sábado, 31 de maio de 2008

A GEOLÍRICA DE JIVM

Foed Castro Chamma

Há em José Inácio Vieira de Melo ressonância tardia do Aedo na maneira de conduzir o poema visando ao ouvinte. A passagem pelo cordel identifica-o com uma tradição poética nordestina de eminente vínculo telúrico emoldurado na década de 30 pela saga imorredoura de Lampião e Maria Bonita. Ariano Suassuna, de um lado, e Carlos Newton Júnior de outro, revigoram sob a centelha armorial do Romance da Pedra do Reino e a epopéia Canudos essa tomada de posição de José Inácio em uma poesia alagoano-baiana fulgurante, marcada diria mesmo a ferro e fogo em todos os poemas de A Terceira Romaria (Aboio Livre Edições, Salvador – Bahia, 2005).
Hildeberto Barbosa Filho no prefácio à edição que traz o apoio do Governo da Bahia discorre sobre “as pulsões vitais dos vocábulos” ao apresentar A Terceira Romaria. A essas pulsões o leitor se detém seguro de que o poeta “sobe a pedra, vai para o alto”, como a cabra (p. 73), busca ali o pedestal, “onde estão o menino e a arte” a contemplar “os olhos daquelas línguas”... As vozes que ouve dizem, “preciso prosseguir”. A metáfora ou pequeno mito na acepção crítica de Franklin de Oliveira é a algaravia do poeta ao rasgar a violência com a bala que dois loucos disparam,“decifrando os segredos das cavernas”. (...), “as tranças azuis de uma poça, ou gota, ou nuvem.”. O vinho é o “sal do mar” dos olhos a inscrever a verdade. Uma pingueira precipita o poeta a lonjuras de um espelho onde a sombra lava os “pingos do sol”. As plagas dos sertões, o parir do sol, o seixo das estradas e o informe são o labirinto de “O homem da estrada”, p. 30.. “Na boca da noite (...) sou eu quem sorri.” Um cavalo montado na ventania/ o candeeiro aceso pelo homem/ a orquestra das cigarras/ são ingredientes de um “Poema obscuro” construído de madrugada por falta do que fazer, confessa JIVM. “Força verde” do Juízo Final (...) são os “Caramujos” de Manjerona, Paixão, Fachada, Meia-Noite, a ouvir o mar. Em “Tradição” p. 36, a bezerra da Paixão é ferrada por Zé Inácio. Em “Nuvem passageira” (...) um cavalo negro galopa pelos campos azuis. É um dragão cuspindo fumaça, conclui para mais adiante.o poeta confessar que sente “a chuva de leite nos olhos, tem as mãos encardidas de leite, entende-se com as beldroegas (p. 38) . “peitos brutos da brita” é melhor do que “se ordenhar” em “êxtase orgástico”. A figura de “Ciço Cerqueiro”, por outro lado, e a força da coalhada, são o resumo do “Sertão” (p. 39) em um desenho que lembra os carvões de Goya.
José Inácio Vieira de Melo, em descontraída alusão à metafísica da dualidade, díada do ser na negação, que Hegel aborda na Lógica e na Fenomenologia do espírito, ao referir-se à realidade, se confessa “Peregrino de mim mesmo/ no meio da travessia”. A centelha do azul da infância está na brasa da lembrança da tarde queimada no “meio do tempo”. A lua é um voyeur da deusa morena e dos gemidos de cantigas dos deuses. A mudez do urubu é em “forma” de canto, “Disritmia” é vislumbrar o silêncio na menina de teus olhos. Há uma tautologia em meio a tantas metáforas contundentes: “os oráculos não se enganam” (p. 52). Tâmara, sâmaras, cântaros, ancas, tetas, punhais, bodas, são termos a unir Granada de Lorca ao mundo do Sertão nordestino. O galo de sangue de fogo adivinha a beleza que o poeta decanta ao evocar o “Bailador gitano.”, p. 54.
Em “Toada de Despedida”, a certeza de atemporalidade sobrepaira na simultaneidade virtual de um registro a denotar o Acaso de Um lance de dados mallarmeano. “Brasas do Sol” é o lugar do poeta na decantação do agreste. Suspenso num suspiro, deita-se debaixo do pé de algaroba esquecido das “chaves” e das “palavras”. O fugaz é eternidade na pedra que o poeta pisa e o arvoredo brota, afirma (p.66/7), tal a palha da eterna fogueira de um “eu que és tu e tu és eu”. O mundo é o acender uma luz e revelar o lugar ao filho do Sol, Ígneo – Ignácio – Inácio.
Hildeberto Barbosa Filho escava a “metalingüística do concreto” na poesia nordestinada de JIVM, visceralmente comprometida com o Mito. O “chão rachado” é “solo sagrado”. Um silêncio de fogo fala por José Inácio, “silêncio plural a abrasar as palavras”. “Carotes de lama são as águas” da “Seca”, p. 82, “espelhos d´água e pratos fartos” são a esperança. A água canta loas, o rio acalma. O poeta agradece “ao único Deus qualquer”. No “Jardim das Algarobeiras” os pássaros cantam, a vaca muge, o cavalo relincha, a rã coaxa. (....) O galo inaugura o dia, o vento é andarilho.
Fiat lux: (p. 97.), repitamos, acrescentando-se que no brilho das metáforas de JIVM resplandece um deus. Ao mirar a roça de estrelas o sono é sereno ao pastor peregrino no “Deserto” a buscar o silêncio do corvo doido frente à “Zoada” que o aflige, p. 103. O verso tem leveza de folha. A poesia é salvação. “Um mar de vidro no espelho nos separa”, conclui o poeta. Em aromas da rosa da “Pastora”, José Inácio parodia uma antífona. “A Sagração do Pecado” é “malícia silenciosa” a investir contra Menelau, Urias, Lot, Teseu, José. Quanta lembrança bíblica sugere a doçura do Amor. Em “Decifração de Abismos” está o amortalhar do gênio, p. 117. O menino (...) reconhece-se na “Ave”. O chocalho dos deuses chama o homem à cruz da paixão rumo ao nada, “à verdade de lugar nenhum”. “A morte promete jardins” ao brilho dos cacos de agora, p. 122. “O pó da estrada é o único fim” à boca escancarada a grafar com pena e tinta as palavras. A poesia marca a ferro e fogo, repito, a alma de José Inácio Vieira de Melo.
Tal à leitura acompanhando Hildeberto Barbosa Filho no prefácio a A Terceira Romaria. No núcleo de “O Universo da terra e da origem” não se esgotam as parábolas de uma “romaria lírica entremeada do topos “sagrado”. “Nos arredores de uma geografia rural” está a “memória poética” originária de Olho d´Água, terra natal de José Inácio. Ribeira de Traipu, Maturi, Cerca de Pedra, correspondem a uma geolírica repleta de um fulgor estilístico que enriquece a poesia brasileira contemporânea.
A projeção simbólica de “Bodas de Sangue” permeia a fala concreta do amoroso do Sertão. “Filho do Sol”, José Inácio Vieira Melo é inesgotável, como o João Cabral de “Uma faca só lâmina”. O poeta da poesia identificada com a vida está na sedução dos vocábulos, afirma Hildeberto Barbosa Filho. Imagens vertiginosas, acrescento, emolduram a realidade à espreita do canto em A Terceira Romaria.


Esculturas: Ramiro Bernabó

Foed Castro Chamma é poeta e ensaísta. Publicou, entre outros livros, Pedra de Transmutação (Prêmio Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, 1984), Navio fantasma (1999) e Antologia poética (2001).

Artigo escrito em junho de 2005, publicado no Jornal de Poesia, editado por Soares Feitosa.

terça-feira, 27 de maio de 2008

VERÔNICA DE VATE: ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA BARRETO

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA BARRETO – natural de Santa Bárbara-Bahia. Professor, poeta e cordelista.. Graduado em Letras Vernáculas e pós-graduado em Psicopedagogia e Literatura Brasileira.
Vários trabalhos em jornais, revistas e antologias, tendo publicado mais de 60 folhetos de cordel que abordam temas ligados à Educação, problemas sociais, futebol, humor.
Seu terceiro livro de poemas, Flores de umburana, foi publicado em dezembro de 2006 pelo Selo Letras da Bahia. Ultimamente Antonio Barreto vem se dedicando à cantoria e ministrando palestras e oficinas de cordel em escolas públicas, particulares, faculdades e outras instituições.

Trabalhos sobre Literatura de Cordel realizados durante o ano de 2008:
OFICINAS: Colégio Vila-Lobos – Avenida Paralela – 27 de março de 2008. Caravana da Leitura/Fundação Pedro Calmon/Camamu - Bahia 25/26 de março – 2008. Caravana da Leitura/Fundação Pedro Calmon/ Igrapiúna-Ba.– 29 e 30 de abril de 2008. Escola Vila Lobos – 28 de março de 2008. Escola Estadual Genny Magalhães – Itapuã – 25 de abril de 2008. Colóquio da Cultura Popular – Irará-Bahia – 19 de março de 2008.
PALESTRAS: Semana pedagógica em Saubara. Tema: Leitura – 28/02/2008. Caravava da Leitura – Camamu-Bahia. Tema: Estímulo à Leitura – 25 de março de 2008. Colóquio da Cultura Popular – Irará-Bahia – Tema: Cordel e Cultura Popular - 18 de abril de 2008.
PARTICIPAÇÃO EM EVENTOS: Participação no show de João Bá – no Restaurante Grande Sertão- 26/01/2008. Cachoeira – 10 12 de janeiro. Dia nacional da poesia na Praça da Piedade – 14/03/2008. Recital no Banco do Brasil – 14/03/2008. Recital no Centro Tecnológico da Bahia – 14/03/2008. Lançamento do cordel : A peleja de uma mulher arretada com um cabra cismado” – 23 de fevereiro de 2008. Lançamento do cordel “As Aventuras de Zé Parabala no Sertão de Santa Bárbara – 8 de março de 2008. Sindicato dos Trabalhadores. Participação no show de Tonton Flores – Varanda do Cantador – Projeto de Wilson Aragão – Salvador-BA – 10 de março de 2008. Participação no show de Cescé – Varanda do Cantador – Projeto de Wilson Aragão – Salvador-BA – 24 de março de 2008. Participação no Projeto Encontro com o Escritor – Biblioteca Central e Fundação pedro Calmon – Salvador – 11 de abril de 2008. Lançamento do folheto de cordel “ Um político exemplar chamado Franscisco Pinto”- Colóquio da Cultura Popular – Irará-Ba – 25 de abril de 2008.
Antonio Carlos de Oliveira Barreto vai apresentar-se, no próximo dia 6 de junho, no projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, Bahia, coordenado por Edmar Vieira.


CANTO LÍRICO DE UM SERTANEJO


Sou do seio das catingas
lá das bandas do sertão
carrego na veia a essência
dos acordes do azulão
do açum preto o sustenido
da cigarra o alarido
da coruja a solidão.

Sou o Pajé lá da floresta
o Xamã buscando a cura
de toda ferida aberta
da mais profunda loucura
sonho eterno de menino
eu sou o badalar do sino
e o doce da rapadura.

Bode deserto no pasto
apartado do rebanho
Asa Branca em retirada
cobra que não tem tamanho
o tatu-bola escondido
um lobisomem sofrido
assanhaço sem assanho.

