Alcides Pinto, intitulada Poemas Escolhidos.
03/06/2008 - Morre em conseqüência de um acidente de motocicleta. Estava pronto para lançar dois livros inéditos de poesia, Diário de Berenice e O Algodão dos teus Seios Morenos com o selo Jamaica Editora, nome de uma das filhas.


R É Q U I E M


Eu sou uma capela de andorinhas mortas
um altar destruído.
Eu não escrevi Os verdes abutres da colina
(mas quem o escreveria senão eu?)
Os patrupachas chegam de parte alguma
sentam-se no chão do rancho.
Acaraú é um rio uma cidade um vale uma região?
(aqui jazo)

Os galos urinam nas manhãs
são os nossos pecados.
Meu corpo, partindo em banda, daria uma canoa
um caixão mortuário, uma guitarra.
Pe. Arteiro Antônio Tomás Araken da Frota
de que luz são feitos os meus testículos?
Eu sou mais louco do que um louco?

Por essa tarde de chuva, essa tristeza imensa,
essa agonia: por Rimbaud Baudelaire Poe Artaud
Lautréamont Fernando Pessoa Augusto dos Anjos
por todos e por mim: adeus para sempre – amém!


JOSÉ ALCIDES PINTO

JOSÉ ALCIDES PINTO - EU


E U

Eu sou eu. Íntegro e inviolável dentro
de mim mesmo.
O que não se descobre. Anônimo sob
minha própria espinha.
Atual em minha sombra incorpórea, sem
faltar um só de meus gestos físicos.
Eu sou eu. O fantasma de preto escanchado
no arame do quintal,
sob a sombra das árvores e sob a
sombra da lua
misteriosamente colhendo o silêncio com
as mãos invisíveis e
tecendo uma mortalha com o nó dos dedos
para vestir o próprio corpo.
Eu sou eu. O retrato destituído de vida.
O gesto estático.
O que está no limiar e afogado no abismo.
O que anda vestido e nu, sendo louco e poeta.
Eu sou eu e sozinho. Diverso sobre mim
e sob eu mesmo.
Oculto e visível como a lua caída no poço.
Proclamado como o homem dentro da praça,
no meeting,
sacudindo com os gestos da boca palavras
secas nos olhos da multidão.
Intocável e impossível como o que não se
conhece e não morre.

JOSÉ ALCIDES PINTO

OS ABUTRES DA LOUCURA

José Inácio Vieira de Melo

Uma das obras mais estranhas e instigantes da literatura brasileira contemporânea, Trilogia da Maldição, de José Alcides Pinto, escritor cearense multifacetado, volta ao mercado editorial depois de anos de completo silêncio. Os livros que compõem a TrilogiaO Dragão, Os Verdes Abutres da Colina e João Pinto de Maria (Biografia de um louco) – foram publicados individualmente nas décadas de 60 e 70. São variações sobre a mesma história, mas que não seguem uma seqüência linear ou mesmo cronológica, daí o leitor poder optar em ler na ordem determinada pelo autor ou não.
O que une esses três livros é o espanto, e, sobretudo, a aldeia de Alto dos Angicos de São Francisco do Estreito, uma espécie de Macondo situada nos confins do Ceará. O clima de pesadelo perpassa toda Trilogia, onde fatos disparatados acontecem a todo instante da maneira mais natural possível. Há, também, uma tensão narrativa que caminha para o delírio, para a loucura original. Lá encontramos padres irados com uma comunidade de morrinhas que vive a roubar bodes; um coronel dono de muitas terras e pai de toda aquela gente – como um patriarca bíblico –, e que deita com filhas e netas, seguindo apenas os preceitos das sagradas escrituras: “Crescei e multiplicai e enchei a terra”.
Alto dos Angicos é um lugar onde todas as pessoas, afora as que morrem de acidentes, vivem mais de um século, e só morrem aos pares; um lugar vigiado pelo diabo, os verdes abutres da colina, e que está na iminência do apocalipse. Esse é o universo de José Alcides Pinto, o poeta maldito do sertão do Acaraú.
O Dragão é a célula fundamental da saga de Alto dos Angicos, terra de origem do autor, onde se desenrola o processo romanesco que transforma o espaço histórico-geográfico da aldeia em espaço mítico, e o real passa a ser irreal e o natural, sobrenatural. Desenvolve-se em torno da figura do Padre Tibúrcio, um dos personagens principais dos três romances, que vai destrinchando a vida esquisita daquela povoação amaldiçoada.
Os Verdes Abutres da Colina conta a mesma lenda de O Dragão, perpassada por um aprofundamento que causa a inserção do leitor naquele mundo escatológico e mágico. É a história de Alto dos Angicos, fundada pelo coronel Antônio José Nunes, o garanhão luso. Embora viva um período de desenvolvimento no tempo dos aleatas e peripatas, a maldição continua a rondar o lugar. A sombra dos verdes abutres paira sobre a povoação, anunciando o inevitável: o fim dos tempos. Mas Alto dos Angicos parece fadada à eternidade, pois do nada, ou melhor, das cinzas, tal qual fênix, renasce, assim como a sua comunidade de seculares.
João Pinto de Maria, personagem titular do terceiro romance, é neto do garanhão luso. É homem que acredita no trabalho árduo e na honestidade, é um ser humano movido a trabalho. Sua religião é o trabalho. João Pinto viaja para o Amazonas. Ao voltar para Alto dos Angicos, compra todas as terras da região e passa a ser o homem mais poderoso. Mesmo com poder e prestígio continua na lida árdua. Nunca quis nada de ninguém, em contrapartida esperava que nada pedissem da sua fortuna. João Pinto de Maria vivia para juntar. E aí estava a sua loucura, mas uma loucura que caminhava para a santidade, pois pecava por desconhecer o que fosse pecado.
Autor de obra multiforme, José Alcides Pinto, poeta do escatológico e do surrealismo, comunga com Baudelaire, Lautréamont e Rimbaud. Na ficção, compartilha da forma de Gabriel Garcia Márquez, Jorge Luis Borges e Júlio Cortazar, mestres latinos da literatura fantástica. Isso diz muito pouco sobre o autor de Trilogia da Maldição, apenas a leitura de sua obra é que pode esclarecer o seu gênio criador. Trilogia da Maldição é uma bênção dentro da literatura brasileira contemporânea. Deixar de ler a saga de Alto dos Angicos de São Francisco do Estreito é que pode ser uma verdadeira maldição.


Resenha publicada no jornal Mercatto, em Salvador, em fevereiro de 2003.

JIVM - DILÚVIO


D I L Ú V I O


O olho daquele pingo de chuva que vem caindo
revela a minha convicção: acredito no dilúvio.

Não tem mais jeito, para toda árvore que olho
só vejo tábuas para construir a arca da salvação.

Sei que todos riem de mim, fazem galhofa
e acham mesmo que estou com um chocalho no juízo.

Mas é que tive um sonho: um ser vestido de água
inundava o meu dia a minha noite a minha vida.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

segunda-feira, 2 de junho de 2008

FOTOGRAFIA: RICARDO PRADO

NOVOS OLHARES DA BAHIA
Por Adriana Jacob

Ritos, festas, pessoas e paisagens do cotidiano
inspiram a arte do fotógrafo
Ricardo Prado


Do ritual de fé das ialorixás na Festa do Bembé do Mercado, em Santo Amaro da Purificação, até o cansaço estampado no rosto dos passageiros do trem do subúrbio ferroviário de Salvador. Do brilho amarelo do sol refletido no mar, à escuridão misteriosa das águas do Dique do Tororó. As manifestações culturais e religiosas que compõem a identidade baiana inspiram o trabalho do fotógrafo Ricardo Prado.

“Tento mostrar a beleza das pessoas de maneira espontânea, para que a fotografia revele a dignidade desses homens e mulheres”, explica o artista mineiro, radicado há 18 anos em Salvador. É assim com o semblante pensativo da irmã da Boa Morte. É assim com o menino que brinca, de cabeça baixa, na areia do Rio Vermelho, no registro batizado por Prado como Abaporu Nagô.

Caçador de imagens, o artista captura cenas do cotidiano ou de rituais sagrados sempre de forma natural, sem qualquer tipo de interferência sobre o objeto ou pessoa observada. “Busco registrar um olhar com novas cores sobre a realidade. Mas são sempre cores reais, por isso prefiro não interferir no cenário, apenas mostrar um novo ângulo ou horizonte”, afirma o fotógrafo.