Sou caipira itinerante
águas velozes do rio
bem-te-vi anunciando
que andorinha está no cio
o verão queimando a mata
um cachorro vira-lata
todas as noites de frio.

Galo da crista vermelha
no seu despertar da aurora
berro do garrote magro
que o verão então devora
canário longe do ninho
voando sempre sozinho
desde as lonjuras de outrora.

Urubu buscando a presa
papagaio falador
gavião beijando as nuvens
inocente beija-flor
sou preguiça descansando
nessa estrada passeando
sem inveja do condor.

Galope incansável sou
do meu cavalo alazão
gozando da liberdade
indiferente à razão
que vai tangendo a boiada
numa longa caminhada
nos capinzais do sertão.

Todo sol de primavera
com seus raios de esperança
colorindo a nostalgia
esturricando a lembrança
incendiando o amanhã
das aves de ‘arribaçã’
e do meu sonhar-criança.

Eu sou o arrebol primeiro
com a corneta da alegria
convocando a passarada
a mais uma sinfonia
sou também o entardecer
e o escarlate-morrer
vestido de poesia.

Sou o amor dos inocentes
o vento abrindo janela
soprando nos meus ouvidos
que vai chegar Cinderela
promessas de uma princesa:
la belle de jour surpresa
que ainda espero por ela.

Sou a sanfona do “Lua”
pondo estrelas a dançar
espada de Virgulino
querendo sangue inventar
Conselheiro na idéia
coisas do arco da “véia”
tentando me alucinar.

Sou a imensidão do açude
suas águas cristalinas
lágrimas desatinadas
escorrendo nas colinas
todo o frio das invernadas
a solidão das manadas
as serpentes assassinas.

Picula, bumba-meu-boi
dança de roda ao luar
saci-pererê no mato
sou vaga-lume a piscar
cobra cega vendo tudo
sou caipira e não me iludo
colorindo meu sonhar.

Sonhar de pombo-correio
levando cartas de amor
atravessando caatingas
no seu singelo labor
fugindo lá das montanhas
realizando façanhas
com destino a Salvador.

Umbuzeiro solitário
contando estrelas no céu
mandacaru sem espinhos
a coivara em fogaréu
um tição de fogo aceso
e este mundo todo preso
debaixo do meu chapéu.

Sou o abôio dos vaqueiros
pelos ventos da alegria
nessa estrada empoeirada
seja noite, ou luz do dia
sou o berro da manadas
as estrelas prateadas
a viola e a cantoria.

O cantar de um menestrel
a flauta de Pan chorando
a gaita com seu lamento
a primavera chegando
o canto do bacurau
o Sítio do Pica-Pau
em meus sonhos habitando.

Sou o mistério luminoso
do pequeno vaga-lume
brincadeira de cometas
das rosas todo o perfume
sou a solidão das rochas
o fogo aceso das tochas
das noites todo o negrume.

As vestes das nuvens brancas
traduzindo calmaria
derretendo-se no solo
e arejando a escadaria
de Santa Bárbara amada
a Pasárgada comparada
para me dar moradia.

Cavaleiro, anjo de luz
nesse abrir-fechar porteira
explorando meu sertão
com bravura e brincadeira
mas logo se alguém se atreve
lanço fogo, água e neve
saco da espada guerreira.

Eu sou menino-ancião
porta aberta pro mistério
magia de Salomão
matuto falando sério
um compulsivo do estudo
querendo saber de tudo
mas às vezes sem critério.

Rodas do carro-de-boi
nas estradas do sem fim
com seu gemido sem cura
acenando adeus pra mim
apagando da memória
a doce infância de glória
desse louco querubim.

Eu sou uma casinha branca
cercada pela alegria
encoberta de esperança
que o futuro já anuncia
o chegar da primavera
e também da Nova Era
na mais perfeita harmonia.

Sou o breu que banha a noite
de suspense e de mistério
segredos da madrugada
silêncio do monastério
alarido dos pardais
a dança dos bambuzais
no tablado do etéreo.

Meu avô tirando leite
na vaquinha holandesa
canarinho na cancela
com seu canto de surpresa
minha avó fazendo renda
minha mãe com sua prenda
colorindo a farta mesa.

Minhas irmãs no varal
meus irmãos lá no roçado
abraçados à enxada
e também puxando arado
semeando seu sustento
desprovidos de lamento
tendo a sorte do seu lado.

Do jacarandá eu sou
fortaleza e solidão
sonho que desaparece
na iminência da extinção
ante o corte do machado
e a ganância do mercado
dessa industrialização.

Eu sou o acre do limão
laranja que nunca acaba
o gosto do tamarindo
o mel da jabuticaba
o maracujá açu
a castanha do caju
e o gostinho da goiaba.

Do jasmim sou todo aroma
do canavial o mel
da gaiola o passarinho
o esperar Papai Noel
o pavão e sua beleza
o verde da Natureza
o Maestro e seu pincel.

Mas o tempo em disparada
não me espera lá na esquina
quando do meu sonho acordo
minha vida então declina
e noutra realidade
solitário na cidade
vou cumprindo minha sina.

O trem que me conduziu
diluiu-se na estação
não há passagem de volta
pra retornar ao sertão.
Sem asas para voar
sem sonhos para sonhar
vou seguindo essa missão.

E na selva de cimento
já não sou anjo de luz
junto aos animais falantes
eu vou carregando a cruz.
Sou mais um na multidão
perdido na contramão:
o destino me conduz.

Mas não me entrego porque
sertanejo é mais que forte
é raio rasgando o céu
muito mais que o vento-norte
semente de luz plantada
todo desafio da estrada
de quem nunca teme a morte...


ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA BARRETO

POEMÁRIO DE UMBURANAS-DE-CHEIRO

José Inácio Vieira de Melo

Antonio Carlos de Oliveira Barreto, conhecido cordelista baiano, estréia na chamada poesia discursiva com o livro Flores de umburana (Selo Letras da Bahia, 2006). Ao contrário de boa parte da sua produção cordelística, que trata dos fatos cotidianos da sua província e dos acontecimentos do mundo globalizado, Flores de umburana segue por outro caminho – a trilha das ausências. Seus versos trazem as sensações de quem olha para as coisas e os seres e consegue experimentar o pasmo que há neles e a relatividade do seu trânsito ("o menino a contemplar/ as lágrimas de Heráclito// e o bem-te-vi/ anunciando ausências").
Flores de umburana é um livro que recende a aromas silvestres e a seiva nativa das caatingas. Traduz a força telúrica do seu autor, andarilho dos sertões. Barreto é um pastor de cantos a conduzir seus poemas pelas mesmas pastagens daquele guardador de rebanhos lusitano que apregoava na sua poética que “pensar é estar doente dos olhos”.
Mesmo quando caminha pelas formas fixas, como nos sonetos “Agalopado” e “Soneto do amor banal”, o primeiro vazado em hendecassílabos e o outro em heptassílabos, consegue ser leve e fluente como a brisa que povoa as paragens de onde provém, os sertões de Santa Bárbara, e nos transporta para dentro das imagens que evoca, não para pensarmos sobre elas, “mas para olharmos para elas e estarmos de acordo”, como nos ensina Fernando Pessoa por intermédio de seu heterônimo Alberto Caeiro, o já citado guardador de rebanhos.
A maneira descritiva e o poder de sugestão de seus versos, levam o leitor para dentro da paisagem que vai inventando, convertendo-o em parte desse cenário, ou seja, tornando-o parte daquela ordem, um elemento componente daquela organização.

O fogo dos ventos soprando do norte,
a noite azulada tangendo os abismos.
Na dança da flecha se vão os aforismos:
paisagens, caminhos, sertões, um galope.


Mais do que uma metamorfose, esse movimento pode ser compreendido como uma aceitação do processo natural e espontâneo da vida, pois apesar de descobrir “que a vida/ é puro arco-íris de/ interrogações”, sabe que “Ao meu controle foge o leme do destino/ tal o poema escapa de minhas mãos”. Essas impressões proporcionam um sentimento de integração com o Cosmo, e, nesse sentido, estamos diante não apenas de um poeta telúrico, mas também de um poeta holístico.
Em outros momentos, apresentar quadros de vivências, utilizando-se da linguagem suave que lhe é peculiar, a exemplo do belo poema “Primeira comunhão”, que trata das descobertas da infância e nos remonta ao primeiro alumbramento do mestre Manuel Bandeira:

A língua do vento
suspende a saia
da indefesa mocinha

O garotinho,
mais-que-surpreso,
rompe a timidez:

que linda Flor Negra!

E, como não poderia deixar de ser, Antonio Carlos de Oliveira Barreto, cantador de boa cepa, conclui esse poemário de umburanas-de-cheiro, que aponta para promissores caminhos poéticos, “Cordelizando”:

Sou do seio das catingas
Lá das bandas do sertão
Trago na veia a essência
Dos acordes do azulão
Do assum preto o sustenido
Da cigarra o alarido
Da coruja a solidão.


Resenha publicada na revista O Escritor n°116, da UBE, em agosto de 2007, em São Paulo. Revista editada por Izacyl Guimarães Ferreira.

domingo, 18 de maio de 2008

ENTREVISTA: JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO - UM MERGULHO NA NOITE DOS TEMPOS

Por Lima Trindade


José Inácio Vieira de Melo, nas palavras de Marcos Lucchesi, é um escritor que emociona. Sua lírica tenta desvendar o grande mistério da existência humana, fazendo da palavra canto e sagração. Dia 21 de julho, a partir das 9h30, ele estará lançando seu quarto livro, “A infância do Centauro”, na LDM Livraria Multicampi. Nesta entrevista, concedida ao escritor Lima Trindade – mestre em Letras pela UFBA e editor da revista eletrônica Verbo21 –, ele fala da infância no sertão, a influência que recebeu da Música Popular e sua visão do momento literário na Bahia e no Brasil. (Entrevista publicada no A Tarde Cultural, em 14 de julho de 2007, em Salvador, Bahia. - Fotos: Ricardo Prado. - Ilustrações: Juraci Dórea.).

LIMA TRINDADE - Poderíamos dizer que o tema da sua poesia, neste último livro, é o da não-memória, uma volta a um estado espiritual, infância que não é passado?

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Sim. É um mergulho na noite dos tempos. Digo isso num poema: “Meu cavalo e eu – Centauro do Sertão”. Pois bem, esse centauro encarnado, escarlate, é a personificação de um vaqueiro aboiando sua memória de volta ao caos primordial, é a representação de um peregrino que questiona os códigos da existência e mergulha no sol para se purificar e descobrir-se o Cavaleiro de Fogo. Lembrar, porém, que depois da noite dos tempos, surge a consciência dos dias.

LT - O eu lírico também é impreciso, abarca contrários, coexistem nele o homem urbano e dos sertões, criança e adulto, pai e filho. É este um sinal da maturidade chegando?

JIVM – É uma busca. As várias faces do ser se estranhando e, paradoxalmente, dialogando, percebendo os limites, as urgências circunstanciais da nossa condição de passageiros do desconhecido. É também uma tentativa de chegar ao cerne do sentimento ou, quem sabe, a uma compreensão de tudo isso, todos os conflitos, todas as dores. O Sertão do qual falo não é geográfico, é um modo de enxergar o mundo. Para mim, tudo é Sertão. Pra todo canto que olho, só enxergo Sertão. O ser do qual falo está perdido no tempo, mas é indagado em uma outra perspectiva, é visto nas esferas do delírio e por isso não tem idade e é atemporal. É criatura, mas também é criador. Como estou me aproximando da casa dos quarenta anos, pode ser que aponte para uma maturidade.