A cidade de Salvador é outro dos focos do olhar de Ricardo Prado. Seja através de imagens aéreas da orla da capital baiana ou do entardecer no Porto da Barra, há luzes e movimentos que povoam cada cenário do lugar escolhido pelo fotógrafo para viver. Um de seus bairros preferidos, o Rio Vermelho, foi tema da exposição Odoiá – Mãe do Rio, realizada em dezembro de 2007, no Teatro Gamboa Nova, e em fevereiro de 2008, no Bar e Restaurante Póstudo. A mostra reuniu fotografias de vestígios de Iemanjá no cotidiano do bairro boêmio.

Em busca de representações da divindade considerada a mãe da grande maioria dos orixás, Ricardo Prado mergulhou no simbolismo presente nas praças, ruas, nas areias e no mar do bairro. “Em cada canto, é possível ver a própria representação da orixá, tanto em forma de esculturas da deusa, como na atividade dos pescadores, nos peixes, nas cores e formas da água e das pessoas que passam por ali”, descreve o fotógrafo, que trabalha agora na produção de um banco de imagens da Bahia. Contato: (71) 9959 0621.


Adriana Jacob é jornalista.

Matéria publicada na revista Festa & Folia #20, Salvador, Bahia, em abril de 2008.

domingo, 1 de junho de 2008

JIVM - FOTOGRAFIA DE UM POEMA


FOTOGRAFIA DE UM POEMA

Para Ricardo Prado



De óculos escuros
o homem se aproxima
e me pede um poema.

Olho em suas lentes e indago:
– O mundo é uma cena?



JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

JIVM - REGISTRO DA FALA DO SILÊNCIO



REGISTRO DA FALA DO SILÊNCIO



O que mais tem falado em mim é o silêncio,
mas um silêncio plural – de fogo –
que com sua língua escarlate abrasa as palavras
e as queima antes de serem.

Um silêncio de lá, de longe – das plagas interiores –
que fala o tempo todo sem dar nome ao dito.

Em sonho é imagem: e vejo, inebriado,
a sua cara – semblante formidável:
tão formoso quanto pode ser um deus.

O silêncio, este que fala e de que tanto falo,
é um hieroglífico poema,
e estes versos: tradução e codificação.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

sábado, 31 de maio de 2008

A GEOLÍRICA DE JIVM

Foed Castro Chamma

Há em José Inácio Vieira de Melo ressonância tardia do Aedo na maneira de conduzir o poema visando ao ouvinte. A passagem pelo cordel identifica-o com uma tradição poética nordestina de eminente vínculo telúrico emoldurado na década de 30 pela saga imorredoura de Lampião e Maria Bonita. Ariano Suassuna, de um lado, e Carlos Newton Júnior de outro, revigoram sob a centelha armorial do Romance da Pedra do Reino e a epopéia Canudos essa tomada de posição de José Inácio em uma poesia alagoano-baiana fulgurante, marcada diria mesmo a ferro e fogo em todos os poemas de A Terceira Romaria (Aboio Livre Edições, Salvador – Bahia, 2005).
Hildeberto Barbosa Filho no prefácio à edição que traz o apoio do Governo da Bahia discorre sobre “as pulsões vitais dos vocábulos” ao apresentar A Terceira Romaria. A essas pulsões o leitor se detém seguro de que o poeta “sobe a pedra, vai para o alto”, como a cabra (p. 73), busca ali o pedestal, “onde estão o menino e a arte” a contemplar “os olhos daquelas línguas”... As vozes que ouve dizem, “preciso prosseguir”. A metáfora ou pequeno mito na acepção crítica de Franklin de Oliveira é a algaravia do poeta ao rasgar a violência com a bala que dois loucos disparam,“decifrando os segredos das cavernas”. (...), “as tranças azuis de uma poça, ou gota, ou nuvem.”. O vinho é o “sal do mar” dos olhos a inscrever a verdade. Uma pingueira precipita o poeta a lonjuras de um espelho onde a sombra lava os “pingos do sol”. As plagas dos sertões, o parir do sol, o seixo das estradas e o informe são o labirinto de “O homem da estrada”, p. 30.. “Na boca da noite (...) sou eu quem sorri.” Um cavalo montado na ventania/ o candeeiro aceso pelo homem/ a orquestra das cigarras/ são ingredientes de um “Poema obscuro” construído de madrugada por falta do que fazer, confessa JIVM. “Força verde” do Juízo Final (...) são os “Caramujos” de Manjerona, Paixão, Fachada, Meia-Noite, a ouvir o mar. Em “Tradição” p. 36, a bezerra da Paixão é ferrada por Zé Inácio. Em “Nuvem passageira” (...) um cavalo negro galopa pelos campos azuis. É um dragão cuspindo fumaça, conclui para mais adiante.o poeta confessar que sente “a chuva de leite nos olhos, tem as mãos encardidas de leite, entende-se com as beldroegas (p. 38) . “peitos brutos da brita” é melhor do que “se ordenhar” em “êxtase orgástico”. A figura de “Ciço Cerqueiro”, por outro lado, e a força da coalhada, são o resumo do “Sertão” (p. 39) em um desenho que lembra os carvões de Goya.
José Inácio Vieira de Melo, em descontraída alusão à metafísica da dualidade, díada do ser na negação, que Hegel aborda na Lógica e na Fenomenologia do espírito, ao referir-se à realidade, se confessa “Peregrino de mim mesmo/ no meio da travessia”. A centelha do azul da infância está na brasa da lembrança da tarde queimada no “meio do tempo”. A lua é um voyeur da deusa morena e dos gemidos de cantigas dos deuses. A mudez do urubu é em “forma” de canto, “Disritmia” é vislumbrar o silêncio na menina de teus olhos. Há uma tautologia em meio a tantas metáforas contundentes: “os oráculos não se enganam” (p. 52). Tâmara, sâmaras, cântaros, ancas, tetas, punhais, bodas, são termos a unir Granada de Lorca ao mundo do Sertão nordestino. O galo de sangue de fogo adivinha a beleza que o poeta decanta ao evocar o “Bailador gitano.”, p. 54.
Em “Toada de Despedida”, a certeza de atemporalidade sobrepaira na simultaneidade virtual de um registro a denotar o Acaso de Um lance de dados mallarmeano. “Brasas do Sol” é o lugar do poeta na decantação do agreste. Suspenso num suspiro, deita-se debaixo do pé de algaroba esquecido das “chaves” e das “palavras”. O fugaz é eternidade na pedra que o poeta pisa e o arvoredo brota, afirma (p.66/7), tal a palha da eterna fogueira de um “eu que és tu e tu és eu”. O mundo é o acender uma luz e revelar o lugar ao filho do Sol, Ígneo – Ignácio – Inácio.
Hildeberto Barbosa Filho escava a “metalingüística do concreto” na poesia nordestinada de JIVM, visceralmente comprometida com o Mito. O “chão rachado” é “solo sagrado”. Um silêncio de fogo fala por José Inácio, “silêncio plural a abrasar as palavras”. “Carotes de lama são as águas” da “Seca”, p. 82, “espelhos d´água e pratos fartos” são a esperança. A água canta loas, o rio acalma. O poeta agradece “ao único Deus qualquer”. No “Jardim das Algarobeiras” os pássaros cantam, a vaca muge, o cavalo relincha, a rã coaxa. (....) O galo inaugura o dia, o vento é andarilho.
Fiat lux: (p. 97.), repitamos, acrescentando-se que no brilho das metáforas de JIVM resplandece um deus. Ao mirar a roça de estrelas o sono é sereno ao pastor peregrino no “Deserto” a buscar o silêncio do corvo doido frente à “Zoada” que o aflige, p. 103. O verso tem leveza de folha. A poesia é salvação. “Um mar de vidro no espelho nos separa”, conclui o poeta. Em aromas da rosa da “Pastora”, José Inácio parodia uma antífona. “A Sagração do Pecado” é “malícia silenciosa” a investir contra Menelau, Urias, Lot, Teseu, José. Quanta lembrança bíblica sugere a doçura do Amor. Em “Decifração de Abismos” está o amortalhar do gênio, p. 117. O menino (...) reconhece-se na “Ave”. O chocalho dos deuses chama o homem à cruz da paixão rumo ao nada, “à verdade de lugar nenhum”. “A morte promete jardins” ao brilho dos cacos de agora, p. 122. “O pó da estrada é o único fim” à boca escancarada a grafar com pena e tinta as palavras. A poesia marca a ferro e fogo, repito, a alma de José Inácio Vieira de Melo.
Tal à leitura acompanhando Hildeberto Barbosa Filho no prefácio a A Terceira Romaria. No núcleo de “O Universo da terra e da origem” não se esgotam as parábolas de uma “romaria lírica entremeada do topos “sagrado”. “Nos arredores de uma geografia rural” está a “memória poética” originária de Olho d´Água, terra natal de José Inácio. Ribeira de Traipu, Maturi, Cerca de Pedra, correspondem a uma geolírica repleta de um fulgor estilístico que enriquece a poesia brasileira contemporânea.
A projeção simbólica de “Bodas de Sangue” permeia a fala concreta do amoroso do Sertão. “Filho do Sol”, José Inácio Vieira Melo é inesgotável, como o João Cabral de “Uma faca só lâmina”. O poeta da poesia identificada com a vida está na sedução dos vocábulos, afirma Hildeberto Barbosa Filho. Imagens vertiginosas, acrescento, emolduram a realidade à espreita do canto em A Terceira Romaria.


Esculturas: Ramiro Bernabó

Foed Castro Chamma é poeta e ensaísta. Publicou, entre outros livros, Pedra de Transmutação (Prêmio Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, 1984), Navio fantasma (1999) e Antologia poética (2001).

Artigo escrito em junho de 2005, publicado no Jornal de Poesia, editado por Soares Feitosa.

terça-feira, 27 de maio de 2008

VERÔNICA DE VATE: ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA BARRETO

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA BARRETO – natural de Santa Bárbara-Bahia. Professor, poeta e cordelista.. Graduado em Letras Vernáculas e pós-graduado em Psicopedagogia e Literatura Brasileira.
Vários trabalhos em jornais, revistas e antologias, tendo publicado mais de 60 folhetos de cordel que abordam temas ligados à Educação, problemas sociais, futebol, humor.
Seu terceiro livro de poemas, Flores de umburana, foi publicado em dezembro de 2006 pelo Selo Letras da Bahia. Ultimamente Antonio Barreto vem se dedicando à cantoria e ministrando palestras e oficinas de cordel em escolas públicas, particulares, faculdades e outras instituições.

Trabalhos sobre Literatura de Cordel realizados durante o ano de 2008:
OFICINAS: Colégio Vila-Lobos – Avenida Paralela – 27 de março de 2008. Caravana da Leitura/Fundação Pedro Calmon/Camamu - Bahia 25/26 de março – 2008. Caravana da Leitura/Fundação Pedro Calmon/ Igrapiúna-Ba.– 29 e 30 de abril de 2008. Escola Vila Lobos – 28 de março de 2008. Escola Estadual Genny Magalhães – Itapuã – 25 de abril de 2008. Colóquio da Cultura Popular – Irará-Bahia – 19 de março de 2008.
PALESTRAS: Semana pedagógica em Saubara. Tema: Leitura – 28/02/2008. Caravava da Leitura – Camamu-Bahia. Tema: Estímulo à Leitura – 25 de março de 2008. Colóquio da Cultura Popular – Irará-Bahia – Tema: Cordel e Cultura Popular - 18 de abril de 2008.
PARTICIPAÇÃO EM EVENTOS: Participação no show de João Bá – no Restaurante Grande Sertão- 26/01/2008. Cachoeira – 10 12 de janeiro. Dia nacional da poesia na Praça da Piedade – 14/03/2008. Recital no Banco do Brasil – 14/03/2008. Recital no Centro Tecnológico da Bahia – 14/03/2008. Lançamento do cordel : A peleja de uma mulher arretada com um cabra cismado” – 23 de fevereiro de 2008. Lançamento do cordel “As Aventuras de Zé Parabala no Sertão de Santa Bárbara – 8 de março de 2008. Sindicato dos Trabalhadores. Participação no show de Tonton Flores – Varanda do Cantador – Projeto de Wilson Aragão – Salvador-BA – 10 de março de 2008. Participação no show de Cescé – Varanda do Cantador – Projeto de Wilson Aragão – Salvador-BA – 24 de março de 2008. Participação no Projeto Encontro com o Escritor – Biblioteca Central e Fundação pedro Calmon – Salvador – 11 de abril de 2008. Lançamento do folheto de cordel “ Um político exemplar chamado Franscisco Pinto”- Colóquio da Cultura Popular – Irará-Ba – 25 de abril de 2008.
Antonio Carlos de Oliveira Barreto vai apresentar-se, no próximo dia 6 de junho, no projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, Bahia, coordenado por Edmar Vieira.


CANTO LÍRICO DE UM SERTANEJO


Sou do seio das catingas
lá das bandas do sertão
carrego na veia a essência
dos acordes do azulão
do açum preto o sustenido
da cigarra o alarido
da coruja a solidão.

Sou o Pajé lá da floresta
o Xamã buscando a cura
de toda ferida aberta
da mais profunda loucura
sonho eterno de menino
eu sou o badalar do sino
e o doce da rapadura.

Bode deserto no pasto
apartado do rebanho
Asa Branca em retirada
cobra que não tem tamanho
o tatu-bola escondido
um lobisomem sofrido
assanhaço sem assanho.

Sou caipira itinerante
águas velozes do rio
bem-te-vi anunciando
que andorinha está no cio
o verão queimando a mata
um cachorro vira-lata
todas as noites de frio.

Galo da crista vermelha
no seu despertar da aurora
berro do garrote magro
que o verão então devora
canário longe do ninho
voando sempre sozinho
desde as lonjuras de outrora.

Urubu buscando a presa
papagaio falador
gavião beijando as nuvens
inocente beija-flor
sou preguiça descansando
nessa estrada passeando
sem inveja do condor.

Galope incansável sou
do meu cavalo alazão
gozando da liberdade
indiferente à razão
que vai tangendo a boiada
numa longa caminhada
nos capinzais do sertão.

Todo sol de primavera
com seus raios de esperança
colorindo a nostalgia
esturricando a lembrança
incendiando o amanhã
das aves de ‘arribaçã’
e do meu sonhar-criança.

Eu sou o arrebol primeiro
com a corneta da alegria
convocando a passarada
a mais uma sinfonia
sou também o entardecer
e o escarlate-morrer
vestido de poesia.

Sou o amor dos inocentes
o vento abrindo janela
soprando nos meus ouvidos
que vai chegar Cinderela
promessas de uma princesa:
la belle de jour surpresa
que ainda espero por ela.

Sou a sanfona do “Lua”
pondo estrelas a dançar
espada de Virgulino
querendo sangue inventar
Conselheiro na idéia
coisas do arco da “véia”
tentando me alucinar.

Sou a imensidão do açude
suas águas cristalinas
lágrimas desatinadas
escorrendo nas colinas
todo o frio das invernadas
a solidão das manadas
as serpentes assassinas.

Picula, bumba-meu-boi
dança de roda ao luar
saci-pererê no mato
sou vaga-lume a piscar
cobra cega vendo tudo
sou caipira e não me iludo
colorindo meu sonhar.

Sonhar de pombo-correio
levando cartas de amor
atravessando caatingas
no seu singelo labor
fugindo lá das montanhas
realizando façanhas
com destino a Salvador.

Umbuzeiro solitário
contando estrelas no céu
mandacaru sem espinhos
a coivara em fogaréu
um tição de fogo aceso
e este mundo todo preso
debaixo do meu chapéu.

Sou o abôio dos vaqueiros
pelos ventos da alegria
nessa estrada empoeirada
seja noite, ou luz do dia
sou o berro da manadas
as estrelas prateadas
a viola e a cantoria.

O cantar de um menestrel
a flauta de Pan chorando
a gaita com seu lamento
a primavera chegando
o canto do bacurau
o Sítio do Pica-Pau
em meus sonhos habitando.

Sou o mistério luminoso
do pequeno vaga-lume
brincadeira de cometas
das rosas todo o perfume
sou a solidão das rochas
o fogo aceso das tochas
das noites todo o negrume.

As vestes das nuvens brancas
traduzindo calmaria
derretendo-se no solo
e arejando a escadaria
de Santa Bárbara amada
a Pasárgada comparada
para me dar moradia.

Cavaleiro, anjo de luz
nesse abrir-fechar porteira
explorando meu sertão
com bravura e brincadeira
mas logo se alguém se atreve
lanço fogo, água e neve
saco da espada guerreira.

Eu sou menino-ancião
porta aberta pro mistério
magia de Salomão
matuto falando sério
um compulsivo do estudo
querendo saber de tudo
mas às vezes sem critério.

Rodas do carro-de-boi
nas estradas do sem fim
com seu gemido sem cura
acenando adeus pra mim
apagando da memória
a doce infância de glória
desse louco querubim.

Eu sou uma casinha branca
cercada pela alegria
encoberta de esperança
que o futuro já anuncia
o chegar da primavera
e também da Nova Era
na mais perfeita harmonia.

Sou o breu que banha a noite
de suspense e de mistério
segredos da madrugada
silêncio do monastério
alarido dos pardais
a dança dos bambuzais
no tablado do etéreo.

Meu avô tirando leite
na vaquinha holandesa
canarinho na cancela
com seu canto de surpresa
minha avó fazendo renda
minha mãe com sua prenda
colorindo a farta mesa.