LT - Como foi o seu primeiro contato com a poesia e com a palavra escrita?

JIVM – Lembro-me de que, na casa de meus pais, havia uma coleção com os poetas românticos Castro Alves e Gonçalves Dias. Eu tinha uns oito anos e folheava sempre aqueles livros. Depois, já com uns doze, uma outra linguagem me trouxe a poesia dos livros. Comecei a ouvir com paixão a Música Popular Brasileira. Sobretudo os cantores nordestinos. De Luiz Gonzaga aos que estavam surgindo... gente como Alceu Valença, Zé Ramalho e, principalmente, Raimundo Fagner, musicador de poemas de Cecília Meireles, Patativa do Assaré, Florbela Espanca, Ferreira Gullar e tantos outros. Ouvia o Fagner berrar seus aboios, ia conferir no encarte do disco e encontrava quase sempre “música de Raimundo Fagner sobre poema de...” Aí eu corria para a livraria e buscava aquele poeta.

LT - Acredita na renovação da linguagem enquanto conteúdo. Aliás, vê diferença entre fundo e forma?

JIVM – A linguagem não é estática, está sempre se renovando para expressar os sentimentos que atravessam os tempos e que são sempre os mesmos. Podem aparecer revestidos de outras necessidades circunstanciais, mas os conflitos e os prazeres do homem – no tempo e pelos tempos – são os mesmos. E a poesia é a prova disso. Basta conferir em Homero, em Shakespeare, em Whitman, em João Cabral. Quanto à forma e ao conteúdo, acredito numa poesia poliédrica, na qual a maneira de abordagem tem vários lados e ângulos, regidos por um ritmo interno – a pulsação do poema – que expressa um assunto, podendo ser qualquer um.

LT - “A infância do Centauro” traz muitos poemas dos seus livros anteriores. Esta me parece uma tendência de vários poetas atuais, reescrever a obra incessantemente, como fizeram Whitman e Baudelaire ainda no século XIX. É esse seu caminho? Qual critério de seleção você adotou para esta antologia?

JIVM – Sinto-me escrevendo sempre o mesmo livro. E continuo nesse ofício movido por uma necessidade. Se pudesse, deixaria de escrever e iria fazer outras coisas, mas é que não tem jeito. A vida só tem sentido, para mim, se for dentro da poesia. Então vou cumprindo minha sina, escrevendo e reescrevendo meus versos. Uma vírgula aqui, um ponto ali, um adjetivo acolá... O critério de seleção é pessoal e nem sempre corresponde com o gosto de outros leitores especializados. Por exemplo, o Marco Lucchesi está organizando uma antologia com 45 poetas do Brasil que começaram a escrever a partir de 2000. Dos quatro poemas meus, do livro “A terceira romaria”, que foram escolhidos por ele, apenas um entrou em “A infância do Centauro”.

LT - Quais são os poetas que você mais admira e o porquê?

JIVM – São tantos. De Homero a Kavafis, de Whitman a Pessoa, de Jorge de Lima a Cecília Meireles, pela imensa contribuição que deram à poesia do ocidente. Mas vou falar apenas daqueles que têm chamado a minha atenção ultimamente. Gerardo Mello Mourão e Francisco Carvalho são dois poetas pelos quais tenho admiração. O primeiro, por ter construído uma poesia plural, livre de amarras, e que por isso se fez planetária; o segundo, pela simplicidade com que vem tecendo a sua poética, onde o místico e o erótico surgem e ressurgem, representados por metáforas que causam em mim grande fascínio. O poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo, pelo rigor de suas retrancas, imbuídas do conflito existencial; o poeta baiano Ruy Espinheira Filho, pelo sinceridade que transborda do seu lirismo. Há um poeta português, Herberto Helder, que causou uma verdadeira revolução na minha maneira de pensar poesia. Ele escreve palavras soltas e vai repetindo-as alternadamente, como se estivesse remoendo-as surrealisticamente. O sumo de tudo isso é uma poesia sofisticada e de alto nível.

LT - Além de atuar como escritor, você desenvolve um significativo trabalho como agitador cultural e editor de revista, tendo ainda organizado uma antologia como novos poetas baianos. Considerando sua experiência, é possível se definir uma tendência literária predominante na poesia contemporânea?

JIVM – Não vejo uma tendência predominante. Poderia dizer, repetindo Stuart Hall, que há uma fragmentação da identidade, e estaria politicamente correto, mas prefiro pensar que nós, contemporâneos, estamos formando uma identidade, cada qual a sua maneira. Quanto à classificação, só com o tempo é que se pode estabelecer, e tem muita coisa pela frente para a minha geração.

LT - Na sua opinião, qual é o status da literatura baiana de hoje nos grandes centros culturais brasileiros?

JIVM – Status de província. Os escritores baianos não são lidos nem na Bahia, quanto mais no resto do país. Existe meia dúzia de escritores baianos que são efetivamente lidos no Brasil. Outros são reconhecidos, mas pouco lidos. Esse processo não é diferente no Ceará nem em Pernambuco. Isso acontece em quase todo o país. Pergunto a você, qual o escritor de Santa Catarina, vivo... sobretudo poeta, que é lido em todo o Brasil? Não existe.

LT - Consideraria o nordeste atrasado em termos de mercado editorial? Qual a razão para os leitores nordestinos comprarem tantos livros de escritores cariocas, paulistas e gaúchos, mas consumirem pouco as pratas da casa?

JIVM – Realmente, o nordeste não tem um mercado editorial, até porque os leitores são poucos. O empresário vive de lucro, então não é maluco de investir em empresas que fazem um produto que não tem saída: o livro. Eu não sabia que os nordestinos liam tanto os escritores de São Paulo e do Rio.

LT - Acredita que o problema passe também pelo campo da política?

JIVM – o maior problema é político. Os caciques do nordeste não querem leitores, querem currais eleitorais. Essa mudança de governo, na Bahia e no Brasil, não mudou em nada a realidade. Aqui na Bahia, parece que só fez piorar.

LT - De que maneira a realidade social interfere no seu trabalho? Ou não interfere?

JIVM – Interfere na medida em que sou um cidadão e que sofro na pele as circunstâncias das decisões dessa gente. Agora, na minha poesia não sinto uma interferência dessa realidade. Como esclarece o Gerardo Mello Mourão, na contracapa de A infância do Centauro, “a vera e mera poesia não se infecciona nem se deprava com teses e causas sociais ou ideológicas, que serão boas ou ruins, mas não são a coisa do poeta e da poesia”. O meu trabalho caminha por essa seara.

LT - Acredita que a literatura tenha o poder de transformar o homem?

JIVM – Eu só considero como literatura textos que sejam capazes de despertar no homem o pensamento e a vontade de buscar novos horizontes. Para mim, enquanto poeta e leitor, a poesia é salvação.