Minhas irmãs no varal
meus irmãos lá no roçado
abraçados à enxada
e também puxando arado
semeando seu sustento
desprovidos de lamento
tendo a sorte do seu lado.

Do jacarandá eu sou
fortaleza e solidão
sonho que desaparece
na iminência da extinção
ante o corte do machado
e a ganância do mercado
dessa industrialização.

Eu sou o acre do limão
laranja que nunca acaba
o gosto do tamarindo
o mel da jabuticaba
o maracujá açu
a castanha do caju
e o gostinho da goiaba.

Do jasmim sou todo aroma
do canavial o mel
da gaiola o passarinho
o esperar Papai Noel
o pavão e sua beleza
o verde da Natureza
o Maestro e seu pincel.

Mas o tempo em disparada
não me espera lá na esquina
quando do meu sonho acordo
minha vida então declina
e noutra realidade
solitário na cidade
vou cumprindo minha sina.

O trem que me conduziu
diluiu-se na estação
não há passagem de volta
pra retornar ao sertão.
Sem asas para voar
sem sonhos para sonhar
vou seguindo essa missão.

E na selva de cimento
já não sou anjo de luz
junto aos animais falantes
eu vou carregando a cruz.
Sou mais um na multidão
perdido na contramão:
o destino me conduz.

Mas não me entrego porque
sertanejo é mais que forte
é raio rasgando o céu
muito mais que o vento-norte
semente de luz plantada
todo desafio da estrada
de quem nunca teme a morte...


ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA BARRETO

POEMÁRIO DE UMBURANAS-DE-CHEIRO

José Inácio Vieira de Melo

Antonio Carlos de Oliveira Barreto, conhecido cordelista baiano, estréia na chamada poesia discursiva com o livro Flores de umburana (Selo Letras da Bahia, 2006). Ao contrário de boa parte da sua produção cordelística, que trata dos fatos cotidianos da sua província e dos acontecimentos do mundo globalizado, Flores de umburana segue por outro caminho – a trilha das ausências. Seus versos trazem as sensações de quem olha para as coisas e os seres e consegue experimentar o pasmo que há neles e a relatividade do seu trânsito ("o menino a contemplar/ as lágrimas de Heráclito// e o bem-te-vi/ anunciando ausências").
Flores de umburana é um livro que recende a aromas silvestres e a seiva nativa das caatingas. Traduz a força telúrica do seu autor, andarilho dos sertões. Barreto é um pastor de cantos a conduzir seus poemas pelas mesmas pastagens daquele guardador de rebanhos lusitano que apregoava na sua poética que “pensar é estar doente dos olhos”.
Mesmo quando caminha pelas formas fixas, como nos sonetos “Agalopado” e “Soneto do amor banal”, o primeiro vazado em hendecassílabos e o outro em heptassílabos, consegue ser leve e fluente como a brisa que povoa as paragens de onde provém, os sertões de Santa Bárbara, e nos transporta para dentro das imagens que evoca, não para pensarmos sobre elas, “mas para olharmos para elas e estarmos de acordo”, como nos ensina Fernando Pessoa por intermédio de seu heterônimo Alberto Caeiro, o já citado guardador de rebanhos.
A maneira descritiva e o poder de sugestão de seus versos, levam o leitor para dentro da paisagem que vai inventando, convertendo-o em parte desse cenário, ou seja, tornando-o parte daquela ordem, um elemento componente daquela organização.

O fogo dos ventos soprando do norte,
a noite azulada tangendo os abismos.
Na dança da flecha se vão os aforismos:
paisagens, caminhos, sertões, um galope.


Mais do que uma metamorfose, esse movimento pode ser compreendido como uma aceitação do processo natural e espontâneo da vida, pois apesar de descobrir “que a vida/ é puro arco-íris de/ interrogações”, sabe que “Ao meu controle foge o leme do destino/ tal o poema escapa de minhas mãos”. Essas impressões proporcionam um sentimento de integração com o Cosmo, e, nesse sentido, estamos diante não apenas de um poeta telúrico, mas também de um poeta holístico.
Em outros momentos, apresentar quadros de vivências, utilizando-se da linguagem suave que lhe é peculiar, a exemplo do belo poema “Primeira comunhão”, que trata das descobertas da infância e nos remonta ao primeiro alumbramento do mestre Manuel Bandeira:

A língua do vento
suspende a saia
da indefesa mocinha

O garotinho,
mais-que-surpreso,
rompe a timidez:

que linda Flor Negra!

E, como não poderia deixar de ser, Antonio Carlos de Oliveira Barreto, cantador de boa cepa, conclui esse poemário de umburanas-de-cheiro, que aponta para promissores caminhos poéticos, “Cordelizando”:

Sou do seio das catingas
Lá das bandas do sertão
Trago na veia a essência
Dos acordes do azulão
Do assum preto o sustenido
Da cigarra o alarido
Da coruja a solidão.


Resenha publicada na revista O Escritor n°116, da UBE, em agosto de 2007, em São Paulo. Revista editada por Izacyl Guimarães Ferreira.

domingo, 18 de maio de 2008

ENTREVISTA: JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO - UM MERGULHO NA NOITE DOS TEMPOS

Por Lima Trindade


José Inácio Vieira de Melo, nas palavras de Marcos Lucchesi, é um escritor que emociona. Sua lírica tenta desvendar o grande mistério da existência humana, fazendo da palavra canto e sagração. Dia 21 de julho, a partir das 9h30, ele estará lançando seu quarto livro, “A infância do Centauro”, na LDM Livraria Multicampi. Nesta entrevista, concedida ao escritor Lima Trindade – mestre em Letras pela UFBA e editor da revista eletrônica Verbo21 –, ele fala da infância no sertão, a influência que recebeu da Música Popular e sua visão do momento literário na Bahia e no Brasil. (Entrevista publicada no A Tarde Cultural, em 14 de julho de 2007, em Salvador, Bahia. - Fotos: Ricardo Prado. - Ilustrações: Juraci Dórea.).

LIMA TRINDADE - Poderíamos dizer que o tema da sua poesia, neste último livro, é o da não-memória, uma volta a um estado espiritual, infância que não é passado?

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Sim. É um mergulho na noite dos tempos. Digo isso num poema: “Meu cavalo e eu – Centauro do Sertão”. Pois bem, esse centauro encarnado, escarlate, é a personificação de um vaqueiro aboiando sua memória de volta ao caos primordial, é a representação de um peregrino que questiona os códigos da existência e mergulha no sol para se purificar e descobrir-se o Cavaleiro de Fogo. Lembrar, porém, que depois da noite dos tempos, surge a consciência dos dias.

LT - O eu lírico também é impreciso, abarca contrários, coexistem nele o homem urbano e dos sertões, criança e adulto, pai e filho. É este um sinal da maturidade chegando?

JIVM – É uma busca. As várias faces do ser se estranhando e, paradoxalmente, dialogando, percebendo os limites, as urgências circunstanciais da nossa condição de passageiros do desconhecido. É também uma tentativa de chegar ao cerne do sentimento ou, quem sabe, a uma compreensão de tudo isso, todos os conflitos, todas as dores. O Sertão do qual falo não é geográfico, é um modo de enxergar o mundo. Para mim, tudo é Sertão. Pra todo canto que olho, só enxergo Sertão. O ser do qual falo está perdido no tempo, mas é indagado em uma outra perspectiva, é visto nas esferas do delírio e por isso não tem idade e é atemporal. É criatura, mas também é criador. Como estou me aproximando da casa dos quarenta anos, pode ser que aponte para uma maturidade.

LT - Como foi o seu primeiro contato com a poesia e com a palavra escrita?

JIVM – Lembro-me de que, na casa de meus pais, havia uma coleção com os poetas românticos Castro Alves e Gonçalves Dias. Eu tinha uns oito anos e folheava sempre aqueles livros. Depois, já com uns doze, uma outra linguagem me trouxe a poesia dos livros. Comecei a ouvir com paixão a Música Popular Brasileira. Sobretudo os cantores nordestinos. De Luiz Gonzaga aos que estavam surgindo... gente como Alceu Valença, Zé Ramalho e, principalmente, Raimundo Fagner, musicador de poemas de Cecília Meireles, Patativa do Assaré, Florbela Espanca, Ferreira Gullar e tantos outros. Ouvia o Fagner berrar seus aboios, ia conferir no encarte do disco e encontrava quase sempre “música de Raimundo Fagner sobre poema de...” Aí eu corria para a livraria e buscava aquele poeta.

LT - Acredita na renovação da linguagem enquanto conteúdo. Aliás, vê diferença entre fundo e forma?