sábado, 10 de maio de 2008

CANTINHO DO CONTO: O CANTO DE ALVORADA

Aleilton Fonseca


O dia já clareava, com os avisos dos pássaros. A hora certa do canto de Alvorada. Era um belo galo, senhor absoluto da primeira hora da manhã. O nome era um batismo de fé num futuro de glórias. Alvorada, desde frangote, já dominava o terreiro: distribuía bicadas nas canelas dos galinhos que ousassem desafiá-lo. Mestre Ambrósio, anos a fio a criar galos de raça, saberia a hora certa de fazê-lo descer à rinha para brigar. Criador experiente, em cada ninhada escolhia o filhote que daria um lutador imbatível durante várias temporadas. Muita fama, algum dinheiro, sensação e certeza de que a rinha continuava firme, apesar da recente proibição. Na cidadezinha, um lugar sem outros atrativos, muitos gostavam das rinhas, nos finais de semana. Era a única diversão de peões, feirantes, pedreiros, vendeiros e até de algumas pessoas influentes, que ajudavam a manter a rinha funcionando.
Mestre Ambrósio confiava no futuro de Alvorada. Aquele galo, sim, o melhor de todos. Ia ser, com certeza. Na hora certa, quando estivesse preparado, com esporões em riste, entraria na arena para estraçalhar. Com apostas de favorito, transformaria em pinto qualquer um dos valentões calejados de pelejas e vitórias. Os freqüentadores da rinha acompanhavam o crescimento do galo, admiravam-se da dedicação do tratador e de sua fé na força do animal. Alvorada já era famoso na praça, antes mesmo de iniciar sua carreira de glórias. Era conhecido dos maiores apostadores, que já viviam na expectativa de assistir a sua grande estréia. Alguns arriscavam uma proposta pelo futuro campeão, ouvindo todos a mesma resposta firme do treinador:
— Este galo eu não vendo por dinheiro nenhum.
O galo já valia uma fortuna. Promessa certa de grande desempenho. Os apostadores queriam vê-lo em ação, mas mestre Ambrósio não tinha um qualquer de pressa. Já adulto, o animal estava forte e arisco, não encontrava páreo nas lutas de treinamento. Do alto de seu canto, agitava as asas com firmeza e harmonia, riscava o chão, marcando seu território, absoluto no terreiro. Galos experientes, com vitórias contadas, apanhavam, baixavam a crista diante das bicadas e dos esporões do futuro campeão. Mestre Ambrósio sorria satisfeito. Tinha certeza, já previa os lances das melhores brigas no meio da rinha. Alvorada faria estrago, invencível anos e anos. Ia ser, mas na hora certa. Por enquanto, esperassem.
Ambrósio sabia: era preciso ter calma e calcular o momento certo da estréia. Uma coisa era o terreiro, calmo e arejado. Outra coisa era a rinha, o círculo apertado, o barulho da platéia, a pressão dos olhares. Alvorada tinha força de brigão, mas ainda não estava pronto: faltava muito pouco.
O criador tinha uma afeição diferente por esta ave. Era o resultado de muitos cruzamentos de galos de raça com as fêmeas mais ariscas. Desde que deitara aqueles ovos de casca áspera, mais dura que o normal, tivera a intuição de que um deles daria um macho dos melhores já produzidos no seu terreiro. Acompanhou o choco passo a passo, cuidou para que a galinha não demorasse de voltar ao ninho, para que os ovos não esfriassem nem gorassem. As semanas se passavam; agia ali a natureza, com seu ciclo perfeito. O futuro galo de briga ia-se gestando.
Quando os ovos começaram a se romper, um deles exigiu bicadas mais fortes do filhote. Ele veio à luz, estreou um pio repetido, forte, meio esganiçado, desde já imponente. Era um bom sinal. Certeza de canto firme e asas poderosas. Por coincidência ou cuidado, Ambrósio estava por perto e ajudou a alargar a saída, afastando as cascas com a unha. Riu satisfeito ao receber a primeira bicada do filhote em seu dedo. Ali estava, talvez, o animal tão esperado.
Mestre Ambrósio tocava há tempos o negócio da criação de aves de raça. Mas o que o empolgava mesmo eram os galos de briga, paixão herdada do velho pai. Nas tardes de sábado, a rinha era como um estádio. Os aficionados chegavam de vários pontos da cidade, com seus animais de estimação super bem-tratados, transportados em tipóias típicas, bordadas por suas mulheres ou encomendadas às costureiras das vizinhanças. Eram interessantes essas peças, com suas abas, com alças semelhantes às de sacolas de tecido, um bojo onde se colocava o corpo do animal e com dois furos paralelos, por onde passavam as pernas que iam pensas, pelas ruas, ou em guidões de bicicletas.
A rinha fazia parte da tradição do lugar, funcionava ali há mais de cinqüenta anos. Um grupo de trabalhadores do interior de Sergipe ali se estabelecera, trazendo a novidade. O finado mestre Jorge, pai de Ambrósio, trouxera da terra natal, junto aos patrícios, os primeiros galos de raça e de briga, com a idéia e o sonho de tocar uma rinha. Começou com a cara e a coragem, devagar, com dedicação e vontade. O negócio foi prosperando aos poucos, com a criação e a venda de aves de raça. Mestre Jorge foi desenvolvendo seu tino de treinador, ganhou a experiência de preparar os frangotes para a luta. Os bichos, uma vez adultos, bem nutridos com milho e ração preparada em casa, tornavam-se pequenos gladiadores de pena.
A rinha era um templo: espaço de consagração e decepção, entre vitórias e derrotas. Ali começava ou acabava a fama de um galo de briga e de seu dono ou tratador. Tal como uma praça de touros, a rinha se desenhava enquanto palco de vida e morte. Os animais se enfrentavam com uma fúria silenciosa, olho no olho, crista a crista, a bicadas e golpes de esporões afiados. O sangue e as penas, num ruflar de asas ariscas, cristas dilaceradas, os pescoços arrepiados. As batalhas levavam horas e se transformavam em tema de discussões, dias e dias. Nas paredes, algumas fotos antigas, outras mais recentes, os assentos de madeira em volta, como uma pequena galeria de circo. Era uma arena trágica para os galos, o deleite dos amantes do estranho esporte.
O galo que perdia o combate cambaleava até cair. Moribundo, ia para os tratos com ervas e ungüentos que pudessem recuperá-lo aos poucos, se agüentasse. Curado, poderia mais tarde retornar à rinha para as grandes revanches. Porém, se morresse em combate, ia direto para a chamada panelada de sábado, degustada pelos participantes do esporte, regada a cerveja. Já os vencedores cresciam no conceito de todos. Seu dono amealhava considerações. As apostas subiam cada vez mais. O animal pegava valor no preço, como subia o valor de um canário que cantasse melhor após a primeira muda de penas.
O tempo glorioso de Mestre Jorge passou. O velho tratador não resistiu à decepção de ver o seu melhor galo, pelo qual chegara a enjeitar uma oferta alta em dinheiro vivo, perder uma luta e morrer na rinha. Trovão caiu feio, sangrado por um franguinho de primeira luta. Um golpe de sorte, um puro acaso. O velho Jorge entendeu o pressentimento que tivera naquele dia. Não tivera tempo de fazer a simpatia especial que dava mais força ao galo. Subestimara o inimigo, e Trovão morreu. O tratador, chateado demais, quebrou as regras: não deixou que levassem Trovão à panelada daquele sábado. Enterrou o galo no terreiro, como um ente querido, ao lado de seu saudoso cachorro perdigueiro. Depois disso, o velho Jorge perdeu a graça, ficou triste e desanimado. Não preparou nenhum outro galo de briga. Morreu com essa tristeza, sem jeito que se desse.
Mestre Ambrósio herdou o lugar do pai. Desde menino já acompanhava o velho, ajudava no trato diário das aves, aprendia a profissão por vivência e entusiasmo. E agora, experiente e afamado, sabia que cada galo tem a hora certa de subir ao ringue, encarar o inimigo de frente, sem cacarejar. Havia lá uns segredos que guardava para si mesmo, algo como uma superstição, que ele empregava. Quando preparava um galo para briga, tratava-o de maneira especial. Deixava-o a sós com as galinhas, dono do terreiro, por três dias. O galo ali se sentia senhor absoluto, sem rival que lhe disputasse as fêmeas. Horas antes da luta, o mestre recolhia a ave, prendia-a num abrigo ali mesmo no terreiro, e soltava outro macho em meio às galinhas. O lutador, privado de seus privilégios, e vendo o rival livre para desfrutar de suas fêmeas, ficava inquieto, riscava o chão com as esporas, cacarejava alto, inconformado. Dali saía para a rinha certamente com muita raiva acumulada. E descontava no adversário, com toda fúria, castigando-o a bicadas certeiras, com esporões vingativos. Depois da luta, o galo treinado por mestre Ambrósio regalava-se de volta ao convívio com suas fêmeas. Esse era o segredo a sete chaves que tornava mestre Ambrósio um treinador respeitado, já que vencer seus galos era um desafio quase impossível. E nisso também se apostava, quando e quem o venceria. A fama corria, vinham tratadores de outras cidades, e mais de longe, adversários cada vez mais qualificados. Galo de Ambrósio era invencível, até que um dia se provasse o contrário.
Muitos queriam ver Alvorada lutar. Alguns para admirar os lances de perícia adquirida nos treinos, outros com sede de ver o tratador derrotado.
— Está com medo de botar o galo na rinha, compadre?
A provocação irritava mestre Ambrósio. Por que tinham tanta vontade de derrotá-lo, se ele preparava galos para todos, se proporcionava espetáculos que valiam pelas apostas e pelas diversões? Ora, talvez por isso mesmo. Tudo fazia parte da mesma festa. A sede de pequenas crueldades permeava aquele esporte esquisito. Uma delas era o gosto de ver o favorito perder a briga, pela emoção da surpresa e do desafio. Degustar a carne de um favorito, inesperadamente derrotado, era talvez mais saboroso. Mestre Ambrósio se preocupava com isso. Mas estava certo de que não iam conseguir derrotá-lo. Alvorada estava pronto para brigar bonito, de igual para igual, com o melhor galo que aparecesse. Com a velha simpatia que pai lhe ensinara deixaria o galo enfezado e feroz, capaz de derrotar o qualquer que o desafiasse. Mas, e se não fosse um dia bom? E se Alvorada perdesse a briga, como acontecera com Trovão há tantos anos? Este era o receio do tratador, pelo amor que sentia pelo galo, um verdadeiro animal de estimação.
— Como é, vai ou não vai botar o galo na rinha? Ou está com medo?
— Vou, claro que vou. Vocês vão ver.
Espalharam o boato de que Alvorada subiria à rinha na próxima jornada de lutas. As apostas foram se multiplicando, nas rodas de conversas, nas praças, nas feiras. Era clima de festa esperada, sem volta. Mestre Ambrósio, de surpreso com a notícia, se viu enredado, que não podia recuar. Mas o treinador se perguntava se o galo estava mesmo pronto. E não havia jeito de adiar a estréia no sábado. As apostas cresciam, a notícia da luta se espalhava entre os interessados, corria até nas cidades vizinhas. Alvorada havia de subir à rinha sem falta, sob pena de provocar pilhérias, descrédito, desmoralização. E isso Ambrósio não podia tolerar. O galo estava bem treinado, forte, em forma. Certamente estava pronto para a briga. Mas isso garantia que iria vencer? No terreiro, o tratador observava a ave, que ciscava despreocupado, soberano. Ora, Alvorada venceria qualquer peleja.
No sábado a rinha estava apinhada, entre conversas e animação, na torcida pelos galos, nas brigas preliminares. Os homens se acomodavam como era possível, na casa lotada, com visitantes de fora, alguns estranhos, com seus galos a tiracolo, gente de outras bandas. Chegava a hora de se definir o adversário de Alvorada, pela escolha da platéia, ou pelo desafio da maior oferta em aposta. O desafiante firmava o valor da aposta que oferecia, como uma espécie de leilão da luta. Entre os desafiantes, dentre os da cidade, apenas dois fizeram um desafio, porém sem convicção de que pudessem vencer. Naquelas circunstâncias, seria honroso desafiar o galo de Mestre Ambrósio, ainda que para dali ver sua própria mascote ir direto para a panelada de sábado.
Na hora de firmar o desafio, surgiu, da última fila, a voz de um visitante. Era um homem moreno, estatura média, cabelos grisalhos e bigode ralo. Nunca fora visto antes por ali. Trazia um galo à mão, numa tipóia bem bordada, o bicho de olhos vivos, piscando sem parar, como se nervoso com o barulho do ambiente, de prontidão para a luta. Com voz pausada, o homem fez, em desafio, uma aposta dez vezes maior que qualquer outra oferta já cantada naquela rinha. E diante dos olhares surpresos e silenciosos dos presentes, o desafiante se apresentou.
— Sou Manuel Ramos, venho de Estância, cidade de seu pai. Sou filho de um velho compadre de Seu Jorge. Eu também trato de galos de briga; aprendi com meu pai . Eu soube de sua fama, resolvi vir para o desafio. Este aqui é o melhor galo que já tive na vida. Venho cuidando para que seja um vencedor. Estréia hoje para valer, igual a seu galo. Vamos ver quem é melhor.
Mestre Ambrósio coçou a nuca, acariciou a crista de Alvorada na tipóia vermelha, com frisos brancos. Pensou um pouco. Não havia mais jeito. O desafio estava posto de forma irrecusável. Era confrontar Alvorada contra o galo do visitante, que aparentava ser um treinador experiente, firme e confiante. Era um lance arriscado, mas não podia recusar.
— Muito prazer, seu Manuel. Aceito a aposta – disse, com certa preocupação, diante do vozerio geral.
Na hora da luta, cada tratador fazia os preparativos finais para o combate. Acertavam os esporões de metal nas patas dos bichos. Massageavam as asas e o pescoço, apertavam o bico abrindo e fechando algumas vezes, faziam gestos de avançar com a mão sobre a ave para apurar os seus reflexos. Diante da expectativa da platéia, inquieta, em conversas e comentários animados, era hora de se iniciar o combate. Como um ritual, os galos eram apresentados à platéia, seguros pelas asas pelos treinadores, em lados contrários da arena de luta. Assim alçados, ao sinal de uma contagem de um até três, soltavam-se as aves na arena mortal.
Os dois galos logo se encararam, arrepiando penas do pescoço e das asas, cabeças em riste, olhos adrenalinos. Reconheciam-se já em disputa pelo mesmo espaço, correram para o centro da rinha, em franco combate. Era a sorte lançada. Um balé de gestos agressivos, numa coreografia de volteios, saltos, golpes, espera, avanços e recuos, diante da gritaria animada dos torcedores em volta. Dois galos bem treinados, uma briga com lances espetaculares, como poucas vistas por ali.
Eu, narrador futuro, me espremia num canto, mais atrás, firme na ponta dos pés para ver os lances da briga. Sorrateiro, bem quieto, com medo de ser posto para fora, pois proibiam meninos naquele lugar. Mas o dia era de total atenção ao centro da rinha, ou, pelo simples, toleravam minha presença discreta. A cada bicada, a cor avermelhando-se nas cristas e pescoços dos galos, isso me deixava preso no misto de angústia, pena, expectativa, sem saber para que ave torcer, com medo de ver uma delas, cada qual tão bonita, cair derrotada na rinha, entregue ao abate, direto para a panela.
Em meio àquela gritaria, as aves guerreavam, em gestos acirrados, mostrando os efeitos de treinamentos requintados. Manuel, nervoso e arisco, gritava para seu galo desafiante: — Vamos, Veloz! – revelando o sugestivo nome do combatente. Mestre Ambrósio permanecia calado, concentrava-se em estudar, nos lances dos animais, qual era a tendência da luta. Embora calado, notava-se uma aflição no seu cenho enrugado. Ele sabia quando uma briga era das mais ferozes, daquelas que deixava um galo morto e outro bastante estragado. E essa era uma briga das mais perigosas. Ele avaliava o esforço das aves, sentia pelos saltos e golpes de Veloz que Manuel era um excelente treinador.
Ia a luta se desenrolando, de parte a parte, os bichos se atacavam, se revezam em golpes mais fortes. Veloz era melhor nos saltos, quando suspendia o esporão de forma perigosa para Alvorada. Ia acertando-o na coxa, sempre arriscando encaixar um golpe certeiro, talvez mortal. Esses golpes repetidos serviam para minar a resistência do inimigo pouco a pouco, deixando-o sem forças para saltar, para avançar. Com tempo, ia se cansando, ferido na base, acabava se entregando aos golpes fatais do adversário. Alvorada era mais forte, atacava com mais consistência e às vezes acuava Veloz num ponto da rinha, de um lado ou do outro. Havia equilíbrio, a luta mostrava-se empatada, sem vantagem clara para uma das aves.
Nas brigas de galo acertava-se, por acordo, um intervalo. Servia para descansar um pouco os lutadores, quando se julgava a luta empatada. O treinador podia ajustar as esporas dos bichos, limpar os pescoços sanguinolentos, massagear o peito, refrescar com um curioso banho. O treinador enchia a boca de água gelada, segurava a ave diante de si, na altura do seu rosto e borrifava, soprando o líquido da boca no corpo da ave, daí massageando o peito e as coxas para aliviar as dores e a tensão. Alguns acariciavam seus galos, até beijando-lhes o pescoço como incentivo à luta. Mas cada treinador só podia pedir um intervalo de cada vez, e se o outro concordasse. Só tinha direito a novo pedido, depois que o adversário usasse o mesmo direito.
A briga empolgava a platéia. Os galos não decepcionavam. Alvorada distribuía toda a sorte de golpes, conforme seus treinos mais requintados. Veloz, no entanto, era um galo surpreendente, forte, bem treinado, ou mesmo o que se diz: — um galo bom de briga! Um páreo duro para mestre Ambrósio. Os bichos seguiam em saltos, bicadas, negaceios de asas, olho no olho, procurando acertar um ao outro com os esporões em riste. Um balé de golpes e saltos, desenhando ziguezagues na arena, uma coreografia que deixava respingos de sangue pelas cabeceiras do ringue, no revestimento de um tecido rústico com enchimento acolchoado. A platéia admirava-se da disposição das aves na briga. Os mais empolgados faziam novas apostas. Alvorada e Veloz recebiam novas cotações. A torcida quase que dividida, uns até apostando num improvável empate, se ambos restassem vivos, mas esgotados, sem forças para lutar. Seria uma pena se um daqueles magníficos galos viesse a morrer, numa carreira de luta tão curta, mal iniciada. Podiam dar espetáculos contra inimigos mais fracos, fazendo o delírio dos torcedores.
Este narrador espichava o pescoço, procurava acompanhar a dança de golpes pelo tablado, prognosticando o fim das duas aves. Parecia-me que ambas estavam prestes a cair mortas, mutuamente vencidas, causando um silêncio de pena. Seria um castigo para todos aqueles homens.
A briga continuava e Veloz agora parecia estar em vantagem, acertando mais bicadas do que levava. Alvorada lutava, mas sempre recuando, com saltos cada vez mais baixos, sem alcançar vantagem contra o inimigo. Manuel, satisfeito com o desempenho de sua mascote, observava de esguelha, verificando o ânimo de mestre Ambrósio, se ele entregava os pontos. Mas a regra era clara, se o tratador entregasse os pontos, o galo perdedor saía desacreditado, jamais voltava a lutar na rinha. E Alvorada não merecia tamanha desonra, já que, em desvantagem, bastante machucado, lutava sem medo contra a fúria de Veloz. Mestre Ambrósio, observador experiente de quantas lutas, sentia que os golpes de seu galo atingiam o inimigo, mas não faziam um bom efeito. E viu que, pela posição que Veloz adotava, os esporões de Alvorada não o alcançavam em cheio. Restavam forças para reagir, mas os golpes não surtiam efeito. Assim, a sua derrota era uma questão de tempo, suas forças iam-se minando, o cansaço ia-lhe abatendo. Só um intervalo poderia reverter a situação, corrigindo-se o ângulo das esporas de metal. Era preciso fazer algo: uma parada, um borrifo de água gelada, uma massagem no peito, algo que salvasse Alvorada da derrota. Mas era nítido que Veloz estava vencendo e Manuel não consentiria em parar a luta. Confiante, enfrentava o olhar nervoso de mestre Ambrósio, diante da gritaria da platéia, que sentia a proximidade de uma definição na luta, uns apreensivos pelos valores apostados, outros comemorando a vitória iminente.
Os gritos se chocavam: Veloz! Veloz! Alvorada! Alvorada! O galo de mestre Ambrósio cambaleou pela primeira vez, junto à borda almofadada da rinha. Mas seguia lutando, aplicando os golpes de esporão, mas sem atingir o alvo em cheio. Nesse momento, o tratador sentiu perto o perigo de perder sua ave predileta. Pensou em fazer algo, pedir uma pausa, sair da luta, salvar Alvorada. Mas não tinha coragem de ceder, pois sentia que o galo queria lutar, espanando as asas, perdendo penas, o sangue escorrendo da crista. Eram lances fortes, bicadas firmes, esporeadas no ar, cortes nas coxas dos gladiadores de penas, ambos sangrando, bicos abertos de cansaço, penas espalhadas pelo chão. A platéia, quase em delírio, seguia gritando a cada lance mais espetacular, aos gritos: “Vai! Aí! Bica! Vai! Sangra! Mata!”. Era a expectativa de um lance fatal. Pelos movimentos da luta, muitos já esperavam ver Alvorada tombar vencido.
O galo de Ambrósio cambaleou mais de uma vez e, diante de uma bicada forte de Veloz, os torcedores já esperavam de pé pela queda fatal. Ali, quase solenemente, fez-se um silêncio longo. Uma espera, uma aflição, um galo bicava, o outro retrocedia, sem ânimo. Então mestre Ambrósio, meio que em desespero, quebrou sua tradição: de calado rompeu a pular e a gritar, com as palavras de incentivo que usava ao treinar o seu galo.
— Eia! Vai! Pega! Reage, Alvora! Enfrenta! Alvora!
Era só sua voz no recinto, nervosa, quase embargada, uma lágrima vinha brotando dos olhos cansados do velho tratador. Foram a voz e os apelos de Ambrósio? O que foi que deu ânimo novo ao galo? O que se sabe é que Alvorada soltou um cacarejo como um gemido de aflição, agitou as asas, riscou o chão e partiu instintivamente para cima do inimigo. Veloz, num lapso de surpresa, abaixou um pouco o corpo, recuando. Alvorada, por estar meio desequilibrado, acertou de lado, com o esporão em cheio no pescoço do inimigo. O golpe prostrou Veloz na rinha e este foi o último gesto de luta de Alvorada, que ambos tombaram lado a lado, com as cristas e os pescoços ensangüentados.
A luta chegava ao final, já se apurava o resultado. Ou se considerava o empate por esgotamento, ou o empate por morte dos dois galos. Já se examinavam as aves, daí logo constatando: Veloz, sem reação, não respirava: estava morto, vencido, nas mãos de seu dono desapontado. Veloz, conforme a praxe, seguia dali para se juntar aos demais perdedores da tarde, como iguaria da panelada. Alvorada, sem reação, ainda respirava: estava vivo, embora extenuado. Já recebia os cuidados nos braços de mestre Ambrósio, agora feliz, aliviado.
Esportivamente, Seu Manuel veio cumprimentar o mestre, e pagar a aposta devida. Prometia voltar para novas jornadas. E assim avaliou:
— Foi uma boa luta, em verdade um empate – disse, traindo no ritmo da fala uma certa tristeza. Dobrou a tipóia de Veloz, tentou enfiar num dos bolsos, mas não conseguiu. Então, olhou-a mais uma vez e atirou num canto, na minha direção. Eu peguei a tipóia do galo vencido, guardei como troféu que até hoje figura em meu velho baú de lembranças.
Seu Manuel se despediu, que já ia pegar a estrada, de volta a sua cidade. Ali, de ouvidos atentos, ouvi as suas observações, que deixaram Ambrósio em silêncio, preocupado.
— É uma pena. Seu galo é muito bom, mas, assim ferido, dessa noite não escapa.
Aquele sábado terminou em festa, com rodadas de cerveja, cantigas ao som de sanfonas e violões. A panelada já ia para o fogo e a expectativa era grande, pois diziam que galo bravo dava mais caldo, tinha mais sabor.
Mestre Ambrósio não ficou para comemorar. Seguiu para casa com o seu campeão na tipóia, muito ferido, num silêncio que só cedia a um ruído de cacarejo impossível, como gemidos de dor. Em casa, Ambrósio preparou beberagens que lhe enfiou bico adentro, passou ungüentos medicinais no corpo do bicho, tratou os ferimentos da crista, fez curativos no pescoço. Agasalhou Alvorada num ninho especial, com serragem e maravalhas finas, num canto bem arejado do terreiro. Ele se sentia culpado pelo sofrimento do animal, e orgulhoso pela vitória contra o pior inimigo que já vira na rinha. Manuel era um treinador dos melhores, com certeza. Ambrósio acariciou seu galo de estimação, abaixou-se e o beijou no bico. E, aproximando-se das aurículas do bicho, disse: “Boa noite, velho!”. Mas logo voltou, para ficar observando-o mais um pouco. “Você vai escapar dessa, velho”, ainda disse. E daí se recolheu, entre enternecido e confiante.
Na cama, sua mulher, Dona Dália, já ressonava, que dormia sempre mais cedo. Ela detestava brigas de galo. Já deitado, mestre Ambrósio sentiu o cansaço do dia, dos anos, da vida. Pela primeira vez sofrera de verdade com uma briga de galo. Sentira um aperto, quase uma dor no peito, com medo de perder. Não pela aposta em si, mas pela vida do galo. Não queria ver o bichinho cair morto diante de todos, virar tira-gosto de sábado, devorado com cerveja. Agora, Ambrósio sentia: Alvorada não era apenas um galo; era seu animal de estimação, mais que um amigo. E se emocionou, lembrando do trato diário com o pinto, o frango, o belo galo. Vinha-lhe a decisão firme. Nunca mais entregaria Alvorada à rinha. Deixaria essa vida de uma vez, como Dália vivia pedindo. Livre, Alvorada viveria solto pelo terreiro, a cobrir as galinhas de raça, como um verdadeiro reprodutor. Era o melhor galo de todos os tempos. Merecia ter uma linhagem, ninhada após ninhada. Os filhotes de Alvorada iriam povoar todos os terreiros, com aquele porte de campeão invencível, com aquele canto que encantava a manhã. Um canto que fazia os pássaros suspenderem a voz para ouvir.
Ambrósio estava sem sono, via a noite se arrastar. Como se sonhasse de olhos abertos, revia os piores lances da luta. Imaginava Alvorada morto, como seria sua enorme tristeza. Mas logo revia as melhores cenas, e o lance final da luta: o galo inimigo tombando, Alvorada reagindo, olhos semi-abertos, ferido mas vivo, vivo como sempre. Alvorada vivo!
A madrugada declinava, começava a clarear, com os avisos dos pássaros. Era a hora certa, como todo dia era, do canto de Alvorada. E, de repente, esquecido das feridas da ave, que também doeram, agudas, dentro dele, Ambrósio apurou bem os ouvidos. E de lá do terreiro, ouviu o canto de Alvorada. Era o belo canto de sempre, absoluto sinal de vida, entre os primeiros raios da manhã. Era um canto nítido, claro, imponente, superior: este canto, este que só mestre Ambrósio ouvia, e de agora para sempre ouviria, todo dia. Porque, nas redondezas, outros cantos longínquos assumiam o vago romper da manhã. No terreiro desolado, era só a alvorada que rompia e se elevava, e era alva como todos os dias. No entanto, estava envolta num silêncio de luto – que só se escutava, ali e além, o canto triste dos passarinhos.