JIVM – A linguagem não é estática, está sempre se renovando para expressar os sentimentos que atravessam os tempos e que são sempre os mesmos. Podem aparecer revestidos de outras necessidades circunstanciais, mas os conflitos e os prazeres do homem – no tempo e pelos tempos – são os mesmos. E a poesia é a prova disso. Basta conferir em Homero, em Shakespeare, em Whitman, em João Cabral. Quanto à forma e ao conteúdo, acredito numa poesia poliédrica, na qual a maneira de abordagem tem vários lados e ângulos, regidos por um ritmo interno – a pulsação do poema – que expressa um assunto, podendo ser qualquer um.

LT - “A infância do Centauro” traz muitos poemas dos seus livros anteriores. Esta me parece uma tendência de vários poetas atuais, reescrever a obra incessantemente, como fizeram Whitman e Baudelaire ainda no século XIX. É esse seu caminho? Qual critério de seleção você adotou para esta antologia?

JIVM – Sinto-me escrevendo sempre o mesmo livro. E continuo nesse ofício movido por uma necessidade. Se pudesse, deixaria de escrever e iria fazer outras coisas, mas é que não tem jeito. A vida só tem sentido, para mim, se for dentro da poesia. Então vou cumprindo minha sina, escrevendo e reescrevendo meus versos. Uma vírgula aqui, um ponto ali, um adjetivo acolá... O critério de seleção é pessoal e nem sempre corresponde com o gosto de outros leitores especializados. Por exemplo, o Marco Lucchesi está organizando uma antologia com 45 poetas do Brasil que começaram a escrever a partir de 2000. Dos quatro poemas meus, do livro “A terceira romaria”, que foram escolhidos por ele, apenas um entrou em “A infância do Centauro”.

LT - Quais são os poetas que você mais admira e o porquê?

JIVM – São tantos. De Homero a Kavafis, de Whitman a Pessoa, de Jorge de Lima a Cecília Meireles, pela imensa contribuição que deram à poesia do ocidente. Mas vou falar apenas daqueles que têm chamado a minha atenção ultimamente. Gerardo Mello Mourão e Francisco Carvalho são dois poetas pelos quais tenho admiração. O primeiro, por ter construído uma poesia plural, livre de amarras, e que por isso se fez planetária; o segundo, pela simplicidade com que vem tecendo a sua poética, onde o místico e o erótico surgem e ressurgem, representados por metáforas que causam em mim grande fascínio. O poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo, pelo rigor de suas retrancas, imbuídas do conflito existencial; o poeta baiano Ruy Espinheira Filho, pelo sinceridade que transborda do seu lirismo. Há um poeta português, Herberto Helder, que causou uma verdadeira revolução na minha maneira de pensar poesia. Ele escreve palavras soltas e vai repetindo-as alternadamente, como se estivesse remoendo-as surrealisticamente. O sumo de tudo isso é uma poesia sofisticada e de alto nível.

LT - Além de atuar como escritor, você desenvolve um significativo trabalho como agitador cultural e editor de revista, tendo ainda organizado uma antologia como novos poetas baianos. Considerando sua experiência, é possível se definir uma tendência literária predominante na poesia contemporânea?

JIVM – Não vejo uma tendência predominante. Poderia dizer, repetindo Stuart Hall, que há uma fragmentação da identidade, e estaria politicamente correto, mas prefiro pensar que nós, contemporâneos, estamos formando uma identidade, cada qual a sua maneira. Quanto à classificação, só com o tempo é que se pode estabelecer, e tem muita coisa pela frente para a minha geração.

LT - Na sua opinião, qual é o status da literatura baiana de hoje nos grandes centros culturais brasileiros?

JIVM – Status de província. Os escritores baianos não são lidos nem na Bahia, quanto mais no resto do país. Existe meia dúzia de escritores baianos que são efetivamente lidos no Brasil. Outros são reconhecidos, mas pouco lidos. Esse processo não é diferente no Ceará nem em Pernambuco. Isso acontece em quase todo o país. Pergunto a você, qual o escritor de Santa Catarina, vivo... sobretudo poeta, que é lido em todo o Brasil? Não existe.

LT - Consideraria o nordeste atrasado em termos de mercado editorial? Qual a razão para os leitores nordestinos comprarem tantos livros de escritores cariocas, paulistas e gaúchos, mas consumirem pouco as pratas da casa?

JIVM – Realmente, o nordeste não tem um mercado editorial, até porque os leitores são poucos. O empresário vive de lucro, então não é maluco de investir em empresas que fazem um produto que não tem saída: o livro. Eu não sabia que os nordestinos liam tanto os escritores de São Paulo e do Rio.

LT - Acredita que o problema passe também pelo campo da política?

JIVM – o maior problema é político. Os caciques do nordeste não querem leitores, querem currais eleitorais. Essa mudança de governo, na Bahia e no Brasil, não mudou em nada a realidade. Aqui na Bahia, parece que só fez piorar.

LT - De que maneira a realidade social interfere no seu trabalho? Ou não interfere?

JIVM – Interfere na medida em que sou um cidadão e que sofro na pele as circunstâncias das decisões dessa gente. Agora, na minha poesia não sinto uma interferência dessa realidade. Como esclarece o Gerardo Mello Mourão, na contracapa de A infância do Centauro, “a vera e mera poesia não se infecciona nem se deprava com teses e causas sociais ou ideológicas, que serão boas ou ruins, mas não são a coisa do poeta e da poesia”. O meu trabalho caminha por essa seara.

LT - Acredita que a literatura tenha o poder de transformar o homem?

JIVM – Eu só considero como literatura textos que sejam capazes de despertar no homem o pensamento e a vontade de buscar novos horizontes. Para mim, enquanto poeta e leitor, a poesia é salvação.


sábado, 10 de maio de 2008

CANTINHO DO CONTO: O CANTO DE ALVORADA

Aleilton Fonseca


O dia já clareava, com os avisos dos pássaros. A hora certa do canto de Alvorada. Era um belo galo, senhor absoluto da primeira hora da manhã. O nome era um batismo de fé num futuro de glórias. Alvorada, desde frangote, já dominava o terreiro: distribuía bicadas nas canelas dos galinhos que ousassem desafiá-lo. Mestre Ambrósio, anos a fio a criar galos de raça, saberia a hora certa de fazê-lo descer à rinha para brigar. Criador experiente, em cada ninhada escolhia o filhote que daria um lutador imbatível durante várias temporadas. Muita fama, algum dinheiro, sensação e certeza de que a rinha continuava firme, apesar da recente proibição. Na cidadezinha, um lugar sem outros atrativos, muitos gostavam das rinhas, nos finais de semana. Era a única diversão de peões, feirantes, pedreiros, vendeiros e até de algumas pessoas influentes, que ajudavam a manter a rinha funcionando.
Mestre Ambrósio confiava no futuro de Alvorada. Aquele galo, sim, o melhor de todos. Ia ser, com certeza. Na hora certa, quando estivesse preparado, com esporões em riste, entraria na arena para estraçalhar. Com apostas de favorito, transformaria em pinto qualquer um dos valentões calejados de pelejas e vitórias. Os freqüentadores da rinha acompanhavam o crescimento do galo, admiravam-se da dedicação do tratador e de sua fé na força do animal. Alvorada já era famoso na praça, antes mesmo de iniciar sua carreira de glórias. Era conhecido dos maiores apostadores, que já viviam na expectativa de assistir a sua grande estréia. Alguns arriscavam uma proposta pelo futuro campeão, ouvindo todos a mesma resposta firme do treinador:
— Este galo eu não vendo por dinheiro nenhum.
O galo já valia uma fortuna. Promessa certa de grande desempenho. Os apostadores queriam vê-lo em ação, mas mestre Ambrósio não tinha um qualquer de pressa. Já adulto, o animal estava forte e arisco, não encontrava páreo nas lutas de treinamento. Do alto de seu canto, agitava as asas com firmeza e harmonia, riscava o chão, marcando seu território, absoluto no terreiro. Galos experientes, com vitórias contadas, apanhavam, baixavam a crista diante das bicadas e dos esporões do futuro campeão. Mestre Ambrósio sorria satisfeito. Tinha certeza, já previa os lances das melhores brigas no meio da rinha. Alvorada faria estrago, invencível anos e anos. Ia ser, mas na hora certa. Por enquanto, esperassem.
Ambrósio sabia: era preciso ter calma e calcular o momento certo da estréia. Uma coisa era o terreiro, calmo e arejado. Outra coisa era a rinha, o círculo apertado, o barulho da platéia, a pressão dos olhares. Alvorada tinha força de brigão, mas ainda não estava pronto: faltava muito pouco.
O criador tinha uma afeição diferente por esta ave. Era o resultado de muitos cruzamentos de galos de raça com as fêmeas mais ariscas. Desde que deitara aqueles ovos de casca áspera, mais dura que o normal, tivera a intuição de que um deles daria um macho dos melhores já produzidos no seu terreiro. Acompanhou o choco passo a passo, cuidou para que a galinha não demorasse de voltar ao ninho, para que os ovos não esfriassem nem gorassem. As semanas se passavam; agia ali a natureza, com seu ciclo perfeito. O futuro galo de briga ia-se gestando.
Quando os ovos começaram a se romper, um deles exigiu bicadas mais fortes do filhote. Ele veio à luz, estreou um pio repetido, forte, meio esganiçado, desde já imponente. Era um bom sinal. Certeza de canto firme e asas poderosas. Por coincidência ou cuidado, Ambrósio estava por perto e ajudou a alargar a saída, afastando as cascas com a unha. Riu satisfeito ao receber a primeira bicada do filhote em seu dedo. Ali estava, talvez, o animal tão esperado.
Mestre Ambrósio tocava há tempos o negócio da criação de aves de raça. Mas o que o empolgava mesmo eram os galos de briga, paixão herdada do velho pai. Nas tardes de sábado, a rinha era como um estádio. Os aficionados chegavam de vários pontos da cidade, com seus animais de estimação super bem-tratados, transportados em tipóias típicas, bordadas por suas mulheres ou encomendadas às costureiras das vizinhanças. Eram interessantes essas peças, com suas abas, com alças semelhantes às de sacolas de tecido, um bojo onde se colocava o corpo do animal e com dois furos paralelos, por onde passavam as pernas que iam pensas, pelas ruas, ou em guidões de bicicletas.
A rinha fazia parte da tradição do lugar, funcionava ali há mais de cinqüenta anos. Um grupo de trabalhadores do interior de Sergipe ali se estabelecera, trazendo a novidade. O finado mestre Jorge, pai de Ambrósio, trouxera da terra natal, junto aos patrícios, os primeiros galos de raça e de briga, com a idéia e o sonho de tocar uma rinha. Começou com a cara e a coragem, devagar, com dedicação e vontade. O negócio foi prosperando aos poucos, com a criação e a venda de aves de raça. Mestre Jorge foi desenvolvendo seu tino de treinador, ganhou a experiência de preparar os frangotes para a luta. Os bichos, uma vez adultos, bem nutridos com milho e ração preparada em casa, tornavam-se pequenos gladiadores de pena.
A rinha era um templo: espaço de consagração e decepção, entre vitórias e derrotas. Ali começava ou acabava a fama de um galo de briga e de seu dono ou tratador. Tal como uma praça de touros, a rinha se desenhava enquanto palco de vida e morte. Os animais se enfrentavam com uma fúria silenciosa, olho no olho, crista a crista, a bicadas e golpes de esporões afiados. O sangue e as penas, num ruflar de asas ariscas, cristas dilaceradas, os pescoços arrepiados. As batalhas levavam horas e se transformavam em tema de discussões, dias e dias. Nas paredes, algumas fotos antigas, outras mais recentes, os assentos de madeira em volta, como uma pequena galeria de circo. Era uma arena trágica para os galos, o deleite dos amantes do estranho esporte.
O galo que perdia o combate cambaleava até cair. Moribundo, ia para os tratos com ervas e ungüentos que pudessem recuperá-lo aos poucos, se agüentasse. Curado, poderia mais tarde retornar à rinha para as grandes revanches. Porém, se morresse em combate, ia direto para a chamada panelada de sábado, degustada pelos participantes do esporte, regada a cerveja. Já os vencedores cresciam no conceito de todos. Seu dono amealhava considerações. As apostas subiam cada vez mais. O animal pegava valor no preço, como subia o valor de um canário que cantasse melhor após a primeira muda de penas.
O tempo glorioso de Mestre Jorge passou. O velho tratador não resistiu à decepção de ver o seu melhor galo, pelo qual chegara a enjeitar uma oferta alta em dinheiro vivo, perder uma luta e morrer na rinha. Trovão caiu feio, sangrado por um franguinho de primeira luta. Um golpe de sorte, um puro acaso. O velho Jorge entendeu o pressentimento que tivera naquele dia. Não tivera tempo de fazer a simpatia especial que dava mais força ao galo. Subestimara o inimigo, e Trovão morreu. O tratador, chateado demais, quebrou as regras: não deixou que levassem Trovão à panelada daquele sábado. Enterrou o galo no terreiro, como um ente querido, ao lado de seu saudoso cachorro perdigueiro. Depois disso, o velho Jorge perdeu a graça, ficou triste e desanimado. Não preparou nenhum outro galo de briga. Morreu com essa tristeza, sem jeito que se desse.
Mestre Ambrósio herdou o lugar do pai. Desde menino já acompanhava o velho, ajudava no trato diário das aves, aprendia a profissão por vivência e entusiasmo. E agora, experiente e afamado, sabia que cada galo tem a hora certa de subir ao ringue, encarar o inimigo de frente, sem cacarejar. Havia lá uns segredos que guardava para si mesmo, algo como uma superstição, que ele empregava. Quando preparava um galo para briga, tratava-o de maneira especial. Deixava-o a sós com as galinhas, dono do terreiro, por três dias. O galo ali se sentia senhor absoluto, sem rival que lhe disputasse as fêmeas. Horas antes da luta, o mestre recolhia a ave, prendia-a num abrigo ali mesmo no terreiro, e soltava outro macho em meio às galinhas. O lutador, privado de seus privilégios, e vendo o rival livre para desfrutar de suas fêmeas, ficava inquieto, riscava o chão com as esporas, cacarejava alto, inconformado. Dali saía para a rinha certamente com muita raiva acumulada. E descontava no adversário, com toda fúria, castigando-o a bicadas certeiras, com esporões vingativos. Depois da luta, o galo treinado por mestre Ambrósio regalava-se de volta ao convívio com suas fêmeas. Esse era o segredo a sete chaves que tornava mestre Ambrósio um treinador respeitado, já que vencer seus galos era um desafio quase impossível. E nisso também se apostava, quando e quem o venceria. A fama corria, vinham tratadores de outras cidades, e mais de longe, adversários cada vez mais qualificados. Galo de Ambrósio era invencível, até que um dia se provasse o contrário.
Muitos queriam ver Alvorada lutar. Alguns para admirar os lances de perícia adquirida nos treinos, outros com sede de ver o tratador derrotado.
— Está com medo de botar o galo na rinha, compadre?