Aleilton Fonseca nasceu em Firmino Alves, BA (1959), viveu em Ilhéus, Vitória da Conquista, João Pessoa, São Paulo, e reside em Salvador. Cursou Letras (UFBA) e fez doutorado na USP. Foi professor na Université d’Artois (França), em 2003; Hoje atua na UEFS-Bahia. Publicou Jaú dos Bois e outros contos (1997), O desterro dos mortos (2001), O canto de Alvorada (2003) e Nhô Guimarães (2006). Co-organizou vários livros. Recebeu, entre outros, o Prêmio Nacional Herberto Sales (ALB-BA, 2001) e o Prêmio Marcos Almir Madeira (UBE-RJ, 2005). É co-editor de Iararana - revista de arte, crítica e literatura, correspondente de Latitudes: “cahiers lusophones” (França), além de membro da Academia de Letras da Bahia.

VERÔNICA DE VATE: ANTONIO NAUD JÚNIOR

ANTONIO NAUD JÚNIOR é escritor e jornalista, nascido no Sul da Bahia, Brasil. Tem oito livros publicados, sendo o primeiro deles “O Aprendiz do Amor” (1993). É um ficcionista intimista e metafísico para quem a literatura é um forma de música da alma e de grandes interrogações existenciais. Na sua obra aparece quase sempre o desejo de construir uma filosofia da humanidade partindo das suas experiências pessoais. A reflexão sobre as contradições do mundo moderno e sobre as suas próprias inquietudes e conflitos interiores são uma constante na sua narrativa.
Como jornalista entrevistou mais de uma centena de celebridades literárias e cinematográficas, entre elas três prêmios Nobel (Camilo José Cela, Gunter Grass e José Saramago) e várias premiadas com o Oscar (Woody Allen, Pedro Almodóvar, Nicole Kidman, Bernardo Bertolucci, etc.). Entrevistas publicadas em jornais e revistas brasileiros e, parte delas, no livro “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo” (2003). Além de entrevistas, tem publicado vários artigos sobre literatura, teatro e cinema, em revistas como Continente Multicultural e Cult, dentre outras.
É autor também de “Retratos em preto & branco – Contos góticos de Madrid” (1996), “Ficar aqui sem ser ouvido por ninguém” (1998), "Se um viajante numa Espanha de Lorca" (2005) e "Suave é o coração enamorado" (2006). Viveu em Espanha, Inglaterra, França, Escócia e Portugal. Atualmente está morando em Itabuna, Bahia.


na véspera da chegada,
é confuso o que sinto.
morre a tarde azul
e não sei se morro
ao recomeçar.
que angústia sentida,
aqui neste trem,
com a possibilidade
de nunca mais voltar.
toda a saudade agora
se amplia e ao crescer
confunde-se e confunde-me
com a inevitável luz da manhã.
embora vá aonde vá
sou esse cigano maduro
não se encontrando em nenhum lugar.
sentir-se jovem não é ser jovem,
é só a ilusão de amanhecer.
e amanheço,
mas ao colocar o pé na estrada,
subitamente,
com que susto vejo a noite sem fim.
por vezes, os meus olhos, cintilantes,
enxergam a flor da juventude.
ah, não me espere, seja quem for,
não sei onde vou
não sei se vou voltar
caminho, sem rumo,
nesta misteriosa estrada,
para dentro de mim.

ANTONIO NAUD JÚNIOR

GRITO BÁRBARO SOBRE OS TELHADOS DO MUNDO

José Inácio Vieira de Melo

Em Suave é o coração enamorado há um poeta andarilho, anunciando o mistério de sua existência e sua perplexidade diante de cada situação que se apresenta em sua caminhada. Seu lar é cada plaga deste planeta, cada cidade por onde tenha passado ou habitado. Assim, Barcelona, Cádiz, Colônia, Edimburgo, Havana, Florença, Ilhéus, Itabuna, Itacaré, Lisboa, Londres, Madri, Mondariz, Paris, Natal, Rio de Janeiro, Salvador, Santa Cruz de Graciosa, São Paulo, Sintra e Tânger são os pontos de partida de cada série de poemas deste livro.

Antonio Naud Júnior é um poeta do mundo, caminheiro dos quatro cantos, navegador dos sete mares. Para ele “nada é mais importante/ do que o caminho a seguir”, e compreende que esta escolha é uma busca solitária que pode conduzir a todas as partes, mas seu objetivo é outro:


ah, não me espere, seja quem for,
não sei onde vou
não sei se vou voltar
caminho, sem rumo,
nesta misteriosa estrada,
para dentro de mim.

Sua poesia não poderia ser de outra maneira, senão a vastidão dos versos livres soltos no mar da página, em busca da praia em que possam se estender. A sua forma – modo de nomear – não busca a contenção, porém dizer o tudo dos caminhos que vão surgindo: “e eu passeio sem destino à cata da divina comédia.”. Uma poesia que flerta com a prosa, que observa com desprendimento a vida que passa, ao mesmo tempo em que descreve objetos, paisagens e ambientes.
Suave é o coração enamorado faz uma viagem dentro da vida do jovem escritor, reunindo poemas produzidos entre 1987 e 2005. Não se trata de um diário qualquer, mas uma espécie de ata de registros onde o autor imprime suas sensações sobre o que o movimenta: seus prazeres, delícias, angústias, viagens. Um caderno de anotações poético-existenciais cuja medida maior é a palavra:

estou ausente
porém no castelo desta ausência
espero o eterno retorno
estou nas palavras
ando sem destino
mensageiro de poética contaminada
de manuscritos perdidos e salmos piedosos

Este poeta de coração enamorado, em um momento está em Madri à procura do amor. E o procura “na queda de são paulo ante a visão de cristo”, mas o amor é “um cântico do rei salomão”; noutro, em Salvador, onde faz uma oração ao seu santo protetor, e cada verso é um degrau para o delírio, cada verso é um mover de montanhas:

foi são jorge que me tocou. (...)
sinto-me jasmim
perfumando a escuridão. (...)
sou um poeta errante tocado pela luz de são jorge.
o guerreiro de capadócia, que venceu um grande dragão,
é relâmpago no infinito.

O coração enamorado, que se apresenta suave, é, também, selvagem, como fica evidenciado em um dos mais belos poemas do livro, onde o autor homenageia suas referências e dá mostras de onde o seu lirismo pode alcançar:

meu coração é selvagem
do meu chão brotam lírios
minha boca plumagem de colibris

minha pele animal felino
meu sangue árabe
minha poesia arrebatada

ave, gullar! ave, wally!

coleciono juventudes desperdiçadas
cacos de sensações

troco desânimo pulsando em vida
por força visionária para continuar
e continuar cícero
e continuar cecim
e continuar hilst

troco amor por amor
com quem ajuda-me a semear jasmins
joão cabral e sabiás

troco o impulso de me jogar pela janela
por versos de leminski com vistas para o mar

Às vezes, seus versos passam por um processo de fragmentação e, quase sempre, se expandem para o universo da prosa – tênue seara. Mas diferentemente de estar em cima do muro – sem se decidir entre a prosa e a poesia –, Naud se equilibra na palavra que melhor expressa o seu lirismo e dá o passo sem perder o tom: “vou para dentro, para dentro do enigma. (...) / porque nele reside o êxtase”.
Walt Whitman, bardo cósmico de Folhas de Relva, no prefácio da primeira edição de sua obra essencial, afirma que “o jovem que arriscou sua vida tranquilamente e a perdeu fez um extremo bem para si mesmo, enquanto que o homem que não arriscou sua vida e a retém até a velhice na riqueza e no conforto provavelmente não conquistou nada para si que valha a pena mencionar”. Como o jovem de Whitman e ainda como Aquiles, na Ilíada, que escolheu a glória em detrimento de uma vida longa, cheia de filhos e regalos, Naud prefere correr todos os riscos, mas só percorre os caminhos do coração enamorado. E essa é a sua tônica. É aí que reside todo o seu encanto, todo o seu espanto.
Cabe ao leitor atento seguir o fio de Ariadne que conduz ao cerne da poética de Antonio Naud Júnior – Apolo Grapiúna antenado ao legado do Walt Whitman, que em “Canção de mim mesmo”, do já citado Folhas de Relva, predizia o brado desse Suave é o coração enamorado: “solto meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo”.


Prefácio do livro de poemas Suave é o coração enamorado (Via Litterarum, 2006).

PELOS CAMINHOS DA ESPANHA DE ANTONIO NAUD JÚNIOR

José Inácio Vieira de Melo

Quando terminei a leitura das crônicas de Se um viajante numa Espanha de Lorca, de Antonio Naud Júnior, além de ter satisfação por ler textos bem escritos, despojados, sem serem pretensiosos, senti uma vontade danada de viver, de apenas viver. Textos como “Que alegria de viver!” despertam para a vida. O jovem poeta é um desses andarilhos que, embora não esqueça das suas origens, não se condiciona às geografias e bota o pé na estrada pela necessidade de andar e descobrir coisas, enquanto vai se revelando para o leitor e para si próprio.
Consciente da individualidade do ser, Naud Júnior, em um dos primeiras crônicas do livro, lembra que “A aventura começa dentro de nós”. E em Tarifa, Andaluzia, rememora quando, desconhecido de todos, transitava pelas ruas de Marrocos a se indagar sobre as várias faces do seu eu: “Qual o meu nome? Sou tantos.” É inevitável não lembrar do célebre romance de Gerardo Mello Mourão, O Valete de Espadas, no qual um viajante, Gonçalo Falcão de Val-de-Cães, passa de um lugar para outro sem perceber: amanhece em um hotel que não conhece, perambula pelas ruas da cidade, também sua desconhecida e, ao dormir novamente, acorda em um navio, do qual não sabe nome nem destino. É assim o Naud Júnior em suas crônicas, o homem no mundo perplexo com tudo que o cerca, o sujeito que está sempre aberto para o desconhecido, em busca de.
Paradoxal, o nosso viajante afirma no título da crônica: “Eu só conheço esse caminho do Paraíso”, para em seguida informar que “Não conheço ninguém, ninguém me conhece. Como não conheço ninguém e ninguém me conhece, é quase como não existir”. O não existir para certas esferas, parece condição para uma ligação com o Paraíso, para trilhar pelos caminhos do Coração, assim como queria el brujo Dom Juan, em A erva do diabo, de Carlos Castaneda: “Para mim só existe percorrer os caminhos que tenham coração, qualquer caminho que tenha coração. Ali viajo, e o único desafio que vale é atravessá-lo em toda a sua extensão. E por ali viajo olhando, olhando, arquejante.”
Ainda em O Valete de Espadas, num diálogo, há uma definição que se aproxima da expressão do autor de Se um viajante numa Espanha de Lorca: “– Quem é este rapaz? – É um peregrino. Peregrino das próprias entranhas.” Antonio Naud Júnior é um peregrino dos mistérios do eu. Seus sentimentos, suas dores, suas alegrias – a parte as suas peculiaridades – são as de todas as pessoas, pois somos massa do mesmo barro; o mesmo sopro lírico que energiza o poeta, movimenta a humanidade – e esse é o motivo da identificação imediata do leitor com o cronista.
Diante da unidade do conjunto de crônicas de Se uma viajante numa Espanha de Lorca, as seções subseqüentes “Dois personagens” e “Um relato”, que apresentam, respectivamente, dois estudos e um conto, ficam fora do clima das narrativas. A impressão que deixa é de que deveriam ter aguardado um momento mais propício para publicação, ao lado de outros trabalhos do autor, de gêneros correspondentes. Por outro lado, a inclusão desses textos dá uma mostra da diversidade criativa de Antonio, escritor profícuo que transita com desenvoltura pelos mais diversos gêneros.
Percorrer os caminhos da Espanha de Antonio Naud Júnior é percorrer as searas do coração, e todos os seus textos abrem portas para o livre estradar. A Espanha de Antonio não é territorial, é dentro do Antonio, é dentro de mim, e dentro de você, meu caro leitor. Assim, invoco todos os santos poetas e todos os poetas malditos para celebrar este acontecimento literário, e convoco todos os peregrinos da vida para trilhar por essas veredas. “E res mès / E nada mais”.