A provocação irritava mestre Ambrósio. Por que tinham tanta vontade de derrotá-lo, se ele preparava galos para todos, se proporcionava espetáculos que valiam pelas apostas e pelas diversões? Ora, talvez por isso mesmo. Tudo fazia parte da mesma festa. A sede de pequenas crueldades permeava aquele esporte esquisito. Uma delas era o gosto de ver o favorito perder a briga, pela emoção da surpresa e do desafio. Degustar a carne de um favorito, inesperadamente derrotado, era talvez mais saboroso. Mestre Ambrósio se preocupava com isso. Mas estava certo de que não iam conseguir derrotá-lo. Alvorada estava pronto para brigar bonito, de igual para igual, com o melhor galo que aparecesse. Com a velha simpatia que pai lhe ensinara deixaria o galo enfezado e feroz, capaz de derrotar o qualquer que o desafiasse. Mas, e se não fosse um dia bom? E se Alvorada perdesse a briga, como acontecera com Trovão há tantos anos? Este era o receio do tratador, pelo amor que sentia pelo galo, um verdadeiro animal de estimação.
— Como é, vai ou não vai botar o galo na rinha? Ou está com medo?
— Vou, claro que vou. Vocês vão ver.
Espalharam o boato de que Alvorada subiria à rinha na próxima jornada de lutas. As apostas foram se multiplicando, nas rodas de conversas, nas praças, nas feiras. Era clima de festa esperada, sem volta. Mestre Ambrósio, de surpreso com a notícia, se viu enredado, que não podia recuar. Mas o treinador se perguntava se o galo estava mesmo pronto. E não havia jeito de adiar a estréia no sábado. As apostas cresciam, a notícia da luta se espalhava entre os interessados, corria até nas cidades vizinhas. Alvorada havia de subir à rinha sem falta, sob pena de provocar pilhérias, descrédito, desmoralização. E isso Ambrósio não podia tolerar. O galo estava bem treinado, forte, em forma. Certamente estava pronto para a briga. Mas isso garantia que iria vencer? No terreiro, o tratador observava a ave, que ciscava despreocupado, soberano. Ora, Alvorada venceria qualquer peleja.
No sábado a rinha estava apinhada, entre conversas e animação, na torcida pelos galos, nas brigas preliminares. Os homens se acomodavam como era possível, na casa lotada, com visitantes de fora, alguns estranhos, com seus galos a tiracolo, gente de outras bandas. Chegava a hora de se definir o adversário de Alvorada, pela escolha da platéia, ou pelo desafio da maior oferta em aposta. O desafiante firmava o valor da aposta que oferecia, como uma espécie de leilão da luta. Entre os desafiantes, dentre os da cidade, apenas dois fizeram um desafio, porém sem convicção de que pudessem vencer. Naquelas circunstâncias, seria honroso desafiar o galo de Mestre Ambrósio, ainda que para dali ver sua própria mascote ir direto para a panelada de sábado.
Na hora de firmar o desafio, surgiu, da última fila, a voz de um visitante. Era um homem moreno, estatura média, cabelos grisalhos e bigode ralo. Nunca fora visto antes por ali. Trazia um galo à mão, numa tipóia bem bordada, o bicho de olhos vivos, piscando sem parar, como se nervoso com o barulho do ambiente, de prontidão para a luta. Com voz pausada, o homem fez, em desafio, uma aposta dez vezes maior que qualquer outra oferta já cantada naquela rinha. E diante dos olhares surpresos e silenciosos dos presentes, o desafiante se apresentou.
— Sou Manuel Ramos, venho de Estância, cidade de seu pai. Sou filho de um velho compadre de Seu Jorge. Eu também trato de galos de briga; aprendi com meu pai . Eu soube de sua fama, resolvi vir para o desafio. Este aqui é o melhor galo que já tive na vida. Venho cuidando para que seja um vencedor. Estréia hoje para valer, igual a seu galo. Vamos ver quem é melhor.
Mestre Ambrósio coçou a nuca, acariciou a crista de Alvorada na tipóia vermelha, com frisos brancos. Pensou um pouco. Não havia mais jeito. O desafio estava posto de forma irrecusável. Era confrontar Alvorada contra o galo do visitante, que aparentava ser um treinador experiente, firme e confiante. Era um lance arriscado, mas não podia recusar.
— Muito prazer, seu Manuel. Aceito a aposta – disse, com certa preocupação, diante do vozerio geral.
Na hora da luta, cada tratador fazia os preparativos finais para o combate. Acertavam os esporões de metal nas patas dos bichos. Massageavam as asas e o pescoço, apertavam o bico abrindo e fechando algumas vezes, faziam gestos de avançar com a mão sobre a ave para apurar os seus reflexos. Diante da expectativa da platéia, inquieta, em conversas e comentários animados, era hora de se iniciar o combate. Como um ritual, os galos eram apresentados à platéia, seguros pelas asas pelos treinadores, em lados contrários da arena de luta. Assim alçados, ao sinal de uma contagem de um até três, soltavam-se as aves na arena mortal.
Os dois galos logo se encararam, arrepiando penas do pescoço e das asas, cabeças em riste, olhos adrenalinos. Reconheciam-se já em disputa pelo mesmo espaço, correram para o centro da rinha, em franco combate. Era a sorte lançada. Um balé de gestos agressivos, numa coreografia de volteios, saltos, golpes, espera, avanços e recuos, diante da gritaria animada dos torcedores em volta. Dois galos bem treinados, uma briga com lances espetaculares, como poucas vistas por ali.
Eu, narrador futuro, me espremia num canto, mais atrás, firme na ponta dos pés para ver os lances da briga. Sorrateiro, bem quieto, com medo de ser posto para fora, pois proibiam meninos naquele lugar. Mas o dia era de total atenção ao centro da rinha, ou, pelo simples, toleravam minha presença discreta. A cada bicada, a cor avermelhando-se nas cristas e pescoços dos galos, isso me deixava preso no misto de angústia, pena, expectativa, sem saber para que ave torcer, com medo de ver uma delas, cada qual tão bonita, cair derrotada na rinha, entregue ao abate, direto para a panela.
Em meio àquela gritaria, as aves guerreavam, em gestos acirrados, mostrando os efeitos de treinamentos requintados. Manuel, nervoso e arisco, gritava para seu galo desafiante: — Vamos, Veloz! – revelando o sugestivo nome do combatente. Mestre Ambrósio permanecia calado, concentrava-se em estudar, nos lances dos animais, qual era a tendência da luta. Embora calado, notava-se uma aflição no seu cenho enrugado. Ele sabia quando uma briga era das mais ferozes, daquelas que deixava um galo morto e outro bastante estragado. E essa era uma briga das mais perigosas. Ele avaliava o esforço das aves, sentia pelos saltos e golpes de Veloz que Manuel era um excelente treinador.
Ia a luta se desenrolando, de parte a parte, os bichos se atacavam, se revezam em golpes mais fortes. Veloz era melhor nos saltos, quando suspendia o esporão de forma perigosa para Alvorada. Ia acertando-o na coxa, sempre arriscando encaixar um golpe certeiro, talvez mortal. Esses golpes repetidos serviam para minar a resistência do inimigo pouco a pouco, deixando-o sem forças para saltar, para avançar. Com tempo, ia se cansando, ferido na base, acabava se entregando aos golpes fatais do adversário. Alvorada era mais forte, atacava com mais consistência e às vezes acuava Veloz num ponto da rinha, de um lado ou do outro. Havia equilíbrio, a luta mostrava-se empatada, sem vantagem clara para uma das aves.
Nas brigas de galo acertava-se, por acordo, um intervalo. Servia para descansar um pouco os lutadores, quando se julgava a luta empatada. O treinador podia ajustar as esporas dos bichos, limpar os pescoços sanguinolentos, massagear o peito, refrescar com um curioso banho. O treinador enchia a boca de água gelada, segurava a ave diante de si, na altura do seu rosto e borrifava, soprando o líquido da boca no corpo da ave, daí massageando o peito e as coxas para aliviar as dores e a tensão. Alguns acariciavam seus galos, até beijando-lhes o pescoço como incentivo à luta. Mas cada treinador só podia pedir um intervalo de cada vez, e se o outro concordasse. Só tinha direito a novo pedido, depois que o adversário usasse o mesmo direito.
A briga empolgava a platéia. Os galos não decepcionavam. Alvorada distribuía toda a sorte de golpes, conforme seus treinos mais requintados. Veloz, no entanto, era um galo surpreendente, forte, bem treinado, ou mesmo o que se diz: — um galo bom de briga! Um páreo duro para mestre Ambrósio. Os bichos seguiam em saltos, bicadas, negaceios de asas, olho no olho, procurando acertar um ao outro com os esporões em riste. Um balé de golpes e saltos, desenhando ziguezagues na arena, uma coreografia que deixava respingos de sangue pelas cabeceiras do ringue, no revestimento de um tecido rústico com enchimento acolchoado. A platéia admirava-se da disposição das aves na briga. Os mais empolgados faziam novas apostas. Alvorada e Veloz recebiam novas cotações. A torcida quase que dividida, uns até apostando num improvável empate, se ambos restassem vivos, mas esgotados, sem forças para lutar. Seria uma pena se um daqueles magníficos galos viesse a morrer, numa carreira de luta tão curta, mal iniciada. Podiam dar espetáculos contra inimigos mais fracos, fazendo o delírio dos torcedores.
Este narrador espichava o pescoço, procurava acompanhar a dança de golpes pelo tablado, prognosticando o fim das duas aves. Parecia-me que ambas estavam prestes a cair mortas, mutuamente vencidas, causando um silêncio de pena. Seria um castigo para todos aqueles homens.