Resenha publicada no jornal literário ABXZ n°7, na cidade de Itabuna, Bahia, em março de 2006.

JIVM - EXERCÍCIOS CRÍSTICOS

Ilustração: Simon de Cyrene


EXERCÍCIOS CRÍSTICOS


Eu sempre tive o desejo incontinenti de salvar o mundo,
sempre escolhi por companhia os que não medem o tempo
e andam para cima e para baixo a praticar cigarras,
os que têm por fortuna o dia todo – todos os dias.

Sempre cri ser o redentor de toda miséria humana,
então resolvi me coroar de espinhos
e por trono escolhi o cravejar da cruz,
tenho esse sorriso triste, essa lágrima de sangue.

Eu só acredito nas coisas que não vejo
e sinto em cada estrela uma Madalena a luzir,
e mesmo sabendo que Deus não existe
em cada criança percebo a Sua Face esplendorosa.

Trago comigo todos os pecados do mundo
e sou o cordeiro imolado que alimenta o delírio,
por isso a glória e a humilhação do vinho:
não é nada fácil ser juiz da própria loucura.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

sábado, 3 de maio de 2008

VERÔNICA DE VATE: LITA PASSOS

LITA PASSOS é natural de Cruz das Almas – BA, poeta, atriz e administradora. Livros publicados: Mão Cheia (poesias e contos (2005) Capa Chico Liberato, prefácio de Ligia Telles, incentivo FazCultura, juntamente com as escritoras Dalila Machado, Simone Guerreiro, Rita Santana e Alba Liberato. Flores de Fogo (Poesias) 1994, Editora Nova Primavera, Prefácio de Gil Francisco e Capa e ilustrações de Ailton Lima. Coletânea Mapa das Ilusões com o livro Conteúdo Suspeito (Editora Nova Primavera) 1992, Nosotros - Antologia Poética Brasil/Espanha (Editora Pórtico)1996. Publica poemas desde 1990 em jornais e revistas literárias, entre eles, EXÚ (Bahia), Cepa (Bahia), REFLEXUS DE UNIVERSOS (Bahia), A TARDE CULTURAL (Bahia) TRIBUNA CULTURAL DE FEIRA (Bahia), JORNAL CORREIO DA BAHIA (Bahia) TRIBUNA DA BAHIA ( Bahia), Jornal Sopa poesia (Bahia). Participou dos Projetos Porto da Poesia – Coordenação Revista Iararana - Bienal do Livro 2005, POESIA NA BOCA DA NOITE – coordenação José Inácio Vieira de Melo, Recital poético na Palestra Vida e Obra de Jacinta Passos – por Janaína Amado - coordenação Fundação Pedro Calmon – 2005, recitais poéticos e peças teatrais no estado. Dirigiu a Fundação Cultural Galeno D`Avelírio e a Diretoria Cultural da AABB em Cruz das Almas. Participou em 25.01.06 do Projeto Imagem do Verso – e 12.04.06 do projeto SOLTANDO O VERBO em Salvador-Ba. VERSO EM CÂMARA - Espaço cultural da Câmara de Vereadores de Salvador-Ba, Recital Cecília Meireles e Jacinta Passos no CRA-SEMAR/BA – ao lado de: Lucas e Pedro Robatto, João Liberato e João Raoni. Recital Flor Bela Espanca – Biblioteca Betty Coelho e Recital Gregório de Matos. Participação no Projeto Caruru dos Sete Poetas – Cachoeira-Ba, Recital no Teatro Gregório de Matos, Projeto Mesa Redonda no Instituto de Letras da UFBA – A poética de Lita Passos. Recentemente atuou na peça teatral ACORDA, AMOR! – Direção Andréa Elia. Posse como membro da Academia de Letras do Recôncavo da Bahia para ocupar a cadeira JACINTA PASSOS, em maio 2007. No prelo, o livro de poesias ROSÁRIO DE LEMBRANÇAS, com capa e ilustrações do artista plástico Álvaro Machado, e prefácio da escritora Gláucia Lemos, aprovado em outubro/06 pelo Fazcultura. Lita Passos vai se apresentar no projeto Uma Prosa Sobre Versos, na próxima sexta-feira, dia 9 de maio de 2008, na cidade de Maracás, na Bahia. (Fotografia da poeta: Ricardo Prado).


CENTAURO DAS ÁGUAS

Eu mulher de olhar orquestral
Trago ancas de éguas valentes
Meu ventre nutre estranhos cavalos
Presos no meu cordão umbilical
Nas minhas ferraduras de cristal
Não cabem meus passos de distâncias
Meus cabelos têm o brilho
Da claridade da luz de Lilith
Trago sorrisos flutuantes
Nas marés cheias do imprevisível
Eu mulher de olhar de fogo
Trago na língua incenso e lâmina
Cavalgo campina de vidro
Cavalgo sangue em campina
Eu mulher centauro das águas
Amamento noite alimento dia
Com o colostro de espinho
Que escorre da rosa do meu peito.

LITA PASSOS

OS ABISMOS VARRIDOS PELO VENTO NORDESTE

Maria da Conceição Paranhos


Decifração de abismos revela-se um título de rara adequação para o novo livro de José Inácio Vieira de Melo, pois este é um poeta de face ansiosamente debruçada sobre os assuntos humanos, seja no domínio dos sentidos, seja nos territórios do espírito.
O filósofo tentaria descobrir o nexo das coisas humanas a partir de uma lógica causal, ou descrevê-las de modo fragmentário, como fazem alguns pensadores, a exemplo de Friedrich Nietzsche. O poeta, o poema como modelo do pensamento fragmentário, chega a uma visão daquilo que o Romantismo alemão de 1789 chamaria de progressive Universalpoesie. A definição de literatura feita por F. Schlegel, no seu celebrado fragmento 116 (Athenäum Fragment, 1789) vê a poesia como um processo inclusivo, o qual “ewig nur werden, nie vollendet sein kann” (só pode ser [um perpétuo] tornar-se, nunca completado à perfeição), pois sua demanda é de uma idéia que permita seu acontecer.
Esse jovem poeta dá sua contribuição a esse processar-se da poesia como um todo. Em seu livro, a experiência do abismo, conforme sua natureza intrínseca, corresponde à experiência do eu poético em proveito de dar forma aos conteúdos, mobilizando o leitor em favor de uma reconfiguração imaginária e simbólica do mundo. O questionamento dos dilemas humanos, em Decifração de abismos como em outros poetas dessa vertente, permite ao olhar do sujeito da experiência / ao poeta emergir para a periferia da leitura – na medida em que o leitor se percebe exercendo sua própria experiência de abismo. Então, este irá não só revivenciar essa experiência, mas ver, inclusive, aquilo que escapa à consciência do eu poético, do momento em que o corpo verbal passa a ocupar o lugar do objeto de desejo do outro, leitor. Assim, no desenrolar-se da leitura, a experiência do abismo é, simultaneamente, revivenciada, percebida e acrescida de dados do universo vivencial do próprio leitor que busca as significações contidas naquele corpo desejante, o texto poético.
A convivência com o amor, a morte, a solidão, a busca da própria identidade – temas universais da poesia – é invadida, na poesia desse poeta alagoano, pela “cor local” , como a viu a historiografia crítica da literatura brasileira, referindo-se à incorporação de elementos da paisagem nativa às formas – inclusive as formas poéticas – herdadas da tradição ocidental.
No caso da poesia de José Inácio serão os elementos e motivos do nordeste brasileiro, mais especificamente os de sua terra natal que se farão presentes, em especial aqueles desenterrados do tesouro da infância pela rememoração. Uma bela realização dessa tendência é o poema “Jardim das algarobeiras” (p. 44), que se situa na terceira parte do livro e a nomeia. Leiamos um pouco:

[...]
os pássaros cantam, e o seu vôo é mais que o canto;
a vaca muge, o cavalo relincha, a rã coaxa,
a cartilha estava certa; a cartilha só não
ensinou que o galo inaugura o dia,
e que as árvores (aqui, as algarobeiras,
mais que quaisquer outras – a não ser
aquele solitário pau-ferro) dançam,
dançam envolvidas por um louco dançarino.

[...]

Mas além disso há algo mais forte:
os caminhos... O vento é andarilho errante
que se apaixona pela flor de agora
e daqui a pouco pela flor seguinte
e a outra e a outra e,
é aquele capaz de uma noite de volúpia
com quem lhe abrir o coração,
porém seu coração jamais pertencerá a alguém
porque já nasceu possuído pela estrada.


Num modo descritivo, esse poema não se rende a uma primeira leitura. Aparentemente, vai destacando elementos da natureza circundante, enfatizando a presença da algarobeira naquela ambiência, e, gradativamente, chegaremos a perceber que a referência, na verdade, aponta para o próprio agir poético metaforizado na figura do vento. É ele, o poeta, o ser viajante, inquieto, “possuído pela estrada”, cujo coração pertence à vida ela mesma, e o modo como a vivencia é pela experiência da poesia. Outro traço digno de destaque aqui, pois comparece em várias das composições de José Inácio, é a enumeração assindética, como se lê no segundo verso do trecho citado. Esse traço, marca de seu estilo, irá ser usado em benefício da sua poemática. Veja-se, por exemplo, “A sagração do pecado” (p. 63) e “Anunciação” (p. 59) – este, um dos poemas mais bem realizados do livro como um todo. Nesse poema, o motivo da reminiscência da infância invade o tecido poético.
Aqui, e no livro como um todo, a infância se mostra com o mágico poder de alimentar o homem adulto, revelando o eu poético carregado de uma energia que se deixa ver, inclusive, na escolha de verbos de ação, aliados a complementos e adjuntos de uma área semântica com a mesma base comum – o movimento – cujo resultado se reverte em favor da visão do poeta como um ser capaz de mudar a face das coisas em sua “lerdice postedênica” como expressou um imenso poeta conterrâneo de José Inácio, Jorge Mateus de Lima (1893-1953), nascido em União dos Palmares, Alagoas.
Observe-se que, a despeito da evidente influência da escola poética que se deixa ver em João Cabral de Melo Neto, José Inácio vulnerabiliza-se à poderosa articulação verbal do autor de Invenção de Orfeu (1952). Não havia como ser diferente, fosse mesmo para negar, já que essa é a tradição de onde provém. No poema antes comentado, para citar apenas este, “Jardim das algarobeiras”, é a face submersa de Orfeu, do “Orfeu virgíneo” de Jorge de Lima, quem dita os versos.
Claro está que quando se fala de influência, em termos de Literatura Comparada, o que se faz é apontar as “famílias” ou “linhagens” eleitas pelo poeta no seu percurso criador. Observe-se que, como o próprio Jorge de Lima, José Inácio enfrenta corajosamente os desafios da tradição retórica (signo que nos marcou, poetas brasileiros, desde o berço), o que resulta em ineludíveis marcas neobarrocas em seu texto, mérito antes que demérito, segundo uma certa visão de fórmulas poéticas quereria.
Ao se apontar essas características como constantes em José Inácio, pretende-se mostrar algumas, dentre várias outras, que comparecem em sua ars poetica. Esse é um poeta de leitura extensa e continuada, percebe-se. É que ele busca formas e fôrmas diversas, numa abertura a várias espécies e modalidades, traço marcante em sua poesia desde Códigos do silêncio (2000) – seu primeiro livro publicado – quer nos poemas curtos, nos poemas longos quer nos poemas de forma fixa, como o soneto – o qual exercita com afinco, com ótimos resultados, como se lê em “Ave” (p. 70) e “Ladainha corporal” (p. 69), entre outras realizações.

Um corpo exangue prostrado ao sol,
o estômago esparramado no chão
tal qual bofes de cordeiro imolado
– e o lobo lambe os beiços.

O sangue jorra incessante a clamar justiça,
e o céu azul, tão-somente azul
sob os olhos do mês de setembro
– e o lobo lambe os beiços.

O que pode um corpo tombado
no desembesto de um dia qualquer?
O que pode essa forma inerte?

O que podem as goelas do lobo?
O que pode um lombo pisado?
Uma ferida aberta, o que pode?
(“Ladainha corporal”, p. 69).
Verifique-se a tendência à hipérbole, ao nível lexical, na escolha de vocábulos com o traço de animalidade; as perguntas retóricas; a mística barroca do sangue, meio a outras características desse tipo de estilo.
O comentário e a crítica da poesia não se fazem de generalizações apressadas, sabemos. A poesia ela mesma, em seu movimento erótico (Eros é o deus mais presente na poesia), se constrói com o detalhe, o particular, o contingente, ao modo próprio de cada poeta.
Os traços acima indicados caracterizam o verdadeiro poeta, distante em tudo do arranjador de palavras, ou metros e rimas se os houver, buscando construções de efeito. Diga-se de passagem: poetas (?) assim não sobrevivem à sua morte. Mesmo porque, quando não mais estiverem presentes, para articularem contatos no mundo da literatura, suas produções serão esquecidas. O trabalho do escritor não deixa espaço para encontros e tráficos de influências. A chamada “vida literária”, a qual se pode freqüentar quando o labor permite, com moderação e lucidez, é inimiga do poeta quando se torna uma preocupação constante em sua vida.
Após essa breve digressão, regressemos a José Inácio, poeta que se volta para a poesia com determinação e a trabalha incessantemente, querendo-se herdeiro de uma tradição a qual visita e investiga. Todavia, a marca de uma personalidade poética já emerge de seu texto, a despeito de sua juventude cronológica.
Buscar e buscar, eis aí José Inácio, o poeta, no gesto reiterado de reter o agora, o momento que passa – traço próprio à poesia lírica – captado também por meio do debruçamento no sonho.

Sonhei um poema feito de pedras,
pedras fluindo, fosse rio sereno,
de todos os tamanhos e matizes,
e eram duma beleza precisa:
roupa e linguagem de pedras.

Imerso no poema-pedra-rio,
o poeta – a pedra – a lapidar.
O que se via não era a pedra,
mas a poesia por dentro, além.
(“Canto de pedra”, p. 23).

José Inácio percebe muito bem que a linguagem – e dentro desta, sua língua natal – é um sintoma de fenômeno que a transcende: a atividade poética como um todo, incluído, naturalmente, o estágio pré-lingüístico. Por outro lado, é esse sintoma a marca diferencial, a prova-dos-nove do poeta, na medida em que mais adestra sua perícia de exprimir a vida com palavras, no mundo inelutavelmente histórico, feito de uma multidão de vozes e experiências, as quais capta e materializa com sua língua nativa. Observe-se que a intimidade do poeta com sua língua de berço torna-se a mais estreita possível, cada vez mais profunda à proporção que exerce sua função, escrevendo.
Nas cinco partes em que Decifração de abismos se divide, a preocupação dominante, por conseqüência, é a de auscultar a vida em sua força atordoante e situá-la no leito do poema. Aquela força, por vezes, fulmina o poeta e o lança num transe místico face à realidade experienciada.

[...]
tudo é o mesmo:
a esmo, o imenso ermo,

além da fúria de viver,
o meu peito palpita desesperado,
e a angústia não me deixa ver mais nada
– é o único e sempre acorde:
a dor que não se mede.
(“Assombro”, p. 71).

Aliada a essa vivenciação mística da realidade, surge como sombra pertinaz, no livro, o fantasma do destino, numa premonição agônica do futuro, como o poema-título encarna de modo extremado (“Decifração de abismos”, p. 67).
A par disso, percorre o texto a energia que rege uma orquestração de várias vozes, muita vez enraizada na experiência da terra natal. Se o leitor meditar sobre o poema “Ave”, um soneto, como antes indicado, perceberá uma poderosa atmosfera de religiosidade, numa cena da Sexta-Feira da Paixão, matizada ao estilo particular de José Inácio, que inova o tratamento do tema desenvolvido nos catorze versos. Esse poema ressoa, todo ele, em vozes e sons e em ruídos. Veja-se o 1° terceto:

O chocalho dos deuses anuncia ave:
hora das trancas, bulício de chaves,
e o menino deseja o leite santo.
(“Ave”, p. 70).

A musicalidade dos versos de José Inácio atravessa sua poemática como marca diferencial de estilo, aliás, como se lê no já referido poema “Anunciação”, ao lado de outros de valor semelhante, como “Invocação” (p. 57) e deste de agora, “Epitáfio para Guinevere”:

Meus cavalos choram por ti, égua de olhos azuis.
Não mais invadirei o vento montado no teu galope.

Que fique inscrito na tua lápide
o verso de lágrimas dos meus cavalos.

Para tu, que trazias os céus dentro dos olhos,
o relinchar da paixão pagã
dos cavalos que trago dentro de mim.
(p. 62).

Como não trazer à mente alguns dos poemas de Jorge de Lima – seja do Livro de sonetos, seja da Invenção, em que as figuras da égua e da vaca, relacionadas ao eterno feminino, comparecem para nos emocionar e encher nosso espírito de beleza?

Na atmosfera modal de Decifração de abismos como um todo, há uma tendência aspectual para o Subjuntivo ou para outros tempos “desejantes”, como o Futuro do Pretérito, mesmo quando apresentado por outros tempos do modo Indicativo. Em “A sagração do pecado” (p. 63), pode-se observar esse traço. O sintagma “eu quero”, reiterativo, comparece em cinco das seis estrofes do poema, cada vez para exprimir um desejo não cumprido no tempo e que chega ao final como doloroso apelo. Outro exemplo será o poema “Sentido” (p. 68), no qual a construção se inicia com uma modalidade aparentemente descritiva, enquanto subjazem à estrutura de superfície as impossibilidades.

Os homens vinham e havia um caminho.
Continuavam, e o prumo os esperava,
e eles seguiam acreditando nisso:
sempre rumar – sempre sempre sempre.

Os homens nunca chegavam a algum lugar,
mas iam eternamente em busca de,
pois não queriam nem suportariam
entender a verdade do lugar nenhum.

É também de desejo, expressado por meio da repetição, que se faz o poema “Ladainha corporal” (p. 69), em que as seqüências interrogativas, repetidas, deixam o sentido suspenso pelo recurso da pergunta. Pode-se afirmar que a pergunta retórica, como traço estilístico, é forte indício do movimento desejante do poeta. O mais das vezes o desejo é o de conferir sentido às palavras correntes na linguagem da sociedade de uso em que temos o infortúnio de sobreviver.
Mas o poeta quer viver, com sua ação renovadora. Em José Inácio, uma aragem fresca percorre o livro – mais que brisa, vento e Vento Nordeste, a varrer o pó da linguagem tributária.


Ilustrações: Ramiro Bernabó

Maria da Conceição Paranhos é poeta, contista e ensaísta. Mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal da Bahia. Ph.D. pela Universidade da Califórnia, Berkeley.

Ensaio publicado no jornal A Tarde Cultural, em Salvador - BA, em 21 de setembro de 2002.

VERÔNICA DE VATE: ASTRID CABRAL

ASTRID CABRAL (Astrid Cabral Félix de Sousa) nasceu a 25/09/36 em Manaus, AM, onde fez os primeiros estudos e integrou o movimento renovador Clube da Madrugada. Adolescente ainda transferiu-se para o Rio de Janeiro, diplomando-se em Letras Neolatinas na atual UFRJ, e mais tarde como professora de inglês pelo IBEU. Lecionou língua e literatura no ensino médio e na Universidade de Brasília, onde integrou a primeira turma de docentes saindo em 1965 em conseqüência do golpe militar. Em 1968 ingressou por concurso no Itamaraty, tendo servido como Oficial de Chancelaria em Brasília, Beirute, Rio e Chicago. Com a anistia, em 1988 foi reintegrada à UnB. Ao longo de sua vida profissional desempenhou os mais variados trabalhos, fora e dentro da área cultural. Detentora de importantes prêmios, participa de numerosas antologias no Brasil e no exterior. Colabora com assiduidade em jornais e revistas especializadas. Viúva do poeta Afonso Félix de Sousa, é mãe de cinco filhos. Obra poética: Alameda (1963), Ponto de cruz (1979), Torna-viagem (1981), Lição de Alice (1986), Visgo da terra (1986), Rês desgarrada (1994), De déu em deu (1998), Intramuros (1998), Rasos d’água (2003), Jaula (2006), Ante-sala (2007) e Antologia pessoal (2008).


NO COLO DO ANJO


Empoleirado
na torre do meu sonho
um anjo resplandece.

Cílios cintilantes
estrelas nos olhos
ele me acena com plumas
e me abraça com asas.

Juntos vagamos
entre rastros de astros
a cavalgar nuvens
por planícies etéreas
até que me sinto serena.

É como se mudo dissera
não temas véus ou névoas
qualquer neblina passa.
Mas eis que então fala:

Não sejas cega, menina.
O olhar de Deus tudo abarca.
Só os homens têm pálpebras.


ASTRID CABRAL