A briga continuava e Veloz agora parecia estar em vantagem, acertando mais bicadas do que levava. Alvorada lutava, mas sempre recuando, com saltos cada vez mais baixos, sem alcançar vantagem contra o inimigo. Manuel, satisfeito com o desempenho de sua mascote, observava de esguelha, verificando o ânimo de mestre Ambrósio, se ele entregava os pontos. Mas a regra era clara, se o tratador entregasse os pontos, o galo perdedor saía desacreditado, jamais voltava a lutar na rinha. E Alvorada não merecia tamanha desonra, já que, em desvantagem, bastante machucado, lutava sem medo contra a fúria de Veloz. Mestre Ambrósio, observador experiente de quantas lutas, sentia que os golpes de seu galo atingiam o inimigo, mas não faziam um bom efeito. E viu que, pela posição que Veloz adotava, os esporões de Alvorada não o alcançavam em cheio. Restavam forças para reagir, mas os golpes não surtiam efeito. Assim, a sua derrota era uma questão de tempo, suas forças iam-se minando, o cansaço ia-lhe abatendo. Só um intervalo poderia reverter a situação, corrigindo-se o ângulo das esporas de metal. Era preciso fazer algo: uma parada, um borrifo de água gelada, uma massagem no peito, algo que salvasse Alvorada da derrota. Mas era nítido que Veloz estava vencendo e Manuel não consentiria em parar a luta. Confiante, enfrentava o olhar nervoso de mestre Ambrósio, diante da gritaria da platéia, que sentia a proximidade de uma definição na luta, uns apreensivos pelos valores apostados, outros comemorando a vitória iminente.
Os gritos se chocavam: Veloz! Veloz! Alvorada! Alvorada! O galo de mestre Ambrósio cambaleou pela primeira vez, junto à borda almofadada da rinha. Mas seguia lutando, aplicando os golpes de esporão, mas sem atingir o alvo em cheio. Nesse momento, o tratador sentiu perto o perigo de perder sua ave predileta. Pensou em fazer algo, pedir uma pausa, sair da luta, salvar Alvorada. Mas não tinha coragem de ceder, pois sentia que o galo queria lutar, espanando as asas, perdendo penas, o sangue escorrendo da crista. Eram lances fortes, bicadas firmes, esporeadas no ar, cortes nas coxas dos gladiadores de penas, ambos sangrando, bicos abertos de cansaço, penas espalhadas pelo chão. A platéia, quase em delírio, seguia gritando a cada lance mais espetacular, aos gritos: “Vai! Aí! Bica! Vai! Sangra! Mata!”. Era a expectativa de um lance fatal. Pelos movimentos da luta, muitos já esperavam ver Alvorada tombar vencido.
O galo de Ambrósio cambaleou mais de uma vez e, diante de uma bicada forte de Veloz, os torcedores já esperavam de pé pela queda fatal. Ali, quase solenemente, fez-se um silêncio longo. Uma espera, uma aflição, um galo bicava, o outro retrocedia, sem ânimo. Então mestre Ambrósio, meio que em desespero, quebrou sua tradição: de calado rompeu a pular e a gritar, com as palavras de incentivo que usava ao treinar o seu galo.
— Eia! Vai! Pega! Reage, Alvora! Enfrenta! Alvora!
Era só sua voz no recinto, nervosa, quase embargada, uma lágrima vinha brotando dos olhos cansados do velho tratador. Foram a voz e os apelos de Ambrósio? O que foi que deu ânimo novo ao galo? O que se sabe é que Alvorada soltou um cacarejo como um gemido de aflição, agitou as asas, riscou o chão e partiu instintivamente para cima do inimigo. Veloz, num lapso de surpresa, abaixou um pouco o corpo, recuando. Alvorada, por estar meio desequilibrado, acertou de lado, com o esporão em cheio no pescoço do inimigo. O golpe prostrou Veloz na rinha e este foi o último gesto de luta de Alvorada, que ambos tombaram lado a lado, com as cristas e os pescoços ensangüentados.
A luta chegava ao final, já se apurava o resultado. Ou se considerava o empate por esgotamento, ou o empate por morte dos dois galos. Já se examinavam as aves, daí logo constatando: Veloz, sem reação, não respirava: estava morto, vencido, nas mãos de seu dono desapontado. Veloz, conforme a praxe, seguia dali para se juntar aos demais perdedores da tarde, como iguaria da panelada. Alvorada, sem reação, ainda respirava: estava vivo, embora extenuado. Já recebia os cuidados nos braços de mestre Ambrósio, agora feliz, aliviado.
Esportivamente, Seu Manuel veio cumprimentar o mestre, e pagar a aposta devida. Prometia voltar para novas jornadas. E assim avaliou:
— Foi uma boa luta, em verdade um empate – disse, traindo no ritmo da fala uma certa tristeza. Dobrou a tipóia de Veloz, tentou enfiar num dos bolsos, mas não conseguiu. Então, olhou-a mais uma vez e atirou num canto, na minha direção. Eu peguei a tipóia do galo vencido, guardei como troféu que até hoje figura em meu velho baú de lembranças.
Seu Manuel se despediu, que já ia pegar a estrada, de volta a sua cidade. Ali, de ouvidos atentos, ouvi as suas observações, que deixaram Ambrósio em silêncio, preocupado.
— É uma pena. Seu galo é muito bom, mas, assim ferido, dessa noite não escapa.
Aquele sábado terminou em festa, com rodadas de cerveja, cantigas ao som de sanfonas e violões. A panelada já ia para o fogo e a expectativa era grande, pois diziam que galo bravo dava mais caldo, tinha mais sabor.
Mestre Ambrósio não ficou para comemorar. Seguiu para casa com o seu campeão na tipóia, muito ferido, num silêncio que só cedia a um ruído de cacarejo impossível, como gemidos de dor. Em casa, Ambrósio preparou beberagens que lhe enfiou bico adentro, passou ungüentos medicinais no corpo do bicho, tratou os ferimentos da crista, fez curativos no pescoço. Agasalhou Alvorada num ninho especial, com serragem e maravalhas finas, num canto bem arejado do terreiro. Ele se sentia culpado pelo sofrimento do animal, e orgulhoso pela vitória contra o pior inimigo que já vira na rinha. Manuel era um treinador dos melhores, com certeza. Ambrósio acariciou seu galo de estimação, abaixou-se e o beijou no bico. E, aproximando-se das aurículas do bicho, disse: “Boa noite, velho!”. Mas logo voltou, para ficar observando-o mais um pouco. “Você vai escapar dessa, velho”, ainda disse. E daí se recolheu, entre enternecido e confiante.
Na cama, sua mulher, Dona Dália, já ressonava, que dormia sempre mais cedo. Ela detestava brigas de galo. Já deitado, mestre Ambrósio sentiu o cansaço do dia, dos anos, da vida. Pela primeira vez sofrera de verdade com uma briga de galo. Sentira um aperto, quase uma dor no peito, com medo de perder. Não pela aposta em si, mas pela vida do galo. Não queria ver o bichinho cair morto diante de todos, virar tira-gosto de sábado, devorado com cerveja. Agora, Ambrósio sentia: Alvorada não era apenas um galo; era seu animal de estimação, mais que um amigo. E se emocionou, lembrando do trato diário com o pinto, o frango, o belo galo. Vinha-lhe a decisão firme. Nunca mais entregaria Alvorada à rinha. Deixaria essa vida de uma vez, como Dália vivia pedindo. Livre, Alvorada viveria solto pelo terreiro, a cobrir as galinhas de raça, como um verdadeiro reprodutor. Era o melhor galo de todos os tempos. Merecia ter uma linhagem, ninhada após ninhada. Os filhotes de Alvorada iriam povoar todos os terreiros, com aquele porte de campeão invencível, com aquele canto que encantava a manhã. Um canto que fazia os pássaros suspenderem a voz para ouvir.
Ambrósio estava sem sono, via a noite se arrastar. Como se sonhasse de olhos abertos, revia os piores lances da luta. Imaginava Alvorada morto, como seria sua enorme tristeza. Mas logo revia as melhores cenas, e o lance final da luta: o galo inimigo tombando, Alvorada reagindo, olhos semi-abertos, ferido mas vivo, vivo como sempre. Alvorada vivo!
A madrugada declinava, começava a clarear, com os avisos dos pássaros. Era a hora certa, como todo dia era, do canto de Alvorada. E, de repente, esquecido das feridas da ave, que também doeram, agudas, dentro dele, Ambrósio apurou bem os ouvidos. E de lá do terreiro, ouviu o canto de Alvorada. Era o belo canto de sempre, absoluto sinal de vida, entre os primeiros raios da manhã. Era um canto nítido, claro, imponente, superior: este canto, este que só mestre Ambrósio ouvia, e de agora para sempre ouviria, todo dia. Porque, nas redondezas, outros cantos longínquos assumiam o vago romper da manhã. No terreiro desolado, era só a alvorada que rompia e se elevava, e era alva como todos os dias. No entanto, estava envolta num silêncio de luto – que só se escutava, ali e além, o canto triste dos passarinhos.


Aleilton Fonseca nasceu em Firmino Alves, BA (1959), viveu em Ilhéus, Vitória da Conquista, João Pessoa, São Paulo, e reside em Salvador. Cursou Letras (UFBA) e fez doutorado na USP. Foi professor na Université d’Artois (França), em 2003; Hoje atua na UEFS-Bahia. Publicou Jaú dos Bois e outros contos (1997), O desterro dos mortos (2001), O canto de Alvorada (2003) e Nhô Guimarães (2006). Co-organizou vários livros. Recebeu, entre outros, o Prêmio Nacional Herberto Sales (ALB-BA, 2001) e o Prêmio Marcos Almir Madeira (UBE-RJ, 2005). É co-editor de Iararana - revista de arte, crítica e literatura, correspondente de Latitudes: “cahiers lusophones” (França), além de membro da Academia de Letras da Bahia.